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OS MAIAS
Ea de Queirs
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OS MAIAS
Livro Primeiro
I
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
conhecida na vizinhana da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro
das Janelas Verdes, pela casa do Ramalhete ou simplesmente o Ramalhete.
Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio
casaro de paredes severas, com um renque de estreitas varandas de ferro no
primeiro andar, e por cima uma tmida fila de janelinhas abrigadas  beira do
telhado, tinha o aspecto tristonho de Residncia Eclesistica que competia a
uma edificao do reinado de D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no
topo assimilhar-se-ia a um Colgio de Jesutas. O nome de Ramalhete
provinha de certo de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no
lugar herldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser colocado, e
representando um grande ramo de girassis atado por uma fita onde se
distinguiam letras e nmeros duma data.
Longos anos o Ramalhete permanecera desabitado, com teias de aranha pelas
grades dos postigos trreos, e cobrindo-se de tons de runa. Em 1858
Monsenhor Buccarini, Nncio de S. Santidade, visitara-o com idia de instalar
l a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do edifcio e pela paz
dormente do bairro: e o interior do casaro agradara-lhe tambm, com a sua
disposio apalaada, os tectos apainelados, as paredes cobertas de frescos
onde j desmaiavam as rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas
Monsenhor, com os seus hbitos de rico prelado romano, necessitava na sua
vivenda os arvoredos e as guas de um jardim de luxo: e o Ramalhete possua
apenas, ao fundo dum terrao de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado
s ervas bravas, com um cipreste, um cedro, uma cascatasinha seca, um
tanque entulhado, e uma estatua de mrmore (onde Monsenhor reconheceu
logo Vnus Cithera) enegrecendo a um canto na lenta umidade das ramagens
silvestres. Alm disso, a renda que pediu o velho Vilaa, procurador dos Maias,
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pareceu to exagerada a Monsenhor, que lhe perguntou sorrindo se ainda
julgava a Igreja nos tempos de Leo X. Vilaa respondeu - que tambm a
nobreza no estava nos tempos do senhor D. Joo V. E o Ramalhete,
continuou desabitado.
Este intil pardieiro (como lhe chamava Vilaa Jnior, agora por morte de seu
pai administrador dos Maias) s veio a servir, nos fins de 1870, para l se
arrecadarem as moblias e as louas provenientes do palacete de famlia em
Bemfica, morada quase histrica, que, depois de andar anos em praa, fora
ento comprada por um comendador brasileiro. Nessa ocasio vendera-se
outra propriedade dos Maias, a Tojeira; e algumas raras pessoas que em
Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e sabiam que desde a Regenerao eles
viviam retirados na sua quinta de Santa Olavia, nas margens do Douro,
tinham perguntado a Vilaa se essa gente estava atrapalhada.
- Ainda tem um pedao de po, disse Vilaa sorrindo, e a manteiga para lhe
barrar por cima.
Os Maias eram uma antiga famlia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
linhas colaterais, sem parentelas - e agora reduzida a dois vares, o senhor da
casa, Afonso da Maia, um velho j, quase um antepassado, mais idoso que o
sculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. Quando Afonso
se retirara definitivamente para Santa Olavia, o rendimento da casa excedia j
cinqenta mil cruzados: mas desde ento tinham-se acumulado as economias
de vinte anos de alde; viera tambm a herana de um ltimo parente,
Sebastio da Maia, que desde 1830 vivia em Npoles, s, ocupando-se de
numismtica; - e o procurador podia certamente sorrir com segurana quando
falava dos Maias e da sua fatia de po.
A venda da Tojeira fora realmente aconselhada por Vilaa: mas nunca ele
aprovara que Afonso se desfizesse de Bemfica - s pela razo daqueles muros
terem visto tantos desgostos domsticos. Isso, como dizia Vilaa, acontecia a
todos os muros. O resultado era que os Maias, com o Ramalhete inabitvel,
no possuam agora uma casa em Lisboa; e se Afonso naquela idade amava o
sossego de Santa Olavia, seu neto, rapaz de gosto e de luxo que passava as
ferias em Paris e Londres, no quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos
penhascos do Douro. E com efeito, meses antes de ele deixar Coimbra, Afonso
assombrou Vilaa anunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O
procurador comps logo um relatrio a enumerar os inconvenientes do
casaro: o maior era necessitar tantas obras e tantas despesas; depois, a falta
de um jardim devia ser muito sensvel a quem saia dos arvoredos de Santa
Olavia; e por fim aludia mesmo a uma lenda, segundo a qual eram sempre
fatais aos Maias as paredes do Ramalhete, ainda que (acrescentava ele numa
frase meditada) at me envergonho de mencionar tais frioleiras neste sculo
de Voltaire, Guisot e outros filsofos liberais ... 
Afonso riu muito da frase, e respondeu que aquelas razes eram excelentes -
mas ele desejava habitar sob tectos tradicionalmente seus; se eram
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necessrias obras, que se fizessem e largamente; e enquanto a lendas e
agoiros, bastaria abrir de par em par as janelas e deixar entrar o sol.
S. ex. mandava: - e, como esse inverno ia seco, as obras comearam logo,
sob a direo de um Estevas, arquiteto, poltico, e compadre de Vilaa. Este
artista entusiasmara o procurador com um projeto de escada aparatosa,
flanqueada por duas figuras simbolizando as conquistas da Guin e da ndia. E
estava ideando tambm uma cascata de loua na sala de jantar - quando,
inesperadamente, Carlos apareceu em Lisboa com um arquiteto decorador de
Londres, e, depois de estudar com ele  pressa algumas ornamentaes e
alguns tons de estofos, entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para
ele ali criar, exercendo o seu gosto, um interior confortvel, de luxo inteligente
e sbrio.
Vilaa ressentiu amargamente esta desconsiderao pelo artista nacional;
Esteves foi berrar ao seu Centro poltico que isto era um pas perdido. E
Afonso lamentou tambm que se tivesse despedido o Esteves, exigiu mesmo
que o encarregassem da construo das cocheiras. O artista ia aceitar -
quando foi nomeado governador civil.
Ao fim de um ano, durante o qual Carlos viera freqentemente a Lisboa
colaborar nos trabalhos, dar os seus retoques estticos - do antigo
Ramalhete s restava a fachada tristonha, que Afonso no quisera alterada por
constituir a fisionomia da casa. E Vilaa no duvidou declarar que Jones Bule
(como ele chamava ao ingls) sem despender despropositadamente,
aproveitando at as antigualhas de Bemfica, fizera do Ramalhete um
museu.O que surpreendia logo era o ptio, outrora to lbrego, nu, lajeado
de pedregulho - agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
mrmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vasos de Quimper, e dois
longos bancos feudais que Carlos trouxera de Espanha, trabalhados em talha,
solenes como coros de catedral. Em cima, na antecmara, revestida como
uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos morria: e ornavam
cobertos de tapetes persas, largos pratos mouriscos com reflexos metlicos de
cobre, uma harmonia de tons severos, onde destacava, na brancura imaculada
do mrmore, uma figura de rapariga friorenta, arrepiando-se, rindo, ao meter
o pesinho na gua. Da partia um amplo corredor, ornado com as peas ricas
de Bemfica, arcas gticas, jarres da ndia, e antigos quadros devotos. As
melhores salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salo nobre,
raramente usado, todo em brocados de veludo cor de musgo de outono, havia
uma bela tela de Constable, o retrato da sogra de Afonso, a condessa de
Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caadora inglesa, sobre um
fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, onde se fazia
musica, tinha um ar de sculo XVIII com seus moveis enramalhetados de
ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas tapearias de Gobelins,
desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as paredes de pastores e de
arvoredos.
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Defronte era o bilhar, forrado de um couro moderno trazido por Jones Bule,
onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaavam
cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o fumoir, a sala mais cmoda do
Ramalhete: as otomanas tinham a fofa vastido de leitos; e o conchego
quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era alegrado
pelas cores cantantes de velhas faianas holandesas.
Ao fundo do corredor ficava o escritrio de Afonso, revestido de damascos
vermelhos como uma velha cmara de prelado. A macia mesa de pau preto,
as estantes baixas de carvalho lavrado, o solene luxo das encadernaes, tudo
tinha ali uma feio austera de paz estudiosa - realada ainda por um quadro
atribudo a Rubens, antiga relquia da casa, um Cristo na Cruz, destacando a
sua nudez de atleta sobre um cu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogo
Carlos arranjara um canto para o av com um biombo japons bordado a
ouro, uma pele de urso branco, e uma venervel cadeira de braos, cuja
tapearia mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de seda.
No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de famlia, estavam
os quartos de Afonso. Carlos dispusera os seus, num angulo da casa, com uma
entrada particular, e janelas sobre o jardim: eram trs gabinetes a seguir, sem
portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos acolchoados, a seda que
forrava as paredes, faziam dizer ao Vilaa que aquilo no eram aposentos de
medico - mas de danarina!
A casa, depois de arranjada, ficou vazia enquanto Carlos, j formado, fazia
uma longa viagem pela Europa; - e foi s nas vsperas da sua chegada, nesse
lindo outono de 1875, que Afonso se resolveu enfim a deixar Santa Olavia e
vir instalar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco anos que ele no via Lisboa;
e, ao fim de alguns curtos dias, confessou ao Vilaa que estava suspirando
outra vez pelas suas sombras de Santa Olavia. Mas, que remdio! No queria
viver muito separado do neto; e Carlos agora, com idias srias de carreira
ativa, devia necessariamente habitar Lisboa... De resto, no desgostava do
Ramalhete, apesar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter
prodigalizado de mais as tapearias, os pesados reposteiros, e os veludos.
Agradava-lhe tambm muito a vizinhana, aquela doce quietao de subrbio
adormecido ao sol. E gostava at do seu quintalejo. No era de certo o jardim
de Santa Olavia: mas tinha o ar simptico, com os seus girassis perfilados ao
p dos degraus do terrao, o cipreste e o cedro envelhecendo juntos como
dois amigos tristes, e a Vnus Cithera parecendo agora, no seu tom claro de
estatua de parque, ter chegado de Versalhes, do fundo do grande sculo... E
desde que a gua abundava, a cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de
conchas, com os seus trs pedregulhos arranjados em despenhadeiro buclico,
melancolisando aquele fundo de quintal soalheiro com um pranto de nadais
domestica, esfiado gota a gota na bacia de mrmore.
O que desconsolara Afonso, ao principio, fora a vista do terrao - donde
outrora, de certo, se abrangia at ao mar. Mas as casas edificadas em redor,
nos ltimos anos, tinham tapado esse horizonte esplndido. Agora, uma
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estreita tira de gua e monte que se avistava entre dois prdios de cinco
andares, separados por um corte de rua, formava toda a paisagem defronte do
Ramalhete. E, todavia, Afonso terminou por lhe descobrir um encanto intimo.
Era como uma tela marinha, encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do
cu azul em face do terrao, mostrando, nas variedades infinitas de cor e luz,
os episdios fugitivos de uma pacata vida de rio: s vezes uma vela de barco
da Trafaria fugindo airosamente  bolina; outras vezes uma galera toda em
pano, entrando num favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou
ento a melancolia de um grande paquete, descendo, fechado e preparado
para a vaga, entrevisto um momento, desaparecendo logo, como j devorado
pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no p de ouro das sestas silenciosas,
o vulto negro de um couraado ingls... E sempre ao fundo o pedao de monte
verde-negro, com um moinho parado no alto, e duas casas brancas ao rez
d'gua, cheias de expresso - ora faiscantes e despedindo raios das vidraas
acesas em brasa; ora tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas
dos rosados tenros de poente, quase semelhantes a um rubor humano; e de
uma tristeza arrepiada nos dias de chuva, to ss, to brancas, como nuas,
sob o tempo agreste.
O terrao comunicava por trs portas envidraadas com o escritrio - e foi
nessa bela cmara de prelado que Afonso se acostumou logo a passar os seus
dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara ternamente, ao lado
do fogo. A sua longa residncia em Inglaterra dera-lhe o amor dos suaves
vagares junto do lume. Em Santa Olavia as chamins ficavam acesas at Abril;
depois ornavam-se de braadas de flores, como um altar domestico; e era
ainda a, nesse aroma e nessa frescura, que ele gozava melhor o seu
cachimbo, o seu Tacito, ou o seu querido Rabelais.
Todavia, Afonso ainda ia longe, como ele dizia, de ser um velho borralheiro.
Naquela idade, de vero ou de inverno, ao romper do sol, estava a p, saindo
logo para a quinta, depois da sua boa orao da manh que era um grande
mergulho na gua fria. Sempre tivera o amor supersticioso da gua; e
costumava dizer que nada havia melhor para o homem - que sabor d'gua,
som d'gua, e vista d'gua. O que o prendera mais a Santa Olavia fora a sua
grande riqueza de guas vivas, nascentes, repuxos, tranqilo espelhar de
guas paradas, fresco murmrio de guas regantes... E a esta viva tonificao
da gua atribua ele o ter vindo assim, desde o comeo do sculo, sem uma
dor e sem uma doena, mantendo a rica tradio de sade da sua famlia,
duro, resistente aos desgostos e anos - que passavam por ele, to em vo,
como passavam em vo, pelos seus robles de Santa Olavia, anos e vendavais.
Afonso era um pouco baixo, macio, de ombros quadrados e fortes: e com a
sua face larga de nariz aquilino, a pele corada, quase vermelha, o cabelo
branco todo cortado  escovinha, e a barba de neve aguda e longa - lembrava,
como dizia Carlos, um varo esforado das idades hericas, um D. Duarte de
Menezes ou um Afonso d'Albuquerque. E isto fazia sorrir o velho, recordar ao
neto, gracejando, quanto as aparncias iludem!
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No, no era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado
bonacheiro que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu
whist ao canto do fogo. Ele mesmo costumava dizer, que era simplesmente
um egosta: - mas nunca, como agora na velhice, as generosidade do seu
corao tinham sido to profundas e largas. Parte do seu rendimento ia-se-lhe
por entre os dedos, esparsamente, numa caridade enternecida. Cada vez
amava mais o que  pobre e o que  fraco. Em Santa Olavia, as crianas
corriam para ele, dos portais, sentindo-o acariciador e paciente. Tudo o que
vive lhe merecia amor: - e era dos que no pisam um formigueiro, e se
compadece da sede de uma planta.
Vilaa costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
patriarcas, quando o vinha encontrar ao canto da chamin, na sua coada
quinzena de veludilho, sereno, risonho, com um livro na mo, o seu velho gato
aos ps. Este pesado e enorme angor, branco com malhas louras, era agora
(desde a morte de Tobias, o soberbo co de S. Bernardo) o fiel companheiro
de Afonso. Tinha nascido em Santa Olavia, e recebera ento o nome de
Bonifcio: depois, ao chegar  idade do amor e da caa fora-lhe dado o apelido
mais cavalheiresco de D. Bonifcio de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso,
entrara definitivamente no remanso das dignidades eclesisticas, e era o
Reverendo Bonifcio...
Esta existncia nem sempre assim correra com a tranqilidade larga e clara de
um belo rio de vero. O antepassado, cujos olhos se enciam agora de uma luz
de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume relia com gosto o
seu Guisot, fora, na opinio de seu pai, algum tempo, o mais feroz Jacobino de
Portugal! E todavia, o furor revolucionrio do pobre moo consistira em ler
Rousseau, Volnei, Helvetius, e a Enciclopdia; em atirar foguetes de lgrimas
 Constituio; e ir, de chapu  liberal e alta gravata azul, recitando pelas
lojas manicas Odes abominveis ao Supremo Arquiteto do Universo. Isto,
porm, bastara para indignar o pai. Caetano da Maia era um portugus antigo
e fiel que se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apatia de fidalgo
beato e doente, tinha s um sentimento vivo - o horror, o dio ao Jacobino,
aqum atribua todos os males, os da ptria e os seus, desde a perda das
colnias at s crises da sua gota. Para extirpar da nao o Jacobino, dera ele
o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e Restaurador
providencial... E ter justamente por filho um Jacobino, parecia-lhe uma
provao comparvel s s de Job!
Ao principio, na esperana que o menino se emendasse, contentou-se em lhe
mostrar um caro severo e chamar-lhe com sarcasmo - cidado! Mas quando
soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara  turba que, numa noite de
festa cvica e de luminrias, tinha apedrejado as vidraas apagadas do sr.
Legado d'ustria, enviado da Santa Aliana - considerou o rapaz um Marat e
toda a sua clera rompeu. A gota cruel, cravando-o na poltrona, no lhe
deixou espancar o mao, com a sua bengala da ndia,  lei de bom pai
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portugus: mas decidiu expuls-lo de sua casa, sem mesada e sem beno,
renegado como um bastardo! Que aquele pedreiro livre no podia ser do seu
sangue!
As lgrimas da mam amoleceram-no; sobretudo as razes de uma cunhada
de sua mulher, que vivia com eles em Bemfica, senhora irlandesa de alta
instruo, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara ingls ao menino e o
adorava como um beb. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho para a
quinta de Santa Olavia; mas no cessou de chorar no seio dos padres, que
vinham a Bemfica, a desgraa da sua casa. E esses santos l o consolavam,
afirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, no permitiria jamais que
um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revoluo! E,  falta de Deus Padre,
l estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira da casa e madrinha do
menino, para fazer o bom milagre.
E o milagre fez-se. Meses depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa Olavia
um pouco contricto, enfastiado sobretudo daquela solido, onde os chs do
brigadeiro Sena eram ainda mais tristes que o tero das primas Cunhas. Vinha
pedir ao pai a beno, e alguns mil cruzados, para ir a Inglaterra, esse pas de
vivos prados e de cabelos de ouro de que lhe falara tanto a tia Fani. O pai
beijou-o, todo em lgrimas, acedeu a tudo fervorosamente, vendo ali a
evidente, a gloriosa intercesso de Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo
Frei Jeronimo da Conceio seu confessor, declarou este milagre - no inferior
ao de Carnaxide.
Afonso partiu. Era na primavera - e a Inglaterra toda verde, os seus parques
de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus nobres
costumes, aquela raa to sria e to forte - encantaram-no. Bem depressa
esqueceu o seu dio aos sorumbticos padres da Congregao, as horas
ardentes passadas no caf dos Romulares a recitar Mirabeau, e a Republica
que quisera fundar, clssica e voltariana, com um triunvirato de Scipies e
festas ao Ente Supremo. Durante os dias da Abrilada estava ele nas corridas
d'Epsom, no alto de uma sege de posta, com um grande nariz postio, dando
hurras medonhos - bem indiferente aos seus irmos de Maonaria, que a essas
horas o sr. infante espicaava a chuo, pelas vielas do Bairro Alto, no seu rijo
cavalo d'Alter.
Seu pai morreu de sbito, ele teve de regressar a Lisboa. Foi ento que
conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda morena,
mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ela. Teve um filho,
desejou outros; e comeou logo, com belas idias de patriarca moo, a fazer
obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor arvoredos, preparando
tectos e sombras  descendncia amada que lhe encantaria a velhice.
Mas no esquecia a Inglaterra: - e tornava-lha mais apetecida essa Lisboa
miguelista que ele via, desordenada como uma Tunis barbaresca; essa rude
conjurao apostlica de frades e bolieiros, atroando tavernas e capelas; essa
plebe beata, suja e feroz, rolando do lausperene para o curro, e ansiando
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tumultuosamente pelo prncipe que lhe encarnava to bem os vcios e as
paixes...
Este espetculo indignava Afonso da Maia; e muitas vezes, na paz do sero,
entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignao da sua alma
honesta. J no exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de Cates e de
Mucios-Scevolas. J admitia mesmo o esforo de uma nobreza para manter o
seu privilegio histrico; mas ento queria uma nobreza inteligente e digna,
como a Aristocracia tori (que o seu amor pela Inglaterra lhe fazia idealizar),
dando em tudo a direo moral, formando os costumes e inspirando a
literatura, vivendo com fausto e falando com gosto, exemplo de idias altas e
espelho de maneiras patrcias... O que no tolerava era o mundo de Queluz,
bestial e srdido.
Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
cortes gerais, a policia invadiu Bemfica, a procurar papeis e almas
escondidas.
Afonso da Maia, com o seu filho nos braos e a mulher tremendo ao lado - viu,
impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas arrombadas pela
coronha das escopetas, as mos sujas do malsim rebuscando os colches do
seu leito. O sr. juiz de fora no descobriu nada: aceitou mesmo na copa um
clice de vinho, e confessou ao mordomo que os tempos iam bem duros...
Desde essa manh as janelas do palacete conservaram-se cerradas; no se
abriu mais o porto nobre para sair o coche da senhora; e da a semanas, com
a mulher e com o filho, Afonso da Maia partia para Inglaterra e para o exlio.
Ali instalou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de Londres,
junto a Richmond, ao fundo de um parque, entre as suaves e calmas
paisagens de Surrei.
Os seus bens, graas ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
Carlota Joaquina, hoje conselheiro rspido do sr. D. Miguel, no tinham sido
confiscados; e Afonso da Maia podia viver largamente.
Ao principio os emigrados liberais, Palmela e a gente do Belfast, ainda o
vieram desassossegar e consumir. A sua alma recta no tardou a protestar
vendo a separao de castas, de gerarchias, mantidas ali na terra estranha
entre os vencidos da mesma idia - os fidalgos e os desembargadores vivendo
no luxo de Londres  forra, e a plebe, o exercito, depois dos padecimentos da
Galiza, sucumbindo agora  fome,  vermina,  febre nos barraces de
Plimout. Teve logo conflictos com os chefes liberais; foi acusado de vintista e
demagogo; descreu por fim do liberalismo. Isolou-se ento - sem fechar
todavia a sua bolsa, donde saam s cinqenta, s cem moedas... Mas quando
a primeira expedio partiu, e pouco a pouco se foram vazando os depsitos
de emigrados, respirou enfim - e, como ele disse, pela primeira vez lhe soube
bem o ar d'Inglaterra!
Meses depois sua me, que ficara em Bemfica, morria de uma apoplexia: e a
tia Fani veio para Richmond completar a felicidade d'Afonso, com o seu claro
juzo, os seus caracis brancos, os seus modos de discreta Minerva. Ali estava
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ele pois no seu sonho, numa digna residncia inglesa, entre arvores seculares,
vendo em redor nas vastas relvas dormirem ou pastarem os gados de luxo, e
sentindo em torno de si tudo so, forte, livre e solido, - como o amava o seu
corao.
Teve relaes; estudou a nobre e rica literatura inglesa; interessou-se, como
convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, pela cria dos cavalos, pela
pratica da caridade; - e pensava com prazer em ficar ali para sempre naquela
paz e naquela ordem.
Somente Afonso sentia que sua mulher no era feliz. Pensativa e triste, tossia
sempre pelas salas.  noite sentava-se ao fogo, suspirava e ficava calada...
Pobre senhora! a nostalgia do pas, da parentela, das igrejas, ia-a minando.
Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e sorrindo
palidamente, tinha vivido desde que chegara num dio surdo quela terra de
hereges e ao seu idioma brbaro: sempre arrepiada, abafada em peles,
olhando com pavor os cus fuscos ou a neve nas arvores, o seu corao no
estivera nunca ali, mas longe, em Lisboa, nos adros, nos bairros batidos do
sol. A sua devoo (a devoo dos Runas!) sempre grande, exaltara-se,
exacerbara-se quela hostilidade ambiente que ela sentia em redor contra os
papistas. E s se satisfazia  noite, indo refugiar-se no sto com as criadas
portuguesas, para rezar o tero agachada numa esteira - gozando ali, nesse
murmrio d'ave-marias em pas protestante, o encanto de uma conjurao
catlica!
Odiando tudo o que era ingls, no consentira que seu filho, o Pedrinho, fosse
estudar ao colgio de Richmond. Debalde Afonso lhe provou que era um
colgio catlico! No queria: aquele catolicismo sem romarias, sem fogueiras
pelo S. Joo, sem imagens do Senhor dos Passos, sem frades nas ruas - no
lhe parecia a religio. A alma do seu Pedrinho no abandonaria ela  heresia; -
e para o educar mandou vir de Lisboa o padre Vasques, capelo do Conde de
Runa.
O Vasques ensinava-lhe as declinaes latinas, sobretudo a cartilha: e a face
d'Afonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma caada ou
das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida livre - ouvia no quarto dos
estudos a voz dormente do reverendo, perguntando como do fundo de uma
treva:
- Quantos so os inimigos da alma?
E o pequeno, mais dormente, l ia murmurando:
- Trs. Mundo, Diabo e Carne...
Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma s havia ali o reverendo Vasques, obeso
e srdido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o leno do rap sobre o
joelho...
s vezes Afonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, agarrava
a mo do Pedrinho - para o levar, correr com ele sob as arvores do Tamisa,
dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da cartilha. Mas a mam
acudia de dentro, em terror, a abaf-lo numa grande manta: depois l fora o
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menino, acostumado ao colo das criadas e aos recantos estofados, tinha medo
do vento e das arvores: e pouco a pouco, num passo desconsolado, os dois
iam pisando em silncio as folhas secas - o filho todo acobardado das sombras
do bosque vivo, o pai vergando os ombros pensativo, triste daquela fraqueza
do filho...
Mas o menor esforo dele para arrancar o rapaz aqueles braos de me que o
amoleciam, aquela cartilha mortal do padre Vasques - trazia logo  delicada
senhora acessos de febre. E Afonso no se atrevia j a contrariar a pobre
doente, to virtuosa, e que o amava tanto! Ia ento lamentar-se para o p da
tia Fani: a sabia irlandesa metia os culos entre as folhas do seu livro, tratado
d'Addisson ou poema de Pope, e encolhia melancolicamente os ombros. Que
podia ela fazer!...
Por fim a tosse de Maria Eduarda foi argumentando - como a tristeza das suas
palavras. J falava da sua ambio derradeira, que era ver o sol uma vez
mais! Por que no voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o sr. Infante
estava tambm desterrado e que havia uma grande paz? Mas a isso Afonso
no cedeu: no queria ver outra vez as suas gavetas arrombadas a
coronhadas - e os soldados do sr. D. Pedro no lhe davam mais garantias que
os malsins do sr. D. Miguel.
Por esse tempo veio um grave desgosto  casa: a tia Fani morreu, de uma
pneumonia, nos frios de maro; e isto enegreceu mais a melancolia de Maria
Eduarda, que a amava muito tambm - por ser irlandesa e catlica.
Para a distrair, Afonso levou-a para a Itlia, para uma deliciosa vila ao p de
Roma. Ali no lhe faltava o sol: tinha-o pontual e generoso todas as manhs,
banhando largamente os terraos, dourando loureirais e mirtos. E depois, l
em baixo, entre mrmores, estava a coisa preciosa e santa, o Papa!
Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente apetecia era
Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as procisses
passando num rumor de pachorrenta penitencia por tardes de sol e de
poeira...
Foi necessrio calm-la, voltar a Bemfica.
Ali comeou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,
todos os dias mais plida, levando semanas imvel sobre um canap, com as
mos transparentes cruzadas sobre as suas grossas peles d'lnglaterra. O padre
Vasques, apoderando-se daquela alma aterrada para quem Deus era um amo
feroz, tornara-se o grande homem da casa. De resto Afonso encontrava a cada
momento pelos corredores outras figuras cannicas, de capote e solideo, em
que reconhecia antigos franciscanos, ou algum magro capuchinho parasitando
no bairro; a casa tinha um bafio de sacristia; e dos quartos da senhora vinha
constantemente, dolente e vago, um rumor de ladainha.
Todos aqueles santos vares comiam, bebiam o seu vinho do Porto na copa.
As contas do administrador apareciam sobrecarregadas com as mesadas
piedosas que dava a senhora: um Frei Patrcio surripiara-lhe duzentas missas
de cruzado por alma do Sr. D. Jos I...
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Esta carolice que o cercava ia lanando Afonso num atesmo rancoroso:
quereria as igrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
machado, uma matana de reverendos... Quando sentia na casa a voz de
rezas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, ler o
seu Voltaire: ou ento partia a desabafar com o seu velho amigo, o coronel
Sequeira, que vivia numa quinta a Queluz.
O Pedrinho no entanto estava quase um homem. Ficara pequenino e nervoso
como Maria Eduarda, tendo pouco da raa, da fora dos Maias; a sua linda
face oval de um trigueiro clido, dois olhos maravilhosos e irresistveis,
prontos sempre a umedecer-se, faziam-no assemelhar a um belo rabe.
Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, indiferente a brinquedos, a
animais, a flores, a livros. Nenhum desejo forte parecera jamais vibrar naquela
alma meia adormecida e passiva: s s vezes dizia que gostaria muito de
voltar para a Itlia. Tomara birra ao Padre Vasques, mas no ousava
desobedecer-lhe. Era em tudo um fraco; e esse abatimento continuo de todo o
seu ser resolvia-se a espaos em crises de melancolia negra, que o traziam
dias e dias mudo, murcho, amarelo, com as olheiras fundas e j velho. O seu
nico sentimento vivo, intenso, at a, fora a paixo pela me.
Afonso quisera-o mandar para Coimbra. Mas,  idia de se separar do seu
Pedro, a pobre senhora cara de joelhos diante d'Afonso, balbuciando e
tremendo: e ele, naturalmente, l cedeu perante essas mos suplicantes,
essas lgrimas que caam quatro a quatro pela pobre face de cera. O menino
continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a cavalo, de criado de
farda atras, comeando j a ir beber a sua genebra aos botequins de Lisboa...
Depois foi despontando naquela organizao uma grande tendncia amorosa:
aos dezenove anos teve o seu bastardosinho.
Afonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de to desgraados
mimos, no faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, so, e, como
todos os Maias, valente: no havia muito que ele s, com um chicote,
dispersara na estrada trs saloios de varapau que lhe tinham chamado
palmito.
Quando a me morreu, numa agonia terrvel de devota, debatendo-se dias nos
pavores do inferno, Pedro teve na sua dor os arrebatamentos de uma loucura.
Fizera a promessa histrica, se ela escapasse, de dormir durante um ano
sobre as lageas do ptio: e levado o caixo, sados os padres, caio numa
angustia soturna, obtusa, sem lgrimas, de que no queria emergir, estirado
de bruos sobre a cama numa obstinao de penitente. Muitos meses ainda
no o deixou uma tristeza vaga: e Afonso da Maia j se desesperava de ver
aquele rapaz, seu filho e seu herdeiro, sair todos os dias a passos de monge,
lgubre no seu luto pesado, para ir visitar a sepultura da mam...
Esta dor exagerada e mrbida cessou por fim; e sucedeu-lhe, quase sem
transio, um perodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, em que
Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava afogar em lupanares e
botequins as saudades da mam. Mas essa exuberncia ansiosa que se
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desencadeara to subitamente, to tumultuosamente, na sua natureza
desequilibrada, gastou-se depressa tambm.
Ao fim de um ano de distrbios no Marrare, de faanhas nas esperas de toiros,
de cavalos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, comearam a reaparecer as
antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias taciturnos, longos
como desertos, passados em casa a bocejar pelas salas, ou sob alguma arvore
da quinta todo estirado de bruos, como despenhado num fundo de amargura.
Nesses perodos tornava-se tambm devoto: lia Vidas de Santos, visitava o
Lausperene: eram desses bruscos abatimentos d'alma que outrora levavam os
fracos aos mosteiros.
Isto penalizava Afonso da Maia: preferia saber que ele recolhera de Lisboa, de
madrugada, exausto e bbedo, - do que v-lo, de ripano debaixo do brao,
com um ar velho, marchando para a Igreja de Bemfica.
E havia agora uma idia que, a seu pesar, s vezes o torturava: descobrira a
grande parecena de Pedro com um av de sua mulher, um Runa, de quem
existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinrio, com que na casa
se metia medo s crianas, enlouquecera - e julgando-se Judas enforcara-se
numa figueira...
Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor 
Romeu, vindo de repente numa troca de olhares fatal e deslumbradora, uma
dessas paixes que assaltam uma existncia, a assolam como um furaco,
arrancando a vontade, a razo, os respeitos humanos e empurrando-os de
roldo aos abismos.
Numa tarde, estando no Marrare, vira parar defronte,  porta de Mme.
Levailant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapu branco, e uma
senhora loira, embrulhada num chale de Cashmira.
O velho, baixote e reforado, de barba muito grisalha talhada por baixo do
queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadio e o ar gche, desceu todo
encostado ao trintanrio como se um reumatismo o tolhesse, entrou
arrastando a perna o portal da modista; e ela voltando de vagar a cabea
olhou um momento o Marrare.
Sob as rosinhas que ornavam o seu chapu preto os cabelos loiros, de um oiro
fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e clssica: os olhos maravilhosos
iluminavam-na toda; a friagem fazia-lhe mais plida a carnao de mrmore:
e com o seu perfil grave de estatua, o modelado nobre dos ombros e dos
braos que o chale cingia - pareceu a Pedro nesses instantes alguma coisa
d'imortal e superior  terra.
No a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido de
negro, que fumava encostado  outra ombreira, numa pose de tdio - vendo o
violento interesse de Pedro, o olhar aceso e perturbado com que seguia a
caleche trotando Chiado acima, veio tomar-lhe o brao, murmurou-lhe junto 
face, na sua voz grossa e lenta:
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- Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e os
feitos principais? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso Alencar, uma
garrafa de Champagne?
Veio o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos anis
da cabeleira e pelas pontas do bigode, comeou, todo recostado e dando um
puxo aos punhos:
- Por uma dourada tarde d'outono...
- Andr, gritou Pedro ao criado, martelando o mrmore da mesa, retira o
Champagne!
O Alencar bradou, imitando o actor Epifnio:
- O qu! Sem saciar a avidez de meu lbio?...
Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o
poeta das Vozes d'Aurora, explicaria aquela gente da caleche azul numa
linguagem crist e pratica!...
- Ali vai, meu Pedro, a vai!
Havia dois anos, justamente quando Pedro perdera a mam, aquele velho, o
pap Monforte, uma manh rompera subitamente pelas ruas e pela sociedade
de Lisboa naquela mesma caleche com essa bela filha ao seu lado. Ningum os
conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no palacete dos
Vargas; e a rapariga principiou a aparecer em S. Carlos, fazendo uma
impresso - uma impresso de causar aneurismas, dizia o Alencar! Quando ela
atravessava o salo os ombros vergavam-se no deslumbramento de aurola
que vinha daquela magnifica criatura, arrastando com um passo de Deusa a
sua cauda de corte, sempre decotada como em noites de gala, e apesar de
solteira resplandecente de jias. O pap nunca lhe dava o brao: seguia atrs,
entalado numa grande gravata branca de mordomo, parecendo mais tisnado e
mais embarcadio na claridade loira que saa da filha, encolhido e quase
apavorado, trazendo nas mos o culo, o libreto, um saco de bombons, o
leque e o seu prprio guarda chuva. Mas era no camarote, quando a luz caa
sobre o seu colo ebrneo e as suas tranas de oiro, que ela oferecia
verdadeiramente a encarnao de um ideal da Renascena, um modelo de
Ticiano... Ele, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,
mostrando-a a ela e s outras, s trigueirotas da assinatura:
- Rapazes!  como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo do
Sr. D. Joo VI!
O Magalhes, esse torpe pirata, pusera o dito num folhetim do Portugus. Mas
o dito era dele, Alencar!
Os rapazes, naturalmente, comearam logo a rondar o palacete de Arroios.
Mas nunca naquela casa se abria uma janela. Os criados interrogados
disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
Manoel. Enfim uma criada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
era taciturno, tremia diante da filha, e dormia numa rede; a senhora, essa,
vivia num ninho de sedas todo azul-ferrte, e passava o seu dia a ler novelas.
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Isto no podia satisfazer a sofreguido de Lisboa. Fez-se uma devassa
metdica, hbil, paciente... Ele, Alencar, pertencera  devassa.
E souberam-se horrores. O pap Monforte era dos Aores: muito moo, uma
facada numa rixa, um cadver a uma esquina tinham-no forado a fugir a
bordo de um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
casa de Taveira, que o conhecera nos Aores, estando na Havana a estudar a
cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas encontrara l o
Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando pelo ces, de
chinelas de esparto,  procura de embarque para a Nova-Orleans. Aqui havia
uma treva na historia do Monforte. Parece que servira algum tempo de feitor
numa plantao da Virgnia... Enfim, quando reapareceu  face dos cus
comandava o brigue Nova Linda, e levava cargas de pretos para o Brasil, para
a Havana e para a Nova Orleans.
Escapara aos cruzeiros ingleses, arrancara uma fortuna da pele do africano, e
agora rico, homem de bem, proprietrio, ia ouvir a Coreli a S. Carlos. Todavia
esta terrvel crnica, como dizia o Alencar, obscura e mal provada, claudicava
aqui e alm...
- E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, srio e plido.
Mas isso no o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim to loira e bela?
Quem fora a mam? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
aquele gesto real no seu chale de Cashmira?...
- Isso, meu Pedro, so mistrios que jamais pude Lisboa astuta devassar e s
Deus sabe!
Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquela legenda de sangue e negros,
o entusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue de
assassino, a belta do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, deliciando-se
em vilipendiar uma mulher to loira, to linda e com tantas jias, chamaramlhe
logo a negreira! Quando ela aparecia agora no teatro, D. Maria da Gama
afetava esconder a face detrs do leque, porque lhe parecia ver na rapariga
(sobretudo quando ela usava os seus belos rubis) o sangue das facadas que
dera o papzinho! E tinham-na caluniado abominavelmente. Assim, depois de
passarem em Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois dissese
logo, com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho,
mil perversidade... O excelente Monforte, que sofre de reumatismos
articulares, achava-se tranqilamente, ricamente, tomando as guas dos
Pirineus... Fora l que o Melo os conhecera...
- Ah! o Melo conhece-os? exclamou Pedro.
- Sim, meu Pedro, o Melo os conhece.
Pedro da a um momento deixou o Marrare; e nessa noite, antes de recolher,
apesar da chuva fria e mida, andou rondando uma hora, com a imaginao
toda acesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, da a duas
semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro ato do Barbeiro,
ficou assombrado ao ver Pedro da Maia instalado na frisa da Monforte, 
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frente, ao lado de Maria, com uma camlia escarlate na casaca - igual s de
um ramo pousado no rebordo de veludo.
Nunca Maria Monforte aparecera mais bela: tinha uma dessas toiletes
excessivas e teatrais que ofendiam Lisboa, e faziam dizer s senhoras que ela
se vestia como uma cmica. Estava de seda cor de trigo, com duas rosas
amarelas e uma espiga nas tranas, opalas sobre o colo e nos braos; e estes
tons de ceara madura batida do sol, fundindo-se com o ouro dos cabelos,
iluminando-lhe a carnao ebrnea, banhando as suas formas de estatua,
davam-lhe o esplendor de uma Ceres. Ao fundo entreviam-se os grandes
bigodes loiros do Melo, que conversava de p com o pap Monforte -
escondido como sempre no canto negro da frisa.
O Alencar foi observar o caso do camarote dos Gamas. Pedro voltara  sua
cadeira, e de braos cruzados contemplava Maria. Ela conservou algum tempo
a sua atitude de Deusa insensvel; mas, depois, no dueto de Rosina e Lindor,
duas vezes os seus olhos azuis e profundos se fixaram nele, gravemente e
muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare, de braos ao ar, a berrar a
novidade.
No tardou de resto a falar-se em toda a Lisboa da paixo de Pedro da Maia
pela negreira. Ele tambm namorou-a publicamente,  antiga, plantado a uma
esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos cravados na janela
dela, imvel e plido de xtase.
Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel - poemas
desordenados que ia compor para o Marrare: e ningum l ignorava o destino
daquelas paginas de linhas encruzadas que se acumulavam diante dele sobre o
taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha  porta do caf perguntar por
Pedro da Maia, os criados j respondiam muito naturalmente:
- O sr. D. Pedro? Est a escrever  menina.
E ele mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mo, exclamava
radiante, com o seu belo e franco sorriso:
- Espera a um bocado, rapaz, estou a escrever  Maria!
Os velhos amigos de Afonso da Maia que vinham fazer o seu whist a Bemfica,
sobretudo o Vilaa, o administrador dos Maias, muito zeloso da dignidade da
casa, no tardaram em lhe trazer a nova daqueles amores do Pedrinho. Afonso
j os suspeitava: via todos os dias um criado da quinta partir com um grande
ramo das melhores camlias do jardim; todas as manhs cedo encontrava no
corredor o escudeiro, dirigindo-se ao quarto do menino, a cheirar
regaladamente o perfume de um envelope com sinete de lacre dourado; - e
no lhe desagradava que um sentimento qualquer, humano e forte, lhe fosse
arrancando o filho  estroinice bulhenta, ao jogo, s melancolias sem razo em
que reaparecia o negro ripano...
Mas ignorava o nome, a existncia sequer dos Monfortes; e as particularidades
que os amigos lhe revelaram, aquela facada nos Aores, o chicote de feitor na
Virginia, o brigue Nova Linda, toda a sinistra legenda do velho contrariou
muito Afonso da Maia.
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Uma noite que o coronel Sequeira,  mesa do whist, contava que vira Maria
Monforte e Pedro passeando a cavalo, ambos muito bem e muito distingus,
Afonso, depois de um silncio, disse com um ar enfastiado:
- Enfim, todos os rapazes tm as suas amantes... Os costumes so assim, a
vida  assim, e sria absurdo querer reprimir tais cousas. Mas essa mulher,
com um pai desses, mesmo para amante acho m.
O Vilaa suspendeu o baralhar das cartas, e ajeitando os culos de ouro
exclamou com espanto:
- Amante! Mas a rapariga  solteira, meu senhor,  uma menina honesta!...
Afonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mos comearam a tremer-lhe; e
voltando-se para o administrador, numa voz que tremia um pouco tambm:
- O Vilaa de certo no supe que meu filho queira casar com essa criatura...
O outro emudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
- Isso no, est claro que no...
E o jogo continuou algum tempo em silncio.
Mas Afonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas
que Pedro no jantava em Bemfica. De manh, se o via, era um momento,
quando ele descia ao almoo, j com uma luva calada, apressado e radiante,
gritando para dentro se estava selado o cavalo; depois, mesmo de p, bebia
um gole de ch, perguntava a correr se o pap queria alguma coisa, dava
um jeito ao bigode diante do grande espelho de Veneza sobre o fogo, e l
partia, enlevado. Outras vezes todo o dia no saa do quarto: a tarde descia,
acendiam-se as luzes; at que o pai, inquieto, subia, ia encontr-lo estirado
sobre o leito, com a cabea enterrada nos braos.
- Que tens tu? - perguntava-lhe.
- Enxaqueca, - respondia num tom surdo e rouco.
E Afonso descia indignado, vendo em toda aquela angustia covarde alguma
carta que no viera, ou talvez uma rosa oferecida que no fora posta nos
cabelos...
Depois, por vezes, entre dois robbers ou conversando em volta da bandeja do
ch, os seus amigos tinham observaes que o inquietavam, partindo
daqueles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os rumores - enquanto
ele passava ali, inverno e vero, entre os seus livros e as suas rosas. Era o
excelente Sequeira que perguntava porque no faria Pedro uma viagem longa,
para se instruir,  Alemanha, ao Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo
d'Afonso, que, a propsito de cousas indiferentes, rompia lamentando os
tempos em que o Intendente da policia podia livremente expulsar de Lisboa as
pessoas importunas... Evidentemente aludiam  Monforte, evidentemente
julgavam-na perigosa.
No vero, Pedro partiu para Cintra; Afonso soube que os Monfortes tinham l
alugado uma casa. Dias depois o Vilaa apareceu em Bemfica, muito
preocupado: na vspera Pedro visitara-o no cartrio, pedira-lhe informaes
sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar dinheiro. Ele l lhe
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dissera que em setembro, chegando  sua maioridade, tinha a legitima da
mam...
- Mas no gostei d'isto, meu senhor, no gostei d'isto...
- E porque, Vilaa? O rapaz querer dinheiro, querer dar presentes 
criatura... O amor  um luxo caro, Vilaa.
- Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o oua!
E aquela confiana to nobre de Afonso da Maia no orgulho patrcio, nos brios
de raa de seu filho, chegava a tranqilizar Vilaa.
Da a dias, Afonso da Maia viu enfim Maria Monforte. Tinha jantado na quinta
do Sequeira ao p de Queluz, e tomavam ambos o seu caf no mirante,
quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche azul com os
cavalos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma sombrinha escarlate,
trazia um vestido cor de rosa cuja roda, toda em folhos, quase cobria os
joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas do seu chapu, apertadas num
grande lao que lhe enchia o peito, eram tambm cor de rosa: e a sua face,
grave e pura como um mrmore grego, aparecia realmente adorvel,
iluminada pelos olhos de um azul sombrio, entre aqueles tons rosados. No
assento defronte, quase todo tomado por cartes de modista, encolhia-se o
Monforte, de grande chapu panam, cala de ganga, o mantelete da filha no
brao, o guarda sol entre os joelhos. Iam calados, no viram o mirante; e, no
caminho verde e fresco, a caleche passou com balanos lentos, sob os ramos
que roavam a sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chvena de caf
junto aos lbios, de olho esgazeado, murmurando:
- Caramba!  bonita!
Afonso no respondeu: olhava cabisbaixo aquela sombrinha escarlate, que
agora se inclinava sobre Pedro, quase o escondia, parecia envolve-lo todo -
como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde triste das
ramas.
O outono passou, chegou o inverno, frigidssimo. Uma manh, Pedro entrou na
livraria onde o pai estava lendo junto ao fogo; recebeu-lhe a beno, passou
um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se bruscamente para
ele:
- Meu pai, - disse, esforando-se por ser claro e decidido - venho pedir-lhe
licena para casar com uma senhora que se chama Maria Monforte.
Afonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e numa voz grave e lenta:
- No me tinhas falado disso... Creio que  a filha de um assassino, de um
negreiro, a quem chamam tambm a negreira...
- Meu pai!
Afonso ergueu-se diante dele, rgido e inexorvel como a encarnao mesma
da honra domestica.
- Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
Pedro, mais branco que o leno que tinha na mo, exclamou todo a tremer,
quase em soluos:
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- Pois pode estar certo, meu pai, que hei de casar! Saiu, atirando furiosamente
com a porta. No corredor gritou pelo escudeiro, muito alto para que o pai
ouvisse, e deu-lhe ordem para levar as suas malas ao hotel da Europa.
Dois dias depois Vilaa entrou em Bemfica, com as lgrimas nos olhos,
contando que o menino casara nessa madrugada - e segundo lhe dissera o
Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Itlia.
Afonso da Maia sentara-se nesse instante  mesa do almoo, posta ao p do
fogo: ao centro, um ramo esfolhava-se num vaso do Japo,  chama forte da
lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da Grinalda, jornal de
versos que ele costumava receber... Afonso ouviu o procurador, grave e mudo,
continuando a desdobrar lentamente o seu guardanapo.
- J almoou, Vilaa?
O procurador, assombrado daquela serenidade, balbuciou:
- J almocei, meu senhor...
Ento Afonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
- Pode tirar d'ali esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha s um talher 
mesa... Sente-se, Vilaa, sente-se.
O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indiferena o talher do menino.
Vilaa sentara-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas outras manhs
em que almoara em Bemfica. Os passos do escudeiro no faziam rudo no
tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques de ouro nas pratas
polidas; o sol discreto que brilhava fora no azul d'inverno fazia cintilar cristais
de geada nas ramas secas; e  janela o papagaio, muito patula e educado
por Pedro, rosnava injurias aos Cabrais.
Por fim Afonso ergueu-se; esteve olhando abstratamente a quinta, os paves
no terrao; depois ao sair da sala tomou o brao de Vilaa, apoiou-se nele com
fora, como se lhe tivesse chegado a primeira tremura da velhice, e no seu
abandono sentisse ali uma amizade segura. Seguiram o corredor, calados. Na
livraria Afonso foi ocupar a sua poltrona ao p da janela, comeou a encher de
vagar o seu cachimbo. Vilaa, de cabea baixa, passeava ao comprido das
altas estantes, nas pontas dos ps, como no quarto de um doente. Um bando
de pardais veio gralhar um momento nos ramos de uma alta arvore que
roava a varanda. Depois houve um silncio, e Afonso da Maia disse:
- Ento, Vilaa, o Saldanha l foi demitido do Pao?...
O outro respondeu, vaga e maquinalmente:
-  verdade, meu senhor,  verdade...
E no se falou mais de Pedro da Maia.
II
Pedro e Maria, no entanto, numa felicidade de novela, iam descendo a Itlia, a
pequenas jornadas, de cidade em cidade, nessa via sagrada que vai desde as
flores e das messes da plancie lombarda at ao mole pas de romanza,
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Npoles, branca sob o azul. Era l que tencionavam passar o inverno, nesse ar
sempre tpido junto a um mar sempre manso, onde as preguias de noivado
tm uma suavidade mais longa... Mas um dia, em Roma, Maria sentiu o
apetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar assim, aos balouos das caleas,
s para ir ver lazzaroni engolir fios de macarro. Quanto melhor sria habitar
um ninho acolchoado nos Campos Eliseos, e gozarem ali um lindo inverno de
amor! Paris estava seguro, agora, com o prncipe Luiz Napoleo... Alm disso,
aquela velha Itlia clssica enfastiava-a j: tantos mrmores eternos, tantas
madonas comeavam (como ela dizia pendurada languidamente do pescoo de
Pedro) a dar tonturas  sua pobre cabea! Suspirava por uma boa loja de
modas, sob as chamas do gs, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da
Itlia onde todo mundo conspirava.
Foram para Frana.
Mas por fim aquele Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago cheiro de
plvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de batalha,
desagradou a Maria. De noite acordava com a Marselhesa; achava um ar feroz
 policia; tudo permanecia triste; e as duquesas, pobres anjos, ainda no
ousavam vir ao Bois, com medo dos operrios, corja insaciavel! Enfim
demoraram-se l at a primavera, no ninho que ela sonhara, todo de veludo
azul, abrindo sobre os Campos Eliseos.
Depois principiou a falar-se de novo em revoluo, em golpe de estado. A
admirao absurda de Maria pelos novos uniformes da garde-mobile fazia
Pedro nervoso. E quando ela apareceu gravida, ansiou por a tirar daquele Paris
batalhador e fascinante, vir abrig-la na pacata Lisboa adormecida ao sol.
Antes de partir porm escreveu ao pai.
Fora um conselho, quase uma exigncia de Maria. A recusa de Afonso da Maia
ao principio desesperara-a. No a afligia a desunio domestica: mas aquele
no afrontoso de fidalgo puritano marcara muito publicamente, muito
brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e tinha apressado o
casamento, aquela partida triunfante para Itlia, para lhe mostrar bem que
nada valiam genealogias, avs godos, brios de famlia - diante dos seus braos
nus... Agora porm que ia voltar a Lisboa, dar soires, criar corte, a
reconciliao tornava-se indispensvel: aquele pai retirado em Bemfica, com o
rgido orgulho de outras idades, faria lembrar constantemente, mesmo entre
os seus espelhos e os seus estofos, o brigue Nova Linda carregado de
negros... E queria mostrar-se a Lisboa pelo brao desse sogro to nobre e to
ornamental, com as suas barbas de Vice-rei.
- Dize-lhe que j o adoro, murmurava ela curvada sobre a escrivaninha
acariciando os cabelos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe hei de
pr o nome dele... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap. O pobre rapaz amava-o.
Falou-lhe comovido da esperana de ter um filho varo; as desinteligencias
deviam findar em torno do bero daquele pequeno Maia que ali vinha,
morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua felicidade com uma efuso
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de namorado indiscreto: a historia da bondade de Maria, das suas graas, da
sua instruo, enchia duas paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse no
tardaria uma hora em ir atirar-se aos seus ps...
Com efeito, apenas desembarcou, correu num trem a Bemfica. Dois dias antes
o pai partira para Santa Olavia: isto pareceu-lhe uma desfeita - e feriu-o
acerbamente.
Fez-se ento entre o pai e o filho uma grande separao. Quando lhe nasceu
uma filha Pedro no lho participou - dizendo dramaticamente ao Vilaa que j
no tinha pai! Era uma linda beb, muito gorda, loira e cor de rosa, com os
belos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de Pedro, Maria no a quis
criar; mas adorava-a com frenesi; passava dias de joelhos ao p do bero, em
xtase, correndo as suas mos cheias de pedrarias pelas carninhas tenras,
pondo-lhe beijos de devota nos pezinhos, na rosquinha das coxas,
balbuciando-lhe num enlevo nomes de grande amor, e perfurmando-a j,
enchendo-a j de laarotes.
E nestes delrios pela filha, brotava, mais amarga, a sua clera contra Afonso
da Maia. Considerava-se ento insultada em si mesma e naquele cherubim que
lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe o D. Fuas, o
Barbatanas...
Pedro um dia ouviu isto, e escandalizou-se: ela replicou desabridamente: e
diante daquela face abrasada, onde entre lgrimas os olhos azuis pareciam
negros de clera, ele s pude balbuciar timidamente:
-  meu pai, Maria...
Seu pai! E  face de toda a Lisboa tratava-a ento como uma concubina! Podia
ser um fidalgo, as maneiras eram de vilo. Um D. Fuas, um Barbatanas, nada
mais!...
Arrebatou a filha, e abraada nela, romperam as queixas por entre os prantos:
- Ningum nos ama, meu anjo! Ningum te quer! Tens s a tua me! Tratamte
como se fosses bastarda!
A beb, sacudida nos braos da me, desatou a gritar. Pedro correu, envolveuas
ambas no mesmo abrao, j enternecido, j humilde; e tudo terminou num
longo beijo.
E ele, por fim, no seu corao, justificava aquela clera de me que v
desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o Alencar, o
D. Joo da Cunha, que comeavam agora a frequentar Arroios, riam daquela
obstinao de pai gtico, amuado na provncia, porque sua nora no tivera
avs mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em Lisboa, com aquelas
toiletes, aquela graa, recebendo to bem? Que diabo, o mundo marchara,
sara-se j das atitudes empertigadas do sculo XVI!
E o prprio Vilaa, um dia que Pedro lhe fora mostrar a pequerruchinha
adormecida entre as rendas do seu bero, sensibilizou-se, veio-lhe uma da
suas fceis lgrimas, declarou, com a mo no corao, que aquilo era uma
caturrice do sr. Afonso da Maia!
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- Pois pior para ele! no querer ver um anjo destes! disse Maria, dando diante
do espelho um lindo jeito s flores do cabelo. Tambm no faz c falta...
E no fazia falta. Nesse outubro, quando a pequena completou o seu primeiro
ano, houve um grande baile na casa de Arroios, que eles agora ocupavam
toda, e que fora ricamente remobilada. E as senhoras que outrora tinham
horror  negreira, a D. Maria da Gama que escondia a face por traz do leque,
l vieram todas, amveis e decotadas, com o beijinho prompto, chamando-lhe
querida, admirando as grinaldas de camlias que emolduravam os espelhos
de quatrocentos mil ris, e gozando muito os gelados.
Comeara ento uma existncia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
Alencar, o intimo da casa, o corteso de Madame, tinham um saborsinho
d'orgia distingue como os poemas de Byron. Eram realmente as soires
mais alegres de Lisboa: ceiava-se  uma hora com Champagne; talhava-se at
tarde um monte forte; inventavam-se quadros vivos, em que Maria se
mostrara soberanamente bela sob as roupagens clssicas de Helena ou no
luxo sombrio do luto oriental de Judit. Nas noites mais intimas, ela costumava
vir fumar com os homens uma cigarrilha perfumada. Muitas vezes, na sala de
bilhar, as palmas estalaram, vendo-a bater  carambola francesa D. Joo da
Cunha, o grande taco da poca.
E no meio desta festana, atravessada pelo sopro romntico da Regenerao,
l se via sempre, taciturno e encolhido, o pap Monforte, d'alta gravata
branca, com as mos atrs das costas, rondando pelos cantos, refugiado pelos
vos das janelas, mostrando-se s para salvar alguma bobche que ia estalar
- e no desprendendo nunca da filha o olho embevecido e senil.
Nunca Maria fora to formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz quelas altas salas de Arroios,
com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das tranas, o ebrneo e
o lacteo do colo nu, e o rumor das grandes sedas. Com razo, querendo ter, 
maneira das damas da Renascena, uma flr que a simbolizasse, escolhera a
tulipa real opulenta e ardente.
Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
propriedades!... Podia faze-lo! o marido era rico, e ela sem escrpulo arruinlo-
ia, a ele e ao pap Monforte...
Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
proclamava-se com alarido seu cavaleiro e seu poeta. Estava sempre em
Arroios, tinha l o seu talher: por aquelas salas soltava as suas frases
ressoantes, por esses sofs arrastava as suas poses de melancolia. Ia dedicar
a Maria (e nada havia mais extraordinrio que o tom langoroso e plangente, o
olho turvo, fatal, com que ele pronunciava este nome - MARIA!) ia dedicar-lhe
o seu poema, to anunciado, to esperado - FLOR DE MARTYRIO! E citavam-se
as estrofes que lhe fizera ao gosto cantante do tempo:
Vi-te essa noite no explendor das salas
Com as loiras tranas volteando louca...
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A paixo do Alencar era inocente: mas, dos outros ntimos da casa, mais de
um de certo balbuciara j a sua declarao no boudoir azul em que ela recebia
s trs horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas amigas porm, mesmo
as piores, afirmavam que os seus favores nunca teriam passado de alguma
rosa dada num vo de janela, ou de algum longo e suave olhar por traz do
leque. Pedro todavia comeava a ter horas sombrias. Sem sentir cimes,
vinha-lhe s vezes, de repente, um tdio daquela existncia de luxo e de
festa, um desejo violento de sacudir da sala esses homens, os seus ntimos,
que se atropelavam assim to ardentemente em volta dos ombros decotados
de Maria.
Refugiava-se ento nalgum canto, trincando com furor o charuto: e a, era em
toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
Maria sabia perceber bem na face do marido estas nuvens, como ela dizia.
Corria para ele, tomava-lhe ambas as mos, com fora, com domnio:
- Que tens tu, amor? Ests amuado!
- No, no estou amuado...
- Olha ento para mim!...
Colava o seu belo seio contra o peito dele; as suas mos corriam-lhe os braos
numa caricia lenta e quente, dos pulsos aos ombros; depois, com um lindo
olhar, estendia-lhe os lbios. Pedro colhia neles um longo beijo, e ficava
consolado de tudo.
Durante esse tempo Afonso da Maia no saa das sombras de Sta. Olavia, to
esquecido para l como se estivesse no seu jazigo. J se no falava d'le em
Arroios, D. Fuas estava roendo a teima. S Pedro s vezes perguntava a Vilaa
como ia o pap. E as noticias do administrador enfureciam sempre Maria: o
pap estava optimo; tinha agora um cozinheiro francs expendido; Sta. Olavia
enchera-se de hospedes, o Sequeira, Andr da Ega, D. Diogo Coutinho...
- O Barbatanas trata-se! ia ela dizer ao pai com rancor.
E o velho negreiro esfregava as mos, satisfeito de o saber assim feliz em Sta.
Olavia; porque nunca cessara de tremer  idia de ver em Arroios, diante de
si, aquele fidalgo to severo e de vida to pura.
Quando porm Maria teve outro filho, um pequeno, o sossego que ento se fez
em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao corao de Pedro a imagem do
pai abandonado naquela tristeza do Douro. Falou a Maria de reconciliao, a
medo, aproveitando a fraqueza da convalescena. E a sua alegria foi grande,
quando Maria, depois de ficar um momento pensativa, respondeu:
- Creio que me havia de fazer feliz te-lo aqui...
Pedro, entusiasmado com um assentimento to inesperado, pensou em abalar
para Sta. Olavia. Mas ela tinha um plano melhor: Afonso, segundo dizia o
Vilaa, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, ela iria l com o
pequeno, toda vestida de preto, e de repente, atirando-se-lhe aos ps, pedirlhe-
ia a beno para seu neto! No podia falhar! No podia, realmente; e
Pedro viu ali uma alta inspirao de maternidade...
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Para abrandar desde j o pap, Pedro quis dar ao pequeno o nome de Afonso.
Mas nisso Maria no consentiu. Andava lendo uma novela de que era heri o
ltimo Stuart, o romanesco prncipe Carlos Eduardo; e, namorada dele, das
suas aventuras e desgraas, queria dar esse nome a seu filho... Carlos
Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo um destino de amores
e faanhas.
O batizado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi muito
benigna porm; e da a duas semanas Pedro podia j sair para uma caada na
sua quinta da Tojeira, adiante d'Almada. Devia demorar-se dois dias. A partida
arranjara-se unicamente para obsequiar um italiano, chegado por ento a
Lisboa, distinto rapaz que lhe fora apresentado pelo secretario da Legao
Inglesa, e com quem Pedro simpatizara vivamente; dizia-se sobrinho dos
Prncipes de Soria; e vinha fugido de Npoles, onde conspirzra contra os
Bourbons, e fora condenado  morte. O Alencar e D. Joo Coutinho iam
tambm  caada - e a partida foi de madrugada.
Nessa tarde, Maria jantava s no seu quarto, quando sentiu carruagens
parando  porta, um grande rumor encher a escada; quase imediatamente
Pedro aparecia-lhe tremulo e enfiado:
- Uma grande desgraa, Maria!
- Jesus!
- Feri o rapaz, feri o napolitano!...
- Como?
Um desastre estpido!... Ao saltar um barranco, a espingarda dispara-se-lhe,
e a carga, zs, vai cravar-se no napolitano! No era possvel fazer curativos na
Tojeira, e voltaram logo a Lisboa. Ele naturalmente no consentira que o
homem que tinha ferido recolhesse ao hotel: trouxera-o para Arroios, para o
quarto verde por cima, mandara chamar o medico, duas enfermeiras para o
velar, e ele mesmo l ia passar a noite...
- E ele?
- Um heri!... Sorri, diz que no  nada, mas eu vejo-o plido como um morto.
Um rapaz adorvel! Isto s a mim, Senhor! E ento o Alencar que ia mesmo
ao p dele... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz intimo, de confiana!
at a gente se ria. Mas no, zs, logo o outro, o de cerimonia ...
Uma sege, nesse instante, entrava o ptio.
-  o medico!
E Pedro abalou.
Voltou da a pouco mais tranqilo. O Dr. Guedes quase rira daquela bagatela,
uma chumbada no brao, e alguns gros perdidos nas costas. Prometera-lhe
que da a duas semanas podia caar outra vez na Tojeira; e o prncipe estava
j fumando o seu charuto. Belo rapaz! Parecia simpatizar com o pap
Monforte...
Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitao vaga que lhe dava aquela
idia de um prncipe entusiasta, conspirador, condenado  morte, ferido agora
por cima do seu quarto.
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Logo de manh cedo - apenas Pedro sara a fazer transportar, ele mesmo, do
hotel, as bagagens do napolitano - Maria mandou a sua criada francsa de
quarto, uma bela moa d'Arles, acima, saber da parte dela como S. Alteza
passara, e ver que figura tinha. A arlesiana apareceu, com os olhos
brilhantes, a dizer  senhora, nos seus grandes gestos de Provenal, que
nunca vira um homem to formoso! Era uma pintura de Nosso Senhor Jesus
Cristo! Que pescoo, que brancura de mrmore! Estava muito plido ainda;
agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e ficara a ler o jornal
encostado aos travesseiros...
Maria, desde ento, no pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era Pedro que
vinha, a cada instante, falar-lhe dele, entusiasmado por aquela existncia
pattica de prncipe conspirador, partilhando j o seu dio aos Bourbons,
encantado com a similitude de gostos que encontrava nele, o mesmo amor da
caa, dos cavalos, das armas. Agora logo de manh, subia para o quarto do
Prncipe, de robe-de-chambre e cachimbo na boca, e passava l horas numa
camaradagem, fazendo grogs quentes - permitidos pelo Dr. Guedes. Levava
mesmo para l os seus amigos, o Alencar, o D. Joo da Cunha. Maria sentialhes
por cima as risadas. s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte,
pasmado para o heri, no cessava de lhe rondar o leito.
A Arlesiana, essa, tambm a cada momento aparecia l a levar toalhas de
rendas, um aucareiro que ningum reclamara, ou algum vaso com flores para
alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito sria, se alm de
todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o pap e ele
Pedro - era necessria tambm constantemente a sua prpria criada no quarto
de Sua Alteza!
No era. Mas Pedro riu muito  idia de que a Arlesiana se tivesse namorado
do prncipe. Nesse caso Vnus era-lhe propicia! O napolitano tambm a achava
picante: un trs joli brin de feme, tinha ele dito.
A bela face de Maria impalideceu de clera. Julgava tudo isso de mau gosto,
grosseiro, impudente! Pedro fora realmente um doido em trazer assim para a
intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um aventureiro! Demais,
aquela troa em cima, entre grogs quentes, com guitarra, sem respeito por ela
ainda toda nervosa, toda fraca da convalescena, indignava-a! Apenas Sua
Alteza pudesse acomodar-se com almofadas numa sege, queria-o fora, na
estalagem...
- O que a vai! Jesus! o que a vai!... disse Pedro.
-  assim.
E de certo foi muito severa tambm com a Arlesiana, por que nessa tarde
Pedro encontrou a moa aos ais no corredor, limpando ao avental os olhos
afogueados.
D'a a dias, porm, o napolitano, j convalescente, quis recolher ao seu hotel.
No vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade mandou-lhe um
admirvel ramo, e, com uma galanteria de prncipe artista da Renascena, um
soneto em italiano enrolado entre as flores e to perfumado como elas:
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comparava-a a uma nobre dama da Sria dando a gota de gua da sua bilha
ao cavaleiro rabe, ferido na estrada ardente; comparava-a  Beatriz do
Dante.
Isto afigurou-se a todos de uma rara distino, e, como disse o Alencar, um
rasgo  Byron.
Depois, na soire do batizado de Carlos Eduardo, dada da a uma semana, o
napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem esplendido, feito
como um Apolo, de uma palidez de mrmore rico: a sua barba curta e frisada,
os seus longos cabelos castanhos, cabelos de mulher, ondeados e com reflexos
de ouro, apartados  nazarena - davam-lhe realmente, como dizia a Arlesiana,
uma fisionomia de belo Cristo.
Danou apenas uma contradana com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco
taciturno e orgulhoso: mas tudo nele fascinava, a sua figura, o seu mistrio,
at o seu nome de Tancredo. Muitos coraes de mulher palpitavam quando
ele, encostado a uma ombreira, de claque na mo, uma melancolia na face,
exalando o encanto pattico de um condenado  morte, derramava lentamente
pela sala o langor sombrio do seu olhar de veludo. A marqueza d'Alvenga,
para o examinar de perto, pediu o brao a Pedro, e foi aplicar-lhe, como a um
mrmore de museu, a sua luneta de ouro.
-  de apetite! exclamou ela.  uma imagem!... E so amigos, so amigos,
Pedro?
- Somos como dois irmos d'armas, minha senhora.
Nessa mesma soire, o Vilaa informra Pedro que o pai era esperado no dia
seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, falou a Maria em
irem fazer a grande cena ao pap. Ela, porm, recusou, e com as razes
mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito! Reconhecia agora
que um dos motivos daquela teima do pap - ultimamente chamava-lhe
sempre o pap - era essa extraordinria existncia de Arroios...
- Mas filha, disse Pedro, escuta, ns no vivemos tambm em plena orgia...
Alguns amigos que vm...
Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior mais
calmo e mais domestico. Era mesmo melhor pra os bebs. Pois bem, queria
que o pap estivesse convencido dessa transformao, para que as pazes
fossem mais fceis e eternas.
- Deixa passar dois ou trs meses... Quando ele souber como ns vivemos
quietinhos, eu o trarei, sossega...  bom tambm que seja quando meu pai
partir para as guas, para os Pirineos. Que o pobre pap, coitado, tem medo
do teu... Filho, no achas assim melhor?
- s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mos.
Toda a antiga maneira de Maria pareceu com efeito ir mudando. Suspendera
as soires. Comeou a passar as noites muito recolhidas, com alguns intimos,
no seu boudoir azul. J no fumava; abandonara o bilhar; e vestida de preto,
com uma flr nos cabelos, fazia crochet ao p do candieiro. Estudava-se
musica clssica quando vinha o velho Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua
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dama, entrara tambm na gravidade, recitava tradues de Klopstock. Falavase
com sisudez de poltica; Maria era muito regeneradora.
E todas essas noites, Tancredo l estava, indolente e belo, desenhando
alguma flr para ela bordar, ou tangendo  guitarra canes populares de
Napoles. Todos ali o adoravam; mas ningum mais que o velho Monforte, que
passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando o Prncipe com
enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, atravessava a sala, ia-se
debruar sobre ele, palp-lo, senti-lo, respir-lo, murmurando no seu francez
de embarcadio:
- a aler bien... Hein? Beaucoup bien... Ora estimo...
E estas correntes bruscas de afeto comunicavam-se decerto, porque nesse
momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o pap ou
vinha beij-lo na testa.
De dia ocupava-se de cousas serias. Organizara uma til associao de
caridade, a Obra pia dos cobertores, com o fim de fazer no inverno s famlias
necessitadas distribuies de agasalhos; e presidia no salo de Arroios, com
uma campainha, as reunies em que se elaboravam os estatutos. Visitava os
pobres. Ia tambm amiudadas vezes a uma devoo s Igrejas, toda vestida
de preto, a p, com um vu muito espesso no rosto.
O esplendor da sua beleza aparecia agora velado por uma sombra tocante de
ternura grave: a Deusa idealizava-se em Madona; e no era raro ouvi-la de
repente suspirar sem razo.
Ao mesmo tempo a sua paixo pela filha crescia. Tinha ento dois anos e
estava realmente adorvel; vinha todas as noites um momento  sala, vestida
com um luxo de princesa; e as exclamaes, os xtases de Tancredo no
findavam! Fizera-lhe o retrato a carvo, a esfuminho, a aquarela; ajoelhava-se
para lhe beijar a mosinha cor de rosa, como ao bambino sagrado. E Maria,
agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia sempre com ela entre os braos.
Ao comeo desse setembro o velho Monforte partiu para os Pirineos. Maria
chorou, dependurada do pescoo do velho, como se ele largasse de novo para
as travessias de frica.
Ao jantar, porm, chegou j consolada e radiante; e Pedro voltou a falar da
reconciliao, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica recuperar para
sempre aquele pap to teimoso...
- Ainda no, disse ela reflectindo, olhando o seu clice de Bordeus. Teu pai 
uma espcie de santo, ainda o no merecemos... Mais para o inverno.
Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Afonso da Maia estava no
seu escritrio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, alando os
olhos do livro, viu Pedro diante de si. Vinha todo enlameado, desalinhado, e na
sua face lvida, sob os cabelos revoltos, luzia um olhar de loucura. O velho
ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra atirou-se aos braos do pai,
rompeu a chorar perdidamente.
- Pedro! que sucedeu, filho?
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Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o,  idia do filho livre para
sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo  sua solido os dois netos,
toda uma descendncia para amar! E repetia, tremulo tambm,
desprendendo-o de si com grande amor:
- Sossega, filho, que foi?
Pedro ento caiu para o canap, como cai um corpo morto; e levantando para
o pai um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, numa voz
surda:
- Estive fora de Lisboa dois dias... Voltei esta manh... A Maria tinha fugido de
casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E aqui estou!
Afonso da Maia ficou diante do filho, quedo, mudo, como uma figura de pedra;
e a sua bela face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a pouco, de uma
grande clera. Viu, num relance, o escndalo, a cidade galhofando, as
compaixes, o seu nome pela lama. E era aquele filho que, desprezando a sua
autoridade, ligando-se a essa criatura, estragara o sangue da raa, cobria
agora a sua casa de vexame. E ali estava! ali jazia sem um grito, sem um
furor, um arranque brutal de homem trado! Vinha atirar-se para um sof,
chorando miseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passear pela sala,
rgido e spero, cerrando os lbios para que no lhe escapassem as palavras
de ira e de injuria que lhe enchiam o peito em tumulto... - Mas era pai: ouvia,
ali ao seu lado, aquele soluar de funda dor; via tremer aquele pobre corpo
desgraado que ele outrora embalara nos braos; - parou junto de Pedro,
tomou-lhe gravemente a cabea entre as mos, e beijou-o na testa, uma vez,
outra vez, como se ele fosse ainda criana, restituindo-lhe ali e para sempre a
sua ternura inteira.
- Tinha razo, meu pai, tinha razo, murmurava Pedro entre lgrimas.
Depois ficaram calados. Fora, as pancadas sucessivas da chuva batiam a casa,
a quinta, num clamor prolongado; e as arvores, sob as janelas, ramalhavam
num vasto vento de inverno.
Foi Afonso que quebrou o silncio:
- Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? No  s chorar...
- No sei nada, respondeu Pedro num longo esforo. Sei que fugiu. Eu sahi de
Lisboa na segunda feira. Nessa mesma noite, ela partiu de casa numa
carruagem, com uma maleta, o cofre de jias, uma criada italiana que tinha
agora, e a pequena. Disse  governante e  ama do pequeno que ia ter
comigo. Elas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando voltei, achei
esta carta.
Era um papel j sujo, e desde essa manh de certo muitas vezes relido,
amarrotado com fria. Continha estas palavras:
 uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que no sou
digna de ti, e levo a Maria que me no posso separar dela.
- E o pequeno, onde est o pequeno? exclamou Afonso.
Pedro pareceu recordar-se:
- Est l dentro com a ama, trouxe-o na sege.
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0 velho correu, logo; e da a pouco aparecia, erguendo nos braos o pequeno,
na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. Era gordo, de
olhos muito negros, com uma adorvel bochecha fresca e cor de rosa. Todo
ele ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama no passou da porta,
tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxazinha na mo.
Afonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e acomodou o neto no colo. Os
olhos enchiam-se-lhe de uma bela luz de ternura; parecia esquecer a agonia
do filho, a vergonha domestica; agora s havia ali aquela facesinha tenra, que
se lhe babava nos braos...
- Como se chama ele?
- Carlos Eduardo, murmurou a ama.
- Carlos Eduardo, hein?
Ficou a olh-lo muito tempo, como procurando nele os signaes da sua raa:
depois tomou-lhe na sua as duas mosinhas vermelhas que no largavam o
guiso, e muito grave, como se a criana o percebesse, disse-lhe:
- Olha bem para mim. Eu sou o av.  necessrio amar o av!
E quela forte voz, o pequeno, com efeito, abriu os seus lindos olhos para ele,
srios de repente, muito fixos, sem medo das barbas grisalhas: depois rompeu
a pular-lhe nos braos, desprendeu a mozinha, e martelou-lhe furiosamente a
cabea com o guiso.
Toda a face do velho sorria quela viosa alegria; apertou-o ao seu largo peito
muito tempo, ps-lhe na face um beijo longo, consolado, enternecido, o seu
primeiro beijo d'av; depois, com todo o cuidado, foi coloc-lo nos braos da
ama.
- V, ama, v... A Gertrudes j l anda a arranjar-lhe o quarto, v vr o que 
necessrio.
Fechou a porta, e veio sentar-se junto do filho que se no movera do canto do
sof, nem despregara os olhos do cho.
- Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos no vemos ha trs
anos, filho...
- Ha mais de trs anos, murmurou Pedro.
Ergueu-se, alongou a vista  quinta, to triste sob a chuva; depois,
derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
prprio retrato, feito em Roma aos doze anos, todo de veludo azul, com uma
rosa na mo. E repetia ainda amargamente:
- Tinha razo, meu pai, tinha razo...
E pouco a pouco, passeando e suspirando, comeou a falar daqueles ltimos
anos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a intimidade do italiano
na casa, os planos de reconciliao, por fim aquela carta infame, sem pudor,
invocando a fatalidade, arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro
momento tivera s idias de sangue e quisera persegui-los. Mas conservava
um claro de razo. Seria ridculo, no  verdade? De certo a fuga fora
d'antemo preparada, e no havia de ir correndo as estalagens da Europa 
busca de sua mulher... Ir lamentar-se  policia, faze-los prender? Uma
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imbecilidade; nem impedia que ela fosse j por esses caminhos fora dormindo
com outro... Restava-lhe somente o desprezo. Era uma bonita amante que
tivera alguns anos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, sem
me, com um mau nome. Pacincia! Necessitava esquecer, partir para uma
longa viagem, para a Amrica talvez; e o pai veria, havia de voltar consolado e
forte.
Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado nos
dedos, numa voz que se calmava. Mas de repente parou diante do pai, com
um riso seco, um brilho feroz nos olhos.
- Sempre desejei ver a Amrica, e  boa ocasio agora...  uma ocasio
famosa, hein? Posso at naturalisar-me, chegar a presidente, ou rebentar...
Ah! Ah!
- Sim, mais tarde, depois pensars nisso, filho, acudiu o velho assustado.
Nesse momento a sineta do jantar comeou a tocar lentamente, ao fundo do
corredor.
- Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
Teve um suspiro cansado e lento, murmurou:
- Ns jantvamos s sete...
Quis ento que o pai fosse para a mesa. No havia motivo para que se no
jantasse. Ele ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... Ainda l
tinha a cama, no  verdade? No, no queria tomar nada...
- O Teixeira que me leve um clice de genebra... Ainda c est o Teixeira,
coitado!
E vendo Afonso sentado, repetiu, j impaciente:
- V jantar meu pai, v jantar, pelo amor de Deus...
Saiu. O pai ouviu-lhe os passos por cima, e o rudo de janelas desabridamente
abertas. Foi ento andando para a sala de jantar, onde os criados que pela
ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de ps, com a lentido
contristada de uma casa onde ha morte. Afonso sentou-se  mesa s; mas j
l estava outra vez o talher de Pedro; rosas de inverno esfolhavam-se num
vaso do Japo; e o velho papagaio agitado com a chuva mexia-se
furiosamente no poleiro.
Afonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto do
fogo; e ali ficou envolvido pouco a pouco naquele melanclico crepsculo de
dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste contra as vidraas,
pensando em todas as cousas terrveis que assim invadiam num tropel
pattico a sua paz de velho. Mas no meio da sua dr, funda como era, ele
percebia um ponto, um recanto do seu corao onde alguma coisa de muito
doce, de muito novo, palpitava com uma frescura de renascimento, como se
algures, no seu ser, estivesse rompendo, burbulhando uma nascente rica de
alegrias futuras; e toda a sua face sorria  chama alegre, revendo a
bochechinha rosada, sob as rendas brancas da touca...
Pela casa no entanto tinham-se acendido as luzes. J inquieto subiu ao quarto
do filho; estava tudo escuro, to mido e frio, como se a chuva casse dentro.
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Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de Pedro veiu do
negro da janela: estava l, com a vidraa aberta, sentado fora na varanda,
voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das ramagens, recebendo na
face o vento, a gua, toda a invernia agreste.
- Pois ests aqui filho! exclamou Afonso. Os criados ho de querer arranjar o
quarto, desce um momento... Ests todo molhado, Pedro!
Apalpava-lhe os joelhos, as mos regeladas. Pedro ergueu-se com um
estremeo, desprendeu-se, impaciente daquela ternura do velho.
- Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me to bem!
O Teixeira trouxe luzes, e atrs dele apareceu o criado de Pedro, que chegra
nesse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem recoberto de
oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro viera tambm, como
nenhum dos senhores estava em casa...
- Bem, bem, interrompeu Afonso. O sr. Vilaa l ir amanh, e ele dar as
ordens.
O criado ento, em bicos de ps, foi depor o estojo sobre o mrmore da
cmoda: ainda l restavam antigos frascos de toilete de Pedro: e os castiais
sobre a mesa alumiavam o grande leito triste de solteiro com os colches
dobrados ao meio.
A Gertrudes toda atarefada entrara com os braos carregados de roupa de
cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios pousando
o chapu a um canto, e sempre em ponta de ps, veio ajud-los tambm.
Pedro no entanto, como sonmbulo, voltara para a varanda, com a cabea 
chuva, atrado por aquela treva da quinta que se cavava em baixo com um
rumor de mar bravo.
Afonso, ento, puxou-lhe o brao quase com aspereza.
- Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
Ele seguiu maquinalmente o pai  livraria, mordendo o charuto apagado que
desde tarde conservava na mo. Sentou-se longe da luz, ao canto do sof, ali
ficou mudo e entorpecido. Muito tempo s os passos lentos do velho, ao
comprido das altas estantes, quebraram o silncio em que toda a sala ia
adormecendo. Uma brasa morria no fogo. A noite parecia mais spera. Eram
de repente vergastadas d'gua contra as vidraas, trazidas numa rajada, que
longamente, num clamor teimoso, faziam escoar um diluvio dos telhados;
depois havia uma calma tenebroza, com uma susurrao distante de vento
fugindo entre ramagens: nesse silncio as goteiras punham um pranto lento; e
logo uma corda de vendaval corria mais furioso, envolvia a casa num bater de
janelas, redomoinhava, partia com silvos desolados.
- Est uma noite de Inglaterra, disse Afonso, debruando-se a espertar o
lume.
Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
idia de Maria, longe, num quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
adultrio entre os braos do outro. Apertou um instante a cabea nas mos,
depois veio junto do pai, com o passo mal firme, mas a voz muito calma.
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- Estou realmente cansado, meu pai, vou-me deitar. Boa noite... Amanh
conversaremos mais.
Beijou-lhe a mo e saiu de vagar.
Afonso demorou-se ainda ali, com um livro na mo, sem ler, atento s a
algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silncio.
Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a cama da
ama. A Gertrudes, o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l cochichando ao
p da cmoda, na penumbra que dava um folio posto diante do candieiro;
todos se esquivaram em pontas de ps quando lhe sentiram os passos, e a
ama continuou a arrumar em silncio os gavetes. No vasto leito, o pequeno
dormia como um Menino Jesus cansado, com o seu guiso apertado na mo.
Afonso no ousou beij-lo, para o no acordar com as barbas speras; mas
tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa contra a parede, deu um
jeito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a sua dor calmar-se naquela
sombra de alcova onde o seu neto dormia.
-  necessrio alguma coisa, ama? perguntou, abafando a voz.
- No, meu senhor...
Ento, sem rudo, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, entreabriu
a porta. O filho escrevia,  luz de duas velas, com o estojo aberto ao lado.
Pareceu espantado de ver o pai: e na face que ergueu, envelhecida e lvida,
dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais refulgentes e duros.
- Estou a escrever, disse ele.
Esfregou as mos, como arrepiado da friagem do quarto, e acrescentou:
- Amanh cedo  necessrio que o Vilaa v a Arroios... Esto l os criados,
tenho l dois cavalos meus, enfim uma poro de arranjos. Eu estou-lhe a
escrever.  numero 32 a casa dele, no ? O Teixeira ha de saber. Boas
noites, pap, boas noites.
No seu quarto, ao lado da livraria, Afonso no pude sossegar, numa opresso,
uma inquietao que a cada momento o faziam erguer sobre o travesseiro,
escutar: agora, no silncio da casa e do vento que calmara, ressoavam por
cima lentos e contnuos os passos de Pedro.
A madrugada clareava, Afonso ia adormecendo - quando de repente um tiro
atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um criado acudia
tambm com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto vinha um
cheiro de plvora; e aos ps da cama, cado de bruos, numa poa de sangue
que se ensopava no tapete, Afonso encontrou seu filho morto, apertando uma
pistola na mo.
Entre as duas velas que se extinguiam, com fogachos lvidos, deixara-lhe uma
carta lacrada com estas palavras sobre o envelope, numa letra firme: Para o
pap.
Da a dias fechou-se a casa de Bemfica. Afonso da Maia partia com o neto e
com todos os criados para a quinta de Sta. Olavia.
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Quando Vilaa, em fevereiro, foi l acompanhar o corpo de Pedro, que ia ser
depositado no jazigo de famlia, no pde conter as lgrimas ao avistar aquela
vivenda onde passara to alegres natais. Um baeto preto recobria o braso
d'armas, e esse pano de esquife parecia ter distingido todo o seu negrume
sobre a fachada muda, sobre os castanheiros que ornavam o ptio; dentro os
criados abafavam a voz, carregados de luto; no havia uma flor nas jarras; o
prprio encanto de Sta. Olavia, o fresco cantar das guas vivas por tanques e
repuchos, vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Vilaa foi
encontrar Afonso na livraria, com as janelas cerradas ao lindo sol de inverno,
cado para uma poltrona, a face cavada sob os cabelos crescidos e brancos, as
mos magras e ociosas sobre os joelhos...
O procurador veio dizer para Lisboa que o velho no durava um ano.
III
Mas esse ano passou, outros anos passaram.
Por uma manh de abril, nas vesperas de Paschoa, Vilaa chegava de novo a
Sta. Olavia.
No o esperavam to cedo; e como era o primeiro dia bonito dessa primavera
chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o Teixeira, que ia j
embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o sr. administrador com
quem s vezes se correspondia, e conduziu-o  sala de jantar onde a velha
governante, a Gertrudes, tomada de surpresa, deixou cair uma pilha de
guardanapos e para lhe saltar ao pescoo.
As trs portas envidraadas estavam abertas para o terrao, que se estendia
ao sol, com a sua balustrada de mrmore coberta de trepadeiras: e Vilaa,
adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal pude reconhecer
Afonso da Maia naquele velho de barba de neve, mas to robusto e corado,
que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu neto pela mo.
Carlos, ao avistar no terrao um desconhecido, de chapu alto, abafado num
cache-nez de pelcia, correu a mir-lo, curioso - e achou-se arrebatado nos
braos do bom Vilaa, que largara o guarda sol, o beijava pelo cabelo, pela
face, balbuciando:
- Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est! que crescido que
est...
- Ento, sem avisar, Vilaa? exclamava Afonso da Maia, chegando de braos
abertos. Ns s o espervamos para a semana, criatura!
Os dois velhos abraaram-se; depois um momento os seus olhos encontraramse,
vivos e midos, e tornaram a apertar-se comovidos.
Carlos ao lado, muito srio, todo esbelto, com as mos enterradas nos bolsos
das suas largas bragas de flanela branca, o casquete da mesma flanela posta
de lado sobre os belos anis do cabelo negro - continuava a mirar o Vilaa,
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que com o beio tremulo, tendo tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos
culos.
- E ningum a esper-lo, nem um criado l em baixo no rio! dizia Afonso.
Enfim, c o temos,  o essencial... E como voc est rijo, Vilaa!
- E v. ex. meu senhor! balbuciou o administrador, engolindo um soluo. Nem
uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moo... Eu nem o conhecia!...
Quando me lembro, a ltima vez que o vi... E c isto! c esta linda flor!...
Ia abraar Carlos outra vez entusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
bela risada, saltou do terrao, foi pendurar-se de um trapzio armado entre as
arvores, e ficou l, balanando-se em cadencia, forte e airoso, gritando: tu s
o Vilaa!
O Vilaa, de guarda sol debaixo do brao, contemplava-o embevecido.
- Est uma linda criana! Faz gosto! E parece-se com o pai. Os mesmo olhos,
olhos dos Maias, o cabelo encaracolado... Mas ha de ser muito mais homem!
-  so,  rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como ficou o seu
rapaz, o Manuel? Quando  esse casamento? Venha voc c para dentro,
Vilaa, que ha muito que conversar...
Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chamin de
azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canrios pareciam doudos de
alegria.
A Gertrudes, que ficara a observar, acercou-se, com as mos cruzadas sob o
avental branco, familiar, terna.
- Ento, meu senhor, aqui est um regalo, ver outra vez este ingrato em Sta.
Olavia!
E, com um claro de simpatia na face, alva e redonda como uma velha lua,
ornada j de um buo branco:
-Ah! sr. Vilaa, isto agora  outra coisa! At os canrios cantam! E tambm eu
cantava, se ainda pudesse.
E foi saindo, subitamente comovida, j com vontade de chorar.
O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia de uma  outra
ponta dos seus altos colarinhos de mordomo.
- Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Vilaa, hein? disse Afonso. No
quarto em que voc costumava ficar dorme agora a viscondessa...
Ento o Vilaa apressou-se a perguntar pela sr. viscondessa. Era uma Runa,
uma prima da mulher de Afonso, que, no tempo em que os poetas de Caminha
a cantavam, casara com um fidalgote galego, o sr. visconde de Urigo-de-la-
Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva e pobre, Afonso
recolhera-a por dever de parentela, e para haver uma senhora em Sta. Olavia.
Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relgio, Afonso interrompeu a
relao desses achaques.
- Vilaa, v-se arranjar, depressa, que daqui a pouco  o jantar.
O administrador surpreendido olhou tambm o relgio, depois a mesa j
posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
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- Ento v. ex. agora janta de manh? Eu pensei que era o almoo...
- Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est j na
quinta; almoa s sete; e janta  uma hora. E eu, enfim, para vigiar as
maneiras do rapaz...
- E o sr. Afonso da Maia, exclamou Vilaa, a mudar de hbitos, nessa idade! O
que  ser av, meu senhor!
- Tolice! no  isso...  que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas avie-se,
Vilaa, avie-se que Carlos no gosta de esperar... Talvez tenhamos o abade.
- O Custodio? Rica coisa! Ento, se v. ex. me d licena...
Apenas no corredor, o mordomo, ansioso por conversar com o sr.
administrador, perguntou-lhe, desembaraando-o do guarda sol e do chalemanta:
- Com franqueza, como nos acha por c, pela quinta sr. Vilaa?
- Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a Sta. Olavia.
E, pousando familiarmente a mo no ombro do escudeiro, piscando o olho
ainda mido:
- Tudo isto  o menino. Fez reviver o patro! O Teixeira riu respeitosamente. O
menino realmente era a alegria da casa...
- Ol! Quem toca por c? exclamou Vilaa, parando nos degraus da escada, ao
ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
-  o sr. Brown, o ingls, o preceptor do menino... Muito habilidoso,  um
regalo ouvi-lo; toca s vezes  noite na sala, o sr. juiz de direito acompanha-o
na concertina... Aqui, sr. Vilaa, o quarto de v. s....
- Muito bonito, sim senhor!
O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janelas, sobre o tapete
alvadio semeado de florsinhas azuis: e as bambinelas, os reposteiros de
cretne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre fundo claro. Este
conforto fresco e campestre deleitou o bom Vilaa.
Foi logo apalpar os cretnes, esfregou o mrmore da cmoda, provou a solidez
das cadeiras. Eram as moblias compradas no Porto, hein? Pois, elegantes. E,
realmente, no tinham sido caras. Nem ele fazia idia! Ficou ainda em bicos de
ps a examinar duas aguarelas inglesas representando vacas de luxo, deitadas
na relva,  sombra de runas romnticas. O Teixeira, observou-lhe, com o
relgio na mo:
- Olhe que v. s. tem s dez minutos... O menino no gosta de esperar.
Ento o Vilaa decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu pesado
colete de malha de l; e pela camisa entreaberta via-se ainda uma flanela
escarlate por causa dos reumatismos, e os bentinhos de seda bordada. O
Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do corredor, a rebeca
atacara o Carnaval de Veneza; e atravs das janelas fechadas sentia-se o
grande ar, a frescura, a paz dos campos, todo o verde d'abril.
Vilaa, sem culos, um pouco arrepiado, passava a ponta da toalha molhada
pelo pescoo, por traz da orelha, e ia dizendo:
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- Ento, o nosso Carlinhos no gosta de esperar, hein? J se sabe,  ele quem
governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
Mas o Teixeira muito grave, muito srio, desiludiu o sr. administrador. Mimos
e mais mimos, dizia s. s.? Coitadinho dele, que tinha sido educado com uma
vara de ferro! Se ele fosse a contar ao sr. Vilaa! No tinha a criana cinco
anos j dormia num quarto s, sem lamparina; e todas as manhs, zs, para
dentro de uma tina d'gua fria, s vezes a gear l fora... E outras
barbaridades. Se no se soubesse a grande paixo do av pela criana, havia
de se dizer que a queria morta. Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a
pens-lo... Mas no, parece que era sistema ingls! Deixava-o correr, cair,
trepar s arvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E
depois o rigor com as comidas! S a certas horas e de certas cousas... E s
vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
E o Teixeira acrescentou:
- Enfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que ns aprovssemos a
educao que tem levado, isso nunca aprovamos, nem eu, nem a Gertrudes.
Olhou outra vez o relgio, preso por uma fita negra sobre o colete branco, deu
alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a cama a
sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, de leve e por
amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o Vilaa acamava as
duas longas repas sobre a calva:
- Sabe v. s., apenas veio o mestre ingls, o que lhe ensinou? A remar! A
remar, sr. Vilaa, como um barqueiro! Sem contar o trapzio, e as habilidades
de palhao; eu nisso nem gosto de falar... Que eu sou o primeiro a dizel-o: o
Brown  boa pessoa, calado, asseado, excelente musico. Mas  o que eu tenho
repetido  Gertrudes: pode ser muito bom para ingls, no  para ensinar um
fidalgo portugus... No . V v. s. falar a esse respeito com a sr. D. Ana
Silveira...
Bateram de manso  porta, o Teixeira emudeceu. Um escudeiro entrou, fez
um sinal ao mordomo, tirou-lhe do brao respeitosamente a sobrecasaca, e
ficou com ela junto do toucador, onde o Vilaa, vermelho e apressado, luctava
ainda com as repas rebeldes.
O Teixeira, da porta, disse com o relgio na mo:
-  o jantar. Tem v. s. dois minutos, sr. Vilaa.
E o administrador da a um momento abalava tambm, abotoando ainda o
casaco pelas escadas.
Os senhores j estavam todos na sala. Junto do fogo, onde as achas
consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o Times. Carlos, a
cavalo nos joelhos do av, contava-lhe uma grande historia de rapazes e de
bulhas; e ao p o bom abade Custodio, com o leno de rap esquecido nas
mos, escutava, de boca aberta, num riso paternal e terno.
- Olhe quem ali vem, abade, disse-lhe Afonso.
O abade voltou-se, e deu uma grande palmada na cxa:
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- Esta  nova! Ento  o nosso Vilaa? E no me tinham dito nada! Venham de
l esses ossos, homem!...
Carlos pulava nos joelhos do av, muito divertido com aqueles longos abraos
que juntavam as duas cabeas dos velhos - uma com as repas achatadas
sobre a calva, outra com uma grande coroa aberta numa mata de cabelo
branco. E como eles, de mos dadas, continuavam a admirar-se, a estudarem
um no outro as rugas dos anos, Afonso disse:
- Vilaa! a sr. viscondessa...
O administrador porm procurou-a debalde, com os olhos abertos pela sala.
Carlos ria, batendo as mos: - e Vilaa descobriu-a enfim a um canto, entre o
aparador e a janela, sentada numa cadeirinha baixa, vestida de preto, tmida e
queda, com os braos rechonchudos pousados sobre a obesidade da cinta. O
rosto anafado e mole, branco como papel, as roscas do pescoo, cobriram-selhe
subitamente de rubor; no achou uma palavra para dizer ao Vilaa, e
estendeu-lhe a mo papuda e plida, com um dedo embrulhado num pedao
de seda negra. Depois ficou a abanar-se com um grande leque de lentejoulas,
o seio a arfar, os olhos no regao, como exausta daquele esforo.
Dois escudeiros tinham comeado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Afonso.
Mas Carlos cavalgava ainda o av, querendo acabar outra historia. Era o
Manuel, trazia uma pedra na mo... Ele primeiro pensara ir s boas; mas os
dois rapazes comearam a rir... De maneira que os correu a todos...
- E maiores que tu?
- Tres rapages, vov, pode perguntar  tia Pedra... Ela viu, que estava na
eira. Um deles trazia uma foice...
- Est bom, senhor, est bom, ficamos inteirados... V, desmonte, que est a
sopa a esfriar. Upa! upa!
E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarca feliz, veio sentar-se
ao alto da mesa, sorrindo e dizendo:
- J se vai fazendo pesado, j no est para colo...
Mas reparou ento no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentao do
procurador.
- O sr. Brown, o amigo Vilaa... Peo perdo, descuidei-me, foi culpa daquele
cavalheiro l ao fundo da mesa, o sr. D. Carlos de mata-sete!
O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu toda
a volta  mesa, rgido e teso, para vir sacudir o Vilaa num tremendo shakehands;
depois, sem uma palavra, reocupou o seu lugar, desdobrou o
guardanapo, cofiou os formidveis bigodes, e foi ento que disse ao Vilaa,
com o seu forte acento ingls:
- Muito belo dia... glorioso!
- Tempo de rosas, respondeu o Vilaa, comprimentando, intimidado diante
daquele atleta.
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Naturalmente, nesse dia, falou-se da jornada de Lisboa, do bom servio da
mala-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Vilaa j viera no comboio
at ao Carregado.
- De causar horror, hein? perguntou o abade, suspendendo a colher que ia
levar  boca.
O excelente homem nunca sara de Resende; e todo o largo mundo, que ficava
para alm da penumbra da sua sacristia e das arvores do seu passal, lhe dava
o terror de uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, de que tanto se
falava...
- Faz arrepiar um bocado, afirmou com experincia Vilaa. Digam o que
disserem, faz arrepiar!
Mas o abade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraas dessas
mquinas!
O Vilaa ento lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaa, quando
tudo se virou, ficaram esmagadas duas irms de caridade! Enfim de todos os
modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no quarto...
O abade gostava do progresso... Achava at necessrio o progresso. Mas
parecia-lhe que se queria fazer tudo  lufa-lufa... O pas no estava para essas
invenes; o que precisava eram boas estradinhas...
- E economia! disse o Vilaa, puxando para si os pimentes.
- Bucelas? murmurou-lhe sobre o ombro o escudeiro.
O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe  luz a cor rica,
provou-o com a ponta do lbio, e piscando o olho para Afonso:
-  do nosso!
- Do velho, disse Afonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom nectar?
- Magnificente! exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
Ento Carlos, estendendo o brao por cima da mesa, reclamou tambm
Bucelas. E a sua razo era haver festa por ter chegado o Vilaa. O av no
consentiu; o menino teria o seu clice de Colares, como de costume, e um s.
Carlos cruzou os braos sobre o guardanapo que lhe pendia do pescoo,
espantado de tanta injustia! Ento nem para festejar o Vilaa poderia
apanhar uma gotinha de Bucelas? Ali estava uma linda maneira de receber os
hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera o sr.
administrador, havia de pr  noite para o ch o fato novo de veludo. Agora
observavam-lhe que no era festa, nem caso para Bucelas... Ento no
entendia.
O av, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um caro severo.
- Parece-me que o senhor est palrando de mais. As pessoas grandes  que
palram  mesa.
Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
- Est bom, vov, no te zangues. Esperarei para quando for grande...
Houve um sorriso em volta da mesa. A prpria viscondessa, deleitada, agitou
preguiosamente o leque: o abade, com a sua boa face banhada em xtase
para o menino, apertava as mos cabeludas contra o peito, tanto aquilo lhe
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parecia engraado: e Afonso tossia por traz do guardanapo, como limpando as
barbas - a esconder o riso, a admirao que lhe brilhava nos olhos.
Tanta vivacidade surpreendeu tambm Vilaa. Quis ouvir mais o menino, e
pousando o seu talher:
- E diga-me, Carlinhos, j vai adiantado nos seus estudos?
O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mos pelo cs das flanelas,
e respondeu com um tom superior:
- J fao ladear a Brigida.
Ento o av, sem se conter, largou a rir, cado para o espaldar da cadeira:
- Essa  boa! Eh ! Eh! J faz ladear a Brigida! E  verdade, Vilaa, j a faz
ladear... Pergunte ao Brown; no  verdade, Brown? E a iguasita  uma
piorrita, mas fina...
- Oh vv, gritou Carlos j excitado, dize ao Vilaa, anda. No  verdade que
eu era capaz de governar o dog-cart?
Afonso reassumiu um ar severo.
- No o nego... Talvez o governasse, se lho consentissem. Mas faa-me favor
de se no gabar das suas faanhas, porque um bom cavaleiro deve ser
modesto... E sobre tudo no enterrar assim as mos pela barriga abaixo...
O bom Vilaa, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
observao. No se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavalo com
as regras... Mas ele queria dizer se o Carlinhos j entrava com o seu Pedro, o
seu Tito Liviosinho...
- Vilaa, Vilaa, advertiu o abade, de garfo no ar e um sorriso de santa
malicia, no se deve falar em latim aqui ao nosso nobre amigo... No admite,
acha que  antigo... Ele, antigo ...
- Ora sirva-se desse fricass, ande abade, disse Afonso, que eu sei que  o seu
fraco, e deixe l o latim...
O abade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons pedaos
de ave, ia murmurando:
- Deve-se comear pelo latimsinho, deve-se comear por l...  a base;  a
basesinha!
- No! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. Prrimeiro
forra! Forra! Musculo...
E repetio, duas vezes, agitando os formidveis punhos:
- Prrimeiro msculo, msculo!...
Afonso apoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era um
luxo de erudito... Nada mais absurdo que comear a ensinar a uma criana
numa lngua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos Grachos, e
outros negcios de uma nao extincta, deixando-o ao mesmo tempo sem
saber o o que  a chuva que o molha, como se faz o po que come, e todas as
outras cousas do Universo em que vive...
- Mas enfim os clssicos, arriscou timidamente o abade.
- Qual clssicos! O primeiro dever do homem  viver. E para isso  necessrio
ser so, e ser forte. Toda a educao sensata consiste nisto: criar a sade, a
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fora e os seus hbitos, desenvolver exclusivamente o animal, arm-lo de uma
grande superioridade fsica. Tal qual como se no tivesse alma. A alma vem
depois... A alma  outro luxo.  um luxo de gente grande...
O abade coava a cabea, com o ar arrepiado.
- A instrucosinha  necessria, disse ele. Voc no acha, Vilaa? Que v.
ex., sr. Afonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas enfim a
instrucosinha...
- A instruco para uma criana no  recitar Titire, tu patulae recubans... 
saber factos, noes, cousas teis, cousas praticas...
Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, num sinal ao Vilaa, mostrou-lhe o
neto que palrava ingls com o Brown. Eram de certo feitos de fora, uma
historia de briga com rapazes que ele lhe estava a contar, animado e jogando
com os punhos. O perceptor aprovava, retorcendo os bigodes. E  mesa os
senhores com os garfos suspensos, por traz os escudeiros de p e guardanapo
no brao, todos, num silncio reverente, admiravam o menino a falar ingls.
- Grande prenda, grande prenda, murmurou Vilaa, inclinando-se para a
Viscondessa.
A excelente senhora corou, atravs de um sorriso. Parecia assim mais gorda,
toda acaapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada gole de
Bucelas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque negro e
lentejoulado.
Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Afonso fez uma sade ao Vilaa.
Todos os copos se ergueram num rumor de amizade. Carlos quis gritar
Hurrah! O av, com um gesto repreensivo, imobilizou-o; e na pausa satisfeita
que se fez, o pequeno disse com uma grande convico:
- Oh av, eu gosto do Vilaa. O Vilaa  nosso amigo.
- Muito, e ha muitos anos, meu senhor! exclamou o velho procurador, to
comovido que mal podia erguer o clice na mo.
O jantar findava. Fora, o sol deixara o terrao e a quinta verdejava na grande
doura do ar tranqilo, sob o azul ferrete. Na chamin s restava uma cinza
branca: os lilazes das jarras exalavam um aroma vivo, a que se misturava o
do creme queimado, tocado de um fio de limo: os criados, de coletes
brancos, moviam o servio donde se escapava algum som argentino: e toda a
alva toalha adamascada desaparecia sob a confuso da sobremesa onde os
tons dourados do vinho do Porto brilhavam entre as compoteiras de cristal. A
Viscondessa afogueada abanava-se. Padre Custodio enrolava devagar o
guardanapo, a sua batina coada luzia nas pregas das mangas.
Ento Afonso, sorrindo ternamente, fez a ltima sade.
- Viva v. s., senhor Carlos de Mata-sete!
- Sr. Vov! dizia o pequeno escorropichando o copo. A cabeinha de cabelos
negros, a velha face de barbas de neve, saudavam-se das extremidades da
mesa - em quanto todos sorriam, no enternecimento daquela cerimonia.
Depois o abade, de palito na boca, murmurou as graas. A Viscondessa,
cerrando os olhos, juntou tambm as mos. E Vilaa que tinha crenas
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religiosas no gostou de vr Carlos, sem se importar com as graas, saltar da
cadeira, vir atirar-se ao pescoo do av, falar-lhe ao ouvido.
- No senhor! no senhor! dizia o velho.
Mas o rapaz, abraando-o mais forte, dava-lhe grandes razes, num murmrio
de mimo doce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma fraqueza
indulgente.
-  por ser festa, disse ele enfim vencido. Mas veja l, veja l...
O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Vilaa pelos braos, fl-o
redomoinhar, e foi cantando num ritmo seu:
- Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha, inha,
inha!
-  a noiva, disse o av, erguendo-se da mesa. J tem amores,  a pequena
das Silveiras... O caf para o terrao, Teixeira.
O dia fora convidava, adorvel, de um azul suave, muito puro e muito alto,
sem uma nuvem. Defronte do terrao os gernios vermelhos estavam j
abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, de uma delicadeza de
renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um vago cheiro de
violetas, misturado ao perfume adocicado das flores do campo; o alto repuxo
cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos baixos, a areia fina faiscava
de leve quele sol tmido de primavera tardia, que ao longe envolvia os verdes
da quinta, adormecida a essa hora de sesta numa luz fresca e loura.
Os trs homens sentaram-se  mesa do caf. Defronte do terrao, o Brown, de
bon escassez posto ao lado e grande cachimbo na boca, puxava ao alto a
barra do trapezio para Carlos se balouar. Ento o bom Vilaa pediu para
voltar as costas. No gostava de vr ginasticas; bem sabia que no havia
perigo; mas mesmo nos cavalinhos, as cabriolas, os arcos, atordoavam-no;
saa sempre com o estmago embrulhado...
- E parece-me imprudente, sobre o jantar...
- Qual!  s balouar-se... Olhe para aquilo!
Mas Vilaa no se moveu, com a face sobre a chvena.
O abade, esse, admirava, de lbios entreabertos, e o pires cheio de caf
esquecido na mo.
- Olhe para aquilo Vilaa, repetiu Afonso. No lhe faz mal, homem!
O bom Vilaa voltou-se, com esforo. O pequeno muito alto no ar, com as
pernas retesadas contra a barra do trapzio, as mos s cordas, descia sobre
o terrao, cavando o espao largamente, com os cabelos ao vento; depois
elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo ele sorria; a sua
blusa, os cales enfunavam-se  aragem; e via-se passar, fugir, o brilho dos
seus olhos muito negros e muito abertos.
- No est mais na minha mo, no gosto, disse o Vilaa. Acho imprudente!
Ento Afonso bateu as palmas, o abade gritou bravo, bravo. Vilaa voltou-se
para aplaudir, mas Carlos tinha j desaparecido; o trapezio parava, em
oscilaes lentas; e o Brown, retomando o Times que pusera ao lado sobre o
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pedestal de um busto, foi descendo para a quinta envolvido numa nuvem de
fumo do cachimbo.
- Bela coisa, a ginastica! exclamou Afonso da Maia, acendendo com satisfao
outro charuto.
Vilaa j ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abade, depois de dar um
sorvo ao caf, de lamber os beios, soltou a sua bela frase, arranjada em
maxima:
- Esta educao faz atletas mas no faz cristos. J o tenho dito..
- J o tem dito abade, j! exclamou Afonso alegremente. Diz-mo todas as
semanas... Quer voc saber, Vilaa? O nosso Custodio mata-me o bicho do
ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
Custodio ficou um momento a olhar Afonso, com uma face desconsolada e a
caixa de rap aberta na mo; a irreligio daquele velho fidalgo, senhor de
quase toda a freguezia, era uma das suas dores:
- A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex. o diga assim com esse modo
escarnica... A cartilha. Mas j no quero falar na cartilha... Ha outras cousas. E
se o digo tantas vezes, sr. Afonso da Maia,  pelo amor que tenho ao menino.
E recomeou a discusso, que voltava sempre ao caf, quando Custodio
jantava na quinta.
O bom homem achava horroroso que naquela idade um to lindo moo,
herdeiro de uma casa to grande, com futuras responsabilidades na sociedade,
no soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Vilaa a historia da D. Cecilia
Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do escrivo, tendo passado diante do
porto da quinta, avistara o Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de
crianas como era, e pedira-lhe que lhe dissesse o acto de contrico. E que
respondeu o menino? Que nunca em tal ouvira falar! Estas cousas
entristeciam. E o sr. Afonso da Maia achava-lhe graa, ria-se! Ora ali estava o
amigo Vilaa que podia dizer se era caso para jubilar. No, o sr. Afonso da
Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas de uma coisa no o podia
convencer, a ele pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda,  que
houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do catecismo.
E Afonso da Maia respondia com bom humor:
- Ento que lhe ensinava voc, abade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que se
no deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar os
inferiores, por que isso  contra os mandamentos da lei de Deus, e leva ao
inferno, hein?  isso?...
- Ha mais alguma coisa...
- Bem sei. Mas tudo isso que voc lhe ensinaria que se no deve fazer, por ser
um pecado que ofende a Deus, j ele sabe que se no deve praticar, por que 
indigno de um cavalheiro e de um homem de bem...
- Mas, meu senhor...
- Oua abade. Toda a diferena  essa. Eu quero que o rapaz seja virtuoso por
amor da virtude e honrado por amor da honra; mas no por medo s
caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino do cu...
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E acrescentou, erguendo-se e sorrindo:
- Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abade,  quando vem, depois de
semanas de chuva, um dia destes, ir respirar pelos campos e no estar aqui a
discutir moral. Portanto arriba! e se o Vilaa no est muito canado, vamos
dar a um giro pelas fazendas...
O abade suspirou como um santo que v a negra impiedade dos tempos e
Belzebu arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a chvena e
sorveu com delicias o resto do seu caf.
Quando Afonso da Maia, Vilaa e o abade recolheram do seu passeio pela
freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j as
Silveiras, senhoras ricas da quinta da Lagoaa.
D. Ana Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da famlia, e
era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande auctoridade em Resende.
A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma excelente e pachorrenta senhora,
de agradavel nutrio, trigueirota e pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha,
a noiva de Carlos, uma rapariguinha magra e viva com cabelos negros como
tinta, e o morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito falada naqueles
sitios.
Quasi desde o bero este notavel menino revelara um edificante amor por
alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j a sua alegria
era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado num cobertor, folheando
in-folios, com o craniosinho calvo de sbio curvado sobre as letras garrafais de
boa doutrina: depois de crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas
imvel numa cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca
apetecera um tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde
o precoce letrado, entre o pasmo da mam e da titi, passava dias a traar
algarismos, com a linguasinha de fora.
Assim na famlia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser primeiro
bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, a tia Anica
instalava-o logo  mesa, ao p do candieiro, a admirar as pinturas de um
enorme e rico volume, os Costumes de todos os povos do Universo. J l
estava essa noite, vestido como sempre de escassez, com o plaid de
flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracolo e preso ao ombro por
uma dragona; para que conservasse o ar nobre de um Stuart, de um valoroso
cavaleiro de Walter Scot, nunca lhe tiravam o bon onde se arqueava com
herosmo uma rutilante pena de galo; e nada havia mais melanclico que a
sua facezinha trombuda, a que o excesso
de lombrigas dava uma moleza e uma amarelido de manteiga, os seus
olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a ciencia lh'as tivesse j
consumido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e para os
guerreiros ferozes do Montenegro apoiados a escupetas, em pncaros de
serranias.
Diante do canap das senhoras l se achava tambm o fiel amigo, o dr.
delegado, grave e digno homem, que havia cinco anos andava ponderando e
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meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se decidir - contentando-se
em comprar todos os anos mais meia dzia de lenis, ou uma pea mais de
bretanha, para arredondar o bragal. Estas compras eram discutidas em casa
das Silveiras,  brazeira: e as aluses recatadas, mas inevitveis, s duas
fronhasinhas, ao tamanho dos lenoes, aos cobertores de papa para os
conchegos de janeiro - em lugar de inflamar o magistrado, inquietavam-no.
Nos dias seguintes aparecia preocupado - como se a perspectiva da santa
consumao do matrimonio lhe desse o arrepio de uma faanha a
empreender,o ter de agarrar um toiro, ou nadar nos caches do Douro. Ento,
por qualquer razo especiosa, adiava-se o casamento at ao S. Miguel
seguinte. E aliviado, tranqilo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as
Silveiras a chs, festas de egreja ou pzames, vestido de preto, afavel,
servial, sorrindo a D. Eugenia, no desejando mais prazeres que os dessa
convivencia paternal.
Apenas Afonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o dr.
juiz de direito e a senhora no podiam vir, por que o magistrado tivera a dr;
e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, coitadas, que era dia de
tristeza em casa, por fazer dezessete anos que morrera o mano Manuel...
- Bem, disse Afonso, bem. A dor, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos ns
um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
O excelente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que estava s
ordens.
- Ento ao dever, ao dever! exclamou logo o abade, esfregando as mos, no
ardor j da partida.
Os parceiros dirigiram-se  saleta do jogo - que um reposteiro de damasco
separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos crculos de
luz que caam dos abat-jour os baralhos abertos em leque. Da a um momento
o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que os deixara para um roquesinho
de trs; e retomou o seu lugar ao lado de D. Eugenia, cruzando os ps
debaixo da cadeira e as mos em cima do ventre. As senhoras estavam
falando da dor do dr. juiz de direito. Costumava dar-lhe todos os trs meses: e
era condenvel a sua teima em no querer consultar mdicos. Quanto mais
que ele andava acabado, ressequindo, amarelando - e a D. Augusta, a mulher,
a nutrir  larga, a ganhar cores!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua
gordura ao canto do canap, com o leque aberto sobre o peito, contou que em
Espanha vira um caso igual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a
mulher uma pipa; e ao principio fora o contrario; at sobre isso se tinham feito
uns versos...
- Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
Depois falou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
coitadinho, na flor de idade! E que perfeio de rapaz! E que rapaz de juzo! D.
Ana Silveira no se esquecera, como todos os anos, de lhe acender uma
lamparina por alma, e de lhe rezar trs padre-nossos. A viscondessa pareceu
toda aflita por se no ter lembrado... E ela que tinha o propsito feito!
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- Pois estive para to mandar dizer! exclamou D. Ana. E as Brancos que tanto o
agradecem, filha!
- Ainda est a tempo, observou o magistrado.
D. Eugenia deu uma malha indolente no croch de que nunca se separava, e
murmurou com um suspiro:
- Cada um tem os seus mortos.
E no silncio que se fez, saiu do canto do canap outro suspiro, o da
viscondessa, que de certo se recordara do fidalgo d'Urigo de la Sierra, e
murmurava:
- Cada um tem os seus mortos...
E o digno dr. delegado terminou por dizer igualmente, depois de passar
reflectidamente a mo pela calva:
- Cada um tem os seus mortos!
Uma sonolncia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, as
chamas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava com cautela
e arte as estampas dos Costumes de todos os Povos. E na saleta de jogo,
atravs do reposteiro aberto, sentia-se a voz j arrenegada do abade,
rosnando com um rancor tranqilo, passo, que  o que tenho feito toda a
santa noite!
Nesse momento Carlos arremetia pela sala dentro arrastando a sua noiva, a
Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada das suas
vozes reanimou o canap dormente.
Os noivos tinham chegado de uma pitoresca e perigosa viagem, e Carlos
parecia descontente de sua mulher; comportara-se de uma maneira atroz;
quando ele ia governando a mala-posta, ela quisera empoleirar-se ao p dele
na almofada... Ora senhoras no viajam na almofada.
- E ele atirou-me ao cho, titi!
- No  verdade! De mais a mais  mentirosa! Foi como quando chegamos 
estalagem... Ela quiz-se deitar, e eu no quis... A gente, quando se apeia de
viagem, a primeira coisa que faz  tratar do gado... E os cavalos vinham a
escorrer...
A voz de D. Ana interrompeu, muito severa:
- Est bom, est bom, basta de tolices! J cavalaram bastante. Senta-te a ao
p da sr. Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do cabelo... Que
despropsito!
Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, brincar
assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem
propsito, aterrava-a; e pela sua imaginao de solteirona passavam sem
cessar idias, suspeitas de ultrajes que ele poderia fazer  menina. Em casa,
ao agasalh-la antes de vir para Sta. Olavia, recomendava-lhe com fora que
no fosse com o Carlos para os recantos escuros! que o no deixasse mexerlhe
nos vestidos!... A menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia:
Sim, titi. Mas, apenas na quinta, gostava de abraar o seu maridinho. Se
eram casados, por que no haviam de fazer nen, ou ter uma loja e ganharem
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a sua vida aos beijinhos? Mas o violento rapaz s queria guerras, quatro
cadeiras lanadas a galope, viagens a terras de nomes brbaros que o Brown
lhe ensinava. Ela, despeitada, vendo o seu corao mal compreendido,
chamava-lhe arrieiro; ele ameaava deix-la,  inglesa; - e separavam-se
sempre arrenegados.
Mas quando ela se acomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as
mos no regao - Carlos veio logo estirar-se ao p dela, meio deitado para as
costas do canap, bamboleando as pernas.
- Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito seca D. Ana.
- Estou cansado, governei quatro cavalos, replicou ele, insolente e sem a
olhar.
De repente porm, de um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. Queria-o
levar  frica, a combater os selvagens: e puxava-o j pelo seu belo plaid de
cavaleiro da Esccia, quando a mam acudiu aterrada.
- No, com o Eusebiosinho no, filho! No tem sade para essas cavaladas...
Carlinhos, olhe que eu chamo o av!
Mas o Eusebiosinho, a um repelo mais forte, rolara no cho, soltando gritos
medonhos. Foi um alvoroo, um levantamento. A me, tremula, agachada
junto dele, punha-o de p sobre as perninhas moles, limpando-lhe as grossas
lgrimas, j com o leno, j com beijos, quase a chorar tambm. O delegado,
consternado, apanhara o bonet escassez, e cofiava melancolicamente a bela
pena de galo. E a Viscondessa apertava s mos ambas o enorme seio, como
se as palpitaes a sufocassem.
O Eusebiosinho foi ento preciosamente colocado ao lado da titi; e a severa
senhora, com um fulgor de clera na face magra, apertando o leque fechado
como uma arma, preparava-se a repelir o Carlinhos que, de mos atrs das
costas e aos pulos em roda do canap, ria, arreganhando para o Eusebiosinho
um lbio feroz. Mas nesse momento davam nove horas, e a desempenada
figura do Brown apareceu  porta.
Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detrs da Viscondessa,
gritando:
- Ainda  muito cedo, Brown, hoje  festa, no me vou deitar!
Ento Afonso da Maia, que se no movera aos uivos lacinantes do Silveirinha,
disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
- Carlos, tenha a bondade de marchar j para a cama.
- Oh vov,  festa, que est c o Vilaa!
Afonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, agarrou
o rapaz pelo brao, e arrastou-o pelo corredor - em quanto ele, de calcanhares
fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
-  festa, vov...  uma maldade!... O Vilaa pode-se escandalizar... Oh vov,
eu no tenho sono!
Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
aquela rigidez: a estava uma coisa incompreensvel; o av deixava-lhe fazer
todos os horrores, e recusava-lhe ento o bocadinho da soire...
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- Oh sr. Afonso da Maia, por que no deixou estar a criana?
-  necessrio mtodo,  necessrio mtodo, balbuciou ele, entrando, todo
plido do seu rigor.
E  mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mos tremulas, repetia
ainda:
-  necessrio mtodo. Crenas  noite dormem.
D. Ana Silveira voltando-se para o Vilaa - que cedera o seu lugar ao dr.
delegado e vinha palestrar com as senhoras - teve aquele sorriso mudo que
lhe franzia os lbios, sempre que Afonso da Maia falava em mtodos.
Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, declarou, a
transbordar d'ironia, que, talvez por ter a inteligncia curta, nunca
compreendera a vantagem dos mtodos... Era  inglesa, segundo diziam:
talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ela estava enganada, ou Sta.
Olavia era no reino de Portugal...
E como Vilaa inclinava timidamente a cabea, com a sua pitada nos dedos, a
esperta senhora, baixo para que Afonso dentro no ouvisse, desabafou. O sr.
Vilaa naturalmente no sabia, mas aquela educao do Carlinhos nunca fora
aprovada pelos amigos da casa. J a presena do Brown, um hertico, um
protestante, como preceptor na famlia dos Maias, causara desgosto em
Resende. Sobretudo quando o sr. Afonso tinha aquele santo do abade
Custodio, to estimado, homem de tanto saber... No ensinaria  criana
habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar uma educao de fidalgo,
prepar-lo para fazer boa figura em Coimbra.
Nesse momento, o abade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da mesa
de jogo a fechar o reposteiro: ento, como Afonso j no podia ouvir, D. Ana
ergueu a voz:
- E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Vilaa. Que o Carlinhos, coitadinho,
nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar o que sucedeu
com a Macedo.
Vilaa j sabia.
- Ah j sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do ato de contrio...
A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao cu atravs do tecto.
- Horroroso! continuou D. Ana. A pobre mulher chegou l a nossa casa
embuchada... E eu fez-me impresso. At sonhei com aquilo trs noites a fio...
Calou-se um momento. Vilaa, embaraado, acanhado, fazia girar a caixa de
rap nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de sonolncia
passou na sala; D. Eugenia, com as plpebras pesadas, fazia de vez em
quando uma malha mole no crochet; e a noiva de Carlos, estirada para o
canto do sof, j dormia, com a boquinha aberta, os seus lindos cabelos
negros caindo-lhe pelo pescoo.
D. Ana, depois de bocejar de leve, retomou a sua idia:
- Sem contar que o pequeno est muito atrasado. A no ser um bocado de
ingls, no sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
- Mas  muito esperto, minha rica senhora! acudiu Vilaa.
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-  possvel, respondeu secamente a inteligente Silveira.
E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado dela, quieto
como se fosse de gesso:
- Oh filho, dize tu aqui ao sr. Vilaa aqueles lindos versos que sabes... No
sejas atado, anda!... V, Euzebio, filho, s bonito...
Mas o menino, molengo e tristonho, no se descolava das saias da titi: teve
ela de o pr de p, ampar-lo, para que o tenro prodigio no aluisse sobre as
perninhas flacidas; e a mam prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos,
dormia essa noite com ela...
Isto decidio-o: abrio a boca, e como de uma torneira lassa veio de l
escorrendo, num fio de voz, um recitativo lento e babujado:
 noite, o astro saudoso
Rompe a custo um plumbeo cu,
Tolda-lhe o rosto formoso
Alvacento, mido vu...
Disse-a toda - sem se mexer, com as mosinhas pendentes, os olhos mortios
pregados na titi. A mam fazia o compasso com a agulha do crochet; e a
viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, banhada no langor
da melopea, ia cerrando as plpebras.
- Muito bem, muito bem! exclamou o Vilaa, impressionado, quando o
Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memria! Que memria!  um
prodgio!...
Os criados entravam com o ch. Os parceiros tinham findado a partida; e o
bom Custodio, de p, com a sua chvena na mo, queixava-se amargamente
da maneira porque aqueles senhores o tinham esfolado.
Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras retiraram-se
s nove e meia. O servial dr. delegado dava o brao a D. Eugenia; um criado
da quinta alumiava adiante com o lampio; e o moo das Silveiras levava ao
colo o Eusebiosinho que parecia um fardo escuro, abafado em mantas, com
um chale amarrado na cabea.
Depois da ceia Vilaa acompanhou ainda um momento Afonso da Maia 
livraria, onde, antes de recolher, ele tomava sempre  inglesa o seu conhaque
e soda.
O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
fechadas, um resto de lume na chamin, e o globo do candieiro pondo a sua
claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos cantavam
alto no silncio da noite.
Enquanto o escudeiro rolava para o p da poltrona de Afonso, numa mesa
baixa, os cristais e as garrafas de soda, Vilaa, com as mos nos bolsos, de p
e pensativo, olhava a brasa da acha que morria na cinza branca. Depois
ergueu a cabea, para murmurar, como ao acaso:
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- Aquele rapazito  esperto...
- Quem? O Euzebiosinho? disse Afonso, que se acomodava junto ao fogo,
enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c, Vilaa! O Carlos no
gosta dele, e tivemos a um desgosto horroroso... Foi j ha meses. Havia uma
procisso e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras, excelentes mulheres,
coitadas, mandaram-no c para o mostrar  viscondessa, j vestido de anjo.
Pois senhores, distramo-nos, e o Carlos que o andava a rondar apodera-se
dele, leva-o para o sto, e, meu caro Vilaa... Em primeiro lugar ia-o
matando porque embirra com anjos... Mas o pior no foi isso. Imagine voc o
nosso terror, quando nos aparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo
desfrizado, sem uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada
de um barbante, a coroa de rosas enterrada at ao pescoo, e os gales de
ouro, os tules, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em frangalhos!...
Enfim, um anjo depenado e sovado... Eu ia dando cabo do Carlos.
Bebeu metade da sua soda, e passando a mo pelas barbas, acrescentou, com
uma satisfao profunda:
-  levado do diabo, Vilaa!
O administrador, sentado agora  borda de uma cadeira, esboou uma
risadinha muda; depois ficou calado, olhando Afonso, com as mos nos
joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os lbios, hesitou ainda, tosse de
leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que erravam sobre as
achas.
Afonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, recomeara
a falar do Silveirinha. Tinha trs ou quatro meses mais que Carlos, mas estava
enfezado, estiolado, por uma educao  portuguesa: daquela idade ainda
dormia no choco com as criadas, nunca o lavavam para o no constiparem,
andava couraado de rolos de flanelas! Passava os dias nas saias da titi a
decorar versos, paginas inteiras do Catecismo de Perseverana. Ele por
curiosidade um dia abrira este livreco e vira l, que o sol  que anda em volta
da terra (como antes de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhs d as
ordens ao sol, para onde ha de ir e onde ha de parar etc., etc. E assim lhe
estavam arranjando uma almasinha de bacharel...
Vilaa teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente decidido,
ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
- V. Ex. sabe que apareceu a Monforte?
Afonso, sem mover a cabea, reclinado para as costas da poltrona, perguntou
tranquilamente, envolvido no fumo do cachimbo:
- Em Lisboa?
- No senhor, em Paris. Viu-a l o Alencar, esse rapaz que escreve, e que era
muito de Arroios... Esteve at em casa dela.
E ficaram calados. Havia anos que entre eles se no pronunciara o nome de
Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
preocupao ardente de Afonso da Maia fora tirar-lhe a filha que ela levara.
Mas a esse tempo ningum sabia onde Maria se refugiara com o seu prncipe:
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nem pela influencia das legaes, nem pagando regiamente a policia secreta
de Paris, de Londres, de Madrid, se pude descobrir a toca da fera como dizia
ento o Vilaa. Ambos decerto tinham mudado de nome; e, dadas essas
naturezas bohemias, quem sabe se no errariam agora pela Amrica, pela
ndia, em regies mais exticas? Depois, pouco a pouco, Afonso da Maia
descoroado com aqueles esforos vos, todo ocupado do neto que crescia
belo e forte ao seu lado, no enternecimento continuo que ele lhe dava foi
esquecendo a Monforte e a sua outra neta, to distante, to vaga, a quem
ignorava as feies, de quem mal sabia o nome. E agora de repente a
Monforte aparecia outra vez em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e
aquela criana que dormia ao fundo do corredor nunca vira sua me...
Erguera-se, passeava na livraria, pesado e lento, com a cabea baixa. Junto 
mesa, ao p do candieiro, o Vilaa ia percorrendo um a um os papeis da sua
carteira.
- E est em Paris com o italiano? perguntou Afonso do fundo sombrio do
aposento.
O Vilaa ergueu a cabea de sobre a carteira, e disse:
- No senhor, est com quem lhe paga.
E como Afonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Vilaa, dando-lhe
um papel dobrado, acrescentou:
- Todas estas cousas so muito graves, sr. Afonso da Maia, e eu no quis fiarme
s na minha memria. Por isso pedi ao Alencar, que  um excelente rapaz,
que me escrevesse numa carta tudo o que me contou. Assim temos um
documento. Eu no sei mais do que a est escrito. Pode V. Ex. ler...
Afonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que o
Alencar, o poeta das Vozes d'Aurora, o estilista de Elvira, ornara de flores e de
gales dourados como uma capela em dia de festa.
Uma noite, ao sair da Maison d'Or, ele vira a Monforte saltar de um coup com
dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido: e um momento
ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro do gs, no
trotoir. Foi ela que, muito decidida, rindo, estendeu a mo ao Alencar, pediulhe
que a visitasse, deu-lhe a adresse, o nome por que devia perguntar: Mme.
de l'Estorade. E no seu boudoir, na manh seguinte a Monforte falou
largamente de si: vivera trs anos em Viena d'Austria com Tancredo, e com o
pap que se lhes fora reunir - e que l continuava de certo, como em Arroios,
refugiando-se pelos cantos das salas, pagando as toiletes da filha, e dando
palmadinhas ternas no ombro do amante como outrora no ombro do marido.
Depois tinham estado em Monaco; e a, dizia o Alencar, num drama sombrio
de paixo que ela me fez entrever o napolitano fora morto em duelo. O pap
morrera tambm nesse ano, deixando apenas da sua fortuna uns magros
contos de ris, e a mobilia da casa em Viena: o velho arruinara-se com o luxo
da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao bacarat. Passara
ento um tempo em Londres: e da viera habitar Paris, com Mr. de l'Estorade,
um jogador, um espadachim, que acabou de a arrasar, e que a abandonou
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legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe era a ele d'ora em diante intil
porque passava a adoptar outro mais sonoro de Vicomte de Mandervile. Enfim,
pobre, formosa, doida, excessiva, lanara-se na existncia daquelas mulheres
de quem, dizia o Alencar, a plida Margarida Gautier, a gentil Dama das
Camelias  o tipo sublime, o simbolo poetico, a quem muito ser perdoado
porque muito amaram. E o poeta terminava: ela est ainda no esplendor da
beleza, mas as rugas viro, e ento que avistar em redor de si? As rosas
secas e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi daquele boudoir
perfumado, com a alma dilacerada, meu Vilaa! Pensava no meu pobre Pedro,
que l jaz sob o raio de luar, entre as razes dos ciprestes. E, desiludido desta
cruel vida, vim pedir ao absinto, no boulevard, uma hora de esquecimento.
Afonso da Maia deu um repelo  carta, menos enojado das torpezas da
historia, que daqueles lirismos relambidos.
E recomeou a passear, enquanto o Vilaa recolhia religiosamente o
documento que tinha relido muitas vezes, na admirao do sentimento, do
estilo, do ideal daquela pagina.
- E a pequena? perguntou Afonso.
- Isso no sei. O Alencar no lhe falaria na filha, nem ele mesmo sabe que ela
a levou. Ningum o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou desapercebido
no grande escndalo. Mas enquanto a mim, a pequena morreu. Seno, siga V.
Ex. o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a me podia reclamar a
legitima que cabe  criana... Ela sabe a casa que V. Ex. tem; ha de haver
dias, e so frequentes na vida dessas mulheres, em que lhe falte uma libra...
Com o pretexto da educao da menina, ou de alimentos, j nos tinha
importunado... Escrupulos no tem ela. Se o no faz  que a filha morreu. No
lhe parece a V. Ex.?
- Talvez, disse Afonso.
E acrescentou, parando diante de Vilaa - que olhava outra vez a brasa morta
tirando estalinhos dos dedos:
- Talvez... Sopnhamos que morreram ambas, e no se fale mais nisso.
Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
que Vilaa passou em Sta. Olavia no se proferiu mais o nome de Maria
Monforte.
Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Afonso subio ao
quarto dele, a entregar-lhe as amendoas da Paschoa que Carlos mandava a
Vilaa Junior, um alfinete de peito com uma magnifica safira - e disse-lhe em
quanto o outro, sensibilizado, balbuciava os agradecimentos:
- Agora outra coisa, Vilaa. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu primo
Noronha, ao Andr que vive em Paris como voc sabe, pedir-lhe que procure
essa criatura, e que lhe oferea dez ou quinze contos de ris, se ela me quiser
entregar a filha... No caso, est claro, que esteja viva... E quero que voc
saiba desse Alencar a morada da mulher em Paris.
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O Vilaa no respondeu, ocupado a meter entre as camisas, bem no fundo da
maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou diante d'Afonso,
a coar reflectidamente o queixo.
- Ento que lhe parece, Vilaa?
- Parece-me arriscado.
E deu as suas razes. A menina devia ir nos seus treze anos. Estava uma
mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
habitos... Nem falaria o portugus. As saudades da me haviam de ser
terriveis... Enfim, o sr. Afonso da Maia trazia uma extranha para casa...
- Voc tem razo, Vilaa. Mas a mulher  uma prostituta, e a pequena  do
meu sangue.
Nesse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vov, precipitou-se
no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom. - O Brown tinha achado
uma corujasinha pequena! Queria que o vv viesse ver, andara a busc-lo
por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito pequena, muito feia, toda
pelada, e com dois olhos de gente grande! E sabiam onde havia o ninho...
- Vem depressa,  vv! Depressa, que  necessrio ir pol-a no ninho, por
causa da coruja velha que se pode afligir... O Brown est-lhe a dar azeite. Oh
Vilaa vem ver!  vv, pelo amor de Deus! Tem uma cara to engraada!
Mas depressa, depressa, que a coruja velha pode dar pela falta!...
E impaciente com a lentido risonha do vv, tanta indiferena pela
inquietao da coruja velha, abalou atirando com a porta.
- Que bom corao! exclamou o Vilaa comovido. A pensar nas saudades da
coruja... A me dele  que no tem saudades! Sempre o disse,  uma fera!
Afonso encolheu tristemente os ombros. Iam j no corredor quando ele,
parando um momento, baixando a voz:
- Tem-me esquecido de lhe contar, Vilaa, o Carlos sabe que o pai que se
matou...
Vilaa arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manh entrara-lhe
pela livraria, e dissera-lhe: -  vov, o pap matou-se com uma pistola! -
Naturalmente algum criado que lho contara...
- E vossa excelncia?
- Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido ao
que Pedro me pediu, nessas quatro ou cinco linhas da carta que me deixou.
Quis ser enterrado em Sta. Olavia, a est. No queria que o filho jamais
soubesse da fuga da me; e por mim, de certo, nunca o saber. Quis que dois
retratos que havia dela em Arroios fossem destrudos; como voc sabe,
obtiveram-se e destruram-se. Mas no me pediu que ocultasse ao rapaz o seu
fim. E por isso, disse ao pequeno a verdade: disse-lhe que num momento de
loucura, o pap tinha dado um tiro em si...
- E ele?
- E ele, replicou Afonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a pistola,
e torturou-me toda uma manh para lhe dar tambm uma pistola... E a est o
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resultado dessa revelao:  que tive de mandar vir do Porto uma pistola de
vento...
Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo av, os dois apressaramse
a ir admirar a corujazinha.
Vilaa ao outro dia partiu para Lisboa.
Passadas duas semanas, Afonso recebia uma carta do administrador,
trazendo-lhe, com a adresse da Monforte, uma revelao imprevista. Tinha
voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes da sua
visita a Mme. de l'Estorade, contara-lhe que no boudoir dela havia um
adorvel retrato de criana, de olhos negros, cabelo de azeviche, e uma
palidez de nacar. Esta pintura ferira-o, no s por ser de um grande pintor
ingls, mas por ter, pendente sob o caixilho como um voto funerario, uma
linda coroa de flores de cera brancas e roxas. No havia outro quadro no
boudoir: e ele perguntara  Monforte se era um retrato ou uma fantasia. Ela
respondera que era o retrato da filha que lhe morrera em Londres. Esto
assim dissipadas todas as duvidas, acrescentava o Vilaa. O pobre anjinho
est numa ptria melhor. E para ela, bem melhor!
Afonso, todavia, escreveu a Andr de Noronha. A resposta tardou. Quando o
primo Andr procurara Mme.de l'Estorade, havia semanas que ela partira para
Alemanha, depois de vender mobilia e cavalos. E no Club Imperial, a que ele
pertencia, um amigo que conhecia bem Mme. de l'Estorade e a vida galante de
Paris, contara-lhe que a doida fugira com um certo Catani, acrobata do Circo
d'Inverno nos campos Eliseos, homem de formas magnificas, um Apolo de
feira, que todas as cocotes se disputavam e que a Monforte empolgara.
Naturalmente corria agora a Alemanha com a companhia de cavalinhos.
Afonso da Maia, enojado, remeteu esta carta ao Vilaa sem um comentrio. E
o honrado homem respondeu: Tem V. Ex. razo,  atroz: e mais vale supor
que todos morreram, e no gastar mais cera com to ruins defuntos... E
depois num post-scriptum acrescentava: Parece certo abrir-se em breve o
caminho de ferro at ao Porto: em tal caso, com permisso de V. Ex., a irei e
o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns dias d'hospitalidade.
Esta carta foi recebida em Sta. Olavia um domingo, ao jantar. Afonso lera alto
o P.S. Todos se alegraram, na esperana de ver o bom Vilaa em breve
na quinta; e falou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio acima.
Mas, tera feira  noite, chegava um telegrama de Manuel Vilaa anunciando
que o pai morrera, nessa manh, de uma apoplexia: dois dias depois vinham
mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoo que, de repente,
Vilaa se sentira muito sufocado e com tonturas: ainda tivera foras de ir ao
quarto respirar um pouco d'eter: mas ao voltar  sala cambaleava, queixavase
de vr tudo amarelo, e caiu de bruos, como um fardo, sobre o canap. O
seu pensamento, que se extinguia para sempre, ainda nesse momento se
ocupou da casa que ha trinta anos administrava: balbuciou, a respeito de uma
venda de cortia, recomendaes que o filho j no pude perceber: depois deu
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um grande ai; e s tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro
sopro estas derradeiras palavras: Saudades ao patro!
Afonso da Maia ficou profundamente afectado, e em Sta. Olavia, mesmo entre
os criados, a morte de Vilaa foi como um lucto domestico. Uma dessas
tardes, o velho, muito melanclico, estava na livraria com um jornal esquecido
nas mos, os olhos cerrados - quando Carlos, que ao lado rabiscava
carantonhas num papel, veio passar-lhe um brao pelo pescoo, e como
compreendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Vilaa no voltaria a
ve-los  quinta.
- No filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vr.
O pequeno, entre os joelhos e os braos do velho, olhava o tapete, e, como
recordando-se, murmurou tristemente:
- O Vilaa, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vov, para onde o
levaram?
- Para o cemitrio, filho, para debaixo da terra.
Ento Carlos desprendeu-se devagar do abrao do av, e muito srio, com os
olhos n'ele:
-  vv! porque no lhe mandas fazer uma capelinha bonita, toda de pedra,
com uma figura, como tem o pap?
O velho achegou-o ao peito, beijou-o, comovido:
- Tens razo, filho. Tens mais corao que eu!
Assim o bom Vilaa teve no cemitrio dos Prazeres o seu jazigo - que fora a
alta ambio da sua existncia modesta.
Outros anos tranqilos passaram sobre Santa Olavia.
Depois uma manh de julho, em Coimbra, Manuel Vilaa (agora administrador
da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Afonso se hospedra
com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, berrando:
- Nemin! Nemin!
Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
acompanhado os senhores de Santa Olavia correu  porta, abraou-se quase
chorando no menino, agora mais alto que ele, e muito formoso na sua batina
nova.
Em cima no quarto, Manuel Vilaa, soprando ainda, limpando as bagas de
suor, exclamava:
- Ficou tudo espantado, senhor Afonso da Maia! Os lentes at estavam
comovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem,  o que todo
o mundo disse... E que faculdade vai ele seguir, meu senhor?
Afonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
- No sei, Vilaa... Talvez nos formemos ambos em Direito.
Carlos assomou  porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro escudeiro -
que trazia champagne numa salva.
- Ento venha c, seu maroto, disse Afonso muito branco, com os braos
abertos. Bom exame, hein?... Eu...
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Mas no pde prosseguir: as lgrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
branca.
IV
Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera sempre
naquele menino realmente uma vocao para Esculapio.
A vocao revelra-se bruscamente um dia que ele descobriu no soto,
entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de
estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas
paredes do quarto figados, liaas de intestinos, cabeas de perfil com o
recheio  mostra. Uma noite mesmo rompera pela sala em triunfo, a mostrar
s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa litografia de um feto de seis meses no
utero materno. D. Ana recuou, com um grito, colando o leque  face: e o dr.
delegado, escarlate tambm, arrebatou prudentemente Euzebiosinho para
entre os joelhos, tapou-lhe a face com a mo. Mas o que escandalizou mais as
senhoras foi a indulgencia de Afonso.
- Ento que tem, ento que tem? dizia ele sorrindo.
- Que tem, senhor Afonso da Maia!? exclamou D. Ana. So indecencias!
- No ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente  a
ignorancia... Deixar l o rapaz. Tem curiosidade de saber como  esta pobre
mquina por dentro, no ha nada mais louvavel...
D. Ana abanava-se, sufocada. Consentir taes horrores nas mos da criana!...
Carlos comeou a aparecer-lhe como um libertino que j sabia coisas; e no
consentiu mais que a Therezinha brincasse s com ele pelos corredores de
Santa Olavia.
As pessoas srias porm, o dr. juiz de direito, o prprio abade, lamentando,
sim, que no houvesse mais recato, concordavam que aquilo mostrava no
pequeno uma grande queda para a medicina.
- Se pga, dizia ento com um gesto profetico o dr. Trigueiros, temos d'ali
coisa grande!
E parecia pegar.
Em Coimbra, estudante do Liceu, Carlos deixava os seus compendios de logica
e retrica para se ocupar de anatomia: numas ferias, ao abrir das malas, a
Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras de um casaco o riso
de uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, l estava Carlos logo
revolvendo o caso em velhos livros de medicina da livraria, sem lhe largar a
beira do catre, fazendo diagnosticos que o bom dr. Trigueiros escutava
respeitoso e pensativo. Diante do av j chamava mesmo ao menino o seu
talentoso colega.
Esta inesperada carreira de Carlos (pensara-se sempre que ele tomaria capelo
em Direito) era pouco aprovada entre os fieis amigos de Santa
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Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo to
formoso, to bom cavaleiro, viesse a estragar a vida receitando emplastros, e
sujando as mos no jorro das sangrias. O dr. juiz de direito confessou mesmo
um dia a sua descrena de que o senhor Carlos da Maia quisesse ser medico
a srio.
- Ora essa! exclamou Afonso. E porque no ha de ser medico a srio? Se
escolhe uma profisso  para a exercer com sinceridade e com ambio, como
os outros. Eu no o educo para vadio, muito menos para amador; educo-o
para ser til ao seu pas...
- Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, no lhe parece a
v. exc. que ha outras coisas, importantes tambm, e mais prprias talvez,
em que seu neto se poderia tornar til?...
- No vejo, replicou Afonso da Maia. Num pas em que a ocupao geral 
estar doente, o maior servio patritico  incontestavelmente saber curar.
- V. exc. tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o magistrado.
E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida a srio,
pratica e util, as escadas de doentes galgadas  pressa no fogo de uma vasta
clinica, as existncias que se salvam com um golpe de bistur, as noites
veladas  beira de um leito, entre o terror de uma famlia, dando grandes
batalhas  morte. Como em pequeno o tinham encantado as formas pitorescas
das vsceras - atrahiam-no agora estes lados militantes e hericos da cincia.
Matriculou-se realmente com entusiasmo. Para esses longos anos de quieto
estudo o av preparara-lhe uma linda casa em Celas, isolada, com graas de
cotage ingls, ornada de persianas verdes, toda fresca entre as arvores. Um
amigo de Carlos (um certo Joo da Ega) ps-lhe o nome de Paos de Celas,
por causa de luxos ento raros na Academia, um tapete na sala, poltronas de
marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de libr.
Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
suspeito aos democratas; quando se soube porm que o dono destes confortos
lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava tambm o pas
uma choldra ignobil - os mais rgidos revolucionrios comearam a vir aos
Paos de Celas to familiarmente como ao quarto do Trovo, o poeta bohemio,
o duro socialista, que tinha apenas por moblia uma enxerga e uma Bblia.
Ao fim d'alguns meses, Carlos, simptico a todos, conciliara Dandis e
Philosofos: e trazia muitas vezes no seu break, lado a lado, o Serra Torres, um
monstro que j era addido honorrio em Berlim e todas as noites punha
casaca, e o famoso Craveiro que meditava a Morte de Satanaz, encolhido no
seu gabo d'Aveiro, com o seu grande barrete de lontra.
Os Paos de Celas, sob a sua aparncia preguiosa e campestre, tornaram-se
uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma ginastica cientfica. Uma
velha cozinha fora convertida em sala d'armas - porque naquele grupo a
esgrima passava como uma necessidade social.  noite, na sala de jantar,
moos srios faziam um whist srio: e no salo, sob o lustre de cristal, com o
Figaro, o Times e as Revistas de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o
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Gamacho ao piano tocando Chopin ou Mozart, os literatos estirados pelas
poltronas - havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a Arte, o
Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a Evoluo, tudo
por seu turno flamejava no fumo do tabaco, tudo to ligeiro e vago como o
fumo. E as discusses metafisicas, as prprias certezas revolucionarias
adquiriam um sabor mais requintado com a presena do criado de farda
desarrolhando a cerveja, ou servindo croquetes.
Carlos, naturalmente, no tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
intactas, os seus expositores de medicina. A Literatura e a Arte, sob todas as
formas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no Instituto - e um
artigo sobre o Partenon: tentou, num atelier improvisado, a pintura a leo: e
comps contos arqueolgicos, sob a influencia da Salamb. Alm disso todas
as tardes passeava os seus dois cavalos. No segundo ano levaria um R se no
fosse to conhecido e rico. Tremeu, pensando no desgosto do av: moderou a
dissipao intelectual, acantoou-se mais na cincia que escolhera:
imediatamente lhe deram um acesso. Mas tinha nas veias o veneno do
diletantismo: e estava destinado, como dizia Joo da Ega, a ser um desses
mdicos literrios que inventam doenas de que a humanidade palpava se
presta logo a morrer!
O av, s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Celas. Nos primeiros
tempos a sua presena, agradavel aos cavalheiros da partilha de whist,
desorganizou o cavaco literrio. Os rapazes mal ousavam estender o brao
para o copo da cerveja; e os vossa excelncia isto, vossa excelncia aquilo,
regelavam a sala. Pouco a pouco, porm, vendo-o aparecer em chinelas e de
cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com ares simpaticos de patriarcha
bohemio, discutir arte e literatura, contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra
e d'Itlia, comearam a consider-lo como um camarada de barbas brancas.
Diante dele j se falava de mulheres e de estroinices. Aquele velho fidalgo, to
rico, que lra Michelet e o admirava - chegou mesmo a entusiasmar os
democratas. E Afonso gozava ali tambm horas felizes, vendo o seu Carlos
centro daqueles moos de estudo, de ideal e de veia.
Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, s vezes em Paris ou Londres;
mas por Natais e Pscoas vinha sempre a Santa Olavia, que o av mais s se
entretinha a embelezar com amor. As salas tinham agora soberbos panos
d'Arraz, paisagens de Rousseau e Daubigni, alguns moveis de luxo e d'arte.
Das janelas a quinta oferecia aspectos nobres de parque ingls: atravs dos
macios taboleiros de relva, davam curvas airosas as ruas areadas: havia
mrmores entre as verduras; e gordos carneiros de luxo dormiam sob os
castanheiros. Mas a existncia neste meio rico no era agora to alegre: a
viscondessa, cada dia mais nutrida, caa em sonos congestivos logo depois do
jantar; o Teixeira primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de
pleurizes, ambos no entrudo: e j se no via tambm  mesa a bondosa face
do abade, que l jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de
todo o ano. O dr. juiz de direito com a sua concertina passara para a Relao
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do Porto; D. Ana Silveira, muito doente, nunca saa; a Therezinha fizera-se
uma rapariguinha feia, amarela como uma cidra; o Euzebiosinho, molengo e
tristonho, j sem vestgios sequer do seu primeiro amor aos alfarrbios e s
letras, ia casar na Regoa. S o dr. delegado, esquecido naquela comarca,
estava o mesmo, mais calvo talvez, sempre afvel, amando sempre a
pachorrenta Eugenia. E quase todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da
sua gua branca ao porto para vir cavaquear com o colega.
As ferias, realmente, s eram divertidas para Carlos quando trazia para a
quinta o seu intimo, o grande Joo da Ega, a quem Afonso da Maia se
afeioara muito, por ele e pela sua originalidade, e por ser sobrinho d'Andr da
Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outrora, hospede tambm
em Santa Olavia.
Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente - ora
reprovado, ora perdendo o ano. Sua me, rica, viuva e beata, retirada numa
quinta ao p de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e rica tambm,
tinha apenas uma noo vaga do que o Joozinho fizera, todo esse tempo, em
Coimbra. O capelo afirmava-lhe que tudo havia de acabar a contento, e que o
menino sria um dia doutor como o pap e como o titi: e esta promessa
bastava  boa senhora, que se ocupava sobretudo da sua doena de entranhas
e dos confortos desse padre Serafim. Estimava mesmo que o filho estivesse
em Coimbra, ou algures, longe da quinta, que ele escandalizava com a sua
irreligio e as suas faccias herticas.
Joo da Ega, com efeito, era considerado no s em Celorico, mas tambm na
Academia que ele espantava pela audcia e pelos ditos, como o maior ateu, o
maior demagogo, que jamais aparecera nas sociedades humanas. Isto
lisonjeava-o: por sistema exagerou o seu dio  Divindade, e a toda a Ordem
social: queria o massacre das classes-mdias, o amor livre das fices do
matrimonio, a repartio das terras, o culto de Satans. O esforo da
inteligncia neste sentido terminou por lhe influenciar as maneiras e a
fisionomia; e, com a sua figura esgrouviada e seca, os plos do bigode
arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro entalado no olho direito
- tinha realmente alguma coisa de rebelde e de satnico. Desde a sua entrada
na Universidade renovara as tradies da antiga Bohemia: trazia os rasges da
batina cozidos a linha branca; embebedava-se com carrasco;  noite, na
Ponte, com o brao erguido, atirava injurias a Deus. E no fundo muito
sentimental, enleado sempre em amores por meninas de quinze anos, filhas
de empregados, com quem s vezes ia passar a soire, levando-lhes
cartuchinhos de doce. A sua fama de fidalgote rico tornava-o apetecido nas
famlias.
Carlos escarnecia estes idlios futricas; mas tambm ele terminou por se
enredar num episdio romntico com a mulher de um empregado do governo
civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graa de um corpo de boneca e
por uns lindos olhos verdes. A ela o que a infantizara fora o luxo, o groom, a
gua inglesa de Carlos. Trocaram-se cartas; e ele viveu semanas banhado na
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poesia spera e tumultuosa do primeiro amor adultero. Infelizmente a rapariga
tinha o nome brbaro de Hermengarda; e os amigos de Carlos, descoberto o
segredo, chamavam-lhe j Eurico, o presbtero, dirigiam para Celas missivas
pelo correio com este nome odioso.
Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
governo civil passou junto dele com o filhinho pela mo. Pela primeira vez via
to de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e macilento.
Mas o pequerrucho era adorvel, muito gordo, parecendo mais rolio por
aquele dia de janeiro sob os agasalhos de l azul, tremelicando nas pobres
perninhas roxas de frio, e rindo na clara luz - rindo todo ele, pelos olhos, pelas
covinhas do queixo, pelas duas rosas das faces. O pai amparava-o; e o
encanto, o cuidado com que o rapaz ia assim guiando os passos do seu filho,
impressionou Carlos. Era no momento em que ele lia Michelet - e enchia-lhe a
alma a venerao literria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em
andar ali de cima do seu dog-cart, a preparar friamente a vergonha, e as
lgrimas daquele pobre pai to inofensivo no seu palet coado! Nunca mais
respondeu s cartas em que Hermengarda lhe chamava seu ideal. Decerto a
rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, da
por diante, dardejava sobre ele olhares sangrentos.
Mas a grande topada sentimental de Carlos, como disse o Ega, foi quando
ele, ao fim de umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga espanhola,
e a instalou numa casa ao p de Celas. Chamava-se Encarnacion. Carlos
alugou-lhe ao ms uma vitoria com um cavalo branco e Encarnacion fanatizou
Coimbra como a apario de uma Dama das Camlias, uma flor de luxo das
civilizaes superiores. Pela Calada, pela estrada da Beira, os rapazes
paravam, plidos de emoo, quando ela passava, reclinada na vitoria,
mostrando o sapato de cetim, um pouco da meia de seda, languida e
desdenhosa, com um cozinho branco no regao.
Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada
Lrio d'Israel, Pomba da Arca, e Nuvem da Manh. Um estudante de teologia,
rude e sebento transmontano, quis casar com ela. Apesar das instancias de
Carlos, Encarnacion recusou; e o telogo comeou a rondar Celas, com um
navalho, para beber o sangue ao Maia. Carlos teve de lhe dar bengaladas.
Mas a criatura, desvanecida, tornou-se intolervel, falando sem cessar
d'outras paixes que inspirara em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe dera
o conde de tal, o marqus sicrano, da grande posio da sua famlia ainda
aparentada com os Medina-Coeli: os seus sapatos de cetim verde eram to
antipticos como a sua voz estrdula: e quando tentava elevar-se s
conversaes que ouvia, rompia a chamar ladres aos republicanos, a celebrar
os tempos de D. Isabel, a sua gracia, o seu salero - sendo muito conservadora
como todas as prostitutas. Joo da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que no
voltava aos Paos de Celas emquanto por l aparecesse aquele monto de
carne, pago ao arratel, como a de vaca.
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Enfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos surpreendeu-a
com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ali estava, enfim, um
pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos Medina-Coeli, o Lirio
d'Israel, a admiradora dos Bourbons, foi recambiada a Lisboa e  rua de S.
Roque, seu elemento natural.
Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Celas.
Afonso viera de Santa Olavia, Vilaa de Lisboa; toda a tarde no quintal, d'entre
as acacias e as bela-sombras, subiram ao ar mlhos de foguetes; e Joo da
Ega, que levra o seu ltimoR no seu ltimoano, no descansou, em mangas
de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapesio e em
roda do poo, para a iluminaco da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes,
Vilaa, enfiado e tremulo, fez um speech; ia citar o nosso imortal Castilho
quando sob as janelas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o Hino
Academico. Era uma serenata. - Ega, vermelho, de batina desabotoada, a
luneta para traz das costas, correu  sacada, a perorar:
- Ali temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, comeando a sua gloriosa
carreira, preparado para salvar a humanidade enferma - ou acabar de a
matar, segundo as circumstancias! A que parte remota destes reinos no
chegou j a fama do seu genio, do seu dog-cart, do sebaceo acessit que lhe
enoda o passado, e deste vinho do Porto, contemporaneo dos heroes de 20,
que eu, homem de revoluo e homem de carraspana, eu, Joo da Ega,
Johanes ab Ega...
O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A filarmonica, outros estudantes,
invadiram os Paos. At tarde, sob as arvores do quintal, na sala atulhada de
pilhas de pratos, os criados correram com salvas de dce, no cessou d'estalar
o champagne. E Vilaa, limpando a testa, o pescoo, abafado de calor, ia
dizendo a um, a outro, a si mesmo tambm:
- Grande coisa, ter um curso!
E ento Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um ano
passou. Chegra esse outono de 1875: e o av instalado enfim no Ramalhete
esperava por ele anciosamente. A ltima carta de Carlos viera de Inglaterra,
onde andava, dizia ele, a estudar a admirvel organizao dos hospitaes de
crianas. Assim era: mas passeava tambm por Brighton, apostava nas
corridas de Goodwood, fazia um idilio errante pelos lagos da Escocia, com uma
senhora holandeza, separada de seu marido, veneravel magistrado da Haia,
uma Mme. Rughel, soberba criatura de cabelos de ouro fulvo, grande e branca
como uma ninfa de Rubens.
Depois comearam a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas sucessivas de
livros, outras de instrumentos e aparelhos, toda uma biblioteca e todo um
laboratorio - que trazia o Vilaa, manhs inteiras, aturdido pelos armazens da
alfandega.
- O meu rapaz vem com grandes idias de trabalho, dizia Afonso aos amigos.
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Havia quatorze meses que ele o no via, o seu rapaz, a no ser numa
fotografia mandada de Milo, em que todos o acharam magro e triste. E o
coraco batia-lhe forte, na linda manh de outono, quando do terrao do
Ramalhete, de binoculo na mo, viu assomar vagarosamente, por traz do alto
predio fronteiro, um grande paquete do Roial Mail que lhe trazia o seu neto.
 noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Vilaa - no
se fartavam d'admirar o bem que a viagem fizera a Carlos. Que diferena da
fotografia! Que forte, que saudavel!
Era decerto um formoso e magnifico moo, alto, bem feito, de ombros largos,
com uma testa de mrmore sob os aneis dos cabelos pretos, e os olhos dos
Maias, aqueles irresistiveis olhos do pai, de um negro liquido, ternos como os
dele e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na
face, aguada no queixo - o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos
cantos da boca, uma fisionomia de belo cavaleiro da Renascena. E o av, cujo
olhar risonho e mido transbordava d'emoo, todo se orgulhava de o vr, de
o ouvir, numa larga veia, falando da viagem, dos belos dias de Roma, do seu
mau humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paisagens da
Holanda...
- E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silncio em
que Carlos estivera bebendo o seu conhaque e soda. Agora que tencionas tu
fazer?
- Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. Descansar
primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
Ao outro dia, com efeito, Afonso veio encontr-lo na sala de bilhar - onde
tinham sido colocados os caixotes - a despregar, a desempacotar, em mangas
de camisa e assobiando com entusiasmo. Pelo cho, pelos sofs, alastrava-se
toda uma literatura em rumas de volumes graves; e aqui e alm, por entre a
palha, atravs das lonas descozidas, a luz faiscava num cristal, ou reluziam os
vernizes, os metais polidos de aparelhos. Afonso pasmava em silncio para
aquele pomposo aparato do saber.
- E onde vs tu acomodar este museu?
Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio ali perto no bairro, com
fornos para trabalhos qumicos, uma sala disposta para estudos anatmicos e
fisiolgicos, a sua biblioteca, os seus aparelhos, uma concentrao metdica
de todos os instrumentos de estudo...
Os olhos do av iluminavam-se ouvindo este plano grandioso.
- E que no te prendam questes de dinheiro, Carlos! Ns fizemos nestes
ltimos anos de Santa Olavia algumas economias...
- Boas e grandes palavras, av! Repita-as ao Vilaa.
As semanas foram passando nestes planos de instalao. Carlos trazia
realmente resolues sinceras de trabalho: a cincia como mera ornamentao
interior do espirito, mais intil para os outros que as prprias tapessarias do
seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de solitrio: desejava ser til. Mas as
suas ambies fluctuavam, intensas e vagas; ora pensava numa larga clinica;
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ora na composio macia de um livro iniciador; algumas vezes em
experincias fisiologicas, pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou supunha
sentir, o tumulto de uma fora, sem lhe discernir a linha d'aplicao. Alguma
coisa de brilhante, como ele dizia: e isto para ele, homem de luxo e homem
d'estudo, significava um conjuncto de representao social e de actividade
scientifica; o remexer profundo de idias entre as influencias delicadas da
riqueza; os elevados vagares da filosofia entremeados com requintes de sport
e de gosto; um Claude Bernard que fosse tambm um Morni... No fundo era
um diletante.
Vilaa fora consultado sobre a localidade prpria para o laboratrio; e o
procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incansvel. Primeira coisa
a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
Carlos no decidira fazer exclusivamente clinica: mas desejava de certo dar
consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. Ento Vilaa
suggeriu que o consultrio estivesse separado do laboratorio.
- E a minha razo  esta: a vista de aparelhos, machinas, cousas, faz
esmorecer os doentes...
- Tem voc razo, Vilaa! exclamou Afonso. J meu pai dizia: poupe-se ao boi
a vista do malho.
- Separados, separados, meu senhor, afirmou o procurador num tom
profundo.
Carlos concordou. E Vilaa bem depressa descobriu, para o laboratorio, um
antigo armazm, vasto e retirado, ao fundo de um ptio, junto ao largo das
Necessidades.
- E o consultrio, meu senhor, no  aqui, nem acol;  no Rocio, ali em pleno
Rocio!
Esta idia do Vilaa no era desinteressada. Grande entusiasta da Fuso,
membro do Centro progressista, Vilaa Junior aspirava a ser vereador da
cmara, e mesmo em dias de satisfao superior (como quando o seu
aniversario natalicio vinha anunciado no Ilustrado, ou quando no Centro citava
com aplauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptides mereciam do seu
partido uma cadeira em S. Bento. Um consultrio gratuito, no Rocio, o
consultrio do dr. Maia, do seu Maia reluziu-lhe logo vagamente como um
elemento de influencia. E tanto se agitou, que da a dois dias tinha l alugado
um primeiro andar d'esquina.
Carlos mobilou-o com luxo. Numa antecmara, guarnecida de banquetas de
marroquim, devia estacionar,  francesa, um criado de libr. A sala de espera
dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, as
plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cr, e ricas poltronas cercando
a jardineira coberta de coleces do Charivari, de vistas estereoscopicas,
d'albuns de actrizes seminuas; para tirar inteiramente o ar triste de
consultorio at um piano mostrava o seu teclado branco.
O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quase austero, todo em veludo
verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que comeavam a
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cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do Ramalhete, o
Cruges, o marqus de Souzelas, com quem percorrera a Itlia - vieram vr
estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano e achou-o
abominavel; Taveira absorveu-se nas fotografias d'actrizes; e a unica
aprovao franca veio do marqus, que depois de contemplar o div do
gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso, ffo,
experimentou-lhe a doura das molas e disse, piscando o olho a Carlos:
- A calhar.
No pareciam acreditar nestes preparativos. E todavia eram sinceros. Carlos
at fizera anunciar o consultrio nos jornais; quando viu porem o seu nome
em letras grossas, entre o de uma engomadeira  Boa Hora e um reclamo de
casa de hospedes, - encarregou Vilaa de retirar o anuncio.
Ocupava-se ento mais do laboratorio, que decidira instalar no armazem, s
Necessidades. Todas as manhs, antes de almoo, ia visitar as obras. Entravase
por um grande ptio, onde uma bela sombra cobria um poo, e uma
trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam ao muro. Carlos j
decidira transformar aquele espao em fresco jardinete ingls; e a porta do
casaro encantava-o, ogival e nobre, resto de fachada d'ermida, fazendo um
acesso veneravel para o seu sanctuario de cincia. Mas dentro os trabalhos
arrastavam-se sem fim; sempre um vago martelar preguioso numa poeira
alvadia; sempre as mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas
camadas de aparas! Um carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar ali,
desde seculos, aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no
telhado os trabalhadores que andavam alargando a claraboia, no cessavam
de assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
invariavelmente como da a dois dias havia de s. ex. vr a diferena. Era
um homem de meia idade, risonho, de falar doce, muito barbeado, muito
lavado, que morava ao p do Ramalhete, e tinha no bairro fama de
republicano. Carlos, por simpatia, como vizinho, apertava-lhe sempre a mo:
e o sr. Vicente, considerando-o por isso um avanado, um democrata,
confiava-lhe as suas esperanas. O que ele desejava primeiro que tudo era um
93, como em Frana...
- O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada e rolia face do
demagogo.
- No, senhor, um navio, um simples navio...
- Um navio?
- Sim, senhor, um navio fretado  custa da nao, em que se mandasse pela
barra fora o rei, a famlia real, a cambada dos ministros, dos politicos, dos
deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
Carlos sorria, s vezes argumentava com ele.
- Mas est o sr. Vicente bem certo, que apenas a cambada, como to
exactamente diz, desaparecesse pela barra fora, ficavam resolvidas todas as
cousas e tudo atolado em felicidade?
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No, o sr. Vicente no era to burro que assim pensasse. Mas, suprimida a
cambada, no via s. ex.? Ficava o pas desatravancado; e podiam ento
comear a governar os homens de saber e de progresso...
- Sabe v. ex. qual  o nosso mal? No  m vontade dessa gente;  muita
soma de ignorancia. No sabem. No sabem nada. Eles no so maus, mas
so umas cavalgaduras!
- Bem, ento essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o relgio e
despedindo-se dele com um valente shakehands, veja se me andam. No lho
peo como proprietario,  como correligionario.
- D'aqui a dois dias ha de v. ex. vr a diferena, respondia o mestre d'obras,
desbarretando-se.
No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoo. Carlos
encontrava quase sempre o av j na sala de jantar, acabando de percorrer
algum jornal junto ao fogo, onde a tepida suavidade daquele fim de outono
no permitia acender lume, mas verdejando todo de plantas d'estufa.
Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
seu luxo macio e sobrio, as baixelas antigas; pelas tapearias ovaes dos
muros apainelados corriam scenas de balada, caadores medivaes soltando o
falco, uma dama entre pagens alimentando os cisnes de um lago, um
cavaleiro de viseira calada seguindo ao longo de um rio; e contrastando com o
tecto escuro de castanho entalhado a mesa resplandecia com as flores entre
os cristaes.
O reverendo Bonifcio, que desde que se tornara dignatario da Egreja comia
com os senhores, l estava j, magestosamente sentado sobre a alvura
nevada da toalha,  sombra de algum grande ramo. Era ali, no aroma das
rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar estpido, as
sopas de leite servidas num covilhete de Strasburgo, depois agachava-se,
traava por diante do peito a fofa pluma da sua cauda, e, de olhos cerrados,
os bigodes tesos, todo ele uma bola entufada de pelo branco malhado de ouro,
gozava de leve uma sesta macia.
Afonso, - como confessava, sorrindo e humilhado - a-se tornando com a
velhice um gourmet exigente; e acolhia, com uma concentrao de critico, as
obras d'arte do chef francez que tinham agora, um cavalheiro de mau genio,
todo bonapartista, muito parecido com o imperador, e que se chamava Mr.
Theodore. Os almoos no Ramalhete eram sempre delicados e longos; depois,
ao caf, ficavam ainda conversando; e passava da uma hora, da hora e meia,
quando Carlos, com uma exclamao, precipitando-se sobre o relgio, se
lembrava do seu consultorio. Bebia um clice de Chartreuse, acendia  pressa
um charuto:
- Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
E o av, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquela ocupao,
emquanto ele ficava ali a vadiar toda a manh...
- Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v para l passar um
bocado, ocupar-me de qumica.
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- E ser talvez um grande chimico. O av tem j a feitio.
O velho sorria.
- Esta carcassa j no d nada, filho. Est pedindo eternidade!
- Quer alguma coisa da Baixa, de Babilonia? perguntava Carlos, abotoando 
pressa as suas luvas de governar.
- Bom dia de trabalho.
- Pouco provavel...
E no dog-cart, com aquela linda egoa, a Tunante ou no faeton com que
maravilhava Lisboa, Carlos l partia em grande estilo para a Baixa, para o
trabalho.
O seu gabinete, no consultorio, dormia numa paz tepida entre os espessos
veludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda verde corridas.
Na sala, porm, as trs janelas abertas bebiam  farta a luz; tudo ali parecia
festivo; as poltronas em torno da jardineira estendiam os seus braos,
amaveis e convidativas; o teclado branco do piano ria e esperava, tendo
abertas por cima as Canes de Gounod; mas no aparecia jamais um doente.
E Carlos, - exactamente como o criado que, na ociosidade da antecamara,
dormitava sobre o Diario de Noticias, acaapado na banqueta - acendia um
cigarro Laferme, tomava uma Revista, e estendia-se no div. A prosa porm
dos artigos estava como embebida do tdio moroso do gabinete: bem
depressa bocejava, deixava cair o volume.
Do Rocio, o ruido das carroas, os gritos errantes de preges, o rolar dos
americanos, subiam, numa vibrao mais clara, por aquele ar fino de
novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, vinha
doirar as fachadas enxovalhadas, as cpas mesquinhas das arvores de
municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurrao lenta de cidade
preguiosa, esse ar aveludado de clima rico, pareciam ir penetrando pouco a
pouco naquele abafado gabinete e resvelando pelos veludos pesados, pelo
verniz dos moveis, envolver Carlos numa indolencia e numa dormencia... Com
a cabea na almofada, fumando, ali ficava, nessa quietao de sesta, num
scismar que se a desprendendo, vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que
se eleva de uma brazeira meia apagada; at que com um esforo sacudia este
torpor, passeiava na sala, abria aqui e alm pelas estantes um livro, tocava no
piano dois compassos de walsa, espriguiava-se - e, com os olhos nas flores
do tapete, terminava por decidir que aquelas duas horas de consultorio eram
estpidas!
- Est a o carro? a perguntar ao criado.
Acendia bem depressa outro charuto, calava as luvas, descia, bebia um largo
sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
- Dia perdido!
Foi uma dessas manhs que preguiando assim no sof com a Revista dos
Dois Mundos na mo, ele ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz bem
conhecida, bem querida, que dizia por trs do reposteiro:
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- Sua Alteza Real est visivel?
- Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do sof.
E cahiram nos braos um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
- Quando chegaste tu?
- Esta manh. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos ombros,
o seu quadrado de vidro, e entalando-o enfim no olho. Caramba! Tu vens
esplendido desses Londres, dessas civilisaes superiores. Ests com um ar
Renascena, um ar Valois... No ha nada como a barba toda!
Carlos ria, abraando-o outra vez.
- E donde vens tu, de Celorico?
- Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O fgado, o bao, uma
infinidade de vsceras comprometidas. Enfim, doze anos de vinhos e guas
ardentes...
Depois falaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, s vrzeas
de Celorico, o adeus de eternidade.
- Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me sucede com minha
me... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir viver para
Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, no cau! Fiquei na
quinta, fazendo epigramas ao padre Serafim e a toda a corte do cu. Chega
julho, e aparece nos arredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que
vocs lhe chamam diftericas... A mam salta imediatamente  concluso que 
a minha presena, a presena do ateu, do demagogo, sem jejuns e sem
missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minha irm concorda.
Consultam o padre Serafim. O homem, que no gosta de me vr na quinta, diz
que  possvel que haja indignao do Senhor - e minha me vem pedir-me
quase de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine,
mas que no esteja ali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a
Foz...
- E a epidemia...
- Desapareceu logo, disse o Ega, comeando a puxar devagar dos dedos
magros uma longa luva cor de canrio.
Carlos mirava aquelas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o cabelo que
ele trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na gravata de setim
uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandi, vistoso, paramentado,
artificial e com p d'arroz - e Carlos deixou enfim escapar a exclamao
impaciente que lhe bailava nos lbios:
- Ega, que extraordinrio casaco!
Por aquele sol macio e morno de um fim de outono portugus, o Ega, o antigo
bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelia, uma sumptuosa pelia de
prncipe russo, agasalho de tren e de neve, ampla, longa, com alamares
trespassados  Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoo esganiado e
dos pulsos de tisico uma rica e ffa espessura de peles de marta.
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-  uma boa pelia, hein? disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exibindo a
opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios da epidemia.
- Como podes tu suportar isso?
-  um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
Tornou a recostar-se no sof, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e,
de monocolo no olho, examinou o gabinete.
- E tu que fazes? conta-me l... Tens isto explendido!
Carlos falou dos seus planos, de altas idias de trabalho, das obras do
laboratorio...
- Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega interrompendo-o,
erguendo-se para ir apalpar o veludo dos reposteiros, mirar os torneados da
secretria de pau preto.
- No sei. O Vilaa  que deve saber...
E Ega, com as mos enterradas nos vastos bolsos da pelia, inventariando o
gabinete, fazia consideraes:
- O veludo d seriedade... E o verde escuro  a cor suprema,  a cor estetica...
Tem a sua expresso prpria, enternece e faz pensar... Gosto deste div.
Movel de amor...
Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, estudando
os ornatos.
- Tu s o grandioso Salomo, Carlos! O papel  bonito... E o cretonesinho
agrada-me.
Apalpou-o tambm. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, num
vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preo de tudo; e diante do piano,
olhando o livro de musica aberto, as Canes de Gounod, teve uma surpresa
enternecida:
- Homem,  curioso... C me aparece! A Barcarola!  deliciosa, hein?...
Dites, la jeune bele,
Ou voulez-vous aler?
La voile...
Estou um bocado rouco... Era a nossa cano na Foz!
Carlos teve outra exclamao, e crusando os braos diante dele:
- Tu ests extraordinrio, Ega! Tu s outro Ega!... A proposito da Foz... Quem
 essa Madame Cohen, que estava tambm na Foz, de quem tu, em cartas
sucessivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na Haia, em Londres,
me falavas como os arrobos do Cantico dos Canticos?
Um leve rubor subiu s faces do Ega. E limpando negligentemente o monocolo
ao leno de seda branca:
- Uma judia. Por isso usei o lirismo bblico.  a mulher do Cohen, has de
conhecer, um que  director do Banco Nacional... Dmos-nos bastante. 
simpatica... Mas o marido  uma besta... Foi uma flitartion de praia. Voila tout.
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Isto era dito aos bocados, passeando, puxando o lume ao charuto, e ainda
crado.
- Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocs no Ramalhete? O av Afonso?
Quem vaipor l?...
No Ramalhete, o av fazia o seu whist com os velhos parceiros. Ia o D. Diogo,
o decrepito leo, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os bigodes... Ia o
Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de sangue,  espera da sua
apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
- No conheo. Refugiado?... Polaco?...
- No, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e complicou
esta simples transaco com tantas finuras diplomaticas, tantos documentos,
tantas cousas com o selo real da Filandia, que o pobre Vilaa aturdido, para se
desembaraar, remeteu-o ao av. O av, desnorteado tambm, ofereceu-lhe
as cocheiras de graa. Steinbroken considera isto um servio feito ao rei da
Filandia,  Filandia, vai visitar o av, em grande estado, com o secretario da
legao, o consul, o vice-cousul...
- Isso  sublime!
- O av convida-o a jantar... E como o homem  muito fino, um gentleman,
entusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade no
whist, o av adopta-o. No sae do Ramalhete.
- E de rapazes?
De rapazes, aparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega no conhecia, um diabo adoidado,
maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marqus de Souzelas...
- No ha mulheres?
- No ha quem as receba.  um covil de solteires. A viscondessa, coitada...
- Bem sei. Um apoplet...
- Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambm o Silveirinha, chegou-nos
ltimamente o Silveirinha...
- O de Resende, o cretino?
- O cretino. Euviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado tisico, todo
carregado de luto... Um funebre.
O Ega, repoltreado, com aquele ar de tranquila e solida felicidade que Carlos j
notara, disse puchando lentamente os punhos:
-  necessrio reorganizar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo, uma
bohemiasinha dourada, umas soires de inverno, com arte, com literatura...
Tu conheces o Craft?
- Sim, creio que tenho ouvido falar...
Ega teve um grande gesto. Era indispensvel conhecer o Craft! O Craft era
simplesmente a melhor coisa que havia em Portugal...
-  um ingls, uma espcie de doido?...
Ega encolheu os ombros. Um doido!... Sim, era essa a opinio da rua dos
Fanqueiros; o indgena, vendo uma originalidade to forte como a de Craft,
no podia explic-la seno pela doidice. O Craft era um rapaz extraordinrio!...
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Agora tinha ele chegado da Sucia, de passar trs meses com os estudantes
de Upsala. Estava tambm na Foz... Uma individualidade de primeira ordem!
-  um negociante do Porto, no ?
- Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a face,
enojado de tanta ignorancia. O Craft  filho de um clergiman da egreja inglesa
do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut ou d'Australia, um Nababo,
que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. Mas no negoceia, nem sabe o
que isso . D largas ao su temperamento bironeano,  o que faz. Tem
viajado por todo o universo, coleciona obras d'arte, bateu-se como voluntario
na Abissinia e em Marrocos, enfim vive, vive na grande, na forte, na heroica
acepo da palavra.  necessrio conhecer o Craft. Vaes-te babar por ele...
Tens razo, caramba, est calor.
Desembaraou-se da opulenta pelia, e apareceu em peitilho de camisa.
- O que! tu no trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem colete?
- No; ento no a podia aguentar... Isto  para o efeito moral, para
impressionar o indigena... Mas, no ha negal-o,  pesada!
E imediatamente voltou  sua idia: apenas Craft chegasse do Porto
relacionavam-se, organisava-se um Cenculo, um Decameron d'arte e
diletantismo, rapazes e mulheres - trs ou quatro mulheres para cortarem,
com a graa dos decotes, a severidade das filosofias...
Carlos ria-se desta idia do Ega. Trs mulheres de gosto e de luxo, em Lisboa,
para adornar um cenaculo! Lamentavel iluso de um homem de Celorico! O
marqus de Souzela tinha tentado, e para uma vez s, uma coisa bem mais
simples - um jantar no campo com actrizes. Pois fora o escndalo mais
engraado e mais caracteristico: uma no tinha criada e queria levar consigo
para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia que, aceitando, o brasileiro lhe
tirasse a mezada; uma consentiu, mas o amante, quando soube, deu-lhe uma
ca. Esta no tinha vestido para ir; aquela pretendia que lhe garantissem
uma libra; houve uma que se escandalizou com o convite como com um
insulto. Depois, os chulos, os queridos, os plhos, complicaram
medonhamente a questo; uns exigiam ser convidados, outros tentavam
desmanchar a festa; houve partidos, fizeram-se intrigas, - enfim esta coisa
banal, um jantar com actrizes, resultou em o Tarquinio do Ginsio levar uma
facada...
- E aqui tens tu Lisboa.
- Enfim, exclamou o Ega, se no aparecerem mulheres, importam-se, que 
em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, idias,
filosofias, teorias, assumptos, estticas, cincias, estilo, industrias, modas,
maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilizao
custa-nos carissima com os direitos da alfandega: e  em segunda mo, no
foi feita para ns, fica-nos curta nas mangas... Ns julgamo-nos civilizados
como os negros de S. Thom se supem cavalheiros, se supem mesmo
brancos, por usarem com a tanga uma casaca velha do patro... Isto  uma
choldra torpe. Onde pus eu a charuteira?
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Desembaraado da majestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega reaparecia,
perorando com os seus gestos aduncos de Mefistofeles em verve, lanando-se
pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas grandes frases, numa lucta
constante com o moncolo, que lhe caa do olho, que ele procurava pelo peito,
pelos ombros, pelos rins, retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por
bichos. Carlos animava-se tambm, a fria sala aquecia; discutiam o
Naturalismo, Gambeta, o Nihilismo; depois, com ferocidade e  uma,
malharam sobre o pas...
Mas o relgio ao lado bateu quatro horas; imediatamente Ega saltou sobre a
pelissa, sepultou-se nela, aguou o bigode ao espelho, verificou a pose, e,
encouraado nos seus alamares, sahio com um arsinho de luxo e d'aventura.
- John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, onde
ests tu?
- No Universal, esse sancturio!
Carlos abominava o Universal, queria que ele viesse para o Ramalhete.
- No me convm...
- Em todo o caso vs hoje l jantar, ver o av.
- No posso. Estou comprometido com a besta do Cohen... Mas vou l amanh
almoar.
J nos degraus da escada, voltou-se, entalou o moncolo, gritou para cima:
- Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
- O qu! est prompto? exclamou Carlos, espantado.
- Est esboado,  brocha larga...
O Livro do Ega! Fra em Coimbra, nos dois ltimos anos, que ele comera a
falar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de capitulos, citando pelos
cafs frases de grande sonoridade. E entre os amigos do Ega discutia-se j o
livro do Ega como devendo iniciar, pela frma e pela idia, uma evoluo
literaria. Em Lisboa (onde ele vinha passar as ferias e dava ceias no Silva) o
livro fora anunciado como um acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou
seus condiscipulos, tinham levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e
pelas ilhas a fama do livro do Ega. J de qualquer modo essa noticia chegra
ao Brasil... E sentindo esta ansiosa espectativa em torno do seu livro - o Ega
decidira-se enfim a escreve-lo.
Devia ser uma epopa em prosa, como ele dizia, dando, sob episdios
simbolicos, a historia das grandes fases do Universo e da Humanidade.
Intitulava-se Memorias de um Atomo, e tinha a frma de uma autobiografia.
Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a srio em Coimbra)
aparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das Nebuloses primitivas:
depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa de fogo que devia ser
mais tarde a Terra: enfim, fazia parte da primeira folha de planta que surgiu
da crosta ainda mole do globo. Desde ento, viajando nas incessantes
transformaes da substancia, o atomo do Ega entrava na rude structura do
Orango, pai da humanidade - e mais tarde vivia nos lbios de Plato.
Negrejava no burel dos santos, refulgia na espada dos heris, palpitava no
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corao dos poetas. Gota de gua nos lagos de Galila, ouvira o falar de Jesus,
aos fins da tarde, quando os apostolos recolhiam as redes; n de madeira na
tribuna da Conveno, sentira o frio da mo de Robespierre. Errara nos vastos
aneis de Saturno; e as madrugadas da terra tinham-no orvalhado, petala
resplandecente de um dormente e languido lrio. Fra onipresente, era
onisciente. Achando-se finalmente no bico da pena do Ega, e cansado desta
jornada atravs do Ser, repousava - escrevendo as suas Memorias... Tal era
este formidavel trabalho - de que os admiradores do Ega, em Coimbra, diziam,
pensativos e como esmagados de respeito:
-  uma Bblia!
V
No escritrio de Afonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a partida
de whist. A mesa estava ao lado da chamin, onde a chama morria nos
carves escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo japons,
por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
Esse velho dandi, - a quem as damas de outras eras chamavam o Lindo
Diogo, gentil toureiro que dormira num leito real - acabava justamente de ter
um dos seus acessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o sacudiam
como uma runa, que ele abafava no leno, com as veias inchadas, rxo at 
raiz dos cabelos.
Mas passara. Com a mo ainda tremula, o decrepito leo limpou as lgrimas
que lhe embaciavam os olhos avermelhados, comps a rosa de musgo na
botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua gua chasada, e perguntou a
Afonso, seu parceiro, numa voz rouca e surda:
- Paus, hein?
E de novo, sobre o pano verde, as cartas foram caindo num daqueles silencios
que se seguiam s tosses de D. Diogo. Sentia-se s a respirao assobiada,
quase silvante, do general Sequeira, muito infeliz essa noite, desesperado com
o Vilaa seu parceiro, e com todo o sangue na face.
Um tom fino retiniu, o relgio Luiz XV foi ferindo alegremente, vivamente, a
meia noite; - depois a toada argentina do seu minuete vibrou um momento e
morreu. Houve de novo um silncio. Uma renda vermelha recobria os globos
de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim coada, caindo sobre os
damascos vermelhos das paredes, dos assentos, fazia como uma doce
refraco cor de rosa, um vaporoso de nuvem em que a sala se banhava e
dormia: s, aqui e alm, sobre os carvalhos sombrios das estantes, rebrilhava
em silncio o ouro de um Svres, uma palidez de marfim, ou algum tom
esmaltado de velha majolica.
- O que! ainda encarniados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,
entrava, e com ele o rumor distante de bolas de bilhar.
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Afonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabea, a perguntar com
interesse:
- Como vaiela? Est sossegada?
- Est muito melhor!
Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem alsaciana,
casada com o Marcelino padeiro, muito conhecida no bairro pelos seus belos
cabelos, loiros, e penteados sempre em tranas soltas. Tinha estado  morte
com uma pneumonia; e apesar de melhor, como a padaria ficava defronte,
Carlos ainda s vezes  noite atravessava a rua para a ir vr, tranquilisar o
Marcelino, que, defronte do leito e de gabo pelos ombros, sufocava soluos
d'amante, escrevinhando no livro de contas.
Afonso interessara-se anciosamente por aquela pneumonia; e agora estava
realmente agradecido  Marcelina por ter sido salva por Carlos. Falava dela
comovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsaciano, a prosperidade que
trouxera  padaria... Para a convalescena, que se aproximava, j lhe
mandra at seis garrafas de Chateau-Margaux.
- Ento fora de perigo, inteiramente fora de perigo? - perguntou Vilaa, com
os dedos na caixa do rap, sublinhando muito a sua solicitude.
- Sim, quase rija - disse Carlos, que se aproximara da chamin, esfregando as
mos, arrepiado.
 que a noite, fora, estava regelada! Desde o anoitecer geava, de um cu fino
e duro, transbordando de estrelas que rebrilhavam como pontas afiadas d'ao;
e nenhum daqueles cavalheiros, desde que se entendia, conhecera jamais o
termometro to baixo. Sim, Vilaa lembrava-se de um janeiro pior no inverno
de 64...
-  necessrio carregar no punch, hein, general! - exclamou Carlos, batendo
galhofeiramente nos ombros macios do Sequeira.
- No me oponho, rosnou o outro, que fixava com concentrao e rancor um
valete de copas sobre a mesa.
Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carves: uma chuva d'oiro caiu
por baixo, uma chama mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,
avermelhando em redor as peles de urso onde o Reverendo Bonifcio,
espapado, torrava ao calor, ronronava de gozo.
- O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os ps  chama. Tem, emfim,
justificada a pelissa. A proposito, algum dos senhores tem visto o Ega estes
ltimos dias?
Ningum respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa mo
de D. Diogo recolhia de vagar a vasa - e languidamente, no mesmo silncio,
soltou uma carta de paus.
-  Diogo!  Diogo! gritou Afonso, estorcendo-se, como se o trespassasse um
ferro.
Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, colocou o seu
valete; Afonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; Vilaa bateu
de estalo com o az. E imediatamente foi em redor uma discusso tremenda
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sobre a puchada de D. Diogo - em quanto Carlos, a quem as cartas sempre
enfastiavam, se debruava a coar o ventre fofo do veneravel Reverendo.
- Que perguntavas tu, filho? disse enfim Afonso erguendo-se, ainda irritado, a
buscar tabaco para o cachimbo, sua consolao nas derrotas. O Ega? No,
ningum o viu, no tornou a aparecer! Est tambm um bom ingrato, esse
John...
Ao nome do Ega, Vilaa, parando de baralhar as cartas, erguera a face
curiosa:
- Ento sempre  certo que ele vai montar casa?
Foi Afonso que respondeu, sorrindo e acendendo o cachimbo:
- Montar casa, comprar coup, deitar libr, dar soires literarias, publicar um
poema, o diabo!
- Ele esteve l no escriptorio, dizia Vilaa recomeando a baralhar. Esteve l a
indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de veludo, etc. O veludo
verde deu-lhe no gto... Eu, como  um amigo da casa, l lhe prestei
informaes, at lhe mostrei as contas. - E respondendo a uma pergunta do
Sequeira: - Sim, a me tem dinheiro, e creio que lhe d o bastante. Que em
quanto a mim, ele vem-se meter na poltica. Tem talento, fala bem, o pai j
era muito regenerador... Ali ha ambio.
- Ali ha mulher, disse D. Diogo, colocando com peso esta deciso e
acentuando-a com uma caricia languida  ponta frisada dos bigodes brancos.
L-se-lhe na cara, basta vr-lhe a cara... Ali ha mulher.
Carlos sorria, gabando a penetrao de D. Diogo, o seu fino olho  Balzac; e
Sequeira, logo, franco como velho soldado, quissaber quem era a Dulcinea.
Mas o velho dandi declarou, da profundidade da sua experiencia, que essas
cousas nunca se sabiam, e era preferivel no se saberem. Depois passando os
dedos magros e lentos pela face, deixou cahir d'alto e com condescendencia
este juizo:
- Eu gosto do Ega, tem apresentao; sobretudo tem degag...
Tinham recebido as cartas, fez-se um silncio na mesa. O general, vendo o
seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e puxoulhe
uma fumaa furiosa.
- Os senhores so muito viciosos, vou vr a gente do bilhar, disse Carlos.
Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marqus, a perder j quatro mil ris.
Querem o punch aqui?
Nenhum dos parceiros respondeu.
E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silncio de solenidade. O
marqus, estirado sobre a tabela, com a perna meia no ar, o comeo de calva
alvejando  luz crua que caa dos abat-jours de porcelana, preparava a
carambola decisiva. Cruges, que apostra por ele, deixra o div, o cachimbo
turco, e, coando com um gesto nervoso a grenha crespa que lhe ondeava at
 gola do jaqueto, vigiava a bola inquieto, com os olhinhos piscos, o nariz
espetado. Do fundo da sala, destacando em preto, o Silveirinha, o
Eusebiosinho de Sta. Olavia, estendia tambm o pescoo, afogado numa
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gravata de viuvo de merino negro e sem colarinho, sempre macambzio, mais
molengo que outrora, com as mos enterradas nos bolsos - to funebre que
tudo nele parecia complemento do luto pesado, at o preto do cabelo chato,
at o preto das lunetas de fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marqus, o
conde Steinbroken, esperava: e apesar do susto, da emoo d'homem do
norte aferrado ao dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco,
sorrindo, sem desmanchar a sua linha britanica, - vestido como um ingls,
ingls tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco
curta, e largas calas de xadrez sobre sapates de taco raso.
- Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostesinbos para c, Silveirinha!
O marqus carambolara, ganhando a partida, e triunfava tambm:
- Voc trouxe-me a sorte, Carlos!
Steinbroken depusera logo o taco, e alinhava j sobre a tabela, lentamente,
uma a uma, as quatro placas perdidas.
Mas o marqus, de giz na mo, reclamava-o para outras refregas, esfaimado
de ouro filands.
- Nada mach!... Vc hoje 'st trivl! dizia o diplomata, no seu portugus
fluente, mas de acento barbaro.
O marqus insistia, plantado diante dele, de taco ao hombro como uma vara
de campino, dominando-o com a sua macia, desempenada estatura. E
ameaava-o de destinos medonhos numa voz possante habituada a ressoar
nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, for-lo a empenhar aqueles belos
aneis, leval-o ele, ministro da Filandia e representante de uma raa de reis
fortes, a vender senhas  porta da Rua dos Condes!
Todos riam; e Steinbroken tambm, mas com um riso franzido e dificil, fixando
no marqus o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo da sua miopia a
dureza de um metal. Apesar da sua simpatia pela ilustre casa de Souzela,
achava estas familiaridades, estas tremendas chalaas, incompativeis com a
sua dignidade e com a dignidade da Filndia. O marqus, porm, corao de
ouro, abraava-o j pela cinta, com expanso:
- Ento se no quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken
amigo!
A isto o ministro acedeu, afvel, preparando-se logo, dando caricias ligeiras s
suas, e aos anis do cabelo de um loiro de espiga desbotada.
Todos os Steinbrokens, de pais a filhos (como ele dissera a Afonso) eram bons
baritonos: e isso trouxera  famlia no poucos proventos sociaes. Pela voz
captivara seu pai o velho rei Rudolfo III, que o fizera chefe das caudelarias, e
o tinha noites inteiras nos seus quartos, ao piano, cantando psalmos
luteranos, coraes escolares, sagas da Dalecarlia - em quanto o taciturno
monarcha cachimbava e bebia, at que saturado de emoo religiosa,
saturado de cerveja preta, tombava do sof, soluando e babando-se. Ele
mesmo, Steinbroken, levara parte da sua carreira ao piano, j como addido, j
como segundo secretario. Feito chefe de misso, absteve-se: foi s quando vio
o Figaro celebrar repetidamente as walsas do prncipe Artof, embaixador da
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Russia em Paris, e a voz de basso do conde de Baspt, embaixador d'Austria
em Londres, que ele, seguindo to altos exemplos, arriscou, aqui e alem, em
soires mais intimas, algumas melodias filandezas. Enfim cantou no Pao. E
desde ento exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o seu cargo de
baritono plenipotenciario, como dizia o Ega. Entre homens, e com os
reposteiros corridos, Steinbroken no duvidava todavia cantarolar o que ele
chamava canonetas brejras - o Amant d'Amanda, ou uma certa balada
inglesa:
On te Serpentine,
Oh my Caroline...
Oh!
Este oh! como ele o expelia, gemido, bem puxado, num movimento de
batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os reposteiros
fechados.
Nessa noite, porm, o marqus, que o conduzia pelo brao  sala do piano,
exigia uma daquelas canes da Filandia, de tanto sentimento e que lhe
faziam to bem  alma...
- Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, frisk, gluzk... La ra l, l,
l!
- A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
Mas antes de entrar na sala, o marqus soltou o brao de Steinbroken, fez um
signal ao Silveirinha para o fundo do corredor - e a, sob um sombrio painel de
Santa Magdalena no deserto penitenciando-se e mostrando nudezas ricas de
ninfa lubrica, interpelou-o quase com aspereza:
- Vamos ns a saber. Ento, decide-se ou no?
Era uma negociao que havia semanas se arrastava entre eles, a respeito de
uma parelha d'guas. Silveirinha nutria o desejo de montar carruagem; e o
marqus procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que ele dizia ter
tomado enguio, apesar de serem dois nobres animais. Pedia por elas um
conto e quinhentos mil ris. Silveirinha fora avisado pelo Sequeira, por
Travassos, por outros entendedores, que era uma espiga: o marqus tinha a
sua moral prpria para negocios de gado, e exultaria em intrujar um pichote.
Apesar de advertido, Eusebio cedendo  influencia da grossa voz do marqus,
da robustez do seu fisico, da antiguidade do seu titulo, no ousava recusar.
Mas hesitava; e nessa noite deu a resposta usual de forreta, coando o queixo,
cosido ao muro:
- Eu verei, marqus... Um conto e quinhentos  dinheiro...
O marqus ergueu dois braos ameaadores como duas trancas:
- Homem, sim ou no! Que diabo... Dois animais que so duas estampas...
Irra ! Sim ou no!
Eusebio ajeitou as lunetas, rosnou:
- Eu verei... Ele  dinheiro. Sempre  dinheiro...
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- Queria voc, talvez, pag-las com feijes? Voce leva-me a cometer um
excesso!
O piano resoou, em dois acordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o
marqus, baboso por musica, imediatamente largou a questo das guas,
recolheu em pontas de ps. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coar o
queixo; emfim, s primeiras notas de Steinbroken, veio pousar como uma
sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabeleira como
pousada s costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no livro
de Melodias Filandesas. Ao lado, empertigado, quase oficial, com o leno de
seda na mo, a mo fincada contra o peito, Steinbroken soltava um canto
festivo, num movimento de tarantela triunfante, em que passavam, como um
entrechocar de seixos, esses bocados de palavras de que o marqus gostava,
frisk, slcht, clikst, glukst. Era a Primavera - fresca e silvestre, primavera do
norte em pas de montanhas, quando toda uma alda dana em cros sob os
fuscos abetos, a neve se derrete em cascatas, um sol plido aveluda os
musgos, e a brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as
cantoneiras de Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo
ele se a alando sobre a ponta dos ps, como levado no compasso vivo;
despegava ento a mo do peito, alargava um gesto, as belas joias dos seus
aneis faiscavam.
O marqus, com as mos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na
face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,
que viajara na Filandia, e cantava s vezes aquela Primavera nas suas horas
de sentimentalismo flamengo...
Steinbroken soltou um stacato agudo, isolado como uma voz num alto, - e
imediatamente, afastando-se do piano, passou o leno sobre as fontes, sobre
o pescoo, rectificou com um puxo a linha da sobrecasaca, e agradeceu o
acompanhamento ao Cruges num silencioso shake-hands.
- Bravo! bravo! berrava o marqus, batendo as mos como malhos.
E outros aplausos resoaram  porta, dos parceiros do whist, que tinham
findado a partida. Quasi imediatamente os escudeiros entravam com um
servio frio de croquetes e sandwiches, oferecendo St. Emilion ou Porto; e
sobre uma mesa, entre os renques de calices, a puncheira fumegou num
aroma doce e quente de conhaque e limo.
- Ento, meu pobre Steinbroken, exclamou Afonso, vindo-lhe bater
amavelmente no hombro, ainda d desses belos cantos a estes bandidos, que
o maltratam assim ao bilhar?
- Fui essfladito, si, essfladito. Agradecido, n, prefiro um copita Porto...
- Hoje fomos ns as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia o seu
punch.
- Voc tbem, meu genral?
- Sim, senhor, tambm me cascaram...
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E que dizia o amigo Steinbroken s noticias da manh? perguntava Afonso. A
queda de Mac-Mahon, a eleio de Grevi... O que o alegrava n'isto, era o
desaparecimento definitivo do antipatico senhor de Broglie e da sua clique. A
impertinencia daquele academico estreito, querendo impr a opinio de dois
ou trs sales doutrinarios  Frana inteira, a toda uma Democracia! Ah, o
Times cantava-lhas!
- E o Punch? No viu o Punch? Oh, delicioso!...
O ministro pousara o clice, e esfregando cautelosamente as mos disse numa
meia voz grave a sua frase, a frase definitiva com que julgava todos os
acontecimentos que aparecem em telegramas :
-  grve...  excessivemente grve...
Depois falou-se de Gambeta; e como Afonso lhe atribuia uma dictadura
proxima, o diplomata tomou misteriosamente o brao de Sequeira, murmurou
a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,
homens de estado, poetas, viajantes ou tenores.
-  um hom mto forte.  um hom excessivemente forte!
- O que ele ,  um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu clice.
E todos trs deixaram a sala, discutindo ainda a republica - em quanto Cruges
continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Chopin, depois de ter
devorado um prato de croquetes.
O marqus e D. Diogo, sentados no mesmo sof, um com a sua chasada
d'invalido, outro com um copo de St. Emilion, a que aspirava o bouquet,
falavam tambm de Gambeta. O marqus gostava de Gambeta: fora o nico
que durante a guerra mostrara ventas de homem; l que tivesse comido ou
que quizesse comer como diziam, - no sabia nem lhe importava. Mas era
teso! E o sr. Grevi tambm lhe parecia um cidado srio, optimo para chefe do
Estado...
Homem de sala? perguntou languidamente o velho leo.
O marqus s o vira na Assembla, presidindo e muito digno...
D. Diogo murmurou, com um melanclico desdem na voz, no gesto, no olhar:
- O que eu queria a toda essa canalha era a sade, marqus!
O marqus consolou-o, galhofeiro e amvel. Toda essa gente, parecendo forte
por se ocupar de cousas fortes, no fundo tinha astma, tinha pedra, tinha
gota... E o Dioguinho era um Hrcules...
- Um Hrcules! O que ,  que voc apaparica-se muito... A doena  um mau
habito em que a gente se pe.  necessrio reagir... Voc devia fazer
ginstica, e muita gua fria por essa espinha. Voc, na realidade,  de ferro!
- Enferrujadote, enferrujadote... - replicou o outro, sorrindo e desvanecido.
- Qual enferrujadote! Se eu fosse cavalo ou mulher, antes o queria a voc que
a esses badamecos que por a andam meio podres... J no ha homens da sua
tempera, Dioguinho!
- J no ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro
homem nas ruinas de um mundo.
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Mas era tarde, ia-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua chasada. O
marqus ainda se demorou, preguiando no sof, enchendo lentamente o
cachimbo, dando um olhar quela sala que o encantava com o seu luxo Luiz
XV, os seus floridos e os seus dourados, as cerimoniosas poltronas de
Beauvais feitas para a amplido das anquinhas, as tapearias de Gobelins de
tons desmaiados, cheias de galantes pastoras, longes de parques, laos e ls
de cordeiros, sombras d'idilios mortos, transparecendo numa trama de seda...
quela hora, no adormecimento que a pesando, sob a luz suave e quente das
velas que findavam, havia ali a harmonia e o ar de um outro sculo: e o
marqus reclamou do Cruges um minuete, uma gavota, alguma coisa que
evocasse Versalhes, Maria Antonieta, o ritmo das belas maneiras e o aroma
dos empoados. Cruges deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava
diluindo em suspiros, preparou-se, alargou os braos - e atacou, com um
pedal solene, o Hino da Carta. O marqus fugiu.
Vilaa e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados numa das arcas
baixas de carvalho lavrado.
- A fazer poltica? perguntou-lhes o marqus ao passar.
Ambos sorriram; Vilaa respondeu jocosamente:
-  necessrio salvar a patria!
Eusebio pertencia tambm ao centro progressista, aspirava a influencia
eleitoral no circulo de Resende, e ali s noites no Ramalhete faziam
conciliabulos. Nesse momento porm falavam dos Maias: Vilaa no duvidava
confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de Sta. Olavia, quase
criado com Carlos, certas cousas que lhe desagradavam na casa, onde a
auctoridade da sua palavra parecia diminuir; assim, por exemplo, no podia
aprovar o ter Carlos tomado uma frisa de assignatura.
- Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? Para l
no pr os ps, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha entusiasmo, e ele
a esteve. Tem ido l, eu sei? duas ou trs vezes... E para isto d c uns
poucos de centos de mil ris. Podia fazer o mesmo com meia duzia de libras!
No, no  governo. No fim a frisa  para o Ega, para o Taveira, para o
Cruges... Olhe, eu no me utilizo dela; nem o amigo.  verdade, que o amigo
est de luto.
Eusebio pensou, com despeito, que se podia meter para o fundo da frisa - se
tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso mole:
- Indo assim, at se podem encalacrar...
Uma tal palavra, to humilhante, aplicada aos Maias,  casa que ele
administrava, escandalizou Vilaa. Encalacrar! Ora essa!
- O amigo no me compreendeu... Ha despesas inuteis, sim, mas, louvado
Deus, a casa pode bem com elas!  verdade que o rendimento gasta-se todo,
at o ltimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas secas; e at aqui o
costume da casa foi pr de lado, fazer bolo, fazer reserva. Agora o dinheiro
derrete-se...
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Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove cavalos, o
cocheiro ingls, os grooms... O procurador acudiu:
- Isso, amigo,  de razo. Uma gente destas deve ter a sua representao, as
suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade...  como o sr. Afonso...
Gasta muito, sim, come dinheiro. No  com ele, que lhe conheo aquele
casaco ha vinte anos... Mas so esmolas, so penses, so emprestimos que
nunca mais v...
- Desperdicios...
- No lh'o censuro...  o costume da casa; nunca da porta dos Maias, j meu
pai dizia, saiu ningum descontente... Mas uma frisa, de que ningum usa! s
para o Cruges, s para o Taveira!...
Teve de se calar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,
abafado at aos olhos na gola de uma ulster, donde saam as pontas de um
cachenez de seda clara. O escudeiro desembaraou-o dos agasalhos; e ele, de
casaca e colete branco, limpando o bonito bigode mido da geada, veiu
apertar a mo ao caro Vilaa, ao amigo Eusebio, arrepiado, mas achando o frio
elegante, desejando a neve e o seu chic...
- Nada, nada, dizia Vilaa todo amvel, c o nosso solzinho portugus sempre
 melhor...
E foram entrando no fumoir, onde se ouviam as vozes do marqus, de Carlos,
numa das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavalos e sport.
- Ento? que tal? A mulher? foi a interrogao que acolheu o Taveira.
Mas antes de dar noticia da estreia da Moreli, a dama nova, Taveira reclamou
alguma coisa quente. E enterrado numa poltrona junto do fogo, com os
sapatos de verniz estendidos para as brasas, respirando o aroma do punch,
saboreando uma cigarete, declarou enfim que no tinha sido um fiasco.
- Que ela, a meu vr,  uma insignificancia, no tem nada, nem voz, nem
escola. Mas, coitada, estava to atrapalhada, que nos fez pena. Houve
indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ela estava
contente...
- Vamos a saber, Taveira, que tal  ela? inquiria o marqus.
- Cheia, dizia o Taveira colocando as palavras como pinceladas; alta; muito
branca; bons olhos; bons dentes...
- E o psinho? - E o marqus, j com os olhos acesos, passava de vagar a mo
pela calva.
Taveira no reparara no p. No era amador de ps...
- Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.
- A gente do costume...  verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da tua?
Os Gouvarinhos. L apareceram hoje...
Carlos no conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de
Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, poseur... E a
condessa, uma senhora inglesada, de cabelo cor de cenoura, muito bem
feita... Enfim, Carlos no conhecia.
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Vilaa encontrava o conde no centro progressista, onde ele era uma coluna do
partido. Rapaz de talento, segundo o Vilaa. O que o espantava  que ele
pudesse ter assim frisa de assinatura, atrapalhado como estava: ainda no
havia trs meses lhe tinham protestado uma letra de oitocentos mil ris, no
tribunal do comercio...
- Um asno, um caloteiro! disse o marqus com nojo.
- Passa-se l bem, s teras feiras... - disse Taveira, mirando a sua meia de
seda.
Depois falou-se do duelo do Azevedo da Opinio com o S Nunes, auctor d'El-
Rei Bolacha, a grande magica da Rua dos Condes, e ltimamente ministro da
marinha: tinham-se tratado furiosamente nos jornais de pulhas e de ladres: e
havia dez interminaveis dias que estavam desafiados e que Lisboa, em
pasmaceira, esperava o sangue. Cruges ouvira que S Nunes no se queria
bater, por estar de luto por uma tia; dizia-se tambm que o Azevedo partira
precipitadamente para o Algarve. Mas a verdade, segundo Vilaa, era que o
ministro do reino, primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a
casa dos dois cavalheiros bloqueada pela policia...
- Uma canalha! exclamou o marqus com um dos seus resumos brutaes que
varriam tudo.
- O ministro no deixa de ter razo, observou Vilaa. Isto s vezes, em duelos,
pode bem suceder uma desgraa...
Houve um curto silncio. Carlos, que caa de sono, perguntou ao Taveira,
atravez doutro bocejo, se vira o Ega no teatro.
- Podera! La estava de servio, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo
puxado...
- Ento essa coisa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marqus, parece
clara...
- Transparente, diafana! um cristal!...
Carlos, que se erguera a acender uma cigarete para despertar, lembrou logo a
grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel
no se saberem! Mas o marqus, a isto, lanou-se em consideraes pesadas.
Estimava que o Ega se atirasse; e via a um facto de represalia social, por o
Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral no gostava de judeus; mas nada lhe
ofendia tanto o gosto e a razo como a espcie banqueiro. Compreendia o
salteador de clavina, num pinheiral; admitia o comunista, arriscando a pele
sobre uma barricada. Mas os argentarios, os Fulanos e Cas. faziam-no
encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto meritorio!
- Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relgio. E eu aqui,
empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo s dez horas da
manh.
- Que diabo se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?
Cavaquea-se?
- Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... At contas!
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Afonso da Maia j estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham partido; e
D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l fora tambm a tomar ainda
gemada, a pr ainda o emplastro, sob o olho solicito da Margarida, sua
cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros no tardaram a deixar o
Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na ulster, trotou at casa, uma
vivendazinha perto com um bonito jardim. O marqus conseguiu levar Cruges
no coup, para lhe ir fazer musica a casa, no orgo, at s trs ou quatro
horas, musica religiosa e triste, que o fazia chorar, pensando nos seus amores
e comendo frango frio com fatias de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse,
batendo o queixo, to morosa e soturnamente como se caminhasse para a sua
prpria sepultura, l se dirigiu ao lupanar onde tinha uma paixo.
O laboratorio de Carlos estava prompto - e muito convidativo, com o seu
soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta mesa de mrmore, um amplo
div de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em redor, por
sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metais e cristais; mas as
semanas passavam, e todo esse belo material de experimentao, sob a luz
branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. S pela manh um servente ia
ganhar o seu tosto diario, dando l uma volta preguiosa com um espanador
na mo.
Carlos realmente no tinha tempo de se ocupar do laboratorio; e deixaria a
Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o segredo das
cousas - como ele dizia rindo ao av. Logo pela manh cedo a fazer as suas
duas horas d'armas com o velho Randon; depois via alguns doentes no bairro
onde se espalhara, com um brilho de legenda, a cura da Marcelina - e as
garrafas de Bordeus que lhe mandara Afonso. Comeava a ser conhecido como
medico. Tinha visitas no consultorio - ordinariamente bachareis, seus
contemporaneos, que sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l entravam,
murchos e com m cara, a contar a velha e mal disfarada historia de ternuras
funestas. Salvara de um garrotilho a filha de um brasileiro, ao Aterro - e
ganhara a a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um
homem da sua famlia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma operao
ovariotomica. E enfim (mas esta consagrao no a esperava realmente Carlos
to cedo) alguns dos seus bons colegas, que at a, vendo-o s a governar os
seus cavalos inglses, falavam do talento do Maia - agora percebendo-lhe
estas migalhas de clientela, comeavam a dizer que o Maia era um asno.
Carlos j falava a srio da sua carreira. Escrevera, com laboriosos requintes
d'estilista, dois artigos para a Gazeta Medica; e pensava em fazer um livro
d'idias geraes, que se devia chamar Medicina Antiga e Moderna. De resto
ocupava-se sempre dos seus cavalos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E
atravs de tudo isto, em virtude dessa fatal disperso de curiosidade que, no
meio do caso mais interessante de patologia, lhe fazia voltar a cabea, se
ouvia falar de uma estatua ou de um poeta, atraia-o singularmente a antiga
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idia do Ega, a criao de uma Revista, que dirigisse o gosto, pesasse na
poltica, regulasse a sociedade, fosse a fora pensante de Lisboa...
Era porm intil lembrar ao Ega este belo plano. Abria um olho vago,
respondia:
- Ah, a Revista... Sim, est claro, pensar n'isso! Havemos de falar, eu
aparecerei...
Mas no aparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam, s
vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que no passava no camarote
dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa de Carlos, por
trs de Taveira ou do Cruges; donde pudesse olhar de vez em quando Rachel
Cohen - e ali ficava, silencioso, com a cabea apoiada ao tabique, repousando
e como saturado de felicidade...
O dia (dizia ele) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava
estudando mobilias... Mas era facil encontr-lo pelo Chiado e pelo Loreto, a
rondar e a farejar - ou ento no fundo de tipias de praa, batendo a meio
galope, num espalhafato de aventura.
O seu dandismo requintava; arvorara, com o desplante soberbo de um
Brumel, casaca de botes amarelos sobre colete de setim branco; e Carlos
entrando uma manh cedo no Universal, deu com ele plido de clera, a
despropositar com um criado, por causa d'uns sapatos mal envernizados. Os
seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso Salcede, amigo do
Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, d'olho esperto e duro,
j com ares de emprestar a trinta por cento.
Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se s vezes
Rachel, e as opinies discordavam. Taveira achava-a deliciosa! - e dizia-o
rilhando o dente: ao marqus no deixava de parecer apetitosa, para uma vez,
aquela carnezinha faisande de mulher de trinta anos: Cruges chamava-lhe
uma lambisgoia relamboria. Nos jornais, na seco do High-life, ela era
uma das nossas primeiras elegantes: e toda a Lisboa a conhecia, e a sua
luneta de ouro presa por um fio de ouro, e a sua caleche azul com cavalos
pretos. Era alta, muito plida, sobre tudo s luzes, delicada de sade, com um
quebranto nos olhos pisados, uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um
ar de romance e de lrio meio murcho: a sua maior beleza estava nos cabelos,
magnificamente negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e
que ela deixava habilmente cahir numa massa meia solta sobre as costas,
como num desalinho de nudez. Dizia-se que tinha literatura, e fazia frases. O
seu sorriso lasso, plido, constante, dava-lhe um ar de insignificancia. O pobre
Ega adorava-a.
Conhecera-a na Foz, na Assembla; nessa noite, cervejando com os rapazes,
ainda lhe chamou camelia melada; dias depois j adulava o marido; e agora
esse demagogo, que queria o massacre em massa das classes medias,
soluava muita vez por causa dela, horas inteiras, cadopara cima da cama.
Em Lisboa, entre o Gremio o a Casa Havaneza, j se comeava a falar do
arranjinho do Ega. Ele todavia procurava pr a sua felicidade ao abrigo de
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todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas precaues tanta
sinceridade como prazer romantico do misterio: e era nos sitios mais
desageitados, fora de portas, para os lados do Matadouro, que ia furtivamente
encontrar a creada que lhe trazia as cartas dela... Mas em todos os seus
modos (mesmo no disfarce afectado com que espreitava as horas)
transbordava a imensa vaidade daquele adulterio elegante. De resto sentia
bem que os seus amigos conheciam a gloriosa aventura, o sabiam em pleno
drama: era mesmo talvez por isso, que, diante de Carlos e dos outros, nunca
at a mencionara o nome dela, nem deixara jamais escapar um lampejo de
exaltao.
Uma noite, porm, acompanhando Carlos at ao Ramalhete, noite de lua
calma e branca, em que caminhavam ambos calados, Ega, invadido decerto
por uma onda interior de paixo, soltou desabafadamente um suspiro, alargou
os braos, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
Isto fugira-lhe dos lbios como um comeo de confisso; Carlos ao lado no
disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se
imediatamente no puro interesse literario:
- No fim de contas, menino, digam l o que disserem, no ha seno o velho
Hugo...
Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra Hugo,
chamando-lhe saco-roto de espiritualismo, boca-aberta de sombra,
avsinho lirico, injurias peiores.
Mas nessa noite o grande fraseador continuou:
- Ah o velho Hugo! o velho Hugo  o campeo heroico de verdades eternas... 
necessrio um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o ideal pode ser real...
E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um
Viegas, que todas as semanas vinha ali fazer a fastidiosa chronica da sua
dispepsia - quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, de
sobrecasaca azul, luva gris-perle e um rolo de papel na mo.
- Tens que fazer, doutor?
- No, a a sair, janota!
- Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do Atomo... Senta-te a. Ouve
l.
Imediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o manuscripto,
espalmou-o, deu um puxo ao colarinho - e Carlos, que se pousara  borda do
div, com a face espantada e as mos nos joelhos, achou-se quase sem
transio transportado dos rugidos do ventre do Viegas para um rumor de
populaa, num bairro de judeus, na velha cidade de Heidelberg.
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- Mas espera l! exclamou ele. Deixa-me respirar. Isso no  o comeo do
livro! Isso no  o caos...
Ega ento recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambm.
- No, no  o primeiro episodio... No  o cahos.  j no sculo XV... Mas
num livro destes pode-se comear pelo fim... Conviu-me fazer este episodio:
chama-se a Hebrea.
A Cohen! pensou Carlos.
Ega tornou a alargar o colarinho - e foi lendo, animando-se, ferindo as
palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas sonoridades
finaes dos perodos. Depois da sombria pintura de um bairro medival de
Heidelberg, o famoso Atomo, o Atomo do Ega, aparecia alojado no corao do
esplendido prncipe Franck, poeta, cavaleiro, e bastardo do imperador
Maximiliano. E todo esse corao de heroe palpitava pela judia Ester, perola
maravilhosa do Oriente, filha do velho rabbino Salomo, um grande doutor da
Lei, perseguido pelo odio teologico do Geral dos Dominicanos.
Isto contava-o o Atomo num monologo, to recamado d'imagens como um
manto da Virgem est recamado d'estrelas - e que era uma declarao dele,
Ega,  mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio panteista: rompiam
coros de flores, coros de astros, cantando na linguagem da luz, ou na
eloquencia dos perfumes, a beleza, a graa, a pureza, a alma celeste de Ester
- e de Rachel... Enfim, chegava o negro drama da perseguio: a fuga da
famlia hebraica, atravz de bosques de bruxas e brutas aldas feudaes; a
apario, numa encrusilhada, do prncipe Franck que vem proteger Ester, de
lana alta, no seu grande corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a
queimar o rabbino e os seus livros herejes; a batalha, e o prncipe atravessado
pelo chuo de um reitre, indo morrer no peito d'Ester, que morre com ele num
beijo. Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluo; e era
tratado com as maneiras modernas d'estilo, o esforo atormentado inchando a
expresso, as camadas de cor atiradas  larga para fazer ressaltar o tom de
vida...
Ao findar o Atomo exclamava, com a vasta solenidade de um cheio d'orgo: -
assim arrefeceu, parou, aquele corao de heroe que eu habitava; e
evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos astros, levando
comigo a essencia pura desse amor imortal.
- Ento?... disse Ega, esfalfado, quase tremulo.
Carlos s pode responder:
- Est ardente.
Depois elogiou a srio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do
Eclesiastes, de noite, entre as ruinas da torre d'Oton, certas imagens de um
grande vo lirico.
Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a
sobrecasaca, e j de chapu na mo:
- Ento, parece-te apresentavel?...
- Vaes publicar?
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- No, mas enfim... - e ficou nesta reticencia, fazendo-se corado.
Carlos compreendeu tudo dias depois, encontrando na Gazeta do Chiado uma
descripo da leitura feita em casa do exmo. sr. Jacob Cohen, pelo nosso
amigo Joo da Ega, de um dos mais brilhantes episdios do seu livro - As
memorias de um atomo. E o jornalista acrescentava, dando a sua impresso
pessoal:  uma pintura dos sofrimentos porque passaram, nos tempos da
intolerncia religiosa, aqueles que seguem a Lei d'Israel. Que poder de
imaginao! Que fluencia d'estilo! O efeito foi extraordinrio, e quando o nosso
amigo fechou o manuscrito ao sucumbir da protagonista - vimos lgrimas em
todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!
Oh, furor do Ega! Rompeu nessa tarde pelo consultorio, plido, desorientado...
- Estas bestas! Estas bestas destes jornalistas! Leste? Lagrimas em todos os
olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica! Faz cair a coisa em ridiculo...
E depois a fluencia d'estilo. Que burros! Que idiotas!
Carlos, que cortava as folhas de um livro, consolou-o. Aquela era a maneira
nacional de falar d'obras d'arte... No valia a pena bramar...
- No, palavra, tinha vontade de quebrar a cara quele foliculario!
- E porque lha no quebras?
-  um amigo dos Cohens.
E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo
gabinete. Por fim irritado com a indiferena de Carlos:
- Que diabo ests tu a a ler? Nature parasitaire des acidents de
l'impaludisme... Que blague, a medicina! Dize-me uma coisa. Que diabo sero
umas picadas que me veem aos braos, sempre que vou a adormecer?...
- Pulgas, bichos, vermina... - murmurou Carlos com os olhos no livro.
- Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapu.
- Vais-te, John?
- Vou, tenho que fazer! - E junto do reposteiro, ameaando o cu com o
guarda-chuva, chorando quase de raiva: - Estes burros destes jornalistas! So
a escoria da sociedade!
Da a dez minutos reapareceu, bruscamente: e j com outra voz, num tom de
caso srio:
- Ouve c. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos Gouvarinhos?
- No tenho um interesse especial, respondeu Carlos, erguendo os olhos do
livro, depois de um silncio. Mas no tenho tambm uma repugnncia
especial.
- Bem, disse Ega. Eles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz
empenho... Gente inteligente, passa-se l bem... Ento, decidido.! Tera feira
vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos gouvarinhar.
Carlos ficou pensando naquela proposta do Ega, na maneira como ele
sublinhra o empenho da condessa. Lembrava-se agora que ela era muito
intima da Cohen: e ltimamente, em S. Carlos, naquela facil visinhana de
frisa, surprehendera certos olhares dela... Mesmo, segundo o Taveira, ela
realmente fazia-lhe um olho. E Carlos achava-a picante, com os seus cabelos
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crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos escuros, de um grande
brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem feita - e tinha uma pele
muito clara, fina e doce  vista, a que se sentia mesmo de longe o setim.
Depois daquele dia tristnho de aguaceiros, ele resolvera passar um bom
sero de trabalho, ao canto do fogo, no conforto do seu robe-de-chambre.
Mas, ao caf, os olhos da Gouvarinho comearam a faiscar-lhe por entre o
fumo do charuto, a fazer-lhe um olho, colocando-se tentadoramente entre ele
a sua noite d'estudo, pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo
culpa do Ega, esse Mefistofeles de Celorico!
Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porm  boca da frisa, preparado, de
colete branco e perola negra na camisa, - em lugar dos cabelos crespos e
ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um preto de doze anos,
trombudo e lusidio, de grande colarinho  mam sobre uma jaqueta de botes
amarelos; ao lado outro preto, mais pequeno, com o mesmo uniforme de
colgio, enterrava pela venta aberta o dedo calado de pelica pranca. Ambos
eles lhe relancearam os olhos bogalhudos, cor de prata embaciada. A pessoa
que os acompanhava, escondida para o fundo, parecia ter um catarro
ascoroso.
Dava-se a Lucia em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens no tinham
vindo - nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza do
seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de sudoeste,
parecia penetrar ali, derramando o seu pesadume, a morna sensao da sua
humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher solitaria, vestida de setim
claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gsdormia, e os arcos das rebecas,
sobre as cordas, pareciam ir adormecendo tambm.
- Isto est lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que ocupava o escuro da
frisa.
Cruges, amodorroado num acesso de spleen, com o cotovelo sobre as costas
da cadeira, os dedos por entre a cabeleira, todo ele embrulhado em crepes
sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo de um sepulchro:
- Pesadote.
Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquele preto de que os seus
olhos se no podiam despegar, ali entronisado na poltrona de reps verde da
Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde costumava
alvejar um lindo brao, - foi-lhe arrastando, a seu pesar, a imaginao para a
pessoa dela; relembrou toiletes com que ela ali estivera; e nunca lhe
pareceram to picantes, como agora que os no via, os seus cabelos ruivos,
cor de brasa s luzes, de um encrespado forte, como crestados da chama
interna. A carapinha do preto, essa, em lugar de risca tinha um sulco cavado 
tesoura na massa de l espessa. Quem seriam, por que estavam ali, aqueles
africanos de perfil trombudo?
- Tu j reparaste nesta extraordinria carapinha, Cruges?
O outro, que se no mexera da sua atitude de estatua tumular, grunhiu da
sombra um monossilabo surdo.
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Carlos respeitou-lhe os nervos.
De repente, ao desafinar mais spero de um coro, Cruges deu um salto.
- Isto s a pontap... Que empreza esta! rugio ele, envergando furiosamente o
palet.
Carlos foi leval-o no coup  rua das Flores, onde ele morava com a me e
uma irm; e at ao Ramalhete no cessou de lamentar comsigo o seu sero
d'estudo perdido.
O criado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o Tista) esperava-o, lendo o
jornal, na confortavel antecamara dos quartos do menino, forrada de veludo
cor de cereja, ornada de retratos de cavalos e panoplias de velhas armas, com
divs do mesmo veludo, e muito alumiada a essa hora por dois candieiros de
globo pousados sobre colunas de carvalho, onde se enrolavam lavores de
ramos de vide.
Carlos tinha desde os onze anos este criado de quarto, que viera com o Brown
para Sta. Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legao inglesa, e ter
acompanhado o ministro, sir Hrcules Morrisson, varias vezes a Londres. Foi
em Coimbra, nos Paos de Celas, que Baptista comeou a ser um
personagem: Afonso correspondia-se com ele de Sta. Olavia. Depois viajou
com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, partilharam dos mesmos
sandwiches no bufete das gares; Tista tornou-se um confidente. Era hoje um
homem de cincoenta anos, desempenado, robusto, com um colar de barba
grisalha por baixo do queixo, e o ar excessivamente gentleman. Na rua, muito
direito na sua sobrecasaca, com o par de luvas amarelas espetado na mo, a
sua bengala de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a
consideravel aparencia de um alto funcionario. Mas conservava-se to fino e
to desembaraado, como quando em Londres aprendera a walsar e a boxar
na rude balburdia dos sales-danantes, ou como quando mais tarde, durante
as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o
muro do quintal do sr. escrivo de fazenda - aquele que tinha uma mulher to
garota.
Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto, estendeuse,
cansado, numa poltrona.  luz opalina dos globos, o leito entre-aberto
mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo efeminado de bretanhas,
bordados e rendas.
- Que ha hoje no Jornal da Noite? perguntou ele bocejando, em quanto
Baptista o descalava.
- Eu li-o todo, meu senhor, e no me pareceu que houvesse coisa alguma. Em
Frana contina sossego... Mas a gente nunca pode saber, porque estes
jornais portuguess imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.
- So umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com eles...
Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um grog quente, Carlos j
deitado, aconchegado, abriu preguiosamente o livro, voltou duas folhas,
fechou-o, tomou uma cigarete, e ficou fumando com as palpebras cerradas,
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numa imensa beatitude. Atravs das cortinas pesadas sentia-se o sudoeste
que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os vidros.
- Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?
- Conheo o Pimenta, meu senhor, que  criado de quarto do sr. conde...
Criado de quarto e serve a mesa.
- E que diz ento esse Tormenta? perguntou Carlos, numa voz indolente,
depois de um silncio.
- Pimenta, meu senhor! O Manuel  Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe
Romo, por que estava acostumado ao outro criado que era Romo. E j isto
no  bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel  Pimenta. O
Pimenta no est contente...
E Baptista, depois de colocar junto da cabeceira a salva com o grog, o
assucareiro, as cigaretes, transmitiu as revelaes do Pimenta. O conde de
Gouvarinho, alm de muito massador e muito pequinhento, no tinha nada de
cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romo (ao Pimenta), mas to
coado e to cheio de riscas de tinta, de limpar a pena  perna e ao ombro,
que o Pimenta deitou o presente fora. O conde e a senhora no se davam
bem: j no tempo do Pimenta, uma ocasio,  mesa, tinham-se pegado de tal
modo que ela agarrou do copo e do prato, e esmigalhou-os no cho. E outra
qualquer teria feito o mesmo; por que o sr. conde, quando comeava a
repisar, a remoer, no se podia aturar. As questes eram sempre por causa de
dinheiro. O Tompson velho estava farto de abrir os cordes  bolsa...
- Quem  esse Tompson velho, que nos aparece agora, a esta hora da noite?
perguntou Carlos, a seu pesar interessado.
- O Tompson velho  o pai da sr. condessa. A sr. condessa era uma miss
Tompson, dos Tompson do Porto... O sr. Tompson no tem querido
ltimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez, j
no tempo do Pimenta tambm, o sr. conde, furioso, disse  senhora que ela e
o pai se deviam lembrar que eram gente de comercio e que fora ele que fizera
dela uma condessa; e com perdo de v. ex., a senhora condessa ali mesmo 
mesa mandou o condado  taba... Estas cousas no esto no genero do
Pimenta.
Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos lbios uma pergunta, mas
hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de to rigidos escrupulos, a respeito
de uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a porcelana,
mandava  tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:
- Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ela diverte-se?
- Creio que no, meu senhor. Mas a criada de confiana dela, uma escosesa,
essa  desobstinada. E no fica bem  senhora condessa ser assim to intima
com ela...
Houve um silncio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.
- Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo, no
escrevo eu a madame Rughel?
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Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,
aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com metodo,
estas datas: - Dia 1 de janeiro, telegrama expedido com felicitaes do
comeo d'ano a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs lises, Paris. Dia 3,
telegrama recebido de madame Rughel, reciprocando comprimentos,
exprimindo amizade, anunciando partida para Hamburgo. Dia 15, carta
lanada ao correio, para madame Rughel, Wiliam-Strasse, Hamburgo,
Alemagne. Depois - mais nada. De modo que havia j cinco semanas que o
menino no escrevia a madame Rughel...
-  necessrio escrever amanh, disse Carlos.
Baptista tomou uma nota.
Depois, entre uma fumaa languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na paz
dormente do quarto:
- Madame Rughel era muito bonita, no  verdade, Baptista?  a mulher mais
bonita que tu tens visto na tua vida!
O velho criado meteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem hesitar,
muito certo de si:
- Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda
em que tenho posto os olhos, se o menino d licena, era aquela senhora do
coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Viena.
Carlos atirou a cigarete para a salva - e escorregando pela roupa abaixo, todo
invadido por uma onda de recordaes alegres, exclamou da profundidade do
seu conforto, no antigo tom de enfase bohemia dos Paos de Celas.
- O sr. Baptista no tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma ninfa de
Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor de uma deusa da
Renascena, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de
Carlos Quinto... - Retire-se, senhor!
Baptista entalou mais o couvre-pieds, relanceou pelo quarto um olhar solicito,
e, contente da ordem em que as cousas adormeciam, sau, levando o
candieiro. Carlos no dormia: e no pensava na coronela de hussards, nem em
madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados lhe aparecia, num
vago dourado que provinha do reflexo de seus cabelos soltos, era a
Gouvarinho - a Gouvarinho que no tinha o explendor de uma deusa da
Renascena como madame Rughel, nem era a mulher mais linda em que
Baptista pusera os seus olhos como a coronela de hussards: mas, com o seu
nariz petulante e a sua boca grande, brilhava mais e melhor que todas na
imaginao de Carlos - porque ele esperara-a essa noite e ela no tinha
aparecido.
Na tera-feira prometida Ega no veio buscar Carlos para se irem gouvarinhar.
E foi Carlos que da a dias, entrando como por acaso no Universal, perguntou
rindo ao Ega:
- Ento quando nos gouvarinhamos?
Nessa noite, em S. Carlos, num entre-acto dos Huguenotes, Ega apresentou-o
ao Sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O conde, muito amvel,
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lembrou logo que j tivera, mais de uma vez, o prazer de passar pela porta de
Sta. Olavia, quando a vr os seus velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios -
uma formosa vivenda tambm. Falaram ento do Douro, da Beira,
compararam outras paisagens. Para o conde, nada havia, no nosso Portugal,
como os campos do Mondego: mas a sua parcialidade era perdovel, pois
nesses ferteis vales nascera e se criara: e falou um momento de Formozelha,
onde tinha casa, onde vivia edosa e doente sua me, a sr. condessa viuva...
Ega, que afectara beber as palavras do conde, comeou ento uma
controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas de uma f, a
beleza superior do Minho, esse paraso idilico. O conde sorria: via ali, como
ele observou a Carlos, batendo amavelmente no ombro do Ega, a rivalidade
das duas provincias. Emulao fecunda, de resto, no seu pensar...
- Ali est, por exemplo, dizia ele, o ciume entre Lisboa e Porto.  uma
verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria... Ouo
por ali lament-la. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia, acirral-a-hia,
se v. exas. me permitem a expresso. Nesta lucta das duas grandes cidades
do reino, podem outros vr despeitos mesquinhos, eu vejo elementos de
progresso. Vejo civilizao!
Proferia estas cousas como do alto de um pedestal, muito acima dos homens,
deixando-as providamente cair dos tesouros do seu intelecto  maneira de
dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristais da sua luneta de ouro
faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera curta, havia ao
mesmo tempo alguma coisa de doutoral e de casquilho.
Carlos dizia: Tem v. ex. razo, sr. conde. O Ega dizia: Voc v essas
cousas d'alto, Gouvarinho. Ele cruzara as mos por baixo das abas da casaca
- e estavam todos trs muito serios.
Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desapareceu. E da a um momento,
Carlos, apresentado como vizinho de camarote, recebia da sr. condessa
um grande shake-hand, em que tilintaram uma infinidade d'aros de prata e de
blangles indios sobre a sua luva preta de doze botes.
A sr. condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a
Carlos que o vira no vero passado em Paris, no salo baixo do Caf Inglez:
at por signal estava nessa noite um velho abominavel com duas garrafas
vazias diante de si, e contando alto, para uma mesa defronte, historias
horrorosas do sr. Gambeta: um sujeito ao lado protestou; o outro no fez
caso, era o velho duque de Gramont. O conde passou os dedos lentos pela
testa, com um ar quase angustioso: no se lembrava de nada disso! Queixouse
logo amargamente da sua falta de memria. Uma coisa to indispensvel
em quem segue a vida publica, a memria! e ele desgraadamente, no
possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo o homem devia lr) os
vinte volumes da Historia Universal de Cesar Cantu; lra-os com ateno,
fechado no seu gabinete, absorvendo-se na obra. Pois, senhores, escapara-lhe
tudo - e ali estava sem saber historia!
- V. ex. tem boa memria, sr. Maia?
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- Tenho uma rasovel memria.
- Inapreciavel bem de que goza!
A condessa voltara-se para a plata, coberta com o leque, com o ar
constrangido, como se aquelas palavras pueris do marido a diminuissem, a
desfeiassem... Carlos ento falou da opera. Que belo escudeiro huguenote
fazia o Pandoli! A condessa no aturava o Corceli, o tenor, com as suas notas
asperas e aquela obesidade que o tornava bufo. Mas tambm (lembrava
Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande raa dos Marios,
homens de beleza, de inspirao, realizando os grandes tipos liricos. Nicolini
era j uma degenerao... Isto fez lembrar a Pati. A condessa adorava-a, e a
sua graa de fada, e a sua voz semelhante a uma chuva de ouro!...
Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o cabelo
crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno dela errava,
no calor do gse da enchente, um aroma exagerado de verbena. Estava de
preto, com uma gargantilha de rendas negras,  Valois, afogando-lhe o
pescoo onde pousavam duas rosas escarlates. E toda a sua pessoa tinha um
arsinho de provocao e de ataque. De p, calado, grave, o conde batia a coxa
com a claque fechada.
O quarto acto comeara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram
defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a
condessa e falando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar dolente e
vago.
- Ns recebemos s teras feiras, disse a condessa a Carlos - e o resto da
frase perdeu-se num murmrio e num sorriso.
O conde acompanhou-o fora, ao corredor.
-  sempre uma honra para mim, dizia ele caminhando ao lado de Carlos,
fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma coisa neste pas... V.
ex.  desse numero, bem raro infelizmente.
Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
- No o lisonjeio. Eu nunca lisonjeio... Mas a v. ex. podem-se dizer estas
cousas, porque pertence  elite: a desgraa de Portugal  a falta de gente.
Isto  um pas sem pessoal. Quer-se um bispo? No ha um bispo. Quer-se um
economista? No ha um economista. Tudo assim! Veja v. ex. mesmo nas
profisses subalternas. Quer-se um bom estofador? No ha um bom
estofador...
Um cheio de instrumentos e vozes, de um tom sublime, passando pela porta
da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ltimas palavras sobre a deficiencia dos
fotografos... Escutou, com a mo no ar:
-  o coro dos punhais, no? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto com
proveito. Ha filosofia nesta musica...  pena que lembre to vivamente os
tempos da intolerncia religiosa, mas ha ali incontestavelmente filosofia!
VI
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Carlos, nessa manh, ia visitar de surpresa a casa do Ega, a famosa Vila
Balzac, que esse fantasista andra meditando e dispondo desde a sua
chegada a Lisboa, e onde se tinha enfim instalado.
Ega dera-lhe esta denominao literaria, pelos mesmos motivos porque a
alugra num suburbio longiquo, na solido da Penha de Frana, - para que o
nome de Balzac, seu padroeiro, o silncio campestre, os ares limpos, tudo ali
fosse favoravel ao estudo, s horas d'arte e d'ideal. Por que ia fechar-se l,
como num claustro de letras, a findar as Memorias de um Atomo! Smente,
por causa das distancias, tinha tomado ao ms um coup da companhia.
Carlos teve dificuldades em encontrar a Vila Balzac: no era, como tinha
dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graa um chaletsinho
retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. Passava-se primeiro a
Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se numa vereda larga, entre
quintais, descendo pelo pendor da colina, mas acessivel a carruagens; e a,
num recanto, ladeada de muros, aparecia enfim uma cazota de paredes
enxovalhadas, com dois degraus de pedra  porta, e transparentes novos dum
escarlate estridente.
Nessa manh, porm, debalde Carlos deu puxes desesperados  corda da
campainha, martelou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do
muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega: - a Vila Balzac
permaneceu muda, como desabitada, no seu retiro rustico. E todavia pareceu
a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de rolhas de
Champagne.
Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, que
assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de Nesle...
- Vai l amanh, se ningum responder, escala as janelas, pega fogo ao
predio, como se fossem apenas as Tulherias.
Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, j a Vila Balzac o esperava,
toda em festa:  porta o pagem, um garoto de feies horrvelmente
viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botes de metal, com uma
gravata muito branca e muito tesa; as duas janelas em cima, abertas,
mostrando o reps verde das bambinelas, bebiam  larga todo o ar do campo e
o sol de inverno: e no topo da estreita escada, tapetada de vermelho, Ega,
num prodigioso robe-de-chambre, de um estofo adamascado do sculo
dezoito, vestido de corte de alguma das suas avs, exclamou dobrando a
fronte ao cho:
- Bem vindo, meu prncipe, ao humilde tegurio do filosofo!
Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, de um verde
feio e triste, e introduziu o prncipe na sala onde tudo era verde tambm: o
reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado, as listas
verticais do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o reflexo de um
espelho redondo, inclinado sobre o sof.
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No havia um quadro, uma flr, um ornato, um livro - apenas sobre a
jardineira uma estatueta de Napoleo I, de p, equilibrado sobre o orbe
terrestre, nessa conhecida atitude em que o heri, com um ar pansudo e fatal,
esconde uma das mos por traz das costas, e enterra a outra nas
profundidades do seu colete. Ao lado uma garrafa de Champagne,
encarapuada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
- Para que tens tu aqui Napoleo, John?
- Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre ele a falar dos tiranos...
Esfregou as mos, radiante. Estava nessa manh em alegria e em verve. E
quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: a reinava um
cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da Vila Balzac; e nele se
esgotara a imaginao artstica do Ega. Era de madeira, baixo como um div,
com a barra alta, um roda-p de renda, e d'ambos os lados um luxo de
tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da ndia avermelhada
envolvia-o num aparato de tabernaculo; e dentro,  cabeceira, como num
lupanar, reluzia um espelho.
Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu a
todo o leito um olhar silencioso e dce, e disse depois do passar uma pontinha
de lngua pelo beio:
- Tem seu chic...
Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um monto de livros: a Educao de
Spencer ao lado de Beaudelaire, a Logica de Stuart Mil por cima do Cavaleiro
da Casa Vermelha. No mrmore da cmoda havia outra garrafa de Champagne
entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem, mostrava uma enorme
caixa de p d'arroz no meio de plastrons e gravatas brancas do Ega, e um
mao de ganchos do cabelo ao lado de ferros de frisar.
- E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
- Ali! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um biombo,
ao lado da janela, e tomado todo por uma mesa de p de galo, onde Carlos
assombrado descobriu, entre o belo papel de cartas do Ega, um Dicionario de
Rimas...
E a visita  casa continuou.
Na sala de jantar, quase nua, caiada de amarelo, um armario de pinho
envidraado abrigava melancolicamente um servio barato de loua nova; e do
fecho da janela pendia um vestuario vermelho, que parecia roupo de mulher.
-  sobrio e simples - exclamou o Ega - como compete quele que se alimenta
de uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosofia. Agora,  cosinha!...
Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janelas abertas; e
entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois l em
baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito sardenta e
muito forte sacudiu o gato do colo, ergueu-se, com o Jornal de Noticias na
mo. Ega apresentou-a, num tom de fara:
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- A sr. Josefa, solteira, de temperamento sanguineo, artista culinaria da Vila
Balzac, e como se pode observar pelo papel que lhe pende das garras,
cultora das boas letras!
A moa sorria, sem embarao, habituada de certo a estas familiaridades
bohemias.
- Eu hoje no janto c, senhora Josefa, continuava o Ega no mesmo tom. Este
formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e prncipe de
Santa Olavia, d hoje de papar ao seu amigo e filosofo... E, como quando eu
recolher, talvez a senhora Josefa esteja entregue ao sono da inocencia, ou 
vigilia da devassido, aqui lhe ordeno que me tenha amanh para meu lunch
duas formosas perdizes.
E subitamente, numa outra voz, com um olhar que ela devia perceber:
- Duas perdizesinhas bem assadas e bem cradinhas. Frias, est claro... O
costume.
Travou do brao de Carlos, voltaram  sala.
- Com franqueza, Carlos, que te parece a Vila Balzac?
Carlos respondeu como a respeito do episodio da Hebrea:
- Est ardente.
Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De resto, para
um rapaz, para uma cela de trabalho...
- Eu, dizia o Ega, passeando pela sala, com as mos enterradas nos bolsos do
seu prodigioso robe de chambre, eu no tolero o bibelot, o bric--brac, a
cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que diabo, o movel deve estar
em harmonia com a idia e o sentir do homem que o usa! Eu no penso, nem
sinto como um cavaleiro do sculo XVI, para que me hei de cercar de cousas
do sculo XVI? No ha nada que me faa tanta melancolia, como ver numa
sala um veneravel contador do tempo de Francisco I recebendo pela face
conversas sobre eleies e altas de fundos. Faz-me o efeito de um belo heri
de armadura d'ao, viseira cada e crenas profundas no peito, sentado a uma
mesa de voltarete a jogar copas. Cada sculo tem o seu genio prprio e a sua
atitude prpria. O sculo XIX concebeu a Democracia e a sua atitude  esta...
- E enterrando-se d'estalo numa poltrona, espetou as pernas magras para o
ar. - Ora esta atitude  impossvel num escabelo do tempo do Prior do Crato.
Menino, toca a beber o Champagne.
E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega acudiu:
-  excelente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa d'Epernai,
arranjou-m'o o Jacob.
- Que Jacob?
- O Jacob Cohen, o Jacob.
Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordao, e
pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
-  verdade! Ento, noutro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu
infelizmente no poude ir.
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Carlos contou a soire. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas salas, num
zum-zum dormente,  meia luz dos candieiros. O conde massara-o
indiscretamente com a poltica, admiraes idiotas por um grande orador, um
deputado de Meso Frio, e explicaes sem fim sobre a reforma da instruco.
A condessa, que estava muito constipada, horrorisou-o, dando sobre a
Inglaterra, apesar de inglesa, as opinies da rua de Cedofeita. Imaginava que
a Inglaterra  um pas sem poetas, sem artistas, sem ideais, ocupando-se s
de amontoar libras... Enfim, secara-se.
- Que diabo! murmurou o Ega num tom de viva desconsolao.
A rolha estalou, ele encheu os copos em silncio; e numa sade muda os dois
amigos beberam o Champagne - que Jacob arranjara ao Ega, para o Ega se
regalar com Rachel.
Depois, de p, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo novamente
cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, naquela entoao triste
de inesperado desapontamento:
- Que ferro!...
E aps um momento:
- Pois menino, pensei que a Gouvarinho te apetecia...
Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe falara dela, tivera um
caprichosinho, interessara-se por aqueles cabelos cor de brasa...
- Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
Ega sentara-se, com o copo na mo; e depois de contemplar algum tempo as
suas meias de seda, escarlates como as de um prelado, deixou cair, muito
srio, estas palavras:
-  uma mulher deliciosa, Carlinhos.
E, como Carlos encolhia os ombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
senhora de inteligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia, uma
pontinha de romantismo muito picante...
- E, como corpinho de mulher, no ha melhor que aquilo de Badajoz para c!
- Vai-te da, Mefistofeles de Celorico!
E Ega, divertido, cantarolou:
Je suis Mefisto...
Je suis Mefisto...
Carlos no entanto, fumando preguiosamente, continuava a falar na
Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela trs
palavras numa sala. E no era a primeira vez que tinha destes falsos
arranques de desejo, vindo quase com as formas do amor, ameaando
absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se em
tdio, em seca. Eram como os fogachos de polvora sobre uma pedra; uma
fagulha ata-os, num momento tornam-se chama veemente que parece que
vai consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a
pedra. Seria o seu um desses coraes de fraco, moles e flacidos, que no
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podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas
lassas do tecido reles?
- Sou um ressequido! disse ele sorrindo. Sou um impotente de sentimento,
como Satanaz... Segundo os padres da Igreja, a grande tortura de Satanaz 
que no pode amar...
- Que frases essas, menino! murmurou Ega.
Como frases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixes
falharem-lhe nas mos como fosforos. Por exemplo, com a coronela de
hussards em Viena! Quando ela faltou ao primeiro rendez-vous, chorara
lgrimas como punhos, com a cabea enterrada no travesseiro e aos coices 
roupa. E da a duas semanas, mandava postar o Baptista  janela do hotel,
para ele se safar, mal a pobre coronela dobrasse a esquina! E com a
holandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos primeiros dias foi uma
insensatez: queria-se estabelecer para sempre na Holanda, casar com ela
(apenas ela se divorciasse), outras loucuras; depois os braos que ela lhe
deitava ao pescoo, e que lindos braos, pareciam-lhe pesados como
chumbo...
- Passa fora, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
- Isso  outra coisa. Ficamos amigos, puras relaes de inteligencia. Madame
Rughel  uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um desses
estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougton: chama-se as Rosas
Murchas. Eu nunca li  em holandez...
- As Rosas Murchas! em holandez! exclamou Ega apertando as mos na
cabea.
Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
- Tu s extraordinrio, menino!... Mas o teu caso  simples,  o caso de D.
Juan. D. Juan tambm tinha essas alternaes de chama e cinza. Andava
 busca do seu ideal, da sua mulher, procurando-a principalmente, como de
justia, entre as mulheres dos outros. E aprs avoir couch, declarava que se
tinha enganado, que no era aquela. Pedia desculpa e retirava-se. Em
Espanha experimentou assim mil e trs. Tu s simplesmente, como ele, um
devasso; e has de vir a acabar desgraadamente como ele, numa tragedia
infernal!
Esvaziou outro copo de Champagne, e a grandes passadas pela sala:
- Carlinhos da minha alma,  intil que ningum ande  busca da sua mulher.
Ela vir. Cada um tem a sua mulher, e necessariamente tem de a encontrar.
Tu ests aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ela est talvez em Pekin: mas
tu, a a raspar o meu reps com o verniz dos sapatos, e ela a orar no templo de
Confucio, estaes ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente,
marchando um para o outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas
idiotas. Toca a vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais frases
sobre Satanaz!
Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto - em quanto dentro o Ega batia
com as gavetas, lanando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, a
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Barcarola de Gounod. Quando apareceu, vinha de casaca, gravata branca,
enfiando o palet - com o olho brilhante do Champagne.
Desceram. O pagem l estava  porta perfilado, ao p do coup de Carlos, que
esperara. E a sua fardeta azul de botes amarelos, a magnifica parelha baia
reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a majestade do cocheiro
louro com o seu ramo na libr, tudo ali fazia, junto da Vila Balzac, um
quadro rico que deleitou o Ega.
- A vida  agradavel, disse ele.
O coup partiu, ia entrar no largo da Graa, quando uma caleche de praa,
aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapu baixo ia
lendo um grande jornal.
-  o Craft! gritou Ega, debruando-se pela portinhola.
O coup parou. Ega de um pulo estava na calada, correndo, bradando:
- Oh Craft! oh Craft!
Quando, da a um momento, sentiu duas vozes aproximarem-se, Carlos
desceu tambm do coup, achou-se em face de um homem baixo, louro, de
pele rosada e fresca, e aparncia fria. Sob o fraque correcto percebia-se-lhe
uma musculatura de atleta.
- O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lanando esta apresentao com uma
simplicidade clssica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mo. E Ega insistia para que
voltassem todos  Vila Balzac, fossem beber a outra garrafa de Champagne, a
celebrar o advento do Justo! Craft recusou, com o seu modo calmo e placido;
chegara na vespera do Porto, abraara j o nobre Ega, e aproveitava agora a
viagem quele bairro longinquo para ir vr o velho Shlegen, um alemo que
vivia  Penha de Frana.
- Ento outra coisa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocs se
conheam mais, venham vocs jantar comigo amanh ao Hotel Central. Dito,
hein? Perfeitamente. s seis.
Apenas o coup partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admiraes pelo
Craft, encantado com aquele encontro que dava mais um retoque luminoso 
sua alegria. O que o entusiasmava no Craft era aquele ar imperturbavel de
gentleman correcto, com que ele igualmente jogaria uma partida de bilhar,
entraria numa batalha, arremeteria com uma mulher, ou partiria para a
Patagonia...
-  das melhores cousas que tem Lisboa. Vais-te morrer por ele... E que casa
que ele tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
- Como diabo soube ele da Vila Balzac?
- Tu no fazes segredo dela, hein?
- No... Mas tambm no a pus nos anncios! E o Craft chegou ontem, ainda
no esteve com ningum que eu conhea...  curioso!
- Em Lisboa sabe-se tudo...
- Canalha de terra! murmurou Ega.
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O jantar no Central foi adiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a idia,
convertera-o agora numa festa de ceremonia em honra do Cohen.
- Janto l muitas vezes, disse ele a Carlos, estou l todas as noites... 
necessrio repagar a hospitalidade... Um jantar no Central  o que basta. E
para o efeito moral, pespego-lhe  mesa o marqus e a besta do Steinbroken.
O Cohen gosta de gente assim...
Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marqus partira para a Goleg, e o
pobre Steinbroken estava sofrendo de um incomodo de entranhas. Ega pensou
no Cruges e no Taveira - mas receou a cabeleira desleixada do Cruges, e
alguns dos seus ataques de amargo spleen que estragaria o jantar. Terminou
por convidar dois intimos do Cohen; mas teve ento de suprimir o Taveira,
que estava de mal com um desses cavalheiros por palavras que tinham
trocado em casa da Lola gorda.
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega teve
uma conferencia com o maitre de hotel do Central, em que lhe recomendou
muita flr, dois ananazes para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do
menu, qualquer deles, fosse  la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma idia:
tomates farcies  la Cohen...
Nessa tarde, s seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o Hotel
Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio Abrao.
Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiena do
Rato, arrancou logo da cabea o sujo barrete de borla, e ficou curvado em
dois, diante de Carlos, com as duas mos sobre o corao.
Depois, numa linguagem exotica, misturada d'ingls, pediu ao seu bom senhor
D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu beautiful gentleman, que se
dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha reservada; e o seu muito
generous gentleman tinha s a voltar os olhos, a maravilhasinha estava ali ao
lado, numa cadeira. Era um retrato d'hespanhola, apanhado a fortes
brochadelas de primeira impresso, e pondo, sobre um fundo audaz de cor de
rosa murcha, uma face gasta de velha gara, picada das bexigas, caida,
ressudando vicio, com um sorriso bestial que prometia tudo.
Carlos, tranquilamente, ofereceu dez tostes. Craft pasmou de uma tal
prodigalidade; e o bom Abraho, num riso mudo que lhe abria entre a barba
grisalha uma grande boca de um s dente, saboreou muito a chalaa dos
seus ricos senhores. Dez tostesinhos! Se o quadrinho tivesse por baixo o
nomesinho de Fortuni, valia dez continhos de ris. Mas no tinha esse
nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil ris...
- Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
E saram, deixando o velho intrujo  porta, curvado em dois, com as mos
sobre o corao, desejando mil felicidades aos seus generosos fidalgos...
- No tem uma unica coisa boa, este velho Abraho, disse Carlos.
- Tem a filha, disse o Craft.
Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja.
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Ento, a proposito do Abrao, falou a Craft dessas belas coleces dos Olivaes,
que o Ega, apesar do desdem que afectava pelo bibelot e pelo movel d'arte,
lhe descrevera como sublimes.
Craft encolheu os ombros.
- O Ega no entende nada. Mesmo em Lisboa, no se pode chamar ao que eu
tenho uma coleco.  um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me vou
desfazer!
Isto surpreendeu Carlos. Compreendera das palavras do Ega ser essa uma
coleco formada com amor, no laborioso decurso de anos, orgulho e cuidado
de uma existncia de homem...
Craft sorrio daquela legenda. A verdade era que s em 1872, ele comeara a
interessar-se pelo bric-a-brac; chegava ento da America do Sul; e o que fora
comprando, descobrindo aqui e alm, acumulara-o nessa casa dos Olivaes,
alugada ento por fantasia, uma manh que aquele pardieiro, com o seu
bocado de quintal em redor, lhe parecera pitoresco, sob o sol de abril. Mas
agora se pudesse desfazer-se do que tinha, ia dedicar-se ento a formar uma
coleco homogenea e compacta d'arte do sculo dezoito.
- Aqui nos Olivaes?
- No. Numa quinta que tenho ao p do Porto, junto mesmo ao rio.
Entravam ento no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um coup da
Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veio estacar 
porta.
Um esplendido preto, j grisalho, de casaca e calo, correu logo  portinhola;
de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou-lhe para os
braos uma deliciosa cadelinha escocesa, de pelos esguedelhados, finos como
seda e cor de prata; depois apeando-se, indolente e poseur, ofereceu a mo a
uma senhora alta, loura, com um meio vu muito apertado e muito escuro que
realava o explendor da sua carnao eburnea. Craft e Carlos afastaram-se,
ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente
bem feita, deixando atraz
de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar.
Trazia um casaco colante de veludo branco de Genova, e um momento sobre
as lages do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado,
esticado num fato de xadresinho ingls, abria negligentemente um telegrama;
o preto seguia com a cadelhinha nos braos. E no silncio a voz de Craft
murmurou:
- Trs chic.
Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
div de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como
um noivo de provncia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. O Craft
conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcde, e mandou servir
vermout, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literario e
satanico do absinto...
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Fra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda
abertas. Sobre o rio, no cu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa
paz elisea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as
terras, os longes da outra banda j se iam afogando num vapor aveludado, do
tom de violeta; a gua jazia liza e luzidia como uma bela chapa d'ao novo; e
aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos
paquetes estrangeiros, dois couraados inglses, dormiam, com as
mastreaes imoveis, como tomados de preguia, cedendo ao afago do clima
doce...
- Vimos agora l em baixo, disse Craft indo sentar-se no div, uma esplendida
mulher, com uma esplendida cadelinha grifon, e servida por um esplendido
preto!
O sr. Damaso Salcde, que no despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
- Bem sei! Os Castro Gomes... Conheo-os muito... Vim com eles de
Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou-se, reparou mais n'ele, perguntou-lhe, afavel e interessando-se:
- O senhor Salcde chegou agora de Bordeus?
Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: ergueu-se
imediatamente, aproximou-se do Maia, banhado num sorriso:
- Vim aqui ha quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris... Que eu em podendo 
l que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto , verdadeiramente
conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no Hotel de Nantes... Gente muito
chic: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, feme de chambre,
mais de vinte malas... Chic a valer! Parece incrivel, uns brazileiros... Que ela
na voz no tem sutaque nenhum, fala como ns. Ele sim, ele muito sutaque...
Mas elegante tambm, v. ex. no lhe pareceu?
- Vermout? perguntou-lhe o criado, oferecendo a salva.
- Sim, uma gotinha para o apetite. V. ex. no toma, sr. Maia? Pois eu, assim
que posso,  direitinho para Paris! Aquilo  que  terra! Isto aqui  um
chiqueiro... Eu, em no indo l todos os anos, acredite v. ex., at comeo a
andar doente. Aquele boulevarsinho, hein!... Ai, eu goso aquilo!... E sei gosar,
sei gosar, que eu conheo aquilo a palmo... Tenho at um tio em Paris.
- E que tio! exclamou Ega, aproximando-se. Intimo de Gambeta, governa a
Frana... O tio do Damaso governa a Frana, menino!
Damaso, escarlate, estourava de gozo.
- Ah, l isso influencia tem. Intimo do Gambeta, tratam-se por tu, at vivem
quase juntos... E no  s com o Gambeta;  com o Mac-Mahon, com o
Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
republicanos, emfim!...  tudo quanto ele queira. V. ex. no o conhece?  um
homem de barbas brancas... Era irmo de minha me, chama-se Guimares.
Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
Nesse momento a porta envidraada abriu-se de golpe, Ega exclamou: Saude
ao poeta!
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E apareceu um individuo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta,
com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos,
espessos, romanticos bigodes grisalhos: j todo calvo na frente, os aneis ffos
de uma grenha muito seca caam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda
a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lugubre.
Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braos lentos
para Craft, disse numa voz arrastada, cavernosa, ateatrada:
- Ento s tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? D-me c esses ossos
honrados, honrado ingls!
Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
- No sei se so relaes. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso poeta...
Era ele! o ilustre cantor das Vozes d'Aurora, o estilista de Elvira, o dramaturgo
do Segredo do Comendador. Deu dois passos graves para Carlos, esteve-lhe
apertando muito tempo a mo em silncio - e sensibilisado, mais cavernoso:
- V. ex., j que as etiquetas sociaes querem que eu lhe d excelencia, mal
sabe a quem apertou agora a mo...
Carlos, surpreendido, murmurou:
- Eu conheo muito de nome...
E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
- Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, do
meu valente Pedro!
- Ento, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
segundo as regras...
Alencar j tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, retomando-lhe
as mos, sacudindo-lhas, com uma ternura ruidosa:
- E deixemo-nos j de excelencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz! trouxe-te
muito ao colo! sujaste-me muita cala! Co'os diabos, d c outro
abrao!
Craft olhava estas cousas veementes, impassivel; Damaso parecia
impressionado; Ega apresentou um copo de vermout ao poeta:
- Que grande cena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
emoo...
Alencar esgotou-o de um trago: e declarou aos amigos que no era a primeira
vez que via Carlos. J o admirara no seu faeton, muitas vezes, e aos
seus belos cavalos inglses. Mas no se quisera dar a conhecer. Ele nunca se
atirava aos braos de ningum, a no ser das mulheres... Foi encher outro
clice de vermout, e com ele na mo, plantado diante de Carlos, comeou,
num tom pattico:
- A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
Rodrigues, esquadrinhando alguma dessa velha literatura, hoje to
despresada... Lembro-me at que era um volume das Eclogas do nosso
delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse rouxinol to
portugus, hoje, est claro, metido a um canto, desde que para a apareceu o
Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilinios em ismo...
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Nesse momento passaste, disseram-me quem eras, e caiu-me o livro da
mo... Fiquei ali uma hora, acredita, a pensar, a rever o passado...
E atirou o vermout s goelas. Ega, impaciente, olhava o relgio. Um criado,
entrando, acendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de
cristais e louas, um luxo de camelias em ramos.
No entanto Alencar (que  luz viva parecia mais gasto e mais velho) comeara
uma grande historia, e como fora ele o primeiro que vira Carlos depois de
nascer, e como fora ele que lhe dera o nome.
- Teu pai, dizia ele, o meu Pedro, queria-te pr o nome d'Afonso, desse santo,
desse varo d'outras idades, Afonso da Maia! Mas tua me que tinha l as
suas idias teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa de
um romance que eu lhe emprestra; nesses tempos podiam-se emprestar
romances a senhoras, ainda no havia a pustula e o puz... Era um romance
sobre o ltimo Stuart, aquele belo tipo do prncipe Carlos Eduardo, que vocs,
filhos, conhecem todos bem, e que na Esccia, no tempo de Luiz XIV... Enfim,
adiante! Tua me, devo dize-lo, tinha literatura e da melhor. Consultou-me,
consultava-me sempre, nesse tempo eu era algum, e lembro-me de lhe ter
respondido... (Lembro-me apesar de j l irem vinte e cinco anos... Que digo
eu? Vinte e sete! Vejam vocs isto, filhos, vinte e sete anos!) Enfim, voltei-me
para tua me, e disse-lhe, palavras textuais: Ponha-lhe o nome de Carlos
Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que  o verdadeiro nome para o
frontespicio de um poema, para a fama de um herosmo ou para o lbio de
uma mulher!
Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu bravos estrondosos; Craft
bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de
relgio na mo, soltou de l um muito bem desenxabido.
Alencar, radiante com o seu efeito, derramava em roda um sorriso que lhe
mostrava os dentes estragados. Abraou outra vez Carlos, atirou uma palmada
ao corao, exclamou:
- Caramba, filhos, sinto uma luz c dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da sua
demora - emquanto Ega, que se precipitara para ele, lhe ajudava a despir o
palet. Depois apresentou-o a Carlos - a unica pessoa ali de quem o Cohen
no era intimo. E dizia, tocando o boto da campainha electrica:
- O marqus no pde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, est com a
sua gta, a gta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gta que tu has de
ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suas to pretas e
luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalando as luvas,
dizendo, que, segundo os inglses, havia tambm a gta de gente pobre; e
era essa naturalmente a que lhe competia a ele...
Ega, no entanto, travara-lhe do brao, colocara-o preciosamente  mesa, 
sua direita: depois ofereceu-lhe um boto de camelia de um ramo: o Alencar
florio-se tambm - e os criados serviram as ostras.
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Falou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava Lisboa,
uma rapariga com o ventre rasgado  navalha por uma companheira, vindo
morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma viela em
sangue - uma sarrabulhada como disse o Cohen, sorrindo e provando o
Bucelas.
Damaso teve a satisfao de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a que
dera as facadas, quando ela era amante do visconde da Ermidinha... Se era
bonita? Muito bonita. Umas mos de duqueza... E como aquilo cantava o fado!
O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando ela era chic, j se
empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca lhe perdera a amizade;
respeitava-a, mesmo depois de casado a vel-a, e tinha-lhe prometido que se
ela quisesse deixar o fado lhe punha uma confeitaria para os lados da S. Mas
ela no queria. Gostava d'aquilo, do Bairro Alto, dos cafs de lepes, dos
chulos...
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
romance... Isto levou logo a falar-se do Assomoir, de Zola e do realismo: - e o
Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de spa, suplicou que
se no discutisse,  hora aceada do jantar, essa literatura latrinaria. Ali todos
eram homens d'aceio, de sala, hein? Ento, que se no mencionasse o
excremento!
Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a
milhares de edies; essas rudes analises, apoderando-se da Egreja, da
Realeza, da Bureocracia, da Finana, de todas as cousas santas, dissecando-as
brutalmente e mostrando-lhes a leso, como a cadaveres num amfiteatro;
esses estilos novos, to precisos e to ducteis, apanhando em flagrante a
linha, a cr, a palpitao mesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confuso
mental, chamava a Ida nova) cando assim de chofre e escangalhando a
catedral romntica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa,
tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literario da sua
velhice. Ao principio reagiu. Para pr um dique definitivo  torpe mar,
como ele disse em plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ningum os
leu; a mar torpe alastrou-se, mais profunda, mais larga. Ento Alencar
refugiou-se na moralidade como numa rocha solida. O naturalismo, com as
suas aluvies de obscenidade, ameaava corromper o pudor social? Pois bem.
Ele, Alencar, sria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. Ento
o poeta das Vozes d'Aurora, que durante vinte anos, em canoneta e ode,
propusera comercios lubricos a todas as damas da capital; ento o romancista
de Elvira que, em novela e drama, fizera a propaganda do amor ilegitimo,
representando os deveres conjugaes como montanhas de tdio, dando a todos
os maridos frmas gordurosas e bestiaes, e a todos os amantes a beleza, o
esplendor e o genio dos antigos Apolos; ento Thomaz Alencar que (a
acreditarem-se as confisses autobiograficas da Flr de Martirio) passava ele
prprio uma existncia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre
veludos e vinhos de Chipre - d'ora em diante austero, incorruptivel, todo ele
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uma torre de pudicicia, passou a vigiar atentamente o jornal, o livro, o teatro.
E mal lobrigava simptomas nascentes de realismo num beijo que estalava
mais alto, numa brancura de saia que se arregaava de mais - eis o nosso
Alencar que soltava por sobre o pas um grande grito de alarme, corria  pena,
e as suas imprecaes lembravam (a academicos faceis de contentar) o rugir
de Isaias. Um dia porm, Alencar teve uma destas revelaes que prostram os
mais fortes; quanto mais ele denunciava um livro como imoral, mais o livro se
vendia como agradavel! O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o auctor de
Elvira encavacou...
Desde ento reduziu a expresso do seu rancor ao minimo, a essa frase curta,
lanada com nojo:
- Rapazes, no se mencione o excremento!
Mas nessa noite teve o regosijo de encontrar aliados. Craft no admitia
tambm o naturalismo, a realidade feia das cousas e da sociedade estatelada
nua num livro. A arte era uma idealisao! Bem: ento que mostrasse os tipos
superiores de uma humanidade aperfeioada, as frmas mais belas do viver e
do sentir... Ega horrorisado apertava as mos na cabea - quando do outro
lado Carlos declarou que o mais intoleravel no realismo eram os seus grandes
ares scientificos, a sua pretenciosa estetica deduzida de uma filosofia alheia, e
a invocao de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de
Stuart Mil e de Darwin, a proposito de uma lavadeira que dorme com um
carpinteiro!
Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do realismo
estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, criar dramas,
abandonar-se  fantasia literaria! a frma pura da arte naturalista devia ser a
monografia, o estudo seco de um tipo, de um vicio, de uma paixo, tal qual
como se se tratasse de um caso patologico, sem pitoresco e sem estilo!...
- Isso  absurdo, dizia Carlos, os caracteres s se podem manifestar pela
aco...
- E a obra d'arte, acrescentou Craft, vive apenas pela frma...
Alencar interrompeu-os, exclamando que no eram necessarias tantas
filosofias.
- Vocs esto gastando cra com ruins defuntos, filhos. O realismo critica-se
deste modo: mo no nariz! Eu quando vejo um desses livros, enfrasco-me
logo em gua de colonia. No discutamos o excremento.
- Sole normande? perguntou-lhe o criado, adiantando a travessa.
Ega a fulmin-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
superior a estas controversias de literaturas, calou-se; ocupou-se s dele,
quissaber que tal ele achava aquele St. Emilion; e, quando o viu
confortavelmente servido de sole normande, lanou com grande alarde de
interesse esta pergunta:
- Ento, Cohen, diga-nos voc, conte-nos c... O emprestimo faz-se ou no se
faz?
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E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquela questo do
emprestimo era grave. Uma operao tremenda, um verdadeiro episodio
historico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal  beira do prato, e respondeu, com
auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar absolutamente. Os
emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, to
regular, to indispensvel, to sabida como o imposto. A unica ocupao
mesmo dos ministerios era esta - cobrar o imposto e fazer o emprestimo. E
assim se havia de continuar...
Carlos no entendia de finanas: mas parecia-lhe que, desse modo, o pas ia
alegremente e lindamente para a banca-rota.
- Num galopezinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, sorrindo.
Ah, sobre isso, ningum tem iluses, meu caro senhor. Nem os prprios
ministros da fazenda!... A banca-rota  inevitavel:  como quem faz uma
soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos escutavam
o Cohen. Ega, depois de lhe encher o clice de novo, fincara os cotovelos na
mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A banca-rota  to certa, as cousas esto to dispostas para ela - continuava
o Cohen - que sria mesmo facil a qualquer, em dois ou trs anos, fazer falir o
pas...
Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma
agitao revolucionaria constante; nas vesperas de se lanarem os
emprestimos haver duzentos maganes decididos que cahissem  pancada na
municipal e quebrassem os candieiros com vivas  Republica; telegrafar isto
em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de Janeiro;
assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a banca-rota estalava. Smente,
como ele disse, isto no convinha a ningum.
Ento Ega protestou com vehemencia. Como no convinha a ningum? Ora
essa! Era justamente o que convinha a todos!  banca-rota seguia-se uma
revoluo, evidentemente. Um pas que vive da inscripo, em no lha
pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas
por vingana - o primeiro cuidado que tem  varrer a monarchia que lhe
representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E
passada a crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente, dessa coleco
grotesca de bestas...
A voz do Ega sibilava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os
homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a mo no
brao do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, ele era o
primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia mediocres
e patetas, - mas tambm homens de grande valor!
- Ha talento, ha saber, dizia ele com um tom de experiencia. Voc deve
reconhece-lo, Ega... Voc  muito exagerado! No senhor, ha talento, ha
saber.
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E, lembrando-se que algumas dessas bestas eram amigos do Cohen, Ega
reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porm cofiava sombriamente o
bigode. Ultimamente pendia para idias radicais, para a democracia
humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
letras, refugiava-se no romantismo poltico, como num asilo pararelo: queria
uma republica governada por genios, a fraternisao dos povos, os Estados
Unidos da Europa... Alm disso, tinha longas queixas desses politiquotes,
agora gente de Poder, outrora seus camaradas de redaco, de caf e de
batota...
- Isso, disse ele, l a respeito de talento e de saber, historias... Eu conheo-os
bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
- No senhor, Alencar, no senhor! Voc tambm  dos tais... At lhe fica mal
dizer isso...  exagerao. No senhor, h talento, ha saber.
E o Alencar, perante esta intimao do Cohen, o respeitado director do Banco
Nacional, o marido da divina Rachel, o dono dessa hospitaleira casa da rua do
Ferregial onde se jantava to bem, recalcou o despeito - admitiu que no
deixava de haver talento e saber.
Ento, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos belos olhos da sua
mulher e da excelencia do seu cozinheiro, chamado estes espiritos rebeldes ao
respeito dos Parlamentares e  venerao da Ordem, Cohen condescendeu em
dizer, no tom mais suave da sua voz, que o pas necessitava reformas...
Ega porm, incorrigivel nesse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal no necessita refrmas, Cohen, Portugal o que precisa  a invaso
hespanhola.
Alencar, patriota  antiga, indignou-se. O Cohen, com aquele sorriso
indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio ali
apenas um dos paradoxos do nosso Ega. Mas o Ega falava com seriedade,
cheio de razes. Evidentemente, dizia ele, invaso no significa perda absoluta
de independencia. Um receio to estpido  digno s de uma sociedade to
estpida como a do Primeiro de Dezembro. No havia exemplo de seis milhes
de habitantes serem engolidos, de um s trago, por um pas que tem apenas
quinze milhes de homens. Depois ningum consentiria em deixar cair nas
mos de Espanha, nao militar e maritima, esta bela linha de costa de
Portugal. Sem contar as alianas que teriamos, a troco das colonias - das
colonias que s nos servem, como a prata de famlia aos morgados arruinados,
para ir empenhando em casos de crise...
No havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invaso, num momento de
guerra europea, sria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa
indenisao, perdermos uma ou duas provincias, ver talvez a Galiza estendida
at ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o criado, apresentando-lhe a travessa.
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E em quanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele a salvao
do pas, nessa catastrofe que tornaria povoao hespanhola Celorico de Basto,
a nobre Celorico, bero de heroes, bero dos Egas...
- Nisto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portugus! Sovados,
humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um esforo
desesperado para viver. E em que bela situao nos achavamos! Sem
monarquia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da inscrio,
porque tudo desaparecia, estavamos novos em folha, limpos, escarolados,
como se nunca tivessemos servido. E recomeava-se uma historia nova, um
outro Portugal, um Portugal srio e inteligente, forte e decente, estudando,
pensando, fazendo civilizao como outrora... Meninos, nada regenera uma
nao como uma medonha tara... Oh Deus d'Ourique, manda-nos o
castelhano! E voc, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, num rumor animado, discutia-se a invaso. Ah, podia-se fazer uma
bela resistencia! Cohen afianava o dinheiro. Armas, artilheria, iam comprarse
 America - e Craft ofereceu logo a sua coleco de espadas do sculo XVI.
Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
- s ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega,  encarregado de ir despertar pela provncia o
patriotismo, com cantos e com odes!
Ento o poeta, pousando o clice, teve um movimento de leo que sacode a
juba:
- Isto  uma velha carcassa, meu rapaz, mas no est s para odes! Ainda se
agarra uma espingarda, e como a pontaria  boa, ainda vo a terra um par de
galegos... Caramba, rapazes, s a idia dessas cousas me pe o corao
negro! E como vocs podem falar nisso, a rir, quando se trata do pas, desta
terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja m, de acordo, mas, caramba! 
a unica que temos, no temos outra!  aqui que vivemos,  aqui que
rebentamos... Irra, falemos d'outra coisa, falemos de mulheres!
Dera um repelo ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixo patriotica...
E no silncio que se fez Damaso, que desde as informaes sobre a rapariga
do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religio, ergueu a
voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura:
- Se as cousas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu c, 
cautela, ia-me raspando para Paris...
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no labio sintetico de Damaso,
o grito espontaneo e genuino do brio portugus! Raspar-se, pirar-se!...
Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta
constitucional, desde El-Rei nosso Senhor at aos cretinos de secretaria!...
- Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que aparea  fronteira, o pas em
massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada unica na historia!
Houve uma indignao, Alencar gritou:
- Abaixo o traidor!
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Cohen interveio, declarou que o soldado portugus era valente,  maneira dos
turcos - sem disciplina, mas teso. O prprio Carlos disse, muito srio:
- No senhor... Ningum ha de fugir, e ha de se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heroica? Ento
ignoravam que esta raa, depois de cincoenta anos de constitucionalismo,
creada por esses sagues da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roda de
siflis, apodrecida no bolr das secretaras, arejada apenas ao domingo pela
poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o caracter, e era a mais
fraca, a mais covarde raa da Europa?...
- Isso so os lisboetas, disse Craft.
- Lisboa  Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa no h nada. O pas est
todo entre a Arcada e S. Bento!...
A mais miseravel raa da Europa! continuava ele a berrar. E que exercito! Um
regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no
hospital! Com seus olhos tinha ele visto, no dia da abertura das Crtes, um
marujo sueco, um rapago do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia
de soldados; as praas tinham literalmente largado a fugir, com a patrona a
bater-lhe os rins; e o ofical, enfiado de terror, meteu-se para uma escada, a
vomitar!...
Todos protestaram. No, no era possvel... Mas se ele tinha visto, que
diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos falazes da fantasia...
- Juro pela sade da mam! gritou Ega furioso.
Mas emudeceu. O Cohen tocara-lhe no brao. O Cohen a falar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os espanhis porm
pensassem na invaso isso parecia-lhe certo - sobretudo se viessem, como era
natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lho dissera. J havia mesmo
negocios de fornecimentos entabolados...
- Espanholadas, galegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
torcendo os bigodes.
- No Hotel de Paris, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um magistrado,
que me disse com um certo ar que no perdia a esperana de se vir
estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, quando c
estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos espanhis que
esto  espera deste augmento de territorio para se empregarem!
Ento Ega caiu em extasi, apertou as mos contra o peito. Oh que delicioso
trao! Oh que admiravelmente observado!
- Este Cohen! exclamava ele para os lados. Que finamente observado! Que
trao adorvel! Hein, Craft?
Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho
enternecido, passando pelas suissas a mo onde reluzia um diamante. E nesse
momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco,
murmurando:
- Petits pois a la Cohen.
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A la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente. E l estava, era
o legume: petit pois a la Cohen! Damaso, entusiasmado, declarou isto chic a
valer! E fez-se, com o Champagne que se abria, a primeira sade ao Cohen!
Esquecera-se a banca rota, a invaso, a patria - o jantar terminava
alegremente. Outras saudes crusaram-se, ardentes e loquazes: o prprio
Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de criana, bebeu 
Revoluo e  Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, j com o olho
muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremesa alastrava-se, destroada; no
prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a bocados de ananaz
mastigado. Damaso, todo debruado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da
parelha inglesa, e daquele faeton que era a coisa mais linda que passeava
Lisboa. E logo depois do seu brinde de demagogo, sem razo, Ega arremetera
contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as naes
pensantes, ameaando-a de uma revoluo social que a ensoparia em sangue:
o outro respondia com acenos de cabea, imperturbavel, partindo nozes.
Os criados serviram o caf. E como havia j trs longas horas que estavam 
mesa, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na animao
viva que dera o Champagne. A sala, de tecto baixo, com os cinco bicos de
gsardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, onde se ia
espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores por entre a
nevoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e a recomeou
logo, naquela comunidade de gostos que os comeava a ligar, a conversa da
rua do Alecrim sobre a bela coleco dos Olivaes. Craft dava detalhes; a coisa
rica e rara que tinha era um armario holandez do sculo XVI; de resto, alguns
bronzes, faianas e boas armas...
Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto  mesa,
estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo a
grenha, gritava contra a palhada filosofica; e do outro lado, com o clice de
conhaque na mo, Ega, plido e afectando uma tranquilidade superior,
declarava toda essa babuge lirica que por a se publica digna da policia
correcional...
- Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, aproximando-se da
varanda.  por causa do Craveiro. Esto ambos divinos!
Era com efeito a proposito de poesia moderna, de Simo Craveiro, do seu
poema a Morte de Satanaz. Ega estivera citando, com entusiasmo, estrofes do
episodio da Morte, quando o grande esqueleto simbolico passa em pleno sol no
Boulevard, vestido como uma cocote, arrastando sedas rumorosas
E entre duas costelas, no decote,
Tinha um bouquet de rosas!
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E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da Ida nova, o paladino do
Realismo, triumfara, cascalhara, denunciando logo nessa simples estrofe dois
erros de gramatica, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire!
Ento Ega, que bebera um sobre outro dois calices de conhaque, tornou-se
muito provocante, muito pessoal.
- Eu bem sei por que tu falas, Alencar, dizia ele agora. E o motivo no  nobre.
 por causa do epigrama que ele te fez:
O Alencar d'Alemquer,
Aceso com a primavera...
- Ah, vocs nunca ouviram isto? continuou ele voltando-se, chamando os
outros.  delicioso,  das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste, Carlos?
 sublime, sobre tudo esta estrofe:
O Alencar d'Alemquer
Que quer? Na verde campina
No colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar d'Alemquer
Quer menina!
Eu no me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que  a
verdadeira critica de todo esse lirismo pandilha:
O Alencar d'Alemquer
Quer cacete!
Alencar passou a mo pela testa lvida, e com o olho cavo fito no outro, a voz
rouca e lenta:
- Olha, Joo da Ega, deixa-me dizer-te uma coisa, meu rapaz... Todos esses
epigramas, esses dichotes lorpas do racitico e dos que o admiram, passam-me
pelos ps como um enxurro de cloaca... O que fao  arregaar as calas!
Arregao as calas... Mais nada, meu Ega. Arregao as calas!
E arregaou-as realmente, mostrando a ceroula, num gesto brusco e de
delirio.
- Pois quando encontrares enchurros desses, gritou-lhe o Ega, agacha-te e
bebe-os! Do-te sangue e fora ao lirismo!
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
- Eu, se esse Craveirete no fosse um rachitico, talvez me entretivesse a rolalo
aos pontaps por esse Chiado abaixo, a ele e  versalhada, a essa
lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
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- No se esborracham assim craneos, disse de l o Ega num tom frio de troa.
Alencar voltou para ele uma face medonha. A clera e o conhaque
incendiavam-lhe o olhar; todo ele tremia:
- Esborrachava-lho, sim, esborrachava, Joo da Ega! Esborrachava-lh'o assim,
olha, assim mesmo! - Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
sala, fazendo tilintar cristais e louas. - Mas no quero, rapazes! Dentro
daquele craneo s ha excremento, vomito, puz, materia verde, e se lh'o
esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miolo podre saa,
empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a peste!
Carlos, vendo-o to excitado, tomou-lhe o brao, quiscalmal-o:
- Ento, Alencar! Que tolice... Isso vale l pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
ltimodesabafo:
- Com efeito, no vale a pena ningum zangar-se por causa desse Craveirote
da Idia nova, esse caloteiro, que se no lembra que a porca da irm  uma
meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
- No, isso agora  de mais, pulha! gritou Ega, arremeando-se, de punhos
fechados.
Cohen e Damaso, assustados, agarraram-no. Carlos puchara logo para o vo
da janela o Alencar que se debatia, com os olhos chamejantes, a gravata
solta. Tinha cado duma cadeira; a correcta sala, com os seus divs de
marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, numa
bulha de faias, entre a fumaraa de cigarros. Damaso, muito plido, quase
sem voz, a de um a outro:
- Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel
Central!...
E, d'entre os braos do Cohen, Ega berrava, j rouco:
- Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! No, isso hei de esbofetealo!...
A D. Ana Craveiro, uma santa!... Esse caluniador... No, isso hei de
esganal-o!...
Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. J
presencera, mais vezes, duas literaturas rivais engalfinhando-se, rolando no
cho, num latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a irm do outro fazia
parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso o deixava indiferente,
com um sorriso de desdem. Alm disso sabia que a reconciliao no tardaria,
ardente e com abraos. E no tardou. Alencar saiu do vo da janela, atraz de
Carlos, abotoando a sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da
sala, Cohen falava ao Ega
com auctoridade, severo,  maneira de um pai: depois voltou-se, ergueu a
mo, ergueu a voz, disse que ali todos eram cavalheiros: e como homens de
talento e de corao fidalgo os dois deviam abraar-se...
- V, um shake-hands, Ega, faa isso por mim!... Alencar, vamos, peo-lh'o
eu!
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O auctor de Elvira deu um passo, o auctor das Memorias de um Atomo
estendeu a mo: mas o primeiro aperto foi gche e mole. Ento Alencar,
generoso e rasgado, exclamou que entre ele e o Ega no devia ficar uma
nuvem! Tinha-se excedido... Fra o seu desgraado genio, esse calor de
sangue, que durante toda a existncia s lhe trouxera lgrimas! E ali declarava
bem alto que Ana Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em Marco de
Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como me, Ana Craveiro
era impecavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro tinha carradas
de talento!...
Encheu um copo de Champagne, ergueu-o alto, diante do Ega, como um clice
de altar:
-  tua, Joo!
Ega, generoso tambm, respondeu:
-  tua, Thomaz!
Abraaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joana
Coutinho, ele dissera que no conhecia ningum mais scintilante que o Ega!
Ega afirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do Alencar, uma
to bela veia lirica. Apertaram-se outra vez, com palmadas pelos ombros.
Trataram-se de irmos na arte, trataram-se de genios!...
- So extraordinrios , disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapu.
Desorganisam-me, preciso ar!...
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais conhaque. Depois
Cohen saiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos - que
a recolher a p pelo Aterro.
 porta, o poeta parou com solenidade.
- Filhos, exclamou ele tirando o chapue refrescando largamente a fronte,
ento? Parece-me que me portei como um gentleman!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
- Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que  ser gentleman!
E agora vamos l por esse Aterro fora... Mas deixa-me ir ali primeiro comprar
um pacote de tabaco...
- Que tipo! exclamou Damaso, vendo-o afastar-se. E a coisa a-se pondo feia...
E imediatamente, sem transio, comeou a fazer elogios a Carlos. 0 sr. Maia
no imaginava ha quanto tempo ele desejava conhecel-o!
- Oh senhor...
Creia v. ex.... Eu no sou de sabujices... Mas pode v. ex. perguntar ao Ega,
quantas vezes o tenho dito: v. ex.  a coisa melhor que ha em Lisboa! Carlos,
baixava a cabea, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do peito.
- Olhe que isto  sincero, sr. Maia! Acredite v ex. que isto  do corao!
Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera ali, naquele
moo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adorao muda e profunda; o
prprio verniz dos seus sapatos, a cor das suas luvas eram para o Damaso
motivo de venerao, e to importantes como principios. Considerava Carlos
um tipo supremo de chic, do seu querido chic, um Brumel, um d'Orsai, um
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Morni, - uma destas cousas que s se vem l fora, como ele dizia
arregalando os olhos. Nessa tarde sabendo que vinha jantar com o Maia,
conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho experimentando gravatas,
perfumara-se como para os braos de uma mulher; - e por causa de Carlos
mandara estacionar ali o coup, s dez horas, com o cocheiro de ramo ao
peito.
- Ento essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera dous
passos, olhava uma janela alumiada no segundo andar.
Damaso seguiu-lhe o olhar.
- Vive l do outro lado. Esto aqui ha quinze dias... Gente chic... E ela  de
apetecer, v. ex. reparou? Eu a bordo atirei-me... E ela dava cavaco! Mas
tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soire acol, umas
aventurasitas...No tenho podido c vir, deixei-lhes s bilhetes; mas trago-a
d'olho, que ela demora-se... Talvez venha c amanh, estou c agora a sentir
umas cocegas... E se me pilho s com ela, zs, ferro-lhe logo um beijo! Que
eu c, no sei se v. ex.  a mesma coisa, mas eu c, com mulheres, a minha
teoria  esta: atraco! Eu c,  logo: atraco!
Nesse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
adresse da Moreli, segunda dama de S. Carlos.
- Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de brao de Carlos, ao
seguirem ambos pelo Aterro.  l muito dos Cohens, muito querido na
sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou muito
teu pai; e a mim tambm. Mas ele assigna Salcede; talvez nome da me; ou
talvez inventado. Bom rapaz... O pai era um velhaco! Parece que estou a ouvir
o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e do grande: Silva
judeu, dinheiro, e a rdo!... Outros tempos, meu Carlos, grandes tempos.
Tempos de gente!
E ento por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do
gsdormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi falando desses grandes
tempos da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravz das suas frases
de lirico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado desse mundo defunto...
Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o
calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de sejes em
galopadas para Cintra. Cintra era ento um ninho de amores, e sob as suas
romanticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braos dos poetas. Elas
eram Elviras, eles eram Antonis. O dinheiro abundava; a corte era alegre; a
Regenerao literata e galante ia engrandecer o pas, belo jardim da Europa;
os bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da
coroa recitavam ao piano; o mesmo sopro lirico inchava as odes e os projectos
de lei...
- Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
- Era outra coisa, meu Carlos! Vivia-se! No existiriam esses ares scientificos,
toda essa palhada filosofica, esses badamecos positivistas... Mas havia
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corao, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo nessas cousas da poltica... V esse
chiqueiro agora a, essa malta de bandalhos... Nesse tempo a-se ali  cmara
e sentia-se a inspirao, sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeas!... E
depois, menino, havia muitissimo boas mulheres.
Os ombros descahiam-lhe na saudade desse mundo perdido. E parecia mais
lugubre, com a sua grenha d'inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do
chapuvelho, a sobrecasaca coada e mal feita colando-se-lhe
lamentavelmente s ilhargas.
Um momento caminharam em silncio. Depois, na rua das Janelas Verdes, o
Alencar quisrefrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha
amarela de um candieiro de petroleo destacava numa penumbra de
subterraneo, alumiando o zinco mido do balco, garrafas nas prateleiras, e o
vulto triste da patroa com um leno amarrado nos queixos. Alencar parecia
intimo no estabelecimento: apenas soube que a sr. Candida estava com dr
de dentes, aconselhou logo remedios, familiar, descido das nuvens romanticas,
com os cotovelos sobre o balco. E quando Carlos quispagar a cana branca
zangou-se, bateu a sua placa de dois tostes sobre o zinco polido, exclamou
com nobreza:
- Eu  que fao a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
pagaro... C na taberna pago eu!
 porta tomou o brao de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no silncio da
rua, parou de novo, e murmurou numa voz vaga, contemplativa, como
repassada da vasta solenidade da noite:
- Aquela Rachel Cohen  divinamente bela, menino! Tu conhece-la?
- De vista.
- No te faz lembrar uma mulher da Bblia? No digo l uma dessas viragos,
uma Judit, uma Dalila... Mas um desses lirios poeticos da Bblia... serafica!
Era agora a paixo platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
- Tu viste ha tempos, no Diario Nacional, os versos que eu lhe fiz?
Abril chegou! S minha
Dizia o vento  rosa.
No me saiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: Abril chegou, s minha... Mas
logo: dizia o vento  rosa. Comprehendes? Calhou bem este efeito. Mas no
imagines l outras cousas, ou que lhe fao a corte... Basta ser a mulher do
Cohen, um amigo, um irmo... E a Rachel, para mim, coitadinha,  como uma
irm... Mas  divina. Aqueles olhos, filho, um veludo liquido!...
Tirou o chapu, refrescou a fronte vasta. Depois noutro tom, e como a custo:
- Aquele Ega tem muito talento... Vai l muito aos Cohens... A Rachel acha-lhe
graa...
Carlos parra, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar  severa
frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
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- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, l me tens na
rua do Carvalho, 52, 3. andar. O predio  meu, mas eu ocupo o terceiro
andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A unica
coisa mesmo que tenho trepado, meu Carlos,  de andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
- E has de ir l jantar um dia. No te posso dar um banquete, mas has de ter
uma sopa e um assado... O meu Mateus, um preto, (um amigo!) que
me serve ha muito ano, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
jantar a teu pai, ao meu pobre Pedro... Que aquilo foi casa de alegria, meu
rapaz. Dei l cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita dessa canalha
que hoje por a trota em coup da companhia e de correio atraz... E agora,
quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
- Isso so imaginaes, disse Carlos com amizade.
- No so, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. No so.
Tu no sabes a minha vida. Tenho sofrido muito repelo, rapaz. E no o
merecia! Palavra, que o no merecia...
Agarrou o brao de Carlos, e com a voz abalada:
- Olha que esses homens que por a figuram embebedavam-se comigo,
emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora so ministros, so
embaixadores, so personagens, so o diabo. Pois ofereceram-te eles um
bocado do bolo agora que o teem na mo? No. Nem a mim. Isto  duro,
Carlos, isto  muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu no queria que me
fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas a alguma coisa
numa secretaria... Nem um chavelho! Enfim, ainda h para o bocado do po, e
para a meia ona do tabaco... Mas esta ingratido tem-me feito cabelos
brancos... Pois no te quero massar mais, e que Deus te faa feliz como tu
mereces, meu Carlos!
- Tu no queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
- Obrigado, rapaz, disse ele, abraando Carlos. E agradeo-te isso, porque sei
que vem do corao... Todos vocs teem corao... J teu pai o tinha, e largo,
e grande como o de um leo! E agora cr uma coisa:  que tens aqui um
amigo. Isto no  palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz.
Queres tu um charuto?
Carlos aceitou logo, como um presente do ceu.
- Ento a tens um charuto, filho! exclamou Alencar com entusiasmo.
E aquele charuto dado a um homem to rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o
por um momento voltar aos tempos em que nesse Marrare ele estendia em
redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessouse
ento pelo charuto. Acendeu ele mesmo um fsforo. Verificou se ficava bem
aceso. E que tal, charuto rasovel? Carlos achava um excelente charuto!
- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
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Abraou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando ele enfim se
afastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
Alencar estirado numa chaiselongue, em quanto Baptista lhe fazia uma
chvena de ch, ficou pensando nesse estranho passado que lhe evocara o
velho lirico...
E era simpatico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de
Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores de ento, ele evitara pronunciar
sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fora, estivera
para lhe dizer: - podes falar da mam, amigo Alencar, que eu sei
perfeitamente que ela fugiu com um italiano!
E isto fl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentvel
historia lhe fora revelada, em Coimbra, numa noite de troa, quase
grotescamente. Por que o av, obedecendo  carta testamenteira de Pedro,
contara-lhe um romance decente: um casamento de paixo,
incompatibilidades de naturezas, uma separao corts, depois a retirada da
mam com a filha para a Frana, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A
morte de seu pai fora-lhe apresentada sempre como o brusco remate de uma
longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
muito bbedo, e num acesso de idealismo, lanara-se num paradoxo
tremendo, condenando a honestidade das mulheres como origem da
decadncia das raas: e dava por prova os bastardos, sempre inteligentes,
bravos, gloriosos! Ele, Ega, teria orgulho se sua me, sua prpria me, em
lugar de ser a santa burguesa que rezava o tero  lareira, fosse como a me
de Carlos, uma inspirada, que por amor de um exilado abandonara fortuna,
respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da
ponte, sob o calmo luar. Mas no pode interrogar o Ega, que j taramelava,
agoniado, e que no tardou a vomitar-lhe ignobilmente nos braos. Teve de o
arrastar  casa das Seixas, despi-lo, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha,
at que o deixou abraado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - que
queria ser bastardo, que queria que a mam fosse uma marafona!...
E ele mal poder dormir essa noite, com a idia daquela me, to outra do
que lhe haviam contado, fugindo nos braos de um desterrado - um polaco
talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua
grande amizade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o leno que tinha amarrado na
cabea com panos de gua sedativa: e no achava uma palavra, coitado!
Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranqilizou-o. No
vinha ali ofendido, vinha ali curioso! Tinham-lhe ocultado um episdio
extraordinrio da sua gente, que diabo, queria sabe-lo! Havia romance? Para
ali o romance!
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Ega, ento, l ganhou animo, l balbuciou a sua historia - a que ouvira ao tio
Ega - a paixo de Maria por um prncipe, a fuga, o longo silncio de anos que
se fizera sobre ela...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olavia, Carlos contou ao av
a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquela revelao vinda entre
arrotos. Pobre av! Um momento nem pode falar - e a voz por fim viu-lhe to
dbil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse morrendo o corao. Mas
narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo at aquela tarde em que
Pedro lhe aparecera, lvido, coberto de lama, a cair-lhe nos braos, chorando a
sua dor com a fraqueza de uma crena. - E o desfecho desse amor culpado,
acrescentara o av, fora a morte da me em Viena da ustria, e a morte da
pequenita, da neta que ele nunca vira, e que a Monforte levara... E eis a tudo.
E assim, aquela vergonha domestica estava agora enterrada, ali, no jazigo de
Sta. Olavia, e em duas sepulturas distantes, em pas estrangeiro...Carlos
recordava-se bem que nessa tarde, depois da melanclica conversa com o
av, devia ele experimentar uma gua inglesa: e ao jantar no se falou seno
da gua que se chamava Sultana. E a verdade era que da a dias tinha
esquecido a mam. Nem lhe era possvel sentir por esta tragdia seno um
interesse vago e como literrio. Isso passara-se havia vinte e tantos anos,
numa sociedade quase desaparecida. Era como o episdio histrico de uma
velha crnica de famlia, um antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das
suas avs dormindo num leito real. Aquilo no lhe dera uma lagrima, no lhe
pusera um rubor na face. De certo, preferiria poder orgulhar-se de sua me,
como de uma rara e nobre flor de honra: mas no podia ficar toda a vida a
amargurar-se com os seus erros. E porque? A sua honra dele no dependia
dos impulsos falsos ou torpes que tivera o corao dela. Pecara, morrera,
acabou-se. Restava, sim, aquela idia do pai, findando numa poa de sangue,
no desespero dessa traio. Mas no conhecera seu pai: tudo o que possua
dele e da sua memria, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada
no quarto de vestir, representando um moo moreno, de grandes olhos, com
luvas de camura amarelas e um chicote na mo... De sua me no ficara nem
um daguerreotipo, nem sequer um contorno a lpis. O av tinha-lhe dito que
era loura. No sabia mais nada. No os conhecera; no lhes dormira nos
braos; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, me, eram para ele como
smbolos de um culto convencional. O pap, a mam, os seres amados,
estavam ali todos - no av.
Baptista trouxera o ch, o charuto do Alencar acabara; - e ele continuava na
chaise-longue, como amolecido nesta s recordaes, e cedendo j, num meio
adormecimento,  fadiga do longo jantar... E ento, pouco a pouco, diante das
suas plpebras cerradas, uma viso surgiu, tomou cr, encheu todo o
aposento. Sobre o rio, a tarde morria numa paz elisia. O peristilo do Hotel
Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha
no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnao eburnea, bela como
uma Deusa, num casaco de veludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu
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lado trs-chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando
o relevo, a linha ondeante, e a colorao de cousas vivas.
Eram trs horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escurido dos
cortinados de seda, outra vez um belo dia de inverno morria sem uma
aragem, banhado de cor de rosa: o banal peristilo de Hotel alargava-se, claro
ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadelinha nos braos; uma
mulher passava, com um casaco de veludo branco de Genova, mais alta que
uma criatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno
que remonta ao Olimpo: a ponta dos seus sapatos de verniz enterrava-se na
luz do azul, por trs as saias batiam-lhe como bandeiras ao vento. E passava
sempre... O Craft dizia trs-chic. Depois tudo se confundia, e era s o Alencar,
um Alencar colossal, enchendo todo o cu, tapando o brilho das estrelas com a
sua sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaando ao vendaval das
paixes, alando os braos, clamando no espao:
Abril chegou, s minha!
VII
No Ramalhete, depois do almoo, com as trs janelas do escritrio abertas
bebendo a tpida luz do belo dia de maro, Afonso da Maia e Craft jogavam
uma partida de xadrez ao p da chamin j sem lume, agora cheia de plantas,
fresca e festiva como um altar domestico. Numa facha obliqua de sol, sobre o
tapete, o Reverendo Bonifcio, enorme e fofo, dormia de leve a sua sesta.
Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e ele,
tendo muitas similitudes de gosto e de idias, o mesmo fervor pelo bric-a-brac
e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, igual diletantismo d'espirito,
uniram-se imediatamente em relaes de superfcie, faceeis e amveis.
Afonso, por seu lado comeara logo a sentir uma estima elevada por aquele
gentleman de boa raa inglesa, como ele os admirava, cultivado e forte, de
maneiras graves, de hbitos rijos, sentindo finamente e pensando com
retido. Tinham-se encontrado ambos entusiastas de Tcito, de Macaulai, de
Burke, e at dos poetas lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carter
ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez de um bronze; para
Afonso da Maia aquilo era deveras um homem. Craft, madrugador, saia
cedo dos Olivaes a cavalo, e vinha assim s vezes almoar de surpresa com os
Maias; por vontade de Afonso jantaria l sempre; - mas ao menos as noites
passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo enfim, como ele dizia,
encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no
meio de idias, e com boa educao.
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Carlos saia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquela revoada de
clientela que lhe dera esperanas de uma carreira cheia, ativa, tinha passado
miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe trs doentes no bairro; e sentia
agora que as suas carruagens, os cavalos, o Ramalhete, os hbitos de luxo, o
condenavam irremediavelmente ao diletantismo. J o fino dr. Theodosio lhe
dissera um dia, francamente: voc  muito elegante p'ra medico! As suas
doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem  o burgus que lhe vai confiar a
esposa dentro de uma alcova?... Voc aterra o pater-familias! O laboratrio
mesmo prejudicara-o. Os colegas diziam que o Maia, rico, inteligente, avido de
inovaes, de modernismos, fazia sobre os doentes experincias fatais. Tinhase
troado muito a sua idia, apresentada na Gazeta Medica, a preveno das
epidemias pela inoculao dos vrus. Consideravam-no um fantasista. E ele,
ento, refugiava-se todo nesse livro sobre a medicina antiga e moderna, o seu
livro, trabalhado com vagares d'artista rico, tornando-se o interesse intelectual
de um ou dous anos.
Nessa manh, em quanto dentro prosseguia grave e silenciosa a partida de
xadrez, Carlos no terrao, estendido numa vasta cadeira ndia de bambu, 
sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista inglesa, banhado
pela caricia tpida daquele bafo de primavera que aveludava o ar, fazia j
desejar arvores e relvas...
Ao lado dele, numa outra cadeira de bambu, tambm de charuto na boca, o sr.
Damaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, numa indolncia
familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terrao as rosas
das roseiras de Afonso, sentindo por trs, atravs das janelas abertas, o rico e
nobre interior do Ramalhete - o filho do agiota saboreava ali uma dessas horas
deliciosas que ltimamente encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manh seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fora ao Ramalhete
deixar os seus bilhetes, objetos complicados e vistosos, tendo ao angulo,
numa dobra simulada, o seu retratosinho em fotografia, um capacete com
plumas por cima do nome - DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as
suas honras - COMMENDADOR DE CHRISTO, ao fundo a sua adresse - Rua de
S. Domingos,  Lapa; mas esta indicao estava riscada, e ao lado, a tinta
azul, esta outra mais aparatosa - GRAND HOTEL, BOULEVARD DES
CAPUCINES, CHAMBRE N. l03. Em seguida procurou Carlos no consultrio,
confiou ao criado outro carto. Enfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar
Carlos a p, correu para ele, pendurou-se dele, conseguiu acompanh-lo ao
Ramalhete.
Ali, logo desde o ptio, rompeu em admiraes extticas, como dentro de um
museu, lanando, diante dos tapetes, das faianas e dos quadros, a sua
grande frase - chic a valer! Carlos levou-o para o fumoir, ele aceitou um
charuto; e comeou a explicar, de perna traada, algumas das suas opinies e
alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, e s estava bem em Paris
- sobre tudo por causa do gnero fmea de que em Lisboa se passavam
fome: ainda que nesse ponto a Providencia no o tratava mal. Gostava
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tambm do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas,
por exemplo, no lhe pareciam cmodas para a gente se sentar. A leitura
entretinha-o, e ningum o pilhava sem livros  cabeceira da cama;
ltimamente andava s voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chic, mas
ele achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, at s quatro ou
cinco da madrugada, no delrio! Agora no, estava mudado e pacato; enfim,
no dizia que de vez em quando no se abandonasse a um excessozinho; mas
s em dias duplos... E as suas perguntas foram terrveis. O sr. Maia achava
chic ter um cab ingls? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de
sociedade que quisesse ir passar o vero l fora, Nice ou Trouvile?... Depois ao
sair, muito srio, quase comovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr. Maia no
fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, no o deixou mais. Se Carlos aparecia no teatro, Damaso
imediatamente arrancava-se da sua cadeira, s vezes na solenidade de uma
bela ria, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das
damas, abalava, abria d'estalo a claque, vinha-se instalar na frisa, ao lado de
Carlos, com a bochecha corada, camlia na casaca, exibindo os botes de
punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara
casualmente no Grmio, Damaso abandonou logo a partida, indiferente 
indignao dos parceiros, para se
vir colar  ilharga do Maia, oferecer-lhe marrasquino ou charutos, segui-lo de
sala em sala como um rafeiro. Numa dessas ocasies, tendo Carlos soltado um
trivial gracejo, eis o Damaso rompendo em risadas soluantes, rebolando-se
pelos sofs, com as mos nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se
socios; ele, sufocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odialo;
respondia-lhe s com monossilabos; dava voltas perigosas com o dog-cart
se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa rolia. Debalde: Damaso Candido
Salcede filara-o, e para sempre.
Depois, um dia, Taveira apareceu no Ramalhete com uma extraordinria
historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, ele no presenceara) um
sujeito, um Gomes, num grupo onde se comentavam os Maias, erguera a voz,
exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que estava ao lado mergulhado
na Ilustrao, levantou-se, muito plido, declarou que, tendo a honra de ser
amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao sr. Gomes se
ele ousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os
olhos no cho, a afronta, por ser rachitico de nascena - e porque era inquilino
de Damaso e andava muito atrasado na renda. Afonso da Maia achou este
feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde
a jantar ao Ramalhete.
Este dia pareceu belo a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor
ainda foi a manh em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o
recebeu no quarto, como entre rapazes... D'a datava a sua intimidade:
comeou a tratar Carlos por voc. Depois, nessa semana, revelou aptides
teis. Foi despachar  alfandega (Vilaa achava-se no Alemtejo) um caixote de
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roupa para Carlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava um
artigo para a Gazeta Medica ofereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma
beleza litografica; e da por diante passava horas  banca de Carlos, aplicado e
vermelho, com a ponta da lingua de fora, o olho redondo, copiando
apontamentos, transcripes de Revistas, materiaes para o livro... Tanta
dedicao merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a
barba que comeava agora a deixar crescer at  forma dos sapatos. Lanarase
no bric-a-brac. Trazia sempre o coup cheio de lixos archeologicos,
ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de um bule... E se
avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a portinhola como um addito de
sacrario, exhibia a preciosidade:
- Que te parece? Chic a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, hein!
Pura meia idade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vai-se roer de inveja!
Nesta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. No era
divertido assistir em silncio, do fundo de uma poltrona, s infindaveis
discusses de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. E, como ele
confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao
laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de electricidade... -
Pareciam dois demonios engalfinhados em mim, disse ele  sr. condessa de
Gouvarinho; e eu ento que embirro com o spiritismo!...
Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando  noite, num sof do
Gremio, ou ao ch numa casa amiga, ele podia dizer, correndo a mo
pelo cabelo:
- Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-a-brac,
discutimos... Um dia, chic! manh tenho uma manh de trabalho com o
Maia... Vamos s colxas.
Nesse domingo, justamente, deviam ir s colxas, ao Lumiar. Carlos concebera
um boudoir, todo revestido de colxas antigas de setim, bordadas a dous tons
especiaes, perola e boto de ouro. O tio Abraho esquadrinhava-as por toda a
Lisboa e pelos suburbios; e nessa manh viera anunciar a Carlos a existncia
de duas preciosidades, so beautiful! oh! so loveli! em casa de umas senhoras
Medeiros que esperavam o sr. Maia s duas horas...
J trs vezes Damaso tossira, olhara o relgio, - mas, vendo Carlos
confortavelmente mergulhado na Revista, recahia tambm na sua indolencia
de homem chic, investigando o Figaro. Enfim, dentro, o relgio Luiz XV cantou
argentinamente as duas...
- Esta  boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.
Olha quem aqui me aparece! A Suzana! A minha Suzana!
Carlos no despegara os olhos da pagina.
- Oh Carlos, acrescentou ele, fazes favor? Ouve. Ouve esta que  boa. Esta
Suzana  uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! Apaixonou-se por
mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o Figaro que debutou nas
Folies-Bergeres. Fala n'ela...  boa, hein? E era rapariguita chic... E o Figaro
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diz que ela teve aventuras, naturalmente sabia o que se passou comigo...
Todo o mundo sabia em Paris. Ora a Suzana!... Tinha bonitas pernas. E
custou-me a vr livre dela!
- Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da Revista.
Damaso era interminavel, torrencial, inundante a falar das suas conquistas,
naquela solida satisfao em que vivia de que todas as mulheres, desgraadas
delas, sofriam a fascinao da sua pessoa e da sua toilete. E em Lisboa,
realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade, com coup e parelha,
todas as meninas tinham para ele um olhar doce. E no dmi-monde, como ele
dizia, tinha prestigio a valer. Desde moo fora celebre, na capital, por pr
casas a espanholas; a uma mesmo dera carruagem ao ms; e este fausto
excepcional tornara-o bem depressa o D. Joo V dos prostibulos. Conhecia-se
tambm a sua ligao com a viscondessa da Gafanha, uma carcassa
esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos do pas: a
nos cincoenta anos, quando chegou a vez do Damaso - e no era decerto uma
delicia ter nos braos aquele esqueleto rangente e lubrico; mas dizia-se que
em nova dormira num leito real, e que augustos bigodes a tinham lambuzado;
tanta honra fascinou Damaso, e colou-se-lhe s saias com uma fidelidade to
sabuja, que a decrepita criatura, farta, enojada j, teve de o enxotar  fora e
com desfeitas. Depois gozou uma tragedia: uma actriz do Prncipe Real, uma
montanha de carne, apaixonada por ele, numa noite de ciume e de genebra,
engoliu uma caixa de fosforos; naturalmente da a horas estava boa, tendo
vomitado abominavelmente sobre o colete do Damaso que chorava ao lado -
mas desde ento este homem de amor julgou-se fatal! Como ele dizia a
Carlos, depois de tanto drama na sua vida quase tremia, tremia
verdadeiramente de fitar uma mulher...
- Passaram-se scenas com esta Suzana! mumurou ele depois de um silncio
em que estivera catando peliculas nos beios.
E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez um silncio no
terrasso. Dentro, a partida continuava. Para l da sombra do toldo, agora, o
sol a aquecendo, batendo a pedra, os vasos de loua branca, numa refraco
de ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras borboletas voando em
redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim verdejava, imovel na luz,
sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho liquido da
gua do tanque, avivado, aqui e alm, pelo vermelho ou o amarelo das rosas,
pela carnao das ltimas camelias... O bocado de rio que se avistava entre os
prdios era azul ferrete como o cu: e entre rio e cu o monte punha uma
grossa barra verde-escura, quase negra no resplendor do dia, com os dois
moinhos parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, to luminosas
e cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o
bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique de um sino.
- O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso num tom entendido e
traando a perna. O duque de Norfolk  chic, no  verdade,  Carlos?
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Carlos, sem erguer os olhos, lanou para os cus um gesto, como exprimindo
o infinito do chic!
Damaso largara o Figaro para meter um charuto na boquilha; depois
desapertou os ltimos botes do colete, deu um pucho  camisa para mostrar
melhor a marca que era um S enorme sob uma coroa de conde, e de palpebra
cerrada, com o beio trombudo, ficou mamando gravemente a boquilha...
- Tu ests hoje em beleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambm a
Revista e o contemplava com melancolia.
Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos,  meia cor
de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
- Eu agora ando bem... Mas, muito blaz.
E foi realmente com um ar blaz que se ergueu a ir buscar a uma mesa de
jardim, ao lado, onde estavam jornais e charutos, a Gazeta Ilustrada, para
vr o que ia pela patria. Apenas lhe deitou os olhos soltou uma exclamao.
- Outro debute? perguntou Carlos.
- No,  a besta do Castro Gomes!
A Gazeta Ilustrada anunciava que o sr. Castro Gomes, o cavalheiro brasileiro
que no Porto fora victima da sua dedicao por ocasio da desgraa ocorrida
na Praa Nova, e de que o nosso correspondente J. T. nos deu uma descripo
to opulenta de colorido realista, acha-se restabelecido e  hoje esperado no
Hotel Central. Os nossos parabens ao arrojado gentleman.
- Ora est s. ex. restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado o
jornal. Pois deixa estar, que agora  a ocasio de lhe dizer na cara o que
penso... Aquele pulha!
- Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
relia a noticia.
- Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vr, se fosse
contigo...  uma besta!  um selvagem!
E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se instalara no Hotel Central,
ele fora deixar-lhe bilhetes duas vezes - a ltima na manh seguinte ao jantar
do Ega. Pois bem, s. ex. no se dignara agradecer a visita! Depois eles
tinham partido para o Porto; fora a que, passeiando s na Praa Nova, vendo
a parelha de uma caleche desbocada, duas senhoras em gritos, Castro Gomes
se lanra ao freio dos cavalos - e, cuspido contra as grades, tinha deslocado
um brao. Teve de ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E ele
imediatamente (sempre com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegramas:
um de sentimento, lamentando, outro de interesse, pedindo noticias. Nem a
um, nem a outro, o animal respondeu!
- No, isso - exclamava Salcede, passeiando pelo terrao, e recordando estas
injurias - hei de lhe fazer uma desfeita!... No pensei ainda o qu, mas ha de
amargar-lhe... L isso, desconsideraes no admito a ningum! a ningum!
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Arredondava o olho, ameaador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
rachitico apavorado emudecera diante dele, Damaso ia-se tornando feroz. Pela
menor coisa falava em quebrar caras.
- A ningum! repetia ele, com puxes ao colete. Desconsideraes, a ningum!
Nesse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega - e quase
imediatamente ele apareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
- Ol, Damasosinho!... Carlos, ds-me aqui em baixo uma palavra?
Desceram do terrao, penetraram no jardim, at junto de duas olaias em flr.
- Tu tens dinheiro? - foi a logo a exclamao anciosa do Ega.
E contou a sua terrvel atrapalhao. Tinha uma letra de noventa libras que se
vencia no dia seguinte. Alm disso, vinte e cinco libras que devia ao
Eusebiosinho, e que ele lhe reclamara numa carta indecente: e era isto que
desesperava o Ega...
- Quero pagar a esse canalha, e quando o vir colar-lhe a carta  cara com um
escarro. Alm disso a letra! E tenho para tudo isto quinze tostes...
- O Eusebiosinho  homem de ordem... Enfim, queres cento e quinze libras,
disse Carlos.
Ega hesitou, com uma cor no rosto. J devia dinheiro a Carlos. Estava-se
sempre dirigindo quela amizade, como a um cofre inexgotavel...
- No, bastam-me oitenta. Ponho o relgio no prego, e a pelissa, que j no
faz frio...
Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque - em quanto Ega
procurava cuidadosamente um bonito boto de rosa para florir a sobrecasaca.
Carlos no tardou, trazendo na mo o cheque, que alargara at cento e vinte
libras, para o Ega ficar armado...
- Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
um belo suspiro de alivio.
Imediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse vilo! Mas tinha j uma
vingana. Ia remeter-lhe a soma toda em cobre, num saco de carvo, com um
rato morto dentro, e um bilhete, comeando assim: - ascorosa lombriga e
imunda osga, a te atiro ao focinho, etc....
- Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o teu ar,
aquele ser repulsivo!...
Mas era at sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos de
Carlos, do grande livro. Falou tambm do seu Atomo: - e, por fim, numa voz
diferente, aplicando o monocolo a Carlos:
- Dize-me outra coisa. Porque no tens tu voltado aos Gouvarinhos?
Carlos tinha s esta raso: no se divertia l.
Ega encolheu os ombros. Parecia-lhe aquilo uma puerilidade...
- Tu no percebeste nada, exclamou ele. Aquela mulher tem uma paixo por
ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue  cara.
E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de honra.
Ainda na vespera, estava-se falando de Carlos, e ele espreitara-a. Sem ser um
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Balzac, nem uma broca de observao, tinha a viso correcta: pois bem, l lhe
vira na face, nos olhos, toda a expresso de um sentimento sincero...
- No estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a quando
quiseres.
Carlos achava deliciosa aquela naturalidade mefistofelica com que Ega o
induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
domesticas...
- Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa blague da cartilha e do
codigo, ento no falemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, com
comiches por qualquer coisa, ento era uma vez um homem, vaipara a Trapa
comentar o Eclesiastes..
- No - disse Carlos, sentando-se num banco sob as arvores, ainda com uns
restos da preguia do terrao - o meu motivo no  to nobre. No vou l,
porque acho o Gouvarinho um massador.
Ega teve um sorriso mudo.
- Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
Sentou-se ao lado de Carlos, comeou a riscar em silncio o cho areado; e
sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com melancolia:
- Antes de ontem, toda a noite, a p firme, das dez  uma, estive a ouvir a
historia da demanda do Banco Nacional!
Era quase uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que se
debatia, naquele mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. Carlos
enterneceu-se.
- Meu pobre Ega, ento toda a demanda?
- Toda! E a leitura do relatorio da assembla geral! E interessei-me! E tive
opinies!... A vida  um inferno.
Subiram ao terrao. Damaso reocupara a sua cadeira de vime, e, com um
canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
- Ento decidiu-se? perguntou ele logo ao Ega.
- Decidiu-se ontem! No ha cotilon.
Tratava-se de uma grande soire mascarada que am dar os Cohens, no dia
dos anos de Rachel. A idia desta festa sugerira-a o Ega, ao principio com
grandes propores de gala artistica, a ressurreio historica de um sarau no
tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era irrealisavel em
Lisboa - e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples baile costum, a
capricho...
- Tu, Carlos, j decidiste como vs?
- De domin, um severo domin preto, como convm a um homem de
sciencia...
- Ento, exclamou Ega se se trata de sciencia, vaide rabona e chinelas de
ourelo!... A sciencia faz-se em casa e de chinelas... Nunca ningum descobriu
uma lei do Universo metido dentro de um domin... Que sensaboria, um
domin!...
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Justamente a sr. D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa monotonia dos
domins. E em Carlos no havia desculpa. No o prendiam vinte ou trinta
libras; e, com aquele esplendido fisico de cavaleiro da Renascena, devia ornar
a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
-  n'isto, ajuntava ele com fogo, que est a beleza de uma soire de
mascaras! No lhe parece voc, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
figura... Por exemplo, a Gouvarinho vaimuito bem. Teve uma inspirao: com
aquele cabelo ruivo, o nariz curto, as mas do rosto salientes,  Margarida de
Navarra...
- Quem  Margarida de Navarra? perguntou Afonso da Maia, aparecendo no
terrao com Craft.
- Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irm de Francisco I, a Margarida das
Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascena, a sr. condessa
de Gouvarinho!...
Rio muito, foi abraar Afonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos Cohens.
E apelou logo para ele, para o Craft tambm, cerca do nefando domin de
Carlos. No estava aquele moceto, com os seus ares de homem d'armas,
talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria de Marignan?
O velho deu um olhar enternecido  beleza do neto.
- Eu te digo, John, talvez tenhas razo; mas Francisco I, rei de Frana, no se
pode apear de uma tipia e entrar numa sala, s. Precisa corte, arautos,
cavaleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso  dificil.
Ega curvou-se. Sim senhor, d'acordo! Ali estava uma maneira inteligente de
comprehender o baile dos Cohens!
- E tu, de que vais? perguntou-lhe Afonso.
Era um segredo. Tinha a teoria de que, naquelas festas, um dos encantos
consistia na surpresa: dois sujeitos por exemplo que tendo jantado juntos, de
jaqueto, no Bragana, se encontram  noite, um na purpura imperial de
Carlos V, outro com a escopeta de bandido da Calabria...
- Eu c no fao segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu c vou de
selvagem.
- N?
- No. De Nelusko na Africana. Oh sr. Afonso da Maia, que lhe parece? Acha
chic?
- Chic no exprime bem, disse Afonso sorrindo. Mas grandioso, , decerto.
Quizeram ento saber como a Craft. Craft no a de coisa nenhuma; Craft
ficava nos Olivais, de robe de chambre.
Ega encolheu os ombros com tdio, quase com clera. Aquelas indiferenas
pelo baile dos Cohens feriam-no como injurias pessoaes. Ele estava dando a
essa festa o seu tempo, estudos na biblioteca, um trabalho fumegante de
imaginao; e pouco a pouco ela tomava aos seus olhos a importncia de uma
celebrao d'arte, provando o genio de uma cidade. Os domins, as
abstenes, pareciam-lhe evidencias de inferioridade de espirito. Citou ento o
exemplo do Gouvarinho: ali estava um homem de ocupaes, de posio
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poltica, nas vesperas de ser ministro, que no s a ao baile, mas estudara o
seu costume: estudara, e a muito bem, a de marqus de Pombal!
- Reclame para ser ministro, disse Carlos.
- No o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condies para ser ministro: tem
voz sonora, leu Mauricio Block, est encalacrado, e  um asno!...
E no meio das risadas dos outros, ele, arrependido de demolir assim um
cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
- Mas  muito bom rapaz, e no se d ares nenhuns!  um anjo!
Afonso reprehendia-o, risonho e paternal:
- Ora tu, John, que no respeitas nada...
O desacato  a condio do progresso, sr. Afonso da Maia. Quem respeita
decahe. Comea-se por admirar o Gouvarinho, vai-se a gente esquecendo,
chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem descido a
venerar o Todo-Poderoso!...  necessrio cautela!
- Vai-te embora, John, vai-te embora! Tu s o prprio Anti-Cristo...
Ega a responder, exhuberante e em veia - mas dentro o tinir argentino do
relgio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emudeceu-o.
- O que? quatro horas!
Ficou aterrado, verificou no seu prprio relgio, deu em redor rapidos,
silenciosos apertos de mo, desapareceu como um sopro.
Todos de resto estavam pasmados de ser to tarde! E assim passara a hora de
ir ao Lumiar vr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
- Quer voc ento meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
- Seja: e  necessrio dar a lio ao Damaso...
-  verdade, a lio... - murmurou Damaso sem entusiasmo, com um sorriso
murcho.
A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, com
janelas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das arvores,
uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessrio acender os quatro
bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentido de rez
desconfiada.
Aquelas lies, que ele solicitara por amor do chic, am-se-lhe tornando
odiosas. E nessa tarde como sempre, apenas se enchumaou com o plastro
d'anta, se cobriu com a caraa de arame, comeou a transpirar, a fazer-se
branco. Diante dele Craft de florete na mo, parecia-lhe cruel e bestial, com
aqueles seus ombros de Hrcules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros
rasparam. Damaso estremeceu todo.
- Firme, gritou-lhe Carlos.
O desgraado equilibrava-se sobre a perna rolia; o florete de Craft vibrou,
rebrilhou, voou sobre ele; Damaso recuou, sufocado, cambaleando e com o
brao frouxo...
- Firme! berrava-lhe Carlos.
Damaso, exausto, abaixou a arma.
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- Ento que querem vocs,  nervoso!  por ser a brincar... Se fosse a valer,
vocs veriam.
Assim acabava sempre a lio; e ficava depois abatido sobre uma banqueta de
marroquim, arejando-se com o leno, plido como a cal dos muros.
- Vou-me at casa, disse ele da a pouco, fatigado de tanto crusar de ferro.
Queres alguma coisa, Carlinhos?
- Quero que venhas c jantar amanh... Tens o marqus.
- Chic a valer... No faltarei.
Mas faltou. E, como toda essa semana aquele moo ponctual no apareceu no
Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi uma
manh a casa dele,  Lapa. Mas a, o criado (um galego achavascado e triste,
que, desde as suas relaes com os Maias, Damaso trazia entalado numa
casaca e mortalmente aperreado em sapatos de verniz) afirmou-lhe que o sr.
Damasosinho estava de boa sade, e at sahira a cavalo. Carlos veiu ento ao
tio Abraho; o tio Abraho tambm no avistara, havia dias, aquele bom
senhor Salcede, tat beautiful gentleman! A curiosidade de Carlos levou-o ao
Gremio: no Gremio nenhum criado vira ltimamente o sr. Salcede. Est por
a de lua de mel com alguma bela andaluza pensou Carlos.
Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se
dirigia ao Aterro, a p, seguido da sua vitoria a passo. Era a segunda vez que
o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraado ataque de entranhas.
Mas no tinha j vestigios da doena: vinha todo rosado e loiro, muito solido
na sua sobrecasaca, e com uma bela rosa de ch na botoeira. Declarou mesmo
a Carlos que estava mais forrte. E no lamentava os sofrimentos, porque
eles lhe tinham dado o meio de apreciar as simpatias que gosava em Lisboa.
Estava enternecido. Sobretudo o cuidado de S. M. - o augusto cuidado de S.
M. - fizera-lhe melhor que todos os drogues de botique! Realmente nunca
as relaes entre esses dois paizes, to estreitamente aliados, Portugal e
Filandia, tinham sido ms firmes, pur assi dizerre ms intimes, que durrante
seu ataque de intestinaes!
Depois, travando do brao a Carlos, aludiu comovido ao oferecimento de
Afonso da Maia, que pozera  sua disposio Sta. Olavia, para ele se
restabelecer nesses ares fortes e limpos do Douro. Oh esse convite tocara-o
au plus profond de son coeur. Mas, infelizmente, Sta. Olavia era longe, to
longe!... Tinha de se contentar com Cintra, donde podia vir todas as semanas,
uma, duas vezes, vigiar a Legao. C'tait enuieux, mais... A Europa estava
num desses momentos de crise, em que homens de estado, diplomatas, no
podiam afastar-se, gosar as menores ferias. Precisavam estar ali, na brecha,
observando, informando...
- C'est trs grave, murmurou ele, parando, com um pavor vago no olhar
azulado... C'est excessivement grave!
Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a parte uma
confuso, um gachis. Aqui a questo do Oriente; alem o socialismo; por cima
o Papa, a complicar tudo... Oh, trs grave!
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- Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambeta. Oh, je ne dis pas non, il
est trs fort, il est excessivement fort... Mais... Voil! C'est trs grave...
Por outro lado os radicaes, les nouveles couches... Era excessivamente
grave...
- Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
Mas Carlos no escutava, nem sorria j. Do fim do Aterro aproximava-se,
caminhando depressa, uma senhora - que ele reconheceu logo, por esse andar
que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadelinha cor de prata que
lhe trotava junto s saias, e por aquele corpo maravilhoso, onde vibrava, sob
linhas ricas de mrmore antigo, uma graa quente, ondeante e nervosa. Vinha
toda vestida de escuro, numa toilete de serge muito simples que era como o
complemento natural da sua pessoa, colando-se bem sobre ela, dando-lhe, na
sua correco, um ar casto e forte; trazia na mo um guarda-sol ingls,
apertado e fino como uma cana; e toda ela, adiantando-se assim no luminoso
da tarde, tinha, naquele caes triste de cidade antiquada, um destaque
estrangeiro, como o requinte raro de civilisaes superiores. Nenhum vu,
nessa tarde, lhe assombreava o rosto. Mas Carlos no poude detalhar-lhe as
feies; apenas d'entre o esplendor eburneo da carnao sentiu o negro
profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um
passo para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vr nada, estava achando
Bismarch assustador.  maneira que ela se afastava, parecia-lhe maior, mais
bela: e aquela imagem falsa e literaria de uma deusa marchando pela terra
prendia-se-lhe  imaginao. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do
Chanceler no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o chapunuma frma
de trana enrolada, aparecia o tom do seu cabelo castanho, quase louro  luz;
a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas direitas.
- Evidentemente, disse Carlos, Bismarck  inquietador...
Steinbroken porm j deixara Bismark. Steinbroken agora atacava lord
Beaconsfield.
- Il est trs fort... Oui, je vous l'acorde, il est excessivement fort... Mais
voil... O va-t-il?
Carlos olhava para o caes de Sodr. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken
antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negocios estrangeiros
aquilo mesmo: lord Beaconsfield  muito forte, mas para onde vaiele? O que
queria ele?... E s. ex. tinha encolhido os ombros... S. ex. no sabia...
- Eh, oui! Beaconsfield est trs fort... Vous avez lu son speech chez le Lord-
Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voil... O va-t-il?
- Steinbroken, no me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a
arrefecer no Aterro...
- Devrras? exclamou o diplomata, passando logo a mo rapidamente pelo
estomago e pelo ventre.
E no se quisdemorar um instante mais! Como Carlos a recolher tambm,
ofereceu-lhe um lugar na vitoria at ao Ramalhete.
- Venha ento jantar conosco, Steinbroken.
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- Charm, mon cher, charm...
A vitoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago num
grande plaid escossez:
- Ps, Maia, fezemos um belo passo... Mas este Atrro no  deverrtido.
No era divertido o Aterro!... Carlos achara-o nessa tarde o mais delicioso
lugar da terra!
Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as
arvores, viu-a logo. Mas no vinha s; ao seu lado o marido, esticado, apurado
numa jaqueta de casimira quase branca, com uma ferradura de diamantes no
setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e trazia a cadelinha
debaixo do brao. Ao passar, deu um olhar surprehendido a Carlos - como
descobrindo enfim entre os barbaros um ser de linha civilisada, e disse-lhe
algumas palavras baixo, a ela.
Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas no lhe
parecera to bela; trazia uma outra toilete menos simples, de dois tons, cor de
chumbo e cor de creme, e no chapu, d'abas grandes  inglesa, vermelhava
alguma coisa, flr ou pena. Nessa tarde no era a deusa descendo das nuvens
de ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era uma bonita senhora
estrangeira que recolhia ao seu hotel.
Voltou ainda trs vezes ao Aterro, no a tornou a vr; e ento envergonhouse,
sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia assim
numa inquietao de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da rampa de Santos
ao caes de Sodr,  espera de uns olhos negros e de uns cabelos louros de
passagem em Lisboa, e que um paquete da Roial Mail levaria uma dessas
manhs...
E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a
mesa! E que todas as tardes, antes de sair, se demorava ao espelho,
estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza.
Ao fim dessa semana, Carlos estava no consultorio, j para sair, calando as
luvas, quando o criado entreabriu o reposteiro, e murmurou com alvoroo:
- Uma senhora!
Apareceu um menino muito plido, de caracoes louros, vestido de veludo preto
- e atraz uma mulher, toda de negro, com um vu justo e espesso
como uma mascara.
- Creio que vim tarde, disse ela, hesitando, junto da porta. O sr. Carlos da
Maia ia sair...
Carlos reconheceu a Gouvarinho.
- Oh senhora condessa!
Desembaraou logo o div dos jornais e das brochuras; ela olhou um
momento, como indecisa, aquele amplo e mole assento de serralho; depois
sentou-se  borda e de leve, com o pequeno junto de si.
- Venho trazer-lhe um doente, disse ela sem erguer o vu, como falando do
fundo daquela toilete negra que a dissimulava. No o mandei chamar, por que
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realmente pouco , e tinha hoje de passar por aqui... Alm disso, o meu
pequeno  muito nervoso; se v entrar o medico, parece-lhe que vaimorrer.
Assim  como uma visita que se faz... E no tens medo, no  verdade,
Charlie?
O pequeno no respondeu; de p, quedo ao lado da mam; mimoso e debil
sob os caracoes d'anjo que lhe caam at aos ombros, devorava Carlos com
uns grandes olhos tristes.
Carlos poz um interesse quase terno na sua pergunta:
- Que tem ele?
Havia dias, aparecera-lhe uma empigem no pescoo. Alm disso, por traz da
orelha, tinha como uma dureza de caroo. Aquilo inquietava-a. Ela era forte,
de uma boa raa, que dera atletas e velhos de grande idade. Mas na famlia do
marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia hereditaria. O conde
mesmo, com aquela solida aparencia, era um achacado. E ela, receiando que a
influencia debilitante de Lisboa no conviesse a Charlie, estava com o vago
projeto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa
da av.
Carlos, aproximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braos a Charlie:
- Ora venha c o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico cabelo ele
tem, senhora condessa!...
Ela sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquele terror do medico
de que falara a mam veio logo, desapertou delicadamente o seu grande
colarinho, e, quase entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoo macio e alvo
como um lrio.
Carlos vio apenas uma pequena mancha cor de rosa desvanecendo-se; do
caroo no havia vestigio; e ento uma ligeira vermelhido subiu-lhe ao
rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo tudo,
querendo vr n'eles a confisso do sentimento que a trouxera ali com um
pretexto pueril, sob aquela toilete negra, aqueles vus que a mascaravam...
Mas ela permaneceu impenetravel, sentada  borda do div, com as mos
crusadas, atenta, como esperando as suas palavras, num vago susto de me.
Carlos abotoou o colarinho do pequeno, e disse:
- No  absolutamente nada, minha senhora.
No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de Charlie.
A condessa, num tom pesaroso, queixou-se de que a educao da criana no
fosse, como ela desejava, mais forte e mais viril; mas o pai opunha-se ao que
ele chamava a aberrao inglesa, a gua fria, os exercicios a todo o ar, a
ginastica...
- A gua fria e a ginastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor reputao do
que merecem...
 o seu nico filho, senhora condessa?
- , tem os mimos de morgado, disse ela passando a mo pelos cabelos louros
do pequeno.
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Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, Charlie
no devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os ares de
Formoselha... Depois ficaram um momento calados.
- No imagina como me tranquilisou, disse ela, erguendo-se, dando um jeito
ao veu. De mais a mais  um gosto vir consultal-o... No ha aqui o menor ar
de doena, nem de remedios... E realmente tem isto muito bonito... -
acrescentou, dando um olhar lento em redor aos veludos do gabinete.
- Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. No inspira nenhum
respeito pela minha sciencia... Eu estou com idas d'alterar tudo, pr aqui um
crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas d'in-folios...
- A cela de Fausto.
- Justamente, a cela de Fausto.
- Falta-lhe Mefistofeles, disse ela alegremente, com um olhar que brilhou sob o
vu.
- O que me falta  Margarida!
A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os ombros, como
duvidando discretamente; depois tomou a mo de Charlie, e deu um passo
lento para a porta, puxando outra vez o vu.
- Como v. ex. se interessa pela minha instalao, acudiu Carlos querendo
retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
Correu o reposteiro. Ela aproximou-se, murmurou algumas palavras,
aprovando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o piano
fel-a sorrir.
- Os seus doentes danam quadrilhas?
- Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, no so bastante
numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para
uma valsa... O piano est simplesmente ali para dar idas alegres;  como
uma promessa tacita de sade, de futuras soires, de bonitas arias do
Trovador, em famlia...
-  engenhoso, disse ela dando familiarmente alguns passos na sala, com
Charlie colado aos vestidos.
E Carlos, caminhando ao lado dela:
- V. ex. no imagina como eu sou engenhoso!
- J noutro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito inventivo
quando odiava.
- Muito mais quando amo, disse ele rindo.
Mas ela no respondeu: parra junto do piano, remexeu um momento as
musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
-  um chocalho.
- Oh, senhora condessa!
Ela seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer - um focinho
de co de S. Bernardo, macio e bonacheiro, adormecido sobre as patas.
Quasi roando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de verbena que ela
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usava sempre exageradamente: e, entre aqueles tons negros que a cobriam, a
sua pele parecia mais clara, mais doce  vista, e atrahindo como um setim.
- Este  um horror, murmurou ela, voltando-se; mas disse-me o Ega que ha
quadros lindos no Ramalhete... Falou-me sobretudo de um Greuze e de um
Rubens...  pena que se no possam vr essas maravilhas.
Carlos lamentava tambm que uma existncia de solteires lhes impedisse, a
ele e ao av, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma
melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns meses, sem que
se sentisse ali um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a
herva pelos tapetes.
-  por isso, acrescentou ele muito srio, que eu vou obrigar o av a casar-se.
A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do vu.
- Gosto da sua alegria, disse ela.
-  uma questo de regimen. V. ex. no  alegre?
Ela encolheu os ombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do guardasol
na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, murmurou com
os olhos baixos, deixando ir as palavras, num tom d'intimidade e de
confidencia:
- Dizem que no, que sou triste, que tenho spleen...
O olhar de Carlos seguira o dela, pousara-se na botina de verniz que calava
delicadamente um p fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas teclas do
piano - e ele baixou a voz para lhe dizer:
-  que a senhora condessa tem um mau regimen.  necessrio tratar-se,
voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
Ela interrompeu-o vivamente, erguendo para ele os olhos, donde se escapou
um claro de ternura e de triunfo:
- Venha-m'o antes dizer um destes dias, tomar ch comigo, s cinco horas...
Charlie!
O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do brao.
Carlos, acompanhando-a abaixo  rua, lamentava a fealdade da sua escada de
pedra:
- Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a darme
a honra de me vir consultar...
Ela gracejou, toda risonha:
Ah no! O sr. Carlos da Maia prometeu-nos a todos a sade... E naturalmente
no espera que seja eu que venha c tomar ch comsigo...
- Oh, minha senhora, eu quando comeo a esperar, no ponho limites nenhuns
s minhas esperanas...
Ela parou, com o pequeno pela mo, olhou para ele, como pasmada,
encantada com aquela grandiosa certeza de si mesmo.
- Ento vaipor a alm, por a alm...?
- Vou por a alm, por a alm, minha senhora!
Estavam no ltimodegrau, diante da claridade e do rumor da rua.
- Mande-me chegar um coup.
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Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lanou logo a tipia.
- E agora, disse ela sorrindo, mande-o ir  egreja da Graa.
- A senhora condessa vai beijar o p do Senhor dos Passos?
Ela corou de leve, murmurou:
- Ando fazendo as minhas devoes...
Depois saltou ligeiramente para o coup - deixando Charlie, que Carlos ergueu
nos braos e lhe colocou ao lado, paternalmente.
- Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
Ela agradeceu com um olhar, um movimento de cabea - ambos to doces
como caricias.
Carlos subio: e, sem tirar o chapu, ficou ainda enrolando uma cigarrete,
passeando naquela sala sempre deserta, sempre fria, onde ela deixara agora
alguma coisa do seu calor e do seu aroma...
Realmente gostava daquela audacia dela - ter vindo assim ao consultorio, toda
escondida, quase mascarada numa grande toilete negra, inventando um
caroo no pescocinho so de Charlie, para o vr, para dar um n brusco e
mais apertado naquele leve fio de relaes que ele to negligentemente
deixara cahir e quebrar...
O Ega desta vez no fantasiara: aquele bonito corpo oferecia-se, to
claramente como se se despisse. Ah! se ela fosse de sentimentos errantes e
faceis - que bela flr a colher, a respirar, a deitar fora depois! Mas no: como
dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se tinha divertido. E o que ele no
queria era achar-se envolvido numa paixo ciosa, uma dessas ternuras
tumultuosas de mulher de trinta anos, de que depois se desembaraaria
dificilmente... Nos braos dela o seu corao ficaria mudo: e apenas esgotada
a primeira curiosidade, comearia o tdio dos beijos que se no desejam, a
horrvel massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber
pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa distilando
doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara daquela audacia! Havia
ali uma pontinha de romantismo, muito irregular, e picante... E devia ser
deliciosamente bem feita... A sua imaginao despia-a, enrolava-se-lhe no
setim das frmas onde sentia ao mesmo tempo alguma coisa de maduro e de
virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos,
aqueles cabelos tentavam-no, assim avermelhados, to crespos e quentes...
Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou o
Damaso, num coup lanado a grande trote, que o chamava, mandava parar,
com a face  portinhola, vermelho e radiante:
- No tenho podido l ir, exclamou ele, apoderando-se-lhe da mo, apenas
Carlos se aproximou, e apertando-lha com entusiasmo. Tenho andado num
turbilho!... Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!... Tem
cuidado com a roda! Bate l,  Calo!
A parelha abalou; ele ainda se debruou da portinhola, agitou a mo, gritou no
rumor da rua:
- Um romance divino, chic a valer!
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Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que acabava
de bater o marqus, perguntou, pousando o taco e acendendo o cachimbo:
- E noticias do nosso Damaso? J se esclareceu esse lamentvel
desaparecimento?...
Carlos ento contou como o encontrra, afogueado e triunfante, atirando-lhe
da portinhola do coup, em plena rua Nova do Almada, a noticia de um
romance divino!
- Bem sei, disse o Taveira.
- Como sabes?... exclamou Carlos.
Taveira vira-o na vespera, num grande landeau da Companhia, com uma
esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
- Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
- Exactamente, uma cadelinha escoceza, um grifon cor de prata... Quem so?
- E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglsado?
- Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente ?
- Uma gente brazileira, penso eu.
Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia apenas
duas semanas que no terrao o Damaso, de punhos fechados, bramara contra
os Castro Gomes e as suas desconsideraes! Ia pedir outros pormenores
ao Taveira - mas o marqus ergueu a voz do fundo da poltrona onde se
estirra, e quissaber a opinio de Carlos sobre o grande acontecimento dessa
manh na Gazeta Ilustrada. - Na Gazeta Ilustrada?... Carlos no sabia, essa
manh no vira jornal nenhum.
- Ento no lhe digam nada, gritou o marqus. Venha a surpresa! C ha a
Gazeta? Manda buscar a Gazeta!
Taveira puxou o cordo da campanhia; - e quando o escudeiro trouxe a
Gazeta, ele apoderou-se dela, quisfazer uma leitura solene.
- Deixa-lhe vr primeiro o retrato, berrou o marqus, erguendo-se.
- Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal atraz
das costas.
Mas cedeu, e poz o papel diante dos olhos de Carlos, largamente, como um
sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a prosa
que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas retintas, era
um trabalho de seis colunas, em estilo emplumado e cantante, celebrando at
aos cus as virtudes domesticas do Cohen, o genio financeiro do Cohen, os
ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das salas do Cohen; havia ainda um
paragrafo aludindo  festa proxima, ao grande sarau de mascaras do Cohen. E
tudo isto vinha assignado - J. da E. - as iniciaes de Joo da Ega!
- Que tolice! exclamou Carlos, com tdio, atirando o jornal para cima do
bilhar.
-  mais que tolice, observou Craft;  uma falta de senso moral.
O marqus protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!...
E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...
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- Voc, Craft, no conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. 
intimo da casa, celebra os donos.  admirador da mulher, lisongea o marido.
Est na logica c da terra... Voc ver que sucesso isto vaiter... E l que o
artigo est lindo, isso est!
Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cor de rosa de
madame Cohen: respira-se ali (dizia o Ega) alguma coisa de perfumado,
intimo e casto, como se todo aquele cor de rosa exhalasse de si o aroma que a
rosa tem!
- Isto, caramba,  lindo em toda a parte! exclamou o marqus. Tem muito
talento, aquele diabo! Tomara eu ter o talento que ele tem!...
- Nada disso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquilamente, que seja
uma extraordinria falta de senso moral.
- Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto de
um sof, para deixar cahir s silabas esta pesada opinio.
O marqus investiu com ele.
- Que entende voc disso, seu maestro? O artigo  sublime! E saiba mais:  de
finorio!
O maestro, com preguia de argumentar, foi-se enroscar em silncio ao outro
canto do sof.
E ento o marqus, de p e bracejando, apelou para Carlos, e quissaber o que
 que Craft em principio entendia por senso moral.
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, no respondeu, tomou o brao
do Taveira, levou-o para o corredor.
- Dize-me uma coisa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que lado
iam?
- Iam pelo Chiado abaixo; ante-ontem, s duas horas... Estou convencido que
iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada num
coup com uma mala maior... Aquilo cheirava a ida a Cintra. E a mulher 
divina! Que toilete, que ar, que chic!..  uma Venus, menino!... Como
conheceria ele aquilo?...
- Em Bordeus, num paquete, no sei onde!
- Eu do que gostei foi dos ares que ele se ia dando por aquele Chiado!
Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A debruar-se, a
falar muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista...
- Que besta! exclamou Carlos, batendo com o p no tapete.
- Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher
civilisada e decente, e  ele que a conhece, e  ele que vaicom ela para Cintra!
Chama-lhe besta!... Anda da, vamos  partidinha de domin.
Taveira ltimamente introduzira o domin no Ramalhete - e havia agora ali, s
vezes, partidas ardentes, sobretudo quando aparecia o marqus. Porque a
paixo do Taveira era bater o marqus.
Mas foi necessrio que o marqus acabasse de bracejar, de desenrolar o
arrazoado com que estava acabrunhando o Craft - que do fundo da poltrona,
de cachimbo na mo e com um ar de sono, respondia por monossilabos. Era
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ainda a proposito do artigo do Ega, da definio de senso moral. J tinha
falado de Deus, de Garibaldi, at do seu famoso perdigueiro Finorio; e agora
definia a Consciencia.... Segundo ele, era o medo da policia. Tinha o amigo
Craft visto j algum com remorsos? No, a no ser no teatro da Rua dos
Condes, em dramalhes...
- Acredite voc uma coisa, Craft - terminou ele por dizer, cedendo ao Taveira
que o puchava para a mesa - isto de conscincia  uma questo de educao.
Adquire-se como as boas maneiras; sofrer em silncio por ter trado um
amigo, aprende-se exactamente como se aprende a no meter os dedos no
nariz. Questo d'educao... No resto da gente  apenas medo da cadeia, ou
da bengala... Ah! vocs querem levar outra sova ao domin como a de
sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, aproximouse
tambm da mesa. E estavam sentados, remexiam as pedras - quando 
porta da sala apareceu o conde de Steinbroken, de casaca e crach, gran-cruz
sobre o colete branco, loiro como uma espiga, esticado e resplandecente.
Tinha jantado no Pao, e vinha acabar no Ramalhete a sua soire, em
famlia...Ento o marqus que o no via desde o famoso ataque de intestinos,
abandonou o domin, correu a abra-lo ruidosamente - e sem o deixar
sequer sentar, nem estender a mo aos outros, implorou-lhe logo uma das
suas belas canes finlandesas, uma s, daquelas que lhe faziam to bem 
alma!...
- S a Balada, Steinbroken... Eu tambm no me posso demorar, que tenho
aqui a partida  espera. S a Balada!... V, salta l para dentro para o piano,
Cruges...
O diplomata sorria, dizia-se cansado, tendo j feito musica deliciosa no Pao
com Sua Majestade. Mas nunca sabia resistir quele modo folgazo do
marqus - e l foram para a sala do piano, de brao dado, seguidos pelo
Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do sof. E da a
um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a bela voz de baritono
do diplomata espalhava pelas salas, entre os suspiros do piano, a embaladora
melancolia da Balada, com a sua letra traduzida em francez, que o marqus
adorava, e em que se falava das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de
fadas loiras...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham comeado uma grande partida de
domin, a tosto o ponto. Mas Carlos nessa noite no se interessava, jogando
distraido, a cantarolar tambm baixo bocados tristes da Balada: depois,
quando j Taveira tinha s uma pedra diante de si, e ele estava comprando
interminavelmente as que restavam, voltou-se para o lado, para o Craft, a
perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra, estava aberto todo o ano...
- A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.
Anda, joga!
Carlos, sem responder, pousou molemente uma pedra.
- Domin! gritou Taveira.
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E em triunfo, aos pulos, contou ele mesmo os sessenta e oito pontos que
Carlos perdia.
Justamente o marqus entrava, e a victoria de Taveira indignou-o.
- Agora ns, exclamou ele, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, deixeme
voc dar aqui uma sova neste ladro. Depois jogamos de trs... Como
queres tu isto, Taveirete? A dous tostes o ponto? Ah, queres s a tosto...
Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraa-te j desse dble-seis,
miseravel...
Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarete apagada
nos dedos, o mesmo ar distraido: de repente, pareceu tomar uma deciso,
atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fora ao
escritrio vr Afonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges s, entre as duas
vlas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava para si,
melancolicamente.
- Dize c, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir amanh a Cintra?
O teclado calou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Carlos nem o
deixou falar.
- Est claro que queres, no te faz seno bem vir a Cintra... manh l estou
 porta, com o break.
Mete sempre uma camisa numa maleta, que talvez passemos l a noite... s
oito em ponto, hein?... E no digas nada l dentro.
Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de domin. Agora havia um
largo silncio. O marqus e Taveira moviam lentamente as pedras, sem uma
palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano verde do bilhar as bolas
brancas dormiam juntas, sob a luz que caa dos abat-jours de porcelana. Um
som de piano, dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o brao
descadoao longo da poltrona, dormitava, beatificamente.
VIII
Na manh seguinte, s oito horas pontualmente, Carlos parava o break na rua
das Flores, diante do conhecido porto da casa do Cruges. Mas o trintanario,
que ele mandara acima bater  campainha do terceiro andar, desceu com a
estranha nova de que o Sr. Cruges j no morava ali. Onde diabo morava
ento o sr. Cruges? A criada dissera que o Sr. Cruges vivia agora na rua de S.
Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante um momento, Carlos,
desesperado, pensou em partir s para Cintra. Depois l largou para a rua de
S. Francisco, amaldioando o maestro, que mudara de casa sem avisar,
sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo assim. Carlos nada sabia do
seu passado, do seu interior, das suas afeies, dos seus habitos. O marqus
uma noite levara-o ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de Carlos que estava ali
um genio. Ele encantara logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras
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e a sua arte maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete comeou a
tratar Cruges por maestro, a falar tambm do Cruges como de um genio, a
declarar que Chopin nunca fizera obra egual  Meditao de Outono do
Cruges. E ningum sabia mais nada. Fra pelo Damaso que Carlos conhecera a
casa do Cruges e soubera que ele vivia l com a me, uma senhora viuva,
ainda fresca, e dona de prdios na Baixa.
Ao porto da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de hora.
Primeiro apareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em cabelo,
que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos degraus acima.
Depois veiu um criado em mangas de camisa trazer a maleta do senhor e um
chaile-manta. Enfim, o maestro desceu, a correr, quase aos trambulhes, com
um cache-nez de seda na mo, o guarda-chuva debaixo do brao, abotoando
atarantadamente o palet.
Quando vinha pulando os ltimos degraus, uma voz esganiada de mulher
gritou-lhe de cima:
- Olha no te esqueam as queijadas!
E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,
rosnando que, com a preocupao de se levantar to cedo, tivera uma insonia
abominavel...
- Mas que diabo de idia  essa de mudar de casa, sem avisar a gente,
homem? - exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do
plaid que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
-  que esta casa tambm  nossa, disse simplesmente Cruges.
- Est claro, a est uma razo! murmurou Carlos rindo e encolhendo os
ombros.
Partiram.
Era uma manh muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um
lindo sol que no aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras
alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias ainda
andavam pelas portas com os seus ceires d'hortalias: varria-se de vagar a
testada das lojas: no ar macio morria a distncia um toque fino de missa.
Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,
estendeu um olhar  esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob o
faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas librs, a todo
aquele luxo correcto e rolando em cadencia - onde fazia mancha o seu palet:
mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o olhar
aceso, as belas cres, o belo riso, o quer que fosse de vibrante e de luminoso,
que, sob o seu simples veston de xadrezinho castanho, naquela almofada
burgueza de break, lhe dava um arranque
de heroe jovial, lanando o seu carro de guerra... Cruges farejou uma
aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera lhe ficara nos lbios.
- Com franqueza, aqui para ns, que idia foi esta de ir a Cintra?
Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart, e
pelas fugas de Bach? Pois bem, a idia era vir a Cintra, respirar o ar de Cintra,
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passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de Deus, que o no revelasse a
ningum!
E acrescentou, rindo:
- Deixa-te levar, que no te has de arrepender...
No, Cruges no se arrependia. At achava delicioso o passeio, gostara
sempre muito de Cintra... Todavia no se lembrava bem, tinha apenas uma
vaga idia de grandes rochas e de nascentes d'guas vivas... E terminou por
confessar que desde os nove anos no voltara a Cintra.
O que! o maestro no conhecia Cintra?... Ento era necessrio ficarem l,
fazer as peregrinaes classicas, subir  Pena, ir beber gua  Fonte dos
Amores, barquejar na varzea...
- A mim o que me est a apetecer muito  Sitiaes; e a manteiga fresca.
- Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Enfim, uma
ecloga!
O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de
quintas, casares tristonhos de vidraas quebradas, vendas com o seu masso
de cigarros  porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, qualquer
bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam
Cruges. Ha que tempos ele no via o campo!
Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraou-se do seu grande
cache-nez. Depois, encalmado, despiu o palet - e declarou-se morto de fome.
Felizmente estavam chegando  Porcalhota.
O seu vivo desejo sria comer o famoso coelho guisado, - mas, como era cedo
para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bela pratada
de ovos com chourio. Era uma coisa que no provava havia anos, e que lhe
daria a sensao de estar na alda... Quando o patro, com um ar importante
e como fazendo um favor, pousou sobre a mesa sem toalha a enorme travessa
com o petisco, Cruges esfregou as mos, achando aquilo deliciosamente
campestre.
- A gente em Lisboa estraga a sade! disse ele, puxando para o prato uma
montanha de ovo e chourio. Tu no tomas nada?...
Carlos, para lhe fazer companhia, aceitou uma chvena de caf.
D'a a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a boca cheia:
- O Rheno tambm deve ser magnifico!
Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora ali o Rheno?...  que o
maestro, desde que saira as portas, estava cheio de idias de viagens e de
paisagens; queria vr as grandes montanhas onde ha neve, os rios de que se
fala na Historia. O seu ideal sria ir  Alemanha, percorrer a p, com uma
mochila, aquela patria sagrada dos seus deuses, de Beetoven, de Mozart, de
Wagner...
- No te apetecia mais ir  Itlia? perguntou Carlos acendendo o charuto.
O maestro esboou um gesto de desdem, teve uma das suas frases sibilinas:
- Tudo contradanas!...
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Carlos ento falou de um certo plano de ir  Itlia, com o Ega, no inverno. Ir 
Itlia, para o Ega, era uma higiene intelectual: precisava calmar aquela
imaginao tumultuosa de nervoso peninsular entre a placida magestade dos
marmores...
- O que ele precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
E voltou a falar do caso da vespera, do famoso artigo da Gazeta. Achava
aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato, e de uma sabujice
indecorosa. E o que o afligia  que o Ega, com aquele talento, aquela verve
fumegante, no fizesse nada...
- Ningum faz nada, disse Carlos espreguiando-se. Tu, por exemplo, que
fazes?
Cruges, depois de um silncio, rosnou encolhendo os ombros:
- Se eu fizesse uma boa opera, quem  que m'a representava?
- E se o Ega fizesse um belo livro, quem  que lh'o lia?
O maestro terminou por dizer:
- Isto  um pas impossvel... Parece-me que tambm vou tomar caf.
Os cavalos tinham descanado, Cruges pagou a conta, partiram. D'a a pouco
entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os lados, a perder
de vista, era um cho escuro e triste; e por cima um azul sem fim, que
naquela solido parecia triste tambm. O trote compassado dos cavalos batia
monotonamente a estrada. No havia um rumor: por vezes um passaro
cortava o ar, num vo brusco, fugindo do ermo agreste. Dentro do break um
dos criados dormia; Cruges, pesado dos ovos com chourio, olhava, vaga e
melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavalos.
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente no
sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele no avistava certa
figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que no encontrava o
negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha
que ela estava em Cintra, corria a Cintra. No esperava nada, no desejava
nada. No sabia se a veria, talvez ela tivesse j partido. Mas vinha: e era j
delicioso o pensar n'ela assim por aquela estrada fora, penetrar, com essa
doura no corao, sob as
belas arvores de Cintra... Depois, era possvel que da a pouco, na velha
Lawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roasse talvez o seu vestido,
ouvisse talvez a sua voz. Se ela l estivesse, decerto viria jantar  sala, aquela
sala que ele conhecia to bem, que j lhe estava apetecendo tanto, com as
suas pobres cortininhas de cassa, os ramos toscos sobre a mesa, e os dois
grandes candieiros de lato antigo... Ela entraria ali, com o seu belo ar claro
de Diana loira; o bom Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aqueles olhos
negros que ele vira passar de longe como duas estrelas, pousariam mais de
vagar nos seus; e, muito simplesmente,  inglesa, ela estender-lhe-ia a mo...
- Ora at que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de alivio e
respirando melhor.
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Chegavam s primeiras casas de Cintra, havia j verduras na estrada, e batialhes
no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalho. Com a paz das
grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora
sussurrao de ramagens, e como o difuso e vago murmrio de guas
correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da
folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava,
rescendendo s verduras novas; aqui e alm, nos ramos mais sombrios,
passaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo
salpicado de manchas do sol, sentia-se j, sem se vr, a religiosa solenidade
dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza
que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de vero... Cruges
respirava largamente, voluptuosamente.
- A Lawrence onde ? Na serra? - perguntou ele com a idia repentina de ficar
ali um ms naquele paraso.
- Ns no vamos para a Lawrence, disse Carlos saindo bruscamente do seu
silncio, e espertando os cavalos. Vamos para o Nunes, estamos l muito
melhor!
Era uma idia que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas de
S. Pedro, e o break comeara a rolar naquelas estradas onde a cada momento
ele a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se misturava um laivo
de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim a Cintra,
ainda que ela o no reconhecesse, indo instalar-se sob as mesmas telhas,
apoderando-se de um lugar  mesma mesa... E ao mesmo tempo repugnoulhe
a idia de lhe ser apresentado pelo Damaso: via-o j, bochechudo e
vestido de campo, a esboar um gesto de ceremonia, a mostrar o seu amigo
Maia, a tratal-o por tu, afectando intimidades com ela, cocando-a com um olho
terno... Isto sria intoleravel.
- Vamos para o Nunes, que se come melhor!
Cruges no respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impresso
religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos fragosos da
serra entrevistos um instante l em cima nas nuvens, desse aroma que ele
sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de guas descendo para os vales...
S ao avistar o Pao descerrou os lbios:
- Sim senhor, tem cachet!
E foi o que mais lhe agradou - este macio e silencioso palacio, sem flores e
sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da vila, com as suas
belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale aos
ps, frondoso e fresco, e no alto as duas chamins colossaes, disformes,
resumindo tudo, como se essa residncia fosse toda ela uma cosinha talhada
s propores de uma gula de Rei que cada dia come todo um Reino...
E apenas o break parou  porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, tmido e
de longe - receiando alguma palavra rude da sentinela.
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Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou  parte o criado do hotel,
que descera a recolher as maletas.
- Voc conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se ele est em Cintra?
O criado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela
manh o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas...
Devia estar na Lawrence, porque s com raparigas e em pandiga  que o sr.
Damaso vinha para o Nunes.
- Ento, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de
criana, certo agora que ela estava em Cintra. E uma sala particular, s para
ns, para almoarmos!
Cruges, que se aproximava, protestou contra esta sala solitaria. Preferia a
mesa redonda. Ordinariamente na mesa redonda encontram-se tipos...
- Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mos, pe o almoo na sala de
jantar, pe-no at na Praa... E muita manteiga fresca para o sr. Cruges!
O cocheiro levou o break, o criado sobraou as maletas. Cruges, entusiasmado
com Cintra, rompeu pela escada acima, a assobiar - conservando aos ombros
o chaile-manta, de que se no queria separar, porque lh'o emprestara a
mam. E apenas chegou  porta da sala de jantar, estacou, ergueu os braos,
teve um grito.
- Oh Euzebiosinho!
Carlos correu, olhou... Era ele, o viuvo, acabando de almoar, com duas
raparigas espanholas.
Estava no topo da mesa, como presidindo, diante de uns restos de pudim e de
pratos de fructa, amarelado, despenteado, carregado de luto, com a larga fita
das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela de tafet negro
sobre o pescoo tapando alguma espinha rebentada.
Uma das espanholas era um mulhero trigueiro, com signaes de bexigas na
cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre, que
o p de arroz no desfarava. Ambas vestiam de setim preto, e fumavam
cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janela, pareciam mais gastas,
mais moles, ainda pegajosas da lentura morna dos colxes, e cheirando a
bafio de alcova. Pertencendo  sucia havia um outro sujeito, gordo, baixo, sem
pescoo, com as costas para a porta e a cabea sobre o prato, babujando uma
metade de laranja.
Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito, com o garfo no ar; depois
l se ergueu, de guardanapo na mo, veiu apertar os dedos aos amigos,
balbuciando logo uma justificao embrulhada, a ordem do medico para mudar
de ares, aquele rapaz que o acompanhara, e que quisera trazer raparigas... E
nunca parecera to funebre, to reles, como resmungando estas cousas
hipocritas, encolhido  sombra de Carlos.
- Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no
hombro. Lisboa est um horror, e o amor  coisa doce.
O outro continuava a justificar-se. Ento a hespanhola magrita, que fumava,
afastada da mesa e com a perna traada, elevou a voz, perguntou ao Cruges
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se ele no lhe falava. O maestro afirmou-se um momento, e partiu de braos
abertos para a sua amiga Lola. E foi, nesse canto da mesa, uma grulhada em
hespanhol, grandes apertos de mo, e hombre, que no se le ha visto! e mira,
que me he acordado de ti! e caramba, que reguapa estas... Depois a Lola,
tomando um arsinho espremido, apresentou o outro mulhero, la seorita
Concha...
Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade - o sujeito obeso, que
apenas levantara um instante a cabea do prato, decidiu-se a examinar mais
atentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o guardanapo
a boca, a testa e o pescoo, encavalou laboriosamente no nariz uma grande
luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e cor de cidra,
examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com uma impudencia
tranquila.
Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo o
nome conhecido de Carlos da Maia, quislogo mostrar diante de um gentleman,
que era um gentleman tambm. Arrojou para longe o guardanapo, arredou
para fora a cadeira; e de p, estendendo a Carlos os dedos moles e de unhas
roidas, exclamou, com um gesto para os restos da sobremeza:
- Se v. ex.  servido,  sem ceremonia... Que isto quando a gente vem a
Cintra,  para abrir o apetite e fazer bem  barriga...
Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e gracejava
com a Lola, fez tambm do outro lado da mesa a sua apresentao:
- Carlos, quero que conheas aqui a lindissima Lola, relaes antigas, e a
seorita Concha, que eu tive agora o prazer...
Carlos saudou respeitosamente as damas.
O mulhero da Concha rosnou secamente os buenos dias: parecia de mau
humor, pesada do almoo, amodorrada para ali, sem dizer uma palavra, com
os cotovelos fincados na mesa, os olhos pestanudos meio cerrados, ora
fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lola foi amvel, fez de senhora,
ergueu-se, ofereceu a Carlos a mosita suada. Depois retomando o cigarro,
dando um jeito s pulseiras de ouro, declarou com um requebro d'olhos, que
conhecia de ha muito Carlos...
- No ha estado ustd con Encarnacion?
Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito dela, dessa bela Encarnacion?
A Lola sorriu com finura, tocou no cotovelo do maestro. No acreditava que
Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Enfim, terminou por dizer
que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
- Mas olhe que no  com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se
conservara de p, com a bolsa do tabaco aberta sobre a mesa, fazendo um
grande cigarro.
A Lolita, com um modo seco, replicou que o Saldanha no sria duque, mas
era um chico mui decente...
- Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na boca e tirando a isca da
algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda no ha trs semanas...
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Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi at no Montanha... Duas
bofetadas que lhe foi logo o chapuparar ao meio da rua... O sr. Maia ha de
conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que ele tambm tem um carrito e um
cavalo.
Carlos fez um gesto indicando que no; e despedia-se de novo, saudando as
damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em
quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual daquelas meninas era a
esposa do amigo Eusebio.
Assim interpelado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem
erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava ali de passeio, no
tinha esposa, e ambas aquelas meninas pertenciam ao amigo Palma...
E ainda ele mascava as ltimas palavras, quando Concha, que digeria de perna
estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou um murro 
borda da mesa, e com os olhos chamejantes, desafiou o Eusebio a que
repetisse aquilo! Queria que ele repetisse! Queria que dissesse se tinha
vergonha dela, e de dizer que a tinha trazido a Cintra!... E como o Eusebio, j
enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma festa - ela despropositou, atirou-lhe
os peiores nomes, dando sempre punhadas na mesa, com uma fria que lhe
torcia a boca, lhe punha duas
manchas de sangue no caro trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo
brao: a outra deu-lhe um repelo; e, mais excitada com a estridencia da
prpria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, acusou-o de
forreta, usou-o como um trapo vil.
Palma aflicto, debruado sobre a mesa, exclamava num tom ancioso:
-  Concha, escuta l!... Ouve l!... Concha, eu te explico...
De repente, ela ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulhero abalou
pela sala fora, a grande cauda de setim varreu desabridamente o soalho,
ouviu-se dentro estalar uma porta. No cho ficara cadoum pedao da mantilha
de renda.
O criado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o olho
curioso, farejando o escndalo; depois, calado e secamente, foi servindo em
roda o caf.
Durante um momento houve um silncio. Apenas porm o criado saiu - a
Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. Ele
portara-se muito mal! Aquilo no fora de cavalheiro! Tinha trazido a rapariga a
Cintra, devia-a respeitar, no a ter renegado assim,  bruta, diante de todos...
- Esto no se hace, dizia a Lolita, de p, gesticulando, com os olhos brilhantes,
voltada para Carlos, ha sido una cosa mui fa!...
E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da
catastrofe - ela baixou a voz, contou que a Concha era uma fria, viera a
Cintra com pouca vontade, e desde manh estava de mui malo humor... Pero
lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
Ele, coitado, com a cabea cada e as orelhas em brasa, remexia
desoladamente o seu caf; no se lhe viam os olhos escondidos pelas lunetas
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pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluo que lhe afogava a garganta.
Ento Palma pousou a chvena, lambeu os beios, e de p no meio da sala,
com a face luzidia, o colete desabotoado, fez num tom entendido o resumo
daquele desgosto.
- Tudo provm d'isto, e desculpe-me voc dizel-o, Silveira:  que voc no
sabe tratar com espanholas!
A esta cruel palavra o viuvo sucumbiu. A colher caiu-lhe dos dedos. Ergueu-se,
acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'eles, vindo
reconfortar-se ao calor da sua amizade, - e desabafou, estas palavras
angustiosas escaparam-se-lhe dos lbios:
- Vejam vocs! vem a gente a um sitio destes para gosar um bocado de
poesia, e no fim  uma destas!...
Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
- A vida  assim, Eusebiosinho.
Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
- No se pode contar com prazeres, Silveirinha.
Mas Palma, mais pratico, declarou que era foroso arranjarem-se as cousas.
Virem a Cintra, para questes e amuos, isso no! N'aquelas pandegas queriase
harmonia, chalaa, e gosar. Couces, no. Ento ficava-se em Lisboa, que
era mais barato.
Chegou-se a Lola, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
- Anda Lolita, vaitu l dentro  Concha, dize-lhe que se no faa tola, que
venha tomar caf... Anda, que tu sabe-la levar... Dize-lhe que peo eu!
Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um jeito ao
cabelo diante do espelho, apanhou a cauda - e saiu, atirando a Carlos, ao
passar, um olhar e um sorrisinho.
Apenas ficaram ss, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos
muito srios sobre o sistema de tratar espanholas. Era necessrio leval-as por
bons modos; por isso  que elas se pelavam por portuguess, porque l em
Espanha era  bordoada... Enfim, ele no dizia que em certos casos, duas
boas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas, no fossem teis...
Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se devia bater? Quando elas no
gostavam da gente, e se faziam ariscas. Ento, sim. Ento zs, tapona, que
elas ficavam logo pelo beio... Mas depois bons modos, delicadeza, tal qual
como com francezas...
- Acredite voc isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. Maia que
lhe diga se isto no  verdade, ele que tem tambm experiencia e sabe viver
com espanholas!
E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito - que Cruges desatou a rir, fez rir
Carlos tambm.
O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para eles:
- Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu
comecei a lidar com espanholas aos quinze anos! No, escusam de rir, que
nisso ningum me ganha! L o que se chama ter jeito para espanholas, c o
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meco! E, vamos l, que no  facil!  necessrio ter um certo talento!...
Olhem, o Herculano  capaz de fazer belos artigos e estilo catita... Agora
tragam-no c para lidar com espanholas e veremos! No d meia...
Eusebiosinho no entanto fora duas vezes escutar  porta. Todo o hotel cara
num grande silncio, a Lolita no voltava. Ento Palma aconselhou um grande
passo:
- V voc l dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem menos,
chegue-se ao p dela...
- E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.
- Qual tapona! Ajoelhe e pea perdo... Neste caso  pedir perdo... E como
pretexto, Silveira, leve-lhe voc mesmo o caf.
Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas o
seu corao j decidira: e da a um momento, com o pedao de mantilha
numa das mos, a chvena de caf na outra, enfiado e comovido, l partia a
passos lentos pelo corredor a pedir perdo  Concha.
E, logo atraz dele, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem do sr.
Palma - que de resto, indiferente tambm, j se acomodara  mesa a preparar
regaladamente o seu grog.
Eram duas horas quando os dous amigos sairam enfim do hotel, a fazer esse
passeio a Sitiaes - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praa, por
defronte das lojas vasias e silenciosas, ces vadios dormiam ao sol: atravez
das grades da cada os presos pediam esmola. Creanas, enxovalhadas e em
farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as
janelas fechadas, continuando o seu sono de inverno, entre as arvores j
verdes. De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha
de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitrio,
l no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha a doura do seu
veludo.
Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.
- Tem o ar mais simpatico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir para o
Nunes, s para vr aquela scena... E ento com qu o sr. Carlos da Maia tem
experiencia de espanholas?
Carlos no respondeu, os seus olhos no se despegavam daquela fachada
banal, onde s uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque
secando ao ar.  porta, dous rapazes inglses, ambos de knicker-bokers,
cachimbavam em silncio; e defronte, sentados sobre um banco de pedra,
dous burriqueiros ao lado dos burros, no lhes tiravam o olho de cima,
sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melanclico, saindo do
silncio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas
recordaes, quase certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes
tocava flauta...
- Isto  sublime! exclamou do lado o Cruges, comovido.
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Parara diante da grade donde se domina o vale. E d'ali olhava,
enlevadamente, a rica vastido de arvoredo cerrado, a que s se veem os
cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro,
e tendo quela distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande
musgo escuro. E nesta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa
que o interessava, branquejando, afogada entre a folhagem, com um ar de
nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma idia
de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um co da Terranova.
Mas o que o encantava era o ar. Abria os braos, respirava a tragos deliciosos:
- Que ar! Isto d sade, menino! Isto faz reviver!...
Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, num bocado de muro baixo,
defronte de um alto terrao gradeado, onde velhas arvores assombreiam
bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens,
cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o relgio, as horas que
fugiam para ir vr o palacio, a Pena, as outras belezas de Cintra - o maestro
declarou que preferia estar ali, ouvindo correr a gua, a vr monumentos
caturras...
- Cintra no so pedras velhas, nem cousas goticas... Cintra  isto, uma pouca
de gua, um bocado de musgo... Isto  um paraso!...
E, naquela satisfao que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a sua
chalaa:
- E v. ex. deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de espanholas!...
- Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava
pensativamente o cho com a bengala.
Ficaram calados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em que
estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e
arvores, sufocando-se numa prodigalidade de bosque silvestre, deixando
apenas espao para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de gua,
imovel e gelada, com dous ou trs nenufares, se esverdinhava sob a sombra
daquela ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bela desordem da folhagem,
distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de ruasita estreita como
uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso. N'outros recantos,
aquele jardim de gente rica, exposto s vistas, tinha retoques pretenciosos de
estufa rara, aloes e cactos, braos
aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas negras dos
pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de planta exilada,
roando a rama leve e perfumada das olaias floridas de cor de rosa. A
espaos, com uma graa discreta, branquejava um grande p de margaridas;
ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste, palpitavam borboletas aos
pares.
- Que pena que isto no pertena a um artista! murmurou o maestro. S um
artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...
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Carlos sorriu. Os artistas, dizia ele, s amam na natureza os efeitos de linha e
cr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que um
craveiro no sofra sede, para sentir magoa de que a geada tenha queimado os
primeiros rebentes das acacias - para isso s o burguez, o burguez que todas
as manhs desce ao seu quintal com um chapuvelho e um regador, e v nas
arvores e nas plantas uma outra famlia muda, por que ele  tambm
responsavel...
Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
- Diabo!  necessrio que no me esqueam as queijadas!
Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a
trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era ela, e que ele
ia vr os seus belos olhos brilhar e fugir como duas estrelas. A caleche passou,
levando um ancio de barbas de patriarcha, e uma velha inglesa com o regao
cheio de flores e o vu azul fluctuando ao ar. E logo atraz, quase no p que as
rodas tinham erguido, apareceu, caminhando pensativamente, de mos atraz
das costas, um homem alto, todo de preto, com um grande chapuPanam
sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que
gritou:
- Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braos abertos, no
meio da estrada. Depois, com a mesma efuso ruidosa, apertou Carlos contra
o corao, beijou o Cruges na face - porque conhecia Cruges desde pequeno,
Cruges era para ele como um filho. Caramba! Eis a uma surpresa que ele no
trocava pelo titulo de duque! Ora o alegro de os vr ali! Como diabo tinham
eles vindo ali parar?
E no esperou a resposta, contou ele logo a sua historia. Tivera um dos seus
ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Melo, o bom Melo,
recomendara-lhe mudana d'ares. Ora ele, bons ares, s compreendia os de
Cintra: porque ali no eram s os pulmes que lhe respiravam bem, era
tambm o corao, rapazes!... De sorte que viera na vespera, no onibus.
- E onde ests tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
- Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L estou com a minha velha
Lawrence. Coitada! est bem velha! mas para mim  sempre uma amiga, 
quase uma irm!... E vocs, que diabo? Para onde vo vocs com essas flores
nas lapelas?
- A Sitiaes... Vou mostrar Sitiaes ao maestro.
Ento tambm ele voltava a Sitiaes! No tinha nada que fazer seno sorver
bom ar, e scismar... Toda a manh andara ali, vagamente, pendurando sonhos
dos ramos das arvores. Mas agora j os no largava; era mesmo um dever ir
ele prprio fazer ao maestro as honras de Sitiaes...
- Que aquilo  sitio muito meu, filhos! No ha ali arvore que me no conhea...
Eu no vos quero comear j a impingir versos; mas emfim, vocs lembramse
de uma coisa que eu fiz a Sitiaes, e de que por a se gostou...
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Quantos luares eu l vi!
Que doces manhs d'abril!
E os ais que soltei ali
No foram sete, mas mil!
Pois ento j vocs vem, rapazes, que tenho razo para conhecer Sitiaes...
O poeta lanou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam
todos trs calados.
- Dize-me uma coisa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no
brao do poeta. O Damaso est na Lawrence?
No, que ele o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas chegara,
fra-se deitar, fatigado; e nessa manh almoara s com dois rapazes
inglses. O nico animal que avistara fora um lindo cosinho de luxo, ladrando
no corredor...
- E vocs onde esto?
- No Nunes.
Ento o poeta parando de novo, contemplando Carlos com simpatia:
- Que bem que fizeste em arrastar c o maestro, filho!... Quantas vezes eu
tenho dito quele diabo, que se metesse no onibus, viesse passar dous dias a
Cintra. Mas ningum o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a
musica, para compor, para entender um Mozart, um Chopin,  necessrio ter
visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem...
Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
- Tem muito talento, tem muita idia melodica!... Olha que andei com aquilo
s cabritas... E a me, menino, foi muitissimo boa mulher.
- Vejam vocs isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto  sublime.
Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros cobertos
d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaadas, que lhe faziam
um toldo de folhagem aberto  luz como uma renda: no cho tremiam
manchas de sol: e, na frescura e no silncio, uma gua que se no via ia
fugindo e cantando.
- Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ento tens de subir  serra.
Ali tens o espao, tens a nuvem, tens a arte...
- No sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.
A sua natureza de tmido preferiria, de certo, estes humildes recantos, feitos
de uma pouca de folhagem fresca e de um pedao de muro musgoso, logares
de quietao e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o scismar
dos indolentes...
- De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra  divino. No ha cantinho
que no seja um poema... Olha, ali tens tu, por exemplo, aquela linda florinha
azul... - e, ternamente, apanhou-a.
- Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,
desde que o poeta falara do cosinho de luxo, mais certo de que ela estava na
Lawrence, e que a a brevemente encontrar.
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Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desiluso diante daquele vasto
terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraas
partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno ceu, o seu grande
escudo de armas. Ficara-lhe a idia, de pequeno, que Sitiaes era um monto
pitoresco de rochedos, dominando a profundidade de um vale; e a isto
misturava-se vagamente uma recordao de luar e de guitarras... Mas aquilo
que ele ali via era um desapontamento.
- A vida  feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante!
E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez mais
animado, lhe gritava a chalaa do dia:
- E v. ex. deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de espanholas!...
Alencar, que se demorara atraz a acender o cigarro, estendeu o ouvido,
curioso, quissaber o que era isso de espanholas? O maestro contou-lhe o
encontro no Nunes e os furores da Concha.
Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de
uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava
deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrelada de botes
de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma folha se
movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mlhos de raios de ouro. O azul
parecia recuado a uma distncia infinita, repassado de silncio luminoso; e s
se ouvia, s vezes, monotona e dormente, a voz de um cuco nos castanheiros.
Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus
flores de pedra rodos da chuva, o pesado brazo rococ, as janelas cheias de
teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer
voluntariamente naquela verde solido, - amuada com a vida, desde que d'ali
tinham desaparecido as ltimas graas do tricorne e do espadim, e os
derradeiros vestidos de anquinhas tinham roado essas relvas... Agora Cruges
a descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chvena de caf na
mo, a ir pedir perdo  Concha; e a cada momento o poeta, com o seu
grande chapupanam, se agachava a colher florinhas silvestres.
Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado num dos bancos de
pedra, fumando pensativamente a sua cigarete. O palacete deitava sobre
aquele bocado de terrao a sombra dos seus muros tristes; do vale subia uma
frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um
repuxo. Ento o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, falou com nojo do
Eusebiosinho. - Ali est uma torpeza que ele nunca cometera, trazer
meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos
a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religio daquelas arvores e
o amor daquelas sombras...
- E esse Palma, acrescentou ele,  um traste! Eu conheo-o; ele teve uma
espcie de jornal, e j lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. Foi uma
historia curiosa... Ora eu t'a conto, Carlos... Aquele canalha! quando me
lembro!... Aquela vil bolinha de materia putrida!... Aquele chouricinho de pus!
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Levantou-se, passando a mo nervosa sobre os bigodes, j excitado pela
lembrana daquela velha desordem, vergastando o Palma com nomes ferozes,
todo numa dessas fervuras de sangue que eram a sua desgraa.
Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de
lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em
quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito
de remendos assim que ele tinha na mesa do seu quarto. Tiras brancas de
estradas serpeavam pelo meio: aqui e alm, numa massa de arvoredo,
branquejava um casal: e a cada passo, naquele solo onde as guas abundam,
uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e
reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida, esbatida
na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande
azul lustroso como um belo esmalte, tendo apenas, l no alto, um
farraposinho de nevoa, que ficara ali esquecido, e que dormia enovelado e
suspenso na luz...
- Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.
Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos ps, crusei os braos e disselhe:
a tem voc a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mos!
- Que diabo, no me ho de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para si
mesmo, afastando-se do parapeito.
Carlos erguera-se tambm, olhava o relgio. Mas antes de deixar Sitiaes,
Cruges quisexplorar o outro terrao ao lado: e, apenas subira os dous velhos
degraus de pedra, soltou de l um grito alegre:
- Bem dizia eu! c esto eles... E vocs a dizer que no!
Foram-no encontrar triunfante, diante de um monto de penedos, polidos pelo
uso, j com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, poeticamente,
para dar ao terrao uma graa agreste de selva brava. Ento, no dizia ele?
Bem dizia ele que em Sitiaes havia penedos!
- Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, no  que se chama,
Alencar?
Mas o poeta no respondeu. Diante daquelas pedras crusara os braos, sorria
dolorosamente; e imovel, sombrio no seu fato negro, com o panam
carregado para a testa, envolveu todo aquele recanto num olhar lento e triste.
Depois, no silncio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
- Vocs lembram-se, rapazes, nas Flres e Martirios, de uma das cousas
melhores que l tenho, em rimas livres, chamada 6 de Agosto? No se
lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
Machinalmente tirara do bolso o leno branco. E com ele fluctuante na mo,
puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, baixou a
voz como numa confidencia sagrada, recitou, com um ardor surdo, mordendo
as silabas, tremulo, numa paixo efemera de nervoso:
Vieste! Cingi-te ao peito.
Em redor que noite escura!
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No tinha rendas o leito,
Nem tinha lavores na barra
Que era s a rocha dura...
Muito ao longe uma guitarra
Gemia vagos harpejos...
(V tu que no me esqueceu)...
E a rocha dura aqueceu
Ao calor dos nossos beijos!
Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,
atirou para l um gesto triste, e murmurou:
- Foi ali.
E afastou-se, alquebrado sob o seu grande chapupanam, com o leno
branco na mo. Cruges, que aqueles romantismos impressionavam, ficou a
olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E quando
ambos deixaram esse recanto do terrao - o poeta, agachado junto do arco,
estava apertando o atilho da ceroula.
Endireitou-se logo, j toda a emoo o deixara, mostrava os maus dentes num
sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
- Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela sublime.
O maestro embasbacou. No vo do arco, como dentro de uma pesada moldura
de pedra, brilhava,  luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
composio quase fantastica, como a ilustrao de uma bela lenda de
cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando,
todo salpicado de botes amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas
arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de
folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque
assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num
relevo nitido sobre o fundo de cu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor
de violeta escura, coroada pelo castelo da Pena, romantico e solitrio no alto,
com o seu parque sombrio aos ps, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas
brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro...
Cruges achou aquele quadro digno de Gustavo Dor. Alencar teve uma bela
frase sobre a imaginao dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os apressando
para diante.
Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir  Pena.
Alencar, por si, a tambm com prazer. A Pena para ele era outro ninho de
recordaes. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava, parado
junto da grade. Estaria ela na Pena? E olhava a estrada, olhava as arvores,
como se podesse adivinhar pelas pegadas no p, ou pelo mover das folhas,
que direo tinham tomado os passos que ele seguia... Por fim teve uma idia.
- Vamos indo primeiro  Lawrence. E depois se quizermos ir  Pena, arranjamse
l os burros...
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E nem mesmo quisescutar o Alencar, que tivera tambm uma idia, falava de
Colares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; acelerou o passo para a
Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da ceroula, e o
maestro, num entusiasmo bucolico, ornava o chapude folhas de hera.
Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, no tendo
podido apoderar-se dos inglses, preguiavam ao sol.
- Vocs sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma famlia, que est aqui no hotel,
foi para a Pena?...
Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
- Sim, senhor, foram para l ha bocado, e aqui est o burrinho tambm para
v. ex., meu amo!
Mas o outro, mais honesto, negou. No senhor, a gente que fora para a Pena
estava no Nunes...
- A famlia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio...
- Uma senhora alta?
- Sim senhor.
- Com um sujeito de barba preta?
- Sim senhor.
- E uma cadelinha?
- Sim senhor.
- Tu conheces o sr. Damaso Salcede?
- No senhor...  o que tira retratos?
- No, no tira retratos... Tomae l.
Deu-lhes uma placa de cinco tostes; e voltou ao encontro dos outros,
declarando que realmente era tarde para subirem  Pena.
- Agora o que tu deves vr, Cruges,  o palacio. Isso  que tem originalidade e
cachet! No  verdade, Alencar?...
- Eu vos digo, filhos, comeou o auctor de Elvira, historicamente falando...
- E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.
- Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas;  necessrio no
perder tempo; a caminho!
Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro largas
passadas estava l. E logo da praa avistou, saindo j o porto, passando
rente da sentinela, a famosa famlia hospedada na Lawrence e a sua cadelinha
de luxo. Era, com efeito, um sujeito de barba preta, e de sapatos de lona
branca; e, ao lado dele, uma matrona enorme, com um mantelete de seda,
cousas de ouro pelo pescoo e pelo peito, e o cosinho felpudo ao colo.
Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com mau modo um para o outro, e
em hespanhol.
Carlos ficou a olhar para aquele par com a melancolia de quem contempla os
pedaos de um belo mrmore quebrado. No esperou mais pelos outros, nem
os quisencontrar. Correu  Lawrence por um caminho diferente, avido de uma
certeza: - e a, o criado que lhe apareceu, disse-lhe que o sr. Salcede e os srs.
Castro Gomes tinham partido na vespera para Mafra...
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- E de l?...
O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l voltavam a Lisboa.
- Bem, disse Carlos atirando o chapupara cima da mesa, traga-me voc um
clice de conhaque, e uma pouca d'gua fresca.
Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. No teve
animo de voltar ao palacio, nem quis sair mais d'ali; e arrancando as luvas,
passeiando em volta da mesa de jantar, onde murchavam os ramos da
vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao
Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vl-a, saciar os seus olhos n'ela!... Porque,
o que o irritava agora era no poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde
toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procurava anciosamente!
Duas semanas farejara o Aterro como um co perdido: fizera perigrinaes
ridiculas de teatro em teatro: numa manh de domingo percorrera as missas!
E no a tornara a vr. Agora sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e no a via
tambm. Ela cruzava-o uma tarde, bela como uma deusa transviada no
Aterro, deixava-lhe cahir n'alma por acaso um dos seus olhares negros, e
desaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao co,
d'ora em diante invisivel e sobrenatural: e ele ali ficava, com aquele olhar no
corao, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus
pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma
adorvel desconhecida, de quem ele nada sabia seno que era alta e loira, e
que tinha uma cadelinha escosseza... Assim acontece com as estrelas d'acaso!
Elas no so de uma essencia diferente, nem contem mais luz que as outras:
mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem
despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos 
mais perturbador e mais longo... Ele no a tornara a vr. Outros viam-n'a. O
Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um alferes de lanceiros falar dela, perguntar
quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os
dias. Ele no a via, e no socegava...
O criado trouxe o conhaque. Ento Carlos, preparando vagarosamente o seu
refresco, conversou com ele, falou um momento dos dois rapazes inglses,
depois da hespanhola obesa... Enfim, dominando uma timidez, quase crando,
fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os Castro Gomes. E cada
resposta lhe parecia uma acquisio preciosa. A senhora era muito
madrugadora, dizia o criado: s sete horas tinha tomado banho, estava
vestida, e saa s. O sr. Castro Gomes, que dormia num quarto separado,
nunca se mexia antes do meio dia; e,  noite, ficava uma eternidade  mesa,
fumando cigaretes e molhando os beios em copinhos de conhaque e gua. Ele
e o sr. Damaso jogavam o domin. A senhora tinha montes de flores no
quarto; e tencionavam ficar at domingo, mas fora ela que apressra a
partida...
- Ah, disse Carlos depois de um silncio, foi a senhora que apressou a
partida?...
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- Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. ex.
toma mais conhaque?
Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terrao. A tarde descia,
calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de claridade dourada,
numa larga serenidade que penetrava a alma. Ele tel-a-hia pois encontrado, ali
mesmo naquele terrao, vendo tambm cahir a tarde - se ela no estivesse
impaciente por tornar a vr a filha, algum bbsinho loiro que ficra s com a
ama. Assim, a brilhante deusa era tambm uma boa mam; e isto dava-lhe
um encanto mais profundo, era assim que ele gostava mais dela, com este
terno estremecimento humano nas suas belas frmas de mrmore.
Agora, j ela estava em Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu peignoir,
com o cabelo enrolado  pressa, grande e branca, erguendo ao ar o beb nos
seus explendidos braos de Juno, e falando-lhe com um riso de ouro. Achava-a
assim adorvel, todo o seu corao fugia para ela... Ah! poder ter o direito de
estar junto dela, nessas horas d'intimidade, bem junto, sentindo o aroma da
sua pele, e sorrindo tambm a um beb. E, pouco a pouco, foi-lhe surgindo na
alma um romance, radiante e absurdo: um sopro de paixo, mais forte que as
leis humanas, enrolava violentamente, levava juntos o seu destino e o dela;
depois, que divina existncia, escondida num ninho de flores e de sol, longe,
n'algum canto da Itlia...
E, toda a sorte de idias d'amor, de devoo absoluta, de sacrificio, invadiamno
deliciosamente - emquanto os seus olhos se esqueciam, se perdiam,
enlevados na religiosa solenidade daquele belo fim da tarde. Do lado do mar
subia uma maravilhosa cor de ouro plido, que ia no alto diluir o azul, davalhe
um branco indeciso e opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo
cobria-se todo de uma tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores
tomavam uma suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como
na imobilidade de um extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou
outra janela acesa em brasa, os cimos redondos das arvores apinhadas,
descendo a serra numa espessa debandada para o vale, tudo parecera ficar de
repente parado num recolhimento melanclico e grave, olhando a partida do
sol, que mergulhava lentamente no mar...
- Oh Carlos, tu ests a?
Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por ele. Carlos
apareceu  varanda do terrao.
- Que diabo ests tu a a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando
alegremente o seu panam. Ns l estivemos  espera, no covil real... Fomos
ao Nunes... Iamos agora procurar-te  cadeia!
E o poeta riu largamente da sua pilheria - emquanto Cruges, ao lado, de mos
atraz das costas, e a face erguida para o terrao, bocejava
desconsoladamente.
- Vim refrescar, como tu dizes, tomar um pouco de conhaque, que estava com
sede.
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Cognac? eis a o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a tarde,
desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terrao - depois de ter gritado para
dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima meia da fina.
- Viste o Pao, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando ele
apareceu, arrastando os passos. Ento, parece-me que o que nos resta a fazer
 jantar, e abalar...
Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado daquele
vasto casaro historico, da voz monotona do cicerone mostrando a cama de S.
M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, melhores que as de
Mafra, o tira-botas de S. A.; e trazia de l uma pouca dessa melancolia que
erra, como uma atmosfera prpria, nas residencias reaes.
E aquela natureza de Cintra, ao escurecer, dizia ele, comeava a entristecel-o.
Ento concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo torpe
do Palma e das damas, mandar vir  porta o break, e partir depois ao nascer
do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambm a Lisboa.
- E, para ser festa completa, exclamou ele, limpando os bigodes do conhaque,
enquanto vocs vo ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o break, eu
vou-me entender la abaixo  cosinha com a velha Lawrence, e preparar-vos
um bacalhau  Alencar, recipe meu... E vocs vero o que  um bacalhau!
Porque, l isso, rapazes, versos os faro outros melhor; bacalhau, no!
Atravessando a praa, Cruges pedia a Deus que no encontrassem mais o
Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os ps nos primeiros degraus do Nunes,
ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j todos
reconciliados, a Concha contente - e instalados aos dois cantos de uma mesa,
com cartas. O Palma, munido de uma garrafa de genebra, fazia uma batotinha
para o Eusebio; e as duas espanholas, de cigarro na boca, jogavam
languidamente a bisca.
O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que comera miseravelmente com duas
coras, j luzia ouro; e Palma triumfava, chalaceiando, dando beijocas na sua
moa. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, falava de dar a desforra,
ficar ali, sendo necessrio, at de madrugada.
- Ento vv. exas. no se tentam? Isto  para passar o tempo... Em Cintra tudo
serve... Valete! Perdeu voc outro mico no rei. Deve a libra mais quinze
tostes, s Silveira!
Carlos passra, sem responder, seguido pelo criado - no momento em que
Euzebiosinho, furioso, j desconfiado, quisverificar, com as lunetas negras
sobre o baralho, se l estavam todos os reis.
Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que diabo,
tudo se admitia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, defendendo a
honra do seu homem: ento Palmita havia de ter empalmado o rei? Mas, a
Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei podia estar
perdido... Os reis estavam l.
Palma atirou um clice de genebra s goelas, e recomeou a baralhar
magestosamente.
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- Ento v. ex. no se tenta? repetia ele para o maestro.
Cruges, com efeito, parra, roando-se pela mesa, com o olho nas cartas e no
ouro do monte, j sem fora, remexendo o dinheiro nas algibeiras.
Subitamente um az decidiu-o. Com a mo nervosa, escorregou-lhe uma libra
por baixo, jogando cinco tostes, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos
voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em
pleno vicio, com a libra entalada, os olhos acezos, o ar esguedelhado.
- Ento tu?... exclamou Carlos com severidade.
- J deso, rosnou o maestro.
E,  pressa, foi  paz da libra, num terno contra o rei. Cartada de colicas!
como disse o Palma: e foi com emoo que ele comeou a puxar as cartas,
espremendo-as uma a uma, num vagar mortal. A apario de um bico
arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia mais uma
placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com ambas as mos
o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:
- Ento, sempre contina toda a libra?...
- Toda.
Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais plido, voltou bruscamente as
cartas.
- Rei! gritou ele, empolgando o ouro.
Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou
furioso.
Na Lawrence o jantar prolongou-se at s oito horas, com luzes; - e o Alencar
falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desiluses da vida, todos os
rancores literarios, estava numa veia excelente; e foram historias dos velhos
tempos de Cintra, recordaes da sua famosa ida a Paris, cousas picantes de
mulheres, bocados da chronica intima da Regenerao... Tudo isto com
estridencias de voz, e filhos isto! e rapazes aquilo! e gestos que faziam oscilar
as chamas das velas, e grandes copos de Colares emborcados de um trago. Do
outro lado da mesa, os
dois inglses, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos na
botoeira, pasmavam, com um ar embaraado a que se misturava desdem,
para esta desordenada exhuberncia de meridional.
A apario do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfao do poeta to grande,
que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
- Sempre queria que ele provasse este bacalhau! J que me no aprecia os
versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto  um bacalhau de artista
em toda a parte!... N'outro dia fil-o l em casa dos meus Cohens; e a Rachel,
coitadinha, veiu para mim e abraou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha
so irms! Vejam vocs Alexandre Dumas... Diro vocs que o pai Dumas no
 um poeta... E ento d'Artagnan? D'Artagnan  um poema...  a faisca,  a
fantasia,  a inspirao,  o sonho,  o arrobo! Ento, po, j vem vocs,
que  poeta!... Pois vocs ho-de vir um dia destes jantar comigo, e ha-de vir
o Ega, e hei-de-vos arranjar umas perdizes  hespanhola, que vos ho-de
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nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! L essas cousas
de realismo e romantismo, historias... Um lrio  to natural como um
persevejo... Uns preferem fedr de sargeta; perfeitamente, destape-se o cano
publico... Eu prefiro ps de marechala num seio branco; a mim o seio, e, l
vai vossa. O que se quer,  corao. E o Ega tem-no. E tem faisca, tem
rasgo, tem estilo... Pois, assim  que eles se querem, e, l vai sade do Ega!
Pousou o copo, passou a mo pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
- E, se aqueles inglses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo
na cara, e  aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar sabendo o
que  um poeta portugus!...
Mas no houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que  um poeta
portugus, e o jantar terminou num caf tranqilo. Eram nove horas, fazia
luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
Alencar, embuado num capote, um verdadeiro capote de padre de alda,
levava na mo um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam na maleta,
trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um comeo de
spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na gola do palet,
com a manta da mam sobre os joelhos. Partiram. Cintra ficava dormindo ao
luar.
Algum tempo o break rodou em silncio, na beleza da noite. A espaos, a
estrada aparecia banhada de uma claridade quente que faiscava. Fachadas de
casas, caladas e palidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de melancolia
romntica. Murmurios de guas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros
enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava
a lua.
Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa
e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambm para a lua, e murmurou
d'entre os seus agasalhos:
- Oh Alencar, recita para a alguma coisa...
O poeta condescendeu logo - apesar de um dos criados ir ali ao lado deles,
dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob o encanto da noite clara?
Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! Enfim, a dizer-lhe uma
historia bem verdadeira e bem triste... Veiu sentar-se ao p do Cruges, dentro
do seu grande capoto, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar
algum tempo os bigodes, comeou, num tom familiar e simples:
Era o jardim de uma vivenda antiga,
Sem arrebiques d'arte ou flores de luxo;
Ruas singelas d'alfazema e buxo,
Cravos, roseiras...
- Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta,
com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou
o trintanario.
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O break parra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silncio da charneca,
sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!
IX
O dia famoso da soire dos Cohens, ao fim dessa semana to luminosa e to
doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janela sobre o
jardim, vira um cu baixo que pesava como se fosse feito de algodo em rama
enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arrepiado e mido; ao longe o rio
estava turvo, e no ar mole errava um halito morno de sudoeste. Decidira no
sair - e desde as nove horas, sentado  banca, embrulhado no seu vasto robede-
chambre de veludo azul, que lhe dava o belo ar de um prncipe artista da
Renascena, tentava trabalhar: mas, apesar de duas chavenas de caf, de
cigaretes sem fim, o cerebro, como o cu fora, conservava-se-lhe nessa
manh afogado em nevoas. Tinha destes dias terriveis; julgava-se ento uma
besta; e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe
juncavam o tapete
aos ps, davam-lhe a sensao de ser todo ele uma ruina.
Foi realmente um alivio, uma tregoa naquela lucta com as idias rebeldes,
quando Baptista anunciou Vilaa, que lhe vinha falar de uma venda de
montados no Alemtejo, pertencentes  sua legitima.
- Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapua um canto da mesa
e dentro um rolo de papeis, que lhe mete na algibeira para cima de dois
contos de ris... E no  mau presente, logo assim pela manh...
Carlos espreguiou-se, crusando fortemente as mos por trs da cabea:
- Pois olhe, Vilaa, preciso bem de dous contos de ris, mas preferia que me
trouxesse a alguma lucidez de espirito... Estou hoje de uma estupidez!
Vilaa considerou-o um momento, com malicia.
- Quer v. ex. dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que
receber assim perto de quinhentas libras? So gostos, meu senhor, so
gostos... Ele  bom sair-se a gente um Herculano ou um Garret, mas dous
contos de ris, so dous contos de ris... Olhe que sempre valem um folhetim.
Enfim, o negocio  este.
Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braos
cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Vilaa
trazia (um macaco de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia
vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde de
Torral e de porcos... Quando Vilaa lhe apresentou os papeis, assignou-os com
um ar moribundo.
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- Ento no fica para almoar, Vilaa? disse ele, vendo o procurador meter o
seu rolo de papeis debaixo do brao.
- Muito agradecido a v. exa. Tenho de me encontrar com o nosso amigo
Eusebio... Vamos ao ministrio do reino, ele tem l uma perteno... Quer a
comenda da Conceio... Mas este governo est desgostoso com ele.
- Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez de um bocejo, o governo no
est contente com o Eusebiosinho?
- No se portou bem nas eleies. Ainda ha dias, o ministro do reino me dizia,
em confidencia: O Eusebio  rapaz de merecimento, mas atravessado... V.
Ex. noutro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em Cintra.
- Sim, l estava a fazer jus  comenda da Conceio.
Quando Vilaa saiu Carlos retomou lentamente a pena, e ficou um momento,
com os olhos na pagina meio-escripta, coando a barba, desanimado e esteril.
Mas quase em seguida apareceu Afonso da Maia, ainda de chapu,  volta do
seu passeio matinal no bairro, e com uma carta na mo, que era para Carlos,
e que ele achara no escritrio misturada ao seu correio. Alm disso, esperava
encontrar ali o Vilaa.
- Esteve a, mas deitou a correr, para ir arranjar uma comenda para o
Eusebiosinho - disse Carlos, abrindo a carta.
E teve uma surpresa, vendo no papel - que cheirava a verbena como a
condessa de Gouvarinho - um convite do conde para jantar no sabbado
seguinte, feito em termos de simpatia to escolhidos que eram quase
poeticos; tinha mesmo uma frase sobre a amizade, falava dos atomos em
gancho de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao av que era um par do
reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
- So capazes de tudo, murmurou o velho.
E dando um olhar risonho aos manuscriptos espalhados sobre a banca:
- Ento, aqui, trabalha-se, hein?
Carlos encolheu os ombros:
- Se  que se pode chamar a isto tabalhar... Olhe a para o cho. Veja esses
destroos... Em quanto se trata de tomar notas, coligir documentos, reunir
materiaes, bem, l vou indo. Mas quando se trata de pr as idias, a
observao, numa frma de gosto e de simetria, dar-lhe cr, dar-lhe relevo,
ento... Ento foi-se!
- Preocupao peninsular, filho, disse Afonso, sentando-se ao p da mesa,
com o seu chapudesabado na mo. Desembaraa-te dela.  o que eu dizia
noutro dia ao Craft, e ele concordava... O portugus nunca pode ser homem
de idias, por causa da paixo da frma. A sua mania  fazer belas frases,
vr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fr necessrio falsear a idia, deixala
incompleta, exageral-a, para a frase ganhar em beleza, o desgraado no
hesita... V-se pela gua abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.
- Questo de temperamento, disse Carlos. Ha sres inferiores, para quem a
sonoridade de um adjectivo  mais importante que a exactido de um
sistema... Eu sou desses monstros.
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- Diabo! ento s um rhetorico...
- Quem o no ? E resta saber por fim se o estilo no  uma disciplina do
pensamento. Em verso, o av sabe,  muitas vezes a necessidade de uma
rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforo
para completar bem a cadencia de uma frase, no poder trazer
desenvolvimentos novos e inesperados de uma idia... Viva a bela frase!
- O sr. Ega anunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando comeava
justamente a tocar a sineta do almoo.
- Falae na frase... - disse Afonso, rindo.
- Hein? Que frase? O que?... - exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com o
ar estonteado, a barba por fazer, a gola do palet levantada. Oh! por aqui a
esta hora sr. Afonso da Maia! Como est v. ex.? Dize-me c, Carlos, tu  que
me podes tirar de uma atrapalhao... Tu ters por acaso uma espada que me
sirva?
E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j impaciente:
- Sim, homem, uma espada! No  para me bater, estou em paz com toda a
humanidade...  para esta noute, para o fato de mascara.
O Matos, aquele animal, s na vespera lhe dera o costume para o baile: e,
qual  o seu horror, ao vr que lhe arranjara, em lugar de uma espada
artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar atravez
das entranhas. Correu ao tio Abraho, que s tinha espadins de corte, reles e
pelintras como a prpria corte! Lembrara-se do Craft e da sua coleco; vinha
de l; mas a eram uns espades de ferro, catanas pesando arrobas, as
durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a India... Nada que lhe
servisse. Fra ento que lhe tinham vindo  idia as panplias antigas do
Ramalhete.
- Tu  que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos em
concha, d'ao rendilhado, forrados de veludo escarlate. E sem cruz, sobretudo
sem cruz!
Afonso, tomando logo um interesse paternal por aquela dificuldade do John,
lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas espanholas...
- Em cima, no corredor? exclamou Ega, j com a mo no reposteiro.
Inutil precipitar-se, o bom John no as poderia encontrar. No estavam 
vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixes em que
tinham vindo de Bemfica.
- Eu l vou, homem fatal, eu l vou, disse Carlos, erguendo-se com
resignao. Mas olha que elas no tem bainhas.
Ega ficou sucumbido. E foi ainda Afonso que achou uma idia, o salvou.
- Manda fazer uma simples bainha de veludo negro; isso faz-se numa hora. E
manda-lhe cozer ao comprido rodelas de veludo escarlate...
- Explendido, gritou Ega: o que  ter gosto!
E apenas Carlos saiu, trovejou contra o Matos.
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- Veja v. ex. isto, um sabre da guarda municipal! E  quem faz a os fatos
para todos os teatros! Que idiota!... E  tudo assim, isto  um pas
insensato!...
- Meu bom Ega, tu no queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, sete
milhes d'almas, responsaveis por esse comportamento do Matos?
- Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mos
enterradas nos bolsos do palet; sim senhor, tudo isso se prende. O costumier
com um fato do sculo XIV manda um sabre da guarda municipal; por seu
lado o ministro, a proposito de impostos, cita as Meditaes de Lamartine; e o
literato, essa besta suprema...
Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mo, uma folha do sculo
XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado como uma
renda - e tendo gravado no ao o nome ilustre do espadeiro, Francisco Rui de
Toledo.
Embrulhou-a logo num jornal, recusou  pressa o almoo que lhe ofereciam,
deu dous vivos shake-hands, atirou o chapu para a nuca, ia abalar, quando a
voz de Afonso o deteve:
- Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso  uma espada c da casa, que
nunca brilhou sem gloria, creio eu... V como te serves dela!
Ao p do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito do
palet o ferro, enrolado no Jornal do Comercio:
- No a sacarei sem justia, nem a embainharei sem honra. Au revoir!
- Que vida, que mocidade! murmurou Afonso. Muito feliz  este John!... Pois
vai-te arranjando filho, que j tocou a primeira vez para o almoo.
Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a aparatosa
carta do Gouvarinho; e ia enfim chamar o Baptista para se vestir, quando em
baixo,  entrada particular, o timbre electrico comeou a vibrar violentamente.
Um passo ancioso ressoou na ante-cmara, o Damaso apareceu esbaforido,
d'olho esgazeado, com a face em brasa. E, sem dar tempo a que Carlos
exprimisse a surpresa de o ver enfim no Ramalhete, exclamou, lanando os
braos ao ar:
- Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas da, que me venhas
ver um doente... Eu te explicarei...  aquela gente brazileira. Mas pelo amor
de Deus, vem depressa, menino!
Carlos erguera-se, plido:
-  ela?
- No,  a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, veste-te, que
a responsabilidade  minha!
-  um beb, no ?
- Qual beb!...  uma pequena crescida, de seis anos... Anda da!
Carlos, j em mangas de camisa, estendia o p ao Baptista, que, com um
joelho em terra, apressado tambm, quase fez saltar os botes da bota. E
Damaso, de chapu na cabea, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a
estalar de importancia.
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- Sempre a gente se v em coisas!... Olha que responsabilidade a minha! Vou
visital-os, como costumo s vezes, de manh... E vai, tinham partido
para Queluz.
Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
- Mas ento?...
- Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a
governanta... Depois do almoo deu-lhe uma dr. A governante queria um
medico ingls, porque no fala seno ingls... Do hotel foram procurar o Smit,
que no apareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, cheguei eu, e
lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
- Tambm, irem a Queluz com um dia destes! Ho-de-se divertir... Ests
prompto, hein? Eu tenho l em baixo o coup... Deixa as luvas, vs muito bem
sem luvas!
- O av que no me espere para almoar, gritou Carlos ao Baptista, j do
fundo da escada.
Dentro do coup, um ramo enorme enchia quase o assento.
- Era para ela, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por flores.
Apenas o coup partiu, Carlos cerrando a vidraa, fez a pergunta que desde a
apario do Damaso lhe faiscava nos lbios.
- Mas ento tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?...
O Damaso contou logo tudo, triunfante. Fra tudo um equivoco! Ah, as
explicaes do Castro Gomes tinham sido de um gentleman. Seno quebravalhe
a cara. Isso no, desconsideraes, a ningum! a ningum! Mas fora
assim: os bilhetes de visita que ele lhe deixara conservavam o seu adresse do
Grand Hotel em Paris. E o Castro Gomes, supondo que ele vivia l, obdecendo
 indicao, mandara para l os seus cartes! Curioso, hein? E de estpido... E
a falta de resposta aos telegramas fora culpa de Madame, descuido, naquele
momento de aflico, vendo o marido com o brao escavacado... Ah, tinhamlhe
dado satisfaes humildes. E agora eram intimos, estava l quase
sempre...
- Enfim, menino, um romance... Mas isso  para mais tarde!
O coup parara  porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda
porto.
Mandou o telegrama, Antonio?
- J l vai...
- Tu comprehendes, dizia ele a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes logo
um telegrama para o hotel em Queluz. No estou para ter mais
responsabilidades!...
No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um guardanapo
debaixo do brao:
- Como est a menina? gritou-lhe o Damaso.
O criado encolheu os ombros, sem comprehender.
Mas Damaso j trepava o outro lano de escada, soprando, gritando:
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- Por aqui Carlos, eu conheo isto a palmos! Numero 26!
Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava  janela,
voltou-se.
Ah bonjour, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinrio francez. A
criana estava melhor? l'enfant etait meileur? Ali lhe trazia o doutor, monsieur
le docteur Maia.
Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoisele estava mais
socegada, e ela ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o espanador pelo
mrmore de uma console, ageitou os livros sobre a mesa, e saiu, dardejando a
Carlos um olhar vivo como uma faisca.
A sala era espaosa, com uma mobilia de rps azul, e um grande espelho
sobre a console dourada, entre as duas janelas: a mesa estava coberta de
jornais, de caixas de charutos, e de romances de Capendu; sobre uma cadeira,
ao lado, ficra enrolado um bordado.
- Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janela com
um esforo sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que gente!
- Este cavalheiro  bonapartista, disse Carlos, vendo sobre a mesa os numeros
do Pais.
- Isso, temos questes terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o
sempre...  bom rapaz, mas tem pouco fundo.
Melanie voltou pedindo a Monsieur le Docteur para entrar um instante no
gabinete de toilete. E a, depois de apanhar uma toalha cahida, de dardejar a
Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha imediatamente,
e retirou-se na ponta dos sapatos. Fora, na sala, ergueu-se logo a voz do
Damaso, falando a Melanie de sa responsabilit, et que il etait trs aflig.
Carlos ficou s, na intimidade daquele gabinete de toilete, que nessa manh
ainda no fora arrumado. Duas malas, pertencentes de certo a Madame,
enormes, magnificas, com fecharias e cantos de ao polido, estavam abertas:
de uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte cor de vinho: e na outra
era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo secreto e raro de
rendas e baptistes, de um brilho de neve, macio pelo uso e cheirando bem.
Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de seda, de todos os
tons, unidas, bordadas, abertas em renda, e to leves, que uma aragem as
faria voar; e, no cho corria uma fila de sapatinhos de verniz, todos do mesmo
estilo, longos, com o taco baixo, e grandes fitas de laar. A um canto estava
um cesto acolchoado de seda cor de rosa, onde de certo viajara a cadelinha.
Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um sof onde ficra estendido,
com as duas mangas abertas,  maneira de dous braos que se oferecem, o
casaco branco de veludo lavrado de Genova com que ele a vira, a primeira
vez, apear-se  porta do hotel. O forro, de setim branco, no tinha o menor
acolxoado, to perfeito devia ser o corpo que vestia: e assim, deitado sobre o
sof, nessa atitude viva, num desabotoado de semi-nudez, adiantando em
vago relevo o cheio de dois seios, com os braos alargando-se, dando-se
todos, aquele estofo parecia exhalar um calor humano, e punha ali a frma de
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um corpo amoroso, desfalecendo num silncio d'alcova. Carlos sentiu bater o
corao. Um perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de
tanglewood, elevava-se de todas aquelas cousas intimas, passava-lhe pela
face com um bafo suave de caricia...
Ento desviou os olhos, aproximou-se da janela, que tinha por perspectiva a
fachada enxovalhada do hotel Shneid. Quando se voltou, miss Sarah estava
diante dele, vestida de preto e muito crada: era uma pessoa simpatica,
redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os olhos sentimentaes, e uma
testa de virgem sob bands lisos e louros. Balbuciava umas palavras em
francez, em que Carlos s percebeu docteur.
- Yes, I am te doctor, disse ele.
A face da boa inglesa iluminou-se. Oh! era to bom, ter enfim com quem se
entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livrala
de uma responsabilidade!...
Abriu o reposteiro, fl-o penetrar num quarto com as janelas todas cerradas,
onde ele apenas distinguiu a frma de um grande leito e o brilho de cristaes
num toucador. Perguntou para que eram aquelas trevas?
Miss Sarah pensara que a escurido faria bem  menina, e a adormeceria. E
trouxera-a ali para o quarto da mam, por ser mais largo e mais arejado.
Carlos fez abrir as janelas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar a
pequena no leito, sob os cortinados abertos, no conteve a sua admirao.
- Que linda criana!
E ficou um instante a contemplal-a, num enlevo d'artista, pensando que os
brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinao de luz, no
egualariam a palidez eburnea daquela pele maravilhosa: e esta adorvel
brancura era ainda realada por um cabelo negro, tenebroso, forte, que reluzia
sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, de um azul profundo e liquido,
pareciam nesse instante maiores, muito serios, e muito abertos para ele.
Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda da
dr, perdida naquele vasto leito, e apertando nos braos uma enorme boneca
paramentada, de pelo riado, d'olhos tambm azues e arregalados tambm.
Carlos tomou-lhe a mosinha e beijou-lh'a, - perguntando se a boneca
tambm estava doente.
- Cri-cri tambm teve dr, respondeu ela muito sria, sem tirar dele os seus
magnificos olhos. Eu j no tenho...
Estava com efeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada, e a
sua vontade j de lunchar.
Carlos tranquilisou miss Sarah. Oh, ela via bem que mademoisele estava boa.
O que a assustara fora achar-se ali s, sem a mam, com aquela
responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma criana inglesa
saa com ela para o ar... Mas estas meninas estrangeiras, to debeis, to
delicadas... E o labiosinbo gordo da inglesa trahia um desdem compassivo por
estas raas inferiores e deterioradas.
- Mas a mam no  doente?
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Oh, no! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais fraco...
- E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado 
cabeceira do leito.
- Esta  Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu chamome
Rosa, mas o pap diz que eu que sou Rosicler.
- Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo daquele nome de livro de
cavalaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.
Ento, como colhendo simplesmente informaes de medico, perguntou a miss
Sarah se a menina sentira a mudana de clima. Habitavam ordinariamente
Paris, no  verdade?
Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de vero iam para
uma quinta da Touraine, ao p mesmo de Tours, onde ficavam at ao comeo
da caa; e iam sempre passar um ms a Diepe. Pelo menos fora assim, nos
ltimos trs anos, desde que ela estava com Madame.
Enquanto a inglesa falava, Rosa, com a sua boneca nos braos, no cessava
de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Ele, de vez em quando,
sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mosinha. Os olhos da me eram negros: os do
pai de azeviche e pequeninos: quem herdara ela aquelas maravilhosas pupilas
de um azul to rico, liquido e doce.
Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante.
Enquanto a inglesa preparava muito cuidadosamente o papel, e experimentava
a pena, ele examinou um momento o quarto. Naquela instalao banal d'hotel,
certos retoques de uma elegncia delicada revelavam a mulher de gosto e de
luxo: sobre a cmoda e sobre a mesa havia grandes ramos de flores: os
travesseiros e os lenoes no eram do
hotel, mas prprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogramas
bordados a duas cres. Na poltrona que ela usava uma cachemira de Tarnah
disfarava o medonho reps desbotado.
Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a mesa alguns livros
de encadernaes ricas, romances e poetas inglses: mas destoava ali,
estranhamente, uma brochura singular - o Manual de interpretao dos
sonhos. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das escovas, os
cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro objecto estravagante,
uma enorme caixa de p de arroz, toda de prata dourada, com uma magnifica
safira engastada na tampa dentro de um circulo de brilhantes miudos, uma
joia exagerada de cocote, pondo ali uma dissonncia audaz de explendor
brutal.
Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ela estendeu-lhe logo
a boquinha fresca como um boto de rosa; ele no ousou beijal-a assim
naquele grande leito da me, e tocou-lhe apenas na testa.
- Quando vens tu outra vez? perguntou ela agarrando-o pela manga do
casaco.
- No  necessrio vir outra vez, minha querida. Tu ests boa, e Cri-cri
tambm.
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- Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu
lunch... E Cri-cri tambm.
- Sim j podeis ambas petiscar alguma coisa...
Fez as suas recomendaes  mestra, e depois, apertando a mosinba da
pequena:
- E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que s Rosicler...
E no quisser menos amvel com a boneca, deu-lhe tambm um shake-hands.
Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A inglesa, ao lado, sorria, com duas
covinhas na face.
No era necessrio, lembrou Carlos, conservar a criana na cama, nem
tortural-a com cautelas exageradas...
- Oh, n, sir!
E se a dr reaparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...
- Oh ies, sir!
E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
- Oh tank iou, sir!
Ao voltar  sala, o Damaso saltou do sof, onde percorria um jornal, como
uma fra a quem se abre a jaula.
- Credo, imaginei que ias l ficar toda a vida! Que estivestes tu a fazer? Irra,
que estopada!
Carlos, calando as luvas, sorria, sem responder.
- Ento,  coisa de cuidado?
- No tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinrio.
- Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapucom mau modo; muito
ridiculo, no  verdade?
A creada francsa apareceu outra vez a abrir a porta da sala, - dardejando
para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso recomendou-lhe muito que
dissesse aos senhores, que ele tinha vindo logo com o medico; e que havia de
voltar  noite para lhes fazer uma surpresa, e para saber se tinham gostado
de Queluz - si ils avaient aim Queluz.
Depois, ao passar diante do escriptorio, meteu a cabea, para dizer ao guardalivros,
que a menina estava boa, tudo ficava em sossego.
O guarda livros sorrio e cortejou.
- Queres que te v levar a casa? perguntou ele a Carlos, em baixo, abrindo a
porta do coup, ainda com um resto de mau humor.
Carlos preferia ir a p.
- E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora no tens que fazer.
Damaso hesitou, olhando o cu spero, as nuvens pesadas de chuva. Mas
Carlos tomara-lhe o brao, arrastava-o, amvel e gracejando.
- Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o romance... Tu
disseste que tinhas um romance. No te largo. s meu. Venha o romance. Eu
sei que os tens sempre bons. Quero o romance!
Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de
satisfao.
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- Vai-se fazendo pela vida, disse ele a estoirar de jactancia.
- Vocs estiveram em Cintra?...
- Estivemos, mas isso no foi divertido... O romance  outro!
Desprendeu-se do brao de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os
seguisse, e regalou-se pelo Aterro fora de contar o seu romance.
- A coisa  esta... O marido daqui a dias vai para o Brasil, tem l negocos. E
ela fica! Fica com as criadas e com a pequena,  espera, dois ou trs meses.
Diz que j andaram at a vr casas mobiladas, que ela no quer estar no
hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ela conhece, metido de dentro...
Hein, percebes agora?
- Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um gesto
nervoso. E de certo, a pobre criatura j est fascinada! J lhe dste, como
costumas, um beijo ardente entre duas portas! J a desgraada se surtiu da
caixa de fosforos, para mais tarde quando a abandonares!
Damaso enfiava.
- No venhas j tu com o espirito e com a chufasinha... No lhe dei beijos que
ainda no houve ocasio... Mas, o que te posso dizer,  que tenho mulher!
- Pois j era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e atirandolhe
as palavras como chicotadas. J era tempo! Andavas a metido com umas
creaturas ignobeis, uma ral de lupanar... Enfim, agora ha progresso. E eu
gosto que os meus amigos vivam numa ordem de sentimentos decentes... Mas
v l... No sejas o costumado Damaso! No te vs pr a alardear isso pelo
Gremio e pela casa Havaneza!
D'esta vez Damaso estacou, sufocado, sem comprehender aquele modo,
semelhante azedume. E terminou por balbuciar, lvido:
- Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l a respeito de
mulheres, e da maneira de fazer as cousas, no me ds lices...
Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, sentio-o
to inofensivo, to insignificante, com o seu ar bochechudo, e mole, que se
envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe o brao, teve
duas palavras amaveis.
- Damaso, tu no me comprehendeste. Eu no te quisfazer zangar...  para
teu bem... O que eu receava  que tu, imprudente, arrebatado, apaixonado,
fosses perder essa bela aventura por uma indiscro...
E o outro ficou logo contente, sorrindo j, abandonando-se ao brao do seu
amigo, certo que o desejo do Maia era que ele tivesse uma amante chic. No,
ele no se tinha zangado, nunca se zangava com os intimos... Comprehendia
bem que o que Carlos dizia era por amizade...
- Mas tu, s vezes, tens essa coisa que te pegou o Ega, gostas do teu
bocadinho de espirito...
E ento tranquilisou-o. No, por imprudencia no havia ele de perder a
coisa. Aquilo ia com todas as regras. L nisso sobrava-lhe experiencia. A
Melanie j a tinha na mo; j lhe dera duas libras.
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- Isto de mais a mais  uma coisa muito sria... Ela conhece meu tio,  intima
dele desde pequena, tratam-se at por tu...
- Que tio?
- Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimares. Mr. de Guimaran, o que vive
em Paris, o amigo de Gambeta...
- Ah sim, o comunista...
- Qual comunista, at tem carruagem!
Subitamente lembrou-lhe outra coisa, um ponto de toilete em que queria
consultar Carlos.
- manh vou jantar com eles, e vo tambm dois brazileiros, amigos dele,
que chegaram a ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um  chic,  da
Legao do Brasil em Londres. De maneira que  jantar de ceremonia. O
Castro Gomes no me disse nada; mas que te parece, achas que v de
casaca?...
- Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapela.
O Damaso olhou-o, pensativo.
- A mim tinha-me lembrado o habito de Cristo.
- O habito de Cristo... Sim, pe o habito de Cristo ao pescoo, e pe a rosa na
botoeira.
- Ser talvez de mais, Carlos!
- No, fica bem ao teu tipo.
Damaso fizera parar o coup que os tinha seguido a passo. E no ltimoaperto
de mo a Carlos:
- Tu sempre vs  noite, aos Cohens, de domin? O meu fato de selvagem
ficou divino. Eu venho mostral-o  noite  brazileira... Entro no Hotel
embrulhado num capote, e apareo-lhes de repente na sala, de selvagem, de
Nelusko, a cantar:
Alerta, marinari,
Il vento cangia...
Chic a valer!... Good bie!
s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fora, a noite fizera-se
tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'gua, que a cada instante
batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilete, errava no ar tepido
um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre duas comodas de pau
preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de velho bronze erguiam os
seus molhos de velas acezas, pondo largos reflexos doces sobre a seda
castanha das paredes. Ao lado do alto espelho-psich alastrava-se, em cima
de uma poltrona, o domin de j setim negro com um grande lao azul-claro.
Baptista, com a casaca na mo, esperava que Carlos acabasse a chvena de
ch preto que ele estava bebendo aos golos, de p, em mangas de camisa, e
de gravata branca.
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De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e
violento.
- Talvez outra surpresa, murmurou Carlos, hoje  o dia das surprezas...
Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir - quando em baixo vibrou outro
repique brutal, de uma impaciencia frenetica.
Ento Carlos, curioso, saiu  ante-cmara: e a,  meia luz das lampadas
Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos veludos cor de cereja, viu, ao abrir-se
a porta por onde entrou um sopro spero da noite, aparecer vivamente uma
frma esguia e vermelha, com um confuso tinir de ferro. Depois, pela escada
acima, duas penas negras de galo ondearam, um manto escarlate esvoaou -
e o Ega estava diante dele, caracterisado, vestido de Mefistofeles!
Carlos apenas poude dizer bravo - o aspecto do Ega emudeceu-o. Apezar dos
toques de caracterisao que quase o mascaravam, sobrancelhas de diabo,
guias de bigode ferozmente exageradas - sentia-se bem a aflico em que
vinha, com os olhos injectados, perdido, numa terrvel palidez. Fez um gesto a
Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, logo, discretamente,
retirou-se cerrando o reposteiro.
Estavam ss. Ento Ega, apertando desesperadamente as mos, numa voz
rouca e d'agonia:
- Tu sabes o que me sucedeu, Carlos?
Mas no poude dizer mais, sufocado, tremendo todo; e diante dele,
devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambm, enfiado.
- Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforo e quase
balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j
estavam duas ou trs pessoas... Ele vem direito a mim, e diz-me: Voc, seu
infame, ponha-se j no meio da rua... J no meio da rua seno, diante desta
gente, corro-o a pontaps! E eu, Carlos...
Mas a clera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os
beios, recalcando os soluos, com os olhos reluzentes de lgrimas.
Quando as palavras voltaram, foi uma exploso selvagem:
- Quero-me bater em duelo com aquele malvado, a cinco passos, meter-lhe
uma bala no corao!
Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo
furiosamente o p, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se
na estridencia da prpria voz.
- Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!
Depois, alucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo
quarto, s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal afivelada
batendo-lhe as canelas escarlates.
- Ento descobriu tudo, murmurou Carlos.
- Est claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear arrebatado,
atirando os braos ao ar. Como descobriu, no sei. Sei isto, j no  pouco.
Poz-me fora!... Hei-de-lhe meter uma bala no corpo! Pela alma de meu pai,
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hei-de-lhe varar o corao!... Quero que vs l logo pela manh com o Craft...
E as condies so estas:  pistola, a quinze passos!
Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chvena de ch. Depois disse
muito simplesmente:
- Meu querido Ega, tu no podes mandar desafiar o Cohen.
O outro estacou de repelo, atirando pelos olhos dois relampagos d'ira - a que
as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas penas de galo ondeando na
gorra, davam uma ferocidade teatral e comica.
- No o posso mandar desafiar?
- No.
- Ento pe-me fora de casa...
- Estava no seu direito.
- No seu direito!... Diante de toda a gente?...
- E tu, no eras amante da mulher diante de toda a gente?...
O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez um
grande gesto:
- No se trata da mulher!... no se falou da mulher!...  uma questo d'honra
para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o...
Carlos encolheu os ombros.
- Tu no ests em ti. Tens s uma coisa a fazer;  ficar amanh em casa, a
vr se ele te manda desafiar a ti...
- O que, o Cohen! exclamou Ega.  um covarde,  um canalha!... Ou o mato,
ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu ests
doido...
E recomeou o seu passear desabalado do espelho para a janela, soprando,
rilhando os dentes, com repeles para traz ao manto que faziam oscilar, nas
serpentinas, as chamas altas das velas.
Carlos no dizia nada, de p junto da mesa, enchendo lentamente de novo a
sua chvena. Tudo aquilo comeava a parecer-lhe pouco srio, pouco digno,
as ameaas de pontaps do marido, os furores melodramaticos do Ega: - e
mesmo no podia deixar de sorrir diante daquele Mefistofeles esgouroviado,
espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de veludo, e a falar
furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas postias, e escarcela de
coiro  cinta.
- Vamos falar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta brusca
resoluo. Quero vr o que diz o Craft. Tenho l em baixo uma tipia, estamos
l num instante!
- Ir agora  quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relgio.
- Se s meu amigo, Carlos!...
Carlos imediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.
Ega, no entanto, ia preparando uma chvena de ch, deitando-lhe rhum, ainda
to nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um grande suspiro,
acendeu uma cigarrete. Carlos entrra na alcova de banho, ao lado, alumiada
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por um forte jacto de gsque assobiava. Fora, a chuva continuava seguida e
monotona, as goteiras escoavam-se no cho mole do jardim.
- Achas que a tipia aguentar? perguntou Carlos de dentro.
- Aguenta,  o Canhto, disse Ega.
Agora reparara no domin, fora erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o belo
lao azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande espelhopsich,
entalou o monculo no olho, recuou um passo, contemplou-se d'alto a
baixo; - e terminou por pousar uma das mos na cinta, apoiar a outra,
galhardamente, sobre os copos da espada.
- Eu no estava mal, oh Carlos, hein?
- Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena
estragar-se tudo... Como estava ela?
- Devia estar de Margarida.
- E ele?
- A besta? De beduino.
E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as penas da gorra, os
sapatos bicudos de veludo, e a ponta flamante da espada erguendo o manto
por traz, numa prega fidalga.
- Mas ento, disse Carlos, aparecendo a enxugar as mos, tu no fazes idia
do que se passou, o que ele diria  mulher, o escndalo...
- No fao idia nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei na
primeira sala estava ele, de beduino; estava um outro sujeito d'urso, e uma
senhora no sei de que, de Tirolesa creio eu... Ele veiu para mim, e disse-me
aquilo: ponha-se fora! No sei mais nada... Nem posso perceber... O canalha,
se descobriu, naturalmente, para no estragar a festa, no disse nada a
Rachel... Depois  que elas so!
Ergueu as mos para o ceu, murmurou:
-  horroroso!
Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois numa outra voz, franzindo a face:
- No sei que diabo aquele Godefroi me deu para colar as sobrancelhas, que
me picam que tem diabo!
- Tira-as...
Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de
Santanaz. Mas arrancou-as por fim - e a gorra emplumada, muito justa, que
lhe escaldava a cabea. Ento Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do Craft,
se desembaraasse do manto e da espada, se agasalhasse num palet dele.
Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante traje infernal, e com
um profundo suspiro comeou a desafivelar o talim. Mas o palet era muito
largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra nas mangas. Depois Carlos
meteu-lhe um bonet escossez na cabea. - E assim arranjado, com as canelas
vermelhas de diabo aparecendo sob o palet, a gargantilha escarlate  Carlos
IX emergindo da gola, a velha casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha
o ar lamentvel de um Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade de um
gentleman, e usando-lhe o fato velho.
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Baptista alumiou, grave e discreto. Ega ao passar por ele, murmurou:
- Isto vaimal, Baptista, isto vaimal...
O velho criado teve um movimento triste d'ombros, como significando que
nada no mundo ia bem.
Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabea sob a chuva. O Canhoto, ao
ouvir falar de uma gorgeta de libra, fez um grande espalhafato, rompeu s
chicotadas; e a velha traquitana l partiu a galope, a escorrer d'gua,
atroando a calada.
Por vezes um coup particular crusava-os, os casacos de guta-perche dos
criados branquejavam  luz das lanternas. Ento a idia da festa que devia
agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braos d'outros,
anciosa,  espera dele; a ceia depois, o champagne, as cousas brilhantes que
ele teria dito - todas estas delicias perdidas se vinham cravar no corao do
pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas, Carlos fumava silenciosamente,
com o pensamento no Hotel Central.
Depois de Santa Apolonia a estrada comeou, infindavel, desabrigada, batida
pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o seu canto,
arrepiados na friagem que entrava pelas gretas da tipia. Carlos no cessava
de vr o casaco branco de veludo, com as duas mangas abertas, como dois
braos que se ofereciam...
Passava da uma hora quando chegaram  quinta: a sineta do porto, aos
puxes do cocheiro encharcado, retumbou lugubre naquele silncio escuro
de aldeia. Um co ladrou furiosamente: outros latidos ao longe responderam;
e ainda esperaram muito, antes que um criado, sonolento e resmungo,
aparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia  casa: o Ega
praguejava, enterrando os seus belos sapatos de veludo no cho lamacento.
Craft, surprehendido com aquele tumulto, veiu-lhes ao encontro no corredor,
de robe-de-chambre, e a Revista dos Dois Mundos debaixo do brao. Percebeu
logo que havia desastre. Levou-os em silncio para o seu gabinete onde um
bom lume de carvo na chamin aquecia, alegrava o aposento todo estofado
de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
Ega rompera logo a contar o seu caso - emquanto Craft, sem espanto nem
exclamaes, ia preparando metodicamente sobre a mesa trs grogs de
conhaque e limo. Carlos, sentado ao p do fogo, aquecia os ps: e Craft
veiu acabar de ouvir o Ega, acomodando-se tambm na sua poltrona, do outro
lado da chamin, com o seu cachimbo na boca.
- Enfim, exclamou Ega, de p, cruzando os braos, que me aconselhas tu
agora?
- Tens a fazer s isto, disse Craft: esperar amanh em casa que ele te mande
os seus padrinhos... Que tenho a certeza que no manda... E depois, se vos
baterdes, deixar-te ferir ou matar.
- Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
Ega olhou-os a ambos, sucessivamente, petrificado. E logo, num fluxo de
palavras desordenadas, queixou-se de no ter amigos. Ali estava, naquela
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crise, a maior da sua vida: e em lugar de encontrar, nos seus camaradas de
infncia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade  tort et  travers,
abandonavam-no, pareciam querer enterral-o, e expol-o a irrises maiores...
Ia-se comovendo; os olhos vermelhejavam-lhe sob as lgrimas. E quando
algum deles ia interrompe-lo, numa palavra de senso, batia o p, persistia na
sua teima - um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. No
existia outra coisa. No se tinha falado na mulher. Era ele que devia primeiro
mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala, quando o outro o
insultou. Havia um urso, e uma tirolesa... E emquanto a deixar-se varar por
uma bala, no! Tinha mais direito a viver que o Cohen, que era um burguez, e
um agiota... E ele era um homem de estudo e de arte! Tinha na cabea livros,
idias, cousas grandes. Devia-se ao pas,  civilizao!... Se fosse ao campo,
era para fazer a sua pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta
imunda...
- Mas o que ,  que no tenho amigos! gritou ele exausto por fim, caindo
para o canto de um sof.
Craft bebia em silncio, e aos golos, o seu conhaque.
Foi Carlos que se ergueu, srio e spero. Ele no tinha direito de duvidar da
sua amizade. Quando lhe tinha ela faltado? Mas era necessrio no ser pueril,
nem teatral... A questo estava simplesmente em que o Cohen o
surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia matal-o, podia entregal-o
aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a pontaps...
- Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho:
Guarde-a.
- Ou isso! continuava Carlos. No, senhor: limita-se a prohibir-te a entrada em
casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de ter feito isto,
no quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve portanto um acto de
moderao. E tu queres mandal-o desafiar por isso?...
Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem palet
agora, esguedelhado, parecendo mais fantastico naquele simples gibo
escarlate, com os sapatos de veludo enlameados, as longas pernas de cegonha
cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se no tratava disso!
No, no se tratava da mulher! A questo era outra...
Carlos ento zangou-se.
- Para que diabo te expulsou ele de casa ento? No disparates, homem! Ns
estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E  triste, que te custe
tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu... Nada de
equivocos! tu declaravas bem alto a tua amizade pelo Cohen. Tens de aceitar
a lei: se ele te quizer matar tens de morrer. Se ele no quizer fazer nada, tens
de ficar de braos cruzados. Se ele te quizer chamar a por essas ruas um
infame, tens de baixar a cabea, e reconhecer-te infame...
- Ento tenho de engolir a afronta?
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Os dois amigos explicaram-lhe que aquele fato de Satanzlhe perturbava a
lucidez do criterio mundano - e que chegava a ser torpe falar ele, Ega, de
afronta.
Ega, outra vez acabrunhado sobre o sof, conservou um momento a cabea
enterrada nas mos.
- Eu j nem sei, disse ele por fim. Vocs devem ter raso... Eu estou-me a
sentir idiota... Ento, vamos, que hei de eu fazer?
- Vocs teem a tipia  espera? perguntou tranquilamente Craft.
Carlos mandara desaparelhar, recolher o gado esfalfado.
- Excelente! Ento, meu caro Ega, tens outra coisa a fazer, antes de morrer
amanh talvez,  cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos longos d'explicar,
ha nesta casa um peru frio. E ha-de haver uma garrafa de Bourgonhe...
D'a a pouco estavam  mesa - naquela bela sala de jantar do Craft, que
encantava sempre Carlos, com as suas tapearias ovaes representando
bocados solitrios d'arvoredo, as severas faenas da Persia, e a sua original
chamin flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos rutilantes de
cristal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j o per, emquanto
Craft, desarrolhava, com venerao, duas garrafas do seu velho Chambertin,
para reconfortar Mefistofeles.
Mas Mefistofeles, sombrio e com os olhos avermelhados, repeliu o prato,
desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o Chambertin.
Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocs chegaram, estava a
lr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo em
Inglaterra...
- Que  aquilo, alm, naquela lata? perguntou Ega, com uma voz moribunda.
Um pt de foie-gras. Mefistofeles escolheu com tdio uma trufa.
- Bem bom, este teu Chambertin, suspirou ele.
- Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. No te romantises. Tu o
que tens  fome. Todas as tuas idias esta noite se ressentem da debilidade!
Ento Ega confessou que devia estar fraco. Com aquela excitao do seu trage
de Satanznem jantra, contando ceiar bem em casa do outro... Sim, com
efeito, tinha apetite! Excelente foie-gras...
E da a pouco devorava: foram talhadas de per, uma poro imensa de lingua
d'Oxford, duas vezes presunto de York, todas aquelas boas cousas inglsas
que havia sempre em casa do Craft. E ele s bebeu quase toda uma garrafa de
Chambertin.
O escudeiro fora preparar o caf: e, no entanto, ia-se discutindo, em todas as
hipteses, a atitude provvel do Cohen com a mulher. Que faria ele? Talvez
lhe perdoasse. Ega afirmava que no: era vaidoso, e de rancores longos! Num
convento tambm no a fechava, sendo judia...
- Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. Ega, j com os olhos
brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que ele ento entrava num
mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em que mosteiro queria ele
entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para dominicano era muito magro,
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para trapista muito lascivo, muito palrador para jesuita, e para benedictino
muito ignorante... Era necessrio criar uma ordem para ele! Craft lembrou a
Santa Blague!
- Vocs no teem corao, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. Vocs
no sabem, eu adorava aquela mulher!
Ento largou a falar de Rachel. E teve ali, de certo, os momentos melhores de
toda aquela paixo, - porque poude, sem escrupulo, fazer reluzir a sua aureola
de amante, banhar-se no mar de leite das confidencias vaidosas. Comeou por
contar o encontro com ela na Foz - emquanto Craft, sem perder uma palavra,
como quem se instrue, se erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse
depois os passeios na Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas,
trocadas entre folhas de livros emprestados, em que ela se assignava Violeta
de Parma; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, emquanto
o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os rendez-vous no
Porto, no Cemiterio do Repouso, as presses ardentes de mos  sombra dos
ciprestes, e os planos de voluptuosidade combinados entre as lapides
funebres...
- Muito curioso! dizia o Craft.
Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o caf. Enquanto se enchiam
as chavenas, e Craft fora buscar uma caixa de charutos, ele acabou a garrafa
de Champagne, j plido, com o nariz afilado.
O criado saiu, correndo o reposteiro de tapearia: e logo Ega, com o clice de
conhaque ao lado, recomeou as confidencias, contou a volta a Lisboa, a Vila
Balzac, as manhs deliciosas passadas l com ela no calor de um ninho
d'amor...
Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um
momento a cabea entre os punhos. Depois l vinha outro detalhe, os nomes
lubricos que ela lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde ela brilhava
como um jaspe... Duas lgrimas embaciaram-lhe os olhos, jurou que queria
morrer!
- Se vocs soubessem que corpo de mulher! gritou ele de repente. Oh
meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocs um peito...
- No queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu ests bebado, miseravel!
Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado  mesa.
Bebado! Ele? Ora essa!... Era coisa que no podia, era empiteirar-se. Tinha
feito o possvel, bebido tudo, at gua raz. Nunca! No podia...
- Olha, vou pr aquela garrafa  boca, tu vers... E fico frio, fico impassivel. A
discutir filosofia... Queres que te diga o que penso de Darwin?  uma besta...
Ora a tens. D c a garrafa.
Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscilando, a olhar para ele,
com a face lvida.
- Ou me ds a garrafa... ou me ds a garrafa, ou te meto uma bala no
corao... No, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
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De repente os olhos cerraram-se-lhe, abateu-se sobre a cadeira, da sobre o
cho, como um fardo.
- Terra! disse tranquilamente Craft.
Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Joo da Ega. E emquanto
o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,
no cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mos de Carlos,
balbuciando:
- Rachelsinha!... Racaqu, minha Raquesinha! gostas do teu bibichinho?...
Quando Carlos partiu na tipia para Lisboa, no chovia, um vento frio ia
varrendo o ceu, j clareava a alvorada.
Ao outro dia, s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft dormindo, e
subiu ao quarto do Ega. As janelas tinham ficado abertas, um largo raio de sol
dourava o leito; e ele ressonava ainda, no meio daquela aureola, deitado de
lado, com os joelhos contra o estomago, o nariz dentro dos lenoes.
Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e bruscamente
ergueu-se sobre o cotovelo, espantado para o quarto, para os cortinados de
damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe sorria de dentro
da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera o assaltaram,
porque se enterrou para baixo, com os lenoes at ao queixo; e a sua face
esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolao de deixar aqueles fofos
colxes, a paz confortavel da quinta - para ir afrontar a Lisboa toda a sorte de
cousas amargas.
- Est frio l fora? perguntou ele melancholicamente.
- No, est um dia adorvel. Mas levanta-te, depressa! Se l fr algum da
parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
Ega deu imediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado,
procurava a roupa, com as canelas nuas, tropeando contra os moveis. S
achou o gibo de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calas de
Craft. Ega enfiou-as  pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a gola
do palet erguida, enterrou enfim na cabea o bonet escossez, voltou-se para
Carlos, disse com um ar tragico:
- Vamos a isso!
Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao porto, onde esperava o coup de
Carlos. Na alameda de acacias, to tenebrosa na vespera sob a chuva,
cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava ao sol. O
grande Terra-nova do Craft pulava em roda deles.
- Doe-te a cabea, Ega? perguntou Craft.
- No, respondeu o outro, acabando de abotoar o palet. Eu ontem no estava
bebado... O que estava era fraco.
Mas, ao entrar para o coup, fez, com um ar profundo e filosofico, esta
reflexo:
- O que  a gente beber bons vinhos... Estou como se no fosse nada!
Craft recomendou que, se houvesse novidade, lhe mandassem um telegrama;
fechou a portinhola, o coup partiu.
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Durante a manh no veiu telegrama  quinta; e quando Craft apareceu na
Vila Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava  porta, j escurecera,
duas vlas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no sof, dormitava,
com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava de um lado para
outro, todo vestido de preto, plido, com uma rosa na botoeira. Tinham estado
ali na sala, naquela sca, esperando todo o dia as testemunhas do Cohen.
- Que te dizia eu? No ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
Mas Ega, agora agitado de idias negras, temia que ele tivesse assassinado a
mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem conhecia melhor o
Cohen do que ele? Sob a aparencia burgueza, era um monstro! Tinha-lhe visto
matar um gato, s por capricho de derramar sangue...
- Tenho um presentimento de desgraa, balbuciou ele aterrado.
E logo nesse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente
Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe disse
que, quela hora, no podiam ser os amigos do Cohen. Mas ele queria estar s
na sala: e l ficou, mais plido, rigido, muito abotoado na sobrecasaca, com os
olhos cravados na porta.
- Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurido do quarto.
Craft acendeu no toucador um resto de vela. Uma luz triste espalhou-se, tudo
apareceu num desarranjo: no meio do cho estava cada uma camisa de
dormir; a um canto ficara a bacia de banho com gua de sabo; e, no centro,
o enorme leito, envolto nas suas cortinas de seda vermelha, conservava uma
magestade de tabernaculo.
Um momento estiveram calados. Craft metodico, e como quem se instrue,
examinava o toucador, onde havia um mao de ganchos de cabelo, uma liga
com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o
mrmore da cmoda; a ficara um prato com ossos de frango, e ao lado uma
meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo trabalho literario
do Ega. Ele achava tudo isto muito curioso.
Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos
escutando, julgou sentir uma fala abafada de mulher... Impaciente, foi 
cozinha. A criada estava sentada  mesa, com a mo metida pelos cabelos,
sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado numa cadeira,
chupava o seu cigarro.
- Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
- Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz das
costas.
Carlos voltou ao quarto, anunciando:
-  a confidente. As cousas terminam amavelmente.
- E como queria voc que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu
Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua
respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que no convm um
escndalo...  isto que calma os maridos. Alm disso, j se satisfez, j lhe
ofereceu pontapes...
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Nesse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
- No ha nada, exclamou ele, deu-lhe uma coa, e vo amanh para
Inglaterra!
Carlos olhou para o Craft - que movia a cabea, como vendo todas as suas
previses realisadas, e aprovando plenamente.
- Uma coa, dizia o Ega, com os olhos chamejantes e numa voz que sibilava. E
depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um menage modelo! A
bengala purifica tudo... Que canalha!
Estava furioso. Nesse momento odiava Rachel - no perdoando ao seu idolo
ter-se deixado desfazer  paulada. Lembrava-se justamente da bengala do
Cohen, um junco da India, com uma cabea de galgo por casto. E aquilo
zurzira as carnes que ele tinha apertado com paixo! Aquilo pozera verges
roxos onde os seus lbios tinham avivado signaes cor de rosa! E tinham feito
as pazes. E assim terminava, reles e chinfrim, o romance melhor da sua vida!
Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas no! levava a sova,
deitava-se depois com o marido, e ele mesmo, decerto arrependido,
chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as aplicaes de
arnica! Aquilo acabava em arnica!
- Entre vocemec para aqui, sr. Adelia, gritou ele para a sala, entre para
aqui! Aqui s ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto so amigos!
Somos trs, mas somos um! Tem vocemec diante de si o grande misterio da
Santissima Trindade. Sente-se, sr. Adelia, sente-se... No faa ceremonia... E
pode contar.... Aqui a sr. Adelia, meninos, viu tudo, viu a coa!
A sr. Adelia, uma moa gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um chapude
flores vermelhas, veiu logo da sala rectificando. No, ela no vira... Ento o sr.
Ega no tinha percebido bem... Ela s ouvira.
- Aqui est como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a p, naturalmente, at
ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas pernas. Era j dia claro,
quando o senhor, ainda vestido de moiro, se fechou no quarto com a senhora.
Eu fiquei na cozinha com o Domingos  espera que eles tocassem a
campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu fiquei estarrecida, pensei at que
eram ladres. Corremos, eu e o Domingos, mas a porta do quarto estava
fechada, e os dois estavam por dentro, l para o fundo da alcova. Eu ainda
puz o olho  fechadura, mas no pude vr nada... L o estalar de bofetadas, e
trambulhes, e sons de bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os
gritos. Eu disse logo ao Domingos ai que  uma questo, ai que l se foi
tudo. Mas de repente, silncio geral! Ns voltmos para a cozinba; da a
pouco o sr. Cohen apareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a
dizer que nos podiamos deitar, que eles no precisavam nada, e que amanh
falariamos!... Depois l ficaram toda a noite, e pela manh parece que
estavam muito amiguinhos... Que eu no puz os olhos na senhora. O sr.
Cohen, apenas se levantou, veiu  cozinha, fez-me ele as contas, e ps-me
fora; muito mal criado, at me ameaou com a policia... Foi pelo Domingos,
que eu soube agora, quando fui buscar o bah com um galego, que o sr.
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Cohen a com a senhora para Inglaterra. Enfim, um chinfrim... Eu at tenho
estado todo o dia com o estomago embrulhado.
A sr. Adelia com um suspiro, pondo os olhos no cho, calou-se. Ega, com os
braos cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes parecia
aquilo? Uma coa!... Se um covarde daqueles no merecia uma bala no
corao! Mas ela tambm, deixar-se tocar, no ter fugido, consentir ainda
depois em dormir com ele!... Tudo uma corja!
- E a sr. Adelia, perguntava Craft, no tem idia de como ele descobriu?...
- Isso  que  prodigioso! gritou Ega, apertando as mos na cabea.
Sim, prodigioso! No fora carta apanhada: eles no se escreviam. No podia
ter surprehendido as visitas  Vila Balzac: as cousas estavam combinadas com
uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para vir ali, nunca ela
cometera a indiscripo de se servir da sua carruagem. Nunca ela claramente
entrara pela porta. Os criados dele nunca a tinham visto, no sabiam quem
era a senhora que o visitava... Tantos cuidados, e tudo estragado!
- Estranho, estranho! murmurava Craft.
Houve um silncio. A sr. Adelia terminara por descanar familiarmente numa
cadeira, com a sua trouxasinha no regao.
- Pois olhe, sr. Ega, disse ela, depois de reflectir, creia ento uma coisa,  que
foi em sonhos. J tem acontecido... Foi a senhora que sonhou alto com v.
ex., disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra no sapato, espreitou-a, e
descobriu a marosca... E eu sei que ela sonha alto.
Ega, diante da sr. Adelia, percorria-a desde as flores do chapuat  roda das
saias, com os olhos faiscantes.
- Como  possvel que ele ouvisse? Se eles tinham quartos separados!... Eu sei
que tinham.
A sr. Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calados de luvas
pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas palavras:
- No tinham, no senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A
senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes dele.
Houve um silncio embaraado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da
vela acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que afectara sorrir, encolher os
ombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, triturando o bigode com a
mo tremula.
Ento Carlos enojado, canado daquele episodio que durava desde a vespera,
e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era necessrio
findar! Eram oito horas, e ele queria jantar...
- Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaado.
De repente fez um signal  sr. Adelia, arrastou-a para a sala, fechou-se l
outra vez.
- Voc no est farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
- No. Acho um estudo curioso.
Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vela extinguiu-se. Carlos,
furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um imundo candieiro de
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petroleo - quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a sr.
Adelia partira.
- Vamos l jantar, disse ele. Mas aonde, a esta hora?
E ele mesmo lembrou o Andr, ao Chiado. Em baixo, alem do coup de Carlos,
esperava a tipia do Craft. As duas carruagens partiram. A Vila Balzac ficava
apagada, muda, d'ora em diante inutil.
No Andr tiveram de esperar muito tempo, num gabinete triste, com um papel
de estrelinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas de reps azul,
e dois bicos de gsque silvavam. Ega, enterrado no sof de molas gastas e
lassas, cerrara os olhos, parecia exausto. Carlos a contemplando as gravuras
pela parede, todas relativas a espanholas: uma sando da egreja; outra
saltando uma pocinha de gua; outra, de olhos baixos, escutando os conselhos
de um canonico. Craft, j  mesa, com a cabea entre os punhos, percorria um
Diario da Manh, que o criado oferecera para os senhores se entreterem.
De repente o Ega deu um murro no sof, que rangeu lamentavelmente.
- Eu o que no percebo, gritou ele,  como aquele malvado descobriu!...
- A hipotese da sr. Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, parece
provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. Ou talvez
uma denuncia anonima. Ou talvez apenas um acaso... O facto  que o homem
desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
Ega erguera-se:
- Eu no vos quisdizer diante da Adelia, que no estava no segredo todo. Mas
vocs sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viela, uma casa com
um grande quintal? Ali mora uma tia do Gouvarinho, a D. Maria Lima, uma
pessoa respeitavel. A Rachel a vl-a de vez em quando. So intimas, a D.
Maria Lima  intima de todo o mundo. Depois saa por uma portinha do
quintal, atravessava a viela, e estava  porta da minha casa,  porta escusa, 
porta da escada que vaiter ao cacifro de banho. J vocs vem... Os criados
nem a avistavam. Quando ela l lunchava, o lunch estava j posto no meu
quarto, as portas fechadas. Mesmo se algum visse, era uma senhora com um
vu preto, que vinha de casa da Lima... Como podia o homem apanhal-a?...
Alm disso, em casa da Lima, ela mudava de chapu, e punha um
waterproof...
Craft cumprimentou.
-  brilhante! Parece de Scribe.
- Ento, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...
- A D. Maria, coitada... Eu te digo,  uma excelente velha, recebida em toda a
parte, mas pobre, e faz destes favores... s vezes mesmo em casa dela.
- Leva caro por esses servios? perguntou tranquilamente Craft, que em todo
aquele caso procurava instruir-se.
- No, coitada, disse o Ega. Do-se-lhe de vez em quando cinco libras.
O criado entrava com uma travessa de camares, os trs em silncio
acomodaram-se  mesa.
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Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega a l dormir, receiando, com
os nervos to excitados, a solido da vila Balzac. Partiram, de charutos acesos,
numa caleche descoberta, sob a noite estrelada e doce.
Felizmente no estava ningum no Ramalhete; Ega, canado, poude retirar-se
logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo andar, onde
havia um belo leito antigo de pau preto. Ali, apenas o criado o deixou, Ega
aproximou-se do trem onde ardiam as luzes, e tirou do pescoo, de sob a
camiza, um medalho de ouro. Tinha dentro uma fotografia de Rachel: - e a
sua inteno agora era queimal-a, deitar ao balde das guas sujas as cinzas
daquela paixo. Mas, ao abrir o medalho, a face bonita, banhada num
sorriso, sob o vidro oval, pareceu olhar para ele com uma tristeza no veludo
das pupilas languidas... A fotografia mostrava apenas a cabea, com uma
abertura de decote no comeo do vestido: e as recordaes de Ega alargaram
aquele decote uma vez mais, revendo o colo, o extraordinrio setim da pele, o
signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe de
novo nos lbios, sentiu n'alma outra vez como o eco dos suspiros canados
que ela soltara nos seus braos. E ela ia-se embora, nunca mais a veria! Esta
desolada amargura do nunca mais revolveu-o todo - e com a face enterrada
no travesseiro, o pobre demagogo, o grande fraseador soluou muito tempo
no segredo da noite.
Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso
aparecera no Ramalhete, e por ele ouviram os rumores de Lisboa. J se sabia
no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que ele fora expulso da casa dos
Cohens. O urso, a pastora do Tirol, testemunhas do episodio, tinham-no
badalado com entusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe dera um pontap.
Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prgavam com fervor a
inocencia da sr. D. Rachel. O Alencar contava publicamente que o Ega,
provinciano inexperiente e leo de Celorico, tendo tomado por evidencias de
paixo os sorrisos de amabilidade de uma senhora que recebe, - escrevera 
sr. D. Rachel uma carta quase obscena, que ela, coitadinha, toda em
lgrimas, viera mostrar ao marido.
- Ento do-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete de
Carlos, embrulhado numa velha ulster, e encolhido numa poltrona, escutava
estas cousas com um ar canado e doente.
Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
Ah, ele sabia-o bem! Tinha antipatias em Lisboa. Ningum lhe perdoara ainda
a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, ofendia. E era desagradavel para
muita gente que um homem, com esse espirito to perigoso de ferro em
brasa, tivesse uma me rica, e fosse independente.
Depois, no sbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos Gouvarinhos - que
fora excelente - contou-lhe a conversa que tivera com a sr. condessa. A
condessa falara-lhe muito livremente, como um homem, daquele desastre do
Ega. Tinha-se afligido muito, no s pela Rachel, coitada, de quem era amiga,
mas pelo Ega, que ela apreciava tanto, to interessante, to brilhante, e que
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saa de tudo aquilo enxovalhado! O Cohen dizia a todos (dissera-o ao
Gouvarinho) que ameara o Ega de pontaps, por ele ter escripto a sua
mulher uma carta imunda. Os que no sabiam nada, como o Gouvarinho,
acreditavam, apertavam as mos na cabea; e os que sabiam, os que havia
seis meses sorriam da intimidade do Ega com os Cohens, afectavam tambm
acreditar, cerravam os punhos de indignao. O Ega era odiado. E a pequena
Lisboa, que vive entre o Gremio e a casa Havaneza, folgava em enterrar o
Ega.
Ega, com efeito, sentia-se enterrado. E nessa noite declarou a Carlos que
decidira recolher-se  quinta da me, passar l um ano a acabar as Memorias
de um Atomo, e reaparecer em Lisboa com o seu livro publicado, triumfando
sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos no perturbou esta radiante
iluso.
Mas quando Ega, antes de partir, foi a recapitular os seus negocios de casa, de
dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a todo o mundo,
desde o estofador at ao padeiro; tinha trs letras a vencer; aquelas dividas,
se as deixasse, soltas e ladrando, juntar-se-iam, na tagaralice publica, ao caso
dos Cohens - e ele sria, alm do amante ameaado de pontaps, o pelintra
perseguido pelos credores! Que havia de fazer, seno valer-se de Carlos?
Carlos, para regular tudo, emprestou-lhe dois contos de ris.
Depois, tendo despedido os criados da Vila Balzac, surgiram-lhe outras
complicaes. A me do pagem veio da a dias ao Ramalhete, muito insolente,
gritando que o filho lhe desaparecera! E era exacto: o famoso pagem,
pervertido pela cozinheira, sumira-se com ela para as vielas da Mouraria, a
comear a uma divertida carreira de faia.
Ega recusou-se a atender s reclamaes da matrona. Que diabo tinha ele
com essas torpezas?
Ento o amante da criatura interveiu, ameaadoramente. Era um policia, um
esteio da ordem: e deu a entender que lhe sria facil provar como na Vila
Balzac se passavam cousas contra a natureza, e que o pagem no era s
para servir  mesa... Nauseado at  morte, Ega pacteou com a intrugice,
largou cinco libras ao policia. Quando nessa noite, uma noite triste d'gua,
Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia, ele disse-lhes na carruagem
estas palavras, triste resumo de um amor romantico:
- Sinto-me como se a alma me tivesse cadoa uma latrina! Preciso um banho
por dentro!
Afonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com
tristeza:
- M estreia, filho, pessima estreia!
E nessa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava nesta s
palavras, dizia tambm comsigo: - Pessima estreia!... E nem s a estreia do
Ega era pessima; tambm a sua. E talvez, por pensar n'isso, as palavras do
av tinham tido aquela tristeza. Pessimas estreias! Havia seis meses que o
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Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande pelissa, preparado a
deslumbrar Lisboa com as Memorias de um Atomo,
a dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma fora, mil
outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l voltava para
Celorico, escorraado. Pessima estreia! Ele, por seu lado, desembarcara em
Lisboa, com idias colossaes de trabalho, armado como um luctador: era o
consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil cousas fortes... E, que tinha
feito? Dois artigos de jornal, uma duzia de receitas, e esse melanclico
capitulo da Medicina entre os Gregos. Pessima estreia!
No, a vida no lhe parecia prometedora, nesse instante, passeiando na sala
de bilhar com as mos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos conversavam,
e fora uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz ele iria, encolhido ao canto do
seu wagon!... Mas os outros, ali, no estavam mais alegres. Craft e o Marquez
tinham comeado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De
que servia viver, dizia Craft, no se sendo um Livingstone ou um Bismark? E o
Marquez, com um ar filosofico, achava que o mundo se ia tornando estpido.
Depois chegou o Taveira com a historia horrvel de um colega dele, cujo filho
cara pela escada, se despedaara, no momento em que a mulher estava a
morrer de uma pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio.
As palavras arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em
quando, ia despertar as lampadas.
Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando da a instantes Damaso chegou, e
lhe disse que o Castro Gomes estava incomodado, e de cama.
- Naturalmente, acrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j visto
a pequena...
Carlos ao outro dia no saiu de casa, esperando um recado, faiscando
d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para o
Aterro - o primeiro encontro que teve, s Janelas Verdes, foi o Castro Gomes,
de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadelinha no colo.
Ela passou, sem o vr. E logo ali Carlos decidiu findar aquela tortura, pedir
muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro Gomes, antes
dele partir para o Brasil... No podia mais, precisava ouvir a voz dela, vr o
que os seus olhos diziam quando eram interrogados de perto.
Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na
companhia dos Gouvarinhos. Comeou por encontrar o conde, que lhe travou
do brao, arrastou-o  rua de S. Maral, instalou-o numa poltrona, no seu
escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao Jornal do Comercio sobre a
situao dos partidos em Portugal: depois convidou-o a jantar. Na tarde
seguinte eles tinham uma partida de croquet. Carlos foi. E, a uma janela,
aberta sobre o jardim, teve um momento de intimidade com a condessa,
contou-lhe, rindo, como os cabelos dela o tinham encantado, a primeira vez
que a vira. Nessa noite, ela falou de um livro de Tenison, que no lera; Carlos
ofereceu-lh'o, foi-lh'o levar ao outro dia, de manh. Encontrou-a s, toda
vestida de branco: e riam, baixavam j a voz, as duas cadeias estavam mais
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juntas - quando o escudeiro anunciou a sr. D. Maria da Cunha. Era uma coisa
to extraordinaria, a D. Maria da Cunha quela hora! Carlos, de resto, gostava
muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraada, toda bondade, cheia de
simpatia por todos os pecados - e ela mesma muito pecadora quando era a
linda Cunha. D. Maria era muito faladora, parecia ter que dizer em particular 
condessa; e Carlos deixou-as, prometendo voltar uma dessas tardes tomar
ch, e falar de Tenison.
Na tarde em que ele se vestia para l ir, Damaso apareceu-lhe no quarto, a
dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de ferro. O telhudo do
Castro Gomes mudra de idia, j no ia ao Brasil! Ficava ali, no Central, at
ao meiado do vero! De sorte que estava tudo estragado...
Carlos pensou logo em falar da sua apresentao ao Castro Gomes. Mas, como
em Cintra, sem saber porqu, veiu-lhe uma repugnncia de a conhecer por
meio do Damaso. E foi-se vestindo em silncio.
Damaso no entanto maldizia a sua chance:
- E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse ocasio. Mas que diabo
queres tu, assim?...
Queixou-se ento do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida
daquele homem era misteriosa... Que diabo estava ele a fazer em Lisboa? Ali
havia dificuldades de dinheiro... E eles no se davam bem. Na vespera
houvera de certo questo. Quando ele entrara, ela estava com os olhos
vermelhos, e enfiada; e ele, nervoso, a passear pela sala, a retorcer a barba...
Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto de hora...
- Sabes tu? exclamou ele. Tenho minha vontade de os mandar  fava.
Queixou-se tambm dela. Era sobretudo muito desigual. Ora bom modo, ora
regelada; e, s vezes, ele dizia qualquer coisa muito natural, destas cousas de
conversa de sociedade, e ela punha-se a rir. Era de encavacar, hein? Enfim,
gente muito esquisita.
- Onde vs tu? disse ele, com um suspiro de aborrecimento, vendo Carlos pr
o chapu.
Ia tomar ch com a Gouvarinho.
- Pois olha, vou contigo... Estou de uma seca! Carlos hesitou um instante,
terminou por dizer:
- Vem, fazes-me at favor...
A tarde estava lindssima, Carlos ia no dog-cart.
- Ha que tempos que no damos assim um passeio juntos, disse Damaso.
- Tu andas l metido com estrangeiros!...
Damaso deu outro suspiro, e no tornou a dizer mais nada. Depois,  porta
dos Gouvarinhos, quando soube que a sr. condessa recebia, resolveu
subitamente no entrar. No, no entrava. Estava muito estpido, incapaz de
achar uma palavra...
- Ah, e outra coisa que me lembrou agora, exclamou ele, demorando ainda
Carlos diante do porto. O Castro Gomes, ontem, perguntou-me o que te
havia de mandar pela visita  pequena... Eu disse que tu tinhas ido l por
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favor, como meu amigo. E ele disse que te havia de vir deixar um bilhete...
Naturalmente vens a conhece-los.
No era, pois, necessrio que Damaso o apresentasse!
- Aparece  noite, Damasosinho, vai l jantar amanh! exclamou Carlos,
subitamente radiante, dando um ardente aperto de mo ao seu amigo.
Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch. A sala, forrada de
um papel severo, verde e ouro, com retratos de famlia em caixilhos pesados,
abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. Em cima das mesas
havia cestos de flores. No sof, duas senhoras de chapu, ambas de preto,
conversavam, com a chvena na mo. A condessa, ao estender os dedos a
Carlos, ficara to cor de rosa - como a seda acolchoada da cadeira em que
estava recostada, ao p de um velador de pau santo. Notou logo, sorrindo, o
ar radiante de Carlos. Que
lhe tinha acontecido de bom? Carlos sorriu tambm, disse que no era possvel
entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
O conde ainda no aparecera, detido de certo na cmara dos pares, onde se
discutia o projeto sobre a Reforma da Instruo Publica.
Uma das senhoras de preto fazia votos para que se aliviassem os estudos. As
pobres crianas sucumbiam verdadeiramente  quantidade exagerada de
matrias, de cousas a decorar: o dela, o Joosinho, andava to plido e to
desfigurado, que ela s vezes tinha vontade de o deixar ficar ignorante de
todo. A outra senhora pousou a chvena sobre um console ao lado, e
passando sobre os lbios a renda do leno, queixou-se sobretudo dos
examinadores. Era um escndalo as exigncias, as dificuldades que punham,
s para poder deitar RR... Ao pequeno dela tinham feito as perguntas mais
estpidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era o sabo, porque
lavava o sabo?...
A outra senhora e a condessa apertaram as mos contra o peito,
consternadas. E Carlos, muito amvel, concordou que era uma abominao. O
marido dela - continuava a dama de preto - ficara to desesperado que,
encontrando o examinador no Chiado, o ameaou de lhe dar bengaladas. Uma
imprudencia, de certo; mas, enfim, o homem fora malvado!... No havia
verdadeiramente seno uma coisa digna de se estudar, eram as lnguas.
Parecia insensato que se torturasse uma criana com botnica, astronomia,
fsica... Para que? Cousas inteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora,
tinha lies de qumica... Que absurdo! Era o que o pai dizia - para que, se ele
o no queria para boticrio?
Depois de um silncio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e
houve um murmrio de beijos, um frou-frou de sedas.
Carlos ficou s com a sr. condessa, que reocupara a sua cadeira cor de rosa.
Imediatamente ela perguntou pelo Ega.
- Coitado, l est para Celorico.
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Ela protestou, com um lindo riso, contra aquela frase to feia l est para
Celorico No, no queria... Coitado do Ega! Merecia uma melhor orao
fnebre. Celorico era horrvel para um fim de romance...
- De certo, exclamou Carlos, rindo tambm, era mais belo dizer-se: l est
para Jerusalm!
Nesse momento o criado anunciou um nome, e apareceu o amigo Teles da
Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda
batalhando sobre a Reforma da Instruo, levou as mos  cabea como
lamentando um to feio desperdcio de tempo, e no se quis demorar. No,
nem mesmo o excelente ch da sr. condessa o tentava. A verdade era que
estava to abandonado da graa de Deus, perdera de tal modo o sentimento
das cousas belas, que entrara, no para ver a sr. condessa - mas
simplesmente falar ao conde. Ento ela teve um bonito ar de princesa
ofendida, perguntou a Carlos se uma to rude sinceridade de montanhs no
fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E Teles da Gama,
gingando de leve, declarava-se democrata, homem da natureza, com um riso
que lhe mostrava dentes magnficos. Depois, ao sair, dando um shake-hands
ao amigo Maia, quissaber quando o prncipe de Sta. Olavia lhe dava enfim a
honra de vir jantar com ele. A sr. condessa indignou-se. No, era realmente
de mais! Fazer convites, na sua sala, diante dela, - um homem que falava
tanto da sua cozinheira alem, e nem sequer lhe oferecera jamais um prato de
chou-crute!
Teles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a sua
sala de jantar para dar  sr. condessa uma festa, que havia de ficar nos
anaes do reino! Agora com o Maia era diferente: jantavam ambos na cozinha,
com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando sempre, rindo ainda da
porta, mostrando os dentes magnificos.
- Muito alegre, este Gama, no  verdade? disse a condessa.
- Muito alegre, disse Carlos.
Ento a condessa olhou o relgio. Eram cinco e meia, quela hora ela j no
recebia: podiam, enfim, conversar um momento, em boa camaradagem. E, o
que houve, foi um silncio lento, em que os olhos de ambos se encontraram.
Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. No estava bem, com
uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrela. Ah, aquela criana nunca
deixava de lhe dar o cuidado! Ficou calada, com o olhar esquecido no tapete,
movendo languidamente o leque: tinha nessa tarde uma toilete exaggerada,
de um tom de folha de outono amarelada, de uma seda grossa, que ao menor
movimento fazia um ruge-ruge de folhas secas.
- Que lindo tempo tem feito! exclamou ela de repente, como acordando.
- Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e no imagina... Era de uma
beleza de idilio.
E imediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter falado da sua ida a
Cintra, naquela sala.
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Mas a condessa mal o escutara. Tinha-se erguido, falando de algumas canes
que essa manh recebera de Inglaterra, as novidades frescas da season.
Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, perguntou a Carlos se
conhecia aquela melodia - The pale star. No, Carlos no conhecia. Mas todas
essas canes inglesas se parecem, sempre do mesmo tom dolente,
romanesco, e muito mais. E trata-se sempre de um parque melanclico, um
regato lento, um beijo sob os castanheiros...
Ento a condessa leu alto a letra da Pale star. E era a mesma coisa, uma
estrelinha de amor palpitando no crepsculo, um lago plido, um tmido beijo
sob as arvores...
-  sempre o mesmo, disse Carlos, e  sempre delicioso.
Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquilo estpido. Comeou
a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que escurecia.
Para quebrar o silncio, Carlos gabou-lhe as suas lindas flores.
- Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ela logo, deixando as musicas.
Mas, a flr que ela lhe queria dar estava no boudoir, ao lado. Carlos seguiu a
sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de outono
batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito trem do
sculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em barro do
conde, na sua expresso de orador, a fronte erguida, a gravata desmanchada,
o labio fremente...
A condessa escolheu um boto com duas folhas, e ela mesmo lhe veiu florir a
sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que subia do seu
seio arfando com fora. E ela no acabava de prender a flr, com os dedos
tremulos, lentos, que pareciam colar-se, deixar-se adormecer sobre o pano...
- Voila! murmurou emfim, muito baixo. Ali est o meu belo cavaleiro da Rosa
Vermelha... E agora, no me agradea!
Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lbios nos lbios
dela. A seda do vestido roava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os braos; -
e ela pendia para traz a cabea, branca como uma cera, com as palpebras
docemente cerradas. Ele deu um passo, tendo-a assim enlaada, e como
morta; o seu joelho encontrou um sof baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda
de seda enrolada nos ps, Carlos seguiu, tropeando, o largo sof, que rolou,
fugiu ainda, at que esbarrou contra o pedestal onde o sr. conde erguia a
fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, num rumor de saias
amarrotadas.
D'a a um momento estavam ambos de p: Carlos, junto do busto, coando a
barba, com o ar embaraado, e j vagamente arrependido: ela, diante do
trem Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabelo. De
repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ela, bruscamente, voltouse,
correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de pedrarias, agarrou-lhe
o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao cabelo e aos olhos. Depois, sentouse
largamente no sof - e estava falando de Cintra, rindo alto, quando o conde
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entrou, seguido de um velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme leno
de seda da India.
Ao vr Carlos no boudoir, o conde teve uma bela surpresa, esteve-lhe
apertando as mos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda nessa
manh, na cmara, se lembrara dele...
- Ento, por que vieram to tarde? exclamou a condessa, que se apoderara
logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amvel.
- O nosso conde falou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de
entusiasmo.
- Falaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
 verdade, falara; e desprevenido! Quando ouvira porm o Torres Valente
(homem de literatuta, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira
defender a ginastica obrigatoria nos colegios - erguera-se. Mas no imaginasse
o amigo Maia, que ele tinha feito um discurso.
- Ora essa! exclamou o velho, agitando o leno. E um dos melhores que eu
tenho ouvido na cmara! Dos de arromba!
O Conde modestamente protestou. No: tinha simplesmente lanado uma
palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu ilustre
amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idia, os nossos filhos, os herdeiros das
nossas casas, estavam destinados para palhaos!...
- Ah, esta piada, sr. condessa! exclamou o velho. Eu s queria que v. ex.
ouvisse esta piada... E como ele a disse! com um chic!
O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe aquilo. E,
respondendo a outras reflexes do Torres Valente, que no queria nos liceus,
nem nos colegios, um ensino todo impregnado de catecismo, ele lanara-lhe
uma palavra cruel.
- Terrivel, exclamou o velho num tom cavo, preparando o leno para se assoar
outra vez.
- Sim, terrivel... Voltei-me para ele, e disse-lhe isto... Creia o digno par, que
nunca este pas retomar o seu lugar  testa da civilizao, se, nos liceus, nos
colegios, nos estabelecimentos de instruco, ns outros os legisladores
formos, com mo impia, substituir a cruz pelo trapezio...
- Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do leno.
Carlos, erguendo-se, declarou aquilo de uma ironia adorvel.
E o conde, quando ele se despediu, no se contentou com um simples aperto
de mo, passou-lhe o brao pela cinta, chamou-lhe o seu querido Maia. A
condessa sorria, com o olhar ainda mido, um resto de palidez, movendo o
leque languidamente, recostada em duas almofadas do sof - debaixo do
busto do marido que erguia a fronte inspirada.
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X
Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de trovoada, e
no momento em que estavam caindo algumas gotas grossas de chuva, -
Carlos apeava-se de um coup de praa, que viera parar, de vagar,  esquina
da Patriarchal, com os stores verdes misteriosamente corridos. Dous sujeitos
que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se desgeitosamente de
uma portinha suspeita. E com efeito a velha traquitana de rodas amarelas
acabava de ser uma alcova d'amor, perfumada de verbena, durante as duas
horas que Carlos rolara dentro dela, pela estrada de Queluz, com a sr.
condessa de Gouvarinho.
A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a
solido da Patriarchal para se desembaraar do calhambeque d'assento duro,
onde durante a ltima hora sufocra, sem ousar descer as vidraas, com as
pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas amarrotadas e dos beijos
interminaveis que ela lhe dava na barba...
At a, durante essas trs semanas, tinham-se encontrado numa casa da rua
de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fora para o Porto com
a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A boa titi, uma
velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma apostola militante
da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da Propaganda; e todos os meses
fazia assim uma viagem de catechisao  provncia, distribuindo Biblias,
arrancando almas  treva catolica, purificando (como ela dizia) o tremedal
papista... J na escada havia um cheirinho adocicado e triste a devoo e a
virgem velha: e no patamar pendia um largo carto, com um distico em letras
de ouro entrelaadas de lirios roxos, rogando aos que entravam que
preserverassem nas vias do Senhor! Carlos entrou, tropeando logo num
monto de Biblias. O quarto todo era um ninho de Biblias; havia-as s pilhas
por cima dos moveis, transbordando de velhas chapeleiras, misturadas a pares
de galochas, cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo
formato, entaladas numa encadernao negra como numa armadura de
combate, carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de
cartonagens impressas em letras de cr, irradiando versiculos duros da Bblia,
asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaas insolentes do
inferno... E no meio desta religiosidade anglicana,  cabeceira de um leitosinho
de ferro, rgido e virginal, duas garrafas quase vasias de conhaque e de gin.
Carlos bebeu o gin da santa; e o leito rgido ficou revolto como um campo de
batalha.
Depois a condessa comeou a ter medo de uma visinha, uma Borges, que
visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. Uma
ocasio em que, no casto leito de miss Jones, eles fumavam languidamente
cigarrilhas, trs enormes argoladas  porta atroaram a casa. A pobre condessa
quase desmaiou; Carlos, correndo  janela, viu um homem que se afastava,
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com uma estatueta de gesso na mo, outras dentro de um cesto. Mas a
condessa jurava que fora a Borges quem mandra o italiano das imagens
atirar-lhes para dentro aquelas aldrabadas, como trs avisos, trs rebates da
Moral... No quisera voltar mais ao beatifico cut da titi. E nessa tarde, como
no havia ainda outro escondrijo, tinham abrigado os
seus amores dentro daquela tipia de praa.
Mas Carlos vinha de l enervado, amolecido, sentindo j na alma os primeiros
bocejos da saciedade. Havia trs semanas apenas que aqueles braos
perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoo, - e agora, pelo
passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que
batia as folhagens da alameda, ele a pensando como se poderia
desembaraar da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso...  que a
condessa a-se tornando absurda com aquela determinao anciosa e audaz de
invadir toda a sua vida, tomar n'ela o lugar mais largo e mais profundo - como
se o primeiro beijo trocado tivesse unido no s os lbios de ambos um
momento, mas os seus destinos tambm e para sempre. Nessa tarde l
tinham voltado as palavras que ela balbuciava, cada sobre o seu peito, com os
olhos afogados numa ternura suplicante: Se tu quizesses! que felizes que
seriamos! que vida adorvel! ambos ss!... E isto era claro - a condessa
concebera a idia extravagante de fugir com ele, ir viver num sonho eterno de
amor lirico, n'algum canto do mundo, o mais longe possvel da rua de S.
Maral! Se tu quizesses! No, com mil demonios, no queria fugir com a sr.
condessa de Gouvarinho!...
E no era s isto - mas ainda exigncias, egoismos, exploses tumultuosas de
um temperamento cioso: j mais de uma vez, nessas duas curtas semanas,
por pieguices, ela despropositra, falara de morrer, debulhada em lgrimas...
Ah! nas lgrimas havia ainda uma voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o
setim do seu colo! O que o inquietava eram certos clares que lhe sulcavam o
rosto, um dardejar nervoso dos olhos secos, revelando a paixo que se
acendera naqueles nervos de mulher de trinta e trs anos, e a queimava at
s profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um
luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil,
sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ela, por qualquer coisa,
tinha os olhos turvos d'gua, e falava em morrer, e torcia os braos, e queria
fugir com ele - ento adeus! Tudo estava estragado; e a sr. condessa com a
sua verbena, os seus cabelos cor de brasa, e o seu pranto, era apenas um
trambolho!
O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado apareceu entre nuvens. E Carlos
descia a rua de S. Roque - quando encontrou o marqus, saindo de uma
confeitaria, tristonho, com um embrulho na mo, e o pescoo abafado num
enorme cache-nez de seda branca.
- Que  isso? Constipao? perguntou Carlos.
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- Tudo, disse o marqus, pondo-se a caminhar ao lado dele com uma lentido
de moribundo. Deitei-me tarde. Canasso. Opresso no peito. Pigarreira.
Dres no lado. Um horror... Levo j aqui rebuados.
- No seja piegas, homem! Voc o que precisa  roast-beef e uma garrafa de
Borgonha... No  hoje que voc janta l no Ramalhete?... , at tem l o
Craft e o Damaso... Ento descemos por essa rua do Alecrim, que j no
chove, depois pelo Aterro fora, a passo ginastico, e em chegando l voc est
curado.
O pobre marqus encolheu os ombros. Apenas sentia o menor encomodo, uma
dr, um arrepio, considerava-se logo, como ele dizia, liquidado. O mundo
comeava a findar para ele: tomavam-no terrores catolicos, uma preocupao
angustiosa da Eternidade. Nesses dias fechava-se no quarto com o padre
capelo - com quem s vezes, todavia, terminava por jogar as damas.
- Em todo o caso, disse ele, tirando cautelosamente o chapu ao passar pela
porta aberta da egreja dos Martires, deixe-me voc ir primeiro ao Gremio...
Quero escrever  Manoeleta que no conte comigo esta noite...
Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias desse devasso do
Ega. Esse devasso do Ega l estava em Celorico, na quinta materna, ouvindo
arrotar o padre Serafim, e refugiando-se, segundo dizia, na grande arte:
andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia chamar o Lodaal
- escripta para se vingar de Lisboa.
- O peor, murmurou o marqus, depois de um silncio, e abafando-se mais no
cache-nez,  se eu estou assim no domingo para as corridas!
- O qu! exclamou Carlos, ento as corridas so j no domingo?
O marqus foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as corridas se
tinham apressado a pedido do Cliford, o grande sportman de Cordova, que
devia trazer dois cavalos inglses... Era um bocado humilhante depender do
Cliford. Mas enfim o Cliford era um gentleman e com os seus cavalos de raa,
os seus jockeis inglses, constituia a unica feio sria do Hipodromo de
Belem. Sem o Cliford aquilo era uma brincadeira de pilecas e d'abas...
- Voc no conhece o Cliford?... Belo rapaz! Um pouco poseur, mas oiro de lei.
Tinham entrado no ptio do Gremio, o marqus estendeu o brao a Carlos.
- Veja esse pulso!
- O pulso est excelente... V voc dar l esse golpe  Manoela, que eu fico
aqui  espera.
No domingo pois, da a cinco dias, eram as corridas... E ela estaria l, ele ia
conhecel-a, emfim! Durante essas trs ltimas semanas vira-a duas vezes:
uma ocasio, estando a conversar com o Taveira  porta do hotel Central, ela
chegara a uma das varandas, de chapu, calando uma grande luva preta;
d'outra vez, havia dias, por uma tarde de chuva, ela viera parar  porta do
Mouro, ao Chiado, num coup da Companhia, e ficara esperando emquanto o
trintanario levava dentro  loja um embrulho que tinha a frma de um cofre,
apertado com uma fita vermelha.
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D'ambas as vezes ela vira-o, demorara os olhos n'ele um momento: e
parecera a Carlos que o ltimoolhar se prolongara mais, como abandonandose,
humedecendo-se, numa leve doura, ao pousar no seu... Era talvez uma
iluso; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a realisar a antiga idia (ainda
que desagradavel) de ser apresentado pelo Damaso ao Castro Gomes. O pobre
Damaso, ao principio, diante desta exigencia, ficou perturbado; e com um ar
de co que defende o seu osso, lembrou logo a Carlos o deploravel
comportamento do Castro Gomes, que no viera como lh'o anunciara, havia
trs semanas, deixar o seu carto ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava
essas formalidades estreitas entre rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um
homem de gosto e de sport; nem todos os dias aparecia em Lisboa quem
soubesse dar com correco o n da gravata; e sria agradavel, mesmo para
ele Damaso, reunirem-se todos de vez em quando, com o Craft, com o
marqus, a fumar um charuto e a falar de cavalos. Isto decidiu Damaso, que
terminou por propr a Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos
porm no queria entrar pelo hotel dentro, de chapu na mo, atraz do
Damaso. Resolveram ento esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes
tencionavam ir. Ali, no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentao
 mais chic...  mesmo pdre de chic.
- Deus queira com efeito que no chova no domingo, murmurou Carlos quando
o marqus desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
Foram seguindo pelo meio da rua, em direo ao Ferregial. Adiante do Gremio,
encostado ao passeio, estava um coup da Companhia, com um trintanario de
luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, casualmente; e viu,
debruado  portinhola, um rosto de criana, de uma brancura adorvel,
sorrindo-lhe, com um belo sorriso que lhe punha duas covinhas na face.
Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ela no se contentou em sorrr,
com o seu doce olhar azul fugindo todo para ele, - deitou a mosinha de fora,
atirou-lhe um grande adeus. No fundo do coup, forrado de negro, destacava
um perfil claro d'estatua, um tom ondeado de cabelo louro. Carlos tirou
profundamente o chapu, to perturbado, que os seu passos hesitaram. Ela
abaixou a cabea, de leve; alguma coisa de luminoso, um confuso rubor
d'emoo, espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da me e da
filha, ao mesmo tempo, viesse para ele uma suave e quente emanao de
simpatia.
- Caramba, aquilo pertence-lhe? perguntou o marqus, que notara a
impresso de Madame Gomes.
Carlos crou.
- No,  uma senhora brazileira a quem eu curei aquela pequerrucha...
- Irra! que gratido! rosnou o outro de dentro das dobras do seu cachenez.
Caminhando em silncio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idia que lhe viera
de repente, ao receber aquele doce olhar. Por que  que Damaso no levaria
uma manh o Castro Gomes aos Olivaes, a vr as coleces do Craft?... Ele
estaria l, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam bric--brac. Depois,
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muito naturalmente, ele convidava Castro Gomes a almoar no Ramalhete,
para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas colxas da India. E assim,
j antes das corridas existiria entre eles uma camaradagem, talvez um
tratamento de voc.
No Aterro, temendo o ar do rio, o marqus quistomar uma tipia; e, at ao
Ramalhete, continuaram calados. O marqus, outra vez inquieto, apalpava a
garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquela lenta inclinao de
cabea, o olhar dela, o vivo rubor fugitivo... Ela at a no o conhecia talvez.
Mas, depois de atirar o seu grande adeus, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se
para a me, a dizer-lhe decerto que aquele era o medico que a curara, a ela e
 boneca... E ento a linda cor que lhe enternecera o rosto tomava uma
significao mais profunda - era como a surpresa feliz, o enleio casto, ao saber
que o homem que ela notra j de algum modo tinha penetrado na sua
intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado  beira do seu leito...
Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, mais
brilhante. Porque no iria ela tambm vr as curiosidades do Craft? Que tarde
encantadora, que festa, que lindo idilio! O Craft arranjava um lunch delicado
no seu velho servio de Wedgewood. Ele ficava  mesa junto dela. Depois iam
vr o jardim j em flr; ou tomavam ch no pavilho japonez, forrado de
esteiras. Mas, o que mais lhe apetecia era percorrer com ela as duas salas de
Craft, parando ambos diante de uma bela faiena ou de um movel raro, e
sentindo, atravez da concordncia dos seus gostos, subir, como um perfume,
a simpatia dos seus coraes... Nunca a vira to formosa como nessa tarde,
dentro do coup forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura
do seu perfil. Sobre o regao do vestido negro pousava o tom claro das suas
luvas; e no chapufrisava-se a ponta de uma pena cor de neve.
A tipia parara ao porto do Ramalhete, estavam agora entre as silenciosas
tapessarias da ante-cmara.
- Como  que ela conhece os Cruges? perguntou de repente o marqus, com
um tom desconfiado, desembaraando-se do cache-nez.
Carlos olhou para ele, como mal acordado.
- Ela quem? Aquela senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem
voc razo!... Aquela era a casa do Cruges! a carruagem estava parada 
porta do Cruges!... Talvez algum que mre noutro andar.
- No mra ningum, disse o marqus, dando um passo para o corredor. Em
todo o caso,  um mulhero.
Carlos achou a palavra odiosa.
Do corredor ouvia-se j no escritrio de Afonso, atravez da porta aberta, a voz
petulante do Damaso falando alto d'handicap e de dead-beat... E foram-no
encontrar discursando sobre as corridas, com convico, com auctoridade,
como membro do Jockei-Club. Afonso, na sua velha poltrona, escutava-o,
cortez e risonho, com o reverendo Bonifcio no colo. Ao canto do sof, Craft
folheava um livro.
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E o Damaso apelou logo para o marqus. No era verdade, como ele estivera
dizendo ao sr. Afonso da Maia, que iam ser as melhores corridas que se
tinham feito em Lisboa? S para o grande premio nacional de seiscentos mil
ris havia oito cavalos inscriptos! E, alm disso, o Cliford trazia a Mist.
- Ah,  verdade, oh marqus,  necessrio que voc aparea sexta-feira 
noite no Jockei-Club, para acabarmos o handicap!
O marqus arrastara uma cadeira para o p de Afonso, para lhe fazer a
confidencia dos seus achaques; mas como Damazo se metia entre eles,
falando ainda da Mist, decidindo que a Mist era chic, querendo apostar cinco
libras pela Mist contra o campo - o marqus terminou por se voltar,
enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar ares patuscos...
Apostar pela Mist! Todo o patriota devia apostar pelos cavalos do visconde de
Darque, que era o nico criador portugus!...
- Pois no  verdade, sr. Afonso da Maia?
O velho sorrio, amaciando o seu gato.
- O verdadeiro patriotismo talvez, disse ele, sria, em lugar de corridas, fazer
uma boa tourada.
Damazo levou as mos  cabea. Uma tourada! Ento o sr. Afonso da Maia
preferia touros a corridas de cavalos? O sr. Afonso da Maia, um ingls!...
- Um simples beiro, sr. Salcede, um simples beiro, e que faz gosto n'isso; se
habitei a Inglaterra  que o meu rei, que era ento, me ps fora do meu
pas... Pois  verdade, tenho esse fraco portugus, prefiro touros. Cada raa
possue o seu sport prprio, e o nosso  o toiro: o toiro com muito sol, ar de
dia santo, gua fresca, e foguetes... Mas sabe o sr. Salcede qual  a vantagem
da toirada?  ser uma grande escola de fora, de coragem e de destreza... Em
Portugal no ha instituio que tenha uma importncia egual  tourada de
curiosos. E acredite uma coisa:  que se nesta triste gerao moderna ainda
ha em Lisboa uns rapazes com certo musculo, a espinha direita, e capazes de
dar um bom soco, deve-se isso ao touro e  tourada de curiosos...
O marqus entusiasmado bateu as palmas. Aquilo  que era falar! Aquilo  que
era dar a filosofia do toiro! Est claro que a tourada era uma grande educao
fisica! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estpidos,
acabaes ento com a coragem portuguesa!...
- Ns no temos os jogos de destresa das outras naes, exclamava ele,
bracejando pela sala e esquecido dos seus males. No temos o cricket, nem o
footbal, nem o runing, como os inglses; no temos a ginastica como ela se
faz em Frana; no temos o servio militar obrigatorio que  o que torna o
alemo solido... No temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra.
Temos s a tourada... Tirem a tourada, e no ficam seno badamecos
derreados da espinha, a melarem-se pelo Chiado! Pois voc no acha, Craft?
Craft, do canto do sof, onde Carlos se fora sentar e lhe falava baixo,
respondeu, convencido:
- O que, o touro? Est claro! o touro devia ser neste pas como o ensino  l
fora: gratuito e obrigatorio.
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Damazo no entanto jurava a Afonso compenetradamente que gostava tambm
muito de touros. Ah, l nessas cousas de patriotismo ningum lhe levava a
palma... Mas as corridas tinham outro chic! Aqueles Bois de Boulogne, num dia
de Grand-Prix, hein!... Era de embatucar!
- Sabes o que  pena? exclamou ele voltando-se de repente para Carlos.  que
tu no tenhas um four-in-hand, um mail coach. Iamos todos d'aqui, caa tudo
de chic!
Carlos pensou tambm comsigo que era uma pena no ter um four-in-hand.
Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockei Club da travessa da
Conceio irem todos dentro de um onibus.
Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braos, descoroado:
- Ali est, sr. Afonso da Maia! Ali est por que em Portugal nunca se faz nada
em termos!  por que ningum quer concorrer para que as cousas saiam
bem... Assim no  possvel! Eu c entendo isto: que num pas, cada pessoa
deve contribuir, quanto possa, para a civilizao.
- Muito bem, sr. Salcede! disse Afonso da Maia. Eis a uma nobre, uma grande
palavra!
- Pois no  verdade? gritou Damazo, triunfante, a estoirar de goso. Assim eu,
por exemplo...
- Tu, o qu? exclamaram dos lados. Que fizeste tu pela civilizao?...
- Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou de vu
azul no chapu!
Um escudeiro entrou com uma carta para Afonso, numa salva. O velho,
sorrindo ainda das idias de Damaso sobre a civilizao, puxou a luneta, leu as
primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se logo, tendo
depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado Bonifcio.
- Isto  que  ter gosto, isto  que  comprehender as cousas! exclamava o
Damaso, agitando os braos para Carlos, quando o velho desapareceu
atravez do reposteiro de damasco. Este teu av, menino,  podre de chic!...
- Deixa l o chic do av... Anda c, que te quero dizer uma coisa.
Abriu uma das janelas do terrao, levou para l o Damaso, e disse-lhe a, 
pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que poderiam passar
na quinta com os Castro Gomes... Ele j falara ao Craft, que estava de acordo,
achava delicioso, ia encher tudo de flores. E agora s restava que Damaso
amigo, como amabilidade sua, convidasse os Castro Gomes...
- Caramba! murmurou Damaso desconfiado, ests com furor de a conhecer!
Mas enfim concordou que era chic a valer! E via a uma bela ocasio para
ele!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as curiosidades ao
Castro Gomes e lhe falassem de cavalos, ele, zs, ia para a quinta passear
com ela... A calhar!
- Pois vou amanh j falar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. Ela
pela-se por bric-a-brac!
- E vens dizer-me se aceitaram ou no...
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- Venho dizer-te... Tu vs gostar dela; tem lido muito, entende tambm de
literatura; e olha que s vezes a conversar atrapalha...
O marqus veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a porta
envidraada, outra vez preocupado com a garganta. E desejava antes de
jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com gua e sal...
- E  isto um portugus forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente do
brao.
- Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marqus, desprendendo-se dele e
olhando-o com ferocidade. E voc -o no sentimento. E o Craft -o na
respeitabilidade. E o Damasosinho -o na tolice. Em Portugal  tudo Pieguice e
Companhia!
Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na antecmara,
deram com Afonso falando a uma mulher, carregada de luto, que lhe
beijava a mo, meia de joelhos, sufocada de lgrimas: e ao lado outra mulher,
com os olhos turvos d'gua tambm, embalava dentro do chaile uma
criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara embaraado; o marqus
instinctivamente levou a mo  algibeira. Mas o velho, assim surprehendido na
sua caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para a escada: elas
desciam, encolhidas, abenoando-o, num murmrio de soluos; e ele
voltando-se para Carlos, quase se desculpou numa voz que ainda tremia:
- Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que  peior  que
por mais que se d nunca se d bastante. Mundo muito mal feito, marqus.
- Mundo muito mal feito, sr. Afonso da Maia, respondeu o marqus comovido.
No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu faeton de oito molas,
levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se instalara no
Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em que para o lado
do Hipodromo estavam j estalando foguetes. Um dos criados desceu a
comprar o bilhete de pesagem para o Craft, numa tosca guarita de madeira,
armada ali de vespera, onde se mexia um homemsinho de grandes barbas
grisalhas. Era um dia j quente, azul ferrete, com um desses rutilantes soes
de festa que enflamam as pedras da rua, doiram a poeirada baa do ar, poem
fulgores d'espelho pelas vidraas, do a toda a cidade essa branca faiscao
de cal, de um vivo monotono e implacavel, que na lentido das horas de vero
cana a alma, e vagamente entristece. No largo dos Jeronimos silencioso, e a
escaldar na luz, um onibus esperava, desatrelado, junto ao portal da Egreja.
Um trabalhador com o filho ao colo, e a mulher ao lado no seu chaile de
ramagens, andava ali, pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar
ociosamente o seu domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente
programas das corridas que ningum comprava. A mulher da gua fresca, sem
freguezes, sentara-se com a sua bilha  sombra, a catar um pequeno. Quatro
pesados municipais a cavalo patrulhavam a passo aquela solido. E a
distancia, sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
No entanto o trintanario continuava debruado na guarita, sem poder arranjar
l dentro o troco de uma libra. Foi necessrio Craft saltar da almofada, ir l
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parlamentar - emquanto Carlos, impaciente, raspando com o chicote as ancas
das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no largo uma volta
brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim governando, irritadamente,
sem descerrar os lbios.  que toda aquela semana, desde a tarde em que
combinara com o Damaso a visita aos Olivaes, fora desconsoladora. O Damaso
tinha desaparecido, sem mandar a resposta dos Castro Gomes. Ele, por
orgulho, no procurara o Damaso. Os dias tinham passado, vazios; no se
realisara o alegre idilio dos Olivaes; ainda no conhecia Madame Gomes; no a
tornara a ver; no a esperava nas corridas. E aquele domingo de festa, o
grande sol, a gente pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa,
enchiam-no de melancolia e de malestar.
Uma caleche de praa passou, com dous sujeitos de flores ao peito, acabando
de calar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem gordo, de
lunetas pretas, quase foi esbarrar contra o Arco. Enfim, Craft voltou com o seu
bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas profeticas.
Para alm do arco, a poeira sufocava. Pelas janelas havia senhoras
debruadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipais, a cavalo,
atravancavam a rua.
 entrada para o hipodromo, abertura escalavrada num muro de quintarola, o
faeton teve de parar atrz do dog-cart do homem gordo - que no podia
tambm avanar porque a porta estava tomada pela caleche de praa, onde
um dos sujeitos de flor ao peito berrava furiosamente com um policia. Queria
que se fosse chamar o sr. Savedra! O sr. Savedra, que era do Jockei Club,
tinha-lhe dito que ele podia entrar sem pagar a carruagem! Ainda lho dissra
na vespera, na botica do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra!
O policia bracejava, enfiado. E o cavaleiro, tirando as luvas, ia abrir a
portinhola, esmurrar o homem - quando, trotando na grande horsa, um
municipal de punho alado correu, gritou, injuriou o cavaleiro gordo, fez rodar
para ra a caleche. Outro municipal entrometeu-se, brutalmente. Duas
senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um portal, espavoridas. E
atravez do rebolio, da poeira, sentia-se adiante, melancolicamente, um
realejo tocando a Traviata.
O faeton entrou - atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de fria,
voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do municipal.
- Tudo isto est arranjado com decencia, murmurou Craft.
Diante deles, o hipodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo,
depois da poeirada quente da calada e das cruas reverberaes da cal, mais
fresco, mais vasto, com a sua relva j um pouco crestada pelo sol de junho, e
uma ou outra papoula vermelhejando aqui e alm. Uma aragem larga e
repousante chegava vagarosamente do rio.
No centro, como perdido no largo espao verde, negrejava, no brilho do sol,
um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, donde
sobre saam tons claros de sombrinhas, o faiscar de um vidro de lanterna, ou
um casaco branco de cocheiro. Para alm, dos dois lados da tribuna real
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forrada de um baeto vermelho de mesa de Repartio, erguiam-se as duas
tribunas publicas, com o feitio de traves mal pregadas, como palanques
d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar, mostrava  luz as fendas do
taboado. Na da direita, bezuntada por fora d'azul claro, havia uma fila de
senhoras quase todas de escuro encostadas ao rebordo, outras espalhadas
pelos primeiros degraus; e o resto das bancadas permanecia deserto e
desconsolado, de um tom alvadio de madeira, que abafava as cres alegres
dos raros vestidos de vero. Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois
mastros o azul das bandeirolas. Um grande silncio caa do ceu faiscante.
Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia
mais soldados de infanteria, com as baionetas lampejando ao sol. E no homem
triste que estava  entrada, recebendo os bilhetes, metido dentro de um
enorme colete branco, reteso de goma, e que lhe chegava at aos joelhos -
Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.
Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira  porta do bufete
onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos
amarelos ao peito, polainas brancas, - e queria animar as corridas. J vira a
Mist, a egoa de Cliford, e decidira apostar pela Mist. Que cabea d'animal,
meninos, que finura de pernas!...
- Palavra que me entusiasmou! E est decidido, um dia no so dias, 
necessrio animar isto! Aposto trez mil ris. Quer voc Craft?
- Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vr o aspecto geral.
No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia s homens, a gente do
Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte  vontade, com
jaquetes claros, e de chapucco; outros mais em estilo, de sobrecasaca e
binoculo a tiracolo, pareciam embaraados e quase arrependidos do seu chic.
Falava-se baixo, com passos lentos pela relva, entre leves fumaraas de
cigarro. Aqui e alm um cavalheiro, parado, de mos atraz das costas,
pasmava languidamente para as senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros
queixavam-se do preo dos bilhetes, achando aquilo uma semsaboria de
rachar.
Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por soldados: e
junto  corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, com as
carruagens pelo meio, sem um rumor, numa pasmaceira tristonha, sob o peso
do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava gua fresca.
L ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, to azul como o ceu, numa
pulverisao fina de luz.
O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que comea a
engordar, veio apertar a mo a Carlos e a Craft. E mal eles lhe falaram dos
seus cavalos (Rabbino, o favorito, e o outro potro) encolheu os ombros, cerrou
os olhos, como um homem que se sacrifica. Ento, que diabo, os rapazes
tinham querido!... Mas ele, realmente, no podia apresentar um cavalo
decente, com as suas cres, seno da a quatro anos. De resto no apurava
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cavalos para aquela melancolia de Belem, no imaginassem os amigos que ele
era to patriota: o seu fim era ir a Espanha, bater os cavalos de Caldilo...
- Enfim, vamos a vr... D voc c lume. Isto est um horror. E depois, que
diabo, para corridas  necessrio cocotes e Champagne. Com esta gente sria,
e gua fresca, no vai!
Nesse momento um dos comissarios das corridas, um rapago sem barba,
vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapubranco deitado
para a nuca, veio arrebatar o Darque, que era muito preciso, l na pesagem,
para uma duvidasinha.
- Eu sou o dicionario, dizia o Darque, tornando a encolher os ombros
resignadamente. De vez em quando vem um destes senhores do Jockei-Club,
e folheia-me... Veja voc, Maia, em que estado eu fico depois das corridas!
Ha-de ser necessrio encadernar-me de novo...
E l foi, rindo da sua pilheria - empurrado para diante pelo comissario, que lhe
dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava catita.
- Vamos ns vr as mulheres, disse Carlos.
Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruadas no rebordo, numa fila
muda, olhando vagamente, como de uma janela em dia de procisso, estavam
ali todas as senhoras que vem no high-life dos jornais, as dos camarotes de
S. Carlos, as das teras-feiras dos Gouvarinhos. A maior parte tinha vestidos
srios de missa. Aqui e alm um desses grandes chapos emplumados 
Gainsborough, que ento se comeavam a usar, carregava de uma sombra
maior o tom trigueiro de uma carinha miuda. E na luz franca da tarde, no
grande ar da colina descoberta, as peles apareciam murchas, gastas, moles,
com um bao de p de arroz.
Carlos cumprimentou as duas irms do Taveira, magrinhas, loirinhas, ambas
correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa d'Alvim, com o
corpete negro reluzente de vidrilhos, tendo ao lado a sua terna inseparavel, a
Joaninha Vilar, cada vez mais cheia, com um quebranto cada vez mais doce
nos olhos pestanudos. Adiante eram as Pedrosos, as banqueiras, de cres
claras, interessando-se pelas corridas, uma de programa na mo, a outra de
p e de binoculo estudando a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a
condessa de Soutal, desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. Numa
bancada isolada, em silncio, Vilaa com duas damas de preto.
A condessa de Gouvarinho ainda no viera. E no estava tambm aquela que
os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperana.
-  um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um dito do
Ega.
Carlos, no entanto, fora falar  sua velha amiga D. Maria da Cunha que, havia
momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de ba
mam. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanelado da tribuna,
e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ela disse, no aturara
a sca de estar l em cima perfilada,  espera da passagem do Senhor dos
Passos. E, bela ainda sob os seus cabelos j grisalhos, s ela parecia divertirwww.
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se ali, muito  vontade, com os ps pousados na travessa de uma cadeira, o
binoculo no regao, cumprimentada a cada instante, tratando os rapazes por
meninos... Tinha comsigo uma parenta que apresentou a Carlos, uma senhora
hespanhola, que sria bonita se no fossem as olheiras negras, cavadas at ao
meio da face. Apenas Carlos se sentou ao p dela, D. Maria perguntou-lhe logo
por esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em
Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o
Lodaal...
- Entra o Cohen? perguntou ela, rindo.
- Entramos todos, sr. D. Maria. Todos ns somos lodaal...
Nesse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan molengo
de tambores e pratos, o hino da Carta, a que se misturou uma voz de oficial e
o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, El-rei apareceu na
tribuna, sorrindo, de quinzena de veludo, e chapubranco. Aqui e alm, raros
sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a senhora hespanhola, essa, tomou
o oculo do regao de D. Maria, e de p, muito descanadamente, poz-se a
examinar o rei. D. Maria achava ridicula a musica, dando s corridas um ar de
arraial... Alm disso, que tolice, o hino, como num dia de parada!
- E este hino, ento, que  medonho, dizia Carlos. A sr. D. Maria no sabe a
definio do Ega, e a sua teoria dos hinos? Maravilhosa!
- Aquele Ega! dizia ela sorrindo, j encantada.
- O Ega diz que o hino  a definio pela musica do caracter de um povo. Tal 
o compasso do hino nacional, diz ele, tal  o movimento moral da nao.
Agora veja a sr. D. Maria os diferentes hinos, segundo o Ega. A Marselheza
avana com uma espada na. O God save te queen adianta-se, arrastando um
manto real...
- E o hino da Carta?
- O hino da Carta ginga, de rabona.
E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe
tranquilamente o binoculo no regao, murmurou:
- Tiene cara de buena persona.
- Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excelente!
No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador subiram
os numeros dos dois cavalos que corriam o primeiro premio dos Productos.
Eram o n.1 e o n. 4. D. Maria Teles quiz-lhe saber os nomes, com o apetite
de apostar e ganhar cinco tostes a Carlos. E como Carlos se erguia para
arranjar um programa:
- Deixe estar o menino, disse ela, tocando-lhe no brao. Ali vem o nosso
Alencar, com o programa... Olhe para aquilo! Veja se ainda hoje os ha por a
com aquele ar de sentimento e de poesia...
Com um fato novo de cheviote claro que o remoava, de luvas gris-perle, o
seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o
programa, e j de longe sorrindo  sua boa amiga D. Maria. Quando chegou
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junto dela, descoberto, bem penteado nesse dia, com um lustre d'oleo na
grenha, levou-lhe a mo aos lbios, fidalgamente.
D. Maria fora uma das suas lindas contemporaneas. Tinham danado muita
ardente mazurka nos sales de Arroios. Ela tratava-o por tu. Ele dizia sempre
boa amiga, e querida Maria.
- Deixa vr os nomes desses cavalos, Alencar... Senta-t'a, anda, faze
companhia.
Ele puchou uma cadeira, rindo do interesse que ela tomava pelas corridas. E
ele que a conhecera sempre uma entusiasta de toiros!... Pois os nomes dos
cavalos eram Jupiter e Escossez...
- Nenhum desses nomes me agrada, no aposto. E ento que te parece tudo
isto, Alencar?... A nossa Lisboa vai-se saindo da concha...
Alencar, pousando o chapusobre uma cadeira, e passando a mo pela sua
vasta fronte de bardo, confessou que aquilo tinha realmente um certo ar de
elegancia, um perfume de corte... Depois, l em baixo, aquele maravilhoso
Tejo... Sem falar na importncia do apuramento das raas cavalares...
- Pois no  verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente disso, que
s um mestre em todos os sports, sabes bem que o apuramento...
- Sim, com efeito, o apuramento, muito importante... - disse Carlos,
vagamente, erguendo-se a olhar outra vez a tribuna.
Eram quase trs horas, e agora, de certo, ela j no vinha: e a condessa de
Gouvarinho no aparecia tambm... Comeava a invadil-o uma grande
lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabea, ao sorriso doce
que lhe dava da tribuna a Joaninha Vilar, pensava em voltar para o
Ramalhete, acabar tranquilamente a tarde dentro do seu robe-de-chambre,
com um livro, longe de todo aquele tdio.
No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S Videira, filha do rico
negociante de sapatos d'ourelo, passou pelo brao do irmo, abonecada, com
o arsinho petulante e enojado de tudo, falando alto ingls. Depois foi a
ministra da Baviera, a baronesa de Craben, enorme, empavoada, com uma
face macissa de matrona romana, a pele cheia de manchas cor de tomate, a
estalar dentro de um vestido de gorgoro azul com riscas brancas: e atraz o
baro, pequenino, amvel, aos pulinhos, com um grande chapude palha.
D. Maria da Cunha erguera-se para lhes falar: e durante um momento ouviuse,
como um glou-glou grosso de per, a voz da baronesa achando que c'tait
charmant, c'tait trs beau. O baro, aos pulinhos, aos risinhos, trouvait a
ravissant. E o Alencar, diante daqueles estrangeiros que o no tinham
saudado, apurava a sua atitude de grande homem nacional, retorcendo a
ponta dos bigodes, alando mais a fronte na.
Quando eles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a sentar, o
poeta, indignado, declarou que abominava alemes! O ar de sobranceria com
que aquela ministra, com feitio de barrica, deixando sair o cebo por todas as
costuras do vestido, o olhra, a ele! Ora, a insolente baleia!
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D. Maria sorria, olhando com simpatia o poeta. E voltando-se de repente para
a senhora hespanhola:
- Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta
lirico...
Nesse momento, alguns dos rapazes mais amadores, dos que traziam
binoculos a tiracolo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois cavalos
passavam num galope sereno, quase juntos, sob as vergastadas estonteadas
de dois jockeis de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse que tinha
ganhado Escossez. Outros afirmavam que fora Jupiter. E no silncio que se
fez, de lassido e de desapontamento, ondeou mais viva no ar, lanada pelos
flautins da banda, a valsa de madame Angot. Alguns sujeitos tinham-se
conservado de costas para a pista, fumando, olhando a tribuna - onde as
senhoras continuavam debruadas no parapeito,  espera do Senhor dos
Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu as impresses, dizendo que
tudo aquilo era uma intrujice.
E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito animado
com a hespanhola, falava de Sevilha, de malagueas e do corao
d'Espronceda.
O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita aos
Olivaes - e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquela melancolia
que o enevoava, estranha e pueril, misturada de irritabilidade, fazendo-lhe
detestar as vozes que lhe falavam, os rantatans da musica, at a beleza calma
da tarde... Mas ao dobrar a esquina da tribuna, topou com Craft, que o
deteve, o apresentou a um rapaz loiro e forte com quem estava falando
alegremente. Era o famoso Cliford, o grande sportman de Cordova. Em redor
sujeitos tinham parado, embasbacados para aquele ingls legendario em
Lisboa, dono de cavalos de corridas, amigo do Rei d'Espanha, homem de todos
os chics. Ele, muito  vontade, um pouco poseur, com um simples veston de
flanela azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham
estado no colgio de Rugbi. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos,
amavelmente. No se tinham encontrado havia quase um ano, em Madrid,
num jantar, em casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mo que
repetiram foi mais intimo - e Craft quisque fossem regar aquela flor d'amizade
com uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.
O bufete estava instalado debaixo da tribuna, sob o taboado n, sem sobrado,
sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de taberna com
garrafas e pratos de bolos. E, no balco tosco, dois criados, estonteados e
sujos, achatavam  pressa as fatias de sandwiches com as mos humidas da
espuma da cerveja.
Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto de um dos barrotes
que especavam os degraus da tribuna, num grupo animado, com copos de
champagne na mo, o marqus, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz
plido de barba preta, que tinha debaixo do brao enrolada a bandeira
vermelha de Starter, e o comissario imberbe, com o chapubranco cada vez
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mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o colarinho j mole de suor.
Era ele que oferecia o champagne; e apenas viu entrar Cliford, rompeu para
ele, de taa no ar, fez tremer as vigas, soltando o seu vozeiro:
-  sade do amigo Cliford! o primeiro sportman da pennsula, e rapaz c dos
nossos!... Hip hip, hurrah!
Os copos ergueram-se, num clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e
entusiasta, a voz do starter. Cliford agradecia, risonho, tirando lentamente as
luvas - em quanto o marqus, puxando Carlos pelo brao para o lado, lhe
apresentava rapidamente o comissario, seu primo D. Pedro Vargas.
- Muito gosto em conhecer...
- Qual historias! Eu  que fazia furor! exclamou o comissario. C a rapaziada
do sport deve-se conhecer toda... Porque isto c  a confraria, e todo o resto 
chinfrinada!
E imediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe trazia
mais sangue  face:
-  sade de Carlos da Maia, o primeiro elegante c da patria! a melhor mo
de redea... Hip, hip, hurrah...
- Hip, hip, hip... Hurrah!
E foi ainda a voz do starter que deu o hurrah mais vibrante e mais entusiasta.
Um empregado assomou  porta do bufete, e chamou o sr. comissario. O
Vargas atirou uma libra para o balco, abalou, gritando j de fora, com o olho
aceso:
- Isto vai-se animando, rapazes! Caramba!  carregar no liquido! E voc, oh l
de baixo, o patro, s Manuel, mande vir esse gelo... Est a gente aqui a
tomar a bebida quente... Despache um prprio, v voc, rebente! Irra!
No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha
convidado Cliford a jantar nessa noite no Ramalhete. O outro aceitou,
molhando os lbios no copo, achando excelente que se continuasse a tradio
de jantarem juntos, sempre que se encontravam.
- Ol! o general por aqui! exclamou Craft.
Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimento,
entalado numa sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapu
branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do brao.
Aceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr.
Cliford...
- E que me diz voc a esta semsaboria? exclamou ele logo, voltando-se para
Carlos.
Em quanto a si estava contente, pulava... Aquela corrida insipida, sem
cavalos, sem jockeis, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, dava-lhe
a certeza que eram talvez as ltimas, e que o Jockei-Club rebentava... E ainda
bem! Via-se a gente livre de um divertimento que no estava nos habitos do
pas. Corridas era para se apostar. Tinha-se apostado? No, ento historias!...
Em Inglaterra e em Frana, sim! Ali eram um jogo como a roleta, ou como o
monte... At havia banqueiros, que eram os bookmakers... Ento j viam!
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E como o marqus, pousando o copo, e querendo calmar o general, falava do
apuramento das raas, e da remonta, - o outro ergueu os ombros, com
indignao:
- Que me est voc a cantar! Quer voc dizer que se apura a raa para a
remonta da cavalaria?... Ora v l montar o exercito com cavalos de
corridas!... Em servio o que se quer no  o cavalo que corra mais,  o cavalo
que aguente mais... O resto  uma historia... Cavalos de corridas so
fenomenos! So como o boi com duas cabeas... Ento historias!... Em Frana
at lhe do Champagne, homem!... Ento veja l!...
E a cada frase, sacudia os ombros, furiosamente. Depois, de um trago,
esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em
conhecer o sr. Cliford, rodou sobre os taces, saiu, bufando, entalando mais
debaixo do brao o chicote - que tremia na ponta como avido de vergastar
algum.
Craft sorria, batia no hombro de Cliford.
- Veja voc! c ns, velhos portuguess, no gostamos de novidades, e de
sports... Somos pelo toiro...
- Com razo, dizia o outro, srio e aprumando-se sobre o colarinho. Ainda ha
dias me contava na Granja, o Rei de Espanha...
De repente, fora, houve um rebolio, e vozes sobresaltadas gritando ordem!
Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para dentro do
bufete, enfiada. Um policia passou, correndo.
Era uma desordem!
Carlos e os outros, saindo  pressa, viram ao p da tribuna real um magote de
homens - onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os rapazes corriam
com curiosidade, j excitados, apinhando-se, alando-se em bicos de ps; do
recinto das carruagens acudiam outros, saltando as cordas da pista, apesar
dos repeles dos policias: - e agora era uma massa tumultuosa de chapos
altos, de fatos claros, empurrando-se contra as escadas da tribuna real, onde
um ajudante d'el-rei, reluzente de agulhetas e em cabelo, olhava
tranquilamente.
E Carlos, furando, poude enfim avistar no meio do monto um dos sujeitos
que correra no premio dos Productos, o que montava Jupiter, ainda de botas,
com um palet alvadio por cima da jaqueta de jockei, furioso, perdido,
injuriando o juiz das corridas, o Mendona, que arregalava os olhos, aturdido e
sem uma palavra. Os amigos do jockei puxavam-no, queriam que ele fizesse
um protesto. Mas ele batia o p, tremulo, lvido, gritando que no se
importava nada com protestos! Perdera a corrida por uma pouca vergonha! O
protesto ali era um arrocho! Porque o que havia naquele hipodromo era
compadrice e ladroeira!
Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
- Fora! Fora!
Alguns tomavam o partido do jockei; j aos lados outras questes surgiam,
desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o Mendona decidira
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pelo Pinheiro, que montava Escossez, por ser intimo dele; outro cavalheiro, de
binoculo a tiracolo, achava aquela insinuao infame; e os dois, frente a
frente, com os punhos fechados, tratavam-se furiosamente de pulhas.
E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes colarinhos de pintinhas,
procurava romper, erguia os braos, exclamava, numa voz suplicante e rouca:
- Por quem so, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... Eu
tenho experiencia!
De repente o vozeiro do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. Diante
do jockei, sem chapu, com a face a estoirar de sangue, gritava-lhe que era
indigno de estar ali, entre gente decente! Quando um gentleman duvida do
juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer que ha ladres, era s de um
canalha e de um fadista, como ele, que nunca devia ter pertencido ao Jockei-
Club! - O outro, agarrado pelos amigos, esticando o pescoo magro como para
lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. Ento o Vargas, com um encontro para
os lados, abriu espao, repuxou
as mangas, berrou:
- Repita l isso! repita l isso!
E imediatamente aquela massa de gente oscilou, embateu contra o taboado da
tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de ordem e morra, chapos
pelo ar, baques surdos de murros.
Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; senhoras,
com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando
espavoridamente as carruagens; - e um sopro grosseiro de desordem reles
passava sobre o hipodromo, desmanchando a linha postia de civilizao e a
atitude forada de decoro...
Carlos achou-se ao p do marqus, que exclamava, plido:
- Isto  incrivel, isto  incrivel!...
Carlos, pelo contrario, achava pitoresco.
- Qual pitoresco, homem!  uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao oficial
de guarda, um moo pequenino mas decidido, que, em bicos de ps,
aconselhava para os lados, numa voz de orador, cavalheirismo e
prudencia... O jockei de palet alvadio afastou-se, apoiado ao brao de um
amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o comissario desceu para a
pista, com um cortejo atraz, triunfante, sem colarinho, arranjando o
chapuachatado numa pasta. A musica tocava a marcha do Profeta; em
quanto o desgraado juiz das corridas, o Mendona, encostado  tribuna real,
com os braos cahidos, aparvalhado, balbuciava num resto d'assombro:
- Isto s a mim! Isto s a mim!
O marqus, num grupo a que se juntra o Cliford, Craft, e Taveira, continuava
a vociferar:
- Ento, esto convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto  um pas
que s suporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras coisas
civilisadas l de fora, necessitam primeiro gente educada. No fundo todos ns
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somos fadistas! Do que gostamos  de vinhaa, e viola, e bordoada, e viva l
seu compadre! Ali est o que !
Ao lado dele Cliford, que no meio daquele desmancho todo esticava mais
correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, assegurando,
com um ar de consolao, que conflictos eguaes sucedem em toda a parte...
Mas no fundo parecia achar tudo aquilo ignobil. Dizia-se mesmo que ele ia
retirar a Mist. E alguns davam-lhe razo. Que diabo! Era aviltante para um
belo animal de raa correr num hipodromo sem ordem e sem decencia, onde a
todo o momento podiam reluzir navalhas.
- Ouve c, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos,
chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
- Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a
Josefina do Salazar... Anda extraordinrio, de sobrecasaca branca, e de vu no
chapu!
Mas, quando da a pouco, Carlos quisatravessar, a pista estava fechada. Ia-se
correr o Grande premio nacional. Os numeros j tinham subido ao indicador,
um tom de sineta morria no ar. Um cavalo do Darque, o Rabbino, com o seu
jockei de encarnado e branco, descia, trazido  redea por um groom e
acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos paravam a examinar-lhe as
pernas, com o olho srio, afectando entender. Carlos demorou-se um
momento tambm, admirando-o: era de um bonito castanho escuro, nervoso
e ligeiro, mas com o peito estreito.
Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo de
chegar, e conversava de p com D. Maria da Cunha. Estava com uma toilete
inglesa, justa e simples, toda de cazimira branca, de um branco de creme,
onde as grandes luvas negras  mosqueteira punham um contraste audaz: e o
chapupreto tambm desaparecia sob as pregas finas de um vu branco,
enrolado em volta da cabea, cobrindo-lhe metade do rosto, com um ar
oriental que no a bem ao seu narizinho curto, ao seu cabelo cor de brasa.
Mas em redor os homens olhavam para ela como para um quadro.
Ao avistar Carlos, a condessa no conteve um sorriso, um brilho de olhos que
a iluminou. Instinctivamente deu um passo para ele: e ficaram um instante
isolados, falando baixo, em quanto D. Maria os observava, sorrindo, cheia j
de benevolencia, prompta j a abenoal-os maternalmente.
- Estive para no vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gasto fez-se
to desagradavel hoje! E naturalmente tenho de ir amanh para o Porto.
- Para o Porto?...
- O pap quer que eu l v, so os anos dele...
Coitado, vai-se fazendo velho, escreveu-me uma carta to triste... Ha dois
anos que me no v...
- O conde vai?
- No.
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E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a
cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o olhar
nos olhos de Carlos:
- E quero uma coisa.
- O que?
- Que venhas tambm.
Justamente nesse instante, Teles da Gama, de programa e lapis na mo,
parou junto deles:
- Voc quer entrar numa poule monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez tostes
cada um... L em cima ao canto da tribuna est-se apostando ferozmente... A
desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo acordou... Quer v. ex.
tambm, sr. condessa?
Sim, a condessa tambm entrava na poule. Teles da Gama inscreveu-a, e
abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo flordo, de
chapubranco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais loiro, mais
ingls, neste dia solene de sport oficial.
- Ah, come vous tes bele, comtesse!... Voil une toilete merveileuse, n'est ce
pas, Maia?... Est ce que nous n'alons pas parier quelque chose?
A condessa contrariada, querendo falar a Carlos, risonha todavia, lamentou-se
de ter j uma fortuna comprometida... Enfim sempre apostava cinco tostes
com a Filandia. Que cavalo tomava ele?
- Ah, je ne sais pas, je ne conais pas les chevaux... D'abord, quand on parie...
Ela, impaciente, ofereceu-lhe Vladimiro. E teve de estender a mo a outro
filandez, o secretario de Steinbroken, um moo loiro, lento, languido, que se
curvara em silncio diante dela, deixando escorregar do olho claro e vago o
seu monculo de ouro. Quasi imediatamente Taveira excitado veiu dizer que
Cliford retirara a Mist.
Vendo-a assim cercada, Carlos afastou-se. Justamente o olhar de D. Maria,
que o no deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando ele se
chegou, ela puxou-lhe pela manga, fel-o debruar, para lhe murmurar ao
ouvido, deliciada:
- Est hoje to galante!
- Quem?
D. Maria encolheu os ombros, impaciente.
- Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe.
- Muito galante, com efeito, disse Carlos friamente.
De p, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrete, ele ruminava, quase
com indignao, as palavras da condessa. Ir com ela para o Porto!... E via ali
outra exigencia audaz, a mesma tendencia impertinente a dispr do seu
tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha um desejo de voltar junto dela,
dizer-lhe que no, secamente, desabridamente, sem motivos, sem
explicaes, como um brutal.
Acompanhada em silncio pelo esguio secretario de Steinbroken, ela vinha
agora caminhando lentamente para ele: e o olhar alegre com que o envolvia
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irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo, quanto ela
estava certa da sua submisso.
E estava. Apenas o filandez se afastou languidamente - ela, muito tranquila,
ali mesmo junto de D. Maria, falando em ingls, e apontando para a pista
como se comentasse os cavalos do Darque, explicou-lhe um plano que
imaginara, encantador. Em lugar de partir na tera feira para o Porto - ia na
segunda  noite, s com a criada escocessa, sua confidente, num
compartimento reservado. Carlos tomava o mesmo comboio. Em Santarem,
desciam ambos, muito simplesmente, e iam passar a noite ao hotel. No dia
seguinte ela seguia para o Porto, ele recolhia a Lisboa...
Carlos abria os olhos para ela, assombrado, emudecido. No esperava aquela
extravagancia. Supozera que ela o queria no Porto, escondido no Francfort,
para passeios romanticos  Foz, ou visita furtivas a algum casebre da
Aguardente... Mas a idia de uma noite, num hotel, em Santarem!
Terminou por encolher os ombros, indignado. Como queria ela, numa linha de
caminho de ferro em que se encontra constantemente gente conhecida, apearse
com ele na estao de Santarem, dar-lhe o brao, maritalmente, e enfiarem
para uma estalagem? Ela, porm, pensra em todos os detalhes. Ningum a
conheceria, disfarada num grande water-proof, e com uma cabeleira postia.
- Com uma cabeleira!?
- O Gasto! murmurou ela de repente.
Era o conde, por traz dele, abraando-o ternamente pela cintura. E quislogo
saber a opinio do amigo Maia sobre as corridas. Bastante animao, no 
verdade? E bonitas toiletes, certo ar de luxo... Enfim, no envergonhavam. E
a estava provado o que ele sempre dissera, que todos os requintes da
civilizao se aclimatavam bem em Portugal...
- O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo fisico,  um solo abenoado!
A condessa voltara para o p de D. Maria. E Teles da Gama, passando de
novo, naquela faina ruidosa em que o trazia a formao da sua poule, chamou
Carlos para a tribuna, para ele tirar o seu bilhete, e apostar com as
senhoras...
- Oh Gouvarinho! venha tambm da, homem! exclamou ele. Que diabo! 
necessrio animar isto,  at patriotico.
E o conde condescendeu, por patriotismo.
-  bom, dizia ele, travando do brao de Carlos, fomentar os divertimentos
elegantes. J uma vez o disse na cmara: o luxo  conservador.
Em cima, a um canto, num grupo de senhoras, foram com efeito encontrar
uma animao - que quase fazia escndalo naquela tribuna silenciosa e 
espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava atarefadamente
os bilhetes da poule: uma secretariasinha da Russia, de bonitos olhos garos,
apostava desesperadamente placas de cinco tostes, estonteada, j
embrulhada, rabiscando com frenesi o seu programa. A Pinheiro, a mais
magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que lhe fazia covas nas
claviculas, dava opinies pretenciosas sobre os cavalos, em ingls: emquanto
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o Taveira, de olhos humidos no meio de todas aquelas saias, falava de
arruinar as senhoras, de viver  custa das senhoras... E todos os homens,
acotovelando-se, queriam fazer uma aposta com a Joaninha Vilar, que, de
costas contra o rebordo da tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a
cabea deitada para traz, as pestanas mortas, parecia oferecer a todas
aquelas mos, que se estendiam gulosamente para ela, o seu apetitoso peito
de rola.
Teles da Gama, no entanto, ia organisando a confuso alegre. Os bilhetes
estavam dobrados, era necessrio um chapu... Ento os cavalheiros
afectaram um amor desordenado pelos seus chapos, no os querendo confiar
s mos nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto, excedeu-se mesmo,
agarrando as abas do seu, com ambas as mos, aos gritos.
A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por oferecer o barrete de
marujo do seu pequeno - uma criana obesa, pousada ali para um lado como
uma trouxa. Foi a Joaninha Vilar que levou em roda os bilhetes, rindo e
chocalhando-os preguiosamente; emquanto o secretario de Steinbroken,
grave, como exercendo uma funco, recolhia no seu grande chapuas placas
caindo uma a uma com um som argentino. E a tiragem foi o lindo divertimento
da poule. Como estavam s quatro cavalos inscriptos, e as entradas eram
quinze, havia onze bilhetes brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar
o numero trs, o de Rabbino, o cavalo de Darque, favorito do Premio Nacional.
Assim cada mosinha sofrega que se demorava no fundo do barrete,
remexendo, tenteando os papeis, causava uma indignao folgas, num
exagero de risos.
- A sr. viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros, conhece-os... 
necessrio probidade, sr. viscondessa!
- Oh, mon Dieu, j'ai Minhoto, cete rosse!
- Je vous l'achete, madame!
-  sr. D. Maria Pinheiro, v. ex. leva dous numeros!...
- Ah! je suis perdue... Blanc!
- E eu!  necessrio fazer outra poule! Vamos fazer outra poule!
- Isso! Outra poule, outra poule!
No entanto a enorme baronesa de Craben, num degrau mais elevado, que ela
ocupava s, como um trono, erguera-se, com o seu bilhete na mo. Tinha
tirado Rabbino: e afectava superiormente no comprehender esta fortuna,
perguntava o que era Rabbino. Quando o conde de Gouvarinho lhe explicou
muito srio a importncia de Rabbino, e que Rabbino era quase uma gloria
publica, ela mostrou a dentua, condescendeu em rosnar do fundo do papo
que c'etait charmant. Todo o mundo a invejava; e a vasta baleia alastrou-se
de novo sobre o seu trono, abanando-se, com magestade.
E subitamente houve uma surpresa: em quanto eles tiravam os bilhetes, os
cavalos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se
ergueram, de binoculos na mo. O starter ainda estava na pista, com a
bandeira vermelha inclinada ao cho: e as ancas de cavalos fugiam
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na curva, lustrosos  luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeis.
Ento todo o rumor de vozes cau; e no silncio a bela tarde pareceu alargarse
em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, sem a
vibrao dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada: defronte da
tribuna, na colina, a relva era de um louro quente: no grupo de carruagens
scintilava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de um arreio, ou de p,
sobre uma almofada, destacava em escuro alguma figura de chapeo alto; e
pela pista verde, os cavalos corriam, mais pequenos, finamente recortados na
luz. Ao fundo, a cal das casas cobria-se de uma leve agoada cor de rosa: e o
distante horizonte resplandecia, com dourados de sol, brilhos de po vidrado,
fundindo-se numa nevoa luminosa, onde as colinas, nos seus tons azulados,
tinham quase transparencia, como feitas de uma substncia preciosa...
-  Rabbino! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de p num degrau.
As cres encarnadas e brancas do Darque corriam com efeito na frente. Os
dous outros cavalos iam juntos; e, o ultimo, num galope que adormecia, era
Vladimiro, outro potro do Darque, baio-claro, quase louro  luz.
Ento, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpelou Carlos, que
justamente tirara na poule o numero de Vladimiro. A ela coubera Minhoto,
uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito sobre os dous
cavalos uma aposta complicada de uvas e de amendoas. J umas poucas de
vezes os seus lindos olhos garos tinham procurado os de Carlos; e agora
tocava-lhe no brao com o leque, gracejava, triumfava...
- Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de fiacre,
vtre Vladimir.
Como um cavalo de fiacre? Vladimiro era o melhor potro do Darque! Talvez
ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o Gladiador era a
unica gloria da Frana! Talvez ainda substituisse Cames...
- Ah, vous plaisantez...
No, Carlos no gracejava. Estava at prompto a apostar tudo por Vladimiro.
- Voc aposta por Vladimiro? gritou Teles da Gama, voltando-se vivamente.
Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por qu, declarou que tomava
Vladimiro. Ento, em roda, foi uma surpresa; e todo o mundo quisapostar,
aproveitar-se daquela fantasia de homem rico, que sustentava um potro
verde, de trs quartos de sangue, a que o prprio Darque chamava pileca. Ele
sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz, proclamar Vladimiro contra o
campo. E de todos os lados o chamavam, numa sofreguido de saque.
- Mr. de Maia, dix tostons.
- Parfaitement, madame.
- Oh Maia, voc quer meia libra?
- s ordens.
- Maia, tambm eu! Oua l... Tambm eu!... Dous mil ris.
-  sr. Maia, eu vou dez tostes...
- Com o maior prazer, minha senhora...
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Ao longe os cavalos davam a volta, na subida do terreno. Rabbino j
desaparecera, - e Vladimiro num galope a que se sentia o canasso, corria s
na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que ele manquejava. Ento Carlos, que
continuava a tomar Vladimiro contra o campo, sentiu que lhe puxavam de
vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de Steinbroken, chegando
subtilmente a tomar tambm parte no saque  bolsa do Maia, propondo dous
soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, como uma aposta colectiva
da legao, a aposta do reino da Filandia.
- C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.
Agora comeava a divertir-se. Apenas vira de relance Vladimiro, e gostara da
cabea ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas apostava sobre tudo
para animar mais aquele recanto da tribuna, ver brilhar gulosamente os olhos
interesseiros das mulheres. Teles da Gama ao lado aprovava-o, achava aquilo
patriotico e chic.
-  Minhoto! gritou de repente Taveira.
Na volta, com efeito, fizera-se uma mudana. Subitamente Rabbino perdera
terreno, resistindo  subida, com o folego curto. E agora era Minhoto, o
cavalicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava para a frente,
vinha devorando a pista, num esforo continuo, admiravelmente montado por
um jockei hespanhol. E logo atraz vinham as cres escarlates e brancas de
Darque: ao principio ainda pareceu que era Rabbino: mas, apanhado de
repente num raio obliquo de sol, o cavalo cobriu-se de tons lustrosos de baio
claro, e foi uma surpresa ao reconhecer-se que era Vladimiro! A corrida
travava-se entre ele e Minhoto.
Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapos no
ar:
- Minhoto, Minhoto!
E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra Vladimiro
faziam tambm votos por Minhoto, em bicos de ps, junto do parapeito da
tribuna, estendendo o brao para ele, enimando-o:
- Anda Minhoto!... Isso, assim!.... Aguenta, rapaz!... Bravo!... Minhoto!
Minhoto!
A russa, toda nervosa, na esperana de ganhar a poule, batia as palmas. At a
enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a com os seus
gorgores azues e brancos:- em quanto que, ao lado dela, o conde de
Gouvarinho, tambm de p, sorria, contente no seu peito de patriota, vendo
naqueles jockeis  desfilada, nos chapos que se agitavam, brilhar
civilizao...
De repente, de baixo, d'ao p da tribuna, d'entre os rapazes que cercavam o
Darque, uma exclamao partiu.
-Vladimiro ! Vladimiro!
Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a Minhoto: e agora
chegavam furiosamente, com brilhos vivos de cres claras, os focinhos juntos,
os olhos esbugalhados, sob uma chuva de vergastas.
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Teles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo,
berrava por Vladimiro. A russa, de p num degrau, apoiada sobre o hombro de
Carlos, plida, excitada, animava Minhoto com gritinhos, com pancadas de
leque. A agitao daquele canto da tribuna estendera-se em baixo ao recinto -
onde se via uma linha de homens, contra a corda da pista, bracejando. Do
outro lado, era uma fila de rostos palidos, fixos numa curta anciedade.
Algumas senhoras tinham-se posto de p nas carruagens. E atravez da colina,
para ver a chegada, dous cavaleiros, segurando com as mos os chapos
baixos, corriam  desfilada.
- Vladimiro! Vladimiro! foram de novo os gritos isolados, aqui, alm.
Os dous cavalos aproximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo um
ar de rajada.
- Minhoto! Minhoto!
- Vladimiro! Vladimiro!
Chegavam... De repente o jockei ingls de Vladimiro, todo em fogo,
levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e lustroso,
fez silvar triumfantemente o chicote, e de um arremesso directo lanou-o alm
da meta, duas cabeas adiante de Minhoto, todo coberto d'espuma.
Ento em volta de Carlos foi uma desconsolao, um longo murmrio de
lassido. Todos perdiam; ele apanhava a poule, ganhava as apostas,
empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, tesoureiro da
poule, empalideceu ao separar-se do leno cheio de prata: e de todos os lados
mosinhas caladas de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe com um ar
amuado as apostas perdidas, chuva de placas que ele recolhia, rindo, no
chapu.
- Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, mefiez-vous...
Vous conaissez le proverbe: heureux au jeu...
- Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapu.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no brao. Era o secretario de
Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do
seu chefe, a aposta do reino da Filandia.
- Quanto ganha voc? exclamou Teles da Gama, assombrado.
Carlos no sabia. No fundo do chapuj reluzia ouro. Teles contou, com o olho
brilhante.
- Voc ganha doze libras! disse ele maravilhado, e olhando Carlos com
respeito.
Doze libras! Esta soma espalhou-se em redor, num rumor de espanto. Doze
libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapos, davam ainda
hurrahs. Mas uma indiferena, um tdio lento, ia pesando outra vez,
desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas cadeiras,
bocejando, com um ar exausto. A musica, desanimada tambm, tocava cousas
plangentes da Norma.
Carlos, no entanto, num degrau da tribuna, com a idia de descobrir o
Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia
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dispersando pela colina. As senhoras tinham retomado a imobilidade
melancolica, no fundo das caleches, de mos no regao. Aqui e alm um dogcart,
mal arranjado, dava um trote curto pela relva. Numa vitoria estavam as
duas espanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de sombrinhas
escarlates. E sujeitos, de mos atrs das costas, pasmavam para um char-bancs
a quatro atrelado  Daumont onde, entre uma famlia triste, uma ama
de leno de lavradeira dava de mamar a uma criana cheia de rendas. Dous
garotos esganiados passeavam bilhas d'gua fresca.
Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso - quando deu
justamente de frente com ele, dirigindo-se para a escada, afogueado,
flamante, na sua famosa sobrecasaca branca.
- Onde diabo tens tu estado, criatura?
O Damaso agarrou-o pelo brao, alou-se em bicos de ps, para lhe contar ao
ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a Josefina do
Salazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe que tinha mulher!
- Ah, Sardanapalo!...
- Faz-se pela vida... Volta c acima  tribuna, anda. Eu ainda hoje no pude
cavaquear com o high-life!... Mas estou furioso, sabes? Implicaram com o meu
veo azul. Isto  um pas de bestas! Logo troa, e olhe no creste a pele, e
onde mora,  catitinha? e chalaa... Uma canalha! Tive de tirar o veo... Mas j
resolvi. Para as outras corridas venho n. Palavra, venho n! Isto  a
vergonha da civilizao, esta terra! No vens da? Ento at j.
Carlos deteve-o.
- Escuta l homem, tenho que te dizer... Ento, essa visita aos Olivaes?...
Nunca mais apareceste... tinhamos combinado que fosses convidar o Castro
Gomes, que viesses dar a resposta... No vens, no mandas... O Craft 
espera... Enfim um procedimento de selvagem.
Damaso atirou os braos ao ar. Ento Carlos no sabia? Havia grandes
novidades! Ele no voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque o
Carlos Gomes no podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brasil. J partira
mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Ele chega l, para fazer
o convite, e s. ex. declara-lhe que sente muito, mas que parte no dia
seguinte para o Rio... E j de mala feita, j alugada uma casa para a mulher
ficar aqui  espera trs meses, j a passagem no bolso. Tudo de repente, feito
de sabbado para segunda feira... Telhudo, aquele Castro Gomes.
- E l partiu, exclamou ele, voltando-se a cumprimentar a viscondessa d'Alvim
e Joaninha Vilar que desciam das tribunas. L partiu, e ela j est instalada.
At j antes de ontem a fui visitar, mas no estava em casa... Sabes do que
tenho medo?  que ela, nestes primeiros tempos, por causa da visinhana,
como est s, no queira que eu l v muito... Que te parece?
- Talvez... E onde mora ela?
Em quatro palavras, Damaso explicou a instalao de madame. Era muito
engraado, morava no predio do Cruges! A mam Cruges, havia j anos,
alugava aquele primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera l o
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Bertoni, o tenor, com a famlia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes tinha
tido dedo...
- E para mim, muito comodo, ali ao p do Gremio... Ento no voltas c
acima, a cavaquear com o femeao? At logo... Est hoje chic a valer a
Gouvarinho! E est a pedir homem! Good-bie.
Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que se
viera juntar a Alvim e Joaninha Vilar, no cessava de o chamar com o olhar
inquieto, turturando o seu grande leque negro. Mas ele no obedeceu logo,
parado ao p dos degraus da tribuna, acendendo vagamente uma cigarrete,
perturbado por todas aquelas palavras do Damaso que lhe deixavam n'alma
um sulco luminoso. Agora que a sabia s em Lisboa, vivendo na mesma casa
do Cruges, parecia-lhe que j a conhecia, sentia-se muito perto dela -
podendo assim a todo o momento entrar os hombraes da sua porta, pisar os
degraus que ela pisava. Na sua imaginao transluziam j possibilidades de
um encontro, alguma palavra trocada, cousas pequeninas, subtis como fios,
mas por onde os seus destinos se comeariam a prender... E imediatamente
veio-lhe a tentao pueril de ir l, logo nessa mesma tarde, nesse instante,
gosar como amigo do Cruges o direito de subir a escada dela, parar diante da
porta dela - e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer
da sua vida.
O olhar da condessa no o deixava. Ele aproximou-se, emfim, contrariado: ela
ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns passos com ele pela relva,
recomeou a falar na ida a Santarem. Carlos, ento, muito secamente,
declarou toda essa inveno insensata.
- Porque?...
Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo... Enfim, a
ela como mulher ficava-lhe bem ter fantasias pitorescas de romance; mas a
ele competia-lhe ter bom senso.
Ela mordia o beio, com todo o sangue na face.E no via ali bom senso. Via s
frieza. Quando ela arriscava tanto, ele podia bem, por uma
noite, afrontar os desconfortos da estalagem...
- Mas no  isso!...
Ento que era? Tinha medo? No havia mais perigo do que nas idas a casa da
titi. Ningum a podia conhecer, com outra cor de cabelo, toda a sorte de vos,
disfarada num grande water-proof. Chegavam de noite, entravam para o
quarto, donde no saam mais, servidos apenas pela escosseza. No dia
seguinte, no comboio da noite, ela seguia para o Porto, tudo acabava... E
naquela insistencia ela era o homem, o seductor, com a sua vehemencia de
paixo activa, tentando-o, soprando-lhe o desejo; emquanto ele parecia a
mulher, hesitante e assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma
noite de amor, prolongando-se assim, ameaava ser grotesca: ao mesmo
tempo o calor de voluptuosidade que emanava daquele seio, arfando junto
dele e por ele, ia-o amolecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo
modo; e, como se o desejo se lhe acendesse enfim de repente  curta chama
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que faiscava nas pupilas dela, negras, humidas, avidas, prometendo mil
cousas, disse, um pouco plido:
- Pois bem, perfeitamente... manh  noite, na estao.
Nesse momento, em redor, romperam exclamaes de troa: era um cavalo
solitrio que chegava, num galope pacato, passava a meta sem se apressar,
como se descesse uma avenida do Campo Grande numa tarde de domingo. E
em redor perguntava-se que corrida era aquela de um cavalo s - quando ao
longe, como saindo da claridade loura do sol que descia sobre o rio, apareceu
uma pobre pileca branca, empurrando-se, arquejando, num esforo doloroso,
sob as chicotadas atarantadas de um jockei de roxo e preto. Quando ela
chegou, emfim, j o outro gentleman-rider voltara da meta, a passo,
pachorrentamente, - e estava conversando com os amigos, encostado  corda
da pista.
Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim,
grotescamente.
Ainda havia o Premio de Consolao - mas agora desaparecera todo o
interesse ficticio pelos cavalos. Perante a calma e radiante beleza da tarde,
algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a pesagem,
canadas da imobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais cadeiras: aqui e
alm, sobre a relva pisada, formavam-se grupos alegrados por algum vestido
claro ou por uma pluma viva de chapu: e palrava-se, como numa sala de
inverno, fumando-se familiarmente. Em redor de D. Maria e da Alvim
projectava-se um grande pic-nic a Queluz. Alencar e o Gouvarinho discutiam a
reforma de instruco. A horrvel Craben, entre outros diplomatas e moos de
binoculo a tiracolo, dava do fundo grosso do papo, opinies sobre Daudet, que
ele achava trs agreable. E, quando Carlos enfim abalou, o recinto, esquecidas
as corridas, tomava um tom de soire, no ar claro e fresco da colina, com o
murmrio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando uma
valsa de Strauss.
Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no bufete com o Darque,
com outros, bebendo mais champagne.
- Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe ele, e vou no faeton. Abandono
torpemente. Voc v para o Ramalhete como poder...
- Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j a gravata toda desmanchada.
Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego dele... O Craft fica por minha conta... 
necessrio recibo?  sade do Craft, ingls c dos meus... Hurrah!
- Hurrah! Hip, hip, hurrah!
D'a a pouco, a trote largo no faeton, Carlos descia o Chiado, dava a volta para
a rua de S. Francisco. Ia numa perturbao deliciosa e singular, com aquela
certeza de que ela estava s na casa do Cruges: o ltimoolhar que ela lhe dra
parecia ir adiante dele, chamando-o: e um despertar tumultuoso de
esperanas sem nome atirava-lhe a alma para o azul.
Quando parou diante do porto - algum, por dentro das janelas dela, a
correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa caa j uma sombra de
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crepsculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o ptio. Nunca viera
visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe horrorosa, com os
seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes nuas e enxovalhadas
alvejando tristemente no comeo de escurido. No patamar do primeiro andar
parou. Era ali que ela vivia. E ficou olhando, com uma devoo ingenua, para
as trs portas pintadas d'azul: a do centro estava inutilisada por um banco
comprido de palhinha, e na do lado direito pendia, com uma enorme bola, o
cordo da campainha. De dentro no vinha um rumor: - e este pesado
silncio, juntando-se ao movimento de stores que ele vira fechar-se, parecia
cercar as pessoas que ali viviam de solido e de impenetrabilidade. Uma
desconsolao passou-lhe na alma. Se ela agora, s, sem o marido,
comeasse uma vida reclusa e solitaria? Se ele no tornasse mais a encontrar
os seus olhos?
Foi subindo de vagar at ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de dizer
ao maestro para explicar aquela visita extranha, deslocada... Foi um alivio
quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha sahido.
Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o faeton at ao
largo da Biblioteca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do store
branco, havia uma vaga claridade de luz. Ele olhou-a como se olha uma
estrela.
Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de p, estava-se justamente apeando de
uma calecha de praa. Um momento ficaram ali  porta, em quanto Craft,
procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. No Premio de
Consolao, um dos cavaleiros tinha cahido, quase ao p da meta, sem se
magoar: e, por ultimo, j  partida, o Vargas, que ia na sua terceira garrafa de
champagne, esmurrara um criado do bufete, com ferocidade.
- Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas pelo
velho prncipe Shakespereano de que tudo  bom quanto acaba bem.
- Um murro, disse Carlos rindo,  com efeito um belo ponto final.
No peristilo, o velho guarda-porto esperava, descoberto, com uma carta na
mo para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. ex. chegar.
Era uma letra inglesa de mulher, num envelope largo, lacrado com um sinete
d'armas. Carlos ali mesmo abriu-a: e, logo  primeira linha, teve um
movimento to vivo, de to bela surpresa, iluminando-se-lhe tanto o rosto,
que Craft do lado perguntou sorrindo:
- Aventura? Herana?...
Carlos, vermelho, meteu a carta no bolso, e murmurou:
- Um bilhete apenas, um doente...
Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas comeava assim: -
Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos da Maia, e
roga-lhe o obsequio... - depois, em duas breves palavras, pedia-lhe para ir
ver na manh seguinte, o mais cedo possvel, uma pessoa de famlia, que se
achava incomodada.
- Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar s sete e meia, hein?
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- Sim, o jantar... - respondeu Carlos, sem saber o qu, banhado todo num
sorriso, como em extase.
Correu aos seus aposentos: e junto da janela, sem mesmo tirar o chapu, leu
uma vez mais o bilhete, outra
vez ainda, contemplando enlevadamente a forma da letra, procurando
voluptuosamente o perfume do papel.
Era datada desse mesmo dia  tarde. Assim, quando ele passara defronte da
sua porta, j ela a escrevera, j o seu pensamento se demorara n'ele - quando
mais no fosse seno ao traar as letras simples do seu nome. No era ela que
estava doente. Se fosse Rosa, ela no diria to friamente uma pessoa de
famlia. Era talvez o esplendido preto de carapinha grisalha. Talvez miss
Sarah, abenoada fosse ela para sempre, que queria um medico que
entendesse ingls... Enfim havia l uma pessoa numa cama, junto da qual ela
mesma o conduziria, atravez dos corredores interiores daquela casa - que
havia apenas instantes sentira to fechada, e como impenetravel para
sempre!... E depois este adorado bilhete, este delicioso pedido para ir a sua
casa, agora que ela o conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus -
tomava uma significao profunda, perturbadora...
Se ela no quizesse comprehender, nem aceitar o distante amor que os seus
olhos lhe tinham oferecido claramente, o mais luminosamente que tinham
podido, nesses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os dela - ento
poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico qualquer, um estranho.
Mas no: o seu olhar respondera ao dele, e ela abria-lhe a sua porta... - E o
que sentia a esta idia era uma gratido inefavel, um impulso tumultuoso de
todo o seu ser a cahir-lhe aos ps, ficar-lhe beijando a orla do vestido,
devotamente, eternamente, sem querer mais nada, sem pedir mais nada...
Quando Craft d'ali a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engomado,
correcto - achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapuna
cabea, passeando o quarto, nesta agitao radiante.
- Voc est a faiscar, homem! disse Craft, parando diante dele, com as mos
nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu resplandecente
colarinho. Voc flameja!... Voc parece que tem uma aurola na nuca!... Voc
sucedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
Carlos espreguiou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em
silncio, encolheu os ombros, e murmurou:
- A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe sucede , em definitivo, bom ou
mau.
- Ordinariamente  mau, disse o outro friamente, aproximando-se do espelho
a retocar com mais correco o n da gravata branca.
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Livro Segundo
I
Na manh seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a p do Ramalhete at
 rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde morria em
penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de leno na cabea,
encolhida num chalesinho preto, esperava, sentada melancolicamente ao
canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava uma parede feia de
corredor, forrada de papel amarelo. Dentro um relgio ronceiro estava
batendo dez horas.
- A senhora j tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapu.
A velha murmurou, d'entre a sombra do leno que lhe caa para os olhos, num
tom canado e doente:
- J, sim, meu senhor. J fizeram o favor de me falar. O criado, o
senhorDomingos, no tarda...
Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
um barulho alegre de crianas brincando; por cima, o moo do Cruges
esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um
longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a negrura
do leno, deu um suspirosinho abatido. L ao fundo um canario rompera a
cantar; e ento Carlos, impaciente, puxou o cordo da campainha.
Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado num jaqueto de flanela,
apareceu correndo, com uma travessa na mo, abafada num guardanapo; e
ao vr Carlos ficou to atarantado, bambaleando  porta, que um pouco de
molho de assado escorregou, caiu sobre o soalho.
- Oh senhorD. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a bondade
d'esperar um instantinho, que eu abro j a sala... Tome l, snr. Augusta,
tome l, olhe no entorne mais! A senhora diz que l manda logo o vinho do
Porto... Desculpe v. exc., senhorD. Carlos... Por aqui, meu senhor...
Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos numa sala alta,
espaosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a rua de
S. Francisco; e erguendo  pressa os dois transparentes de paninho branco,
perguntava a Carlos se s. exc. no se lembrava j do Domingos. Quando ele
se voltou, risonho, descendo precipitadamente os canhes das mangas, Carlos
reconbeceu-o pelas suissas ruivas. Era com efeito o Domingos, escudeiro
excelente, que no comeo do inverno estivera no Ramalhete, e se despedira
por birras patrioticas, birras ciumentas, com o cozinheiro francez.
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- No o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar  um pouco
escuro... Lembro-me perfeitamente... E ento voc agora aqui, hein? E est
contente?
- Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O senhorCruges
tambm mora c por cima...
- Bem sei, bem sei...
- Tenha v. exc. a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar parte 
snr. D. Maria Eduarda...
Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome dela; e pareceulhe
perfeito, condizendo bem com a sua beleza serena. Maria Eduarda, Carlos
Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem sabe se no
presagiava a concordncia dos seus destinos!
Domingos, no entanto, j  porta da sala, com a mo no reposteiro, parou
ainda, para dizer num tom de confidencia e sorrindo:
-  a governante inglesa que est doente...
- Ah!  a governante?
- Sim, meu senhor, tem uma febresita desde ontem, peso no peito...
- Ah!...
O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
contempiando Carlos com admirao:
- E o avsinho de v. exc. passa bem?
- Obrigado, Domingos, passa bem.
- Aquilo  que  um grande senhor!... No ha, no ha outro assim em Lisboa!
- Obrigado, Domingos, obrigado...
Quando ele finalmente saiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta curiosa e
lenta pela sala. O soalho fora esteirado de novo. Ao p da porta havia um
piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre uma estante ao
lado, cheia de partituras, de musicas, de jornais ilustrados, pousava um vaso
do Japo onde murchavam trs belos lirios brancos; todas as cadeiras eram
forradas de reps vermelho; e aos ps do sof estirava-se uma velha pele de
tigre. Como no Hotel Central, esta inlalao sumaria de casa alugada recebera
retoques de conforto e de gosto: cortinas novas de cretone, combinando com
o papel azul da parede, tinham substituido as classicas bambinelas de cassa:
um pequeno contador rabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no
tio Abraho, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de
pelucia de uma mesa oval, colocada ao centro, desaparecia sob lindas
encadernaes de livros, albuns, duas taas japonezas de bronze, um cesto
para flores de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que no
pertenciam decerto  me Cruges. E parecia errar ali, acariciando a ordem das
coisas e marcando-as com um encanto particular, aquele indefinido perfume
que Carlos j sentira nos quartos do Hotel Central, e em que dominava o
jasmim.
Mas o que atrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho cr, com ramalhetes
bordados, desdobrado ao p da janela, fazendo um recanto mais resguardado
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e mais intimo. Havia l uma cadeirinha baixa de setim escarlate, uma grande
almofada para os ps, uma mesa de costura com todo um trabalho de mulher
interrompido, numeros de jornais de modas, um bordado enrolado, mlhos de
l de cres transbordando de um aafate. E, confortavelmente enroscada no
macio da cadeira, achava-se a, nesse momento, a famosa cadelinha
escosseza, que tantas vezes passra nos sonhos de Carlos, trotando
ligeiramente atraz de uma radiante figura pelo Aterro fora, ou aninhada e
adormecida num doce regao...
- Bonjour, Mademoisele, disse-lhe ele, baixinho, querendo captar-lhe as
simpatias.
A cadelinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
dardejando para aquele estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois
belos olhos de azeviche, desconfiados, de uma penetrao quase humana. Um
instante Carlos receou que ela rompesse a ladrar. Mas a cadelinha de repente
namorra-se dele, deitada j na cadeira. de patas ao ar, descomposta,
abandonando o ventresinho s suas caricias. Carlos ia coal-a e amimal-a,
quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu Maria Eduarda diante de
si.
Foi como uma inesperada apario - e vergou profundamente os ombros,
menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia
abrazar-lhe o rosto. Ela, com um vestido simples e justo de sarja preta, um
colarinho direito de homem, um boto de rosa e duas folhas verdes no peito,
alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, acabando de desdobrar um
pequeno leno de renda. Obedecendo ao seu gesto risonho, Carlos pousou-se
embaraadamente  borda do sof de reps. E depois de um instante de
silncio, que lhe pareceu profundo, quase solene, a voz de Maria Eduarda
ergueu-se, uma voz rica e lenta, de um tom de ouro que acariciava.
Atravs do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ela lhe agradecia os
cuidados que ele tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se demorava
n'ela um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra frma da sua
perfeio. Os cabelos no eram louros, como julgra de longe  claridade do
sol, mas de dois tons, castanho-claro e castanho-escuro, espessos e ondeando
ligeiramente sobre a testa. Na grande luz escura dos seus olhos havia ao
mesmo tempo alguma coisa de muito grave e de muilo dce. Por um jeito
familiar cruzava s vezes, ao falar, as mos sobre os joelhos. E atravs da
manga justa de sarja, terminando num punho branco, ele sentia a beleza, a
brancura, o macio, quase o calor dos seus braos.
Ela calara-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue abrasar-lhe
o rosto. E, apesar de saber j pelo Domingos que a doente era a governante,
s achou, na sua perturbao, esta pergunta tmida:
- No  sua filha que est doente, minha senhora?
- Oh no! graas a Deus!
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E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante
inglesa havia dois dias se achava incomodada, com dificuldade de respirar,
tosse, uma ponta de febre...
- Imaginamos ao principio que era uma constipao passageira; mas ontem 
tarde esteva pior, e estou agora impaciente que a veja...
Ergueu-se, foi puxar um enorme cordo de campainha que pendia ao lado do
piano. O seu cabelo por traz, repuxado para o alto da cabea, deixava uma
penugem de ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do pescoo.
Entre aqueles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque enxovalhado, toda
a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, de uma beleza mais nobre, e
quase inacessvel; e pensava que nunca ali ousaria olha-a to francamente,
com uma to clara adorao, como quando a encontrava na rua.
- Que linda cadelinha v. exc. tem, minha senhora disse ele, quando Maria
Eduarda se tornou a sentar, e pondo j nesta s palavras simples, ditas a sorrir,
um acento de ternura.
Ela sorriu tambm com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no queixo,
dava uma doura mais mimosa s suas feies srias. E alegremente, batendo
as palmas, chamando para dentro do biombo:
- Niniche! esto-te a fazer elogios, vem agradecer!
Niniche apareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de Niniche. E era
curioso, tinha tido tambm uma galguinha italiana que se chamava Niniche...
Nesse instante a criada entrou - a rapariga magra e sardenta, d'olhar
petulante, que Carlos vira j no Hotel Central.
- Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda. Eu no
o acompanho, porque ela  to tmida, tem tanto escrpulo em incomodar,
que diante de mim  capaz de negar tudo, dizer que no tem nada...
- Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, num encanto de
tudo.
E pareceu-lhe ento que no olhar dela alguma coisa brilhara, fugira para ele,
de mais vivo, de mais doce.
Com o seu chapu na mo, pisando familiarmente aquele corredor intimo,
surpreendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria de
uma posse. Por uma porta meio aberta pde entrever uma banheira, e ao lado
dependurados grandes roupes turcos de banho. Adiante, sobre uma mesa,
estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas d'gua
minerais de Saint-Galmier e de Vals. Ele deduzia logo destas coisas to
simples, to banais, evidencias de vida delicada.
Melanie correu um reposteiro de linho cru, f-lo entrar num quarto claro e
fresco: e a foi encontrar a pobre miss Sarah num leitosinho de ferro, sentada,
com um lao de seda azul ao pescoo, e os bands to lisos, to acamados
pela escova, como se fosse sair num domingo para a capela presbiteriana. Na
mesinha de cabeceira os seus jornais ingleses estavam escrupulosamente
dobrados, junto de um copo com duas belas rosas; e tudo no quarto
resplandecia de severo arranjo, desde os retratos da famlia real d'Inglaterra,
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expostos sobre a toalha de renda que cobria a cmoda, at s suas botinas
bem engraxadas, classificadas, perfiladas numa prateleira de pinho.
Apenas Carlos se sentou, ela imediatamente, com duas rosetas de vergonha
na face, entre frouxos de tosse, declarou que no tinha nada. Era a senhora,
to boa, to cautelosa, que a forcara a meter-se na cama... E para ela era um
desgosto ver-se ali ociosa, intil, agora que Madame estava to s, numa casa
sem jardim. Onde havia a menina de brincar? Quem havia de sair com ela?
Ah! Era uma priso para Madame!...
Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando ele se ergueu para a
auscultar, a pobre miss cobriu-se toda num rubor aficto, apertando mais a
roupa contra o peito, querendo saber se era absolutamente necessrio... Sim,
decerto, era necessrio... Achou-lhe o pulmo direito um pouco tomado; e, em
quanto a agasalhava, fez-lhe algumas perguntas sobre a sua famlia. Ela
contou que era de York, filha de um clergiman, e tinha quatorze irmos: os
rapazes estavam na Nova Zelndia, e todos eram de uma robustez de atletas.
Ela sara a mais fraca; tanto que o pai, vendo que ela aos dezessete anos
pesava s oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua famlia doenas de peito?
Ela sorriu. Oh! nunca! A mam ainda vivia. O pap, j muito velho, morrera do
couce de uma gua.
Carlos, no entanto, p de p, com o chapu na mo, continuava a observa-a,
refletindo. Ento, de repente, sem motivo, ela enterneceu-se, os seus olhos
pequeninos enevoaram-se de gua. E quando ouviu que eram precisos tantos
agasalhos, que teria de estar ali no quarto ainda quinze dias, perturbou-se
mais, duas lagrimasinhas tmidas quase lhe fugiram das pestanas. Carlos
terminou por lhe afagar paternalmente a mo.
- Oh! Thank you sir! murmurou ela, comovida de todo.
Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
arranjando ramos, com uma grande cesta de flores pousada ao lado numa
cadeira, e o regao cheio de cravos. Uma bela restea de sol, estendida na
esteira, vinha morrer-lhe aos ps; e Niniche, deitada ali, reluzia como se fosse
feita de fios de prata. Na rua, sob as janelas, um realejo ia tocando, na alegria
da linda manh de sol, a valsa da Madame Angot. Pelo andar de cima tinham
recomeado as correrias de crianas brincando.
- Ento? exclamou ela, voltando-se logo, com um molho de cravos na mo.
Carlos tranqilizou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronquite ligeira, com
pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...
- Certamente! E ha de tomar algum remdio, no  verdade?
Atirou logo o resto dos cravos do regao para o cesto, foi abrir uma
secretariasinha de pau preto colocada entre as janelas. Ela mesmo arranjou o
papel para ele receitar, meteu um bico novo na pena. E estes cuidados
perturbavam Carlos como caricias.
- Oh minha senhora!... murmurava ele, um lpis basta...
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Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade
enternecida nesses objectos familiares onde pousava a doura das mos dela -
um sinete d'agata sobre um velho livro de contas, uma faca de marfim com
monograma de prata ao lado de uma taasinha de Saxe cheia d'estaropilhas; e
em tudo havia a ordem clara que to bem condizia com o seu puro perfil. Na
rua o realejo calara-se, por cima do tecto j no cavalavam as crianas. E, em
quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a abafar sobre a esteira o som dos
seus passos, mover os seus vasos mais de leve.
- Que bonitas flores v. exc. tem, minha senhora! disse ele, voltando a
cabea, em quanto ia secando distrada e lentamente a receita.
De p, junto do contador rabe, onde pousava um vaso amarelo da ndia, ela
arranjava folhas em volta de duas rosas.
- Do frescura, disse ela. Mas imaginei que em Lisboa havia mais bonitas
flores. No ha nada que se compare s flores de Frana... Pois no  verdade?
Ele no respondeu logo, esquecido a olhar para ela, pensando na doura de
ficar ali eternamente naquela sala de reps vermelho, cheia de claridade e cheia
de silncio, a v-la pr folhas verdes em torno de ps de rosa!
- Em Cintra ha lindas flores, murmurou por fim.
- Oh, Cintra  um encanto! disse ela, sem erguer os olhos do seu ramo. Vale a
pena vir a Portugal s por causa de Cintra.
Nesse momento, o reposteiro de reps esvoaou, e Rosa entrou de dentro,
correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sda preta, uma onda negra
de cabelo a bater-lhe as costas, e trazendo ao colo a sua grande boneca. Ao
ver Carlos parou bruscamente, com os belos olhos muito abertos para ele,
toda encantada, e apertando mais nos braos Cri-cri que vinha em camisa.
- No conheces? perguntou-lhe a me, indo sentar-se outra vez diante do seu
cesto de flores.
Rosa comeava j a sorrir, o seu rostosinho cobria-se de uma linda cr. E
assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro, com
o seu doce mimo de forma, a sua graa ligeira, os seus grandes olhos cheios
d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se adiantou com a
mo estendida para renovar o antigo conhecimento - ela ergueu-se na ponta
dos ps, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca como um boto de rosa.
Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.
Depois quis apertar a mo  sua velha amiga Cri-cri. E ento, de repente,
Rosa recordou-se do que a trouxera ali a correr.
-  o robe-de-chambre, mam! No posso achar o robe-de-chambre de Cricri...
Ainda a no pude vestir... Dize, sabes onde  que est o robe-dechambre?
- Vejam esta desarranjada murmurava a me olhando-a com um sorriso lento
e terno. Se Cri-cri tem uma cmoda particular, o seu guarda-vestidos, no se
lhe deviam perder as coisas... pois no  verdade, senhor Carlos da Maia?
Ele, ainda com a sua receita na mo, sorria tambm, sem dizer nada, todo no
enternecimento daquela intimidade em que se sentia penetrar docemente.
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A pequena ento veio encostar-se  me, roando-se pelo seu brao, com uma
vozinha languida, lenta, e de mimo:
- Anda, dize... No sejas m... Anda... Onde est o robe-de-chambre? Dize...
Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino
lao de seda branca que lhe pendia no alto cabelo. Depois ficou mais sria:
- Est bem, est quieta... Tu sabes que no sou eu que trata dos arranjos da
Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
E Rosa obedeceu logo, sria tambm, comprimentando agora Carlos ao
passar, com um arzinho senhoril:
- Bonjour, Monsieur...
-  encantadora! murmurou ele.
A me sorriu. Tinha acabado de compr o seu ramo de cravos; - e
imediatamente atendeu a Carlos, que pousara a receita sobre a mesa, e sem
se apressar, instalando-se numa poltrona, lhe foi falando da dieta que devia
ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se lhe deviam dar de
trs em trs horas...
- Pobre Sarah! dizia ela. E  curioso, no  verdade? Veio com o
presentimento, quase com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...
- Ento vem a detestar Portugal!
- Oh! tem-lhe j horror! Acha muito calor, por toda a parte maus cheiros, a
gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Enfim  infelicissima,
est ardendo por se ir embora...
Carlos ria daquelas antipatias saxonias. De resto em muitas coisas a boa miss
Sarah tinha talvez razo...
- E v. exc. tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?
- Ela encolheu os ombros, indecisa.
- Sim... Devo dar-me bem...  o meu pas.
O seu pas!... E ele que a julgava brazileira!
- No, sou portugueza.
E, durante um momento, houve um silncio. Ela tomra de sobre a mesa,
abria lentamente um grande leque negro pintado de flores vermelhas. E Carlos
sentia, sem saber porque, uma doura nova penetrar-lhe no corao. Depois
ela falou da sua viagem que fora muito agradavel; adorava andar no mar;
tinha sido um encanto a manh da chegada a Lisboa, com um cu azulferrete,
o mar todo azul tambm, e j um colarzinho de clima doce... Mas
depois, apenas desembarcados, tudo corra desagradavelmente. Tinham ficado
mal alojados no Central. Niniche, uma noite, assustara-os muito com uma
indigesto. Em seguida no Porto viera aquele desastre...
- Sim, disse Carlos, o marido de v. exc., na Praa Nova...
Ela pareceu surpreendida. Como sabia ele? Ah! sim, sabia de certo pelo
Damaso...
- So muito amigos, creio eu.
Depois de uma leve hesitao, que ela compreendeu, Carlos murmurou:
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- Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete...  de resto um rapaz que eu
conheo apenas ha meses...
Ela abriu os olhos, pasmada.
- O Damaso? Mas ele disse-me que se conheciam desde pequeninos, que eram
at parentes...
Carlos encolheu simplesmente os ombros, sorrindo.
-  uma bela iluso... E se isso o faz feliz!...
Ela sorriu tambm, encolhendo tambm ligeiramente os ombros.
- E v. exc., minha senhora, continuou logo Carlos no querendo falar mais do
Damaso, como acha Lisboa?
Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade
meridional... Mas, havia to poucos confortos!... A vida tinha aqui um ar que
ela no pudera perceber ainda - se era de simplicidade ou de pobreza.
- Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
Ela riu.
- No direi isso. Mas suponho que so como os gregos: contentam-se em
comer uma azeitona, olhando o cu que  bonito...
Isto pareceu adorvel a Carlos, todo o seu corao fugiu para ela.
Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, to faltas de comodidade, to
despidas de gosto, to desleixadas. Aquela em que vivia fazia a sua desgraa.
A cozinha era atroz, as portas no fechavam. Na sala de jantar havia sobre a
parede umas pinturas de barquinhas e colinas que lhe tiravam o apetite...
- Alm disso, acrescentou,  um horror no ter um quintal, um jardim, onde a
pequena possa correr, ir brincar...
- No  fcil encontrar assim uma casa nas condies desta e com jardim,
disse Carlos.
Deu um olhar s paredes, ao estuque enxovalhado do tecto - e lembrou-lhe de
repente a Quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as frescas ruas
de accias.
Felizmente, Maria Eduarda tomara a casa apenas ao ms, e estava pensando
em ir passar  beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.
- De resto, disse ela, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o dr.
Chaplain.
O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. Ouvira-lhe
as lies, visitara-o at intimamente na sua propriedade de Maisonetes, ao p
de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um espirito bem superior!
- E to bom corao! disse ela com um claro sorriso, um olhar que brilhou.
E este sentimento comum pareceu de repente aproxima-os mais docemente:
cada um nesse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda falando
dele prolongadamente, gozando, atravs dessa trivial simpatia por um velho
clinico, a nascente concordncia dos seus coraes.
O bom dr. Chaplain! Que fisionomia to amvel, to fina!... sempre com o seu
barretinho de sda... E sempre com a sua grande flor na casaca... De resto, o
pratico maior que sara da gerao de Trousseau.
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- E Madame Chaplain, acrescentou Carlos,  uma pessoa encantadora... No 
verdade?
Mas Maria Eduarda no conhecia Madame Chaplain.
Dentro o relgio ronceiro comera a bater onze horas. E Carlos ento ergueuse,
findando a sua fugitiva, inolvidvel, deliciosa visita...
Quando ela lhe estendeu a mo, um pouco de sangue subiu-lhe de novo  face
ao tocar aquela palma to macia e to fresca. Pediu os seus comprimentos
para Mademoisele Rosa. Depois,  porta, j com o reposteiro na mo, voltouse
ainda, uma vez mais, numa ltima saudao, a receber o olhar suave com
que ela o seguia...
- At amanh, est claro! exclamou ela de repente, com o seu lindo sorriso.
- At amanh, decerto!
O Domingos estava j no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.
-  coisa de cuidado, meu senhor?
- No  nada, Domingos... Estimei v-lo por aqui.
- E eu muito a v. exc. At amanh, meu senhor.
- At amanh.
Niniche apareceu tambm no patamar. Ele abaixou-se ternamente a afaga-la,
e disse-lhe tambm, radiante:
- At amanh, Niniche!
- At amanh! Voltando para o Ramalhete, era esta a nica idia que ele
sentia distintamente atravs da nvoa luminosa que lhe afogava a alma. Agora
o seu dia estava findo: - mas, passadas as longas horas, terminada a longa
noite, ele penetraria outra vez naquela sala de reps vermelho, onde ela o
esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando ainda folhas verdes em
torno de ps de rosa...
Pelo Aterro, por entre a poeira de vero e o rudo das carroas, o que ele via
era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: por vezes uma
frase que ela dissera cantava-lhe na memria, com o tom de ouro da sua voz;
ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus anis entremetidos pelos
plos de Niniche. Parecia-lhe mais linda, agora que conhecia o seu sorriso de
uma graa to delicada; era cheia de inteligncia, era cheia de gosto; e a
pobre velha  porta, esse doente a quem ela mandava vinho do Porto,
revelavam a sua bondade... E o que o encantava  que no tornaria mais a
farejar a cidade como um rafeiro perdido,  busca dos seus olhos negros;
agora bastava-lhe subir alguns degraus, abria-se diante dele a porta da sua
casa: e tudo de repente na vida parecia tornar-se fcil, equilibrado, sem
duvidas e sem impacientais.
No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
- Trouxe-a a escassez, j v. exc. tinha sado.
Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escrito a lpis -
al rigt. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... No se tornara quase a
lembrar dela, desde a vespera, no radiante tumulto em que andara o seu
corao. E era no comboio dessa noite, da a horas, que deviam ambos partir
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para Santarem, a amarem-se, escondidos numa estalagem! Ele prometeralho,
a srio; j ela se preparara decerto, com a atroz cabeleira postia, com o
water-proof de grande roda; tudo estava al right... Achou-a nesse instante
ridcula, reles, estpida... Oh, era claro como a luz que no ia, que nunca iria,
jamais! Mas tinha d'aparecer na estao de Santa Apolonia, balbuciar uma
desculpa tosca, assistir  sua desconsolao, vr-lhe os olhos marejados de
lgrimas. Que massada!... Teve-lhe dio.
Quando chegou  mesa do almoo Craft e Afonso, j sentados, falavam
justamente do Gouvarinho, e dos artigos que ele continuava gravemente a
publicar no Jornal do Comercio.
- Que besta essa! exclamou Carlos numa voz que sibilava, desabafando sobre
a literatura poltica do marido a clera que lhe davam as importunidade
amorosas da mulher.
Afonso e Craft olharam-no, pasmados de tanta violncia. E Craft censurou-lhe
a ingratido. Porque, realmente, no havia em toda a terra um entusiasmo
como o que aquele desventuroso homem de estado tinha por Carlos...
- V. exc. no faz idia, senhor Afonso da Maia.  um culto.  uma idolatria!
Carlos encolhia os ombros, impaciente. E Afonso, j bem disposto para com o
homem que assim admirava to prodigamente o seu neto, murmurou com
bondade:
- Coitado, suponho que  inofensivo...
Craft fez uma ovao ao velho:
- Inofensivo! Admirvel, senhor Afonso da Maia! Inofensivo, aplicado a um
homem de estado, a um par, a um ministro, a um legislador,  um achado! E
 com efeito o que ele , inofensivo... E  o que eles so...
- Chablis? murmurou o escudeiro.
- No, tomo ch.
E acrescentou:
- Aquele champagne que ontem bebemos nas corridas, por patriotismo,
arrasou-me... Tenho de me pr uma semana a regimen de leite.
Ento falou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Cliford, e do vu
azul do Damaso.
- Ora quem estava ontem muito bem vestida era a Gouvarinbo, disse Craft
remexendo o seu ch. Ficava-lhe admiravelmente aquele branco creme,
tocado de tons negros. Uma verdadeira toilete de corridas... C'tait un oeilet
blanc panach de noir... Voc no achou, Carlos?
- Sim, rosnou Carlos, estava bem.
Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que no haveria na sua vida
conversa em que no surgisse a Gouvarinho, e que no haveria caminho na
sua vida que o no atravancasse a Gouvarinho! E ali mesmo,  mesa, decidiu
consigo no a tornar a ver, escrever-lhe um bilhete curto, polido, recusandose
a ir a Santarem, sem razes...
Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrete, sem
achar frase que no fosse pueril ou brutal. Nem tinha a simpatia precisa para
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lhe dar o banal tratamento de querida: Vinha-lhe at por ela uma indefinida
repulso fsica: devia ser intolervel toda uma noite o seu, cheiro exagerado
de verbena; - e lembrava-se que aquela pele do seu pescoo, que se lhe
afigurava outrora um cetim, tinha um tom pegajoso, um tom amarelado, para
alm da linha de ps d'arroz. Decidiu no lhe escrever. Iria  noite a Santa
Apolonia, e no momento do comboio partir correria  portinhola, a balbuciar
fugitivamente uma desculpa; no lhe daria tempo de choramigar, nem de
recriminar; um rpido aperto de mo, e adeus, para nunca mais...
 noite, porm,  hora de ir  estao, que sacrifcio em se arrancar aos
confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o coup
desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por causa de
uma rosa e de um certo vestido cor de folha morta que lhe ficava bem, ele se
achara cado com ela num sof...
Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois
minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, j quase vazia quela hora,
a comprar uma admisso; e ainda a esperou uma eternidade, vendo dentro
do postigo duas mos lentas e moles arranjar laboriosamente os patacos de
um troco.
Penetrava enfim na sala d'espera - quando esbarrou com o Damaso, de
chapu desabado e sacola de viagem a tiracolo. Damaso agarrou-lhe as mos,
enternecido:
-  menino! pois tiveste o incomodo?... E como soubeste tu que eu partia ?
Carlos no o desiludiu, balbuciando que lho dissera o Taveira, que encontrara
o Taveira...
- Pois eu estava mais longe de uma destas! exclamou o Damaso. Esta manh,
muito regalado na cama, quando me vem o telegrama... fiquei furioso! Isto ,
imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
Foi ento que Carlos reparou que ele estava carregado de luto, com fumo no
chapu, luvas pretas, polainas pretas, barca preta no leno... Murmurou,
embaraado:
- O Taveira disse-me que ias, mas no me disse mais nada... Morreu-te
algum?
- Meu tio Guimares.
- O comunista? o de Paris?
- No, o irmo dele, o mais velho, o de Penafiel... Espera a que eu volto j,
vou ali ao caf encher o frasco de conhaque. Com a aflio esquecia-me o
conhaque...
Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-p, com
chapeleiras na mo. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens.
Duma portinhola, onde se exibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet
bordado a retrs, pendia todo um cacho d'amigos polticos, respeitosamente e
em silncio. A um canto uma senhora soluava por baixo do vu.
Carlos, vendo um wagon com a papeleta de reservado imaginou l a condessa.
Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanao de um
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santurio. Que queria ele, que queria ele d'ali? No sabia que era o reservado
do senhor Carneiro?
- No sabia.
- Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,
atabafadamente, na amontoao dos embrulhos; num, dois sujeitos, a
propsito de lugares, tratavam-se de malcriados; adiante, uma criana
esperneava no colo da ama, aos gritos.
-  menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente,
surgindo por traz dele, e passando-lhe o brao pela cinta.
- Ningum... Imaginei que tinha visto o marqus.
Imediatamente Damaso queixou-se daquela lgubre massada de ter de ir a
Penafiel!
- E ento agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado
com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte danada!
Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abrao terno a Carlos, saltou para o
seu wagon, enterrou na cabea um barretinho de sda - e depois debruado
da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o contrariava era
deixar aquele arranjinho da rua de S. Francisco. Que ferro! agora que aquilo ia
to bem, o gajo no Brasil, e ela ali,  mo, a dois passos do Grmio!...
Carlos mal o escutava, distrado, olhando o grande relgio transparente. De
repente Damaso,  portinhola, deu um salto de surpresa:
- Olha os Gouvarinhos!
Carlos deu um salto tambm. O conde, de coco de viagem, de palet alvadio,
sem se apressar, como competia a um diretor da Companhia, vinha
conversando com um empregado superior da estao, agaloado de ouro, que
se encarregara da chapeleira de papelo de s. exc. E a condessa, com um
rico guarda-p de foulard cor de castanho, um vu cinzento que lhe cobria a
face e o chapu, seguia atrs, com a criada escocesa, trazendo na mo um
ramo de rosas.
Carlos correu para eles, foi todo um assombro.
- Por aqui, Maia?
- De viagem, conde?
 verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos anos do pap...
Resoluo da ltima hora, quase iam perdendo o comboio.
- Ento temo-lo por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mo ao pobre Damaso,
de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
Debruado da portinhola, com as mos de fora caladas de negro, o pobre
Damaso custava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E
o bom Gouvarinho no quis deixar de lhe ir dar logo o seu shake-hands e o
seu pesame.
Sozinho nesse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
- Que ferro!
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- Este maldito homem! exclamou ela, entre dentes, com um olhar que fuzilou
atravs do vu. Tudo to bem arranjado, e  ltima hora teima em vir!...
Carlos acompanhou-os at ao reservado, num outro wagon que se estivera
metendo de novo para s. exc. A condessa tomou o lugar do canto junto da
portinhola. E como o conde, num tom de polidez acida, a aconselhava a que se
sentasse antes com o rosto para a mquina, ela teve um gesto de
aborrecimento, atirou o ramo para o lado desabridamente, enterrou-se com
mais fora na almofada; e um duro olhar de clera passou entre ambos.
Carlos, embaraado, perguntava:
- Ento vo com demora?
O conde respondeu, sorrindo, disfarando o seu mau humor:
- Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
- Trs dias, o mais, replicou ela numa voz fria e afiada como uma navalha.
O conde no respondeu, lvido.
Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silncio cara sobre a
plataforma. O apito da mquina varou o ar; e o comprido trem, num rudo
seco de freios retesados, comeou a rolar, com gente s portinholas, que
ainda se debruava, estendendo a mo para um ltimo aperto. Aqui e alm
esvoaava um leno branco. O olhar da condessa para o lado de Carlos teve a
doura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o Ramalhete. O
compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro dilaceraste silvo o
comboio mergulhou na noite...
Carlos, s, dentro do coup, voltando  Baixa, sentia uma alegria triunfante
com aquela partida da condessa, e a inesperada jornada do Damaso. Era como
uma disperso providencial de todos os importunos: e assim se fazia em torno
da rua de S. Francisco uma solido - com todos os seus encantos, e todas as
suas cumplicidades.
No ces do Sodr deixou a carruagem, subiu a p pelo Ferregial, veio passar
diante das janelas na rua de S. Francisco. S pde ver uma vaga tira de
claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. Podia agora
imaginar com preciso o sero calmo que ela estava passando na larga sala de
reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ela lia, e as partituras que tinha
sobre o piano; e as flores que espalhavam ali o seu aroma vira-as ele arranjar
nessa manh. Poria ela um instante o seu pensamento nele? Decerto; a
doena em casa forava-a a lembrar as horas do remdio, as explicaes que
ele dera, e o som da sua voz; e falando com miss Sarah pronunciaria decerto
o seu nome. Duas vezes percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para
casa, sob a noite estrelada, devagar, ruminando a doura daquele grande
amor.
Ento todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, esplendida,
perfeita, a visita  inglesa.
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Saltava do leito, cantando como um canrio, e penetrava no seu dia como
numa aco triunfal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia uma
carta da Gouvarinho, trs folhas de papel donde caa sempre alguma pequena
flor meio murcha. Ele deixava ficar a flor no tapete: e mal podia dizer o que
havia naquelas longas linhas cruzadas. Sabia apenas vagamente que, trs dias
depois dela chegar ao Porto, o pai, o velho Thompson, tivera uma apoplexia.
Ela l estava, d'enfermeira. Depois, levando duas ou trs belas flores do
jardim embrulhadas num papel de sda, partia para a rua de S. Francisco,
sempre no seu coup - porque o tempo mudara, e os dias seguiam-se,
tristonhos, cheios de sudoeste e de chuva.
 porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.
Niniche corria de dentro, a pular d'amizade; ele erguia-a nos braos para a
beijar. Esperava um instante na sala, de p, saudando com o olhar os moveis,
os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a musica que ela
tocara essa manh, ou o livro que deixara interrompido, com a faca de marfim
entre as folhas.
Ela entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz de ouro tinham
cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia
ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas s vezes uma gravata de
rica renda antiga, ou um cinto cuja fivela era cravejada de pedras, avivavam
este traje sbrio, quase severo, que parreira a Carlos o mais belo, e como uma
expresso do seu espirito.
Comeavam por falar de miss Sarah, daquele tempo agreste e mido que lhe
era to desfavorvel. Conversando, ainda de p, ela dava aqui e alm um
arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que no estava no seu
alinho; tinha o habito inquieto de recompor constantemente, a simetria das
coisas; - e, maquinalmente, ao passar, sacudia a superfcie de moveis j
perfeitamente espanejados com as magnificas rendas do seu leno.
Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor
amarelo, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a caricia
desse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sair do movimento
das suas saias. Ela s vezes abria familiarmente a porta de um quarto, apenas
mobilado com um velho sof: era ali que Rosa brincava, e que tinha os
arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, a cozinha de Cri-cri.
Encontravam-na vestindo e conversando profundamente com a boneca; ou
ento, ao canto do sof, com os pssimos cruzados, imvel, perdida na
admirao dalgum livro destampas aberto sobre os joelhos. Ela corria,
estendia a boquinha a Carlos; e toda a sua pessoa tinha a frescura de uma
linda flor.
No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos ps do leito branco; e
logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, verificando a cada
instante se o leno de sda lhe cobria corretamente o pescoo, afirmava que
estava boa. Carlos gracejava com ela, provando-lhe que nesse feio tempo
d'inverno, a felicidade era estar ali na cama, com bons cuidados em redor,
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alguns romances patticos, e apetitosa dieta portugueza. Ela voltava os olhos
gratos para Madame, com um suspiro. Depois murmurava:
- Oh eis, I am very comfortable!
E enternecia-se.
Logo nos primeiros dias, ao voltar  sala, ria Eduarda tinha-se sentado na sua
cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomra muito naturalmente o
seu bordado como na presena familiar de um velho amigo. Com que
felicidade profunda ele viu desdobrar-se essa talagara! Devia ser um faiso
de plumagens rutilantes: mas por ora s estava bordado o galho de macieira
em que ele pousava, galho fresco de primavera, coberto de florzinhas brancas,
como num pomar da Normandia.
Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, ocupava a mais velha, a
mais cmoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas rangiam de leve.
Entre eles ficava a mesa de costura com as Ilustraes ou algum jornal de
modas; s vezes, um instante calado, ele folheava as gravuras, em quanto as
lindas mos de Maria, com brilhos de jias, iam puxando os fios de l. Aos ps
dela Niniche dormitava, espreitando-os a espaos, atravs das repas do
focinho, com o seu belo olho grave e negro. E nesses escuros dias de chuva,
cheios de friagem l fora e do rumor das goteiras, aquele canto da janela, com
a paz do vagaroso trabalho na talagara, as vozes lentas e amigas, e s vezes
um doce silncio, tinha um ar intimo e carinhoso...
Mas no que diziam no havia intimidadas. Falavam de Paris e do seu encanto,
de Londres onde ela estivera durante quatro lgubres meses de inverno, da
Itlia que era o seu sonho ver, de livros, de coisas d'arte. Os romances que
preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos Feuilet, por cobrir tudo de
p d'arroz, mesmo as feridas do corao. Apesar de educada num convento
severo d'Orleans, lra Michelet e lra Renan. De resto no era catolica
praticante; as igrejas apenas a atrahiam pelos lados graciosos e artsticos do
culto, a musica, as luzes, ou os lindos meses de Maria, em Frana, na doura
das flores de maio. Tinha um pensar muito reto e muito so - com um fundo
de ternura que a inclinava para tudo o que sofre e  fraco. Assim gostava da
Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos humildes.
Carlos provava-lhe rindo que ela era socialista.
- Socialista, legitimaste, orleanista, dizia ela, qualquer coisa, contanto que no
haja gente que tenha fome!
Mas era isso possvel? J Jesus, mesmo, que tinha to doces iluses, declarara
que pobres sempre os haveria...
- Jesus viveu ha muito tempo, Jesus no sabia tudo... Hoje sabe-se mais, os
senhores sabem muito mais...  necessrio arranjar-se outra sociedade, e
depressa, em que no haja misria. Em Londres, as vezes, por aquelas
grandes neves, h criancinhas pelos portais a tiritar, a gemer de fome...  um
horror! E em Paris ento!  que se no v seno o boulevard; mas quanta
pobreza, quanta necessidade...
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Os seus belos olhos quase se enchiam de lgrimas. E cada uma destas
palavras trazia todas as complexas bondadas da sua alma - como num s
sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou s suas caridade,
pedindo-lhe para ir ver a irm da sua engomadoria que tinha reumatismo, e o
filho da snr. Augusta, a velha do patamar, que estava tsico. Carlos cumpria
esses encargos com o fervor de caes religiosas. E nesta s piedades achavalhe
semelhanas com o av. Como Afonso, todo o sofrimento dos animais a
consternava. Um dia viera indignada da Praa da Figueira, quase com idias
de vingana, por ter visto nas tendas dos galinheiros aves e coelhos apinhados
em cestos, sofrendo durante dias as torturas da imobilidade e a ansiedade da
fome. Carlos levava estas belas colheras para o Ramalhete, increpava
violentamente o marqus, que era membro da Sociedade protetora dos
animais. O marqus, indignado tambm, jurava justia, falava em cadeias, em
costa d'frica... E Carlos, comovido, ficava a pensar quanta larga e distante
influencia pode ter, mesmo isolado de tudo, um corao que  justo.
Uma tarde falaram do Damaso. Ela achava-o insuportvel, com a sua
petulncia, os olhos bugalhudos, as perguntas nscias. V. exc. acha Nice
elegante? V. exc. prefere a capela de S. Joo Baptista a Notre-Dame?...
- E ento a insistncia de falar de pessoas que eu no conheo! A snr.
condessa de Gouvarinho, e os chs da snr. condessa de Gouvarinho, e a frisa
da snr. condessa de Gouvarinho, e a preferencia que a snr. condessa de
Gouvarinho tem por ele...! E isto horas! Eu s vezes tinha medo de
adormecer...
Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ela, entre todos, o nome da
Gouvarinho? Tranqilizou-se, vendo-a rir simples e limpidamente. Decerto no
sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre eles esse nome,
comeou a falar de Mr. Guimares, o famoso tio do Damaso, o amigo de
Gambeta, o influente da Republica...
- O Damaso tem-me dito que v. exc. o conhece muito...
Ela erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
- Mr. Guimares?... Sim, conheo muito... Ultimamente viamo-nos menos,
mas ele era muito amigo da mam.
E depois de um silncio, de um curto sorriso, recomeando a puxar o seu
longo fio de l:
- Pobre Guimares, coitado! A sua influencia na Republica  traduzir noticias
dos jornais espanhis e italianos para o Rape, que disso  que vive... Se 
amigo de Gambeta, no sei, Gambeta tem amigos to extraordinrios ... Mas
o Guimares, alis bom homem e homem honrado,  um grotesco, uma
espcie de Calino republicano. E to pobre, coitado! O Damaso, que  rico, se
tivesse decncia, ou o menor sentimento, no o deixava viver assim to
miseravelmente.
- Mas ento essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que fala o
Damaso...?
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Ela encolheu maduramente os ombros: e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
intolervel.
Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
penetrante. Ela quis saber a idade de Carlos, ele falou-lhe do av. E durante
essas horas suaves em que ela, silenciosa, ia picando a talagara, ele contoulhe
a sua vida passada, os planos de carreira, os amigos, e as viagens... Agora
ela conhecia a paisagem de Santa Olavia, o reverendo Bonifcio, as
excentricidades do Ega. Um dia quisque Carlos lhe explicasse longamente a
idia do seu livro A medicina antiga e moderna. Aprovou, com simpatia, que
ele pintasse as figuras dos grandes mdicos, benfeitores da humanidade.
Porque se glorificariam s guerreiros e fortes? A vida salva a uma criana
parecia-lhe coisa bem mais bela que a batalha de Austerlitz. E estas palavras
que dizia com simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado,
caam no corao de Carlos e ficavam l muito tempo, palpitando e
brilhando...
Ele tinha-lhe feito assim largamente todas as confisses; - e ainda no sabia
nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer a rua
que habitava em Paris. No lhe ouvira murmurar jamais o nome do marido,
nem falar de um amigo ou de uma alegria da sua casa. Parecia no ter em
Frana, onde vivia, nem interesses, nem lar; - e era realmente como a deusa
que ele ideara, sem contatos anteriores com a terra, descida da sua nuvem
doiro. para vir ter ali, naquele andar alugado da rua de S. Francisco, o seu
primeiro estremecimento humano.
Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham falado d'afeies. Ela
acreditava candidamente que pudesse haver, entre uma mulher e um homem,
uma amizade pura, imaterial, feita da concordncia amvel de dois espritos
delicados. Carlos jurou que tambm tinha f nessas bielas unies, todas
d'estima, rodas de razo contanto que se lhes misturasse, ao de leve que
fosse, uma ponta de ternura... Isso perfumava-as de um grande encanto - e
no lhes diminua a sinceridade. E, sob estas palavras um pouco difusas,
murmuradas por entre as malhas do bordado e com lentos sorrisos, ficara
subtilmente estabelecido que entre eles s deveria haver um sentimento
assim, casto, legitimo, cheio de suavidade e sem tormentos.
Que importava a Carlos? Contanto que podasse passar aquela hora na
poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas
interessantes, ou tornadas interessantes pela graa da sua pessoa; contanto
que visse o seu rosto, ligeiramente corado, baixar-se, com a lenta atrao de
uma caricia, sobre as flores que lhe trazia; contanto que lhe afagasse a alma a
certeza de que o pensamento dela o ficava seguindo simpaticamente atravs
do seu dia, mal ele deixava aquela adorada saia de reps vermelho - o seu
corao estava satisfeito, esplendidamente.
No pensava mesmo que aquela ideal amizade, d'inteno casta, era o
caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braos
ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomra ao ver-se de repente
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admitido a uma intimidade que julgara impenetrvel, - os seus desejos
desapareciam: longe dela, s vezes, ainda ousavam ir temerariamente at 
esperana de um beijo, ou de uma fugitiva caricia com a ponta dos dedos;
mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu olhar
negro, caa em devoo, e julgaria um ultraje bestial roar sequer as pregas
do seu vestido.
Foi aquele decerto o perodo mais delicado da sua vida. Sentia em si mil coisas
finas, novas, de uma tocante frescura. Nunca imaginara que houvesse tanta
felicidade em olhar para as estrelas quando o cu est limpo; ou em descer de
manh ao jardim para escolher uma rosa mais aberta. Tinha na alma um
constante sorriso - que os seus lbios repetiam. O marqus achava-lhe o ar
baboso e abenoado...
s vezes, passeando s no seu quarto, perguntara a si mesmo onde o levaria
aquele grande amor. No sabia. Tinha diante de si os trs meses em que ela
estaria em Lisboa, e em que ningum mais seno ele ocuparia a velha cadeira
ao lado do seu bordado. O marido andava longe, separado por lguas de mar
incerto. Depois ele era rico, e o mundo era largo...
Conservara sempre as suas grandes idias de trabalho, querendo que no seu
dia s houvesse horas nobres, - e que aquelas que no pertenciam s puras
felicidades do amor, pertencessem s alegrias fortes do estudo. Ia ao
laboratrio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscrito. Mas antes da visita 
rua de S. Francisco no podia disciplinar o espirito, inquieto, num tumulto
despenaras; e depois de voltar de l, passava o dia a recapitular o que ela
dissera, o que ele respondera, os seus gestos, a graa de certo sorriso...
Fumava ento cigarretes, lia os poetas.
Todas as noites no escritrio d'Afonso se formava a partida de whist. O
marqus batia-se ao domin com o Taveira, enfronhados ambos naquele vicio,
com um rancor crescente que os levava a injurias. Depois das corridas, o
secretario de Steinbroken comera a vir ao Ramalhete; mas era um intil,
nem cantava sequer como o seu chefe as bailadas da Finlndia; cabido no
fundo de uma poltrona, de casaca, de vidro no olho, bamboleando a perna,
cofiava silenciosamente os seus longos bigodes tristes.
O amigo que Carlos gostava de ver entrar era o Cruges - que vinha da rua de
S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. O
maestro sabia que Carlos ia rodas as manhs ao prdio ver a miss inglesa:
e muitas vezes, inocentemente, ignorando o interesse de corao com que
Carlos o escutava, dava-lhe as ltimas noticias da vizinha...
- A vizinha l ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execuo, tem expresso,
a vizinha... Ha ali estofo... E entende o seu Chopin.
Se ele no aparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa busca-lo: entravam no
Grmio, fumavam um charuto nalguma sala isolada, falando da vizinha:
Cruges achava-lhe um verdadeiro tipo de grande dame.
Quase sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como ele
dizia a faiscar d'ironia) o que se passava no pas do senhor Gambeta.
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Parecera remoar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade
d'esperana nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela
condessa. L estava no Porto, nos seus deveres de filha...
- E seu sogro?
O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
- Mal.
Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando Niniche que se
lhe viera sentar nos joelhos, quando Romo entreabriu discretamente o
reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraado, um ar de cumplicidade,
murmurou:
-  o senhor Damaso!...
Ela olhou o Romo, surpreendida daqueles modos, e quase escandalizada.
- Pois bem, mande entrar!
E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flor ao peito, gorducho,
risonho, familiar, com o chapu na mo, trazendo dependurado por um
barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao ver Carlos ali,
intimamente, de cadelinha no colo, estacou assombrado, com o olho
esbugalhado, como tonto. Enfim desembaraou as mos, veio comprimentar
Maria Eduarda quase de leve, - e voltando-se logo para Carlos, de braos
abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
- Ento tu aqui, homem? Isto  que  uma surpresa! Ora quem me diria!... Eu
estava mais longe...
Maria Eduarda, incomodada com aquele alarido, indicou-lhe vivamente uma
cadeira, interrompeu um instante o bordado, quis saber como ele tinha
chegado.
- Perfeitamente, minha senhora... Um bocado cansado, como  natural...
Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc. v - e mostrou o seu luto pesado
- acabo de passar por um grande desgosto.
Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
pousara os olhos no tapete. Vinha da provncia cheio de cr, cheio de sangue;
e como cortara a barba (que havia meses deixara crescer para imitar Carlos)
parecia agora mais bochechudo e mais ndio. As coxas rolias estalavam-lhe
de gordura dentro da cala de casimira preta.
- E ento, perguntou Maria Eduarda, temo-lo por c algum tempo?
Ele deu um puxosinho  cadeira, mais para junto dela, e outra vez risonho:
- Agora, minha senhora, ningum me arranca de Lisboa! Podem-me morrer...
Isto , credo! teria grande ferro se me morresse algum. O que quero dizer 
que ha de custar a arrancar-me D'aqui!
Carlos continuava muito sossegadamente a acariciar os plos da Niniche. E
houve ento um pequeno silncio. Maria Eduarda retomra o bordado. E
Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um jeito ao bigode, estendeu a
mo para acariciar tambm Niniche sobre os joelhos de Carlos. Mas a
cadelinha, que havia momentos o espreitava com o olho desconfiado, ergueuse,
rompeu a ladrar furiosa.
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- C'est moi Niniche! dizia Damaso, recuando a cadeira. C'est moi, ami... Alors,
Niniche...
Foi necessrio que Maria Eduarda repreendesse severamente Niniche. E,
aninhada de novo no colo de Carlos, ela continuou a espreitar Damaso,
rosnando, e com rancor.
- J me no conhece, dizia ele embaado,  curioso...
- Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito sria. Mas no sei o
que o senhor Damaso lhe fez, que ela tem-lhe dio.  sempre este escndalo.
Damaso balbuciava, escarlate:
- Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre caricias...
E ento no se conteve, falou com ironia, amargamente, das amizades novas
de Mademoisele Niniche. Ali estava nos braos doutro, enquanto que ele, o
amigo velho, era deitado ao canto...
Carlos ria.
-  Damaso, no a acuses de ingratido... Pois se a snr. D. Maria Eduarda
esta a dizer que ela sempre te teve dio...
- Sempre! exclamou Maria.
Damaso sorria tambm, lividamente. Depois, rifando um leno de barra negra,
limpando os beios e mesmo o suor do pescoo, lembrou a Maria Eduarda
como ela o tinha desapontado no dia das corridas... Ele toda a tarde 
espera...
- Eram vsperas de partida, disse ela.
- Sim, bem sei, o marido de v. exc.... E como vai o senhor Castro Gomes? V.
exc j recebeu noticias?
- No, respondeu ela com o rosto sobre o bordado.
Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoisele Rosa.
Depois por Cri-cri. Era necessrio no esquecer Cri-cri...
- Pois v. exc - continuou ele, cheio subitamente de loquacidade - perdeu, que
as corridas estiveram esplendidas... Ns ainda no nos vimos depois das
corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na estao... Pois no  verdade que
estiveram muito chics? Olhe, minha senhora, de uma coisa pode v. exc estar
certa,  que hipdromo mais bonito no ha l fora. Uma vista at  barra, que
 d'apetite... At se vem entrar os navios... Pois no  assim, Carlos?
- Sim, disse Carlos, sorrindo. No  propriamente um campo de corridas... 
verdade que no ha tambm propriamente cavalos de corridas... Verdade seja
que no ha jockeis... Ora  verdade que no ha apostas... Mas  verdade
tambm que no ha publico...
Maria Eduarda ria, alegremente.
- Mas ento?
- Vem-se entrar os navios, minha senhora...
Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
mal  fora... No senhor, no senhor!... Eram muito boas corridas. Tal qual
como l fora, as mesmas regras, tudo...
- At na pesagem, acrescentou ele muito srio, falamos sempre ingls!
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Repetiu ainda que as corridas eram chics. Depois no achou mais nada: - e
falou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que ele vira-se forado a ficar
em casa, estupidamente, a ler...
- Uma massada! Ainda se houvesse ali umas mulheres para ir dar um bocado
de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas de p
descalo, no tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. exc. no
tolero...
Carlos corra: mas Maria Eduarda parceia no ter ouvido, ocupada a contar
atentamente as malhas do seu bordado.
De repente Damaso recordou-se que tinha ali um presentinho para a snr. D.
Maria Eduarda. Mas no imaginasse que era alguma preciosidade...
Verdadeiramente at o presente era para Mademoisele Rosa.
- Olhe, para no estar com misterios, sabe o que ? Tenho-o ali. no
embrulhosinho de papel pardo... So seis barrilinhos d'ovos moles d'Aveiro. 
um doce muito clebre, mesmo l fora. S o de Aveiro  que tem chic...
Pergunte v. exc. ao Carlos. Pois no  verdade, Carlos, que  uma delicia, at
conhecido l fora?
- Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
Pousra Niniche no cho, erguera-se, fora buscar o seu chapu.
- J?... perguntou-lhe Marla Eduarda, com um sorriso que era s para ele. At
amanh, ento!
E voltou-se logo para o Damaso, esperando v-lo erguer-se tambm. Elo
conservou-se instalado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a
perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
- Au revoir, disse o outro. Recados l no Ramalhete, hei de aparecer!...
Carlos desceu as escadas furioso.
Ali ficava pois aquele imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, to
obtuso que no percebia o enfado dela, a sua regelada secura! E para que
ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em calo, e de
perna traada? E de repente lembrou-lhe o que ele lhe dissera na noite do
jantar do Ega,  porta do Hotel Central, a respeito da prpria Maria Eduarda, e
do seu sistema com mulheres que era o atraco. Se aquele idiota, de
repente, abrasado e bestial, ousasse um ultraje? A suposio era insensata,
talvez - mas reteve-o no ptio, aplicando o ouvido para cima, com idias
ferozes de esperar ali o Damaso, proibir-lhe de tornar a subir aquela escada,
e,  menor reflexo dele, esmagar-lhe o crnio nas lajes...
Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e saiu vivamente, no receio de ser assim
surpreendido  escuta. O coup do Damaso estacionava na rua. Ento veio-lhe
uma curiosidade mordente de saber quanto tempo ele ficaria ali com Maria
Eduarda. Correu ao Grmio; e apenas abrira uma vidraa - viu logo o Damaso
sair do porto, saltar para o coup, bater com forca a portinhola. Pareceu-lhe
que trazia o ar escorraado, e subitamente teve d daquele grotesco...
Nessa noite, depois de jantar, Carlos s no seu quarto fumava, enterrado
numa poltrona, relendo uma carta do Ega recebida nessa manh, - quando
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apareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapu, logo da porta,
exclamou, com o mesmo espanto da manh:
- Ento dize-me c! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a brazileira?...
Como a conheceste tu? Como foi isso?
Sem mover a cabea do espaldar da poltrona, cruzando as mos sobre os
joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, disse,
com uma doce repreenso paternal:
- Pois ento tu vs expor a uma senhora as tuas opinies lbricas sobre as
lavradeiras de Penafiel!
- No se trata disso, sei muito bem o que hei de expor! exclamou o outro,
vermelho. Conta l, anda... Que diabo! Parece-me que tenho direito a saber...
Como a conheceste tu?
Carlos, imperturbvel, cerrando os olhos como para se recordar, comeou num
tom lento e solene de recitativo:
- Por uma tpida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
doiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
Via-se-lhe na mo uma carta, lacrada com selo herldico; e a expresso do
seu semblante...
Damaso, j zangado, atirou com o chapu para cima da mesa.
- Parece-me que era mais decente deixar-te desses mistrios!
- Mistrios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras numa casa onde existe ha
quase um ms uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado,
petrificado, ao encontrar l o medicou! Quem esperavas tu ver l? Um
fotografo?
- Ento quem est doente?
Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronquite da inglesa - enquanto o
Damaso, sentado  beira do sof, mordendo o charuto sem lume, olhava para
ele desconfiado.
- E como soube ela onde tu moravas?
- Como se sabe onde mora o rei; onde  a alfndega; de que lado luz a estrela
da tarde; os campos onde foi Tria... Estas coisas que se aprendem nas aulas
de instruo primaria...
O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mos nos
bolsos.
- Ela tem agora l o Romo, o que foi meu criado, murmurou depois de um
silncio. Eu tinha-lho recomendado... Ela leva-se muito pelo que eu lhe digo...
- Sim, tem, por uns dias, enquanto o Domingos foi  terra. Vai manda-o
embora,  um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado mas maneiras...
Ento Damaso atirou-se para o canto do sof e confessou que ao entrar na
sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadelinha no colo, ficara
furioso... Enfim, agora que sabia que era por doena, bem, tudo se
explicava... Mas primeiro parecera-lhe que anafava ali tramia... S com ela,
ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que no fosse delicado; e alm
disso ela estava de mau humor...
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E acrescentou logo, acendendo o charuto:
- Que apenas tu saste, ps-se melhor, mais  vontade... Rimos muito... Eu
fiquei ainda at tarde, quase duas horas mais; era perto das cinco quando sai.
Outra coisa, ela falou-te alguma vez de mim?
- No.  uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, no se
atreveria a dizer-me mal de ti. Damaso olhou-o, esgazeado:
- Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
- No;  uma pessoa de bom senso, no se atreveria tambm.
E erguendo-se vivamente, Carlos abraou Damaso pela cinta, acariciando-o,
perguntando-lhe pela herana do titi, e em que amores, em que viagens, em
que cavalos de luxo ia gastar os milhes...
Damaso, sob aquelas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o de
revs.
- Olha que tu, disse ele, parece-me que me vs saindo tambm um traste...
No ha a gente fiar-se em ningum!
- Tudo na terra, meu Damaso,  aparncia e engano!
Seguiram d'ali  sala do bilhar fazer a partida de reconciliao. E pouco a
pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre ele o Ramalhete, Damaso foi
sossegando, risonho j, gozando de novo a sua intimidade com Carlos no meio
daquele luxo srio, e tratando-o outra vez por menino. Perguntou pelo
senhor Afonso da Maia. Quis saber se o belo marqus tinha aparecido. E o
Ega, o grande Ega?...
- Recebi carta dele, disse Carlos. Vem a, temo-lo talvez c no sbado.
Foi um espanto para o Damaso.
- Homem! essa  curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha dois
dias de Soutampton... Jogo eu ?
Jogou, falhou a carambola.
- Pois  verdade, encontrei-os hoje, falei-lhes um instante... E a Rachel vem
melhor, vem mais gorda... Trazia uma toilete inglesa com coisas brancas,
coisas cor de rosa... Chic a valer, parecia um moranguinho! E ento o Ega de
volta?... Pois, menino, ainda temos escndalo!
II
No sbado, com efeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua de S.
Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, metido num fato de cheviote claro,
e com o cabelo muito crescido.
- No faas espalhafato, gritou-lhe ele, que eu estou em Lisboa incgnito!
E em seguida aos primeiros abraos declarou que vinha a Lisboa, s por
alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava
com Carlos para lhe fornecer esses requintes, ali, no Ramalhete...
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- Ha c um quarto para mim? Eu por ora estou no Hotel Espanhol, mas ainda
nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de pinho,
larga bastante para se escrever uma obra sublime.
Decerto! Havia o quarto em cima, onde ele estivera depois de deixar a Vila
Balzac. E mais sumptuoso agora, com um belo leito da Renascena, e uma
cpia dos Borrachos de Velasquez.
- Optimo covil para a arte! Velasquez  um dos Santos Padres do
naturalismo... A propsito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O pai
Tompson esteve  morte, arribou, depois o conde foi busc-la. Achei-a magra;
mas com um ar ardente; e falou-me constantemente de ti.
- Ah! murmurou Carlos.
Ega, de monculo no olho e mos nos bolsos, contemplava Carlos.
-  verdade. Falou de ti constantemente, irresistivelmente, imoderadamente!
No me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o meu conselho, hein?
Muito bem feita de corpo, no  verdade? E que tal, no acto d'amor?
Carlos corou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a Gouvarinho
seno relaes superficiais. Ia l s vezes tomar uma chvena de ch; e 
hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar com o conde
sobre as misrias publicas,  esquina do Loreto. Nada mais.
- Tu ests-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas no importa. Eu hei de
descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira... Porque ns
vamos l jantar na segunda-feira.
- Ns... Ns, quem?
- Ns. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o Gouvarinho,
como compete ao indivduo daquela espcie, acrescentou logo que havamos
de ter tambm o nosso Maia. O Maia dele, e o Maia dela... Santo acordo!
Suavssimo arranjo!
Carlos olhou-o com severidade.
- Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
-  o fluo se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
Mas tambm Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega
porm j sabia. A chegada dos Cohens, no  verdade? Lera-o logo nessa
manh, na Gazeta Ilustrada no high-life. L se dizia respeitosamente que s.
exc.s tinham regressado do seu passeio pelo estrangeiro.
- E que impresso te fez? perguntou Carlos rindo.
O outro encolheu brutalmente os ombros:
- Fez-me o efeito de haver um cabro mais na cidade.
E, como Carlos o acusava outra vez de trazer de Celorico uma lngua imunda,
o Ega, um pouco corado, arrependido talvez, lanou-se em consideraes
criticas, clamando pela necessidade social de dar s coisas o nome exato. Para
que servia ento o grande movimento naturalista do sculo? Se o vicio se
perpetuava,  porque a sociedade, indulgente e romanesca, lhe dava nomes
que o embelezavam, que o idealizavam... Que escrpulo pode ter uma mulher
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em beijocar um terceiro entre os lenos conjugais, se o mundo chama a isso
sentimentalmente um romance, e os poetas o cantam em estrofes de ouro?
- E a propsito, a tua comedia, o Lodaal? perguntou Carlos, que entrara um
instante para a alcova de banho.
- Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E alm disso fazia-me
remexer na podrido lisboeta, mergulhar outra vez na sarjeta humana... Afiaime...
Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaqueto
claro e s botas com mau verniz.
- Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente mandou-te
fato de vero, hei de querer examinar esses cortes da alta civilizao... No ha
nega-o, diabo, esta minha linha est chinfrim!
Passou uma escova pelo bigode, e continuou falando para dentro, para a
alcova de banho:
- Pois, menino, eu agora o que necessito  o regimen da Chimera. Vou-me
atirar outra vez s Memorias. Ha de se fazer a uma quantidade d'arte colossal
nesse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a propsito, 
necessrio ir comprimentar o velho Afonso, uma vez que ele me vai dar o po,
o tecto, e a enxerga...
Foram encontrar Afonso da Maia no escritrio, na sua velha poltrona, com um
antigo volume da Ilustrao francesa aberto sobre os joelhos, mostrando as
estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e cabelo
encarapinhado. O velho ficou contentssimo ao saber que o Ega vinha por
algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bela fantasia.
- J no tenho fantasia, senhor Afonso da Maia!
Ento esclarec-lo com a tua clara razo, disse o velho rindo. Estamos c
precisando d'ambas as coisas, John.
Depois apresentou-lhe aquele pequeno cavalheiro, o senhor Manoelinho,
rapazinho amvel da vizinhana, filho do Vicente, mestre d'obras; o
Manoelinho vinha s vezes animar a solido d'Afonso - e ali folheavam ambos
livros d'estampas e tinham conversas filosficas. Agora, justamente, estava
ele muito embaraado por no lhe saber explicar como  que o general
Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu cavalo
empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, no era
melido na cada...
- Est visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraado, com as mos
cruzadas atrs das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na
cada!
- Hein, amigo Ega! dizia Afonso rindo. Que se ha de responder a esta bela
lgica? Olha, filho, agora que esto aqui estes dois senhores que so formados
em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu ver os bonecos ali para cima
da mesa... E depois vo sendo horas d'ires l dentro  Joana, para
merendares.
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Carlos, ajudando o pequeno a acomodar-se  mesa com o seu grande volume
d'estampas, pensava quanto o av, com aquele seu amor por crianas,
gostaria de conhecer Rosa!
Afonso no entanto perguntava tambm ao Ega pela comedia. O qu! J
abandonada? Quando acabaria ento o bravo John de fazer bocados
incompletos d'obras-primas?... - Ega queixou-se do pas, da sua indiferena
pela arte. Que espirito original no esmoreceria, vendo em torno de si esta
espessa massa de burgueses, amodorrada e crassa, desdenhando a
inteligncia, incapaz de se interessar por uma idia nobre, por uma frase bem
feita?
- No vale a pena, senhor Afonso da Maia. Neste pas, no meio desta
prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitarse
a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
- Pois ento, acudiu o velho, planta os teus legumes.  um servio 
alimentao publica. Mas tu nem isso fazes!
Carlos, muito srio, apoiava o Ega.
- A nica coisa a fazer em Portugal, dizia ele,  plantar legumes, enquanto no
ha uma revoluo que faa subir  superfcie alguns dos elementos originais,
fortes, vivos, que isto ainda cerre l no fundo. E se vir ento que no encerra
nada, demitamo-nos logo voluntariamente da nossa posio de pas para que
no temos elementos, passemos a ser uma frtil e estpida provncia
espanhola, e plantemos mais legumes!
O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia como
uma decomposio da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a glorificao
da sua inrcia. Terminou por dizer:
- Pois ento faam vocs essa revoluo. Mas pelo amor de Deus, faam
alguma coisa!
- O Carlos j no faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, a sua
toilete e o seu faeton, e por esse fato educa o gosto!
O relgio Luiz xv interrompeu-os - lembrando ao Ega que devia ainda, antes
de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Espanhol. Depois no corredor
confessou a Carlos que, antes de ir ao Espanhol, queria correr ao Filon, ao
fotografo, ver se podia tirar um bonito retrato.
- Um retrato?
- Uma surpresa que tem de ir daqui a trs dias para Celorico, para o dia de
anos de uma creaturinha que me adoou o exlio.
- Oh Ega!
-  horroroso, mas ento?  a filha do padre Corra, filha conhecida como tal;
alm disso casada com um proprietrio rico da vizinhana, reacionrio
odioso... De modo que, bem vs, esta dupla pea a pregar  Religio e 
Propriedade...
- Ah! nesse caso...
- Ningum se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democrticos!
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Na segunda-feira seguinte chuviscava quando Carlos e Ega, no coup fechado,
partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da condessa Carlos
vira-a s uma vez, em casa dela; e fora uma meia hora desagradvel, cheia
de mal-estar, com um ou outro beijo frio, e recriminaes infindveis. Ela
queixara-se das cartas dele, to raras, to secas. No se puderam entender
sobre os planos desse vero, ela devendo ir para Cintra onde j alugara casa,
Carlos falando no dever de acompanhar o av a Santa Olavia. A condessa
achava-o distrado: ele achou-a exigente. Depois ela sentou-se um instante
sobre os seus joelhos e aquele leve e delicado corpo pareceu a Carlos de um
fastidioso peso de bronze.
Por fim a condessa arrancara-lhe a promessa de a ir encontrar, justamente
nessa segunda-feira de manh, a casa da titi, que estava em Santarem; -
porque tinha sempre o apetite perverso e requintado de o apertar nos braos
nus, em dias que o devesse receber na sua sala, mais tarde, e com cerimonia.
Mas Carlos faltara, - e agora, rodando para casa dela, impacientavam-no j as
queixas que teria de ouvir nos vos de janela, e as mentiras chochas que teria
de balbuciar...
De repente o Ega, que fumava em silncio, abotoado no seu palet de vero,
bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e srio:
- Dize-me uma coisa, se no  um segredo sacrossanto... Quem  essa
brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhs?
Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
- Quem te falou nisso?
- Foi o Damaso que Mo disse. Isto , o Damaso que Mo rugiu... Porque foi de
dentes rilhados, a dar murros surdos num sof do Grmio, e com uma cor
d'apoplexia, que ele me contou tudo...
- Tudo o qu?
- Tudo. Que te apresentara a uma brazileira a quem se atirava, e que tu,
aproveitando a sua ausncia, te meteras l, no saias de l...
- Tudo isso  mentira! exclamou o outro, j impaciente.
E Ega, sempre risonho:
- Ento que  a verdade, como perguntava o velho Pilatus ao chamado
Jesus Cristo?
-  que ha uma senhora a quem o Damaso supunha ter inspirado uma paixo,
como supe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante inglesa com uma
bronquite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda no est melhor, eu
vou v-la todos os dias. E Madame Gomes, que  o nome da senhora, que
nem brazileira , no podendo tolerar o Damaso, como ningum o tolera, temlhe
fechado a sua porta. Esta  a verdade; mas talvez eu arranque as orelhas
ao Damaso!
Ega contentou-se em murmurar:
- E a est como se escreve a historia... v-se l a gente fiar em Guizot!
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Em silncio, at casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua clera contra
o Damaso. Ali estava pois rasgada por aquele imbecil a penumbra suave e
favorvel em que se abrigara o seu amor! Agora j se pronunciava o nome de
Maria Eduarda no Grmio: o que o Damaso dissera ao Ega, repeti-lo-ia a
outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez nos lupanares: e assim
o interesse supremo da sua vida sria da por diante constantemente
perturbado, estragado, sujo pela tagarelice reles do Damaso!
- Parece-me que temos c mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na
antecmara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canap um palet cinzento e
capas de sonhem.
A condessa esperava-os na salina ao fundo, chamada do busto, vestida de
preto, com uma tira de veludo em volta do pescoo picada de trs estrelas de
diamantes. Uma cesta de esplendidas flores quase enchia a mesa, onde se
acumulavam tambm romances ingleses, e uma Revista dos Dois Mundos em
evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Alm da boa D. Maria da
Cunha e da baronesa d'Alvim, havia uma outra senhora, que nem Carlos nem
Ega conheciam, gorda e vestida de escarlate; e de p, conversando baixo com
o conde, de mos atrs das costas, um cavalheiro alto, escaveirado, grave,
com uma barba rala, e a comenda da Conceio.
A condessa, um pouco corada, estendeu a Carlos a mo amuada e frouxa:
todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do
querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o senhor Sousa Neto. O senhor
Sousa Neto j tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um
medico distinto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de
Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputao, o poder-se
ter assim uma apreciao mais justa dos caracteres. Em Paris, por exemplo,
era impossvel; por isso havia tanta imoralidade, tanta relaxao...
- Nunca sabe a gente quem mete em casa.
O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no div, mostrando as
estrelinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu exlio em
Celorico, onde se distraia compondo sermes para o abade: o abade recitavaos;
e os sermes, sob uma forma mstica, eram de fato afirmaes
revolucionarias que o santo varo lanava com fervor, esmurrando o plpito...
A senhora de vermelho, sentada defronte, de mos no regao, escutava o Ega,
com o olhar espantado.
- Imaginei que v. ex. tinha ido j para Cintra, veio dizer Carlos  senhora
baronesa, sentando-se junto dela. V. exc.  sempre a primeira...
- Como quer o senhor que se v para Cintra com um tempo destes?
- Com efeito, est infernal...
- E que conta de novo? perguntou ela, abrindo lentamente o seu grande leque
preto.
- Creio que no ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte do
senhor D. Joo VI.
- Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
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-  verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc., senhora baronesa?
Ela nem baixou a voz para dizer:
- Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e no gosto dele, no
posso dizer nada...
- Oh senhora baronesa, que falta de caridade!
O escudeiro anunciara o jantar. A condessa tomou o brao de Carlos, - e, ao
atravessar o salo, entre o frouxo murmrio de vozes e o rumor lento das
caudas de sda, pde dizer-lhe asperamente:
- Esperei meia hora; mas compreendi logo que estaria entretido com a
brazileira...
Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel cor de vinho,
escurecida ainda por dois antigos painis de paisagem tristonha, a mesa oval,
cercada de cadeiras de carvalho lavrado, ressaltava alva e fresca, com um
esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos ficou 
direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que nesse dia parecia
um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
- Que tem feito todo este tempo, que ningum o tem visto? Perguntou-lhe ela,
desdobrando o guardanapo.
- Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
Defronte de Carlos, o senhor Sousa Neto, que tinha trs enormes coares no
peitilho da camisa, estava j observando, enquanto remexia a sopa, que a
senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas e
nos edifcios grandes mudanas... A condessa, infelizmente, mal tinha sado
durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse,  que admirara os
progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do Palcio de Cristal;
lembrou o fecundo antagonismo que existe entre Lisboa e Porto; mais uma
vez o comparou ao dualismo da ustria e da Hungria. E atravs destas coisas
graves, lanadas d'alto, com superioridade e com peso, a baronesa e a
senhora de escarlate, aos dois lados dele, falavam do convento das Selesias.
Carlos, no entanto, comendo em silncio a sua sopa, ruminava as palavras da
condessa. Tambm ela conhecia j a sua intimidade com a brazileira. Era
evidente pois que j andava ali, difamante e torpe, a tagarelice do Damaso. E
quando o criado lhe ofereceu Sauterne, estava decidido a bater no Damaso.
De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e
cantada:
- O senhor Maia  que deve saber... O senhor Maia j l esteve.
Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora de escarlate que lhe falava,
sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buo forte de quarentona plida.
Ningum lha apresentara, ele no sabia quem era. Sorriu tambm, perguntou:
- Onde, minha senhora?
- Na Rssia.
- Na Rssia?... No, minha senhora, nunca estive na Rssia.
Ela pareceu um pouco desapontada.
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- Ah,  que me tinham dito... No sei j quem me disse, mas era pessoa que
sabia...
O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera
apenas na Holanda.
- Pas de grande prosperidade, a Holanda!... Em nada inferior ao nosso... J
conheci mesmo um holands que era excessivamente instrudo...
A condessa baixara os olhos, partindo vagamente um bocadinho de po, mais
sria de repente, mais seca, como se a voz de Carlos, erguendo-se to
tranqila ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitas. Ele, ento, depois de
provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ela, muito naturalmente e
risonho:
- Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idia de ir  Rssia. Ha assim
uma infinidade de coisas que se dizem e que no so exatas... E se faz uma
aluso irnica a elas, ningum compreende a aluso nem a ironia...
A condessa no respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao
escudeiro. Depois, com um sorriso plido:
- No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto que
 verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...
- A senhora condessa tem ento uma credulidade infantil. Estou vendo que
acredita que era uma vez uma filha de um rei que tinha uma estrela na testa...
Mas o conde interpelava-o, o conde queria a opinio do seu amigo Maia.
Tratava-se do livro de um ingls, o major Brat, que atravessra a frica, e
dizia coisas perfidamente desagradveis para Portugal. O conde via ali s
inveja - a inveja que nos tm todas as naes por causa da importncia das
nossas colnias, e da nossa vasta influencia na frica...
- Est claro, dizia o conde, que no temos nem os milhes, nem a marinha dos
ingleses. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique  de primeira
ordem; e a tomada d'Ormuz  um primor... E eu que conheo alguma coisa de
sistemas coloniais, posso afirmar que no ha hoje colnias nem mais
susceptveis de riqueza, nem mais crentes no progresso, nem mais liberais
que as nossas! No lhe parece, Maia?
- Sim, talvez,  possvel... Ha muita verdade nisso...
Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o
monculo no olho e sorrindo para a baronesa, pronunciou-se alegremente
contra todas essas exploraes da frica, e essas longas misses
geogrficas... Porque no se deixaria o preto sossegado, na calma posse dos
seus manipansos? Que mal fazia  ordem das coisas que houvesse selvagens?
Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de pitoresco! Com
a mania francesa e burguesa de reduzir todas as regies e todas as raas ao
mesmo tipo de civilizao, o mundo ia tornar-se numa monotonia abominvel.
Dentro em breve um touriste faria enormes sacrifcios, despesas sem fim, para
ir a Tombuctu - para qu? Para encontrar l pretos de chapu alto, a ler o
Jornal dos Debates!
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O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, saindo do seu vago
abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
- Este Ega! Este Ega! Que graa! Que chic!
Ento Sousa Neto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta pergunta
grave:
V. exc. pois  em favor da escravatura?
Ega declarou muito decididamente ao senhor Sousa Neto que era pela
escravatura. Os desconfortas da vida, segundo ele, tinham comeado com a
libertao dos negros. S podia ser seriamente obedecido, quem era
seriamente temido... Por isso ningum agora lograva ter os seus sapatos bem
envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde que
no tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... S houvera
duas civilizaes em que o homem conseguira viver com razovel
comodidade: a civilizao romana, e a civilizao especial dos plantadores da
Nova Orleans. Porque? porque numa e noutra existira a escravatura absoluta,
a srio, com o direito de morte!...
Durante um momento o senhor Sousa Neto ficou como desorganizado. Depois
passou o guardanapo sobre os beios, preparou-se, encarou o Ega:
- Ento v. exc. nessa idade, com a sua inteligncia, no acredita no
Progresso?
- Eu no senhor.
O conde interveio, afvel e risonho:
- O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razo, tem
realmente razo, porque os faz brilhantes...
Estava-se servindo Jambon aux pinards. Durante um momento falou-se de
paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambm brilhantes e difceis de
sustentar, excessivamente difceis, era o Barros, o ministro do reino...
- Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Neto.
- Sim, pujante, disse o conde.
Mas ele agora no falava tanto do talento do Barros como parlamentar, como
homem de estado. Falava do seu espirito de sociedade, do seu esprit...
- Ainda este inverno ns lhe ouvimos um paradoxo brilhante! At foi em casa
da snr. D. Maria da Cunha... V. exc. no se lembra, senhor D. Maria? Esta
minha desgraada memria!  Thereza, lembras-te daquele paradoxo do
Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Enfim, um paradoxo muito difcil de
sustentar... Esta minha memria!... Pois no te lembras, Thereza?
A condessa no se lembrava. E enquanto o conde ficava remexendo
ansiosamente, com a mo na testa, as suas recordaes, - a senhora de
escarlate voltou a falar de pretos, e de escudeiros pretos, e de uma cozinheira
preta que tivera uma tia dela, a tia Vilar... Depois queixou-se amargamente
dos criados modernos: desde que lhe morrera a Joana, que estava em casa
havia quinze anos, no sabia que fazer, andava como tonta, tinha s
desgostos. Em seis meses j vira quatro caras novas. E umas desleixadas,
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umas pretensiosas, uma imoralidade!... Quase lhe fugiu um suspiro do peito, e
trincando desconsoladamente uma migalhinha de po:
-  baronesa, ainda tens a Vicenta?
- Pois ento no havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr. D.
Vicenta, se faz favor.
A outra contemplou-a um instante, com inveja daquela felicidade.
- E  a Vicenta que te penteia?
Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas sempre
caturra. Agora andava com a mania de aprender francs. J sabia verbos. Era
de morrer, a Vicenta a dizer j'aime, tu aimes...
- E a senhora baronesa, acudiu o Ega, comeou por lhe mandar ensinar os
verbos mais necessrios.
Est claro, dizia a baronesa, que aquele era o mais necessrio. Mas na idade
da Vicenta j de pouco lhe poderia servir!
- Ah! gritou de repente o conde, deixando quase cair o talher. Agora me
lembro!
Tinha-se lembrado enfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros que
os ces, quanto mais ensinados... Pois, no, no era isto!
- Esta minha desgraada memria!... E era sobre ces. Uma coisa brilhante,
filosfica at!
E, por se falar de ces, a baronesa lembrou-se do Tomi, o galgo da condessa;
perguntou por Tomi. J o no via ha que tempos, esse bravo Tomi! A condessa
nem queria que se falasse no Tomi, coitado! Tinham-lhe nascido umas coisas
nos ouvidos, um horror... Mandara-o para o Instituto, l morrera.
- Est deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se para
Carlos.
- Deliciosa.
E a baronesa, do lado, declarou tambm a galantine uma perfeio. Com um
olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e apressou-se a
responder ao senhor Sousa Neto, que, a propsito de ces, lhe estava falando
da Sociedade protetora dos animais. O senhor Sousa Neto aprovava-a,
considerava-a como um progresso... E, segundo ele, no sria mesmo de mais
que o governo lhe desse um subsidio.
- Que eu creio que ela vai prosperando... E merece-o, acredite a senhora
condessa que o merece... Estudei essa questo, e de todas as sociedades que
ultimamente se tm fundado entre ns,  imitao do que se faz l fora, como
a Sociedade de Geografia e outras, a Protetora dos animais parece-me decerto
uma das mais teis.
Voltou-se para o lado, para o Ega:
- V. exc. pertence?
-  Sociedade protetora dos animais?... No senhor, perteno a outra,  de
Geografia. Sou dos protegidos.
A baronesa teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
extremamente srio: pertencia  Sociedade de Geografia, considerava-a um
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pilar do Estado, acreditava na sua misso civilisadora, detestava aquelas
irreverncias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambm: - e de repente a
frialdade que at a os conservara ao lado um do outro reservados, numa
cerimonia afetada, pareceu dissipar-se ao calor desse riso trocado, no brilho
dos dois olhares encontrando-se irresistivelmente. Servira-se o Champagne,
ela tinha uma crzinha no rosto. O seu p, sem ela saber como, roou pelo p
de Carlos; sorriram ainda outra vez; - e, como no resto da mesa se
conversava sobre uns concertos clssicos que ia haver no Price, Carlos
perguntou-lhe, baixo, com uma repreenso amvel:
- Que tolice foi essa da brazileira?... Quem lhe disse isso?
Ela confessou-lhe logo que fora o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o
entusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhs inteiras que l passava,
todos os dias,  mesma hora... Enfim o Damaso fizera-lhe claramente entrever
uma liaison.
Carlos encolheu os ombros. Como podia ela acreditar no Damaso? Devia
conhecer-lhe bem a tagarelice, a imbecilidade...
-  perfeitamente verdade que eu vou a casa dessa senhora, que nem
brazileira , que  to portugueza como eu; mas  porque ela tem a
governante muito doente com uma bronquite, e eu sou o medico da casa. Foi
at o Damaso, ele prprio, que l me levou como medico!
No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do doce
alivio que se fazia no seu corao.
- Mas o Datoaso disse-me que era to linda!...
Sim, era muito linda. E ento? Um medico, por fidelidade s suas afeies, e
para as no inquietar, no podia realmente, antes de penetrar na casa de uma
doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
- Mas que est ela c a fazer?...
- Est  espera do marido que foi a negcios ao Brasil, e vem a...  uma
gente muito distinta, e creio que muito rica... Vo-se brevemente embora, de
resto, e eu pouco sei deles. As minhas visitas so de medico; tenho apenas
conversado com ela sobre Paris, sobre Londres, sobre as suas impresses de
Portugal...
A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo belo olhar
com que ele lhas murmurava: e o seu p apertava o de Carlos numa
reconciliao apaixonada, com a fora que desejaria pr num abrao - se ali
lho pudesse dar.
A senhora de escarlate, no entanto, recomeara a falar da Rssia. O que a
assustava  que o pas era to caro, corriam-se tantos perigos por causa da
dinamite, e uma constituio fraca devia sofrer muito com a neve nas ruas. E
foi ento que Carlos percebeu que ela era a esposa de Sousa Neto, e que se
tratava de um filho deles, filho nico, despachado segundo secretario para a
legao de S. Petersburgo.
- O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz do
leque.  um horror d'estupidez... Nem francs sabe! De resto no  pior que
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os outros... Que a quantidade de monos, de sensabores e de tolos que nos
representam l fora at faz chorar... Pois o menino no acha? Isto  um pas
desgraado.
- Pior, minha cara senhora, muito pior. Isto  um pas cursi.
Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu sorriso
cansado; a senhora de escarlate calara-se, j preparada, tendo mesmo
afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento em
que o Ega, ainda acerca da Rssia, acabava de contar uma historia ouvida a
um polaco, e em que se provava que o Czar era um estpido...
- Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o conde,
j de p.
Os homens, ss, acenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o caf. Ento
o senhor Sousa Neto, com a sua chvena na mo, aproximou-se de Carlos
para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu conhecimento...
- Eu tive tambm em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.... Pedro,
creio que era justamente o senhor Pedro da Maia. Comeava eu ento a minha
carreira publica... E o av de v. exc., bom?
- Muito agradecido a v. exc.
Pessoa muito respeitvel... O pai de v. exc. era... Enfim, era o que se chama
um elegante. Tive tambm o prazer de conhecer a me de v. exc....
E de repente calou-se, embaraado, levando a chvena aos lbios. Depois,
lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia com o
Gouvarinho sobre mulheres. Era a propsito da secretria da legao da
Rssia, com quem ele encontrara nessa manh o conde conversando ao
Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho nervoso e ondeado, os
seus grandes olhos garos... E o conde, que a admirava tambm, gabava-lhe
sobretudo o espirito, a instruo. Isso, segundo o Ega, prejudicava-a: porque
o dever da mulher era primeiro ser bela, e depois ser estpida... O conde
afirmou logo com exuberncia que no gostava tambm de literatas: sim,
decerto o lugar da mulher era junto do bero, no na biblioteca...
- No entanto  agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas
amenas, sobre o artigo de uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se
publica um livro... Enfim, no direi quando se trata de um Guizot, ou de um
Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata de um Feuilet, de um...
Enfim, uma senhora deve ser prendada. No lhe parece, Neto?
Neto, grave, murmurou:
- Uma senhora, sobretudo quando ainda  nova, deve ter algumas prendas...
Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
literrias, sabendo dizer coisas sobre o senhor Thiers, ou sobre o senhor Zola,
 um monstro, um fenmeno que cumpria recolher a uma companhia de
cavalinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher s devia ter
duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
- V. exc. decerto, senhor Sousa Neto, sabe o que diz Proudhon?
No me recordo textualmente, mas...
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Em todo o caso v. exc. conhece perfeitamente o seu Proudhon?
O outro, muito secamente, no gostando decerto daquele interrogatrio,
murmurou que Proudhon era um autor de muita nomeada.
Mas o Ega insistia, com uma impertinncia prfida:
- V. exc. leu evidentemente, como ns todos, as grandes paginas de
Proudhon sobre o amor?
O senhor Neto, j vermelho, pousou a chvena sobre a mesa. E quis ser
sarcstico, esmagar aquele moo, to literrio, to audaz.
- No sabia, disse ele com um sorriso infinitamente superior, que esse filosofo
tivesse escrito sobre assumptos escabrosos!
Ega atirou os braos ao ar, consternado:
- Oh senhor Sousa Neto! Ento v. exc., um chefe de famlia, acha o amor um
assumpto escabroso?!
O senhor Neto encordoou. E muito direito, muito digno, falando do alto da sua
considervel posio burocrtica:
-  meu costume, senhor Ega, no entrar nunca em discusses, e acatar rodas
as opinies alheias, mesmo quando elas sejam absurdas...
E quase voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, desejando
saber, numa voz ainda um pouco alterada, se ele agora se fixava algum tempo
mais em Portugal. Ento, durante um momento, acabando os charutos, os dois
falaram de viagens. O senhor Neto lamentava que os seus muitos deveres no
lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno fora esse o seu ideal; mas
agora, com tantas ocupaes publicas, via-se forado a no deixar a carteira.
E ali estava, sem ter visto sequer Badajoz...
- E v. exc. de que gostou mais, de Paris ou de Londres ?
Carlos realmente no sabia, nem se podia comparar... Duas cidades to
diferentes, duas civilizaes to originais...
- Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvo...
Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvo, sobretudo nos foges, quando
havia frio...
O senhor Sonsa Neto murmurou:
- E o frio ali deve ser sempre considervel... Clima to ao norte!...
Esteve um momento mamando o charuto, de plpebra cerrada. Depois, fez
esta observao sagaz profunda:
- Povo pratico, povo essencialmente pratico.
- Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a sala,
onde se sentiam as risadas cantantes da baronesa.
- E diga-me outra coisa, prosseguiu o senhor Sousa Neto, com interesse, cheio
de curiosidade inteligente. Encontra-se por l, em Inglaterra, desta literatura
amena, como entre ns, folhetinistas, poetas de pulso?...
Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com descaro:
- No, no ha disso.
- Logo vi, murmurou Sousa Neto. Tudo gente de negocio.
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E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baronesa, sentado
defronte dela, falando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soire de
Celorico, com detalhes picarescos sobre as autoridades, e sobre um abade que
tinha morto um homem e cantava fados sentimentais ao piano. A senhora de
escarlate, no sof ao lado, com os braos cados no regao, pasmava para
aquela veia do Ega como para as destrezas de um palhao. D. Maria, junto da
mesa, folheava com o seu ar cansado uma Ilustrao; e vendo que Carlos ao
entrar procurara com o olhar a condessa, chamou-o, disse-lhe baixo que ela
fora dentro vr Charlie, o pequeno...
-  verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado dela, que  feito dele,
desse lindo Charlie?
- Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
- A snr. D. Maria tambm me parece hoje um pouco murcha.
-  do tempo. Eu j estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento
vm s das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
propsito d'outras coisas: ento a Cohen tambm chegou?
Chegou, disse Carlos, mas no tambm. O tambm. O tambm implica
combinao... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De
resto isso  historia antiga,  como os amores de Helena e de Paris.
Nesse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e trazendo
aberto um grande leque negro. Sem se sentar, falando sobretudo para a
mulher do senhor Sousa Neto, queixou-se logo de no ter achado Charlie
bem... Estava to quente, to inquieto... Tinha quase medo que fosse
sarampo.- E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
- Eu estou com vergonha... Mas se o senhor Carlos da Maia quisesse ter o
incomodo de o vir vr um instante...  odioso, realmente, pedir-lhe logo
depois de jantar para examinar um doente...
- Oh senhora condessa! exclamou ele, j de p.
Seguiu-a. Numa saleta, ao lado, o conde e o senhor Sousa Neto, enterrados
num sof, conversavam fumando.
- Levo o senhor Carlos da Mala para vr o pequeno...
O conde erguera-se um pouco do sof, sem compreender bem. J ela passara.
Carlos seguiu em silncio a sua longa cauda de sda preta atravs do bilhar,
deserto, ornado de quatro retratos de damas, da famlia dos Gouvarinhos,
empoadas e sorumbticas. Ao lado, por traz de um pesado reposteiro de
fazenda verde, era um gabinete, com uma velha poltrona, alguns livros numa
estante envidraada, e uma escrivaninha onde pousava um candieiro sob o
abat-jour de renda cor de rosa. E a, bruscamente, ela parou, atirou os braos
ao pescoo de Carlos, os seus lbios prenderam-se aos dele num beijo
sfrego, penetrante, completo, findando num soluo de desmaio... Ele sentia
aquele lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braos, sobre os
joelhos sem fora.
- Amanh, em casa da titi, s onze, murmurou ela quando pde falar.
- Pois sim.
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Desprendida dele, a condessa ficou um momento com as mos sobre os olhos,
deixando desvanecer aquela languida vertigem, que a fizera cor de cera.
Depois, cansada e sorrindo:
- Que doida que eu sou... Vamos vr Charlie.
O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E a, numa caminha de ferro,
junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, com um barrico
cadopara o lado, os seus lindos coraes loiros espalhados no travesseiro
como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe apenas no pulso; e a criada
escocesa, que trouxera uma luz de sobre a cmoda, disse, sorrindo
tranqilamente:
- O menino nestes ltimos dias tem andado muitssimo bem...
Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, j com a mo
no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus lbios insaciveis. Ele colheu
um rpido beijo. E, ao passar na antecmara, onde Sousa Neto e o conde
continuavam enfronhados numa conversa grave, ela disse ao marido:
- O pequeno est a dormir... O senhor Carlos da Maia achou-o bem.
O conde de Gouvarinho bateu no ombro de Carlos, carinhosamente. E durante
um momento a condessa ficou ali conversando, de p, a deixar-se serenar,
pouco a pouco, naquela penumbra favorvel, antes de afrontar a luz forte da
sala. Depois, por se falar em higiene, convidou o senhor Sousa Neto para uma
partida de bilhar; mas o senhor Neto, desde Coimbra, desde a Universidade,
no pegara num taco. E ia-se chamar o Ega quando apareceu Teles da Gama,
que chegava do Price. Logo atrs dele entrou o conde de Steinbroken. Ento o
resto da noite passou-se no salo, em redor do piano. O ministro cantou
melodias da Finlndia. Teles da Gama tocou fados.
Carlos e Ega foram os derradeiros a sair, depois de um brandi and soda, de
que a condessa partilhou, como inglesa forte. E em baixo, no ptio, acabando
de abotoar o palet, Carlos pde enfim soltar a pergunta que lhe faiscara nos
lbios toda a noite:
-  Ega, quem  aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em
Inglaterra havia tambm literatura?
Ega olhou-o com espanto:
- Pois no adivinhaste? No deduziste logo? No viste imediatamente quem
neste pas  capaz de fazer essa pergunta?
- No sei... Ha tanta gente capaz...
E o Ega radiante:
- Oficial superior de uma grande repartio do Estado!
- De qual?
- Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instruo publica!
Na tarde seguinte, s cinco horas, Carlos, que se demorara de mais em casa
da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminveis, fez voar o
coup at  rua de S. Francisco, olhando a cada momento o relgio, num
receio de que Maria Eduarda tivesse sado por aquele lindo dia de vero,
luminoso e sem calor. Com efeito  porta dela estava a carruagem da
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Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado com a condessa,
sobretudo consigo mesmo, to fraco, to passivo, que assim se deixara
retomar por aqueles braos exigentes, cada vez mais pesados, e j incapazes
de o comover...
- A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltara da terra
havia trs dias, e ainda no cessara de lhe sorrir.
Sentada no sof, de chapu, tirando as uvas, ela acolheu-o com uma doce cor
no rosto, e uma carinhosa repreenso:
- Estive  espera mais de meia hora antes de sair...  uma ingratido!
Imaginei que nos tinha abandonado!
- Porqu? Est pior, miss Sarah?
Ela olhou-o, risonhamente escandalizada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia
seguindo perfeitamente na sua convalescena... Mas agora j no eram as
visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe
faltado.
Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava junto
da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratido infinita do seu
corao, que no ousava mostrar  me, p-la toda na longa caricia em que
envolveu a filha.
- So historias que a mam agora comprou, dizia Rosa, sria e presa ao seu
livro. Hei de ts contar depois... So historias de bichos.
Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapu.
- Quer tomar uma chvena de ch conosco, senhor Carlos da Maia? Eu vinha
morrendo por uma chvena de ch... Que lindo dia, no  verdade? Rosa, fica
tu a contar o nosso passeio enquanto eu vou tirar o chapu...
Carlos, s com Rosa, sentou-se junto dela, desviando-a do livro, tomando-lhe
ambas as mos.
- Fomos ao Passeio da Estrela, dizia a pequena. Mas a mam no se queria
demorar, porque tu podias ter vindo!
Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mosinhas de Rosa.
- E ento que fizeste no Passeio? perguntou ele, depois de um leve suspiro de
felicidade que lhe fugira do peito.
- Andei a correr, havia uns patinhos novos...
- Bonitos?...
A pequena encolheu os ombros:
- Chinfrinzitos.
Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa to feia?
Rosa sorriu. Fora o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas assim,
engraadas... Dizia que a Melanie era uma gaja... O Domingos tinha muita
graa.
Ento Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com to bonitos vestidos,
no devia dizer aquelas palavras... Assim falava a gente rota.
- O Domingos no anda roto, disse Rosa muito sria.
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E subitamente, com outra idia, bateu as palmas, pulou-lhe entre os joelhos,
radiante:
- E trouxe-me uns grilos da Praa! O Domingos trouxe-me uns grilos... Se tu
soubesses! Niniche tem medo dos grilos! Parece incrvel, hein? Eu nunca vi
ningum mais medrosa...
Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
-  a mam que lhe d tanto mimo.  uma pena!
Maria Eduarda entrava, agitando ainda de leve o ondeado do cabelo: e,
ouvindo assim falar de mimo, quis saber quem  que ela estragava com
mimo... Niniche? Pobre Niniche, coitada, ainda essa manh fora castigada!
Ento Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mos:
- Sabes como a mam a castiga? exclamava ela, puxando a manga de Carlos.
Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em ingls: Bad dog! dreadful dog!
Era encantadora assim, imitando a voz severa da mam, com o dedinho
erguido, a ameaar Niniche. A pobre Niniche, imaginando com efeito que a
estavam a repreender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sof. E foi
necessrio que Rosa a tranqilizasse, de joelhos sobre a pele de tigre,
jurando-lhe, por entre abraos, que ela nem era mau co, nem feio co; fora
s para contar como fazia a mam...
- Vai-lhe dar gua, que ela deve estar com sede, disse ento Maria Eduarda,
indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que nos traga o
ch.
Rosa e Niniche partiram correndo. Carlos veio ocupar, junto da janela, a
costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a sua intimidade,
houve entre eles um silncio difcil. Depois ela queixou-se de calor,
desenrolando distraidamente o bordado; e Carlos permanecia mudo, como se
para ele, nesse dia, apenas houvesse encanto, apenas houvesse significao
numa certa palavra de que os seus lbios estavam cheios e que no ousavam
murmurar, que quase receava que fosse adivinhada apesar dela sufocar o seu
corao.
- Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse ele por fim, impaciente de a
vr, to serena, a ocupar-se das suas ls.
Com a talagara desdobrada sobre os joelhos, ela respondeu, sem erguer os
olhos:
- E para que se ha de acabar? O grande prazer  and-lo a fazer, pois no
acha? Uma malha hoje, outra malha amanh, torna-se assim uma
companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
Uma sombra passou no rosto de Carlos. Nestas palavras, ditas de leve acerca
do bordado, ele sentia uma desanimadora aluso ao seu amor, - esse amor
que lhe fora enchendo o corao  maneira que a l cobria aquela talagara, e
que era obra simultnea das mesmas brancas mos. Queria ela pois conservlo
ali, arrastado como o bordado, sempre acrescentado e sempre incompleto,
guardado tambm no cesto da costura, para ser o desafogo da sua solido?
Disse-lhe ento, comovido:
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- No  assim. Ha coisas que s existem quando se completam, e que s
ento do a felicidade que se procurava nelas.
-  muito complicado isso, murmurou ela, corando.  muito subtil...
- Quer que lho diga mais claramente?
Nesse instante Domingos, erguendo o reposteiro, anunciou que estava ali o
senhor Damaso...
Maria Eduarda teve um movimento brusco de impacincia:
- Diga que no recebo!
Fora, no silncio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, lembrando-se
que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o seu coup. Santo
Deus! O que ele iria tagarelar agora, com os seus pequeninos rancores, assim
humilhado! Quase lhe pareceu nesse instante a existncia do Damaso
incompatvel com a tranqilidade do seu amor.
- Ali est outro inconveniente desta casa, dizia no entanto Maria Eduarda. Aqui
ao lado desse Grmio, a dois passos do Chiado,  demasiadamente acessvel
aos importunos. Tenho agora de repelir quase todos os dias este assalto 
minha porta!  intolervel.
E com uma sbita idia, atirando o bordado para o aafate, cruzando as mos
sobre os joelhos:
- Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... No me sria possvel
arranjar por a uma casinhola, um cotage, onde eu fosse passar os meses de
vero?... Era to bom para a pequena! Mas no conheo ningum, no sei a
quem me hei de dirigir...
Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes - como j noutra
ocasio em que ela mostrara desejos de ir para o campo. Justamente, nesses
ltimos tempos, Craft voltara a falar, e mais decidido, no antigo plano de
vender a quinta, e desfazer-se das suas colees. Que deliciosa vivenda para
ela, artstica e campestre, condizendo to bem com os seus gostos! Uma
tentao atravessou-o, irresistvel.
- Eu sei com efeito de uma casa... E to bem situada, que lhe convinha
tanto!...
- Que se aluga?
Carlos no hesitou:
- Sim,  possvel arranjar-se...
- Isso era um encanto!
Ela tinha dito - era um encanto. E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe
desamorvel e mesquinho o ter-lhe sugerido uma esperana, e no lha realizar
com fervor.
O Domingos entrara com o taboleiro do ch. E enquanto o colocava sobre uma
pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao p da janela, Carlos, erguendose,
dando alguns passos pela sala, pensava em comear imediatamente
negociaes com o Craft, comprar-lhe as colees, alugar-lhe a casa por um
ano, e oferece-a a Maria Eduarda para os meses de vero. E no considerava,
nesse instante, nem as dificuldades, nem o dinheiro. Via s a alegria dela
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passeando com a pequena, entre as belas arvores do jardim. E como Maria
Eduarda deveria ser mais grandemente formosa no meio desses moveis da
Renascena, severos e nobres!
- Muito acar? perguntou ela.
- No... Perfeitamente, basta.
Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chvena de porcelana
ordinria com um filetesinho azul, recordava o magnifico servio que tinha o
Craft, de velho Wedgewood, oiro e cor de fogo. Pobre senhora! to delicada, e
ali enterrada entre aqueles reps, maculando a graa das suas mos nas coisas
reles da me Cruges!
- E onde  essa casa? perguntou Maria Eduarda.
- Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se l numa hora de carruagem...
Explicou-lhe detalhadamente o sitio,- acrescentando, com os olhos nela, e com
um sorriso inquieto:
- Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se for para l
instalar-se, e depois vier o calor, quem  que a torna a vr?
Ela pareceu surpreendida:
- Mas que lhe custa, a si, que tem cavalos, que tem carruagens, que no tem
quase nada que fazer?...
Assim ela achava natural que ele continuasse nos Olivaes as suas visitas de
Lisboa! E pareceu-lhe logo impossvel renunciar ao encanto desta intimidade,
to largamente oferecida, e decerto mais doce na solido d'alda. Quando
acabou a sua chvena de ch - era como se a casa, os moveis, as arvores
fossem j seus, fossem j dela. E teve ali um momento delicioso,
descrevendo-lhe a quietao da quinta, a entrada por uma rua d'acacias, e a
beleza da sala de jantar com duas janelas abrindo sobre o rio...
Ela escutava-o, encantada:
- Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia
d'esperanas... Quando poderei ter uma resposta?
Carlos olhou o relgio. Era j tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na manh
seguinte cedo, ia falar com o dono da casa, seu amigo...
- Quanto incomodo por minha causa! disse ela. Realmente! como lhe hei de eu
agradecer?...
Calou-se; mas os seus belos olhos ficaram um instante pousados nos de
Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do
segredo que ela retinha no seu corao.
Ele murmurou:
- Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra vez
assim.
Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
- No diga isso...
- E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois no sabe perfeitamente que a
adoro, que a adoro, que a adoro!
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Ela ergueu-se bruscamente, ele tambm: - e assim ficaram, mudos, cheios
d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma
grande alterao no Universo, e eles esperassem, suspensos, o desfecho
supremo dos seus destinos... E foi ela que falou, a custo, quase desfalecida,
estendendo para ele, como se o quizesse afastar, as mos inquietas e
tremulas:
- Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja tarde
ha uma coisa que lhe quero dizer...
Carlos via-a assim tremer, via-a toda plida... E nem a escutra, nem a
comprehendcra. Sentia apenas, num deslumbramento, que o amor
comprimido at a no seu corao irrompera por fim, triunfante, e embatendo
no corao dela, atravs do aparente mrmore do seu peito, fizera de l
resaltar uma chama igual... S via que ela tremia, s via que ela o amava... E,
com a gravidade forte de um acto de posse, tomou-lhe lentamente as mos,
que ela lhe abandonou, submissa de repente, j sem fora, e vencida. E
beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os dedos, devagar,
murmurando apenas:
- Meu amor! meu amor! meu amor!
Maria Eduarda cara pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as mos,
erguendo para ele os olhos cheios de paixo, enevoados de lgrimas,
balbuciou ainda, debilmente, numa derradeira suplicao:
- Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...
Carlos estava j ajoelhado aos seus ps.
- Eu sei o que ! exclamou, ardentemente, junto do rosto dela, sem a deixar
falar mais, certo de que adivinhra o seu pensamento. Escusa de dizer, sei
perfeitamente.  o que eu tenho pensado tantas vezes!  que um amor como
o nosso no pode viver nas condies em que vivem outros amores vulgares...
 que desde que eu lhe digo que a amo,  como se lhe pedisse para ser minha
esposa diante de Deus...
Ela recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se no
comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mos dela presas,
penetrando-a toda da emoo que o fazia tremer:
- Sempre que pensava em si, era j com esta esperana de uma existncia
toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laos
presentes, pondo a nossa paixo acima de todas as fices humanas, indo ser
felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... Levamos
Rosa, est claro, sei que no se pode separar dela... E assim viveramos ss,
todos trs, num encanto!
- Meu Deus! Fugirmos? murmurou ela, assombrada.
Carlos erguera-se.
- E que podemos fazer? Que outra coisa podemos ns fazer, digna do nosso
amor?
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Maria no respondeu, imovel, a face erguida para ele, branca de cera. E pouco
a pouco uma idia parecia surgir n'ela, inesperada e perturbadora, revolvendo
todo o seu ser. Os seus olhos alargavam-se, anciosos e refulgentes.
Carlos ia falar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala deteve-o. Era
o Domingos que vinha recolher a bandeja do ch: e durante um momento,
quase interminavel, houve entre aqueles dois sres, sacudidos por um ardente
vendaval de paixo, a caseira passagera de um criado arrumando chavenas
vazias. Maria Eduarda, bruscamente, refugiou-se detraz das bambinelas de
cretone com o rosto contra a vidraa. Carlos foi sentar-se no sof, a folhear ao
acaso uma Ilustrao, que lhe tremia nas mos. E no pensava em nada, nem
sabia onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando
com ela, dizia ceremoniosamente minha cara senhora: depois houvera um
olhar; e agora deviam fugir ambos, e ela tornra-se o cuidado supremo da sua
vida, e a esposa secreta do seu corao.
- V. exc. quer mais alguna coisa? perguntou Domingos.
Maria Eduarda respondeu sem se voltar:
- No.
O Domingos saiu, a porta ficou cerrada. Ela ento atravessou a sala, veio para
Carlos, que a esperava no sof, com os braos estendidos. E era como se
obedecesse s ao impulso da sua ternura, calmadas j todas as incertezas.
Mas hesitou de novo diante daquela paixo, to prompta a apoderar-se de
todo o seu ser, e mumurou, quase triste:
- Mas conhece-me to pouco!... Conhece-me to pouco, para irmos assim
ambos, quebrando por tudo, criar um destino que  irreparavel...
Carlos tomou-lhe as mos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
- O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na vida!
Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do seu
corao, escutando-lhe as derradeiras agitaes. Depois soltou um longo
suspiro.
- Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria dizer, mas
no importa...  melhor assim!...
E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica
soluo digna, sria... E nada os podia embaraar; amavam-se, confiavam
absolutamente um no outro; ele era rico, o mundo era largo...
E ela repetia, mais firme agora, j decidida, e como se aquela resoluo a
cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, penetrando-a toda e para
sempre:
- Pois seja assim!  melhor assim!
Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
- Dize-me ao menos que s feliz, murmurou Carlos.
Ela lanou-lhe os braos ao pescoo: e os seus lbios uniram-se num beijo
profundo, infinito, quase imaterial pelo seu extasi. Depois Maria Eduarda
descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:
- Adeus, deixa-me s, vai.
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Ele tomou o chapu, e saiu.
No dia seguinte Craft, que havia uma semana no ia ao Ramalhete, passeava
na quinta antes d'almoo - quando apareceu Carlos. Apertaram as mos,
falavam um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, Carlos, fazendo
um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o horisonte, perguntou
rindo:
- Voc quer-me vender tudo isto, Craft?
O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mos nas algibeiras:
- A la disposicion de ustd...
E ali mesmo concluiram a negociao, passeando numa ruasinha de buxo por
entre os geranios em flr.
Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas mil e
quinhentas libras, pagas em prestaes: s reservava algumas raras peas do
tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte dessa nova coleco que planeava,
homogenea, e toda do sculo XVIII. E como Carlos no tinha no Ramalhete
lugar para este vasto bric--brac, Craft alugava-lhe por um ano a casa dos
Olivaes, com a quinta.
Depois foram almoar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza
que fazia, s para oferecer uma residncia de vero, por dois curtos meses - a
quem se contentaria com um simples cotage, entre arvores de quintal. Pelo
contrario! quando repercorreu as salas do Craft, j com olhos de dono, achou
tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de gosto.
Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu  rua de S. Francisco, a anunciar
a Maria Eduarda que lhe arranjra enfim definitivamente uma linda casa no
campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu encontro ao
patamar: ele ergueu-a nos braos, entrou assim na sala, com ela ao colo, em
triunfo. E no se conteve; foi  pequena que deu logo a grande novidade,
anunciando-lhe que ia ter duas vacas, e uma cabra, e flores, e arvores para se
balouar...
- Onde ? Dize, onde ? exclamava Rosa, com os lindos olhos
resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.
- D'aqui muito longe... Vai-se numa carruagem... Vem-se passar os barcos
no rio... E entra-se por um grande porto onde ha um co de fila.
Maria Eduarda apareceu, com Niniche ao colo.
- Mam, mam! gritou Rosa correndo para ela, dependurando-se-lhe do
vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouo...  verdade? Dize,
deixa vr, onde ? Dize... E vamos j para l?
Maria e Carlos apertaram a mo, com um longo olhar, sem uma palavra. E
logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a
sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, j, numa
semana... E assim se achava ela de repente com uma vivenda pitoresca,
mobilada num belo estilo, deliciosamente saudavel...
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Maria Eduarda parecia surprehendida, quase desconfiada.
- Ha de ser necessrio levar roupas de cama, roupas de mesa...
- Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quase tudo!  tal qual como
num conto de fadas... As luzes esto acsas, as jarras esto cheias de flores...
 s tomar uma carruagem e chegar.
- Smente,  necessrio saber o que esse paraso me vaicustar...
Carlos fez-se vermelho. No previra que se falasse em dinheiro - e que ela
quereria decerto pagar a casa que habitasse... Ento preferiu confessar-lhe
tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quase um ano, andava desejando
desfazer-se das suas coleces, e alugar a quinta: o av e ele tinham
repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e das faienas,
para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais Santa Olavia; e ele
enfim decidira-se a fazer essa compra desde que entrevira a felicidade de lhe
poder oferecer, por alguns meses de vero, uma residncia graciosa, e to
confortavel...
- Rosa, vai l para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de
silncio... Miss Sarah est  tua espera.
Depois, olhando para Carlos, muito sria:
- De sorte que, se eu no mostrasse desejos de ir para o campo, no tinha
feito essa despeza...
- Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambm alugado a casa por seis meses
ou por um ano... Onde possuia eu agora de repente um sitio para meter as
coisas do Craft? O que no fazia talvez era comprar conjuntamente roupas de
cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos criados, etc...
E acrescentou, rindo:
- Ora se me quizer indenisar disso podemos debater esse negocio...
Ela baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
- Em todo o caso seu av e os seus amigos devem saber daqui a dias que me
vou instalar nessa casa... E devem comprehender que a comprou para que eu
l me instalasse...
Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado dele. E isto
inquietou-o - o vl-a assim retrahir-se quela absoluta comunho d'interesses
em que a queria envolver, como esposa do seu corao.
- No aprova ento o que fiz? Seja franca...
- Decerto... Como no hei de eu aprovar tudo quanto faz, tudo quanto vem de
si? Mas...
Ele acudiu, apoderando-se das suas mos, sentindo-se triumfar:
- No ha mas! O av e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no
campo, intil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, se
quizer, meteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, se fosse
possvel que a nossa afeio se passasse fora do mundo, distante de todos os
olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, sria delicioso... Mas no pode ser!...
Alguem tem de saber sempre alguma coisa; quando no seja seno o cocheiro
que me leva todos os dias a sua casa, quando no seja seno o criado que me
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abre todos os dias a sua porta... Ha sempre algum que surprehende o
encontro de dois olhares; ha sempre algum que adivinha donde se vem a
certas horas... Os deuses antigamente arranjavam essas coisas melhor,
tinham uma nuvem que os tornava invisiveis. Ns no somos deuses,
felizmente...
Ela sorriu.
- Quantas palavras para converter uma convertida!
E tudo ficou harmonisado num grande beijo.
Afonso da Maia aprovou plenamente a compra das coleces do Craft.  um
valor, disse ele ao Vilaa, e acabamos d'encher com boa arte Santa-Olavia e o
Ramalhete.
Mas o Ega indignou-se, chegou a falar em desvario, despeitado por essa
transaco secreta para que no fora consultado. O que o irritava sobretudo
era vr, nesta acquisio inesperada de uma casa de campo, outro simptoma
do grave e do fundo segredo que presentia na vida de Carlos: e havia j duas
semanas que ele habitava o Ramalhete e Carlos ainda no lhe fizera uma
confidencia!... Desde a sua ligao de rapazes em Coimbra, nos Paos de Cela,
fora ele o confessor secular de Carlos: mesmo em viagem, Carlos no tinha
uma aventura banal d'hotel, de que no mandasse ao Ega um relatorio. O
romance com a Gouvarinho, de que Carlos ao principio tentra, frouxamente,
guardar um misterio delicado, j o conhecia todo, j lra as cartas da
Gouvarinho, j passra pela casa da titi...
Mas do outro segredo no sabia nada - e considerava-se ultrajado. Via rodas
as manhs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando flores; via-o
chegar de l, como ele dizia, besuntado d'extasi; via-lhe os silencios
repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao mesmo tempo srio e ligeiro,
risonho e superior, do homem profundamente amado... E no sabia nada.
Justamente alguns dias depois, estando ambos ss, a falar de planos de vero,
Carlos aludiu aos Olivaes, com entusiasmo, relembrando algumas das
preciosidades do Craft, o doce sossego da casa, a clara vista do Tejo... Aquilo
realmente fora obter por uma mo cheia de libras um pedao do paraso...
Era  noite, no quarto de Carlos, j tarde. E o Ega, que passeara com as mos
nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os ombros, impaciente, farto
daqueles louvores eternos a casinhola do Craft.
- Essa concepo do paraso, exclamou ele, parece-me de um estofador da rua
Augusta! Como natureza, couves galegas; como decorao, os velhos cretones
do gabinete, desbotados j por trs barrelas... Um quarto de dormir lugubre
como uma capela de santuario... Um salo confuso como o armazem de um
cara-de-pau, e onde no  possvel conversar... A no ser o armario holandez,
e um ou outro prato, tudo aquilo  um lixo archeologico... Jesus! o que eu
odeio bric--brac!
Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquilamente, e como reflectindo:
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- Com efeito esses cretones so medonhos... Mas eu vou mandar remobilar,
tornar aquilo mais habitavel.
Ega estacou no meio do quarto, com o monculo a faiscar sobre Carlos.
- Habitavel? Vaes ter hospedes?
- Vou alugar.
- Vaes alugar! A quem?
E o silncio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrete com os olhos no tecto,
enfureceu Ega. Comprimentou quase at ao cho, disse sarcasticamente:
- Peo perdo. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar uma
gaveta fechada... O aluguel de um predio  sempre um desses delicados
segredos de sentimento e de honra em que no deve roar nem a aza da
imaginao... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega - e quase sentia um
remorso daquela sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o enleava,
lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas as suas
outras aventuras as contra ao Ega; e essas confidencias constituiam talvez
mesmo o prazer mais solido que elas lhe davam. Isto, porm, no era uma
aventura. Ao seu amor misturava-se alguma coisa de religioso; e, como os
verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre a sua f... Todavia, ao
mesmo tempo, sentia uma tentao de falar dela ao Ega, e de tornar vivas, e
como visiveis aos seus prprios olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o
seu relevo, as coisas divinas e confusas que lhe enchiam o corao. Alm
disso, Ega no saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarelice alheia?
Antes lh'o dissesse ele, fraternalmente. Mas hesitou ainda, acendeu outra
cigarrete. Justamente o Ega tomra o seu castial, e comeava a: acendel-o a
uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
- No sejas tolo, no te vs deitar, senta-te a, disse Carlos.
E contou-lhe tudo miudamente, difusamente, desde o primeiro encontro, 
entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sof. Supusera um
romancesinho, desses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: e
agora, s pelo modo como Carlos falava daquele grande amor, ele sentia-o
profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal tornando-se da por
diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. Imaginra uma brazileira
polida por Paris, bonita e futil, que tendo o marido longe, no Brasil, e um
formoso rapaz ao lado, no sof, obedecia simplesmente e alegremente 
disposio das coisas: e saa-lhe uma criatura cheia de caracter, cheia de
paixo, capaz de sacrificios, capaz de heroismos. Como sempre, diante destas
coisas pateticas, murchava-lhe a veia, faltava-lhe a frase; e quando Carlos se
calou, o bom Ega teve esta pergunta chcha:
- Ento ests decidido a safar-te com ela?
- A safar-me, no; a ir viver com ela longe d'aqui, decididissimo!
Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um fenomeno
prodigioso, e murmurou:
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-  d'arromba!
Mas que outra coisa podiam eles fazer? D'a a trs meses talvez, Castro
Gomes chegava do Brasil. Ora nem Carlos, nem ela, aceitariam nunca uma
dessas situaes atrozes e reles em que a mulher  do amante e do marido, a
horas diversas... S lhes restava uma soluo digna, decente, sria - fugir.
Ega, depois de um silncio, disse pensativamente:
- Para o marido  que no  talvez divertido perder assim, de uma vez, a
mulher, a filha, e a cadelinha...
Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambm ele j pensra
n'isso... E no sentia remorsos - mesmo quando os podesse haver no absoluto
egoismo da paixo... Ele no conhecia intimamente Castro Gomes: mas tinha
podido adivinhar o tipo, reconstruil-o, pelo que lhe dissera o Damaso, e por
algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes no era um esposo a srio:
era um dandi, um futil, um gomeux, um homem de sport e de cocotes...
Casra com uma mulher bela, sacira a paixo, e recomera a sua vida de
club e de bastidores... Bastava olhar para ele, para a sua toilete, para os seus
modos - e compreendia-se logo a trivialidade daquele caracter...
- Que tal  como homem? perguntou Ega.
- Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um rastaquoure, o
verdadeiro tiposinho do Caf de la Paix...  possvel que sinta, quando isto vier
a suceder, um certo ardor na vaidade ferida... Mas  um corao que se ha de
consolar facilmente nas Folies Bergres.
Ega no dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel
nas Folies Bergres, pode todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado
por uma outra idia, acrescentou:
- E teu av?
Carlos encolheu os ombros:
- O av tem de se afligir um pouco para eu poder ser profundamente feliz;
como eu teria de ser desgraado toda a minha vida se quizesse poupar ao av
essa contrariedade... O mundo  assim, Ega... E eu, nesse ponto, no estou
decidido a fazer sacrificios.
Ega esfregou lentamente as mos, com os olhos no cho, repetindo a mesma
palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquelas coisas
vehementes:
-  d'arromba!
III
Carlos, que almora cedo, estava para sair no coup, e j de chapu- quando
Baptista veio dizer que o senhorEga, desejando falar-lhe numa coisa grave, lhe
pedia para esperar um instante. O senhorEga ficra a fazer a barba.
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Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ela
chegra a Lisboa, Ega ainda a no vira, e falava dela raramente. Mas Carlos
sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhs o pobre Ega mostrava
um desapontamento ao receber o correio, que s lhe trazia algum jornal
cintado, ou cartas de Celorico.  noite percorria dois, trs teatros, j quase
vazios naquele comeo de vero; e ao recolher era outra desconsolao,
quando os criados lhe afirmavam, com certeza, que no viera carta alguma
para s. exc. Decerto Ega no se resignava a perder Rachel, anciava por a
encontrar; e roa-o o despeito de que ela, de qualquer modo, lhe no tivesse
mostrado que no seu corao permanecia ao menos a saudade das antigas
felicidades... Justamente na vespera Ega aparecera  hora do jantar,
transtornado: cruzra-se com o Cohen na rua do Ouro, e parecera-lhe que
esse canalha lhe atirra de lado um olhar atrevido, sacudindo a bengala; o
Ega jurava que se esse canalha ousasse outra vez fital-o, espedaava-o,
sem piedade, publicamente, a uma esquina da Baixa.
Na ante-cmara o relgio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir ao
quarto do Ega. Mas nesse instante o correio chegava, com a Revista dos Dois
Mundos, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos acabava de a lr
- quando o Ega apareceu, de jaqueto, e em chinelas.
- Tenho a falar-te numa coisa grave, menino.
- L isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.
A Gouvarinho, num tom amargo, queixava-se que, j por duas vezes, Carlos
faltra ao rendez-vous em casa da titi, sem lhe ter sequer escripto uma
palavra; ela vira n'isto uma ofensa, uma brutalidade; e vinha agora intimal-o,
em nome de todos os sacrificios que por ele fizera, a que aparecesse na rua
de S. Maral, domingo ao meio dia, para terem uma explicao definitiva antes
dela partir para Cintra.
- Excelente ocasio d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a Carlos,
depois de respirar o perfume do papel. No vs, nem respondas... Ela parte
para Cintra, tu para Santa Olavia, no vos vdes mais, e assim finda o
romance. Finda como todas as coisas grandes, como o Imperio Romano, e
como o Rheno, por disperso, insensivelmente...
-  o que eu vou fazer, disse Carlos, comeando a calar as luvas. Jesus! Que
mulher massadora!
- E que desavergonhada! Chamar a essas coisas sacrificios!... Arrasta-te
duas vezes por semana a casa da titi, regala-se l de extravagancias, bebe
champagne, fuma cigarretes, sobe ao setimo co, delira, e depois pe
dolorosamente os olhos no cho, e chama a isso sacrificios... S com um
chicote!...
Carlos encolheu os ombros, com resignao, como se nas condessas de
Gouvarinho, e no mundo, s houvesse incoherencia e dlo.
- E que  isso que tu me tinhas a dizer?
Ega ento tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma cigarrete,
abotoou devagar o jaqueto.
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- Tu no tens visto o Damaso?
- Nunca mais me apareceu, disse Carlos. Creio que est amuado... Eu sempre
que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois dedos...
- Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda a, por toda a parte, falando
de ti e dessa senhora, tua amiga... A ti chama-te pulha, a ela pior ainda.  a
velha historia; diz que te apresentou, que te meteste de dentro, e como para
essa senhora  uma questo de dinheiro, e tu s o mais rico, ela lhe passou o
p.. Vs da a infamiasinha. E isto tagarelado pelo Gremio, pela Casa
Havaneza, com detalhes torpes, envolvendo sempre a questo de dinheiro.
Tudo isto  atroz. Trata de lhe pr cobro.
Carlos, muito plido, disse simplesmente:
- Ha de se fazer justia.
Desceu, indignado. Aquela torpe insinuao sobre dinheiro parecia-lhe
poder ser castigada s com a morte. E um instante mesmo, com a mo no
fecho da portinhola do coup, pensou em correr a casa do Datoaso, tomar um
desforo brutal.
Mas eram quase onze horas, e ele tinha de ir aos OIivaes. No dia seguinte,
sabbado, dia belo entre todos e solene para o seu corao, Maria Eduarda
devia enfim visitar a quinta do Craft: e ficra combinado, na vespera, que
passariam l as horas do calor, at tarde, ss, naquela casa solitaria e sem
criados, escondida entre as arvores. Ele pedira-lh'o assim, hesitante e a
tremer: ela consentira logo, sorrindo e naturalmente. Nessa manh ele
mandra aos Olivaes dois criados para arejar as salas, espanejar, encher tudo
de flores. Agora ia l, como um devoto, vr se estava bem enfeitado o sacrario
da sua deusa... E era atravs destes deliciosos cuidados, em plena ventura,
que lhe aparecia outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a
tagarelice do Damaso!
At aos Olivaes, no cessou de ruminar coisas vagas e violentas que faria para
aniquilar o Damaso. No seu amor no haveria paz, emquanto aquele vilo o
andasse comentando sordidamente pelas esquinas das ruas. Era necessrio
enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que ele no ousasse mais
mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... Quando o coup parou 
porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas no Damaso, uma tarde, no
Chiado, com aparato...
Mas depois, ao regressar da quinta, vinha j mais calmo. Pisra a linda rua
d'acacias que os ps dela pisariam na manh seguinte: dera um longo olhar ao
leito que sria o leito dela, rico, alado sobre um estrado, envolto em
cortinados de brocatel cor de ouro, com um esplendor srio d'altar profano...
D'a a poucas horas, encontrar-se-hiam ss naquela casa muda e ignorada do
mundo; depois, todo o vero os seus amores viveriam escondidos nesse fresco
retiro d'alda; e da a trs meses estariam longe, na Itlia,  beira de um claro
lago, entre as flores d'Isola Bela... No meio destas voluptuosidades magnificas,
que lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calo nos
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bilhares do Gremio! Quando chegou  rua de S. Francisco resolvera, se visse o
Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
Maria Eduarda fora passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em
que lhe pedia para vir  noite faire un bout de causerie. Carlos desceu as
escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na carteira como uma
doce reliquia; e saa o porto, no momento em que o Alencar desembocava
defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, moroso e pensativo. Ao
avistar Carlos, parou de braos abertos; depois vivamente, como recordandose,
ergueu os olhos para o primeiro andar.
No se tinham visto desde as corridas, o poeta abraou com efuso o seu
Carlos. E falou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, em
Colares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrra do rico dia passado
com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma beleza. Ele, um pouco
constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, to erudito e to profundo,
apesar da excelente musica da mulher, da Julinha (que para ele era como uma
irm), tinha-se aborrecido. Questo de velhice...
- Com efeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o teu ar
aureolado.
O poeta encolheu os ombros.
- O Evangelho l o diz bem claro... Ou  a Bblia que o diz...? No;  S.
Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Enfim a autoridade no faz ao caso.
Num desses santos livros se afirma que este mundo  um vale de lgrimas...
- Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
O poeta tornou a encolher os ombros. Lagrimas ou risos, que importava?...
Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera ele dissera isso mesmo em
casa dos Cohens...
E de repente, estacando no meio da rua, tocando no brao de Carlos:
- E agora por falar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu rapaz.
Eu sei que tu s intimo do Ega, e, que diabo, ningum lhe admira mais o
talento do que eu!... Mas, realmente, tu aprovas que ele, apenas soube da
chegada dos Cohens, se viesse meter em Lisboa? Depois do que houve!...
Carlos afianou ao poeta que o Ega s no dia mesmo da chegada, horas
depois, soubera pela Gazeta Ilustrada a vinda dos Cohens... E de resto se no
podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas entre as quaes
tivesse havido atritos desagradaveis, as sociidades humanas tinham de se
desfazer...
Alencar no respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabea baixa.
Depois parou de novo, franzindo a testa:
- Outra coisa em que te quero falar. Houve entre ti e o Damaso alguma pga?
Eu pergunto-te isto porque noutro dia, l em casa dos Cohens, ele veio com
uns ditos, umas insinuaes... Eu declarei-lhe logo: Damaso, Carlos da Maia,
filho de Pedro da Maia,  como se fosse meu irmo. E o Damaso calou-se...
Calou-se, porque me conhece, e sabe que eu nesta s coisas de lealdade e de
corao sou uma fera!
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Carlos disse simplesmente:
- No, no ha nada, no sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
- Pois  verdade, continuou Alencar tomando o brao de Carlos, lembrei-me
muito de ti em Cintra. At fiz l um coisita que me no saiu m, e que te
dediquei... Um simples soneto, uma paisagem, um quadrosinho de Cintra ao
pr do sol. Quiz provar a a esses da Ida Nova, que, sendo necessrio,
tambm por c se sabe cinzelar o verso moderno e dar o trao realista. Ora
espera a, eu te digo, se me lembrar. A coisa chama-se - Na estrada dos
Capuchos...
Tinham parado  esquina do Seixas; e o poeta tossira j de leve, antes de
recitar, - quando justamente lhes apareceu o Ega, vindo de baixo, vestido de
campo, com uma bela rosa branca no jaqueto de flanela azul.
Alencar e ele no se encontravam desde a fatal soire dos Cohens. E ao passo
que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo n'ele o
inventor dessa perfida lenda da carta obscena- Alencar odiava-o pela
certeza secreta de que ele fora o amante amado da sua divina Rachel. Ambos
se fizeram palidos; o aperto de mo que deram foi incerto e regelado; e
ficaram calados, todos trs, emquanto Ega nervoso levava uma eternidade a
acender o charuto no lume de Carlos. Mas foi ele que falou, por entre uma
fumaa, afectando uma superioridade amvel:
- Acho-te com boa cr, Alencar!
O poeta foi amvel tambm, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:
- Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos ds essas Memorias homem?
- Estou  espera que o pas aprenda a lr.
- Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, ele
ocupa-se da Instruo publica... Olha, ali o tens tu, grave e co como uma
coluna do Diario do Governo...
O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o
Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado deles,
de chapubranco, de colete branco, o Damaso deitava olhares pelo Chiado,
risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus dominios. J
aquele arzinho gordo de tranqilo triunfo irritou Carlos. Mas quando o Damaso
parou defronte, no outro passeio, todo de costas para ele, ostentando rir alto
com o Gouvarinho, no se conteve, atravessou a rua.
Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mo do Gouvarinho, saudou de leve o Cohen:
e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
- Ouve l. Se continas a falar de mim e de pessoas das minhas relaes, do
modo como tens falado, e que no me convm, arranco-te as orelhas.
O conde acudiu, metendo-se entre eles:
- Maia, por quem ! Aqui no Chiado...
- No  nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito srio e muito sereno.
 apenas um aviso a este imbecil.
- Eu no quero questes, eu no quero questes!... balbuciou o Damaso,
lvido, enfiando para dentro de uma tabacaria.
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E Carlos voltou, com sossego, para junto dos seus amigos, depois de ter
saudado o Cohen e sacudir a mo ao Gouvarinho.
Vinha apenas um pouco plido: mais perturbado estava o Ega, que julgra vr
de novo, num olhar do Cohen, uma provocao intoleravel. S o Alencar no
reparra em nada: continuava a discursar sobre coisas literarias, explicando
ao Ega as concesses que se podiam fazer ao naturalismo...
- Fiquei aqui a dizer ao Ega...  evidente que quando se trata de paisagem 
necessrio copiar a realidade... No se pode descrever um castanheiro a priori,
como se descreveria uma alma... E l isso fao eu... Ali est esse soneto de
Cintra que eu te dediquei, Carlos.  realista, est claro que , realista...
Pudra, se  paisagem! Ora eu vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu
apareceste, Ega... Mas vejam l vocs se isto os massa...
Qual massava! E at, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S.
Francisco, mais silenciosa. Ali, dando um passo lento, depois outro, o poeta
murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pr do sol: uma inglesa, de cabelos
soltos, toda de branco, desce num burrinho por uma vereda que domina um
vale; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das madresilvas; ento
a inglesa pra, deixa o burrinho, olha enlevada o co, os arvoredos, a paz das
casas; - e a, no ltimoterceto, vinha a nota realista de que se ufanava o
Alencar:
Ela olha a flr dormente, a nuvem casta,
Enquanto o fumo dos casae se eleva
E ao lado o burro, pensativo, pasta.
- Ali tm vocs o trao, a nota naturalista... Ao lado o burro, pensativo,
pasta... Eis a a realidade, est-se a vr o burro pensativo... No ha nada mais
pensativo que um burro... E so estas pequeninas coisas da natureza que 
necessrio observar... J vem votos que se pode fazer realismo, e do bom,
sem vir logo com obscenidades... Vocs que lhes parece o soneto?
Ambos o elogiaram profundamente - Carlos arrependido de no ter
completado a humilhao do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando
que decerto, numa dessas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o Cohen.
Como eles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, j desanuviado, foi acompanhalos
pelo Aterro. E falou sempre, contando o plano de um romance historico, em
que ele queria pintar a grande figura d'Afonso d'Albuquerque, mas por um lado
mais humano, mais intimo: Afonso d'Albuquerque namorado: Afonso
d'Albuquerque, s, de noite, na ppa do seu galeo, diante d'Ormuz
incendiada, beijando uma flr seca, entre soluos. Alencar achava isto
sublime.
Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir  rua de S. Francisco - quando o
Baptista veio dizer que o senhorTeles da Gama lhe desejava falar com
urgencia. No o querendo receber, ali, em mangas de camisa, mandou-o
entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio da a um instante encontrar
Teles da Gama admirando as belas faianas holandezas.
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- Voc, Maia, tem isto lindissimo, exclamou ele logo. Eu pelo-me por
porcelanas... Hei de voltar um dia destes, com mais vagar, vr tudo isto, de
dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma misso... Voc no
adivinha?
Carlos no adivinhava.
E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um
sorriso:
- Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se voc hoje, n'aquilo que
lhe disse, tinha teno de o ofender. , s isto... A minha misso  apenas
esta: perguntar-lhe se voc tinha inteno de o ofender.
Carlos olhou-o, muito srio:
- O qu!? Se tinha inteno de ofender o Damaso quando o ameacei de lhe
arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha s inteno de lhe arrancar as
orelhas!
Teles da Gama saudou, rasgadamente:
- Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que voc no tinha seno
essa inteno. Em todo o caso, desde este momento, a minha misso est
finda... Como voc tem isto bonito!... O que  aquele prato grande, majolica?
- No, um velho Nevers. Veja voc ao p...  Thetis conduzindo as armas
d'Achiles...  esplendido; e  muito raro... Veja voc esse Deft, com as duas
tulipas amarelas...  um encanto!
Teles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando o
chapude sobre o sof.
- Lindissimo tudo isto!... Ento s inteno de lhe arrancar as orelhas?
nenhuma de o ofender?...
- Nenhuma de o ofender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume voc um
charuto.
- No, obrigado...
- Calice de conhaque?
- No! absteno total de bebidas e guas ardentes... Pois adeus, meu bom
Maia!
- Adeus, meu bom Teles...
Ao outro dia, por uma radiante manh de julho, Carlos saltava do coup, com
um mlho de chaves, diante do porto da quinta do Craft. Maria Eduarda devia
chegar s dez horas, s, na sua carruagem da Companhia. O hortelo,
dispensado por dois dias, fora a Vila Franca; no havia ainda criados na casa;
as janelas estavam fechadas. E pesava ali, envolvendo a estrada e a vivenda,
um desses altos e graves silencios d'alda, em que se sente, dormente no ar,
o zumbir dos moscardos.
Logo depois do porto, penetrava-se numa fresca rua d'acacias, onde cheirava
bem. A um lado, por entre a ramagem, aparecia o quiosque, com tecto de
madeira, pintado de vermelho, que fora o capricho de Craft, e que ele
mobilra  japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com janelas de
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peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre trs degraus,
flanqueados por vasos de loua azul cheios de cravos.
S o meter a chave devagar e com uma intil cautela na fechadura daquela
morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janelas: e a larga luz que
entrava pareceu-lhe trazer uma doura rara, e uma alegria maior que a dos
outros dias, como preparada especialmente pelo bom Deus para alumiar a
festa do seu corao. Correu logo  sala de jantar, a verificar se, na mesa
posta para o lunch, se conservavam ainda viosas as flores que l deixra na
vespera. Depois voltou ao coup a tirar o caixote de gelo, que trouxera de
Lisboa, embrulhado em flanela, entre serradura. Na estrada, silenciosa por
ora, ia s passando uma saloia montada na sua egua.
Mas apenas acomodra o gelo - sentiu fora o ruido lento da carruagem. Veio
para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e ficou ali,
espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro da Conpanhia.
D'a a um instante viu-a enfim chegar, pela rua de acacias, alta e bela, vestida
de preto, e com um meio-vu espesso como uma mascara. Os seus psinhos
subiram os trs degraus de pedra. Ele sentiu a sua voz inquieta perguntar de
leve:
- tes-vous l?
Apareceu - e ficaram um instante,  porta do gabinete, apertando
sofregamente as mos, sem falar, comovidos, deslumbrados.
- Que linda manh! disse ela por fim, rindo e toda vermelha.
- Linda manh, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
Maria Eduarda resvalra sobre uma cadeira, junto da porta, num cansao
delicioso, deixando calmar o alvoroo do seu corao.
-  muito confortavel,  encantador tudo isto, dizia ela olhando lentamente em
redor os cretones do gabinete, o div turco coberto com um tapete de
Brousse, a estante envidraada cheia de livros. Vou ficar aqui
adoravelmente...
- Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido a olhar
para ela. Ainda nem lhe beijei a mo...
Maria Eduarda comeou atirar o vu, depois as luvas, falando da estrada.
Achara-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se acomodasse
naquele fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!
Atirou o chapupara cima do div - ergueu-se, toda alegre e luminosa.
- Vamos vr a casa, estou morta por vr essas maravilhas do seu amigo
Craft!...  Craft que se chama? Craft quer dizer industria!
- Mas ainda nem sequer lhe beijei a mo! tornou Carlos, sorrindo e suplicante.
Ela estendeu-lhe os lbios, e ficou presa nos seus braos.
E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabelo, dizia-lhe quanto era feliz e
quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de quinta que a
separavam do resto do mundo...
Ela deixava-se beijar, sria e grave:
- E  verdade isso?  realmente verdade?...
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Se era verdade! Carlos teve um suspiro quase triste:
- Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga que j
Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que no duvide de
mim...
Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
- Vamos vr a casa, disse ela.
Comearam pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos
em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam sobre
o rio e sobre os campos.
- Os seus aposentos, disse Carlos, ho de ser em baixo, est visto, entre as
coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui esplendidamente. No lhe
parece?
E ela percorria os quartos, devagar, examinando a acomodao dos armarios,
palpando a elasticidade dos colxes, atenta, cuidadosa, toda no desvelo de
alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma alterao. E era
realmente como se aquele homem que a seguia, enternecido e radiante, fosse
apenas um velho senhorio.
- O quarto com as duas janelas, ao fundo do corredor, sria o melhor para
Rosa. Mas a pequena no pode dormir naquele enorme leito de pau preto...
- Muda-se!
- Sim, pode mudar-se... E falta uma sala larga para ela brincar, s horas do
calor... Se no houvesse o tabique entre os dois quartos pequenos...
- Deita-se abaixo
Ele esfregava as mos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e ela no
recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.
Desceram  sala de jantar. E a, diante da famosa chamin de carvalho
lavrado, flanqueada  maneira de cariatides pelas duas negras figuras de
Nubios, com olhos rutilantes de cristal, Maria Eduarda comeou a achar o
gosto do Craft excentrico, quase exotico... Tambm Carlos no lhe dizia que
Craft tivesse o gosto correcto de um ateniense. Era um saxonio batido de um
raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua excentricidade...
- Oh, a vista  que  deliciosa! exclamou ela chegando-se  janela.
Junto do peitoril crescia um p de margaridas, e ao lado outro de baunilha que
perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal aparada, um
pouco amarelada j pelo calor de julho; e entre duas grandes arvores que lhe
faziam sombra, havia ali, para os vagares da ssta, um largo banco de cortia.
Um renque de arbustos cerrados parecia fechar a quinta daquele lado como
uma sebe. Depois a colina descia, com outras quintarolas, casas que se no
viam, e uma chamin de fabrica; e l no fundo o rio rebrilhava, vidrado de
azul, mudo e cheio de sol, at s montanhas d'alm-Tejo, azuladas tambm
na faiscao clara do co de vero.
- Isto  encantador! repetia ela.
-  um paraso! Pois no lhe dizia eu?  necessrio pr um nome a esta casa...
Como se ha de chamar? Vila-Marie? No. Chteau-Rose... Tambm no,
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crdo! Parece o nome de um vinho. O melhor  baptisal-a definitivamente com
o nome que ns lhe davamos. Ns chamavamos-lhe a Tca.
Maria Eduarda achou originalissimo o nome de Tca. Devia-se at pintar em
letras vermelhas sobre o porto.
- Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa de
bicho egosta na sua felicidade e no seu buraco: No me mexam!
Mas ela parra, com um lindo riso de surpresa, diante da mesa posta, cheia de
fruta, com as duas cadeiras j chegadas, e os cristaes brilhando entre as
flores.
- So as bodas de Can!
Os olhos de Carlos resplandeceram.
- So as nossas!
Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um
morango, depois a escolher uma rosa.
- Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo?
Ns temos gelo, temos tudo! No nos falta nada, nem a beno de Deus...
Uma gotinha de champagne, v!
Ela aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus lbios se
encontraram, apaixonadamente.
Carlos acendeu uma cigarrete, continuaram a percorrer a casa. A cozinha
agradou-lhe muito, arranjada  inglesa, toda em azulejos. No corredor Maria
Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com uma cabea
negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sda vermelha, conservando
nas suas pregas uma graa ligeira, e ao lado o cartaz amarelo de la corrida,
com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como um quente lampejo de festa e
de sol peninsular...
Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar,
desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova,
recebendo a claridade de uma sala forrada de tapearias, onde desmaiavam
na trama de l os amores de Venus e Marte: da porta de comunicao,
arredondada em arco de capela, pendia uma pesada lampada da Renascena,
de ferro forjado: e, quela hora, batida por uma larga facha de sol, a alcova
resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, convertido em
retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e tectos, de um brocado
amarelo, cor de boto de ouro; um tapete de veludo do mesmo tom rico fazia
um pavimento de ouro vivo sobre que poderiam correr ns os ps ardentes de
uma deusa amorosa - e o leito de docel, alado sobre um estrado, coberto
com uma colcha de setim amarelo bordada a flores de ouro, envolto em
solenes cortinas tambm amarelas de velho brocatel, - enchia a alcova,
esplendido e severo, e como erguido para as voluptuosidades grandiosas de
uma paixo tragica do tempo de Lucrecia ou de Romeu. E era ali que o bom
Craft, com um leno de sda da India amarrado na cabea, resonava as suas
sete horas, pacata e solitariamente.
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Mas Maria Eduarda no gostou destes amarelos excessivos. Depois
impressionou-se, ao reparar num painel antigo, defumado, resultando em
negro do fundo de todo aquele ouro - onde apenas se distinguia uma cabea
degolada, lvida, gelada no seu sangue, dentro de um prato de cobre. E para
maior excentricidade, a um canto, de cima de uma coluna de carvalho, uma
enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um ar de meditao
sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... Maria Eduarda achava
impossvel ter ali sonhos suaves.
Carlos agarrou logo na coluna e no mocho, atirou-os para um canto do
corredor; e propoz-lhe mudar aqueles brocados, forrar a alcova de um setim
cor de rosa e risonho.
- No, venho-me a acostumar a todos esses duros... Smente aquele quadro,
com a cabea, e com o sangue... Jesus, que horror!
- Reparando bem, disse Carlos, creio que  o nosso velho amigo S. Joo
Baptista.
Para desfazer essa impresso desconsolada levou-a ao salo nobre, onde Craft
concentrra as suas preciosidades. Maria Eduarda, porm, ainda descontente,
achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.
-  para vr de p, e de passagem... No se pode ficar aqui sentado, a
conversar.
- Mas esta  materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma sala
adorvel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o armario, veja
que centro! Que beleza!
Enchendo quase a parede do fundo, o famoso armario, o movel divino do
Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, tinha
uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados como
Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o assalto
de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a pea superior era
guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, Joo, Marcos, Lucas e
Mateus, imagens rigidas, envolvidas nessas roupagens violentas que um vento
de profecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um trofo agricola com
mlhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabias d'arados; e,  sombra
destas coisas de labor e fartura, dois Faunos, recostados em simetria,
indiferentes aos heroes e aos santos, tocavam num desafio bucolico a frauta
de quatro tubos.
- Ento, hein? dizia Carlos. Que movel!  todo um poema da Renascena,
Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se pode meter dentro deste
armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, como num
altar-mr.
Ela no respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do
passado, de uma beleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um luxo
morto: finos moveis da Renascena italiana, exilados dos seus palacios de
mrmore, com embutidos de Cornalina e agata que punham um brilho suave
de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras cor de rosa; cofres
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nupciaes, longos como bahs, onde se guardavam os presentes dos Papas e
dos Principes, pintados a purpura e ouro, com graas de miniatura; contadores
hespanhoes impertigados, revestidos de ferro brunido e de veludo vermelho, e
com interiores misteriosos, em frma de capela, cheios de nichos, de claustros
de tartaruga... Aqui e alm, sobre a pintura verde-escura das paredes,
resplandecia uma colcha de setim toda recamada de flores e d'aves de ouro;
ou sobre um bocado de tapete do Oriente de tons severos, com versculos do
Alcoro, desdobrava-se a pastoral gentil de um minuete em Citera sobre a
sda de um leque aberto...
Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, numa poltrona Luiz xv, ampla
e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de tapearia de
Beauvais, donde parecia exhalar-se ainda um vago aroma d'empoado.
Carlos triumfava, vendo a admirao de Maria. Ento, ainda considerava uma
extravagncia aquela compra, feita num rasgo de entusiasmo?
- No, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver uma vida
pacata de alda no meio de todas estas raridades...
- No diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pgo fogo a tudo!
Mas o que lhe agradou mais foram as belas faianas, toda uma arte imortal e
fragil espalhada por sobre o mrmore das consolas. Uma sobretudo atrahiu-a,
uma esplendida taa persa, de um desenho raro, com um renque de negros
ciprestes, cada um abrigando uma flr de cor viva: e aquilo fazia lembrar
breves sorrisos reaparecendo entre longas tristezas. Depois eram as
aparatosas majolicas, de tons estridentes e desencontrados, cheias de grandes
personagens, Carlos V passando o Elba, Alexandre coroando Roxane; os lindos
Nevers, ingenuos e srios; os Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como
uma nudez que se mostra, uma grossa rosa vermelha; os Derbi, com as suas
rendas de ouro sobre o azul-ferrete de co tropical; os Wedgewood, cor de
leite e cor de rosa, com transparencias fugitivas de concha na gua...
- S um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, 
necessrio saudar o genio tutelar da casa!
Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um deus
bestial, n, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, com o ventre
vante, distendido na indigesto de todo um universo - e as duas perninhas
bambas, moles e flacidas como as peles mortas de um feto. E este monstro
triumfava, encanchado sobre um animal fabuloso, de ps humanos, que
dobrava para a terra o pescoo submisso, mostrando no focinho e no olho
obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhao...
- E pensarmos, dizia Carlos, que geraes inteiras vieram ajoelhar-se diante
deste rato, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, oferecer-lhe riquezas, morrer por
ele...
- O amor que se tem por um monstro, disse Maria,  mais meritorio, no 
verdade?
- Por isso no acha talvez meritorio o amor que se tem por si...
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Sentaram-se ao p da janela, num div baixo e largo, cheio de almofadas,
cercado por um biombo de sda branca, que fazia entre aquele luxo do
passado um ffo recanto de conforto moderno: e como ela se queixava um
pouco de calor, Carlos abriu a janela. Junto do peitotil crescia tambm um
grande p de margaridas; adiante, num velho vaso de pedra, pousado sobre a
relva, vermelhejava a flr de um cacto; e dos ramos de uma nogueira caa
uma fina frescura.
Maria Eduarda veio encostar-se  janela, Carlos seguiu-a; e ficaram ali juntos,
calados, profundamente felizes, penetrados pela doura daquela solido. Um
passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois calou-se. Ela quissaber o
nome de uma povoao que branquejava ao longe ao sol na colina azulada.
Carlos no se lembrava. Depois brincando, colheu uma margarida, para a
interrogar: Ele m'aime, un peu, beaucoup... Ela arrancou-lha das mos.
- Para que precisa perguntar s flores?
- Porque ainda m'o no disse claramente, absolutamente, como eu quero que
m'o diga...
Abraou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Ento Carlos, com os olhos
mergulhados nos dela, disse-lhe baixnho e implorando:
- Ainda no vimos a saleta de banho...
Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaada pelo salo, depois atravs da
sala de tapearias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os
banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho
tapete vermelho da Caramania. Ele, tendo-a sempre abraada, pousou-lhe no
pescoo um beijo longo e lento. Ela abandonou-se mais, os seus olhos
cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e cor de ouro:
Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capela, feitas de uma sda
leve que coava para dentro uma claridade loura: e um instante ficaram
imoveis, ss emfim, desatado o abrao, sem se tocarem, como suspensos e
sufocados pela abundncia da sua felicidade.
- Aquela horrvel cabea! murmurou ela.
Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E ento todo o
rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as arvores, numa
demorada ssta, sob a calma de julho...
Os anos de Afonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. Quasi
todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomra-se o caf no
escritrio d'Afonso, onde as janelas se conservavam abertas. A noite estava
tepida, estrelada e serenissima. Craft, Sequeira e o Taveira passeavam
fumando no terrao. Ao canto de um sof Cruges escutava religiosamente
Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos da musica na
Filandia. E em redor de Afonso, estendido na sua velha poltrona, de cachimbo
na mo, falava-se do campo.
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Ao jantar Afonso anuncira a inteno de ir visitar, para o meado do ms, as
velhas arvores de Santa Olavia; e combinra-se logo uma grande romaria de
amizade s margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Afonso. O
marqus prometera uma visita para agosto na companhia melodiosa, dizia
ele, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio da longa jornada, da
humidade da alda. E agora tratava-se de persuadir Ega a ir tambm, com
Carlos - quando Carlos acabasse enfim de reunir esses materiaes do seu livro
que o retinham em Lisboa  banca do labor... Mas o Ega resistiu. O campo,
dizia ele, era bom para os selvagens. O homem,  maneira que se civilisa,
afasta-se da natureza; e a realisao do progresso, o paraso na Terra, que
presagiam os Idealistas, concebia-o ele como uma vasta cidade ocupando
totalmente o Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e alm
um bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes
para perfumar o altar da Justia...
- E o milho? A bela fruta? A hortaliasinha? perguntava Vilaa, rindo com
malicia.
Imaginava ento Vilaa, replicava o outro, que daqui a seculos ainda se
comeriam hortalias? O habito dos vegetaes era um resto da rude animalidade
do homem. Com os tempos o ser civilisado e completo vinha a alimentar-se
unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em pilulas, feitos nos
laboratorios do Estado...
- O campo, disse ento D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos
bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito picnic,
para uma burficada, para uma partida de croquet... Sem campo no ha
sociedade.
- Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambm ha arvores ainda se
admite...
Enterrado numa poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em silncio.
Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a tudo, com um ar
luminoso e de deliciosa lassido. E ento o marqus, que j duas vezes,
dirigindo-se a ele, encontrra a mesma abstraco radiosa, impacientou-se:
- Homem, fale, diga alguma coisa!... Voc est hoje com um ar extraordinrio,
um arzinho de beato que se regalou de papar o Santissimo!
Todos em redor, com simpatia, se afirmaram em Carlos: Vilaa achava-lhe
agora melhor cara, cor d'alegria: D. Diogo, com um ar entendido, sentindo
mulher, invejou-lhe os anos, invejou-lhe o vigor. E Afonso reenchendo o
cachimbo olhava o neto, enternecido.
Carlos ergueu-se imediatamente, fugindo quele exame afectuoso.
- Com efeito, disse ele, espreguiando-se de leve, tenho estado hoje languido
e mono...  o comeo do vero... Mas  necessrio sacudir-me... Quer voc
fazer uma partida de bilhar,  marqus?
- V l, homem. Se isso o resuscita...
Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marqus parando, e como
recordando-se, perguntou sela rebuo ao Ega noticias dos Cohens. Tinham-se
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encontrado? Estava tudo acabado? Para o marqus, uma flr de lealdade, no
havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findra, e agora o Cohen,
quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...
- Eu perguntei isto, disse o marqus, porque j vi a Cohen duas vezes...
- Onde? foi a exclamao sfrega do Ega.
- No Price, e sempre com o Damaso. A ltima vez foi j esta semana. E l
estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio sentar-se
um bocado ao p de mim, e sempre d'olho n'ela... E ela de l, com aquele ar
de lambisgoia, de luneta n'ele... No havia que duvidar, era um namoro...
Aquele Cohen  um predestinado.
Ega fez-se lvido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
- O Damaso  muito intimo deles... Mas talvez se atire, no duvido... So
dignos um do outro.
No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiosamente, ele no cessou
de passear, numa agitao, trincando o charuto apagado. De repente estacou
em frente do marqus, com os olhos chamejantes:
- Quando  que voc a viu ltimamente no Price, essa torpe iliba d'Israel?
- Tera-feira, creio eu.
O Ega recomeou a passear, sombrio.
Nesse instante Baptista, aparecendo  porta do bilhar, chamau Carlos em
silncio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
-  um cocheiro de praa, murmurou Baptista. Diz que est ali uma senhora
dentro de uma carruagem que lhe quer falar.
- Que senhora?
Baptista encolheu os ombros. Carlos, de taco na mo, olhava para ele,
aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria suceedido, santo Deus,
para ela vir numa tipia, s nove da noite, ao Ramalhete!
Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapubaixo; e assim mesmo, de
casaca, sem palet, desceu numa grande anciedade. No peristilo topou com
Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o leno a poeira
dos botins. Nem falou ao Eusebiosinho. Correu ao coup, parado  porta
particular dos seus quartos, mudo, fechado, misterioso, aterrador...
Abriu a pertinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, abafado
numa mantilha de renda, debruou-se, perturbado, balbuciou:
-  s um instante! Quero-lhe falar!
Que alivio! Era a Gouvarinho! Ento, na sua indignao, Carlos foi brutal.
- Que diabo de tolice  esta? Que quer?
Ia bater com a portinhola; ela empurrou-a para fora, desesperada; e no se
conteve, desabafou logo ali, diante do cocheiro, que mexia tranquilamente na
fivela de um tirante.
- De quem  a culpa? Para que me trata deste modo?...  s um instante,
entre, tenho de lhe falar!...
Carlos saltou para dentro, furioso:
- D uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
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O velho calhambeque desceu a calada; e durante um momento, na escurido,
recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas palavras,
bruscas e colericas, atravs do barulho das vidraas.
- Que imprudencia! que tolice!...
- E de quem  a culpa? De quem  a culpa?
Depois, na rampa de Santos, o coup rolou mais silenciosamente no
macadam. Carlos ento, arrependido da sua dureza, voltou-se para ela, e com
brandura, quase no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por aquela
imprudencia... Pois no era melhor ter-lhe escripto?
- Para qu? exclamou ela. Para no me responder? Para no fazer caso das
minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma
esmola!...
Sufocava, arrancou a mantilha da cabea. No vagaroso rolar do coup, sem
ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respirao dela, tumultuosa e cheia
d'angustia. E no dizia nada, imovel, num infinito mal-estar, entrevendo
confusamente, atravs do vidro embaciado, na sombra triste do rio
adormecido, as mastreaes vagas de falas. A parelha parecia ir
adormecendo; e as queixas dela desenrolavam-se, profundas, mordentes,
repassadas d'amargura.
- Peo-lhe que venha a Santa Isabel, no vem... Escrevo-lhe, no me
responde... Quero ter uma explicao franca comsigo, no aparece... Nada,
nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo brutal, um
desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas no pude, no pude!...
Quiz saber o que lhe tinha feito. O que  isto? Que lhe fiz eu?
Carlos percebia os olhos dela, faiscantes sob a nevoa de lgrimas retidas,
suplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a fitar, murmurou,
torturado:
- Realmente, minha amiga... As coisas falam bem por si, no so necessarias
explicaes.
- So!  necessrio saber se isto  uma coisa passageira, um amuo, ou se 
uma coisa definitiva, um rompimento
Ele agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, afectuosa ainda,
de lhe dizer que todo o seu desejo dela findra. Terminou por afirmar que no
era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre elevados, no cahiria
agora na pieguice de ter um amuo...
- Ento  um rompimento?...
- No, tambm no... Um rompimento absoluto, para sempre, no...
- Ento  um amuo? Porqu?
Carlos no respondeu. Ela, perdida, sacudiu-o pelo brao.
- Mas fale! Diga alguma coisa, santo Deus! No seja cobarde, tenha a coragem
de dizer o que !
Sim, ela tinha razo... Era uma cobardia, era uma indignidade, continuar ali,
gchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas mesquinhas. Quiz ser
claro, quisser forte.
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- Pois bem, a est. Eu entendi que as nossas relaes deviam ser alteradas...
E outra vez hesitou, a verdade amoleceu-lhe nos lbios, sentindo aquela
mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
- Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, que
no podia durar, numa amizade agradavel, e mais nobre...
E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, atravs
do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquela ligao? Ao resultado
costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu belo romance
acabasse no escndalo e na vergonha; ou a que, envolvendo-os por muito
tempo o segredo, ele viesse a descahir na banalidade de uma unio quase
conjugal, sem interesse e sem requinte. De resto era certo que, continuando a
encontrarem-se, aqui, em Cintra, noutros sitios, a sociidadesinha curiosa e
mexeriqueira viria a perceber a sua afeio. E havia por acaso nada mais
horroroso, para quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores
que todo o publico conhece, at os cocheiros de praa? No... O bom senso, o
bom gosto mesmo, tudo indicava a necessidade de uma separao. Ela mesmo
mais tarde lhe sria grata... Decerto, esta primeira interrupo de um habito
doce era desagradavel, e ele estava bem longe de se sentir feliz. Fra por isso
que no tivera a coragem de lhe escrever... Enfim deviam ser fortes, e no se
vrem pelo menos durante alguns meses... Depois, pouco a pouco, o que era
capricho fragil, cheio de inquietao, tornar-se-hia uma boa amizade, bem
segura e bem duradoura.
Calou-se; e ento, no silncio, sentiu que ela, cada para o canto do coup,
como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu vu, estara
chorando baixo.
Foi um momento intoleravel. Ela chorava sem violencia, mansamente, com um
chro lento, que parecia no dever findar. E Carlos s achava esta palavra
banal e desenxabida:
- Que tolice, que tolice!
Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um
americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. Naquela noite de
vero e d'estrelas, havia gente vagueando tranquilamente entre as arvores.
Ela continuava a chorar.
Aquele pranto triste, lento, correndo a seu lado, comeou a comovel-o; e ao
mesmo tempo quase lhe queria mal por ela no reter essas lgrimas
infindaveis que laceravam o seu corao... E ele que estava to tranqilo, no
Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, numa deliciosa lassido!
Tomou-lhe a mo, querendo calmal-a, apiedado, e j impaciente.
- Realmente no tem razo.  absurdo... Tudo isto  para seu bem...
Ela leve enfim um movimemto, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente
por entre longos soluos... E de repente, num arranque de paixo, atirou-lhe
os braos ao pescoo, prendendo-se a ele com desespero, esmagando-o
contra o seu seio.
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- Oh meu amor, no me deixes, no me deixes! Se tu soubesses! s a nica
felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz eu?
Ningum sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, vida,
honra,tudo! tudo!...
Molhava-lhe a face com o resto das suas lgrimas; e ele abandonava-se,
sentindo aquele corpo sem colete, quente e como n, subir-lhe para os
joelhos, colar-se ao seu, num furor de o repossuir, com beijos sfregos,
furiosos, que o sufocavam... Subitamente a tipia parou. E um momento
ficaram assim - Carlos imovel, ela cada sobre ele e arquejando.
Mas a tipia no continuava. Ento Carlos desprendeu um brao, desceu o
vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem obedecendo 
ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera  porta
da casa. Durante um instante Carlos teve a tentao de descer, acabar ali
bruscamente aquele longo tormento. Mas pareceu-lhe uma brutalidade. E
desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
- Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
A tipia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de novo as
pedras da calada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais suavemente,
desceram a rampa de Santos.
Ela recomera os seus beijos. Mas tinham perdido a chama que um instante
os fizera quase irresistiveis. Agora Carlos sentia s uma fadiga, um desejo
infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que ela o arrancra para o
torturar com estas recriminaes, estes ardores entre lgrimas... E de
repente, emquanto a condessa balbuciava, como tonta, pendurada do seu
pescoo, - ele viu surgir n'alma, viva e resplandecente, a imagem de Maria
Eduarda, tranquila quela hora na sua sala de reps vermelho, fazendo sero,
confiando n'ele, pensando n'ele, relembrando as felicidades da vespera,
quando a Toca, cheia de seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve
ento horror  Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repeliu-a para o canto
do coup.
- Basta! Tudo isto  absurdo... As nossas relaes esto acabadas, no temos
mais nada que nos dizer!
Ela ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso
nervoso, repeliu-o tambm, freneticamente, pisando-lhe o brao.
- Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu conheo-a, 
uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem lhe pague as
modistas!...
Ele voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na tipia
escura, onde j havia um vago cheiro de verbena, os olhos d'ambos, sem se
vrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu raivosamente no
vidro. A tipia no parou. E a Gouvarinho, do outro lado, furiosa, magoando os
dedos, procurava descer a vidraa.
-  melhor que sia! dizia ela sufocada. Tenho horror de me achar aqui, ao seu
lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!
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O calhambeque parou. Carlos pulou para fora, fechou d'estalo a portinhola; e
sem uma palavra, sem erguer o chapu, virou costas, abalou a grandes
passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idias de rancor, sob a paz
da noite estrelada.
IV
Foi num sabbado que Afonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo nesse
mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, instalrase
nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde fora acompanhar o
av, com o Ega, dizia-lhe alegremente:
- Ento aqui ficamos ns ss a torrar, na cidade de mrmore e de lixo...
- Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar, por
entre a poeirada de Cintra!
Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao anoitecer - Baptista
anunciou que o senhorEga tinha partido nesse momento para Cintra, levando
apenas livros e umas escovas embrulhadas num jornal... O senhorEga tinha
deixado uma carta. E tinha dito: Baptista, vou pastar.
A carta, a lapis, numa larga folha d'almasso, dizia: Assaltou-me de repente,
amigo, juntamente com um horror  calia de Lisboa, uma saudade infinita
da natureza e do verde. A poro d'animalidade que ainda resta no meu ser
civilisado e recivilisado precisa urgentemente d'espolinhar-se na relva, beber
no fio dos regatos, e dormir balanada num ramo de castanheiro. O solicito
Baptista que me remeta amanh pelo onibus a mala com que eu no
quissobrecarregar a tipia do Mulato. Eu demoro-me apenas trs ou quatro
dias. O tempo de cavaquear um bocado com o Absoluto no alto dos
Capuchos, e vr o que esto fazendo os miosotis junto  meiga fonte dos
Amores...
- Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o
deixava o Ega. E atirando a carta:
- Baptista! O senhorEga diz a que lhe mandem uma caixa de charutos, dos
Imperiales. Manda-lhe antes dos Flr de Cuba. Os Imperiales so um veneno.
Esse animal nem fumar sabe!
Depois de jantar Carlos percorreu o Figaro, folheou um volume de Biron, bateu
carambolas solitrias no bilhar, assobiou malagueas no terrasso - e terminou
por sair, sem destino, para os lados do Aterro. O Ramalhete entristecia-o,
assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da noite. Mas insensivelmente,
fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As janelas de Maria Eduarda
estavam tambm abertas e negras. Subiu ao andar do Cruges. O menino
Victorino no estava em casa...
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Amaldioando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de palet ao
hombro, lendo os telegramas. No havia nada novo por essa velha Europa;
apenas mais uns Nihilistas enforcados; e ele Taveira ia ao Price...
- Vem tu tambm da, Carlinhos! Tens l uma mulher bonita que se mete na
gua com cobras e crocodilos... Eu pelo-me por estas mulheres de bichos!...
Que esta  dificil, traz um chulo... Mas eu j lhe escrevi: e ela faz-me um
bocado d'olho de dentro da tina.
Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo falou-lhe logo do Damaso. No tornra a
ver essa flr? Pois essa flr andava apregoando por toda a parte que o Maia,
depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo explicaes humildes,
covardes... Terrivel, aquele Damaso! Tinha figura, interior, e natureza de pla!
Com quanto mais fora se atirava ao cho, mais ele resaltava para o ar,
triunfante!...
- Em todo o caso  uma rez traioeira, e deves ter cautela com ele...
Carlos encolheu os ombros, rindo.
No, no, dizia o Taveira muito srio, eu conheo o meu Damaso. Quando foi
da nossa pga, em casa da Lola Gorda, ele portou-se como um poltro, mas
depois ia-me atrapalhando a vida...  capaz de tudo... Antes d'ontem estava
eu a cear no Silva, ele veio sentar-se um bocado ao p de mim, e comeou
logo com umas coisas a teu respeito, umas ameaas...
- Ameaas! Que disse ele?
- Diz que te das ares de espadachim e de valento, mas has de encontrar
dentro em pouco quem te ensine... Que se est a preparando um escndalo
monumental... Que se no admirar de te vr brevemente com uma boa bala
na cabea...
- Uma bala?
- Assim o disse. Tu ris, mas eu  que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao Damaso
e dizia-lhe: Damasosinho, flr, fique avisado que, d'ora em diante, cada vez
que me suceder uma coisa desagradavel, venho aqui e parto-lhe uma costela;
tome as suas medidas...
Tinham chegado ao Price. Uma multido de domingo, alegre e pasmada,
apinhava-se at s ltimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de
camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os requebros
do palhao, rebocado de cio e vermelho, que tocava nos psinhos de uma
voltigeuse e lambia os dedos, d'olhos em alvo, num gosto de mel...
Descanando na sela larga de xairel dourado, a criatura, magrinha e sria,
com flores nas tranas, dava a volta devagar, ao passo de um cavalo branco,
que mordia o freio, levado  mo por um estribeiro; e pela arena o palhao
lambo e nescio acompanhava-a, com as mos ambas apertadas ao corao,
numa suplica babosa, rebolando languidamente os quadris dentro das vastas
pantalonas, picadas de lantejoulas. Um dos escudeiros, de cala listrada de
ouro, empurrava-o, num arremedo de ciumes; e o palhao caa, estatelado,
com um estoiro de nadegas, entre os risos das crianas e os rantantans da
charanga. O calor sufocava; e as fumaraas de charuto, subindo sem cessar,
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faziam uma neva onde tremiam as chamas largas do gaz. Carlos, incomodado,
abalou.
- Espera ao menos para vr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o Taveira.
- No posso, cheira mal, morro!
Mas  porta, de repente, foi detido pelos braos abertos do Alencar, que
chegava - com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo vestido de
luto. O poeta ficou pasmado de vr ali o de seu Carlos. Fazia-o no seu solar
Santa de Olavia! Vira at nos papeis publicos...
- No, disse Carlos, o av  que foi ontem... Eu no me sinto ainda em
disposio do ir comunicar com a natureza...
Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo. Ao
lado, grave, o ancio de barbas calava as suas luvas pretas.
- Pois eu  o contrario! exclamava o poeta. Estou precisado de um banho de
panteismo! A bela natureza! O prado! O bosque!... De modo que talvez me
mimoseie com Cintra, para a semana. Esto l os Cohens, alugaram uma
casita muito bonita, logo adiante do Victor...
Os Cohens! Carlos comprehendeu ento a fuga do Ega e a sua saudade do
verde.
- Ouve l, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. Tu
no conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita troa
juntos... No era nenhum personagem, era apenas um alquilador de cavalos...
Mas tu sabes, c em Portugal, sobretudo nesses tempos, havia muita
bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que diabo, tu deves
conhecel-o!  o tio do Damaso!
Carlos no se recordava.
- O Guimares, o que est em Paris!
- Ah, o comunista!
- Sim, muito republicano, homem de idias humanitarias, amigo do Gambeta,
escreve no Rapel... Homem interessante!... Veio a por causa de umas terras
que herdou do irmo, desse outro tio do Damaso que morreu ha meses... E
demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos, beberam-se uns liquidos, e
at estivemos a falar de teu pai... Queres tu que eu t'o apresente?
Carlos hesitou. Seria melhor noutra ocasio mais intima, quando podessem
fumar um charuto tranqilo, e conversar do passado...
- Valeu! Has de gostar dele. Conhece muito Victor Hugo, detesta a padraria...
Esprito largo, espirito muito largo!
O poeta sacudiu ardentemente as duas mos de Carlos. O senhor Guimares
ergueu de leve o seu chapu, carregado de crepe.
Todo o caminho, at ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e nesse
passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presena
daquele patriarcha, antigo alquilador, que fizera com ele tantas troas! E isto
trazia conjuntamente outra idia, que nesses ltimos dias j o atravessra,
pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua radiante felicidade, um
sombrio arripio de dr... Carlos pensava no av.
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Estava agora decidido que Maria Eduarda e ele partiriam para Itlia, nos fins
de outubro. Castro Gomes, na sua ltima carta do Brasil, sca e pretenciosa,
falava em aparecer por Lisboa, com as elegancias do frio, l para meado de
novembro; e era necessrio antes disso que estivessem j longe, entre as
verduras d'Isola Bela, escondidos no seu amor e separados por ele do mundo
como pelos muros de um claustro. Tudo isto era facil, considerado quase
legitimo pelo seu corao, e enchia a sua vida d'esplendor... Somente havia
n'isto um espinho - o av!
Sim, o av! Ele partia com Maria, ele entrava na ventura absoluta; mas ia
destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Afonso, e a nobre paz que lhe
tornava to bela a velhice. Homem de outras eras, austero e puro, como uma
dessas fortes almas que nunca desfaleceram - o av, nesta franca, viril,
rasgada soluo de um amor indominavel, s veria libertinagem! Para ele nada
significava o esponsal natural das almas, acima e fora das fices civis; e
nunca comprehenderia essa subtil ideologia sentimental, com que eles, como
todos os transviados, procuravam azular o seu erro. Para Afonso haveria
apenas um homem que leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa
uma famlia, apaga um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as
subtilezas da paixo, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como
bolas de sabo, contra as trs ou quatro idias fundamentaes de Dever, de
Justia, de Sociedade, de Familia, duras como blocos de mrmore, sobre que
assentra a sua vida quase durante um sculo... E sria para ele como o
horror de uma fatalidade! J a mulher de seu filho fugira com um homem,
deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambm, arrebatando a
famlia d'outro:  a historia da sua casa tornava-se assim uma repetio
d'adulterios, de fugas, de disperses, sob o bruto aguilho da carne!... Depois
as esperanas que Afonso fundra n'ele - consideral-as-hia tombadas, mortas
no lodo! Ele passava a ser para sempre, na imaginao angustiada do av, um
foragido, um inutilisado, tendo partido todas as razes que o prendiam ao seu
slo, tendo abdicado toda a aco que o elevaria no seu pas, vivendo por
hoteis de refugio, falando linguas estranhas, entre uma famlia equivoca
crescida em torno dele como as plantas de uma ruina... Sombrio tormento,
implacavel e sempre presente, que consumiria os derradeiros anhos do pobre
av!... Mas, que podia ele fazer? J o dissera ao Ega. A vida  assim! Ele no
tinha o heroismo nem a santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os
dissabores do av, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade,
justo Deus, tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...
Chegra ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escurido. Por ali
entraria em breve do Brasil, o outro - que nas suas cartas se esquecia de
mandar um beijo a sua filha! Ah, se ele no voltasse! Uma onda providencial
podia leval-o... Tudo se tornaria to facil, perfeito e limpido! De que servia na
vida esse resequido? Era como um saco vazio que cahisse ao mar! Ah, se ele
morresse!... E esquecia-se, enlevado numa viso em que a imagem de Maria o
chamava, o esperava, livre, serena, sorrindo e coberta de luto...
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No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um suspiro
de fadiga, de desconsolao, - disse, depois de tossir risonhamente, e dando
mais luz ao candieiro:
- Isto agora, sem o senhorEga, parece um bocadinho mais s...
- Est s, est triste, murmurou Carlos.  necessrio sacudirmo-nos... Eu j te
disse que talvez fossemos viajar este inverno...
O menino no lhe tinha dito nada.
- Pois talvez vamos a Itlia... Apetece-te voltar a Itlia?
Baptista reflectiu.
- Eu, da outra vez no vi o Papa... E antes de morrer no se me dava de vr o
Papa...
- Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vr o Papa.
Baptista, depois de um silncio, perguntou, lanando um olhar ao espelho:
- Para vr o Papa vai-se de casaca, creio eu?
- Sim, recomendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos, era um
habito de Cristo... Hei de vr se te arranjo um habito de Cristo.
Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate, d'emoo:
- Muito agradecido a v. exc. Ha por a gente que o tem, ainda talvez com
menos merecimentos que eu... Dizem que at ha barbeiros...
- Tens razo, replicou Carlos muito srio. Era uma vergonha. O que hei de vr
se te arranjo com efeito  a comenda da Conceio.
Todas as manhs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos Olivaes.
Para poupar aos seus cavalos a soalheira ia na tipia do Mulato, o batedor
favorito do Ega - que recolhia a parelha na velha cavalharia da Toca, e, at 
hora em que Carlos voltava ao Ramalhete, vadiava pelas tabernas.
Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoar, Maria Eduarda, ouvindo
rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos  porta da casa, no
topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco toldo de
fazenda cor de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; s vezes trazia,
 antiga moda hespanhola, uma flr entre os cabelos; o forte e fresco ar do
campo avivava com um brilho mais quente o mate eburneo do seu rosto; - e
assim, simples e radiante, entre sol e verdura, ela deslumbrava Carlos cada
dia com um encanto inesperado e maior. Cerrando o porto d'entrada, que
rangia nos gonzos, Carlos sentia-se logo envolvido num extraordinrio
conforto moral, como ele dizia, em que todo o seu ser se movia mais
facilmente, fluidamente, numa permanente impresso de harmonia e doura...
Mas o seu primeiro beijo era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu
encontro, com uma onda de cabelo negro a bater-lhe os ombros, e Niniche ao
lado, pulando e ladrando de alegria. Ele erguia Rosa ao colo. Maria de longe
sorria-lhes, sob o toldo cor de rosa. Em redor tudo era luminoso, familiar e
cheio de paz.
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A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. J se podia usar o
salo nobre, que perdera o seu ar rgido de museu, exhalando a tristeza de um
luxo morto: as flores que Maria punha nos vasos, um jornal esquecido, as ls
de um bordado, o simples roar dos seus frescos vestidos, tinham comunicado
j um subtil calor de vida e de conchego aos mais impertigados contadores do
tempo de Carlos V, revestidos de ferro brunido: - e era ali que eles ficavam
conversando emquanto no chegava a hora das lies de Rosa.
A essa hora aparecia miss Sarah, sria e recolhida - sempre de preto, com
uma ferradura de prata em broche sobre o colarinho direito de homem.
Recuperra as suas cres fortes de boneca, e as pestanas baixas tinham uma
timidez mais virginal sob o liso dos bands puritanos. Gordinha, com o peito
de pomba farta estalando dentro do corpete severo, mostrava-se toda
contente da vida calma e lenta de alda. Mas aquelas terras trigueiras
d'olivedo no lhe pareciam campo:  muito sco,  muito duro, dizia ela,
com uma indefinida saudade dos verdes molhados da sua Inglaterra, e dos
cus de nevoa, cinzentos e vagos.
Davam duas horas; e comeavam logo nos quartos de cima as longas lies de
Rosa. Carlos e Maria iam ento refugiar-se numa intimidade mais livre, no
quiosque japonez, que uma fantasia de Craft, o seu amor do Japo, construira
ao p da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o retiro bucolico de dois
velhos castanheiros. Maria afeioara-se quele recanto, chamava-lhe o seu
pensadoiro. Era todo de madeira, com uma s janelinha redonda, e um
telhado agudo  japoneza, onde roavam os ramos - to leve que atravs dele
nos momentos de silncio se sentiam piar as aves. Craft forrra-o todo de
esteiras finas da India; uma mesa de xaro, algumas faianas do Japo,
ornavam-no sobriamente; o tecto no se via, oculto por uma colcha de sda
amarela, suspensa pelos quatro cantos, em laos, como o rico docel de uma
tenda; - e todo o ligeiro quiosque parceia ter sido armado s com o fim
d'abrigar um div baixo e ffo, de uma languidez de serralho, profundo para
todos os sonhos, amplo para todas as preguias...
Eles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presena de miss
Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro
caam logo no cho - e os seus lbios, os seus braos uniam-se
arrebatadamente. Ela escorregava sobre o div: Carlos ajoelhava numa
almofada, tremulo, impaciente depois da forada reserva diante de Rosa e
diante de Sarah - e ali ficava, abraado  sua cintura, balbuciando mil coisas
pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam frouxos, com os
olhos cerrados, numa doura de desmaio. Ela queria saber o que ele tinha
feito durante a longa, longa noite de separao. E Carlos nada tinha a contar
seno que pensra n'ela, que sonhra com ela... Depois era um silncio: os
pardaes piaram, as pombas arrulhavam por cima do leve telhado : e Niniche,
que os acompanhava sempre, seguia os seus murmurios, os seus silencios,
enroscada a um canto, com um olho negro, reluzindo desconfiadamente por
entre as repas prateadas.
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Fora, por aqueles dias de calma, sem aragem, a quinta sca, de um verde
empoeirado, dormia com as folhagens imoveis, sob o peso do sol. Da casa
branca, atravs das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado das
escalas que Rosa fazia no piano. E no quiosque havia tambm um silncio
satisfeito e pleno - smente quebrado por algum doce suspiro de lassido que
saa do div, d'entre as almofadas de sda, ou algum beijo mais longo e de um
remate mais profundo... Era Niniche que os tirava daquele suave
entorpecimento, farta de estar ali quieta, encerrada entre as madeiras
quentes, num ar mole j repassado desse aroma indefinido em que havia
jasmim.
Lenta, e passando as mos no rosto Maria erguia-se - mas para cahir logo aos
ps de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe custava
ento esse momento de separao! Para que havia de ser assim? Parecia to
pouco natural, esposos como eram, que ela ficasse ali toda a noite, ssinha,
com o seu desejo dele, e ele fosse, sem as suas carcias, dormir solitariamente
ao Ramalhete!... E ainda se demoravam muito tempo, numa mudez d'extasi,
em que os olhos humidos, trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que
morrera nos seus lbios canados. Era Niniche que os fazia sair por fim
trotando impacientemente da porta para o div, rosnando, ameaando ladrar.
Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietao. Que pensaria miss
Sarah desta ssta assim enclausurada, sem um rumor, com a janela do
pavilho cerrada? Melanie, desde pequena ao servio de Maria, era uma
confidente: o bom Domingos, um imbecil, no contava: mas miss Sarah?...
Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar
depois  mesa os candidos olhos da inglesa sob os seus bands virginaes...
Est claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou franzir de leve a
testa, recebia logo secamente a sua passagem no Roial Mail para Soutampton!
Rosa no a lamentaria, Rosa no lhe tinha afeio. Mas, emfim, era to sria,
admirava tanto a senhora! Ela no gostava de perder a admirao de uma
rapariga to sria. E assim decidiram despedir miss Sarah, rgiamente paga, e
substituil-a, mais tarde, em Itlia, por uma governante alem, para quem eles
fossem como casados, Monsieur et Madame...
Mas pouco a pouco o desejo de uma felicidade mais intima, mais completa, foi
crescendo n'eles. No lhes bastava j essa curta manh no div com os
passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em redor:
apeteciam o longo contentamento de uma longa noite, quando os seus braos
se podessem enlaar sem encontrar o estofo dos vestidos, e tudo dormisse em
torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem facil! A sala de
tapearias, comunicando com a alcova de Maria, abriu sobre o jardim por uma
porta envidraada; a governante, os criados, subiam s dez horas para os
seus quartos no andar alto; a casa adormecia profundamente; Carlos tinha
uma chave do porto; e o nico co, Niniche, era o confidente fiel dos seus
beijos...
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Maria desejava essa noite to ardentemente como ele. Uma tarde ao
escurecer, voltando de um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos
essa dupla chave - que Carlos j prometia mandar dourar: e ele ficou
surprehendido ao vr que o velho porto, que ouvira sempre ranger
abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silncio oleoso.
Veio nessa mesma noite - tendo deixado na vila para o levar ao amanhecer a
caleche do Mulato, um batedor discreto, que ele cevava de gorgetas. O co,
mole e abafado, no tinha uma estrela; e sobre o mar lampejava a espaos,
mudamente, a lividez de um relampago. Caminhando com inuteis cautelas
rente do muro Carlos sentia, nesta proximidade de uma posse to desejada,
uma melancolia, cerrada de anciedade, que vagamente o acobardava. Abriu
quase a tremer o porto: e mal dra alguns passos estacou, ouvindo ao fundo
Niniche ladrar furiosamente. Mas tudo emudeceu; e da janela do canto, sobre
o jardim, surgiu uma claridade que o socegou. Foi encontrar Maria, com um
roupo de rendas, junto da porta envidraada, sufocando quase entre os
braos Niniche que ainda rosnava. Estava toda medrosa, numa impaciencia de
o sentir ao seu lado: e no quisrecolher logo: um momento ficaram ali,
sentados nos degraus, com Niniche que aquietra e lambia Carlos. Tudo em
redor era como uma infinita mancha de tinta; s l em baixo, perdida e
mortia, surdia da treva alguma luzinha vacilando no alto de um mastro.
Maria, conchegada a Carlos, refugiada n'ele, deu um longo suspiro: e os seus
olhos mergulhavam inquietos naquela mudez negra, onde os arbustos
familiares do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida
na sombra.
- Porque no havemos de partir j para a Itlia? perguntou ela de repente,
procurando a mo de Carlos. Se tem de ser, porque no ha de ser j?...
Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
- Sustos de que, meu amor? Estamos aqui to seguros como na Itlia, como
na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize tu um
dia, marca um dia!
Ela no respondeu, deixando cahir dcemente a cabea sobre o hombro de
Carlos. Ele acrescentou, devagar:
- Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia, vr
o av...
Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escurido como recebendo dela o
presagio de um futuro, onde tudo sria confuso e escuro tambm.
- Tu tens Santa Olavia, tens teu av, tens os teus amigos... Eu no tenho
ningum!
Carlos estreitou-a a si, enternecido.
- No tens ningum! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustia, nem chega a
ser ingratido!  nervoso; e  tambm o que os inglses chamam a
impudente adulterao de um facto.
Ela ficra aninhada no peito de Carlos, como desfalecida.
- No sei porque, queria morrer...
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Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na
alcova. Os mlhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os
setins amarelos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, numa
refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito j aberto
punham uma casta alvura de neve fresca nesse luxo amoroso e cor de chama.
Fora, para os lados do mar, um trovo rolou lento e surdo. Mas Maria j o no
ouviu, cada nos braos de Carlos. Nunca o desejra, nunca o adorra tanto!
Os seus beijos anciosos pareciam tender mais longe que a carne, trespassal-o,
querer sorver-lhe a vontade e a alma: - e toda a noite, entre esses brocados
radiantes, com os cabelos soltos, divina na sua nudez, ela lhe apareceu
realmente como a Deusa que ele sempre imaginra, que o arrebatava emfim,
apertado ao seu seio imortal, e com ele pairava numa celebrao d'amor,
muito alto, sobre nuvens de ouro...
Quando saiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o Mulato a dormir numa
taberna, bebedo. Teve de o meter dentro do carro; e foi ele que governou at
ao Ramalhete, embrulhado numa manta do taberneiro, encharcado,
cantarolando, esplendidamente feliz.
Passados dias, passeando com Maria nos arredores da Toca, Carlos reparou
numa casita,  beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo a idia de a
alugar, para evitar aquela desagradavel partida de madrugada com o Mulato
estremunhado, borracho, despedaando o trem pelas caladas. Visitaram-na:
havia um quarto largo, que com tapete e cortinas podia dar um refugio
confortavel. Tomou-a logo - e Baptista veio ao outro dia, com moveis numa
carroa, arranjar este novo ninho. Maria disse, quase triste:
- Mais outra casa!
- Esta, exclamou Carlos rindo,  a ltima! No,  a penltima... Temos ainda a
outra, a nossa, a verdadeira, l longe, no sei onde...
Comearam a encontrar-se todas as noites. s nove e meia, pontualmente,
Carlos deixava a Toca, com o seu charuto acso: e Domingos, adiante, de
lanterna, vinha fechar o porto, tirar a chave. Ele recolhia devagar  sua
choupana onde o servia um criadito, filho do jardineiro do Ramalhete. Sobre
um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas, alm do leito, uma
mesa, um sof de riscadinho, duas cadeiras de palha; e Carlos entretinha as
horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo para Santa Olavia e
sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.
Recebera duas cartas dele, falando quase smente do Damaso. O Damaso
aparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornra-se grutesco em
Cintra, numa corrida de burros; o Damaso arvorra capacete e vu em
Sitiaes; o Damaso era uma besta iramundo; o Datmaso, no ptio do Victor, de
perna traada, dizia familiarmente a Rachel; era um dever de moralidade
publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os ombros, achando
estes ciumes indignos do corao do Ega. E ento por quem! Por aquela
lambisgoia d'Israel, melada e molenga, sovada a bengala! Se com efeito,
escrevera ele ao Ega, ela desceu de ti at ao Damaso, tens s a fazer como se
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fosse um charuto que te cahisse  lama: no o podes naturalmente levantar:
deves deixar fumal-o em paz ao garoto que o apanhou: enfurecer-te com o
garoto ou com o charuto,  d'imbecil. Mas ordinariamente, quando respondia,
falava s ao Ega dos Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas
dela, do encanto dela, da superioridade dela... Ao av no achava que dizer;
nas dez linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recomendava-lhe que no
se fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do
Manoelzinho- que ele nunca via.
Quando no tinha que escrever, estirava-se no sof, com um livro aberto, os
olhos no ponteiro do relgio.  meia noite saa, encafuado num gabo
d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitrios na mudez dos
campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...
Numa dessas noites, de grande calor, Carlos canado adormeceu no sof: e s
despertou, em sobresalto, quando o relgio na parede dava tristemente duas
horas. Que desespero! Ali ficava perdida a sua noite de amor! E Maria decerto
 espera, angustiada, imaginando desastres!... Agarrou o cajado, abalou,
correndo pela estrada. Depois, ao abrir subtilmente o porto da quinta, pensou
que Maria teria adormecido: Niniche podia ladrar: os seus passos, entre as
acacias, abafaram-se, mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as
ramagens, vindo do cho, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a
que se misturavam beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a
cacete aqueles dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o
poetico retiro dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma
voz soluava, desfalecida - oh ies, oh ies... Era a inglesa!
Oh santo Deus, era a inglesa, era miss Sarah! Apagando os passos, atordoado,
Carlos escoou-se pelo porto, cerrou-o mansamente, foi esperar adiante, num
recanto do muro, sob as ramarias de uma faia, sumido na sombra. E tremia de
indignao. Era preciso contar imediatamente a Maria aquele grande horror!
No queria que ela consentisse um momento mais essa impura fmea, junto
de Rosa, roando a candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal
hipocrisia, assim astuta e metodica, sem se desconcertar jamais! Havia dias
apenas, vira a criatura desviar os olhos de uma gravura d'Ilustrao, onde dois
castos pastores se beijavam num arvoredo bucolico! E agora rugia, estirada na
herva!
Na estrada escura, do lado do porto, brilhou um lume de cigarro. Um homem
passou, forte e pesado, com uma manta aos ombros. Parecia um jornaleiro. A
boa miss Sarah no escolhera! Bem lavada, toda correcta, com os seus bands
puritanos, aceitava um qualquer, rude e sujo, desde que era um macho! E
assim os embara, meses, com aquelas suas duas existncias, to separadas,
to completas! De dia virginal, severa, crando sempre, com a Bblia no cesto
da costura:  noite a pequena adormecia, todos os seus deveres srios
acabavam, a santa transformava-se em cabra, chale aos ombros, e l ia para
a relva, com qualquer!... Que belo romance para o Ega!
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Voltou; tornou a abrir devagarinho o porto: de novo subiu, amolecendo os
passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitao em
contar a Maria aquele horror. A seu pezar pensava que tambm Maria o
esperava, com o leito aberto, no silncio da casa adormecida; e que tambm
ele penetrava ali, as escondidas, como o homem da manta... De certo era bem
diferente! Toda a imensuravel diferena que vai do divino ao bestial... E
todavia receava despertar os melindrosos escrupulos de Maria, mostrando-lhe,
paralelo ao seu amor cheio de requintes e passado entre brocados cor de ouro,
aquele outro rude amor, secreto e ilegitimo como o dela, e arrastado
brutamente na relva... Era como mostrar-lhe um reflexo da sua prpria culpa,
um pouco esfumada, mais grosseira, mas parecida nos seus contornos,
lamentavelmente parecida... No, no diria nada. E a pequena?... Oh, nas
suas relaes com Rosa a criatura continuaria a ser, como sempre, a puritana
laboriosa, grave e cheia d'ordem.
A porta envidraada sobre o jardim tinha ainda luz: ele atirou aos vidros uma
pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria apareceu, mal embrulhada
num roupo, juntando os cabelos que se tinham desenrolado, e meia
adormecida.
- Porque vieste to tarde? Carlos beijou longamente os seus belos olhos
pesados, quase cerrados.
- Adormeci estupidamente, a lr... Depois, quando entrei pareceu-me ouvir
passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginao, tudo deserto.
- Precisavamos ter um co de fila, murmurou ela, espreguiando-se.
Sentada  beira do leito, com os braos cahidos e adormentados, sorria da sua
preguia.
- Ests to fatigada, filha! queres tu que me v embora ?...
Ela puxou-o para o seu seio perfumado e quente.
- Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...
Ao outro dia Carlos no fora a Lisboa, e apareceu cedo na Toca. Melanie, que
andava espanejando o quiosque, disse-lhe que Madame, um pouco canada,
tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Ele entrou no salo:
defronte da janela aberta, sentada no banco de cortia, miss Sarah costurava,
 sombra das arvores.
- Good morning, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo curioso de a
observar.
- Good morning, sir, respondeu ela com o seu ar modesto e tmido.
Carlos falou do calor. Miss Sarah j quela hora o achava intoleravel.
Felizmente a vista do rio, l em baixo, refrescava...
Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos acendendo a cigarrete, fora to
abafada! Ele mal pudera dormir. E ela?
Oh, ela dormira de um sono s. Carlos quissaber se tivera bonitos sonhos.
- Oh ies, sir.
- Oh ies! mas agora um ies pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E to
correcta, to pregada, fresca como se nunca tivesse servido!... Positivamente
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era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava que ela devia ter um
seiosinho bem alvo e bem redondinho!
Assim ia passando o vero nos Olivaes. No comeo de setembro, Carlos soube
por uma carta do av que Craft devia chegar a Lisboa, num sabbado, ao Hotel
Central: e correu l cedo, logo nessa manh, a ouvir as novidades de Santa
Olavia. Achou Craft j a p, diante do espelho, fazendo a barba. A um canto
do sof, Eusebiosinho, que viera na vespera  noite de Cintra e estava
tambm no Hotel, limpava as unhas com um canivete, em silncio, coberto de
negro.
Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem compreendia como Afonso,
beiro forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do
Ramalhete. Tinha-se passado rgiamente! O av, cheio de sade, de uma
hospitalidade que lembrava Abrao e a Bblia. O Sequeira optimo comendo
tanto que ficava intil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo de uma
poltrona. L conhecera o velho Travassos, que falava sempre com os olhos
cheios de lgrimas do talento do seu caro colega Carlos. E o marqus
esplendido, com abraos de primo a todos os fidalgotes de Lamego, e
apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares, alguns tiros aos
coelhos, uma romaria, danas de raparigas no adro, guitarradas, esfolhadas,
todo o doce idilio portugus...
- Mas a respeito de Santa Olavia temos a falar mais sriamente, disse por fim
Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabea.
- E tu, perguntou ento Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens estado
em Cintra, hein? Que se faz l?... O Ega?
O outro ergueu-se guardando o canivete, ajeitando as lunetas.
- L est no Victor, muito engraado, comprou um burro... L est o Damaso
tambm... Mas esse pouco se v, no larga os Cohens... Enfim tem-se
passado menos mal, com bastante calor...
- Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito srio! O Palma 
que l tinha aparecido com uma rapariga portugueza... Tinha agora um jornal,
A Corneta do Diabo.
- A Corneta...?
- Sim, do Diabo, disse o Eusebiosinho.  um jornal de pilherias, de picuinhas...
Ele j existia, chamava-se o Apito; mas agora passou para o Palma; ele vailhe
augmentar o formato, e meter-lhe mais chalaa...
- Enfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e imunda como ele...
Craft reapareceu, enxugando a cabea. E emquanto se vestia, falou de uma
viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia. Como
j no tinha a Toca, e a sua casa ao p do Porto necessitava longas obras, ia
passar o inverno ao Egipto, subindo o Nilo, em comunicao espiritual com a
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antiguidade Pharaonica. Depois talvez se adiantasse at Bagdad, a vr o
Eufrates, e os sitios de Babilonia...
- Por isso eu lhe vi ali, na mesa, exclamou Carlos, um livro, Ninive e
Babilonia... Que diabo, voc gosta disso? Eu tenho horror a raas e a
civilizaes defuntas... No me interessa seno a Vida.
-  que voc  um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e de
Babilonia, quer vir voc almoar ao Bragana? Eu tenho de l encontrar um
ingls, o meu homem das minas... Mas havemos de ir pela rua do Ouro, que
quero trepar um instante  caverna do meu procurador... E a caminho, que 
meio dia!
Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres
lunetas negras diante dos telegramas. E apenas sahira o ptio, Craft travou do
brao de Carlos, e disse-lhe que as coisas srias a respeito de Santa Olavia -
era o visivel, profundo desgosto do av por ele no ter l aparecido.
- Seu av no me disse nada, mas eu sei que ele est muitissimo magoado
com voc. No ha desculpa, so umas horas de viagem... Voc sabe como ele
o adora... Que diabo! Est modus in rebus.
- Com efeito, murmurou Carlos. Eu devia ter l ido... Que quer voc, amigo?...
Enfim acabou-se,  necessrio fazer um esforo!... Talvez parta para a semana
com o Ega.
- Sim, homem, d-lhe esse alegro... Esteja l umas semanas...
- Est modus in rebus. Hei de vr se l estou uns dias.
A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava, havia
momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta - quando de repente
avistou Melanie, a sair o porto do Monte-Pio, com uma matrona gorda, de
chapu rxo. Surpreendido, atravessou a rua. Ela estacou como apanhada,
fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; balbuciou logo que
Madame lhe dra licena para vir a Lisboa, e ela andava acompanhando
aquela amiga... Uma velha caleche, de parelha branca, estava encalhada ali,
contra o passeio. Melanie saltou para dentro,  pressa. A traquitana rodou aos
solavancos para o Terreiro do Pao.
Carlos via-a desaparecer, pasmado. E Craft, que voltra, olhando tambm,
reconheceu no lamentvel calhambeque a caleche do Torto, dos Olivaes, onde
ele s vezes costumava vir janotar a Lisboa.
- Era algum l da Toca? perguntou.
Uma criada, disse Carlos, ainda espantado daquele estranho embarao de
Melanie.
E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no rumor
da rua:
- Oua l! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?
O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe aparecera no quarto, rompera
logo, mascando as palavras, a inform-lo da misteriosa vida de Carlos nos
Olivaes...
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- Mas eu fi-lo calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era to pouco
curioso que nem mesmo quisera lr nunca a Historia Romana... Em todo o
caso voc deve ir a Santa Olavia.
Carlos, com efeito, logo nessa noite falou a Maria da visita que devia ao av.
Ela, muito sria, aconselhou-lha tambm, arrependida de o ter retido assim,
egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o amavam.
- Mas ouve, querido, no  por muito tempo, no?
- Por dois ou trs dias, quando muito. E naturalmente, trago at o av. No
est l a fazer nada, e eu no estou para a massada de voltar l...
Maria ento lanou-lhe os braos ao pescoo, e baixo, timidamente,
confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vr o Ramalhete! Queria
visitar os quartos dele, o jardim, todos esses recantos, onde tantas vezes ele
pensara nela, e se desesperara, sentindo-a distante e inacessivel...
- Dize, queres? Mas  necessrio que seja antes de vir teu av. Queres?
- Acho um encanto! Ha s um perigo.  eu no te deixar sair mais e ficar a
devorar-te na minha caverna.
- Prouvera a Deus!
Combinaram ento que ela fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida de
Carlos para Santa Olavia.  noitinha levava-o no coup a Santa Apolonia;
depois seguia para os Olivaes.
Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu corao
batia com a deliciosa perturbao de um primeiro encontro, quando sentiu
parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roarem o veludo cor
de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo que
trocaram, na ante-cmara, teve a profunda doura de um primeiro beijo!
Ela foi logo ao toucador tirar o chapu, dar um jeito ao cabelo. Ele no cessava
de a beijar; abraava-a pela cinta; e com os rostos juntos sorriam para o
espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, impaciente, curiosa,
ela percorreu os quartos, miudamente, at  alcova de banho; leu os ttulos
dos livros, respirou o perfume dos frascos, abriu os cortinados de sda do
leito... Sobre uma cmoda Luiz XV havia uma salva de prata, transbordando
de retratos que Carlos se esquecera de esconder, a coronela d'hussards
d'amazona, madame Rughel decotada, outras ainda. Ela mergulhou as mos,
com um sorriso triste, na profuso daquelas recordaces... Carlos, rindo,
pediu-lhe que no olhasse esses enganos do seu corao.
Porque no? dizia Maria, sria. Sabia bem que ele no descera das nuvens,
puro como um serafim. Havia sempre fotografias no passado de um homem.
De resto tinha a certeza que nunca amra as outras como a sabia amar a ela.
- At  uma profanao falar em amor quando se trata dessas coisas d'acaso,
murmurou Carlos. So quartos de estalagem onde se dorme uma vez...
No entanto Maria considerava longamente a fotograptfia da coronela
d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma francsa?
- No, de Viena. Mulher de um correspondente meu, homem de negocios...
Gente tranquila, que vivia no campo...
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- Ah, Vienense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de Viena!
Carlos tirou-lhe a fotografia da mo. Para que haviam de falar d'outras
mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e ele tinha-a ali
abraada sobre o seu corao.
Foram ento percorrer todo o Ramalhete, at ao terrao. Ela gostou sobretudo
do escritrio d'Afonso, com os seus damascos de cmara de prelado, a sua
feio severa de paz estudiosa.
- No sei porque, murmurou dando um olhar lento s estantes pesadas e ao
Cristo na cruz, no sei porque, mas teu av faz-me medo!
Carlos riu. Que tonteria! O av se a conhecesse, fazia-lhe logo a corte
rasgadamente... O av era um santo! E um lindo velho!
- Teve paixes?
- No sei, talvez... Mas creio que o av foi sempre um puritano.
Desceram ao jardim, que lhe agradou tambm, quieto e burguez, com a sua
cascatasinha chorando num ritmo dce. Sentaram-se um instante sob o velho
cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas letras
mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos pareceu a
Maria mais doce que o de todas as outras aves que ouvira; depois arranjou um
ramo para levar como relquia.
Mesmo em cabelo foram vr defronte as cocheiras: o guarda-porto ficou de
bon na mo, embasbacado para aquela senhora to linda, to loira, a
primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavalos, e fez uma
festa grata e mais longa  Tunante, que tantas vezes levra Carlos  rua de S.
Francisco. Ele via nesta s simples coisas as graas incomparaveis de uma
esposa perfeita.
Recolheram pela escada particular de Carlos - que Maria achava misteriosa
com aqueles veludos grossos cor de cereja, forrando-a como um cofre, e
abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca ali passra outro
vestido - a no ser o do Ega, uma vez, mascarado de varina.
Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: mas
quando voltou encontrou-a a um canto do sof, to descada, to desanimada,
que lhe arrebatou as mos, cheio d'inquietao.
- Que tens, amor? Ests doente?
Ela ergueu lentamente os olhos que brilhavam numa nevoa de lgrimas.
Pensar que tu vs deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua paz, os
teus amigos...  uma tristeza, tenho remorsos!
Carlos ajoelhra ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe
tonta, secando-lhe num beijo as lgrimas que rolavam... Considerava-se ela
ento valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes usados?...
- O que eu tenho pena  de te sacrificar to pouco, minha querida Maria,
quando tu sacrificas tanto!
Ela encolheu os ombros, amargamente.
- Eu!
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Passou-lhe as mos entre os cabelos, puxou-o brandamente para o seu seio -
e dizia, baixo, como falando ao seu prprio corao, calmando-lhe as
incertezas e as duvidas:
- No, com efeito, nada vale no mundo seno o nosso amor! Nada mais vale!
Se ele  verdadeiro, se  profundo, tudo mais  vo, nada mais importa...
A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraada para o leito
- onde tentas vezes desesperava dela como de uma deusa intangivel.
s cinco horas pensaram em jantar. A mesa fora posta numa saleta que Carlos
quisera em tempo revestir de colxas de setim cor de perola e boto de ouro.
Mas no estava ainda arranjada; as paredes conservavam o seu papel verdeescuro;
e Carlos pusera ali ltimamente o retrato de seu pai - uma teia banal,
representando um moo plido, de grandes olhos, com luvas de camura
amarela e um chicote na mo.
Era Baptista que os servia, j com um fato claro de viagem. A mesa, redonda
e pequena, parecia uma cesta de flores; o champagne gelava dentro dos
baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz doce tinha as iniciaes de
Maria.
Aqueles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou no
retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar aquela face
descrada, que o tempo fizera lvida, e onde pareciam mais tristes os grandes
olhos d'rabe, negros e languidos.
- Quem ? perguntou.
-  meu pai.
Ela examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. No achava que Carlos se
parecesse com ele. E voltando-se muito sria, emquanto Carlos desarrolhava
com venerao uma garrafa de velho Chambertin:
- Sabes tu com quem te pareces s vezes?...  extraordinrio, mas  verdade.
Pareces-te com minha me!
Carlos riu, encantado de uma parecena que os aproximava mais, e que o
lisonjeava.
- Tens razo, disse ela, que a mam era formosa... Pois  verdade, ha um no
sei qu na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma maneira de
sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco vago, esquecido...
Tenho pensado n'isto muitas vezes...
Baptista entrava com uma terrina de loua do Japo. E Carlos, alegremente,
anunciou um jantar  portugueza. Mr. Antoine, o chef francez, fora com o av.
Ficra a Michaela, outra cozinheira de casa, que ele achava magnifica, e que
conservava a tradio da antiga cozinha freiratica do tempo do senhorD. Joo
V.
- Assim, para comear, minha querida Maria, a tens tu um caldo de galinha,
como s se comia em Odivelas, na cela da madre Paula, em noites de noivado
mistico...
E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, eles apertavam-se
rapidamente a mo por cima das flores. Nunca Carlos a achra to linda, to
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perfeita: os seus olhos pareciam-lhe irradiar uma ternura maior: na singela
rosa que lhe ornava o peito via a superioridade do seu gosto. E o mesmo
desejo invadiu-os a ambos, de ficarem ali eternamente, naquele quarto de
rapaz, com jantarinhos portuguess  moda de D. Joo V, servidos pelo
Baptista de jaqueto.
- Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como implorando
a sua aprovao.
- No, deves ir...  necessrio no sermos egoistas... Smente no te
descuides, manda-me todos os dias um grande telegrama... Que os telegrafos
foram unicamente inventados para quem se ama e est longe, como dizia a
mam.
Ento Carlos gracejou de novo sobre a sua parecena com a me dela. E
baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:
-  curioso no m'o teres dito antes... Tambm tu nunca me falaste de tua
me...
Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca falra da
mam, porque nunca viera a proposito...
- De resto no havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A
mam era uma senhora da ilha da Madeira, no tinha fortuna, casou...
- Casou em Paris?
- No, casou na Madeira com um austriaco que fora l acompanhar um irmo
tisico... Era um homem muito distincto, viu a mam, que era lindssima,
gostaram um do outro, et voil...
Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza de
frango.
- Mas ento, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu s
tambm austriaca... s talvez uma dessas vienenses que tu dizes que tem um
to grande encanto...
Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca
conhecera o pai, vivera sempre com a mam, falra sempre portugus,
considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo
alemo...
- No tiveste irmos?
- Sim, tive, uma irmsinha que morreu em pequena... Mas no me lembra.
Tenho em Paris o retrato dela... Bem linda!
Nesse momento em baixo, na calada, uma carruagem, a trote largo, estacou.
Carlos, surprehendido, correu  janela com o guardanapo na mo.
-  o Ega! exclamou.  aquele velhaco que chega de Cintra!
Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de p, ambos se olharam,
hesitando... Mas o Ega era como um irmo de Carlos. Ele esperava s que o
Ega recolhesse de Cintra para o levar  Toca. Melhor sria que o encontro se
dsse ali, natural, franco e simples...
- Baptista! gritou Carlos, sem vacilar mais. Dize ao senhor Ega que estou a
jantar, que entre para aqui.
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Maria sentra-se, vermelha, dando um jeito rapido aos ganchos do cabelo,
arranjado  pressa, um pouco desmanchado.
A porta abriu-se, - e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapu branco,
de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mo.
- Maria, disse Carlos, aqui tens enfim o meu grande amigo Ega.
E ao Ega disse simplesmente:
- Maria Eduarda.
Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mo que Maria
Eduarda lhe estendia, crada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado,
desfez-se; e uma proviso fresca de queijadas de Cintra rolou, esmagando-se,
sobre as flores do tapete. Ento todo o embarao findou atravs de uma
risada alegre - emquanto o Ega, desolado, abria os braos sobre as ruinas do
seu dce.
- Tu j jantaste? perguntou Carlos.
No, no tinha jantado. E via j ali uns ovos moles nacionaes, que o
encantavam, enfastiado como vinha da horrvel cozinha do Victor. Oh, que
cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calo, como as comedias
do Ginasio!
- Ento avana! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de
galinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa Olavia?
Est claro que sabia, recebera a carta dele, e por isso viera... Mas no podia
jantar ainda, assim coberto do p da estrada, e com um jaqueto de
bucolica...
- Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo,
que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...
O Baptista servira o caf. E a carruagem da senhora, que os devia levar a
Santa Apolonia, esperava j  porta com a maleta. Mas Ega agora queria
conversar, afirmou que tinham tempo, tirou o relgio. Estava parado. E ele
declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flores e como as
aves...
- Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.
- No, minha senhora, s o tempo de cumprir o meu dever de cidado,
subindo duas ou trs vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra
comea a ser interessante para mim, agora que no est ningum... Cintra, de
vero, com burguezes, parece-me um idilio com nodoas de sebo.
Mas Baptista oferecia a Carlos a chartreuse - dizendo que s. exc. no se devia
demorar se no tencionava perder o comboio, de proposito. Maria ergueu-se
logo para ir dentro pr o chapu. E os dois amigos, ss, ficaram um momento
calados, emquanto Carlos acendia devagar o charuto.
- Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.
- Tres ou quatro dias. E tu no voltes para Cintra antes que eu chegue,
precisamos comunicar... Que diabo tens tu feito l?
O outro encolheu os ombros.
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- Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando que
lindo que isto ! etc.
Depois, debruado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:
- De resto, nada... O Damaso l est! Sempre com a Cohen, como te mandei
dizer... Est claro que no ha nada entre eles, aquilo  s para mim, para me
irritar...  um canalha aquele Damaso! Eu s quero um pretexto. Esgano-o!
Deu um puxo forte aos punhos, com uma cor de clera no rosto queimado:
- Eu, est claro, falo-lhe, aperto-lhe a mo, chamo-lhe amigo Damaso, etc.
Mas s quero um pretexto!  necessrio aniquilar aquele animal.  um dever
de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquela bola de lama humana!
- Quem esteve por l mais? perguntou Carlos.
- Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma s vez. Aparecia pouco,
coitada, agora que andava de luto.
- De luto?
- Por ti.
Calou-se. Maria entrava, com o vu descido, acabando de apertar as luvas.
Ento Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braos ao Baptista para ele
lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, pedindo um abrao filial
para Afonso, e recados para o gordo Sequeira.
Foi acompanhal-os a baixo, em cabelo: e fechou ele a portinhola, prometendo
a Maria Eduarda uma visita  Toca, apenas Carlos voltasse desses penhascos
do Douro...
- No vs para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a Michaela
que tome conta em ti!
- Al right, al right, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc., minha
senhora... At  Toca!
O coup partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava
preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flores e os restos do jantar,
as velas continuavam a arder solitrias, fazendo ressaltar no painel escuro a
palidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus olhos.
No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda  mesa do
almoo, acabavam os seus charutos, falando de Santa Olavia. Carlos chegra
de l essa madrugada, s. O av decidira ficar entre as suas velhas arvores
at ao fim do outono que ia to luminoso e to macio...
Carlos fra-o encontrar muito alegre, muito forte - apesar de ter sido
obrigado, por causa de um toque de reumatismo, a abandonar enfim o seu
culto da gua fria. E esta macia, resplandecente sade do velho fora um
alivio para o corao de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos ingrata, a
sua partida com Maria para Itlia, em outubro. Alm disso achra um truc,
como ele dizia ao Ega, para realizar o supremo desejo da sua vida sem
magoar o av, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um truc, simples. Consistia
em partir ele s para Madrid, no comeo de uma certa viagem d'estudo,
para que j preparra o av em Santa Olavia. Maria ficava na Toca, durante
um ms. Depois tomava o paquete para Bordeus: e era a que Carlos se reunia
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com ela, a comearem essa existncia de felicidade e romance que as flores
da Itlia deviam perfumar... Na primavera ele voltava a Lisboa, deixando
Maria instalada no seu ninho: e ento, pouco a pouco, ia revelando ao av
aquela ligao, a que o prendia a honra, e que o foraria agora a viver
regularmente longos meses numa outra terra que se tornra a patria do seu
corao. E que havia de dizer o av ? Aceitar esse romance, a que no veria
os lados desagradaveis, esbatido assim pela distncia e pela nevoa da paixo.
Seria para Afonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se passava em
Itlia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar pontualmente todos os anos o
neto para longe; e cada ano se consolaria pensando na curta durao dos
idilios humanos. De resto Carlos contava com essa larga benevolencia que
amolece as almas mais rgidas quando apenas alguns passos as separam do
tumulo... Enfim o seu truc parecia-lhe bom. Ega, em resumo, aprovou o truc.
Depois, mais alegremente, falaram da instalao desse amor. Carlos
permanecia na sua idia romntica um cotage  beira de um lago. Mas Ega
no aprovava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma gua sempre
mansa e sempre azul, parcia-lhe perigoso para a durabilidade da paixo. Na
quietao continua de uma paisagem igual, dois amantes solitrios, dizia ele,
no sendo botanicos nem pescando  linha, vem-se forados a viver
exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar da todas as suas idias,
sensaes, ocupaes, gracejos e silencios... E, que diabo, o mais forte
sentimento no pode dar para tanto! Dois amantes, cuja unica profisso 
amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta cidade, tumultuosa e
criadora, onde o homem tenha durante o dia os clubs, o cavaco, os museus,
as idias, o sorriso d'outras mulheres - e a mulher tenha as ruas, as compras,
os teatros, a ateno d'outros homens; de sorte que  noite, quando se
reunam, no tendo passado o infindavel dia a observarem-se um no outro e a
si prprios, trazendo cada um a vibrao da vida forte que atravessaram -
achem um encanto novo e verdadeiro no conchego da sua solido, e um sabor
sempre renovado na repetio dos seus beijos...
- Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, no
era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era para
Paris, para o boulevard dos Italianos, ali  esquina do Vaudevile, com janelas
deitando para a grande vida, a um passo do Figaro, do Louvre, da Philosofia e
da blague... Aqui tens tu a minha doutrina!... E a temos ns o amigo Baptista
com o correio.
No era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia numa salva: e
vinha to perturbado que anunciou um sujeito, ali fora, na antecamara, numa
carruagem,  espera...
Carlos olhou o bilhete, empalideceu terrivelmente. E ficou a revir-lo, lento e
como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em silncio, atirou-o
ao Ega por cima da mesa.
- Caramba! murmurou Ega, assombrado.
Era Castro Gomes!
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Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.
- Manda entrar... Para o salo grande!
Baptista apontou para o jaqueto de flanela com que Carlos tinha almoado, e
perguntou baixo se s. exc. queria uma sobrecasaca.
- Traze.
Ss, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.
- No  um desafio, est claro, balbuciou Ega.
Carlos no respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se
Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis Hotel
Bragana... Baptista voltra com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a
devagar, saiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficra de p junto da mesa,
limpando estupidamente as mos ao guardanapo.
No salo nobre, forrado de brocados cor de musgo de outono, Castro Gomes
examinava curiosamente, com um joelho apoiado  borda do sof, a
esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bela e forte no
seu vestido de veludo escarlate de caadora inglesa. Ao rumor dos passos de
Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapu branco na mo, sorrindo, pedindo
perdo de estar assim a pasmar familiarmente para aquele soberbo
Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito plido, indicou-lhe o sof.
Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se vagarosamente. No peito da
sobrecasaca muito justa trazia um boto de rosas, os seus sapatos de verniz
resplandeciam sob as polainas de linho; no rosto chupado, queimado, a barba
negra, terminava em bico; os cabelos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir
tinha um ar de secura, de fadiga.
- Eu possuo tambm em Paris um Constable muito chic, disse ele, sem
embarao, num tom arrastado, cheio de rr, que o sutaque brasileiro adocicava.
Mas  apenas uma pequena paisagem, com duas figurinhas.  um pintor que
no me diverte, a dizer a verdade... Todavia da muito tom a uma galeria. 
necessrio tel-o.
Carlos, defronte numa cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre os
joelhos, conservava a imobilidade de um mrmore. E, perante aquele modo
afavel, uma idia ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, pondo-lhe j nos
olhos largos que no tirava de sobre o outro, uma irreprimivel chama de
clera. Carlos Gomes decerto no sabia nada! Chegra, desembarcra, correra
aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o marido, era novo, tivera-a j nos
braos - a ela! E agora ali estava, tranqilo, de flr ao peito, falando de
Constable! O nico desejo de Carlos, nesse instante, era que aquele homem o
insultasse.
No entanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar
assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma
entrevista...
- O motivo porm que me traz  to urgente, que cheguei esta manh s dez
horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E esta mesma
noite, se puder, parto para Madrid.
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Fez-se um alivio infinito no corao de Carlos. Ainda no vira ento Maria
Eduarda, aqueles secos lbios no a tinham tocado! E saiu enfim da sua
rigidez de mrmore, teve um movimento atento, aproximando de leve a
cadeira.
Castro Gomes no entanto, tendo pousado o chapu, tirra do bolso interior da
sobrecasaca uma carteira com um largo monograma de ouro; e, vagaroso,
procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ela na mo, muito
tranquilamente:
- Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonimo... Mas
no creia v. exc. que foi ele que me levou a atravessar  pressa o Atlantico.
Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambm afirmar-lhe que todo o
conteudo dele me deixou perfeitamente indiferente... Aqui o tem. Quer v.
exc. ll-o, ou quer que eu leia?
Carlos murmurou com um esforo:
- Leia v. exc.
Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.
- Como v. exc. v,  a carta anonima em todo o seu horror: papel de
mercearia, pautadinho de azul; caligrafia reles; tinta reles; cheiro reles. Um
documento odioso. E aqui est como ele se exprime: Um homem que teve a
honra de apertar a mo de v. exc. Eu dispensava a honra... que teve a
hora de apertar a mo de v. exc. e d'apreciar o seu cavalheirismo, julga
dever prevenil-o que sua mulher ,  vista de toda a Lisboa, a amante de um
rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo da Maia, que vive numa casa s
Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. Este heroe, que  muito rico,
comprou expressamente uma quinta nos Olivaes, onde instalou a mulher de
v. exc. e onde a vai vr todos os dias, ficando s vezes, com escndalo da
visinhana, at de madrugada. Assim o nome honrado de v. exc. anda pelas
lamas da capital.   tudo o que diz a carta; e eu s devo acrescentar, porque
o sei, que tudo quanto ela diz  incontestavelmente exacto... O senhorCarlos
da Maia  pois publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante
dessa senhora.
Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braos, numa aceitao
inteira de todas as responsabilidades:
- No tenho ento nada a dizer a v. exc. seno que estou s suas ordens!...
Uma fugitiva onda de sangue avivou a palidez morena de Castro Gomes.
Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo
friamente:
- Perdo... O senhor Carlos da Maia sabe, to bem como eu, que se isto
tivesse de ter uma soluo, violenta, eu no viria aqui pessoalmente, a sua
casa, lr-lhe este papel... A coisa  inteiramente outra.
Carlos recara na cadeira, assombrado. E agora a lentido adocicada daquela
voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que viria desses
lbios, que sorriam com uma palidez impertinente, quase fazia estalar o seu
pobre corao. E era um desejo brutal de lhe gritar que acabasse, que o
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matasse, ou que saisse daquela sala, onde a sua presena era uma inutilidade
ou uma torpeza!...
O outro passou os dedos no bigode, e prosseguiu, devagar, arranjando as suas
palavras com cuidado e com preciso:
- O meu caso  este, senhor Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me
no conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em
Paris, no Brasil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma mulher
bonita, e que a mulher desse Castro Gomes tem em Lisboa um amante. Isto 
desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc. compreende que eu no devo
continuar a arrastar por mais tempo a fama de marido infeliz, visto que a no
mereo, e que a no posso legalmente ter...  por isso que aqui venho, muito
francamente, de gentleman para gentleman, dizer-lhe, como tenho teno de
dizer a outros, que aquela senhora no  minha mulher.
Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas ele
conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos brilhavam
angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um esforo, baixou de
leve a cabea, como acolhendo placidamente aquela revelao, que tornava
outra qualquer palavra entre eles desnecessaria e v.
Mas Castro Gomes encolhera de leve os ombros, com uma languida
resignao, como quem atribue tudo  malicia dos Destinos.
- So as ridiculas scenas da vida... O senhor Carlos da Maia est da a vr as
coisas.  a velha, a clssica historia... Ha trs anos que eu vivo com essa
senhora; quando tive o inverno passado de ir ao Brasil, trouxe-a a Lisboa para
no vir ssinho. Fmos para o hotel Central. V. exc. compreende
perfeitamente que eu no fui fazer confidencias ao gerente do
estabelecimento. Aquela senhora vinha comigo, dormia comigo, portanto, para
todos os efeitos do hotel, era minha mulher. Como mulher de Castro Gomes
ficou no Central; como mulher de Castro Gomes alugou depois uma casa na
rua de S. Francisco; como mulher de Castro Gomes tomou enfim um amante...
Deu-se sempre como mulher de Castro Gomes, mesmo nas circumstancias
mais particularmente desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! no
podemos realmente conden-la muito... Achava-se por acaso revestida de
uma excelente posio social e de um nome puro, sria mais que humano que
o seu amor da verdade a levasse, apenas conhecia algum, a declarar que
posio e nome eram de emprestimo e ela era apenas Fulana de tal,
amigada... De resto, sejamos justos, ela no era moralmente obrigada a dar
semelhantes explicaes ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou  matrona
que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ningum, a no ser a um
pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do convento... Demais a mais
sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas vezes, em coisas relativamente
delicadas lhe deixei usar o meu nome. Foi, por exemplo, com o nome de
Castro Gomes que ela tomou a governante inglesa. As inglsas so to
exigentes!... Aquela, sobretudo, uma rapariga to sria... Enfim tudo isso
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passou... O que importa agora  que eu lhe retiro solenemente o nome que lhe
emprestra; e ela fica apenas com o seu, que  Madame Mac-Gren.
Carlos ergueu-se, lvido. E com as mos fincadas nas costas da cadeira to
fortemente, que quase lhe esgaava o estofo:
- Mais nada, creio eu?
Castro Gomes mordeu de leve os beios perante este remate brutal que o
despediu.
- Mais nada, disse ele tomando o chapu e levantando-se muito
vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc. suspeitas
injustas, que aquela senhora no  uma menina que eu tivesse seduzido, e a
quem recuse uma reparao. A pequerruchinha que ali anda no  minha
filha... Eu conheo a me smente ha trs anos... Vinha dos braos de um
qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem injuria, que era uma
mulher que eu pagava.
Completra com esta palavra a humilhao do outro. Estava deliciosamente
desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, numa sacudidela brusca.
E, diante desta nova rudeza que revelava s mortificao, Castro Gomes foi
perfeito: saudou, sorriu, murmurou:
- Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pesar de ter feito o
conhecimento de v. exc. por um motivo to desagradavel... To desagradavel
para mim.
Os seus passos desafogados e leves perderam-se na antecmara, entre as
tapearias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na
calada...
Carlos ficra cadonuma cadeira, junto da porta, com a cabea entre as mos.
E de todas aquelas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe resoavam em
redor, adocicadas e lentas, s lhe restava o sentimento atordoado de uma
coisa muito bela, resplandecendo muito alto, e que caa de repente, se fazia
em pedaos na lama, salpicando-o todo de nodoas intoleraveis... No sofria:
era simplesmente um assombro de todo o seu ser perante este fim imundo de
um sonho divino... Unira a sua alma arrebatadamente a outra alma nobre e
perfeita, longe nas alturas, entre nuvens de ouro; de repente uma voz
passava, cheia de rr; as duas almas rolavam, batiam num charco; e ele
achava-se tendo nos braos uma mulher que no conhecia, e que se chamava
Mac-Gren!
Mac-Gren! era a Mac-Gren!
Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de todo o
seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera meses timido, tremulo,
ancioso, seguindo  maneira de uma estrela aquela mulher, que qualquer em
Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sof, facil e na! Era
horrvel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a emoo religiosa com
que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. Francisco: o encanto
enternecido com que via aquelas mos, que ele julgava as mais castas da
terra, puxarem os fios de l no bordado, num constante trabalho de me
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laboriosa e recolhida; a venerao espiritual com que se afastava da orla do
seu vestido, igual para ele  tunica de uma Virgem cujas pregas rigidas nem a
mais rude bestialidade ousaria desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E
todo esse tempo ela sorria consigo daquela simpleza de provinciano do Douro!
Oh! tinha vergonha agora das flores apaixonadas que lhe trouxera! Tinha
vergonha das excelencias que lhe dra!
E sria to facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que aquela
deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brasileiro! Mas qu! a sua
paixo absurda de romantico pusera-lhe logo, entre os olhos e as coisas
flagrantes e reveladoras, uma dessas nevoas douradas que do s montanhas
mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! Porque escolhera
ela precisamente para seu medico, na sua casa e na sua intimidade, o homem
que na rua a fitra com um fulgor de desejo na face? Porque  que nas suas
longas conversas, nas manhs da rua de S. Franrisco, no falra jamais de
Paris, dos seus amigos e das coisas da sua casa? Porque  que ao fim de dois
meses, sem preparao, sem todas essas progressivas evidencias do amor
que cresce e desabrocha como uma flr, se lhe abandonra de chofre, toda
prompta, apenas ele lhe disse o primeiro amo-te?... Porque lhe aceitra
uma casa j mobilada, com a facilidade com que lhe aceitava os ramos? E
outras coisas ainda, pequeninas, mas que no teriam escapado ao mais
simples: joias brutaes, de um luxo grosseiro de cocote: o livro da Explicao
de sonhos,  cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora
at o ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da paixo -
que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabra, providencialmente! A
mulher que ele amra e as suas seduces esvaam-se de repente no ar como
um sonho, radiante e impuro, de que aquele brasileiro o viera acordar por
caridade! Esta mulher era apenas a Mac-Gren... O seu amor fra, desde que a
vira, como o prprio sangue das suas veias; e escoava-se agora todo atravs
da ferida incuravel e que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
Ega apareceu  porta do salo, ainda plido:
- Ento?
Toda a clera de Carlos fez exploso:
- Extraordinrio, Ega, extraordinrio! A coisa mais abjecta, a coisa mais
imunda!
- O homem pediu-te dinheiro?
- Pior!
- E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem
reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro, - que assim repetidas e
avivadas pelos seus lbios, lhe descobriam motivos novos de humilhao e de
nojo.
- J por acaso sucedeu a algum coisa mais horrvel? exclamou por fim,
cruzando violentamente os braos diante do Ega, que se abatera no sof,
assombrado. Pdes tu conceber um caso mais sordido? E bem mais burlesco?
 para estalar o corao. E  para rebentar a rir. Estupendo! Ali, nesse sof, a
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onde tu ests, o homemzinho, muito amvel, de flr ao peito, a dizer: Olhe
que aquela criatura no  minha mulher,  uma criatura que eu pago...
Comprehendes isto bem! Aquele sujeito paga-a... Quanto  o beijo? Cem
francos. Ali esto cem francos...  de morrer!
E recomeou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando tudo,
sempre com as palavras do Castro Gomes, que ele deformava ainda numa
brutalidade maior...
- Que te parece, Ega? Dize l. Que fazias tu?  horrvel, heim?
Ega, que limpava pensativamente o vidro do monculo, hesitou, terminou por
dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do seu
tempo e do seu mundo, elas no ofereciam nem motivos de clera, nem
motivos de dr...
- Ento no compreendes nada! gritou Carlos, no percebes o meu caso!
Sim, sim, Ega compreendia claramente que era horrvel para um homem, no
momento em que ia ligar com adorao o seu destino ao de uma mulher,
saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo
simplificava e amenisava as coisas. O que fora um drama complicado tornavase
uma distraco bonanosa. Ficava Carlos, desde logo, aliviado do remorso
de ter desorganisado uma famlia: j no tinha de se exilar, a esconder o seu
erro, num buraco florido da Itlia; j o no prendia a honra para sempre a
uma mulher a quem talvez no o prenderia para sempre o amor. Tudo isto,
que diabo! eram ,vantagens.
- E a dignidade dela! exclamou Carlos.
Sim, mas a diminuio de dignidade e pureza no era na verdade grande,
porque antes da visita de Castro Gomes j ela era uma mulher que foge do
seu marido - o que, sem mesmo usar termos austeros, nem  muito puro nem
muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhao irritante - no superior
todavia  de um homem que tem uma Madona que contempla com religio,
supondo-a de Rafael, e que descobre um dia que a tela divina foi fabricada na
Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o resultado intimo e social
parecia-lhe ser este: Carlos at a tivera uma bela amante com
inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes uma bela amante...
- O que tu deves fazer, meu caro Carlos...
- O que eu vou fazer  escrever-lhe uma carta, remetendo-lhe o preo de dois
meses que dormi com ela...
- Brutalidade romntica!... Isso j vem na Dama das Camelias... Sobretudo 
no vr com boa filosofia as nuances.
O outro atalhou, impaciente:
- Bem, Ega, no falemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente nervoso!... At
logo. Tu jantas em casa, no  verdade? Bem, at logo.
Saa atirando a porta, quando Ega agora tranqilo, disse, erguendo-se muito
lentamente do sof:
- O homenzinho foi para l.
Carlos voltou-se, com os olhos chamejantes:
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- Foi para os Olivaes? Foi ter com ela?
Sim, pelo menos mandra a tipia  quinta do Craft. Ega, para conhecer esse
senhor Castro Gomes, fora meter-se no cubculo do guarda-porto. E vira-o
descer, acender um charuto... Era com efeito um desses rastaquouros que,
nesse infeliz Paris que tudo tolera, vm ao Caf de la Paix s duas horas para
tomar a sua groseile, tesos e embrutecidos... E fora o guarda-porto que lhe
dissera que o sujeito parecia muito alegre e mandra o cocheiro bater para os
Olivaes...
Carlos parecia aniquilado:
- Tudo isso  nojento!... No fim talvez at se entendam ambos... Estou como
tu dizias aqui h tempos: Caiu-me a alma a uma latrina, preciso um banho
por dentro!
Ega murmurou melancolicamente:
- Essa necessidade de banhos morais est-se tornando com efeito to
frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para eles.
Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de papel,
em que ia escrever a Maria Eduarda, j tinha a data desse dia, depois - Minha
senhora, numa letra que ele se esforra por traar firme e serena: - e no
achava outra palavra. Estava bem decidido a mandar-lhe um cheque de
duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante das semanas que passra no
seu leito. Mas queria juntar duas linhas regeladas, impassiveis, que a ferissem
mais que o dinheiro: no encontrava seno frases de grande clera, revelando
um grande amor.
Olhava a folha branca: e a banal expresso Minha senhora dava-lhe uma
saudade dilacerante por aquela a quem na vespera ainda dizia minha
adorada, pela mulher que se no chamava ainda Mac-Gren, que era perfeita,
e que uma paixo indomavel, superior  razo, entontecera e vencera. E o seu
amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se transformra na Mac-
Gren, amigada e falsa, era agora maior infinitamente, desesperado por ser
irrealisavel - como o que se tem por uma morta e que palpita mais ardente
junto da frialdade da cova. Oh! se ela pudesse ressurgir outra vez, limpa,
clara, do lodo em que afundra, outra vez Maria Eduarda, com o seu casto
bordado!... De que amor mais delicado a cercaria, para a compensar das
afeies domesticas que ela deixasse de merecer! Que venerao maior lhe
consagraria - para suprir o respeito que o mundo superficial e afectado lhe
retirasse! E ela tinha tudo para reter amor e respeito - tinha a beleza, a graa,
a inteligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel gosto...
E com todas estas qualidades dces e fortes - era apenas uma intrujona!
Mas porque? porque? Porque entrra ela nesta longa fraude, tramada dia a
dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia at ao nome que usava!
Apertava a cabea entre as mos, achava a vida intoleravel. Se ela mentia -
onde havia ento a verdade? Se ela o traia assim, com aqueles olhos claros, o
universo podia bem ser todo uma imensa traio muda. Punha-se um mlho
de rosas num vaso, exalava-se dele a peste! Caminhava-se para uma relva
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fresca, ela escondia um lamaal! E para que, para que mentira ela? Se, desde
o primeiro dia em que o vira, tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado
como se contempla uma aco de santidade - lhe tivesse dito que no era
esposa do senhor Castro Gomes, mas s amante do senhor Castro Gomes -
teria a sua paixo sido menos viva, menos profunda? No era a estola do
padre que dava beleza ao seu corpo e valor s suas caricias... Para que fora
ento essa mentira tenebrosa e descarada - que lhe fazia supr agora que
eram imposturas os seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos
suspiros!... E com este longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua
vida inteira por um corpo por que outros davam apenas um punhado de libras!
E por esta mulher, tarifada s horas como as caleches da Companhia, ele ia
amarguarar a velhice do av, estragar irreparavelmente o seu destino, cortar
a sua livre aco de homem!
Mas porque? Porque fora esta fara banal, arrastada por todos os palcos de
opera comica, da cocote que se finge senhora? Porque o fizera ela, com aquele
falar honesto, o puro perfil e a doura de me? Por interesse? No. Castro
Gomes era mais rico do que ele, mais largamente lhe podia satisfazer o apetite
mundano de toiletes, de carruagens... Sentia ela que Castro Gomes a ia a
abandonar, e queria ter ao lado aberta e prompta outra bolsa rica? Ento mais
simples teria sido dizer-lhe: eu sou livre, gsto de ti, toma-me livremente,
como eu me dou. No! Havia ali alguma coisa secreta, tortuosa,
impenetravel... O que daria por a conhecer!
E ento pouco a pouco foi surgindo n'ele o desejo de ir aos Olivaes... Sim, no
lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao regao um cheque
embrulhado numa insolencia! O que precisava, para sua plena tranquilidade,
era arrancar do fundo daquela turva alma o segredo daquela torpe fara... S
isso amansaria o seu incomparavel tormento. Queria entrar outra vez na tca,
vr como era aquela outra mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas
palavras. Oh! iria sem violencia, sem recriminaes, muito calmo, sorrindo! S
para que ela lhe dissesse qual fora a razo daquela mentira to laboriosa, to
v... S para lhe perguntar serenamente: Minha rica senhora para quer foi
toda esta intrujice? E depois v-la chorar... Sim, tinha esta anciedade cheia
d'amor de a vr chorar. A agonia que ele sentira no salo cor de musgo do
outono, emquanto o outro arrastava os rr, queria v-la repetida nesse seio,
onde ele at a dormira to dcemente, esquecido de tudo, e que era belo, to
divinamente belo!...
Bruscamente, decidido, deu um puxo  campainha. Baptista apareceu todo
abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a
ser util naquela crise que adivinhava...
- Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se j entrou o senhor Castro
Gomes!... No, escuta... Pe-te  porta do Central, e espera at que entre
aquele sujeito que aqui esteve... No,  melhor perguntar!... Enfim, certificate
de que o sujeito ou voltou ou est no hotel. E apenas estejas bem certo
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disso, volta aqui,  desfilada, numa tipia... Um batedor seguro, que  para
me levar depois aos Olivaes!...
Imediatamente, dada esta ordem, serenou. Era j um alivio imenso no ter de
escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam dilacerar. Rasgou o
papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas libras, ao portador. Ele
mesmo lho levaria... Oh, decerto, no lho atirava romanticamente ao regao...
Deixa-lo-ia sobre uma mesa, sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de
repente sentiu uma compaixo por ela. Via-a j, abrindo o envelope com duas
grandes lgrimas, lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus prprios
olhos se umedeceram.
Nesse momento Ega, de fora, perguntou se era importuno.
- Entra! gritou.
E continuou passeando, calado, com as mos nos bolsos: o outro, em silncio
tambm, foi encostar-se  janela sobre o jardim.
- Preciso escrever ao av a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por fim,
parando junto da mesa.
- D-lhe recados meus.
Carlos sentra-se, tomra languidamente a pena: mas bem depressa a
arremessou: cruzou as mos por detraz da cabea no espaldar da cadeira,
cerrou os olhos, como exausto.
- Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da janela.
Quem escreveu a carta anonima ao Castro Gomes foi o Damaso!
Carlos olhou para ele:
- Achas?... Sim, talvez... Com efeito quem havia de ser?
- No foi mais ningum, menino. foi o Damaso!
Carlos ento recordou o que lhe contra o Taveira - as aluses misteriosas do
Damaso a um escndalo que se estava armando, uma bala que ele devia
receber na cabea... O Damaso, portanto, tinha como certa a vinda do
brasileiro, depois um duelo...
-  necessrio esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso. No
ha segurana, no ha paz na nossa vida emquanto esse bandido viver!...
Carlos no respondeu. E o outro prosseguia, transtornado, j todo plido,
deixando transbordar odios cada dia acumulados:
- Eu no o mato porque no tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto,
uma insolencia dele, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!... Mas tu
precisas fazer alguma coisa, isto no pode ficar assim! No pde!  necessrio
sangue... V tu que infamia, uma carta anonima!... Temos a nossa paz, a
nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques do senhor
Damaso. No pode ser. Eu o que tenho pena  de no ter um pretexto! Mas
tens tu, aproveita, e esmaga-o!
Carlos encolheu vagamente os ombros:
- Merecia chicotadas, com efeito... Mas ele realmente s tem sido velhaco
comigo por causa das minhas relaes com essa senhora; e como isso  um
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caso acabado, tudo o que se prende com ele finda tambm. Parce sepultis... E
no fim era ele que tinha razo, quando dizia que ela era uma intrujona...
Atirou uma punhada  mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, num tdio
infinito de tudo:
- Era ele, era o senhor Damaso Salcede que tinha razo!...
Toda a sua clera revivera, mais aspera, a esta idia. Olhou o relgio. Tinha
pressa de a vr, tinha pressa de a injuriar!...
- Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
- No, vou l eu mesmo.
Ega pareceu espantado. Depois recomeou a passear, calado, com os olhos no
tapete.
Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o senhor Castro Gomes apear-se
no hotel e mandar descer as suas bagagens: - e a tipia, para levar o menino
aos Olivaes, esperava em baixo.
- Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
- No jantas?
- No.
D'a a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. J se acendera o gaz. E
inquieto, no estreito assento, acendendo nervosamente cigaretes que no
fumava, sofria j a perturbao daquele encontro dificil e doloroso... Nem
sabia mesmo como a havia de tratar, se por minha senhora, se por minha
boa amiga, com uma superior indiferena. E ao mesmo tempo sentia por ela
uma compaixo indefinida, que o amolecia. Diante destes seus modos
regelados, via-a j toda plida, a tremer, com os olhos cheios d'gua. E estas
lgrimas que apetecera, agora que estava to perto de as vr correr, enchiamno
s de comoo e de d... Durante um momento mesmo pensou em
retroceder. Por fim sria muito mais digno escrever-lhe duas linhas altivas,
sacudindo-a de si para sempre e secamente! Poderia no lhe mandar o
cheque, - afronta brutal d'homem rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia
de nervos, cheia de fantasia, e amra-o talvez com desinteresse... Mas uma
carta era mais digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter
dirigido, incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito - que se estava prompto a
dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonra por paixo, estava
decidido a no sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe cedera
por profisso. Era mais simples, era terminante... E depois no a via, no teria
de suportar a tortura das explicaes e das lgrimas.
Ento veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, reflectir um
instante, mais calmamente, no silncio das rodas. O cocheiro no ouviu: o
trote largo da parelha continuou batendo a estrada escura. E Carlos deixou
seguir, outra vez hesitante. Depois,  maneira que reconhecia, esbatidos na
sombra, aqueles sitios onde tantas vezes passra com o corao em festa,
quando a sua paixo estava em flr, uma clera nova voltava - menos contra
a pessoa de Maria Eduarda, que contra essa mentira que fora obra dela, e que
vinha estragar irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa
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mentira que agora odiava - vendo-a como uma coisa material e tangivel, de
um peso enorme, feia e cor de ferro, esmagando-lhe o corao. Oh! Se no
fosse essa coisa pequenina e inolvidavel que estava entre eles, como um
indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus braos,
seno com a mesma crena pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do outro
ou amante do outro - no fim que importava? No era por faltar aos beijos que
lhe dera esse a consagrao de um padre, rosnada em latim - que a sua pele
estava mais poluida por eles, ou tinha a menos frescura? Mas havia a mentira,
a mentira inicial, dita no primeiro dia em que fora  rua de S. Francisco, e que
como um fermento podre ficava estragando tudo da por diante, dces
conversas, silencios, passeios, sestas no calor da quinta, murmurios de beijos
morrendo entre os cortinados cor de ouro... Tudo manchado, tudo
contaminado por aquela mentira primeira que ela dissera sorrindo, com os
seus tranquilos olhos limpidos...
Abafava. Ia a descer a vidraa que faltava a correia - quando a tipia parou de
repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher com um chale
pela cabea falava ao cocheiro.
- Melanie!
- Ah, monsieur!
Carlos saltou precipitadamente. Era j proximo da quinta, na volta d'estrada,
onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes de piteiras
resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que seguisse e
esperasse no porto da quinta. E ficou ali, no escuro, com Melanie encolhida
no seu chale.
Que estava ela ali a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que vinha
procurar  vila uma carruagem, porque a senhora queria ir a Lisboa, ao
Ramalhete... Ela julgra a tipia vazia.
E apertava as mos, dando as graas, com um imenso alivio. Ah! que
felicidade, que felicidade ter ele vindo!... A senhora estava aflicta, nem
jantra, perdida de chro. O senhor Castro Gomes aparecera l
inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
Ento Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o
outro? que dissera? como se despedira?... Melanie no ouvira nada. O Snr.
Castro Gomes e a senhora tinham conversado ss no pavilho japonez. 
sahida  que vira o senhor Castro Gomes dizer adeus a madame, muito
sossegado, muito amvel, rindo, falando de Niniche... A senhora, essa, parecia
como morta, to plida! Quando o outro partiu, ia tendo um desmaio.
Estavam proximo do porto da Toca. Carlos retrocedeu, respirando
fortemente, com o chapu na mo. E agora todo o seu orgulho se ia sumindo
sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, deixava Melanie
nas coisas dolorosas da sua paixo... Dites toujours, Melanie, dites! Sabia a
senhora que Castro Gomes estivera com ele no Ramalhete, lhe confessra
tudo?...
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Claramente que sabia, por isso chorava - dizia Melanie. Ah, ela bem repetira 
senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga dela, servia-a
desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lho dito, at j nos Olivaes!
Carlos curvava a cabea na escurido do muro. Melanie tinha-lho dito! Assim
ela e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que andava
presa a sua vida! E aquelas revelaes de Melanie, que suspirava com o chale
sobre o rosto, abatiam os ltimos pedaos desse sonho, que ele erguera to
alto, entre nuvens de ouro. Nada restava. Tudo jazia em estilhaos, no lodo
imundo.
Um momento, com o corao cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. Mas
para alm daquele negro muro estava ela, perdida de chro, querendo
morrer... E lentamente recomeou a caminhar para o porto.
E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais intimas a
Melanie. Porque  que Maria Eduarda no lhe dissera a verdade?
Melanie encolheu os ombros. No sabia: nem a senhora sabia! Estivera no
Central como madame Gomes; alugra a casa da rua de S. Francisco como
madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixra ir,
insensivelmente, conversando com ele, gostando dele, vindo para os Olivaes...
E depois era tarde, j no se atrevera a confessar, toda enterrada assim na
mentira, com medo do desgosto...
Mas, exclamava Carlos, nunca imaginra ela que fatalmente tudo se
descobriria um dia?
- Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quase a chorar.
Depois eram outras curiosidades. Ela no esperava Castro Gomes? no
supunha que ele voltasse? no costumava falar dele?...
- Oh non, monsieur, oh non!
Madame, desde que o senhor comera a ir todos os dias  rua de S.
Francisco, considerra-se para sempre desligada do senhorCastro Gomes, nem
falava n'ele, nem queria que se falasse... Antes disso a menina chamava
sempre ao senhor Castro Gomes petit ami. Agora no lhe chamava nada.
Tinham-lhe dito que j no havia petit ami...
- Ela escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ela lhe escrevia...
Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indiferentes. A senhora levra o
seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, nunca mais
gastara um ceitil das quantias que lhe mandava o senhor Castro Gomes. As
letras para receber dinheiro conservava-as intactas, entregara-lhas nessa
tarde... No se lembrava ele de a ter encontrado uma manh  porta do
Monte-Pio? Pois bem! Fra l, com uma amiga francsa, empenhar uma
pulseira de brilhantes da senhora. A senhora vivia agora das suas joias; tinha
j outras no prgo.
Carlos parra, comovido. Mas ento para que tinha ela mentido?
- Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais ele vous aime bien, alez!
Estavam defronte do porto. A tipia esperava. E, ao fundo da rua d'acacias, a
porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, frouxa e triste. Carlos
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julgou vr mesmo a figura de Maria Eduarda, embrulhada numa capa escura,
de chapu, atravessar nessa claridade... Ouvira decerto rodar a carruagem.
Que aflicta paciencia sria a sua!
- Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
A rapariga correu. E ele, caminhando devagar sob as acacias, sentia no
sombrio silncio as pancadas desordenandas do seu corao. Subiu os trs
degraus de pedra - que lhe pareciam j de uma casa estranha. Dentro, o
corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as panoplias
de touros... Ali ficou. Melanie, com o chale na mo, veio dizer-lhe que a
senhora estava na sala das tapearias...
Carlos entrou.
L estava, ainda de capa, esperando de p, plida, com toda a alma
concentrada nos olhos que refulgiam entre as lgrimas. E correu para ele,
arrebatou-lhe as mos, sem poder falar, soluando, tremendo toda.
Na sua terrvel perturbao, Carlos achava s esta palavra, melancolicamente
estpida:
- No sei porque chora, no sei, no h razo para chorar...
Ela pde enfim balbuciar:
- Escuta-me, pelo amor de Deus! no digas nada, deixa contar-te... Eu ia l,
tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vr-te... Nunca tive a coragem
de te dizer! Fiz mal, foi horrvel... Mas escuta, no digas nada ainda, perda,
que eu no tenho culpa!
De novo os soluos a sufocaram. E caiu ao canto do sof, num chro brusco e
nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os ombros os cabelos mal
atados.
Carlos ficra diante dela, imovel. O seu corao parecia parado de surpresa e
de duvida, sem fora para desafogar. Apenas agora sentia quanto baixo e
brutal deixar-lhe o cheque - que tinha ali na carteira e que o enchia de
vergonha... Ela ergueu o rosto, todo molhado, murmurou com um grande
esforo:
- Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, so tantas coisas, so tantas
coisas!... Tu no te vs j embora, senta-te, escuta...
Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
- No, aqui ao p de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem s, tem
pena, faze-me isso!
Ele cedeu  suplicao humilde e enternecedora dos seus olhos arrazados
d'gua: e sentou-se ao outro canto do sof, afastado dela, numa
desconsolao infinita. Ento, muito baixo, enrouquecida pelo chro, sem o
olhar, e como num confessionario - Maria comeou a falar do seu passado,
desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes soluos que a
afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas mos a face aflicta.
A culpa no fora dela! no fora dela! Ele devia ter perguntado quele homem
que sabia toda a sua vida... Fra sua me... Era horroroso dizel-o, mas fora
por causa dela que conhecera e que fugira com o primeiro homem, o outro,
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um irlands... E tinha vivido com ele quatro anos, como sua esposa, to fiel,
to retirada de tudo e s ocupada da sua casa, que ele ia casar com ela! Mas
morrera na guerra com os alemes, na batalha de Saint-Privat. E ela ficra
com Rosa, com a me j doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao
principio trabalhra... Em Londres tinha procurado dar lies de piano... Tudo
falhra, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com fome!
com fome! Ah, ele no podia perceber o que isto era!... Quasi fora por
caridade que as tinha repatriado para Paris... E a conhecera Castro Gomes.
Era horrvel, mas que havia dela fazer! Estava perdida...
Lentamente escorregra do sof, cara aos ps de Carlos. E ele permanecia
imovel, mudo, com o corao rasgado por angustias diferentes: era uma
compaixo tremula por todas aquelas miserias sofridas, dr de me, trabalho
procurado, fome, que lha tornavam confusamente mais querida; e era o horror
desse outro homem, o irlands, que surgia agora, e que lha tornava de
repente mais maculada...
Ela continuava falando de Castro Gomes. Vivera trs anos com ele,
honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era
estar quieta em casa. Ele  que a forava a andar em ceias, em noitadas...
E Carlos no podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mos, que
procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
- Oh no, no me mandes embora! gritou ela prendendo-se a ele
anciosamente. Eu sei que no mereo nada! Sou uma desgraada... Mas no
tive coragem, meu amor! Tu s homem, no compreendes estas coisas... Olha
para mim! porque no olhas para mim? Um instante s, no voltes o rosto,
tem pena de mim...
No! ele no queria olhar. Temia aquelas lgrimas, o rosto cheio dagonia. Ao
calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, j tudo nele comeava a
oscilar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E ento, sem saber, a seu
pezar, as suas mos apertaram as dela. Ela cobriu-lhe logo de beijos os dedos,
as mangas, arrebatadamente: e anciosa implorava do fundo da sua miseria
um instante de misericordia.
Oh, dize que me perdas! Tu s to bom! Uma palavra s... Dize s que no
me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao menos para
mim como d'antes, uma s vez!...
E eram agora os seus lbios que procuravam os dele. Ento a fraqueza em que
sentia afundar-se todo o seu ser encheu Carlos de clera, contra si e contra
ela. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
- Mas porque no me disseste, porque no me disseste? Eu tinha-te amado do
mesmo modo! Para que mentiste, tu?
Largra-a, prostrada no cho. E de p, deixava cair sobre ela a sua queixa
desesperada:
-  a tua mentira que nos separa, a tua horrvel mentira, a tua mentira
smente!
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Ela ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma palidez de
desmaio.
- Mas eu queria dizer-to, murmurou muito baixo, muito quebrado diante dele,
deixando cair os braos. Eu queria dizer-to... No te lembras, naquele dia em
que vieste tarde, quando eu falei da casa de campo, e que tu pela primeira vez
declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te logo: ha uma coisa que te
quero contar... Tu nem me deixaste acabar. Imaginavas o que era, que eu
queria ser s tua, longe de tudo... E disseste ento que haviamos d'ir, com
Rosa, ser felizes para algum canto do mundo... No te lembras?... Foi ento
que me veio uma tentao! Era no dizer nada, deixar-me levar, e depois,
mais tarde, anos depois, quando te tivesse provado bem que boa mulher eu
era, digna da tua estima, confessar-te tudo e dizer-te: agora, se queres,
manda-me embora. Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentao, no
resisti... Se tu no falasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas mal falaste
em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperana, nem sei que! E alm
disso adiava aquela horrvel confisso! Enfim, nem posso explicar, era como o
co que se abria, via-me contigo numa casa nossa... Foi uma tentao!... E
depois era horrvel, no momento em que tu me querias tanto, ir dizer-te no
faas tudo isso por mim, olha que eu sou uma desgraada, nem marido
tenho... Que te hei de explicar mais? No me resignava a perder o teu
respeito. Era to bom ser assim estimada... Enfim foi um mal, foi um grande
mal... E agora a est, vejo-me perdida, tudo acabou!
Atirou-se para o cho, como uma criatura vencida e finda, escondendo a face
no sof. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando bruscamente at
junto dela, tinha s a mesma recriminao, a mentira, a mentira, pertinaz e de
cada dia... S os soluos dela lhe respondiam.
- Porque no me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando sabias
que tu eras tudo para mim?...
Ela ergueu a cabea fatigada:
- Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse doutro
modo... Via-te j a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por a dentro de
chapu na cabea, a perder a afeio  pequena, a querer pagar as despesas
da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia hoje no, um dia s mais
de felicidade, amanh ser... E assim ia indo! Enfim, nem eu sei, um horror!
Houve um silncio. E ento Carlos sentiu  porta Niniche que queria entrar e
que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadelinha correu, pulou para o
sof, onde Maria permanecia soluando, enrodilhando a um canto: procurava
lamber-lhe as mos, inquieta: depois ficou plantada junto dela, como a
guarda-la, desconfiada, seguindo, com os seus vivos olhos de azeviche, Carlos
que recomera a passear sombriamente.
Um ai mais longo e mais triste de Maria fe-lo parar. Esteve um momento
olhando para aquela dr humilhada... Todo abalado, com os lbios a tremer,
murmurou:
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- Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca
mais? Ha esta mentira horrvel sempre entre ns a separar-nos! No teria um
nico dia de confiana e de paz...
- Nunca te menti seno numa coisa, e por amor de ti! disse ela gravemente do
fundo da sua prostrao.
- No, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o teu
nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar... Como havia
de ser, se agora mesmo quase que nem acredito no motivo das tuas lgrimas?
Uma indignao ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente secos
rebrilharam, revoltados e largos, no mrmore da sua palidez.
- Que queres tu dizer? Que estas lgrimas tem outro motivo, estas suplicas
so fingidas? Que finjo tudo para te reter, para no te perder, ter outro
homem, agora que estou abandonada?...
Ele balbuciou:
- No, no! No  isso!
- E eu? exclamou ela, caminho para ele, dominando-o, magnifica e com um
esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar nessa grande
paixo que me juravas? O que  que tu amavas ento em mim? Dize l! Era a
mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as toiletes?... Ou era eu
prpria, o meu corpo, a minha alma e o meu amor por ti?... Eu sou a mesma,
olha bem para mim!... Estes braos so os mesmos, este peito  o mesmo...
S uma coisa  diferente: a minha paixo! Essa  maior, desgraadamente,
infinitamente maior.
- Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mos.
Num instante Maria estava cada a seus ps, com os braos abertos para ele.
- Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te
doidamente, absurdamente, at  morte!
Carlos tremia. Todo o seu ser pendia para ela; e era um impulso irresistivel de
se deixar cahir sobre aquele seio que arfava a seus ps, ainda que ele fosse o
abismo da sua vida inteira... Mas outra vez a idia da mentira passou,
regeladora. E afastou-se dela, levando os punhos  cabea, num desespero,
revoltado contra aquela coisa pequenina e indestructivel que no queria sumirse,
e que se interpunha como uma barra de ferro entre ele e a sua felicidade
divina!
Ela ficara ajoelhada, imvel, com os olhos esgazeados para o tapete. Depois,
no silncio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e tremula:
- Tens razo, acabou-se! Tu no me acreditas, tudo se acabou!...  melhor
que te vs embora... Ningum me torna a acreditar... Acabou tudo para mim,
no tenho ningum mais no mundo... Amanh saio d'aqui, deixo-te tudo... Has
de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de fazer, vou-me embora!
E no pde mais, tombou para o cho, com os braos estirados, perdida de
chro.
Carlos voltou-se, ferido no corao. Com o seu vestido escuro, para ali cada e
abandonada, parecia j uma pobre criatura, arremessada para fora de todo o
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lar, szinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... Ento respeitos
humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'ele foi levado como por um
grande vento de piedade. Viu s, ofuscando todas as fragilidades, a sua
beleza, a sua dr, a sua alma sublimemente amante. Um delirio generoso, de
grandiosa bondade, misturou-se  sua paixo. E, debruando-se, disse-lhe
baixo, com os braos abertos:
- Maria, queres casar comigo?
Ela ergueu a cabea, sem compreender, com os olhos desvairados. Mas Carlos
tinha os braos abertos; e estava esperando para a fechar dentro deles outra
vez, como sua e para sempre... Ento levantou-se, tropeando nos vestidos,
veio cair sobre o peito dele, cobrindo-o de beijos, entre soluos e risos, tonta,
num deslumbramento:
- Casar contigo, contigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre contigo?... Oh
meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e adorar-te, e ser s tua? E a
pobre Rosa tambm... No, no cases comigo, no  possvel, no valho nada!
Mas se tu queres, porque no?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre
o teu corao! E hs de ser nosso amigo, meu e dela, que no temos ningum
no mundo... Oh! meu Deus, meu Deus!...
Empalideceu, escorregando pesadamente entre os braos dele, desmaiada: e
os seus longos cabelos desprendidos rojavam o cho, tocados pelas luz de
tons de ouro.
V
Maria Eduarda e Carlos, que ficra essa noite nos Olivaes na sua casinhola,
acabavam de almoar. O Domingos servira o caf, e antes de sair deixra ao
lado de Carlos a caixa de cigarretes e o Figaro. As duas janelas estavam
abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da manh encoberta,
entristecida ainda por um dobre lento de sinos que morria ao longe nos
campos. No banco de cortia, sob as arvores, miss Sarah costurava
preguiosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E Carlos, que viera numa
intimidade conjugal, com uma simples camisa de sda e um jaqueto de
flanela, chegou ento a cadeira para junto de Maria, tomou-lhe a mo,
brincando-lhe com os aneis, numa lenta caricia:
- Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?
Nessa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ela mostrra o desejo
enternecido de no alterar o plano da Itlia e de um ninho romantico entre as
flores d'Isola-bela: smente agora no iam esconder a inquietao de uma
felicidade culpada, mas gozar o repouso de uma felicidade legitima. E, depois
de todas as incertezas e tormentos que o tinham agitado desde o dia em que
cruzra Maria Eduarda no Aterro, Carlos anelava tambm pelo momento de se
instalar enfim no conforto de um amor sem duvidas e sem sobressaltos:
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- Eu por mim abalava amanh. Estou sfrego de paz. Estou at sfrego de
preguia... Mas tu, dize, quando queres?
Maria no respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e apaixonado.
Depois, sem retirar a mo que a longa caricia de Carlos ainda prendia, chamou
Rosa atravs da janela.
- Mam, espera, j vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes
que ainda no almoaram...
- No, vem c.
Quando ela apareceu  porta, toda de branco, crada, com uma das ltimas
rosas de vero metida no cinto - Maria Qui-la mais perto, entre eles,
encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do cabelo,
perguntou, muito sria, muito comovida, se ela gostaria que Carlos viesse
viver ver com elas de todo e ficar ali na Toca. Os olhos da pequena encheramse
de surpresa e de riso:
- O qu! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E ter
aqui as suas malas, as suas coisas?...
Ambos murmuraram - sim.
Rosa ento pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse j, j,
buscar as suas malas e as suas coisas...
- Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos. E
gostavas que ele fosse como o pap, e que ,andasse sempre conosco, e que
lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito dele ?
Rosa ergueu para a me uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso se
apagra.
- Mas eu no posso gostar mais dele do que gsto!...
Ambos a beijaram, num enternecimento que lhes umedecia os olhos. E Maria
Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruando-se sobre ela, beijou de
leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o seu amigo, depois
para a me. E pareceu compreender tudo; escorregou dos joelhos de Maria,
veio encostar-se a Carlos com uma meiguice humilde:
- Queres que te chame pap, s a ti?
- S a mim, disse ele, fechando-a toda nos braos.
E assim obtiveram o consentimento de Rosa que fugiu, atirando a porta, com
as mos cheias de bolos para os pardais.
Carlos levantou-se, tomou a cabea de Maria entre as mos, e contemplandoa
profundamente, at  alma, murmurou num enlevo:
- s perfeita!
Ela desprendeu-se, com melancolia, daquela adorao que a perturbava.
- Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos para o
nosso quiosque... Tu no tens nada que fazer, no? E que tenhas, hoje s
meu... Vou j ter contigo. Leva as tuas cigaretes.
Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doura velada do cu
cinzento... E a vida pareceu-lhe adorvel, de uma poesia fina e triste,assim
envolta naquela nevoa macia onde nada resplandecia e nada cantava, e que
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to favorvel era para que dois coraes, desinteressados do mundo e em
desharmonia com ele, se abandonassem juntos ao contnuo encanto de
estremecerem juntos na mudez e na sombra.
- Vamos ter chuva, tio Andr, disse ele, passando junto do velho jardineiro
que aparava o buxo.
O tio Andr, atarantado, arrancou o chapu. Ah! uma gota d'gua era bem
necessria, depois da estiagem! O torrosinho j estava com sede! E em casa
todos bons? A senhora? A menina?
- Tudo bom, tio Andr, obrigado.
E no seu desejo de vr todos em torno de si felizes como ele e como a terra
sequiosa que ia ser consolada - Carlos meteu uma libra na mo do tio Andr,
que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquele ouro
extraordinrio que reluziu.
Quando Maria entrou no quiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para o
div: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas: acendeulhe
uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus ps, sobre o tapete, como na
humildade de uma confisso.
- Ests bem assim? Queres que o Domingos te traga gua e conhaque?...
No? Ento ouve agora, quero-te contar tudo...
Era toda a sua existncia que ela desejava contar. Pensra mesmo em lha
escrever numa carta interminavel, como nos romances. Mas decidira antes
tagarelar ali uma manh inteira, aninhada aos seus ps.
- Ests bem, no ests?
Carlos esperava, comovido. Sabia que aqueles lbios amados iam fazer
revelaes pungentes para o seu corao e amargas para o seu orgulho. Mas a
confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a
conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no
fundo tinha uma curiosidade insaciavel dessas coisas que o deviam pungir e
que o deviam humilhar.
- Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize,
conta... Onde nasceste tu por fim?
Nascera em Viena: mas pouco se recordava dos tempos de criana, quase
nada sabia do pap, a no ser a sua grande nobreza e a sua grande beleza.
Tivera uma irmsinha que morrera de dois anos e que se chamava Heloisa. A
mam, mais tarde, quando ela era j rapariga, no tolerava que lhe
perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memria das
coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho velho...
De Viena apenas recordava confusamente largos passeios d'arvores, militares
vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada onde se danava: s
vezes durante tempos ela ficava l s com o av, um velhinho triste e timido,
metido pelos cantos, que lhe contara historias de navios. Depois tinham ido a
Inglaterra: mas lembrava-se smente de ter atravessado um grande rumor de
ruas, num dia de chuva, embrulhada em peles, sobre os joelhos de um
escudeiro. As suas primeiras memorias mais nitidas datavam de Paris; a
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mam, j viuva, andava de luto pelo av; e ela tinha uma aia italiana que a
levava todas as manhs, com um arco e com uma pla, brincar aos Campos
Eliseos. A noite costumava vr a mam decotada, num quarto cheio de setins
e de luzes; e um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado
pelos sofs, trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe
mademoisele Triste-coeur por causa do seu arzinho sisudo. Enfim a mam
metera-a num convento ao p de Tours - porque nessa idade, apesar de
cantar j ao piano as valsas da Bele Helne, ainda no sabia soletrar. Fra nos
jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mam se separra dela
numa paixo de lgrimas; e ao lado esperava, para a consolar decerto, um
sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre Superiora falara
com venerao.
A mam ao principio vinha v-la todos os meses, demorando-se em Tours
dois, trs dias; trazia-lhe uma profuso de presentes, bonecas, bonbons,
lenos bordados, vestidos ricos, que lhe no permitia usar a regra severa do
convento. Davam ento passeios de carruagem pelos arredores de Tours: e
havia sempre oficiais a cavalo, que escoltavam a caleche - e tratavam a mam
por tu.. No convento as mestras, a Madre Superiora no gostavam destas
sadas - nem mesmo que a mam viesse acordar os corredores devotos com
as suas risadas e o ruido das suas sdas; ao mesmo tempo pareciam teme-la;
chamavam-lhe Madame la Contesse. A mam era muito amiga do general que
comandava em Tours, e visitava o bispo. Monsenhor, quando vinha ao
convento, fazia-lhe uma festinha especial na face e aludia risonhamente a son
excelente mre. Depois a mam comeou a aparecer menos em Tours. Esteve
um ano longe, quase sem escrever, viajando na Alemanha; voltou um dia,
magra e coberta de luto, e ficou toda a manh abraada a ela a chorar.
Mas na visita seguinte vinha mais moa, mais brilhante, mais ligeira, com dois
grandes galgos brancos, anunciando uma romagem poetica  Terra Santa e a
todo o remoto Oriente. Ela tinha ento quase dezeseis anos: pela sua
aplicao, os seus modos dces e graves, ganhra a afeio da Madre
Superiora - que s vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o cabelo
cadoem duas tranas segundo a regra, lhe mostrava o desejo de a conservar
sempre ao seu lado. Le monde, dizia ela, ne vous sera bon  rien, mon
enfant!... Um dia, porm, apareceu para a levar para Paris, para a mam, uma
Madame de Chavigni, fidalga pobre, de caracoes brancos, que era como uma
estampa de severidade e de virtude.
O que ela chorra ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que a
encontrar em Paris!
A casa da mam, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo - mas
recoberta de um luxo srio e fino. Os escudeiros tinham meias de sda; os
convidados, com grandes nomes no Nobiliario de Frana, conversavam de
corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo
armavam-se depois como uma distraco mais picante. Ela recolhia sempre ao
seu quarto s dez horas: Madame de Chavigni, que ficra como sua dama de
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companhia, ia com ela cedo ao Bois num coup estufo de douairire. Pouco a
pouco, porm, este grande verniz comeou a estalar. A pobre mam cara sob
o jugo de um Mr. de Trevernes, homem perigoso pela sua seduco pessoal e
por uma desoladora falta de honra e de senso. A casa descahiu rapidamente
numa bohemia mal dourada e ruidosa. Quando ela madrugava, com os seus
habitos saudaveis do convento, encontrava paletots d'homens por cima dos
sofs: no mrmore das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de
champagne; e n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro de um
bacarat talhado  claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira
de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mam
estirada no tapete, desmaiada; ela dissera-lhe apenas mais tarde, alagada em
lgrimas, que tinha havido uma desgraa...
Mudaram ento para um terceiro andar da Chausse-d'Antin. Ali comeou a
aparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes
bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam
para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta malta
vinha algum gentleman que no tirava o palet, como num caf-concerto. Um
desses foi um irlands, muito moo, Mac-Gren... Madame de Champigni
deixra-as desde que faltra o coup severo, acolchoado de setim; e ela, s
com a me, insensivelmente, fatalmente, fra-se misturando a essa vida
tresnoitada de grogs e de bacarat.
A mam chamava a Mac-Gren o beb. Era com efeito uma criana
estouvada e feliz. Namorra-se dela logo com o ardor, a efuso, o impeto de
um irlands; e prometeu-lhe fazel-a sua esposa apenas se emancipasse -
porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das liberalidades de uma av
excentrica e rica que o adorava, e que habitava a Provena numa vasta quinta
onde tinha feras em jaulas... E no entanto induzia-a sem cessar a fugir com
ele, desesperado de a vr entre aqueles Valachos que cheiravam a genebra. O
seu desejo era leval-a para Fontainebleau, para um cotage com trepadeiras de
que falava sempre, e esperar a tranquilamente a maioridade que lhe traria
duas mil libras de renda. Decerto, era uma situao falsa: mas preferivel a
permanecer naquele meio depravado e brutal onde ela a cada instante
crava... A esse tempo a mam parcela ir perdendo todo o senso,
desarranjada de nervos, quase irresponsavel. As dificuldades crescentes
estonteavam-na; brigava com as criadas; bebia champagne pour s'tourdir.
Para satisfazer as exigncias de Mr. de Trevernes empenhra as suas joias, e
quase todos os dias chorava com ciumes dele. Por fim houve uma penhora:
uma noite tiveram d'enfardelar  pressa roupa num saco, e ir dormir a um
hotel. E, pior, pior que tudo! Mr. de Trevernes comeava a olhar para ela de
um modo que a assustava...
- Minha pobre Maria! murmurou Carlos, plido, agarrando-lhe as mos.
Ela permaneceu um momento sufocada, com o rosto cadonos joelhos dele.
Depois limpando as lgrimas que a enevoavam:
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- Ali esto as cartas de Mac-Gren, nesse cofre... Tenho-as guardado sempre
para me justificar a mim mesma, se me  possvel... Pede-me em todas que
v para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas juntos iremos
ajoelhar-nos diante da av, obter a sua indulgencia... Mil promessas! E era
sincero... Que queres que te diga? A mam uma manh partiu com uma sucia
para Baden. Fiquei em Paris s, num hotel... Tinha um palpite, um terror que
Trevernes aparecia... E eu s! Estava to transtornada que pensei em comprar
um revlver... Mas quem veio foi Mac-Gren.
E partira com ele, sem precipitao, como sua esposa, levando todas as suas
malas. A mam de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada e
tragica, amaldioando Mac-Gren, ameaando-o com a priso de Mazas,
querendo esbofete-lo; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um beb,
agarrou-se a ela aos beijos, chorando tambm. A mam terminou por os
apertar a ambos contra o corao, j rendida, perdoando tudo, chamando-lhes
filhos da sua alma. Passou o dia em Fontainebleau, radiante, contando a
patuscada de Baden, j com o plano de vir instalar-se no cotage, viver junto
deles numa felicidade calma e nobre de avsinha... Era em maio; Mac-Gren, 
noite, deitou um fogo preso no jardim.
Comeou um ano quieto e facil. O seu nico desejo era que a mam vivesse
com eles sossegadamente. Diante das suas suplicas ela ficava pensativa, dizia:
Tens razo, veremos! Depois remergulhava no torvelinho de Paris, donde
resurgia uma manh, num fiacre, estremunhada e aflicta, com uma rica pelia
sobre uma velha saia, a pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a
sua ansiedade desde ento fora legitimar a sua unio. Mas Mac-Gren adiava,
levianamente, com um medo pueril da av. Era um perfeito beb! Entretinha
as manhs a caar passaros com visco! E ao mesmo tempo terrivelmente
teimoso: ela pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito. No comeo da
primavera a mam um dia apareceu em Fontainebleau com as suas malas,
sucumbida, enojada da vida. Rompera enfim com Trevernes. Mas quase
imediatamente se consolou: e comeou da a adorar Mac-Gren com uma to
larga efuso de caricias, e achando-o to lindo, que era s vezes
embaraadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de conhaque, jogando o
bezigue.
De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren entusiasmado, e
apesar das suplicas delas, corrra a alistar-se no batalho de Zuavos de
Charete; a av de resto aprovra este rasgo d'amor pela Frana, e fizera-lhe
numa carta em verso, em que celebrava Jeane d'Arc, uma larga remessa de
dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ela, sem lhe largar o leito,
mal atendia s noticias da guerra. Sabia apenas confusamente das primeiras
batalhas perdidas na fronteira. Uma manh a mam rompeu-lhe no quarto,
estonteada, em camisa: o exercito capitulara em Sdan, o imperador estava
prisioneiro!  o fim de tudo,  o fim de tudo! dizia a mam espavorida. Ela
veio a Paris procurar noticias de Mac-Gren: na rua Roiale teve de se refugiar
num porto, diante do tumulto de um povo em delrio, aclamando, cantando a
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Marselheza, em torno de uma caleche onde ia um homem, plido como cera,
com um cache-nez escarlate ao pescoo. E um sujeito ao lado, aterrado,
disse-lhe que o povo fora buscar Rochefort  priso e que estava, proclamada
a Republica.
Nada soubera de Mac-Gren. Comearam ento dias d'infinito sobressalto.
Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mam causava d, envelhecida de
repente, sombria, prostrada numa cadeira, murmurando apenas:  o fim de
tudo,  o fim de tudo! E parecia na verdade o fim da Frana. Cada dia uma
batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado,
internados a todo o vapor para os presdios d'Alemanha; os prussianos
marchando sobre Paris... No podiam permanecer em Fontainebleau; o duro
inverno comeava; e com o que venderam  pressa, com o dinheiro que Mac-
Gren deixara, partiram para Londres.
Fora uma exigncia da mam. E em Londres ela, desorientada na enorme e
estranha cidade, doente tambm, deixara-se levar pelas tontas idias da me.
Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao p de
Maifair. A mam falava em organizar ali o centro de resistncia dos
bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraada pensava em criar uma casa
de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas, sem
imprio, no jogavam j o bacarat. E elas em breve, sem rendimentos,
gastando sempre, tinham-se achado com aquela dispendiosa casa, trs
criados, contas colossais e uma nota de cinco libras no fundo de uma gaveta.
E Mac-Gren metido dentro de Paris, com meio milho de prussianos em redor.
Foi necessrio vender todas as jias, vestidos, at as pelias. Alugaram ento,
no bairro pobre de Soho, trs quartos mal mobilados. Era o lodging de Londres
em toda a sua suja, solitria tristeza; uma criadita nica, enfarruscada como
um trapo; alguns carves midos fumegando mal na chamin; e para jantar
um pouco de carneiro frio e cerveja da esquina. Por fim faltara mesmo o
escasso shiling para pagar o lodging. A mam no saa do catre, doente,
sucumbida, chorando. Ela s vezes ao anoitecer, escondida num water-proof,
levava ao prego embrulhos de roupa (at roupa branca, at camisas!) para
que ao menos no faltasse a Rosa a sua xcara de leite. As cartas que a mam
escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na Maison d'Or ficavam sem
resposta: outras traziam, embrulhada num bocado de papel, alguma meialibra
que tinha o pavoroso sabor de uma esmola. Uma noite, um sbado de
grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mam, perderase,
errara na vasta Londres numa treva amarelada, a tiritar de frio, quase com
fome, perseguida por dois brutos que empestavam a lcool. Para lhes fugir
atirou-se para dentro de um cab que a levou a casa. Mas no tinha um peni
para pagar ao cocheiro; e a patroa roncava no seu cacifro, bbeda. O homem
resmungou; ela, sucumbida, ali mesmo na porta rompeu a chorar. Ento o
cocheiro desceu da almofada, comovido, ofereceu-se para a levar de graa ao
prego, onde ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem s aceitou um
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schiling; at mesmo supondo-a francesa grunhiu blasfemais contra os
prussianos, e teimou em lhe oferecer uma bebida.
Ela no entanto procurava uma ocupao qualquer costura, bordados,
tradues, cpias de manuscritos... No achava nada. Naquele duro inverno o
trabalho escasseava em Londres; surgira uma multido de franceses, pobres
como ela, lutando pelo po... A mam no cessava de chorar; e havia alguma
coisa mais terrvel que as suas lgrimas - eram as suas aluses constantes 
facilidade de se ter em Londres dinheiro, conforto e luxo, quando se  nova e
se  bonita...
- Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ela, apertando as mos
amargamente.
Carlos beijou-a em silncio, com os olhos umedecidos.
- Enfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cerco acabou.
Paris estava de novo aberto... Somente a dificuldade era voltar.
- Como voltaste?
Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrara um amigo de Mac-Gren,
outro irlands, que muitas vezes jantara com eles em Fontainebleau. Veio vlas
a Soho; diante daquela misria, do bule de ch aguado, dos ossos de
carneiro requentando sobre trs brasas mortas, comeou, como bom irlands,
por acusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de sangue. Depois
ofereceu, com os beios j a tremer, toda a sua dedicao. O pobre rapaz
batia tambm o lajedo numa luta tormentosa pela vida. Mas era irlands; e
partiu logo generosamente, armado de todos os seus ardis, a conquistar
atravs de Londres o pouco que elas necessitavam para recolher a Frana.
Com efeito apareceu nessa mesma noite, derreado e triunfante, brandindo trs
notas de banco e uma garrafa de champagne. A mam ao ver, depois de
tantos meses de ch preto, a garrafa de Clicquot encarapuada de ouro -
quase desmaiou, de enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na
estao de Charing-Cross, o irlands levou-a para um canto, e engasgado,
torcendo os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de
Saint-Privat...
- Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar
trabalho. Mas tudo estava ainda em confuso... Quase imediatamente veio a
Comuna... Podes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas enfim j no
era Londres, nem o inverno, nem o exlio. Estvamos em Paris, soframos de
companhia com amigos doutros tempos. J no parecia to terrvel... Com
todas estas privaes a pobre Rosa comeava a definhar... Era um suplicio vla
perder as cores, tristonha, mal vestida, metida numa trapeira... A mam j
se queixava da doena de corao que a matou... O trabalho que eu
encontrava, mal pago, dava-nos apenas para a renda da casa, e para no
morrer absolutamente de necessidade... Principiei a adoecer de ansiedade, de
desespero. Lutei ainda. A mam fazia d. E Rosa morria se no tivesse outro
regimen, bom ar, algum conforto... Conheci ento Castro Gomes em casa de
uma antiga amiga da mam, que no perdera nada com a guerra, nem com os
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prussianos, e que me dava trabalhos de costura... E o resto sabe-lo... Nem eu
me lembro... Fui levada... Via s vezes Rosa, coitadinha, embrulhada num
chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela de
sopas, e ainda com fome...
No pde continuar; rompeu a chorar, cada sobre os joelhos de Carlos. E ele
na sua emoo s lhe podia dizer, passando-lhe as mos tremulas pelos
cabelos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias passadas...
- Escuta ainda, murmurou ela, limpando as lgrimas. Ha s uma coisa mais
que te quero dizer. E  a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa!  que
nesta s duas relaes que tive o meu corao conservou-se adormecido...
Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, at que te vi... E
ainda te quero dizer outra coisa...
Um momento hesitou, coberta de rubor. Passra os braos em torno de
Carlos, pendurada toda dele, com os olhos mergulhados nos seus. E foi mais
baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confisso de todo o seu ser:
- Alm de ter o corao adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio,
frio como um mrmore...
Ele estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus lbios ficaram colados muito
tempo, em silncio, completando, numa emoo nova e quase virginal, a
comunho perfeita das suas almas.
Da a dias Carlos e Ega vinham numa victoria, pela estrada dos Olivaes, em
caminho da Toca.
Toda essa manh, no Ramalhete, Carlos estivera enfim contando ao Ega o
impulso de paixo que o lanra de novo e para sempre, como esposo, nos
braos de Maria; e, na confiana absoluta que o prendia ao Ega, revelra-lhe
mesmo miudamente a historia dela, dolorosa e justificadora. Depois, ao
acalmar o calor, propoz que fossem comer as sopas  Toca. Ega deu uma volta
pelo quarto, hesitando. Por fim comeou a passar devagar a escova pelo
palet, murmurando, como durante as longas confidencias de Carlos: 
prodigioso!... Que estranha coisa, a vida!
E agora pela estrada, na aragem doce do rio, Carlos falava ainda de Maria, da
vida na Toca deixando escapar do corao muito cheio o interminavel cantico
da sua felicidade.
-  facto, Egasinho, conheo quase a felicidade perfeita!
- E c na Toca ainda ningum sabe nada?
Ningum - a no ser Melanie, a confidente - suspeitava a profunda alterao
que se fizera nas suas relaes: e tinham assentado que miss Sarah e o
Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam rgiamente
recompensados e despedidos quando em fins de outubro eles partissem para
Itlia.
- E ides ento casar a Roma?...
- Sim... Em qualquer lugar onde haja um altar e uma estola. Isso no falta em
Itlia... E  ento, Ega, que reaparece o espinho de toda esta felicidade.  por
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isso que eu disse quase. O terrvel espinho, o av! -  verdade, o velho
Afonso. Tu no tens idia como lhe has de fazer conhecer esse caso?...
Carlos no tinha idia nenhuma. Sentia s que lhe faltava absolutamente a
coragem de dizer ao av: esta mulher, com quem vou casar, teve na sua
vida estes erros... E alm disso, j reflectira, era inutil. O av nunca
compreenderia os motivos complicados, fataes, iniludiveis que tinham
arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente o av veria ali um romance
confuso e fragil, antipatico  sua natureza forte e candida. A fealdade das
culpas feri-lo-ia, exclusivamente; e no lhe deixaria apreciar, com serenidade,
a irresistibilidade das causas. Para perceber este caso de um caracter nobre
apanhado dentro de uma implacavel rede de fatalidades, sria necessrio um
espirito mais ductil, mais mundano que o do av... O velho Afonso era um
bloco de granito: no se podiam esperar dele as subtis discriminaes de um
casuista moderno. Da existncia de Maria s veria o facto tangivel: - cara
sucessivamente nos braos de dois homens. E da decorreria toda a sua
atitude de chefe de famlia. Para que havia ele pois de fazer ao velho uma
confisso, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e uma
irreparavel separao domestica?...
- Pois no te parece, Ega?
- Fala mais baixo, olha o cocheiro.
- No percebe bem o portugus, sobretudo o nosso estilo... Pois no te
parece?
Ega raspava fosforos na sola para acender o charuto. E resmungava:
- Sim, o velho Afonso  granitico...
Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder ao
av o passado de Maria - e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. Casavam
secretamente em Itlia. Regressavam: ela para a rua de S. Francisco, ele
filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o av a casa da sua boa
amiga, que conhecera em Itlia, M. de Mac-Gren. Para o prender logo l
estavam os encantos de Maria, todas as graas de um interior delicado e srio,
jantarinhos perfeitos, idias justas, Chopin, Beethoven, etc. E, para completar
a conquista de quem to enternecidamente adorava crianas, l estava Rosa...
Enfim, quando o av estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo - ele,
uma manh, dizia-lhe francamente: Esta criatura superior e adorvel teve
uma quda no seu passado; mas eu casei com ela; e, sendo tal como , no
fiz bem, apesar de tudo, em a escolher para minha esposa? E o av, perante
esta terrvel irremediabilidade do facto consumado, com toda a sua
indulgencia de velho enternecido a defender Maria - sria o primeiro a pensar
que, se esse casamento no era o melhor segundo as regras do mundo, era
decerto o melhor segundo os interesses do corao...
- Pois no te parece, Ega?
Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em resumo,
adoptra para com o av a complicada combinao que Maria Eduarda tentra
para com ele - e imitava sem o sentir os subtis raciocinios dela.
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- E acabou-se, continuava Carlos. Se ele na sua indulgencia aceitar tudo,
bravo! d-se uma grande festa no Ramalhete... Seno, foi-se! passaremos a
viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a superioridade de
duas coisas excelentes: o av as tradies do sangue, eu os direitos do
corao.
E, vendo o Ega ainda silencioso:
- Que te parece? Dize l. Tu andas to falto de idias, homem!
O outro sacudiu a cabea, como despertando.
- Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, ns somos
dois homens falando como homens!... Ento aqui est: teu av tem quase
oitenta anos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja...  doloroso dize-lo,
ningum o diz com mais dr que eu, mas teu av ha de morrer... Pois bem,
espera at l. No cases. Supe que ela tem um pai muito velho, teimoso e
caturra, que detesta o senhor Carlos da Maia e a sua barba em bico. Espera;
continua a vir  Toca, na tipia do Mulato; e deixa teu av acabar a sua
velhice calma, sem desiluses e sem desgostos...
Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, nesses
dias de inquietao, lhe acudira idia to sensata, to facil! Sim, era isso,
esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre av toda a dr?... Maria
de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a converso do
amante no marido pelo lao d'estola que tudo purifica e nenhuma fora
desata. Mas ela mesma preferiria uma consagrao legal - que no fosse
assim precipitada, dissimulada... Depois, to recta e generosa, compreenderia
bem a obrigao suprema de no mortificar aquele santo velho. De resto, no
conhecia ela a sua lealdade solida e pura como um diamante? Recebera a sua
palavra: desde esse momento estavam casados, no diante do sacrario e nos
registos da sacristia - mas diante da honra e na inabalavel comunho dos seus
coraes...
- Tens razo! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens imensamente
razo! Essa idia  genial! Devo esperar... E emquanto espero?...
- Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso no  comigo!
E mais srio:
- Enquanto esperas tens esse metal vil que faz a existncia nobre. Instalas tua
mulher, porque desde hoje  tua mulher, aqui nos Olivaes ou noutro sitio, com
o gosto, o conforto e a dignidade que competem a tua mulher... E deixas-te ir!
Nada impede que faaes essa viagem nupcial  Itlia... Voltas, continas a
fumar a tua cigarrete e a deixar-te ir. Este  o bom senso:  assim que
pensaria o grande Sancho Pansa... Que diabo tens tu naquele embrulho que
cheira to bem?
- Um ananaz... Pois  isso, querido: esperar, deixar-me ir.  uma idia!
Uma idia! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com
efeito enredar-se numa meada de amarguras domesticas, por um excesso de
cavalheirismo romantico? Maria confiava nele; era rico, era moo; o mundo
abria-se ante eles facil e cheio de indulgencias. No tinha seno a deixar-se ir.
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- Tens razo, Ega ! E Maria  a primeira a achar isto cheio de senso e
d'oportunismo. Eu tenho uma certa pena em adiar a instalao da minha vida
e do meu home. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o av seja feliz... E para
celebrar o advento desta idia, Deus queira que Maria nos tenha um bom
jantar!
Agora, ao aproximar-se da Toca, Ega ia receando o primeiro encontro com
Maria Eduarda. Incomodava-o esse enleio, esse rubor que ela no poderia
ocultar - certa que, como confidente de Carlos, ele conhecia a sua vida, as
suas miserias, as suas relaes com Castro Gomes. Por isso hesitra em vir 
Toca. Mas tambm, no aparecer mais a Maria Eduarda sria marcar com um
relevo quase ofensivo o desejo caridoso de no molestar o seu pudor... Por
isso decidira dar o mergulho de uma vez. Quem, seno ele, deveria ser o
mais apressado em estender a mo  noiva de Carlos?... Alm disso tinha uma
infinita curiosidade de vr no seu interior,  sua mesa, essa criatura to bela,
com a sua graa nobre de Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito
embaraado.
Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, sentada
nos degraus do jardim. Teve um sobressalto, corou toda, com efeito, ao
avistar o Ega que procurava atarantadamente o monculo: o aperto de mo
que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, desembrulhara o
ananaz - e na admirao dele todo o constrangimento se dissipou.
- Oh!  magnifico!
- Que cr, que luxo de tons!
- E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
Ega no voltra  Toca desde a noite fatal da soire dos Cohens em que ele ali
tanto bebera e delirra tanto. E lembrou logo a Carlos a jornada na velha
traquitana, debaixo de um temporal, o grog do Craft, a ceia de per...
- J aqui sofri muito, minha senhora, vestido de Mefistofeles!...
- Por causa de Margarida?
- Por quem se ha de sofrer neste apaixonado mundo, minha senhora, seno
por Margarida ou por Fausto?
Mas Carlos quisque ele admirasse os esplendores novos da Toca. E foi j com
familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que s viesse assim 
Toca no fim do vero e no fim das flores. Ega extasiou-se ruidosamente.
Enfim, perdera a Toca o seu ar regelado e triste de museu! J ali se podia
palrar livremente!
- Isto  um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror  arte! 
um Ibero,  um Semita...
Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Ariano! E por isso mesmo no
podia viver numa casa, em que cada cadeira tinha a solenidade sorumbatica
de antepassados com cabeleira...
- Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do sculo dezoito lembram
antes a ligeireza, o espirito, a graa de maneiras...
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- V. exc. acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses
enramalhetados, esses rococs lembram-me uma vivacidade estouvada e
sirigaita... Nada! ns vivemos numa Democracia! E no ha para exprimir a
alegria simples, slida e bonacheirona da Democracia, como largas poltronas
de marroquim, e o mogno envernizado!...
Assim numa risonha, ligeira discusso sobre bric--brac, desceram ao jardim.
Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado na
mo. Ega, que conhecia j os seus ardores nocturnos, cravou-lhe
sfregamente o monculo; e emquanto Maria se abaixra a cortar um geranio,
exprimiu a Carlos num gesto mudo a sua admirao por aquele beicinho
escarlate, aquele seiosinho redondo de rola farta... Depois, ao fundo, junto do
caramancho, encontraram Rosa que se balouava. Ega pareceu deslumbrado
com a sua beleza, a sua frescura mate de camelia branca. Pediu-lhe um beijo.
Ela exigiu primeiro, muito sria, que ela tirasse o vidro do olho.
- Mas  para te vr melhor!  para te vr melhor!...
- Ento porque no trazes um em cada olho? Assim s me vs metade...
Encantadora! Encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena
espevitada e impudente. Maria resplandecia.
E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo  sopa, falandose
de campo e de um chalet que ele desejava construir em Cintra, nos
Capuchos, dissera - quando nos casarmos. E Ega aludiu a esse futuro do
modo mais grato ao corao de Maria. Agora que Carlos se instalava para
sempre numa felicidade estavel (dizia ele) era necessrio trabalhar! E
relembrou ento a sua velha idia do Cenaculo, representado por uma Revista
que dirigisse a literatura, educasse o gosto, elevasse a poltica, fizesse a
civilizao, remoasse o carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela
sua fortuna (at pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direo
deste movimento. E que profunda alegria para o velho Afonso da Maia!
Maria escutava, presa e sria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida toda
de inteligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente aquela unio
mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.
- Tem razo, tem bem razo! exclamava ela com ardor.
- Sem contar, acrescentava o Ega, que o pas precisa de ns! Como muito bem
diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o pas no tem pessoal...
Como ha de te-lo, se ns, que possuimos as aptides, nos contentamos em
governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos atomos? Sou eu,
minha senhora, sou eu que ando a escrever essa biografia de um atomo!... No
fim, este diletantismo  absurdo. Clamamos por a, em botequins e livros,
que o pas  uma choldra. Mas que diabo! Porque  que no trabalhamos
para o refundir, o refazer ao nosso gosto e pelo molde perfeito das nossas
idias?... V. exc. no conhece este pas, minha senhora.  admirvel!  uma
pouca de cera inerte de primeira qualidade. A questo toda est em quem a
trabalha. At aqui a cera tem estado em mos brutas, banais, toscas, reles,
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rotineiras...  necessrio p-la em mos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer
disto um beijo!...
Carlos ria, preparando numa travessa o ananaz com sumo de laranja e vinho
da Madeira. Mas Maria no queria que ele risse. A idia do Ega parecia-lhe
superior, inspirada num alto dever. Quase tinha remorsos, dizia ela, daquela
preguia de Carlos. E agora, que ia ser cerrado de afeio serena, queria-o vr
trabalhar, mostrar-se, dominar...
- Com efeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance findou. E
agora...
Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de
entusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!
- Como fazes tu isto? Com Madeira...
- E genio! exclamou Carlos. Delicioso, no  verdade? Ora digam-me se tudo o
que eu pudesse fazer pela civilizao valeria este prato de ananaz!  para
estas coisas que eu vivo! Eu no nasci para fazer civilizao...
- Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flores dessa planta da civilizao que
a multido rega com o seu suor! No fundo tambm eu, menino!
No, no! Maria no queria que falassem assim!
- Esses ditos estragam tudo. E o senhor Ega, em lugar de corromper Carlos,
devia inspir-lo...
Ega protestou requebrando o olho, j languido. Se Carlos necessitava uma
musa inspiradota e benefica no podia ser ele, bicho com barbas e bacharel
em leis... A musa estava toute trouve!
- Ah, com efeito!... Quantas paginas belas, quantas nobres idias se no
podem produzir num paraso destes!...
E o seu gesto mole e acariciador indicava a Toca, a quietao dos arvoredos, a
beleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um nocturno de
Chopin e Carlos e ele acabavam os charutos  porta do jardim vendo nascer a
lua - Ega declarou que, desde o comeo do jantar, estava com idias de
casar!... Realmente no havia nada como o casamento, o interior, o ninho...
- Quando penso, menino, murmurou ele mordendo sombriamente o charuto,
que quase todo um ano da minha vida foi dado quela israelita devassa que
gosta de levar bordoada...
- Que faz ela em Cintra? perguntou Carlos.
- Ensopa-se na crapula. No ha a menor duvida que d todo o seu corao ao
Damaso... Tu sabes o que nestes casos significa o termo coraco... Viste j
imundicie igual?  simplesmente obscena!
- E tu adr-la, disse Carlos.
O outro no respondeu. Depois, dentro, num odio repentino da bohemia e do
romantismo, entoou louvores sonoros  famlia, ao trabalho, aos altos deveres
humanos - bebendo copinhos de conhaque.  meia noite, ao sair, tropeou
duas vezes na rua d'acacias, j vago, citando Proudhon. E quando Carlos o
ajudou a subir para a victoria, que ele quis descoberta para ir comunicando
com a lua, Ega ainda lhe agarrou o brao para lhe falar da Revista, de um
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forte vento de espiritualidade e de virtude viril que se devia fazer soprar sobre
o pas... Por fim, j estirado no assento, tirando o chapu  aragem da noite:
- E outra coisa, Carlinhos. V se me arranjas a inglesa... Ha vicios deliciosos
naquelas pestanas baixas... V se ma arranjas... V l, bate l, cocheiro!
Caramba, que beleza de noite!
Carlos ficra encantado com este primeiro jantar d'amizade na Toca. Ele
tencionava no apresentar Maria aos seus intimos seno depois de casado e 
volta de Itlia. Mas agora a unio legal estava j no seu pensamento
adiada, remota, quase dispersa no vago. Como dizia o Ega, devia esperar,
deixar-se ir... E no entanto, Maria e ele no poderiam isolar-se ali todo um
longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns amigos em redor. Por isso uma
manh, encontrando o Cruges, que fora o visinho de Maria e outrora lhe dava
noticias da ladi inglesa, pediu-lhe para vir jantar  Toca no domingo.
O maestro apareceu numa tipia,  tardinha, de lao branco e de casaca: e os
fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega comearam logo a
enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, alm das Lolas e Conchas, o
atarantava, o emudecia: Maria, com o seu porte de grande-dame, como ele
dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou diante dela, sem uma palavra,
escarlate, torcendo o forro das algibeiras. Antes de jantar, por lembrana de
Carlos, foram-lhe mostrar a quinta. O pobre maestro, roando a casaca mal
feita pela folhagem dos arbustos, fazia esforos ansiosos por murmurar algum
elogio  beleza do sitio; mas escapavam-lhe ento inexplicavelmente coisas
reles, em calo: vista catita!  pitada! Depois ficava furioso, coberto de
suor, sem compreender como se lhe babavam dos lbios esses ditos
abominaveis, to contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se sentou 
mesa sofria um negrissimo acesso de spleen e mudez! Nem uma controversia
que Maria arranjra caridosamente para ele sobre Wagner e Verdi pde
descerrar-lhe os lbios empedernidos. Carlos ainda tentou envolve-lo na
alegria da mesa - contando a ida a Cintra, quando ele procurava Maria na
Lawrence, e em vez dela achra uma matrona obesa, de bigode, de cosinho
ao colo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas a cada exclamao de
Carlos - Lembras-te, Cruges?, No  verdade, Cruges? - o maestro,
rubro, grunhia apenas um sim avaro. Terminou por estar ali, ao lado de Maria,
como um trambolho funebre. Estragou o jantar. Combinra-se para depois do
caf um passeio pelos arredores, num break. E Carlos j tomra as guias,
Maria na almofada acabava de abotoar as luvas - quando Ega, que receava a
friagem da tarde, saltou do break, correu a buscar o palet. Nesse mesmo
momento sentiram um trote de cavalo na estrada - e apareceu o marqus.
Foi uma surpresa para Carlos, que o no vira durante esse vero. O marqus
parou logo, tirando profundamente, ao vr Maria, o seu largo chapu
desabado.
- Imaginava-o pela Goleg! exclamou Carlos. Foi at o Cruges que me disse...
Quando chegou voc?
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Chegra na vespera. La fora ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos
Olivaes vr um dos Vargas que tinha casado, se instalra ali perto, a passar o
noivado...
- Quem, o gordo, o das corridas?
- No, o magro, o das regatas.
Carlos, debruado da almofada, examinava a egoasita do marqus, pequena,
bem estampada, de um baio escuro e bonito.
- Isso  novo?
- Uma facasita do Darque... Quer-m'a voc comprar? Sou j um pouco pesado
para ela, e isto mete-se a um dog-cart...
- D l uma volta.
O marqus deu a volta, bem posto na sela, avantajando a egoa. Carlos achoulhe
boas aces. Maria murmurou - Muito bonita, uma cabea fina...
Ento Carlos apresentou o marqus de Souzela a madame Mac-Gren. Ele
chegou a egoa  roda, descoberto, para apertar a mo a Maria: e  espera do
Ega que se eternisava l dentro, ficaram falando do vero, de Santa Olavia,
dos Olivaes, da Toca... Ha que tempos o marqus ali no passava! A ltima
vez fora victima da excentricidade do Craft...
- Imagine v. exc., disse ele a Maria Eduarda, que esse Craft me convida a
almoar. Venho, e o hortelo diz-me que o senhor Craft, criado e cozinheiro,
tudo partira para o Porto; mas que o senhor Craft deixra um cartaz na sala...
Vou  sala, e vejo dependurado ao pescoo de um idolo japonez uma folha de
papel com estas palavras pouco mais ou menos: O deus Tchi tem a honra de
convidar o senhormarquez, em nome de seu amo ausente, a passar  sala de
jantar onde encontrar, num aparador, queijo e vinho, que  o almoo que
basta ao homem forte. E foi com efeito o meu almoo... Para no estar s,
partilhei-o com o hortelo.
- Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.
- Pde crr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando ele apareceu,
vindo daqui da Toca, o meu guarda-porto disse-lhe que o senhor marquez
fora para longe, e que no havia nem po nem queijo... Resultado: o Craft
mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de Chambertin. Esse deus Tchi
nunca mais o tornei a vr...
O deus Tchi la estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos
convidou o marqus a revisitar nessa noite,  volta da casa do Vargas, o seu
velho amigo Tchi.
O marqus veio, s dez horas - e foi um sero encantador. Conseguiu sacudir
logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mo de ferro para o piano;
Maria cantou; palrou-se com graa; e aquele escondrijo d'amor ficou alumiado
at tarde, na sua primeira festa de amizade.
Estas reunies alegres foram ao principio, como dizia o Ega, dominicaes: mas
o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as arvores da Toca, e Carlos
acumulou-as duas vezes por semana, nos velhos dias feriados da
Universidade, domingos e quintas. Tinha descoberto uma admirvel cozinheira
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alsaciana, educada nas grandes tradies, que servira o bispo de Strasburgo,
e a quem as extravagancias de um filho e outras desgraas tinham arrojado a
Lisboa. Maria, de resto, punha na composio dos seus jantares uma cincia
delicada: o dia de vir  Toca era considerado pelo marqus dia de
civilizao.
A mesa resplandecia; e as tapearias representando massas de arvoredos
punham em redor como a sombra escura de um retiro silvestre onde por um
capricho se tivessem acendido candelabros de prata. Os vinhos saam da
frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do cu se
grulhava com fantasia - menos de poltica portugueza, considerada
conversa indecorosa entre pessoas de gosto.
Rosa aparecia ao caf, exalando do seu sorriso, dos bracinhos ns, dos
vestidos brancos tufados sobre as meias de sda preta, um bom aroma de
flr. O marqus adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em
casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ela preferia o
marqus: achava o Ega muito... - e completava o seu pensamento com um
gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega era muito
retorcido.
- Ali est! exclamava ele. Porque eu sou mais civilisado que o outro!  a
simplicidade no compreendendo o requinte.
- No, desgraado! exclamavam do lado.  porque s impresso!...  a
natureza repelindo a conveno!...
Bebia-se  sade de Maria: ela sorria, feliz entre os seus novos amigos,
divinamente bela, quase sempre de escuro, com um curto decote onde
resplandecia o incomparavel esplendor do seu colo.
Depois organisaram-se solenidades. Num domingo, em que os sinos
repicavam e a distncia foguetes esfuziavam no ar - Ega lamentou que os seus
austeros principios filosoficos o impedissem de festejar tambm aquele santo
d'aldeia, que fora decerto em vida um caturra encantador, cheio d'iluses e
doura... Mas de resto, acrescentou, no teria sido num dia assim, fino e seco,
sob um grande co cheio de sol, que se feriu a batalha das Thermopilas?
Porque no se atiraria uma girandola de foguetes em honra de Leonidas e dos
trezentos? E atirou-se a girandola pela eterna gloria de Sparta.
Depois celebraram-se outras datas historicas. O aniversario da descoberta da
Venus de Milo foi comemorado com um balo que ardeu. N'outra ocasio o
marqus trouxe de Lisboa, apinhados numa tipia, fadistas famosos, o
Pintado, o Vira-vira e o Gago: e depois de jantar, at tarde, com o luar sobre o
rio, cinco guitarras choraram os ais mais tristes dos fados de Portugal.
Quando estavam ss, Carlos e Maria passavam as suas manhs no quiosque
japonez - afeioados quele primeiro retiro dos seus amores, pequeno e
apertado, onde os seus coraes batiam mais perto um do outro. Em lugar das
esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da India,
cor de palha e cor de perola. Um dos maiores cuidados dele, agora, era
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embelezar a Toca: nunca voltava de Lisboa sem trazer alguma figurinha de
Saxe, um marfim, uma faiana, como noivo feliz que aperfeia o seu ninho.
Maria no entanto no cessava de lembrar os planos intelectuaes do Ega:
queria que ele trabalhasse, ganhasse um nome: sria isso o orgulho intimo
dela, e sobretudo a alegria suprema do av. Para a contentar (mais que para
satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos recomera a compr
alguns dos seus artigos de medicina literaria para a Gazeta Medica. Trabalhava
no quiosque, de manh. Trouxera para l rascunhos, livros, o seu famoso
manuscripto da Medicina antiga e moderna. E por fim achra um grande
encanto em estar ali, com um leve casaco de sda, as suas cigaretes ao lado,
um fresco murmrio de arvoredo em redor - cinzelando as suas frases,
emquanto ela ao lado bordava silenciosa. As suas idias surgiam com mais
originalidade, a sua frma ganhava em colorido, naquele estreito quiosque
assetinado que ela perfumava com a sua presena. Maria respeitava este
trabalho como coisa nobre e sagrada. De manh, ela mesma espanejava os
livros do leve p que a aragem soprava pela janela; dispunha o papel branco,
punha cuidadosamente penas novas; e andava bordando uma almofada de
penas e setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta
cadeira de couro lavrado.
Um dia oferecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, entusiasmado com a
letra dela, quase comparavel  lendaria letra do Damaso, ocupava-a agora
incessantemente como copista, sentindo mais amor por um trabalho a que ela
se associava. Quantos cuidados se dava a doce criatura! Tinha para isso um
papel especial, de um tom macio de marfim: e, com o dedinho no ar, ia
desenrolando as pesadas consideraes de Carlos sobre o Vitalismo e o
Transformismo na graa delicada de uma renda... Um beijo pagava-a de tudo.
As vezes Carlos dava lies a Rosa - ora de historia, contando-lha
familiarmente como um conto de fadas; ora de geografia, interessando-a pelas
terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm entre as
ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria. Sria, muda, cheia
de religio, escutava aquele ser bem-amado ensinando sua filha. Deixava
escapar das mos o trabalho - e o interesse de Carlos, a enlevada ateno de
Rosa sentada aos ps dele, bebendo aquelas belas historias de Joana d'Arc ou
das caravelas que foram  India, fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa
de lgrimas felizes...
Desde o meado d'outubro Afonso da Maia falava da sua partida de Santa
Olavia, retardada apenas por algumas obras que comera na parte velha da
casa e nas cocheiras: porque ltimamente invadira-o a paixo de edificar -
sentindo-se remoar, como ele dizia, no contacto das madeiras novas e no
cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambm em abandonar os
Olivaes. Carlos no poderia por dever domestico permanecer ali instalado
desde que o av recolhesse ao Ramalhete. Alm disso aquele fim de outono ia
escuro e agreste; e a Toca era agora pouco bucolica, com a quinta desfolhada
e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um fogo nico no gabinete de cretones -
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alm da sumptuosa chamin da sala de jantar, que, por entre os seus Nubios
d'olhos de cristal, solfava uma fumaraa odiosa quando o Domingos a tentava
acender.
Numa dessas manhs, Carlos, que ficra at tarde com Maria, e depois no seu
delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e gua
desencadeado de madrugada - ergueu-se s nove horas, veio  Toca. As
janelas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manh clarera;
a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma linda e silenciosa
graa d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos onde os chrisantemos
floriam, quando retiniu a sineta do porto. Era o toque do carteiro. Justamente
ele escrevera dias antes ao Cruges, perguntando se estaria desocupado para
os primeiros frios de dezembro o andar da rua de S. Francisco: e, esperando
carta do maestro, foi abrir, acompanhado por Niniche. Mas o correio, nessa
manh, consistia apenas numa carta do Ega e dois numeros de jornal cintados
- um para ele, outro para Madame Castro Gomes, na quinta do senhor Craft,
aos Olivaes.
Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, com
a data  noite,  pressa. E dizia: - L, nesse trapo que te mando, esse
superior pedao de prosa que lembra Tacito. Mas no te assustes; eu
suprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepo de dois numeros
mais que foram, um para a Toca, outro (oh logica suprema dos habitos
constitucionaes!) para o Pao, para o chefe do Estado!... Mas esse mesmo
no chegar ao seu destino. Em todo o caso desconfio de que esgto saiu
esse enxurro e precisamos providenciar! Vem j! Espero-te at s duas. E,
como Iago dizia a Cassio - mete dinheiro na bolsa.
Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a Corneta do Diabo: e na
impresso, no papel, na abundncia dos italicos, no tipo gasto, todo ele
revelava imundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas cruzes a lapis
marcavam um artigo que Carlos, num relance, viu salpicado com o seu nome.
E leu isto: - Ora viva, s Maia! Ento j se no vai ao consultorio, nem se
vem os doentes do bairro, s janota? - Esta piada era botada no Chiado, 
porta da Havaneza, ao Maia, ao Maia dos cavalos inglses, um tal Maia do
Ramalhete, que abarrota por a de catita; e o pai Paulino que tem olho e
que passava nessa ocasio ouviu a seguinte cornetada: -  que o s Maia
acha que  mais quente viver nas fraldas de uma brazileira casada, que nem
 brazileira nem  casada, e a quem o papalvo poz casa, a para o lado dos
Olivaes, para estar ao fresco! Sempre os ha neste mundo!... Pensa o
homem que botou conquista; e c a rapaziada de gosto ri-se, porque o que a
gaja lhe quer no so os lindos olhos, so as lindas louras... O simplorio, que
bate a pilecas bifes, que nem que fosse o marqus, o verdadeiro Marquez,
imaginava que se estava abiscoitando com uma senhora do chic, e do
boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no fim (no, esta  para a gente
deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim descobre-se que a tipa era uma
cocote safada, que trouxe para a um brasileiro j farto dela para a passar
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c, aos belos lusitanos... E caiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda
assim o s Maia s apanhou os restos d'outro, porque a tipa j antes dele se
enfeitar, tinha pandegado  larga, a para a rua de S. Francisco com um
rapaz da fina, que se safou tambm, porque c como ns s aprecia a bela
hespanhola. Mas no obsta a que o s Maia seja traste! - Pois se assim ,
dissemos ns, cautelinha, porque o diabo c tem a sua Corneta preparada
para cornetear por esse mundo as faanhas do Maia das conquistas. Ora
viva,s Maia!
Carlos ficou imovel entre as acacias, com o jornal na mo, no espanto furioso
e mudo de um homem que subitamente recebe na face uma grossa chapada
de ldo! No era a clera de vr o seu amor assim aviltado na publicidade
chula de um jornal sordido: era o horror de sentir aquelas frases em calo,
pandilhas, afadistadas, como s Lisboa as pode criar, pingando fetidamente, 
maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o esplendor da sua paixo...
Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idia surgiu atravs da sua
confuso matar o bruto que escrevera aquilo.
Mat-lo! Ega sustra a tiragem da folha, Ega pois conhecia o foliculario. Nada
importava que aqueles numeros, que tinha na mo, fossem os unicos
impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse espalhada nas praas
numa profusa publicidade ou lhe fosse atirada s a ele escondidamente num
papel nico, era igual... Quem tanto ousra tinha de cahir, esmagado!
Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos  janela da cozinha areava pratas,
assobiando. Mas quando Carlos lhe falou de ir buscar um calhambeque aos
Olivaes, o bom Domingos consultou o relgio:
- V. exc. tem s onze horas a caleche do Torto que a senhora mandou c
estar para ir a Lisboa...
Carlos, com efeito, recordou-se que Maria na vespera planera ir  Aline e aos
livreiros. Uma contrariedade, justamente nesse dia em que ele precisava ficar
livre - ele e a sua bengala! Mas Melanie, passando ento com um jarro d'gua
quente, disse que a senhora ainda se no vestira, que talvez nem fosse a
Lisboa... E Carlos recomeou a passear, no tapete de relva, entre as
nogueiras.
Sentou-se por fim no banco de cortia, descintou a Corneta sobrescriptada
para Maria, releu lentamente a prosa imunda: e, nesse numero que lhe fora
destinado a ela, todo aquele calo lhe pareceu mais ultrajante, intoleravel,
punvel s com sangue. Era monstruoso, na verdade, que sobre uma mulher,
quieta, inofensiva no silncio da sua casa, algum ousasse to brutalmente
arremessar esse ldo s mos cheias! E a sua indignao alargava-se do
foliculario que babra aquilo - at  sociedade que, na sua decomposio,
produzira o foliculario. Decerto toda a cidade sofria a sua vermina... Mas s
Lisboa, s a horrvel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu
rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do bom
gosto, a sua pulhice e o seu calo, podia produzir uma Corneta do Diabo.
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E, no meio desta alta clera de moralista, uma dr perpassava, precisa e
dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido neste
canto do mundo - mas, em suma, havia no artigo da Corneta uma calunia?
No. Era o passado de Maria, que ela arrancra de si como um vestido rto e
sujo, que ele mesmo enterrra muito fundo, deitando-lhe por cima o seu amor
e o seu nome - e que algum desenterrava para o mostrar bem alto ao sol,
com as suas manchas e os seus rasges... E isto agora ameaava para sempre
a sua vida como um terror sobre ela suspenso. Debalde ele perdora, debalde
ele esquecera. O mundo em redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a
perversidade podefiam refazer o artigo da Corneta.
Ergueu-se, abalado. E ento ali, sob essas arvores desfolhadas, onde durante
o vero, quando elas se enchiam de sombra e de murmrio, ele passera com
Maria, esposa eleita da sua vida - Carlos perguntou pela vez primeira a si
mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos homens de quem
descendia, a dignidade dos homens que dele descendessem lhe permitiam em
verdade casar com ela...
Dedicar-lhe toda a sua afeio, toda a sua fortuna, certamente! Mas casar... E
se tivesse um filho? O seu filho, j homem, altivo e puro, poderia um dia lr
numa Corneta do Diabo que sua me fora amante de um brasileiro, depois de
ser amante de um irlands. E se seu filho lhe viesse gritar, numa bela
indignao,  uma calunia? - ele teria de baixar a cabea, marmurar - 
uma verdade! E seu filho veria para sempre colada a si aquela me de quem
o mundo ignorava os martirios e os encantos - mas de quem conhecia
cruelmente os erros.
E ela mesma! Se ele apelasse para a sua razo, alta e to recta, mostrandolhe
as zombarias e as afrontas de que uma vil Corneta do Diabo poderia um
dia trespassar o filho que deles nascesse - ela mesma o desligaria alegremente
do seu voto, contente em entrar no Ramalhete pela escadinha secreta forrada
de veludo cor de cereja, contanto que em cima a esperasse um amor
constante e forte... Nunca ela tornra, em todo o vero, a aludir a uma unio
diferente dessa em que os seus coraes viviam to lealmente, to
confortavelmente. No, Maria no era uma devota, preocupada do pecado
mortal! Que lhe podia importar a estola banal do padre?...
Sim; mas ele que lhe pedira essa consagrao na hora mais comovida do seu
longo amor, iria dizer-lhe agora - foi uma criancice, no pensemos mais
n'isso, desculpa? No; nem o seu corao o desejava! Antes pendia todo para
ela... Pendia todo para ela, num enternecimento mais generoso e mais quente
- emquanto a sua razo assim arengava, cautelosa e austera. Ele tinha
naquela alma o seu culto perfeito, naqueles braos a sua voluptuosidade
magnifica; fora d'ali no havia felicidade; a unica sabedoria era prender-se a
ela pelo derradeiro elo, o mais forte, o seu nome, embora as Cornetas do
Diabo atroassem todo o ar. E assim afrontaria o mundo numa soberba revolta,
afirmando a onipotencia, o reino nico da Paixo... Mas primeiro mataria o
foliculario! - Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos se
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resolviam por fim em fria contra o infame que babra sobre o seu amor, e
durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e tanto tormento!
Maria ao lado abriu a janela. Estava vestida d'escuro para sair; e bastou o
brilho terno do seu sorriso, aqueles ombros a que o estofo justo modelava a
beleza cheia e quente - para que Carlos detestasse logo as duvidas desleaes e
covardes, a que se abandonra um momento sob as arvores desfolhadas...
Correu para ela. O beijo que lhe deu, lento e mudo, teve a humildade de um
perdo que se implora.
- Que tens tu, que ests to srio?
Ele sorriu. Srio, no sentido de solene, no estava. Talvez secado. Recebera
uma carta do Ega, uma das eternas complicaes do Ega. E precisava ir a
Lisboa, ficar l naturalmente toda a noite...
- Toda a noite? exclamou ela com um desapontamento, pousando-lhe as mos
sobre os ombros.
- Sim,  bem possvel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o
inesperado... Tu com efeito vs a Lisboa?
- Agora, com mais razo... Se me queres.
- O dia esta bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.
Maria justamente gostava desses dias d'inverno, cheios de sol, com um
arzinho vivo e arrepiado. Tornavam-na mais leve, mais esperta.
- Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoo, minha filha...
O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.
Enquanto Maria correra a apressar o Domingos - Carlos, atravs da relva
mida, foi ainda lentamente at ao renque baixo de arbustos que daquele lado
fechava a Toca como uma sebe. Ali a colina descia, com quintarolas, muros
brancos, olivedos, uma grande chamin de fabrica que fumegava: para alm
era o azul fino e frio do rio: depois os montes, de um azul mais carregado,
com a casaria branca da povoao aninhada  beira da gua, nitida e suave na
transparencia do ar macio. Parou um momento, olhando. E aquela aldeia de
que nunca soubera o nome, to quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo
repentino de sossego e de obscuridade, num canto assim do mundo,  beira
d'gua, onde ningum o conhecesse nem houvesse Cornetas do Diabo, e ele
pudesse ter a paz de um simples e de um pobre debaixo de quatro telhas, no
seio de quem amava...
Maria gritou por ele da janela da sala de jantar, onde se debruara a apanhar
uma das ltimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
- Que lindo tempo para viajar, Maria! - disse Carlos chegando, atravs da
relva.
- Lisboa  tambm muito linda, agora, havendo sol...
- Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, todos os
horrores... A mim est-me positivamente a apetecer uma cubata na frica!
O almoo, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do Torto
comeou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. Logo adiante
da vila, na descida, cruzaram um coup que trepava num trote esfalfado.
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Maria julgou avistar nele de relance o chapu branco e o monculo do Ega...
Pararam. E era com efeito o Ega, que reconhecera tambm a caleche da Toca,
vinha j saltitando as lamas com longas pernadas de cegonha, chamando por
Carlos.
Ao vr Maria ficou atrapalhado:
- Que bela surpresa! Eu ia para l... Vi o dia to bonito disse comigo...
- Bem, paga a tua tipia, vem conosco! atalhou Carlos que trespassava o Ega,
com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo daquela brusca chegada
aos Olivaes.
Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraado, sem
poder desabafar diante de Maria sobre o caso da Corneta, comeou, sob os
olhos de Carlos que o no deixavam, a falar do inverno, das inundaes do
Riba-Tejo... Maria lra. Uma desgraa, duas crianas afogadas nos beros,
gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos no se conteve:
- Eu l recebi a tua carta...
Ega acudiu:
- Arranja-se tudo! Est tudo combinado! E com efeito eu no vim seno por
um sentimento bucolico...
Muito discretamente Maria olhra para o rio. Ega fez ento um gesto rapido
com os dedos significando dinheiro, s questo de dinheiro. Carlos socegou:
e Ega voltou a falar dos inundados do Riba-Tejo e do sarau literario e artistico
que em beneficio deles se ia cometer no salo da Trindade... Era uma vasta
solenidade oficial. Tenores do parlamento, rouxinoes da literatura, pianistas
ornados com o habito de S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do
constitucionalismo ia entrar em fogo. Os reis assistiam, j se teciam grinaldas
de camelias para pendurar na sala. Ele, apesar de demagogo, fora convidado
para lr um episodio das Memorias de um Atomo: recusra-se, por modestia,
por no encontrar nas Memorias nada to suficientemente palerma que
agradasse  capital. Mas lembrra o Cruges; e o maestro ia ribombar ou
arrulhar uma das suas Meditaes. Alm disso havia uma poesia social pelo
Alencar. Enfim, tudo prenunciava uma imensa orgia...
- E a snr. D. Maria, acrescentou ele, devia ir!...  sumamente pitoresco. Tinha
v. exc. ocasio de vr todo o Portugal romantico e liberal,  la besogne,
engravatado de branco, dando tudo que tem n'alma!
- Com efeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges toca, se
o Alencar recita,  uma festa nossa...
- Pois est claro! gritou Ega, procurando o monculo, j excitado. Ha duas
coisas que  necessrio vr em Lisboa... Uma procisso do Senhor dos Passos
e um sarau poetico!
Rolavam ento pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que parasse
no comeo da rua do Alecrim: eles apeavam-se e tomavam de l o americano
para o Ramalhete.
Mas a tipia estacou antes da calada, rente ao passeio, em frente de uma loja
de alfaiate. E nesse instante achava-se a parado, calando as suas luvas
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pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo vestido de luto. Ao
vr Maria, que se inclinra  portinhola, o homem pareceu assombrado;
depois, com uma leve cor na face larga e plida, fitou gravemente o chapu,
um imenso chapu de abas recurvas,  moda de 1830, carregado de crepe.
- Quem ? perguntou Carlos.
-  o tio do Damaso, o Guimares, disse Maria, que crra tambm. ,
curioso, ele aqui!
Ah, sim! o famoso Mr. Guimares, o do Rapel, o intimo de Gambeta! Carlos
recordava-se de ter j encontrado aquele patriarcha no Price com o Alencar.
Comprimentou-o tambm; o outro ergueu de novo com uma gravidade maior
o seu sombrio chapu de carbonario. Ega entalra vivamente o monculo para
examinar esse lendario tio do Damaso, que ajudava a governar a Frana: e
depois de se despedirem de Maria, quando a caleche j subia a rua do Alecrim
e eles atravessavam para o Hotel Central, ainda se voltou seduzido por
aqueles modos, aquelas barbas austeras de revolucionario...
- Bom tipo! E que magnifico chapu, hein! Donde diabo o conhece a snr. D.
Maria?
- De Paris... Este Mr. Guimares era muito da me dela. A Maria j me tinha
falado nele.  um pobre diabo. Nem amigo de Gambeta, nem coisa nenhuma...
Traduz noticias dos jornais espanhis para o Rapel, e morre de fome...
- Mas ento, o Damaso?
- O Damaso  um trapalho. Vamos ns ao nosso caso... Essa imundicie que
me mandaste, a Corneta Dize l.
Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da imundicie. Fra na
vespera  tarde que recebera no Ramalhete a Corneta?. Ele j conhecia o
papelucho, j privra mesmo com o proprietario e redactor - o Palma,
chamado Palma Cavalo para se distinguir d'outro benemerito chamado Palma
Cavalinho. Compreendeu logo que se a prosa era do Palma a inspirao era
alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de Maria, nem da casa da rua de S.
Francisco, nem da Toca... No era natural que escrevesse por deleite
intelectual um documento que s lhe podia render desgostos e bengaladas. O
artigo, pois, fra-lhe simplesmente encomendado e pago. No terreno do
dinheiro vence sempre quem tem mais dinheiro. Por este solido principio
correra a procurar o Palma Cavalo no seu antro.
- Tambm lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
Tanto no... Fui perguntar  secretaria da Justia a um sujeito que esteve
associado com ele num negocio de Almanachs religiosos...
Fra pois ao antro. E encontrra as coisas dispostas pelas mos habeis de uma
Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis numeros,
a mquina, esfalfada na pratica daquelas maroteiras, desmanchra-se. Alm
disso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro que lhe encomendra o
artigo, por divergencia na serissima questo de pecunia. De sorte que apenas
ele propz comprar a tiragem do jornal - o jornalista estendeu logo a mo
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larga, d'unhas rodas, tremendo de reconhecimento e de esperana. Dera-lhe
cinco libras que tinha, e a promessa de mais dez...
-  caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, no regateei
bastante... E emquanto a dizer quem  o cavalheiro que encomendou o artigo,
o Palma, coitado, afirma que tem uma rapariga espanhola a sustentar, que o
senhorio lhe levantou o aluguer da casa, que Lisboa est carissima, que a
literatura neste desgraado pas...
- Quanto quer ele?
- Cem mil reis. Mas, ameaando-o com a policia, talvez desa a quarenta.
- Promete os cem, promete tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem te
parece que seja?
Ega encolheu os ombros, deu um risco lento no cho com a bengala. E mais
lentamente ainda foi considerando que o inspirador da Corneta devia ser
algum familiar com Castro Gomes; algum frequentador da rua de S.
Francisco; algum conhecedor da Toca; algum que tinha, por ciume ou
vingana, um desejo ferrenho de magoar Carlos; algum que sabia a historia
de Maria; e enfim algum que era um covarde...
- Ests a descrever o Damaso! exclamou Carlos, plido e parando.
Ega encolheu de novo os ombros, tornou a riscar o cho:
- Talvez no... Quem sabe! Enfim, ns vamos averigual-o com certeza,
porque, para terminar a negociao, fiquei de me ir encontrar com o Palma s
trs horas no Lisbonense... E o melhor  vires tambm. Trazes tu dinheiro?
- Se fr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
E no trazia suficiente dinheiro. Tomaram uma tipia para correr ao escritrio
do Vilaa. O procurador fora a Mafra, a um batizado. Carlos teve de ir pedir
cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do av. Quando perto das quatro horas
se apearam  entrada do Lisbonense, no largo de Santa Justa, o Palma no
portal, com um jaqueto de veludo coado e cala de casimira clara colado 
cxa, acendia um cigarro. Estendeu logo rasgadamente a mo a Carlos - que
lhe no tocou. E Palma Cavalo, sem se ofender, com a mo abandonada no
ar, declarou que ia justamente sair, canado j de esperar em cima diante de
um grog frio. De resto sentia que o senhorMaia se incomodasse em vir ali...
- Eu arranjava c o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se os
senhores querem, vamos l p'ra cima para um gabinete, que se est mais 
vontade, e toma-se outra bebida.
Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter j visto aquela luneta de
vidros grossos, aquela cara balofa cor de cidra... Sim, fora em Cintra, com o
Eusebiosinho e duas espanholas, nesse dia em que ele farejra pelas estradas
silenciosas, como um co abandonado, procurando Maria!... Isto tornou-lhe
mais odioso o senhor Palma. Em cima entraram num cubculo, com uma janela
gradeada por onde resvalava uma luz suja de saguo. Na toalha da mesa,
salpicada de gordura e vinho, alguns pratos rodeavam um galheteiro que tinha
moscas no azeite. O senhorPalma bateu as palmas, mandou vir genebra.
Depois dando um grande puxo s calas:
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- Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu j disse c ao
amigo Ega, em todo este negocio...
Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da bengala
na borda da mesa.
- Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o senhorPalma por me dizer quem
lhe encomendou o artigo da Corneta?
- Dizer quem o encomendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na
parede uma gravura onde havia mulheres nas  beira d'gua. No nos basta
o nome... O amigo Palma, est claro,  de toda a confiana... Mas emfim, que
diabo, no  natural que ns acreditassemos se o amigo nos dissesse que
tinha sido o senhorD. Luiz de Bragana!
Palma encolheu os ombros. Est visto que havia de dar provas. Ele podia ter
outros defeitos, trapalho no! Em negocios era todo franqueza e lisura... E,
se se entendessem, ali as entregava logo, essas provas que lhe estavam
enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a carta do amigo que lhe
encomendra a piada: a lista das pessoas a quem se devia mandar a Corneta:
o rascunho do artigo a lapis...
- Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
O Palma ficou um momento indeciso, ajeitando as lunetas com os dedos
moles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e ento o redactor da
Corneta ofereceu a bebida rasgadamente, puxou mesmo cadeiras para
aqueles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram - Carlos de p junto da
mesa onde terminra por pousar a bengala, Ega passando a outra gravura
onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado saiu, Ega
acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:
- Cem mil reis so uma linda soma, Palma amigo! E olhe que se lhe oferecem
por delicadeza consigo. Porque artiguinhos como este da Corneta
apresentados na Boa-Hora, levam  grilheta!... Est claro, este caso  outro,
voc no teve inteno d'ofender; mas levam  grilheta!... Foi assim que o
Severino marchou para a frica. Ali no porosinho de um navio, com rao de
marujo e chibatadas. Desagradavel, muito desagradavel. Por isso eu quisque
tratassemos isto aqui, entre cavalheiros, e em amizade.
Palma, com a cabea baixa, desfazia torres de assucar dentro do copo de
genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser entre
cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...
Imediatamente Carlos tirou da algibeira das calas um punhado de libras, que
comeou a deixar cair em silncio uma a uma dentro de um prato. E Palma
Cavalo, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo o jaqueto, sacou uma
carteira onde reluzia um pesado monograma de prata sob uma enorme coroa
de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim desdobrou, estendeu trs papeis
sobre a mesa. Ega, que esperava, com o monculo sfrego, teve um brado de
triunfo. Reconhecera a letra do Damaso!
Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,
curta e em calo, remetendo o artigo, recomendando-lhe que o
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apimentasse. Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo
Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas que
deviam receber a Corneta: vinha l a Gouvarinho, o ministro do Brasil, D.
Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o Cohen, varias
autoridades, e a Fanceli prima-dona...
Palma no entanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao
prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de relancear
os olhos aos documentos por cima do ombro de Carlos:
- Recolha o bago, amigo Palma! Negcios so negcios, e o baguinho est a a
arrefecer!
Ento, ao palpar o ouro, Palma Cavalo comoveu-se. Palavra, caramba, se
soubesse que se tratava de um cavalheiro como o senhor Maia no tinha
aceitado o artigo! Mas ento!... Fra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, que lhe
viera falar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lrias, e que era uma
brincadeira, e que o Maia no se importava, e isto e aquilo, e muita
promessa... Enfim deixra-se tentar. E tanto o Salcede como o Silveira se
tinham portado pulhamente.
- Foi uma sorte que se escangalhasse a mquina! Seno estava agora
entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas
acabou-se! O mal no foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca da
vida.
Vivamente, com um olhar, recontra o dinheiro na palma da mo: depois
esvaziou a genebra, de um trago consolado e ruidoso. Carlos guardra as
cartas do Damaso, levantava j o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, numa
derradeira averiguao:
- Ento esse meu amigo Eusebio Silveira tambm se meteu no negocio?...
O senhor Palma, muito lealmente, afianou que o Eusebio lhe falra apenas
em nome do Damaso!
- O Eusebio, coitado, veio s como embaixador... Que o Damaso e eu no
vamos muito na mesma bola. Ficmos esquisitos, desde uma pga em casa da
Biscainha. Aqui p'ra ns, eu prometi-lhe dois estalos na cara, e ele embuchou.
Passados tempos tornmos a falar, quando eu fazia o High-life na Verdade. Ele
veio-me pedir com bons modos, em nome do conde de Landim, para eu dar
umas piadas catitas sobre um baile de anos... Depois, quando o Damaso fez
tambm anos, eu dei outra piadita. Ele pagou a ceia, ficmos mais calhados...
Mas  traste... E l o Eusebiosinho, coitado, veio s d'embaixador.
Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o
cubculo. O redactor da Corneta ainda baixou a cabea para a porta; depois,
sem se ofender, voltou alegremente  genebra, dando outro puxo s calas.
Ega no entanto acendia devagar o charuto.
- Voc agora  que redige o jornal todo, Palma?
- O Silvestre, tambm...
- Que Silvestre?
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- O que est com a Pingada. Voc no conhece, creio eu. Um rapazola magro,
que no  feio... Semsaboro, escreve uma palhada... Mas sabe coisas da
sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Gabelas, que ele chama a
sua cabeluda... Que o Silvestre s vezes tem graa! E sabe, sabe coisas da
sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigaes, pulhices... Voc nunca
leu nada dele? Chcho. Tenho sempre de lhe arranjar o estilo... Neste numero
 que havia um folhetimzito meu, catita, c  moderna, como eu gsto, ali
com a piadinha realista a bater... Enfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega,
olhe que lhe agradeo. Quando quiser, eu e a Corneta s ordens!
Ega estendeu-lhe a mo:
- Obrigado, digno Palma! E adis!
- Pues vaia usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito homem
com infinito salero.
Em baixo Carlos esperava, dentro do coup.
- E agora? perguntou Ega,  portinhola.
- Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
Carlos j esbora sumariamente o plano dessa liquidao. Queria mandar
desafiar o Damaso como autor comprovado de um artigo de jornal que o
injuriava. O duelo devia ser  espada ou ao florete, um desses ferros cujo
lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empalidecer o Damaso. Se
contra toda a verosimilhana ele se batesse, Carlos fazia-lhe algures, entre a
bochecha e o ventre, um furo que o cravasse meses na cama. Seno a unica
explicao que Carlos aceitaria do senhor Salcede sria um documento em que
ele escrevesse esta coisa simples: Eu abaixo assignado declaro que sou um
infame. E para estes servios Carlos contava com o Ega.
- Agradeo! agradeo! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mos,
faiscando de jubilo.
No entanto, dizia ele, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e lembrou
o Cruges, moo passivo e maleavel. Mas era impossvel encontrar o maestro,
porque invariavelmente a criada afirmava que o menino Victorino no estava
em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de l um bilhete chamando o
Cruges - para um caso urgente d'amizade e d'arte.
- Com qu, dizia o Ega continuando a esfregar as mos emquanto a tipia
trotava para a rua de S. Francisco, com qu, demolir o nosso Damaso?
- Sim,  necessrio acabar com esta perseguio. Chega a ser ridiculo... E com
uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por algum tempo.
Eu preferia a estocada. Seno deixo-te a ti arranjar os termos de uma carta
forte...
- Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por ele na
sala das Ilustraes. O conde de Gouvarinho e Steinbroken conversavam de
p, no vo de uma janela. E foi uma surpresa. O ministro da Filandia abriu os
braos para o cher Maia, que ele no vira desde a partida d'Afonso para Santa
Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega risonhamente, reatando uma certa
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camaradagem que entre eles se formra nesse vero, em Cintra: mas o aperto
de mo a Carlos foi sco e curto. J dias antes, tendo-se encontrado no
Loreto, o Gouvarinho murmurra de leve e de passagem um como est,
Maia? em que se sentia arrefecimento. Ah! ja no eram essas efuses, essas
palmadas enternecidas pelos ombros, dos tempos em que Carlos e a condessa
fumavam cigaretes na cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos
abandonra a snr. condessa de Gouvarinho, a rua de S. Maral e o comodo
sof em que ela caa com um rumor de saias amarrotadas - o marido amuava,
como abandonado tambm.
- Tenho tido saudade das nossas belas discusses em Cintra! disse ele, dando
ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao Maia.
Tivemol-as de primeira ordem!
Eram realmente pgas tremendas no ptio do Victor sobre literatura, sobre
religio, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por causa da
divindade de Jesus.
-  verdade! acudiu o Ega. Voc nessa noite parecia ter s costas uma opa de
irmo do Senhor dos Passos!
O conde sorriu. Irmo do Senhor dos Passos no, graas a Deus! Ningum
melhor do que ele sabia que nesses sublimes episdios do Evangelho reinava
bastante lenda... Mas enfim eram lendas que serviam para consolar a alma
humana.  o que ele objectra nessa noite ao amigo Ega... Sentiam-se a
filosofia e o racionalismo capazes de consolar a me que chora? No. Ento...
-Em todo o caso, tivemo-las brilhantes! concluiu ele olhando o relgio. E, eu
confesso, uma discusso elevada sobre religio, sobre metafisica, encantame...
Se a poltica me deixasse vagares dedicava-me  filosofia... Nasci para
isso, para aprofundar problemas.
Steinbroken no entanto, esticado na sua sobre-casaca azul, com um raminho
d'alecrim ao peito, tomra as mos de Carlos:
- Mais vous tes encore devenu plus fort!... Et Afonso da Maia, toujours dans
ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet hiver?
E imediatamente lamentou no ter visitado Santa Olavia. Mas qu! a famlia
real instalra-se em Cintra; ele fora forado a acompanhal-a, fazer a sua
corte... Depois necessitra ir de fugida a Inglaterra donde acabava de chegar,
havia dias.
Sim, Carlos sabia, vira na Gazeta Ilustrada...
- Vous avez lu a? Oh oui, on a t trs aimable, trs aimable pour moi  la
Gazete...
Tinham-lhe anunciado a partida, depois a chegada, com palavras de amizade
particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada esta afeio
sincera que liga Portugal e a Filandia... Mais enfin on avait t charmant,
charmant!...
- Seulement- ajuntou ele, sorrindo com finura e voltando-se tambm para o
Gouvarinho - on a fait une petite erreur... On a dit que j'tais venu de
Soutampton par le Roial Mail... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis embarqu 
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Bordeaux dans les Messageries. J'ai mme pens  crire  Mr. Pinto,
redacteur de la Gazete, qui est un charmant garon... Puis, j'ai reflechi, je me
suis dit: Mon Dieu, on va croire que je veux doner une leon d'exactitude  la
Gazete c'est trs grave...  Alors, voil, trs prudement, j'ai gard le silence...
Mais enfin c'est une erreur: je me suis embarqu  Bordeaux.
Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse facto.
O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia desejar,
por polidez, quc a Historia se no incomodasse. E ento o Gouvarinho, que
acendra o charuto, espreitra outra vez o relgio, perguntou se os amigos
tinham ouvido alguma coisa do ministrio e da crise.
Foi uma surpresa para ambos, que no tinham lido os jornais... Mas, exclamou
logo o Ega, crise porqu, assim em pleno remanso, com as camaras fechadas,
tudo contente, um to lindo tempo de outono?
O Gouvarinho encolheu os ombros com reserva. Houvera na vespera, 
noitinha, uma reunio de ministros; nessa manh o presidente do conselho
fora ao pao, fardado, determinado a largar o poder... No sabia mais. No
conferencira com os seus amigos, nem mesmo fora ao seu Centro. Como
noutras ocasies de crise, conservra-se retirado, calado, esperando... Ali
estivera toda a manh, com o seu charuto, e a Revista dos Dois Mundos.
Isto parecia a Carlos uma absteno pouco patriotica...
- Porque enfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
- Exactamente por isso, acudiu o conde com uma cor viva na face, no desejo
pr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o ter... Se a
minha experiencia, a minha palavra, o meu nome so necessarios, os meus
correligionarios sabem onde eu estou, venham pedir-m'os...
Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas
coisas politicas, comeou logo a retrair-se para o fundo da janela, limpando os
vidros da luneta, recolhido, j impenetravel, no grande recato neutral que
competia  Filandia. Ega no entanto no saa do seu espanto. Mas porque caa,
porque caa assim um governo com maioria nas camaras, sossego no pas, o
apoio do exercito, a beno da Igreja, a proteco do Comptoir d'Escompte?...
O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razo:
- O ministrio estava gasto.
- Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
O conde hesitou. Como uma vela de sebo no diria... Sebo subentendia
obtusidade... Ora neste ministrio sobrava o talento. Incontestavelmente
havia l talentos pujantes...
- Essa  outra! gritou Ega atirando os braos ao ar.  extraordinrio! Neste
abenoado pas todos os politicos tm imenso talento. A oposio confessa
sempre que os ministros, que ela cobre d'injurias, tm,  parte os disparates
que fazem, um talento de primeira ordem! Por outro lado a maioria admite
que a oposio, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que
fez, est cheia de robustissimos talentos! De resto todo o mundo concorda que
o pas  uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um pas
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governado com imenso talento, que  de todos na Europa, segundo o
consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a vr:
que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!
O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de fantasista.
E Carlos, ancioso por ser amvel, atalhou, acendendo o charuto no dele:
- Que pasta preferiria voc, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A dos
Estrangeiros, est claro...
O conde fez um largo gesto d'abnegao. Era pouco natural que os seus
amigos necessitassem da sua experiencia poltica. Ele tornra-se sobretudo
um homem d'estudo e de teoria. Alm disso no sabia bem se as ocupaes
da sua casa, a sua sade, os seus habitos lhe permitiriam tomar o fardo do
governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos Estrangeiros no o tentava...
- Essa, nunca! proseguiu ele, muito compenetrado. Para se poder falar d'alto
na Europa, como ministro dos Estrangeiros,  necessrio ter por traz um
exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. Ns,
infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para que venha
um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ha de ser assim, no estou!... Pois
no acha, Steinbroken?
O ministro tossiu, balbuciou:
- Certainement... C'est trs grave... C'est excessivement grave...
Ega ento afirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interesse geografico
pela frica, faria um ministro da Marinha iniciador, original, rasgado...
Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
- Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as coisas
belas, todas as coisas grandes esto feitas. Libertaram-se j os escravos; deuse-
lhes j uma suficiente noo da moral christ; organisaram-se j os
servios aduaneiros... Enfim o melhor est feito. Em todo o caso ha ainda
detalhes interessantes a terminar... Por exemplo, em Loanda... Menciono isto
apenas como um pormenor, um retoque mais de progresso soa dar. Em
Loanda precisava-se bem um teatro normal como elemento civilisador!
Nesse momento um criado veio anunciar a Carlos - que o senhorCruges estava
em baixo, no portal,  espera. Imediatamente os dois amigos desceram.
- Extraordinrio, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
- E este, observou Carlos com um imenso desdem de mundano,  um dos
melhores que ha na poltica. Pensando mesmo bem, e metendo a roupa
branca em linha de conta, este  talvez o melhor.
Acharam o Cruges  porta, de jaqueto claro, embrulhando um cigarro. E
Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. O
maestro arregalava os olhos.
-  jantar?
-  enterro.
E rapidamente, sem aludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso
publicra num jornal, a Corneta do Diabo (cuja tiragem eles tinham suprimido,
no sendo possvel por isso mostrar o numero imundo) um artigo em que a
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coisa mais doce que se chamava a Carlos era pulha. Portanto Ega e ele Cruges
iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a vida.
- Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu dessas coisas no
entendo.
- Tens, explicou Ega, de ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o sobr'olho.
Depois vir comigo; no dizer nada; tratar o Damaso por v. exc.; assentar
em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o sobr'olho nem despir a
sobrecasaca...
Sem outra observao, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro.
Mas no meio da rua retrocedeu:
-  Carlos, olha que eu falei l em casa. Os quartos do primeiro andar esto
livres, e forrados de papel novo...
- Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!... O maestro abalra, quando
diante do Gremio estacou a todo o trote uma caleche. De dentro saltou o Teles
da Gama que, ainda com a mo no fecho da portinhola, gritou aos dois
amigos:
- O Gouvarinho? est l em cima?
- Est... Novidade fresca?
- Os homens cahiram. Foi chamado o S Nunes!
E enfiou pelo ptio, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar at ao porto
do Cruges. As janelas do primeiro andar estavem abertas, sem cortinas.
Carlos, erguendo para l os olhos, pensava nessa tarde das corridas em que
ele viera no faeton, de Belem, para vr aquelas janelas: ia ento escurecendo,
por traz dos stores fechados surgira uma luz, ele contemplra-a como uma
estrela inacessivel... Como tudo passa!
Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Teles atiravam-se 
pressa para dentro da caleche que esperra. Ega parou, deixou cahir os
braos:
- L vaio Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a Dama das
Camelias no serto! Deus se amerceie de ns!
Mas o Cruges apareceu enfim de chapualto, entalado numa sobrecasaca
solene, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipia estreita e
dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria ainda jantar nos
Olivaes, esperaria por eles, para saber o resultado do chinfrin, no jardim da
Estrela, junto ao coreto.
- Sde rapidos e medonhos!
A casa do Damaso, velha e de um andar s tinha um enorme porto verde,
com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de convento
e os dois amigos esperaram muito antes que aparecesse, arrastando as
chinelas, o galego achavascado que o Damaso (agora livre de Carlos e das
suas pompas) j no trazia torturado em botins crueis de verniz. A um canto
do ptio uma portinha abria sobre a luz de um quintal, que parecia ser um
deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.
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O galego, que reconhecera o senhor Ega, conduziu-os logo, por uma escadinha
esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a mfo. Depois, batendo o
chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade de uma porta entreaberta.
Quasi imediatamente Damaso gritou de l:
-  Ega,  voc? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a
vestir...
Embaraado com estes brados de intimidade e tanta efuso, Ega ergueu a voz
da sombra do corredor, gravemente:
- No tem duvida, ns esperamos...
O Damaso insistia,  porta, em mangas de camisa, cruzando os suspensorios:
- Venha voc, homem! Que diabo, eu no tenho vergonha, j estou de calas!
- Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
A porta ao fundo cerrou-se, o galego veio abrir a sala. O tapete era
exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor
abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos a
cavalo, num vistoso caixilho de flores em faiana: uma das colchas da India
das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, arranjada por
Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, debaixo de redoma, um
sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso comprra no Serra, por
ter ouvido um dia a Carlos que em todo o quarto de rapaz deve aparecer,
discretamente disposta, alguma reliquia d'amor...
Sob estes retoques de chic, dados  pressa sob a influencia do Maia,
impertigava-se a slida mobilia do pai Salcede, de mogno e veludo azul; a
console de mrmore, com um relgio de bronze dourado, onde Diana
acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no
caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de convites
para soires. E Cruges ia examinar estes documentos, quando os passos
alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a perfilar-se ao
lado do Ega, diante do canap de veludo, teso, comodo, com o seu chapu
alto na mo.
Ao vl-o, o bom Damaso, que se abotora todo numa sobrecasaca azul, florida
por um boto de camelia, atirou risonhamente os braos ao ar:
- Ento esta  que  a pessoa de ceremonia? Sempre vocs tm coisas! E eu a
pr sobrecasaca... Por pouco que no lhe afinfo com o habito de Cristo!...
Ega atalhou, muito srio:
- O Cruges no  de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz  delicado e
grave, Damaso.
Damaso arregalou os olhos, reparando enfim naquele estranho modo dos seus
amigos, ambos de negro, secos, to solenes. E recuou, todo o sorriso se lhe
apagou na face.
- Que diabo  isso? Sentem-se, sentem-se vocs...
A voz apagava-se-lhe tambm. Pousado  borda de uma poltrona baixa, junto
de uma mesa coberta d'encadernaes ricas, com as mos nos joelhos, ficou
esperando, numa ansiedade.
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- Ns vimos aqui, comeou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...
Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso at  risca
do cabelo encaracolado a ferro. E no achou uma palavra, atonito, sufocado,
esfregando estupidamente os joelhos.
Ega proseguiu, lento, direito no canap:
- O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou fez
publicar, um artigo extremamente injurioso para ele e para uma senhora das
relaes dele na Corneta do Diabo...
- Na Corneta, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que Corneta? Nunca escrevi
em jornais, graas a Deus! Ora essa, a Corneta!...
Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio colocal-os
um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico volume da
Bblia de Dor.
- Aqui est a sua carta remetendo ao Palma Cavalo o rascunho do artigo...
Aqui est, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a quem se devia
mandar a Corneta, desde o Rei at  Fanceli... Alm disso ns temos as
declaraes do Palma. O Damaso  no s o inspirador, mas materialmente o
auctor do artigo... O nosso amigo Carlos da Maia exige, pois, como injuriado,
uma reparao pelas armas...
Damaso deu um salto da poltrona, to arrebatado - que involuntariamente Ega
recuou, no receio de uma brutalidade. Mas j o Damaso estava no meio da
sala, esgazeado, com os braos tremulos no ar:
- Ento o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Ele a mim 
que me pregou uma partida!... Foi ele, vocs sabem perfeitamente que foi
ele!...
E desabafou, num prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao
peito, com os olhos marejados de lgrimas. Fra Carlos, Carlos, que o
desfeitira a ele, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o perseguido
para que ele o apresentasse a uma senhora brazileira muito chic, que vivia em
Paris, e que lhe fazia olho... E ele, bondoso como era, prometia, dizia: Deixa
estar, eu te apresento! Pois, senhores, que faz Carlos? Aproveita uma
ocasio sagrada, um momento de luto, quando ele Damaso fora ao Norte por
causa da morte do tio, e mete-se dentro da casa da brazileira... E tanto
intriga, que leva a pobre senhora a fechar-lhe a sua porta, a ele, Damaso, que
era intimo do marido, intimo de tu! Caramba, ele que devia mandar desafiar
Carlos! Mas no! fora prudente, evitra o escndalo por causa do senhor
Afonso da Maia... Queixra-se de Carlos,  verdade... Mas no Gremio, na Casa
Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prga-lhe uma destas!
- Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mo, observou placidamente que
se desviavam do ponto vivo da questo. O Damaso concebera, rascunhra,
pagra o artigo da Corneta. Isso no o negava, nem o podia negar: as provas
estavam ali, abertas sobre a mesa: eles tinham alm disso a declarao do
Palma...
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- Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado noutra rajada d'indignao
que o fez redemoinhar, estonteado, tropeando nos moveis. Esse descarado
do Palma! Com esse  que eu me quero vr!... L a questo com o Carlos no
vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com o Palma  que !
Esse traidor  que eu quero rachar! Um homem a quem eu tenho dado s
meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um ladro que pediu o
relgio ao Zeferino para figurar num batizado, e pl-o no prgo!... E faz-me
uma destas!... Mas hei de escavac-lo! Onde  que voc o viu, Ega? Diga l,
homem! Que quero ir procur-lo, hoje mesmo, correl-o a chicotadas...
Traies no, no admito a ningum!
Ega, com a tranquilidade paciente de quem sente a prsa certa, lembrou de
novo a inutilidade daquelas divagaes:
- Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto  este: o Damaso injuriou
Carlos da Maia: ou se retracta publicamente dessa injuria, ou d uma
reparao pelas armas...
Mas o Damaso, sem escutar, apelava desesperadamente para o Cruges, que
se no movera do sof de veludo, esfregando, um contra o outro, com um ar
arrepiado e de dr, os dois sapatos novos de verniz.
- Aquele Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que
fazia de mim tudo! At lhe copiava coisas... Voc bem viu, Cruges. Diga! Fale,
homem! No sejam vocs todos contra mim!... At s vezes ia  alfandega
despachar-lhe caixotes...
O maestro baixava os olhos, vermelho, num infinito mal-estar. E Ega, por fim,
j farto, lanou uma intimao derradeira:
- Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
- Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, num penoso esforo de
dignidade, a tremer todo. E de qu? Ora essa!  boa! Eu sou l homem que
me desdiga!
- Perfeitamente, ento bate-se...
Damaso cambaleou para traz, desvairado:
- Qual bater-me! Ee sou l homem que me bata! Eu c  a sco. Que venha
para c, no tenho medo dele, arrombo-o...
Dava pulinhos curtos de gordo, atravs do tapete, com os punhos fechados e
em riste. E queria Carlos ali para o escavacar! No lhe faltava mais seno
bater-se... E ento duelos em Portugal, que acabavam sempre por troa!
Ega no entanto, como se a sua misso estivesse finda, abotora a sobrecasaca
e recolhia os papeis espalhados sobre a Bblia. Depois, serenamente, fez a
ltima declarao de que fora incumbido. Como o senhor Damaso Salcede
recusava retractar-se e rejeitara tambm uma reparao pelas armas, Carlos
da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o encontrasse da por
diante, fosse uma rua, fosse um teatro, lhe escarraria na face...
- Escarrar-me! berrou o outro, lvido, recuando, como se o escarro j viesse no
ar.
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E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre o Ega,
agarrando-lhe as mos, numa agonia:
-  Joo,  Joo, tu, que s meu amigo, por quem s, livra-me desta
entaladela!
Ega foi generoso. Desprendeu-se dele, empurrou-o brandamente para a
poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou
que, desde que Damaso apelava para a sua amizade, desaparecia o enviado
de Carlos necessariamente exigente, ficava s o camarada, como no tempo
dos Cohens e da vila Balzac. Queria pois o amigo Damaso um conselho? Era
assignar uma carta afirmando que tudo o que fizera publicar na Corneta sobre
o senhorCarlos da Maia e certa senhora fora inveno falsa e gratuita. S isto
o salvava. D'outro modo, Carlos um dia, no Chiado, em S. Carlos, escarravalhe
na cara. E, dado esse desastre, Damasosinho, a no querer ser apontado
em Lisboa como um incomparavel cobarde, tinha de se bater  espada ou 
pistola...
- Ora, em qualquer desses casos, voc era um homem morto.
O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de veludo, com a face
emparvecida para o Ega. Alargou molemente os braos, murmurou da
profundidade do seu terror:
- Pois sim, eu assigno, Joo, eu assigno...
-  o que lhe convm... Arranje ento papel. Voc est perturbado, eu mesmo
redijo.
Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago
por sobre os moveis:
- Papel de carta?  para carta?
- Sim, est claro, uma carta ao Carlos!
Os passos do desgraado perderam-se enfim no corredor, pesados e
sucumbidos.
- Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a mo
aos sapatos.
Ega lanou-lhe um chut severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso papel
de monograma e cora. Para envolver em silncio e segredo aquele transe
amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de veludo, desdobrando-se,
mostrou o brazo de Salcede, onde havia um leo, uma torre, um brao
armado, e por baixo, a letras de ouro, a sua formidavel divisa: SOU FORTE!
Imediatamente Ega afastou os livros na mesa, abancou, atirou largamente ao
papel a data e a adresse do Damaso...
- Eu fao o rascunho, voc depois copa...
- Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o leno pelo
pescoo e pela face.
Ega no entanto escrevia muito lentamente, com amor. E naquele silncio, que
o embaraava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando at ao espelho
onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, bilhetes e fotografias.
Eram as glorias sociaes do Damaso, os documentos do chic a valer que era a
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paixo da sua vida: bilhetes com titulos, retratos de cantoras, convites para
bailes, cartas de entrada no Hipodromo, diplomas de membro do Club Naval,
de membro do Jockei Club, de membro do Tiro aos Pombos: - at pedaos
cortados de jornais anunciando os anos, as partidas, as chegadas do
senhorSalcede, um dos nossos mais distinctos sportmen.
Desventuroso sportman! Aquela folha de papel, onde o Ega rascunhava, ia-o
enchendo pouco a pouco de um terror angustioso. Santo Deus! Para que eram
tantos apuros numa carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha bastaria: -
Meu querido carlos, no te zangues, desculpa, foi brincadeira. Mas no!
Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas! J mesmo Ega voltava a
folha, molhava a pena, como se dela devessem escorrer sem cessar coisas
humilhadoras! No se conteve, estendeu a face por sobre a mesa, at o papel:
-  Ega, isso no  para publicar, pois no  verdade?
Ega reflectiu, com a pena no ar:
- Talvez no... Estou certo que no. Naturalmente Carlos, vendo o seu
arrependimento, deixa isto esquecido no fundo de uma gaveta.
Damaso respirou com alivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente entre
amigos! Que l isso, mostrar o seu arrependimento, at ele desejava! Com
efeito o artigo fora uma tolice... Mas ento! Em questes de mulheres era
assim, assomado, um leo...
Abanou-se com o leno, desanuviado, recomeando a achar sabr  vida.
Findou mesmo por acender um charuto, levantar-se sem rumor acercar-se do
Cruges - que, coxeando atravs das curiosidades da sala, encalhra sobre o
piano e sobre os livros de musica, com o p dorido no ar.
- Ento tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
Cruges, muito vermelho, resmungou que no tinha feito nada.
Damaso ficou ali um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um olhar
inquieto  mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou, sobre
o hombro do maestro:
- Uma entaladela assim! Eu  por causa da gente conhecida... Seno no me
importava! Mas veja voc tambm se arranja as coisas e se o Carlos deixa
aquilo na gaveta...
Justamente Ega erguera-se com o papel na mo e caminhava para o piano,
devagar, relendo baixo.
- Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em frma de carta ao
Carlos,  mais correcto. Voc depois copia e assigna. Oua l: Exc.mo snr...
Est claro, voc d-lhe excelencia, porque  um documento d'honra... Exc.mo
senhor- Tendo-me v. exc., por intermdio dos seus amigos Joo da Ega e
Victorino Cruges, manifestado a indignao que lhe causra um certo artigo da
Corneta do Diabo de que eu escrevi o rascunho e de que promovi a publicao,
venho declarar francamente a v. exc. que esse artigo, como agora reconheo,
no continha seno falsidades e incoerencias: e a minha desculpa unica est
em que o compuz e enviei  redaco da Corneta no momento de me achar no
mais completo estado d'embriaguez...
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Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixra pender os braos, rolar o
charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, entalando o
monculo:
- Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica
maneira de ressalvar a dignidade do nosso Damaso.
E desenvolveu a sua idia, mostrando quanto era generosa e hbil - emquanto
o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos nem ele queriam
que o Damaso numa carta (que se podia tornar publica) declarasse que
calunira por ser caluniador. Era necessrio, pois, dar  calunia uma dessas
causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a responsabilidade s aces. E que
melhor, tratando-se de um rapaz mundano e femeeiro, do que estar
bebedo?... No era vergonha para ningum embebedar-se... O prprio Carlos,
todos eles ali, homens de gosto e de honra, se tinham embebedado. Sem
remontar aos romanos, onde isso era uma higiene e um luxo, muitos grandes
homens na Historia bebiam de mais. Em Inglaterra era to chic, que Pit, Fox e
outros nunca falavam na Camara dos comuns seno aos bordos. Musset, por
exemplo, que bebedo! Enfim a Historia, a Literatura, a Poltica, tudo fervilhava
de piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra
ficava salva. Era um homem de bem que apanhra uma carraspana e que
cometera uma indiscrio... Nada mais!
- Pois no te parece, Cruges?
- Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
- Pois no lhe parece a voc, francamente, Damaso?
- Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraado.
Imediatamente Ega retomou a leitura: Agora que voltei a mim reconheo,
como sempre renheci e proclamei, que  v. exc. um caracter absolutamente
nobre; e as outras pessoas, que nesse momento d'embriaguez ousei salpicar
de lama, so-me s merecedoras de venerao e louvor. Mais declaro que se
por acaso tornasse a suceder soltar eu alguma palavra ofensiva para v. exc.
no lhe devia dar v. exc., ou aqueles que a escutassem, mais importncia do
que a que se d a uma involuntaria baforada d'alcool - pois que, por um habito
hereditario que reaparece frequentemente na minha famlia, me acho
repetidas vezes em estado de embriaguez... De v. exc., com toda a estima
etc.... Rodou sobre os taces, pousou o rascunho na mesa - e acendendo o
charuto ao lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o
determinra quela confisso de bebedeira incorrigivel e palreira. Fra ainda o
desejo de garantir a tranquilidade do nosso Damaso. Atribuindo todas as
imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperana hereditaria,
de que tinha to pouca culpa como de ser baixo e gordo, o Damaso punha-se
para sempre ao abrigo das provocaes de Carlos...
- Voc, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio,
sem querer, na cavaqueira depois do teatro, l lhe escapa uma palavra contra
Carlos... Sem esta precauo, a recomea a questo, o escarro, o duelo...
Assim j Carlos no se pode queixar. L tem a explicao que tudo cobre, uma
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gota de mais, a gota tomada por impulso de borrachice hereditaria... Voc
alcana deste modo a coisa que mais se apetece neste nosso sculo XIX - a
irresponsabilidade!... E depois para a sua famlia no  vergonha, porque voc
no tem famlia. Em resumo, convem-lhe?
O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender
aquelas roncantes frases sobre a hereditariedade, sobre o sculo XIX. E
um nico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz
pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os ombros, sem fora:
- Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar falatorios.
E abancou, meteu um bico novo na pena, escolheu uma folha de papel em que
o monograma luzia mais largo, comeou a copiar a carta na sua maravilhosa
letra, com finos e grossos, de uma nitidez de gravura em ao.
Ega no entanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava
em torno da mesa, seguindo sfregamente as linhas que traava a mo
aplicada do Damaso, ornada de um grosso anel d'armas. E durante um
momento atravessou-o um susto... Damaso parra, com a pena indecisa.
Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquela gordura balofa, um resto
escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alou para ele os olhos
embaciados:
- Embriaguez  com n ou com m?
- Com um m, um m s, Damaso! acudiu Ega afectuosamente. Vai muito
bem... Que linda letra voc tem, caramba!
E o infeliz sorriu  sua prpria letra - pondo a cabea de lado, no orgulho
sincero daquela soberba prenda.
Quando findou a cpia foi Ega que conferiu, ps a pontuao. Era necessrio
que o documento fosse chic e perfeito.
- Quem  o seu tabelio, Damaso?
- O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
- Oh! nada.  um detalhe que nestes casos se pergunta sempre. Mera
ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estilo, est d'apetite
a cartinha!
Meteu-a logo num envelope onde rebrilhava a divisa Sou Forte, sepultou-a
preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o chapu,
batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgaz e leve:
- Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fora de portas, numa
poa de sangue! Assim  uma delicia. E adeus... No se incomode voc. Ento
o grande sarau sempre  na segunda-feira? Vai l tudo, hein! No venha c,
homem... Adeus!
Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no
patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietao que o assaltra:
- Isso no se mostra a ningum, no  verdade, Ega?
Ega encolheu os ombros. O documento pertencia a Carlos... Mas enfim Carlos
era to bom rapaz, to generoso!
Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
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- E chamei eu quele homem meu amigo!
- Tudo na vida so desapontamentos, meu Damaso! foi a observao do Ega,
saltando alegremente os degraus.
Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrela, Carlos j esperava ao
porto de ferro, numa impaciencia, por causa do jantar na Toca. Enfiou logo
para dentro atropelando o maestro, bradou ao cocheiro que voasse ao Loreto.
- E ento, meus senhores, temos sangue?
- Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o envelope.
Carlos leu a carta do Damaso. E foi um imenso assombro:
- Isto  incrvel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
- O Damaso no  o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu?
Que ele se batesse?
- No sei, corta o corao... Que se ha de fazer a isto?
Segundo o Ega no se devia publicar; sria criar curiosidade e escndalo em
torno do artigo da Corneta que custra trinta libras a sufocar. Mas convinha
conservar aquilo como uma ameaa pairando sobre o Damaso, tornando-o
para longos anos nulo e inofensivo.
- Eu eslou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel:  obra tua, usao
como quiseres...
Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro,
queria saber como ele se portra naquele lance d'honra...
- Pessimamente! gritou Ega. Com expresses de compaixo; sem linha
nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mo no sapato...
- Pudera! exclamou Cruges desafogando enfim. Vocs dizem-me que me
ponha de ceremonia, calo uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde
num tormento!
E no se conteve mais, arrancou o sapato, plido, com um medonho suspiro
de consolao.
No dia seguinte, depois do almoo, emquanto uma chuva grossa alagava os
vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no fumoir, enterrado numa poltrona,
com os ps para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a pouco subiu nele
a mgoa de que esse colossal documento de cobardia humana, to
interessante para a fisiologia e para a arte, ficasse para sempre inaproveitado
no escuro de uma gaveta!... Que efeito, que soberbo efeito se aquela
confisso do nosso distincto sportman surgisse um dia na Gazeta Ilustrada
ou no novo jornal A Tarde, nas colunas do High-life, sob este titulo-
PENDENCIA D'HONRA! E que lio, que meritorio acto de justia social!
Todo esse vero, Ega detestra o Damaso, certo, desde Cintra, de que ele era
o amante da Cohen - e de que, por esse imbecil de grossas nadegas,
esquecera ela para sempre a vila Balzac, as manhs na colcha de setim preto,
os seus beijos delicados, os versos de Musset que lhe lia, os lunchesinhos de
perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que lhe tornra o Damaso intoleravel -
fora a sua farofia radiante de homem preferido; o ar de posse com que
passeava ao lado de Rachel pelas estradas de Cintra, vestido de flanela
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branca; os segredinhos que tinha sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o
acnosinho desdenhoso, com um dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a
ele prprio, Ega... Era odioso! Odiava-o: e atravs desse odio ruminra
sempre o desejo de uma vingana - pancada, deshonra ou ridiculo que
tornasse o senhorSalcede, aos olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato
como um balo furado...
E agora ali tinha essa carta providencial, em que o homem solenemente se
declarava bebedo. Sou um bebedo, estou sempre bebedo! Assim o dizia, no
seu papel de monograma de ouro, o senhor Salcede, num medo vil de co
gozo, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer pau!...
Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar to decisivo documento
no fundo de um gaveto?
Publical-o na Gazeta Ilustrada ou na Tarde no podia, infelizmente, por
interesse de Carlos. Mas porque o no mostraria em segredo, como uma
curiosidade psichologica, ao Craft, ao marqus, ao Teles, ao Gouvarinho, ao
primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cpia ao Taveira que, resentido
eternamente da questo com o Damaso em casa da Lola Gorda, correria a lla
em segredo na Casa Havaneza, no bilhar do Gremio, no Silva, nos camarins
de cantoras... E ao fim de uma semana a snr. D. Rachel saberia
inevitavelmente que o escolhido do seu corao era por confisso prpria um
caluniador e um bebedo!... Delicioso!
To delicioso que no hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta do
Damaso. Mas quase imediatamente um criado trouxe-lhe um telegrama de
Afonso da Maia anunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. Ega
teve de sair, telegrafar para os Olivaes, avisar Carlos.
Carlos apareceu nessa noite, j tarde, transido de frio, com um monte de
bagagens porque abandonra definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda
regressava tambm a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. Francisco,
tomado agora por seis meses, tapetado de novo pela me Cruges. E Carlos
vinha muito impressionado, com profundas saudades da Toca. Depois de cear,
ao fogo, acabando o charuto, relembrou infindavelmente esses dias alegres,
a sua casinhola, o banho da manh tomado dentro de uma dorna, a festa do
deus Tchi, as guitarradas do marqus, as longas cavaqueiras ao caf com as
janelas abertas e as borboletas voando em torno aos candieiros... Fora as
cordas d'gua, sob o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite
negra. Ambos terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no
lume.
- Quando esta tarde dei pela ltima vez uma volta na quinta, disse por fim
Carlos, j no havia uma unica folha nas arvores... Tu no sentes sempre uma
grande melancolia nestes fins de outono?...
- Imensa! murmurou Ega lugubremente.
Ao outro dia a manh clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, ainda
estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio
acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que se
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escoava das portinholas abertas, Afonso, com o seu velho capote de gola de
veludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de bon
agaloado que lhe ofereciam o Hotel Terreirense e a Pomba d'Ouro. Atraz Mr.
Antoine, o chefe francez, grave, de chapu alto, trazia o cesto em que viajra
o reverendo Bonifcio.
Carlos e Ega acharam mais acabado, mais pesado. Todavia gabaram-lhe
muito, entre os primeiros abraos, a sua robustez de patriarcha. Ele encolheu
os ombros, queixando-se de ter sentido desde o fim do vero vertigens, um
cansao vago...
- Vocs  que esto excelentes, acrescentou abraando outra vez Carlos e
sorrindo ao Ega. E que ingratido foi essa tua, John, metido aqui todo um
vero sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que tm vocs feito?
- Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos sobretudo
o projeto de uma Revista um aparelho d'educao superior que vamos montar
com uma fora de mil cavalos!... Enfim logo se lhe conta tudo ao almoo.
E ao almoo, com efeito, para justificarem as suas ocupaes em Lisboa,
falaram da Revista como se ela j estivesse organisada e os artigos a imprimir
na oficina - tanta foi a preciso com que lhe descreveram as tendencias, a
feio critica, as linhas de pensamento sobre que ela devia rolar... Ega j
preparra um trabalho para o primeiro numero - A capital dos portuguess.
Carlos meditava uma srie d'ensaios  inglesa, sob este titulo - Porque falhou
entre ns o sistema constitucional. E Afonso escutava, encantado com aquelas
belas ambies de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio
capitalista... Mas Ega entendia que o senhor Afonso da Maia devia descer 
arena, lanar tambm a palavra do seu saber e da sua experiencia. Ento o
velho riu. O qu! compr prosa, ele, que hesitava para traar uma carta ao
feitor? De resto o que teria a dizer ao seu pas, como fructo da sua
experiencia, reduzia-se pobremente a trs conselhos em trs frases: aos
politicos - menos liberalismo e mais caracter; aos homens de letras -
menos eloquencia e mais ideia; aos cidados em geral - menos progresso
e mais moral.
Isto entusiasmou o Ega! Justamente, a estavam as verdadeiras feies da
reforma espiritual que a Revista devia prgar! Era necessrio tomal-as como
moto simbolico, inscrevel-as em letras goticas no frontispicio - porque Ega
queria que a Revista fosse original logo na capa. E ento a conversao
desviou para o exterior da Revista - Carlos pretendendo que fosse azul-claro
com tipo Renascena, Ega exigindo uma cpia exacta da Revista dos Dois
Mundos, numa nuance mais cor de canario. E, levados pela sua imaginao de
meridionaes, j no era s para agradar a Afonso da Maia que iam levantando
e dando frma quele confuso plano.
Carlos exclamava para o Ega, com os olhos j apaixonados:
- Isto agora  srio. Precisamos arranjar imediatamente a casa para a
redaco!
Ega bracejava:
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- Pudera! E moveis! E machinas!
Toda a manh, no escritrio d'Afonso, azafamados, com papel e lapis, se
ocuparam em fixar uma lista de colaboradores. Mas j as dificuldades surgiam.
Quasi todos os escriptores sugeridos desagradavam ao Ega, por lhes faltar no
estilo aquele requinte plastico e parnasiano de que ele desejava que a Revista
fosse o impecavel modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam
impossiveis... - sem querer confessar que n'eles lhe repugnava
exclusivamente a falta de linha e o fato mal feito...
Uma coisa porm ficou decidida: a casa da redaco. Devia ser mobilada
luxuosamente, com sofs do consultorio de Carlos e algum bric--brac da
Toca: e sobre a porta (ornada de um guarda-porto de libr) a taboleta de
verniz preto, com Revista de Portugal em altas letras a ouro. Carlos sorria,
esfregava as mos, pensando na alegria de Maria ao saber esta deciso que o
lanava, como era o desejo dela, na actividade, numa lucta interessante
d'ideias. Ega, esse, via j a brochura cor de canario aos montes nas vitrines
dos livreiros, discutida nas soires do Gouvarinho, folheada na cmara com
espanto pelos politicos...
- Vai-se remexer Lisboa este inverno, senhorAfonso da Maia! gritou ele
atirando um gesto imenso at ao tecto.
E o mais contente era o velho.
Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com ele  rua de S. Francisco
(onde Maria se instalra nessa manh) levarem a nova da grande obra. Mas
encontraram  porta uma carroa descarregando malas; e a senhora, contou o
Domingos que ajudava os carroceiros, esteve ainda jantando a um canto da
mesa e sem toalha. Com tanta confuso na casa, Ega no quis subir.
- At logo, disse ele. Vou talvez procurar o Simo Craveiro e falar-lhe da
Revista.
Subiu lentamente o Chiado, leu os telegramas na Casa Havaneza. Depois 
esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido num palet,
ofereceu-lhe uma senhasinha. Outros, em volta, gritavam na sombra do
Hotel Aliana:
- Bilhete para o Ginasio! Mais barato... Bilhete para o Ginasio! Quem vende?...
Havia um cruzar animado de carruagens com librs. Os bicos de gsdo Ginasio
tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que atravessava do
lado do Loreto, de gravata branca e flr no palet.
- Que  isto?
- Festa de beneficencia, no sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por
senhoras, a baronesa d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha voc da
ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
E na esperana de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No
peristilo do Ginasio encontraram Taveira passeando e fumando solitariamente,
 espera que findasse a primeira comedia, o Fructo proibido. Ento Craft
propz botequim e genebra.
- E que ha do ministrio? perguntou ele, apenas abancaram a um canto.
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O Taveira no subiu. Todos esses dois longos dias se intrigra
desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira tambm.
E falava-se de uma cena terrvel por causa de sindicatos, em casa do
presidente do conselho, o S Nunes, que terminra por dar um murro na
mesa, gritar: Irra! que isto no  o pinhal d'Azambuja!
- Canalha! rosnou Ega com odio.
Depois falaram do Ramalhete, da volta d'Afonso, da reapario do Carlos.
Craft louvou Deus por haver outra vez nesse inverno uma casa com foges,
onde se passasse uma hora civilizada e inteligente.
Taveira acudiu com o olho brilhante:
- Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua de
S. Francisco! Foi o marqus que me disse. Madame Mac-Gren vai receber.
Craft no sabia mesmo que ela j tivesse recolhido da Toca.
- Voltou hoje, disse o Ega. Voc ainda no a conhece?... Encantadora.
- Creio que sim.
O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma beleza. E um ar to
simpatico!
- Encantadora! repetiu Ega.
Mas o Fructo proibido findra, os homens enchiam o peristilo, num rumor
lento, acendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira com a
genebra, correu  plateia para descobrir o camarote da Alvim.
Mal erguera porm a cortina e assestra o monculo - avistou defronte, na
primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas
brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face dela,
recostado no veludo da grade, de casaca, com a bochecha risonha, uma
grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
Ega caiu molemente, ao acaso, na borda de uma cadeira: e perturbado, j
esquecido da Alvim, ali ficou a olhar o pano coberto d'anuncios, correndo os
dedos tremulos pelo bigode.
No entanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na plateia.
Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeou no joelho do Ega: outro, de luvas
claras, com uma polidez adocicada, pediu permisso a s. exc. Ele no
escutava, no percebia: os seus olhos, um momento errantes, tinham-se
enfim cravado no camarote da Cohen e no se desviaram de l, numa emoo
que o empalidecia.
No a tornra a encontrar desde Cintra, onde s a via de longe, com vestidos
claros sob o verde das arvores; e agora ali, toda de preto, em cabelo, com um
decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu colo, ela era outra vez a
sua Rachel, dos tempos divinos da vila Balzac. Era assim que ele, todas as
noites em S. Carlos, a contemplava do fundo da frisa de Carlos, com a cabea
encostada ao tabique, saturado de felicidade. L tinha a sua luneta de ouro,
presa por um fio de ouro. Parecia mais plida, mais delicada, com o longo
quebranto dos olhos pisados, o seu ar de romance e de lrio meio murcho: e
como ento os seus cabelos magnificos e pesados caam habilmente numa
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massa meia solta sobre as costas, num desalinho de nudez. Pouco a pouco,
entre o afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, numa onda de
recordaes que o sufocava, o grande leito da vila Balzac, certos beijos e
certos risos, as perdizes comidas em camisa  borda do sof, e a melancolia
deliciosa das tardes, quando ela saa furtivamente, coberta de vos, e ele
ficava, cansado, no crepsculo poetico do quarto, cantarolando a Traviata...
- V. exc. d licena, senhor Ega?
Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. Ega
ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o senhor Sonsa Neto. O pano
subira.  borda da rampa um lacaio, piscando o olho  Plateia, fazia
confidencias sobre a patra, de espanejador debaixo do brao. E Cohen, agora
de p, enchia o meio do camarote, cofiando a suissas com um correr lento da
mo bem tratada, onde reluzia um diamante.
Ega ento, num soberbo alarde d'indiferena, cravou o monculo no palco. O
lacaio abalra espavorido, a um repique furioso de sineta; e uma megera
azeda, de roupo verde e touca  banda, rompera de dentro, meneando
desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida que batia o
taco, se esganiava: Pois hei de am-lo sempre! hei de am-lo sempre!
Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e o
Damaso, com as cabeas chegadas como em Cintra, cochichavam num sorriso.
E tudo logo dentro do Ega se resumiu num imenso odio ao Damaso! Colado 
umbreira da porta, rilhava os dentes, num desejo de subir, escarrar-lhe na
bochecha gorda.
E no desviava dele os olhos, que dardejavam. Na cena, um velho general,
gotoso e resmungo, sacudia um jornal, gritava pela sua tapioca. A Plateia ria,
o Cohen ria. E nesse momento Damaso, que se debrura no camarote com as
mos de fora, caladas de gris-perle, descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como
em Cintra um acenosinho petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto
feriu o Ega como um insulto. E ainda na vespera aquele covarde se lhe
agarrra s mos, tremendo todo, a gritar que o salvasse!...
Subitamente, com uma idia, palpou por sobre o bolso a carteira onde na
vespera guardra a carta do Damaso... Eu t'arranjo! murmurou ele. E
abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que
rola, enfiou, ao fundo da praa de Cames, num grande porto que uma
lanterna alumiava. Era a redaco da Tarde.
Dentro do ptio desse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem luz,
cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em cima ao
cavaco. O Neves, deputado, poltico, director da Tarde, fra, havia anos,
numas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e desde esse
vero alegre em que o Neves lhe ficra sempre devendo trs moedas, os dois
tratavam-se por tu.
Foi encontr-lo numa vasta sala alumiada por bicos de gssem globo, sentado
na borda numa mesa atulhada de jornais, com o chapu para a nuca,
discursando a alguns cavalheiros de provncia que o escutavam de p, num
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respeito de crentes. Num vo de janela, com dois homens d'idade, um rapaz
esgalgado, de jaqueto de cheviote claro e uma cabeleira crespa que parecia
erguida numa rajada de vento, bracejava como um moinho na crista de um
monte. E, abancado, outro sujeito j calvo rascunhava laboriosamente uma
tira de papel.
Ao vr o Ega (um intimo do Gouvarinho) ali na redaco, naquela noite de
intriga e de crise, Neves cravou n'ele os olhos to curiosos, to inquietos, que
o Ega apressou-se a dizer:
- Nada de poltica, negocio particular... No te interrompas. Depois falaremos.
O outro findou a injuria que estava lanando ao Jos Bento, essa grande
besta que fora meter tudo no bico da amiga do Sousa e S, o par do reino - e
na sua impaciencia saltou da mesa, travou do brao do Ega arrastando-o para
um canto:
- Ento que ?
-  isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi ofendido a por um sujeito
muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrafo imundo na Corneta do
Diabo, por uma questo de cavalos... O Maia pediu-lhe explicaes. O outro
deu-as, chatas, medonhas, numa carta que quero que vocs publiquem.
A curiosidade do Neves flamejou:
- Quem ?
- O Damaso.
O Neves recuou d'assombro:
- O Damaso!? Ora essa! Isso  extraordinrio! Ainda esta tarde jantei com ele!
Que diz a carta?
- Tudo. Pede perdo, declara que estava bebedo, que  de profisso um
bebedo...
O Neves agitou as mos com indignao:
- E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
poltico!... E que no fosse, no  questo de partido,  de decencia! Eu fao l
isso!... Se fosse uma acta de duelo, uma coisa honrosa, explicaes dignas...
Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! Tu ests a mangar!
Ega, j furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na face, teve
ainda uma revolta quela idia do Damaso se declarar bebedo.
- Isso no pode ser!  absurdo! Ali ha historia... Deixa vr a carta.
E, mal relancera os olhos ao papel,  larga assignatura floreada, rompeu num
alarido:
- Isto no  o Damaso nem  letra do Damaso!... Salcede! Quem diabo 
Salcede? Nunca foi o meu Damaso!
-  o meu Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
O outro atirou os braos ao ar:
- O meu  o Guedes, homem, o Damaso Guedes! No ha outro! Que diabo,
quando se diz o Damaso  o Guedes!...
Respirou com grande alivio:
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- Irra, que me assustaste! Olha agora neste momento, com estas coisas de
ministrio, uma carta dessas escripta pelo Guedes... Se  o Salcede, bem,
acabou-se! Espera l... No  um gordalhufo, um janota que tem uma
propriedade em Cintra? Isso! Um magano que nos entalou na eleio
passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... Perfeitamente, s
ordens...  Pereirinha, olhe aqui o senhor Ega. Tem a uma carta para sair
amanh, na primeira pagina, tipo largo...
O senhor Pereirinha lembrou o artigo do senhor Vieira da Costa sobre a
Reforma das Pautas.
- Vai depois! gritou o Neves. As questes de honra antes de tudo!
E voltou ao seu grupo onde agora se falava do conde de Gouvarinho, saltou
para a borda da mesa, lanou logo o seu vozeiro de chefe, afirmando no
Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
Ega acendeu o charuto, ficou um momento considerando aqueles sujeitos que
pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
arrastra a Lisboa, arrancra  quietao das vilas e das quintas. O mais novo
parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face a estourar de
sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de porco. Outro,
esguio, com o palet solto sobre as costas em arco, tinha um queixo duro e
macio de cavalo: e dois padres muito rapados, muito morenos, fumavam
pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, conjunctamente apagado e
desconfiado, que marca os homens de provncia, perdidos entre as tipoias e as
intrigas da Capital. Vinham ali s noites, quele jornal do partido, saber as
novas, beber do fino, uns com esperanas de empregos, outros por interesses
de terriola, alguns por ociosidade. Para todos o Neves era um robusto
talento; admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar
nas lojas das suas vilas o amigo Neves, o jornalista, o da Tarde... Mas, atravs
dessa admirao e do prazer de roar por ele, percebia-se-lhes um vago medo
que aquele robusto talento lhes pedisse, num vo de janela, duas ou trs
moedas. O Neves no entanto celebrava o Gouvarinho como orador. No que
tivesse os rasgos, a pureza, as belas sinteses historicas do Jos Clemente!
Nem a poesia do Rufino! Mas no havia outro para as piadas que ferem e que
ficam cravadas, ali a arder, na pele do touro! E era a grande coisa na Camara
- ter a farpa, sabl-a ferrar!
-  Gonalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou ele
virando-se para a janela, para o rapaz de jaqueto claro.
O Gonalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu o
pescoo magro num colarinho muito decotado, lanou de l:
- A do trapezio? Divina! Conta  rapaziada!
A rapaziada arregalou os olhos para o Neves,  espera da do trapezio. Fra
na Camara dos Pares, na reforma da instruco. Estava falando o Torres
Valente, esse maluco que defendia a ginastica dos colegios e queria as
meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe esta:
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Snr. presidente, direi uma palavra s. Portugal sahir para sempre da senda
do progresso, em que tanto se tem ilustrado, no dia em que ns frmos ao
ensino, com mo impia, substituir a cruz pelo trapezio!
- Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
E no murmrio de admirao que se ergueu destacou um ganido - o do rapaz
mais grosso que um pote, que mexia os ombros, chasqueava com uma risota
na bochecha cor de tomate:
- Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae  um grandissimo
carola!
E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provncia, liberaes e
finorios, que achavam aquele fidalgo excessivamente apegado  cruz. Mas j o
Neves, de p, bravejava:
- Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho carola!
Est claro que tem toda a orientao mental do sculo,  um racionalista, um
positivista... Mas a questo aqui  a rplica, a tactica parlamentar! Desde que
o tipo da maioria vem de l com a descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo,
ainda que fosse to ateu como Renan, zs! atira-lhe logo para cima com a
cruz!... Isto  que  a estrategia parlamentar! Pois no  assim, Ega?
Ega murmurou, atravs do fumo do charuto:
- Sim, com efeito a cruz para isso ainda serve...
Mas nesse momento o sujeito calvo, que repelira a tira de papel e se
espreguiava, cadopara as costas da cadeira, exausto, pediu ao senhorJoo
da Ega - que falasse  gente e guardasse o seu dinheiro...
Ega acercou-se logo daquele simpatico homem, to engraado, to querido de
todos:
- Ento, na grande faina, Melchior?
- Estou aqui a vr se fao uma coisa sobre o livro do Craveiro, os Cantos da
Serra, e no me sae nada em termos... No sei o que hei de dizer!
Ega gracejou, de mos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o
Melchior:
- Nada! Vocs aqui so simples localistas, noticiaristas, anunciadores. D'um
livro como o do Craveiro tm s respeitosamente a dizer onde se vende e
quanto custa.
O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da
nuca:
- Ento onde queria voc que se falasse dos livros?... Nos reportorios?
No, nas Revistas Criticas: ou ento nos jornais - que fossem jornais, no
papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de poltica em estilo
mazorro ou em estilo fadista, um romance mal traduzido do francez por baixo
e o resto cheio com anos, despachos, parte de policia e loteria da
Misericordia. E como em Portugal no havia nem jornais srios nem Revistas
Criticas - que se no falasse em parte nenhuma.
- Com efeito, murmurou Melchior, ningum fala de nada, ningum parece
pensar em nada...
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E com toda a razo, afirmou Ega. Certamente muito desse silncio provinha do
natural desejo que tm os que so mediocres de que se no aluda muito aos
que so grandes.  a invejasinha reles e rastejante! Mas em geral o silncio
dos jornais para com os livros provm sobretudo deles terem abdicado todas
as funces elevadas d'estudo e de critica, de se terem tornado folhas
rasteiras d'informao caseira, e de sentirem por isso a sua incompetencia...
- Est claro, no falo por voc, Melchior, que  dos nossos e de primeira
ordem! Mas os seus colegas, menino, calam-se por se saberem
incompetentes...
O Melchior ergueu os ombros com um ar canado e descrente:
- Calam-se tambm porque o publico no se importa, ningum se importa...
Ega protestou, j excitado. O Publico no se importava!? Essa era curiosa! O
Publico ento no se importa que lhe falem de livros que ele compra aos trs
mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a populao de Portugal, caramba, 
igual aos grandes sucessos de Paris e de Londres... No, Melchiorzinho amigo,
no! Esse silncio diz ainda mais claramente e retumbantemente que as
palavras: Ns somos incompetentes. Ns estamos bestialisados pela noticia
do senhor conselheiro que chegou ou do senhor conselheiro que partiu, pelos
High-lifes, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo em
descompostura e calo, por toda esta prosa chula em que nos atolamos... Ns
no sabemos, no podemos j falar de uma obra d'arte ou de uma obra de
historia, deste belo livro de versos ou deste belo livro de viagens. No temos
nem frases nem idias. No somos talvez cretinos - mas estamos cretinisados.
A obra de literatura passa muito alto - ns chafurdamos aqui muito em
baixo...
- E aqui tem voc, Melchior, o que diz, atravs do silncio dos jornais, o cro
dos jornalistas!
Melchior sorria, enlevado, com a cabea deitada para traz, como quem goza
uma bela ria. Depois com uma palmada na mesa:
- Caramba,  Ega, muito bem fala voc!... Voc nunca pensou em ser
deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: O Ega! O Ega  que era, para
atirar ali na cmara a piadinha  Rochefort. Ardia Troia!
E imediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a acender o charuto -
Melchior arrebatou a pena:
- Voc est em veia! Diga l, dicte l... Que hei de eu aqui pr sobre o livro do
Craveiro?
Ega quissaber o que escrevera j, o amigo Melchior. Apenas trs linhas:
Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simo Craveiro. O precioso
volume, onde cintilam em caprichosos relevos todas as joias deste prestigioso
escriptor,  publicado pelos activos editores... E aqui o Melchior emperrra.
Melchior no gostava daquele frouxo termo - activos. Ega ento sugeriu -
empreendedores. Melchior emendou, leu:
- ...publicado pelos empreendedores editores... Ora sbo, rima!
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Arrojou a pena, descoroado. Acabou-se! No estava em verve. E alm disso
era tarde, tinha a rapariga  espera...
- Fica para amanh... O pior  que j ando nisto ha cinco dias! Irra! Voc tem
razo, a gente bestializa-se. E faz-me raiva! No  l pelo livro, no me
importa o livro...  pelo Craveiro, que  bom rapaz, e demais a mais pertence
c ao partido!
Abriu um gaveto, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E
Ega ia ajud-lo, limpar-lhe as costas cheias de cal - quando entre eles surgiu a
face chupada e nervosa do Gonalo, com a sua gaforinha perpetuamente
erguida como por uma rajada de vento.
- Que est o Egasinho a fazer neste covil da noticia?
- Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambm a ouvir o Neves, a grande frase
do Gouvarinho...
O Gonalo pulou, com uma faisca de malcia no olhos negros de algarvio
esperto.
- A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
Travou do brao do Ega, puxou-o para um canto da janela:
-  necessrio falar baixo por causa da rapaziada de provncia... Ha outra
deliciosa. Eu no me lembro bem, o Neves  que sabe!  uma coisa da
Liberdade conduzindo  mo o corcel do Progresso... O quer que seja assim,
uma imagem equestre! A Liberdade com cales de jockei, o Progresso com
um grande freio... Espantoso! Que besta, aquele Gouvarinho! E os outros,
menino, os outros! Voc no foi  cmara quando se discutiu a questo de
Tondela? Extraordinrio! O que se disse! Foi de morrer! E eu morro! Esta
poltica, este S. Bento, esta eloquencia, estes bachareis matam-me. Querem
dizer agora a que isto por fim no  pior que a Bulgaria. Historias! Nunca
houve uma choldra assim no universo!
- Choldra em que voc chafurda! observou o Ega rindo.
O outro recuou com um grande gesto:
- Distingamos! Chafurdo por necessidade, como poltico: e tro por gosto,
como artista!
Mas Ega justamente achava uma desgraa incomparavel para o pas - esse
imoral desacordo entre a inteligencia e o caracter. Assim, ali estava o amigo
Gonalo, como homem de inteligencia, considerando o Gouvarinho um
imbecil...
- Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
- Perfeitamente! E todavia, como poltico, voc quer essa cavalgadura para
ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ela rinche ou
escoucinhe.
Gonalo correu lentamente a mo pela gaforinha, com a face franzida:
-  necessrio, homem! Razes de disciplina e de solidariedade partidaria... Ha
uns compromissos... O pao quer, gosta dele...
Espreitou em roda, murmurou, colado ao Ega:
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- a a umas questes de sindicatos, de banqueiros, de concesses em
Moambique... Dinheiro, menino, o onipotente dinheiro!
E como Ega se curvava, vencido, cheio s de respeito - o outro, faiscando todo
de finura e cinismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
- Meu caro, a poltica hoje  uma coisa muito diferente! Ns fizemos como
vocs os literatos. Antigamente a literatura era a imaginao, a fantasia, o
ideal... Hoje  a realidade, a experiencia, o facto positivo, o documento. Pois
c a poltica em Portugal tambm se lanou na corrente realista. No tempo da
Regenerao e dos Historicos a poltica era o progresso, a viao, a liberdade,
o palavrorio... Ns mudamos tudo isso. Hoje  o facto positivo, - o dinheiro, o
dinheiro! o bago! a massa! A rica massinha da nossa alma, menino! O divino
dinheiro!
E de repente emudeceu, sentindo na sala um silncio - onde o seu grito de
dinheiro! dinheiro! parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, com a
prolongao de um toque de rebate acordando as cubias, chamando ao longe
e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
O Neves desaparecera. Os cavalheiros de provncia dispersavam, uns enfiando
o palet, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos jornais sobre a
mesa. E o Gonalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou nos taces,
desapareceu tambm, abraando ao passar um dos padres a quem tratou de
malandro!
Era meia noite, Ega saiu. E na tipia que o levava ao Ramalhete, j mais
calmo, comeou logo a reflectir que o resultado da publicao da carta sria
despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A questo de cavalos com
que o Neves se contentra promptamente, distrahido e absorvido nessa noite
pela crise, - ningum mais a acreditaria... O Damaso decerto, interrogado,
para se desculpar, contaria horrores de Maria e de Carlos: e uma intoleravel
luz d'escndalo ia bater coisas que deviam permanecer na sombra. Eram
talvez apoquentaes, desesperos que ele assim estivera preparando a Carlos
- por causa de um odiosinho ao Damaso. Nada mais egosta e pequeno!... E
subindo para o quarto Ega decidia correr depois d'almoo  redaco da Tarde,
suster a publicao da carta.
Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados numa carroa de
bois, sobre um enxergo onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha de
setim preto da vila Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem pudor, sob a
fresca sombra que caa dos ramos, ao chiar lento das rodas. E por um requinte
do sonho cruel, ele Ega, sem perder a conscincia e o orgulho d'homem, era
um dos bois que puxava ao carro! Os moscardos picavam-no, a canga pesavalhe;
e, a cada beijo mais cantado que atraz soava no carro, ele erguia o
focinho a escorrer de baba, sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para
os cus!
Acordou nestes urros d'agonia: e a sua clera contra o Damaso resurgiu, mais
nutrida pelas incoherencias do sonho. Alm disso chovia. E decidiu no voltar
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 Tarde, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, o que dissesse o
Damaso? O artigo da Corneta estava extincto, o Palma bem pago. - E quem
jamais acreditaria num homem que nos jornais se declara caluniador e
bebedo?
E Carlos assim pensou tambm - quando, depois do almoo, Ega lhe contou a
sua resoluo da vespera ao vr o Damaso no camarote, d'olho trocista posto
n'ele, a segredar com os Cohens...
- Percebi claramente, sem erro possvel, que estava a falar de ti, da snr. D.
Maria, de ns todos, contando horrores... E ento acabou-se, no hesitei mais.
Era necessrio deixar passar a justia de Deus! No tinhamos paz emquanto o
no aniquilassemos!
Sim, concordou Carlos, talvez. Smente receava que o av, sabendo o
escndalo, se desgostasse de vr o seu nome misturado a toda aquela
sordidez de Corneta e de bebedeira...
- Ele no l a Tarde, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar,  j vago e
desfigurado.
Com efeito Afonso soube apenas confusamente que o Damaso soltra no
Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarra depois num
jornal que, nesse momento, estava bebedo. E a opinio do velho foi - que se o
Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria injuriado Carlos, seu
antigo amigo?) a sua declarao revelava extrema lealdade e um amor quase
heroico da verdade!
- Por esta no esperavamos ns! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. O
Damaso torna-se um justo!
De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da Corneta aprovavam a
aniquilao do Damaso. S o Craft sustentou que Carlos lhe devia ter antes
dado bengaladas secretas; e o Taveira achou cruel que se dissesse ao
desgraado, com um florete ao peito - ou a dignidade ou a vida!
Mas dias depois no se falava mais nesse escndalo. Outras coisas
interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministrio fora formado,
finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha - Neves no Tribunal de Contas. J
os jornais do governo cadocomeavam, segundo a pratica constitucional, a
achar o pas irremediavelmente perdido, e a aludir ao rei com azedume... E o
derradeiro, esvado echo da carta do Damaso foi, na vespera do sarau da
Trindade, um paragrafo da prpria Tarde onde ela fora publicada, nesta s
amaveis palavras:
- O nosso amigo e distincto sportman Damaso Salcede parte brevemente
para uma viagem de recreio a Itlia. Desejamos ao elegante touriste todas as
prosperidades na sua bela excurso ao pas do canto e das artes.
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#
VI
Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorra no corredor a
procurar a charuteira pelos bolsos do palet, entrou na sala, perguntando a
Maria, j sentada ao piano:
- Ento, definitivamente, v. exc. no vem ao sarau da Trindade?...
Ela voltou-se para dizer, preguiosamente, por entre a walsa lenta que lhe
cantava entre os dedos:
- No me interessa, estou muito canada...
-  uma sca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se estirra
consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
Ega protestou. Tambm era uma massada subir s Piramides no Egipto. E no
entanto sofria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pode um christo
trepar a um monumento que tem cinco mil anos de existncia... Ora a snr. D.
Maria, neste sarau, ia vr por dez tostes uma coisa tambm rara,- a alma
sentimental de um povo exhibindo-se num palco, ao mesmo tempo nua e de
casaca.
- V, coragem! um chapu, um par de luvas, e a caminho!
Ela sorria, queixando-se de fadiga e preguia.
- Bem, exclamou Ega, eu  que no quero perder o Rufino... Vamos l, Carlos,
mexe-te!
Mas Carlos implorou clemencia:
- Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do Hamlet.
Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, s gorgeiam mais tarde...
Ento Ega, cedendo tambm a todo aquele conchego tepido e amvel,
enterrou-se no sof com o charuto, para escutar a cano d'Ofelia, de que
Maria j murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
Ple et blonde,
Dort sous l'eau profonde...
Ega adorava esta velha balada escandinavia. Mais porm o encantava Maria
que nunca lhe parecera to bela: o vestido claro que tinha nessa noite
modelava-a com a perfeio de um mrmore: e entre as velas do piano, que
lhe punham um trao de luz no perfil puro e tons de ouro esfiado no cabelo - o
incomparavel eburneo da sua pele ganhava em esplendor e mimo... Tudo n'ela
era harmonioso, so, perfeito... E quanto aquela serenidade da sua frma
devia tornar delicioso o ardor da sua paixo! Carlos era positivamente o
homem mais feliz destes reinos! Em torno dele s havia facilidades, douras.
Era rico, inteligente, de uma sade de pinheiro novo; passava a vida adorando
e adorado; s tinha o numero d'inimigos que  necessrio para confirmar uma
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superioridade; nunca sofrera de dispepsia; jogava as armas bastante para ser
temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o irritava. Sr
verdadeiramente ditoso!.
- Quem  por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os ps pelo
tapete, quando Maria findou a cano d'Ofelia.
Ega no sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
-  esse grande orador de que falavam na Toca?
No, no! Esse era outro, a srio, um amigo de Coimbra, o Jos Clemente,
homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um rato de pera
grande, deputado por Mono, e sublime nessa arte, antigamente nacional e
hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, num voz de teatro e de
papo, combinaes sonoras de palavras...
- Detesto isso! rosnou Carlos.
Maria tambm achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idias, como um
passaro num galho d'arvore...
-  conforme a ocasio, observou Ega, olhando o relgio. Uma valsa de
Strauss tambm no tem idias, e  noite, com mulheres numa sala, 
deliciosa...
No, no! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a palavra
humana, que, pela sua natureza mesma, s pode servir para dar forma, s
idias. A musica, essa, fala aos nervos. Se se cantar uma marcha a uma
criana, ela ri-se e salta no colo...
- E se lhe lres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho seca-se e
berra!
- Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos costumes
que ela cria. No ha ingls, por mais culto e espiritualista, que no tenha um
fraco pela fora, pelos atletas, pelo sport, pelos musculos de ferro. E ns, os
meridionaes, por mais criticos, gostamos do palavriadinho mavioso. Eu c pelo
menos,  noite, com mulheres, luzes, um piano e gente de casaca, pelo-me
por um bocado de rhetorica.
E, com o apetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o palet, voar 
Trindade, num receio de perder o Rufino.
Carlos deteve-o ainda, com uma grande idia:
- Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beetoven; ns
declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se te
apetece a eloquencia; e passa-se a noite numa medonha orgia d'ideal!...
- E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
- Melhores poetas, afirmou Carlos.
- Bons charutos!
- Bom conhaque!
Ega alou os braos ao ar, desolado. Ali est como se pervertia um cidado,
impedindo-o de proteger as letras patrias - com promessas perfidas de tabaco
e de bebidas!... Mas de resto ele no tinha s uma razo literaria para ir ao
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sarau. O Cruges tocava uma das suas Meditaes d'Outono, e era necessrio
dar palmas ao Cruges.
- No digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me o
Cruges!...  um dever d'honra! Abalemos.
E da a pouco, tendo beijado a mo de Maria que ficava ao piano, os dois,
surprehendidos com a beleza dessa noite d'inverno, to clara e dce, seguiam
devagar pela rua - onde Carlos ainda duas vezes se voltou para olhar as
janelas alumiadas.
- Estou bem contente, exclamou ele travando do brao do Ega, em ter deixado
os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado de cavaco e
de literatura...
Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto ao
lado num fumoir forrado com as suas colchas da India, depois ter um dia certo
em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho sonho, o
cenaculo de diletantismo e d'arte... Alm disso havia a lanar a Revista, que
era a suprema pandega intelectual. Tudo isto anunciava um inverno chic a
valer, como dizia o defunto Damaso.
- E tudo isto, resumiu o Ega,  dar civilizao ao pas. Positivamente, menino,
vamo-nos tornar grandes cidados!...
- Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
aqui na rua de S. Francisco... Que beleza de noite!
Pararam  porta do teatro da Trindade no momento em que, de uma tipia de
praa, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com um
chapude largas abas recurvas  moda de 1830. Passou junto dos dois amigos
sem os vr, recolhendo um troco  bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
-  o tio do Damaso, o demagogo! Belo tipo!
- E segundo o Damaso, um dos bebedos da famlia, lembrou Carlos rindo.
Por cima, de repente, no salo, estalaram grandes palmas. Carlos, que dava o
palet ao porteiro, receou que j fosse o Cruges...
- Qual! disse o Ega. Aquilo  aplaudir de rhetorica!
E com efeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao ante-salo,
onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de ps, segredando -
sentiram logo um vozeiro tumido, garganteado, provinciano, de vogaes
arrastadas em canto, invocando l do fundo, do estrado, a alma religiosa de
Lamartine!...
-  o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Teles da Gama que no
passra da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Teles. Mas Ega, esguio e magro, foi
rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se cerravam
filas de cabeas, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de palhinha at
junto ao tablado, onde dominavam os chapos de senhoras picados por
manchas claras de plumas ou flores. Em volta, de p, encostados aos pilares
ligeiros que sustm a galeria, reflectidos pelos espelhos, estavam os homens,
a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das Secretarias, uns de gravata
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branca, outros de jaquetes. Ega avistou o senhorSousa Neto, pensativo,
sustentando entre dois dedos a face escaveirada, de barba rala; adiante o
Gonalo, com a sua gaforinha ao vento; depois o marqus atabafado num
cache-nez de sda branca; e, num grupo, mais longe, rapazes do Jockei Club,
os dois Vargas, o Mendona, o Pinheiro, assistindo quele sport da eloquencia
com uma mistura d'assombro e tdio. Por cima, no parapeito de veludo da
galeria, corria outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se
molemente; por traz alava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o
Neves, o novo Conselheiro, grave, de braos cruzados, com um boto de
camelia na casaca mal feita.
O gssufocava, vibrando cruamente naquela sala clara, de um tom desmaiado
de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e alm uma tosse timida de
catarrho desmanchava o silncio, logo abafada no leno. E na extremidade da
galeria, num camarote feito de tabiques, com sanefas de veludo cor de cereja,
duas cadeiras de espaldar dourado permaneciam vazias, na solenidade real do
seu damasco escarlate.
No entanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito trigueiro,
de pera, alargava os braos, celebrava um anjo, o Anjo da Esmola que ele
entrevira, alm no azul, batendo as azas de setim... Ega no compreendia
bem - entalado entre um padre muito gordo que pingava de suor, e um alferes
de lunetas escuras. Por fim no se conteve:- Sobre que est ele a falar? E
foi o padre que o informou, com a face luzidia, inflamada de entusiasmo:
- Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
Infelizmente est a acabar!
Parecia ser, com efeito, a perorao. O Rufino arrebatra o leno, limpara a
testa lentamente; depois arremeteu para a borda do tablado, voltando-se para
as cadeiras reais com um to ardente gesto d'inspirao - que o colete
repuxado descobriu o comeo da ceroula. Foi ento que Ega compreendeu.
Rufino estava exaltando uma princesa que dera seiscentos mil reis para os
inundados do Ribatejo, e ia a beneficio deles organizar um bazar na Tapada.
Mas no era s essa soberba esmola que deslumbrava o Rufino - porque ele,
como todos os homens educados pela filosofia e que tm a verdadeira
orientao mental do seu tempo, via nos grandes factos da historia no s a
sua beleza poetica, mas a sua influencia social. A multido, essa, sorria
simplesmente, enlevada, para a incomparavel poesia da mo calada de fina
luva que se estende para o pobre. Ele porm, filosofo, antevia j, saindo
desses delicados dedos de princesa, um resultado bem profundo e formoso...
O qu, meus senhores? O renascimento da F!
De repente, um leque que escorregra da galeria, arrancando em baixo um
berro a uma senhora gorda, criou um sussurro, uma curta emoo. Um
comissrio do sarau, D. Jos Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do tablado,
com o seu laarote de sda vermelha na casaca, dardejando severamente os
olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos risos esfusiavam.
Outros cavalheiros, indignados, gritavam chut, silncio, fora! E das cadeiras
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da frente surgiu a face ministerial do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as
lunetas brilhando duramente... Ento Ega procurou ao lado a condessa: e
avistou-a enfim mais longe, com um chapu azul, entre a Alvim toda de preto
e umas vastas espdoas cobertas de cetim malva que eram as da baronesa de
Craben. Todo o rumor findava - e o Rufino, que molhara lentamente os lbios
no copo, avanou um passo, sorrindo, com o leno branco na mo:
- Dizia eu, meus senhores, que dada a orientao mental deste sculo...
Mas o Ega sufocava, esmagado, farto do Rufino, com a impresso de que o
padre ao lado cheirava mal. E no aturou mais, furou para traz, para
desabafar com Carlos.
- Tu imaginavas uma besta assim?
- Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocar o Cruges?
Ega no sabia, todo o programa fora alterado.
- E tens c a Gouvarinho! Est l adiante, d'azul... Hei de querer vr logo esse
encontro!
Mas ambos se voltaram sentindo por traz algum ciciar discretamente
bonsoir, messieurs... Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de casaca,
em pontas de ps, com as claques fechadas. E imediatamente Steinbroken
queixou-se da ausencia da famlia real...
- Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assur que la reine
viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute cete musique, ces
vers?... Voil pourquoi je suis venu. C'est trs enuieux... Et Alfonse de Maia,
toujours en sant?
- Merci...
Na sala o silncio impressionava. Rufino, com gestos de quem traa numa tela
linhas lentas e nobres, descrevia a doura de uma aldeia, a aldeia em que ele
nascera, ao pr do sol. E o seu vozeiro velava-se, enternecido, morrendo
num rumor de crepsculo. Ento Steinbroken, subtilmente, tocou no hombro
do Ega. Queria saber se era esse o grande orador de que lhe tinham falado...
Ega afirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
- Em qual gnerro?...
- Gnero sublime, genero de Demostenes!
Steinbroken alou as sobrancelhas com admirao, falou em filandez ao seu
secretario que entalou languidamente o monculo: e com as claques debaixo
do brao, cerrados os olhos, recolhidos como num templo, os dois enviados da
Filandia ficaram escutando,  espera do sublime.
Rufino, no entanto, com as mos descahidas, confessava uma fragilidade de
sua alma! Apesar da poesia ambiente dessa sua aldeia natal, onde a violeta
em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus irrefutavelmente,
- ele fora dilacerado pelo espinho da descrena! Sim, quantas vezes, ao cair
da tarde, quando os sinos da velha torre choravam no ar a Ave-Maria e no
vale cantavam as ceifeiras, ele passara junto da cruz do adro e da cruz do
cemitrio, atirando-lhes de lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire...
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Um largo frmito e emoo passou. Vozes sufocadas de gozo mal podiam :
murmurar muito bem, muito bem...
Pois fora nesse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um grito e
horror ressoar por sobre o nosso Portugal... Que sucedera? Era a Natureza que
atacava seus filhos! - E lanando os braos, como quem se debate numa
catstrofe, Rufino pintou a inundao... Aqui aluia um casal, ninho florido e
amores; alm, na quebrada, passava o balar choroso dos gados; mais longe
as negras guas iam juntamente arrastando um boto de rosa e um bero!...
Os bravos partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em torno de
Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para os outros,
com um brilho na face, comungando no mesmo entusiasmo: Que rajadas!...
Caramba!... Sublime!...
Rufino sorria bebendo esta comoo, que era a obra do seu verbo. Depois,
respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reais, solenes e vazias...
Vendo que a clera da Natureza rugia implacvel ele erguera os olhos para o
natural abrigo, para o exaltado lugar donde desce a salvao, para o Throno
de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre ele estenderam-se as
azas brancas de um anjo! Era o anjo da esmola, meus senhores! E donde
vinha? donde recebera a inspirao da caridade? donde saa assim, com os
seus cabelos de ouro? Dos livros da cincia? dos laboratrios qumicos? desses
amfiteatros da anatomia onde se nega covardemente a alma? das scas
escolas de filosofia que fazem de Jesus um precursor de Robespierre? No! Ele
ousra interrogar o anjo, submisso, com o joelho em terra. E o anjo da
esmola, apontando o espao divino, murmurara: Venho d'alm!
Ento pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os
estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um
estremecimento devoto e potico arrepiava as caias das senhoras.
E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! Desde
esse momento, a duvida fora nele como a nvoa que o sol, este radiante sol
portugus, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as ironias da cincia,
apesar dos escarneos orgulhosos de um Benan, de um Litr e de um Spencer,
ele, que recebera a confidencia divina, podia ali, com a mo sobre o corao,
afirmar a todos bem alto - havia um cu!
- Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
E por todo o salo, no aperto e no calor do gs, os cavalheiros das Secretarias,
da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mos, afirmaram
soberbamente o co!
O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de clera. Era o
Alencar, de palet, de gravata branca, cofiando sombriamente os bigodes.
- Que te parece, Thomaz?
- Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
Tremia, revoltado! Numa noite daquelas, toda de poesia, quando os homens
de letras se deviam mostrar como so, filhos da democracia e da liberdade, vir
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aquele pulha pr-se ali a lamber os ps  famlia real... Era simplesmente
ascoroso!
L na fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraos, de
comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E pela
porta os homens escoavam-se, afogueados, comovidos ainda, puxando das
charuteiras. Ento o poeta travou do brao do Ega:
- Ouve l, eu vinha justamente procurar-te.  o Guimares, o tio do Damaso,
que me pediu para te ser apresentado... Diz que  uma coisa sria, muito
sria... Est l em baixo no botequim, com um grog.
Ega pareceu surprendido... Coisa sria!?
- Bem, vamos ns l abaixo tomar tambm um grog! E que recitas tu logo,
Alencar?
- A Democracia, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. Uma
coisita nova, tu vers... So algumas verdades duras a toda essa burguesia...
Estavam  porta do botequim - e precisamente o senhor Guimares saa, com
o chapu sobre o olho, de charuto aceso, abotoando a sobrecasaca. Alencar
lanou a apresentao, com imensa gravidade:
- O meu amigo Joo da Ega... O meu velho amigo Guimares, um bravo c
dos nossos, um veterano da Democracia.
Ega acercou-se de uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano
da Democracia, quis saber se ele preferia conhaque ou cerveja.
- Tomei agora o meu grog de guerra, disse o senhor Guimares com secura,
tenho para toda a noite.
Um criado dava uma limpadela lenta sobre o mrmore da mesa. Ega ordenou
cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mo pelas barbas a
retocar a magestade da face, o senhor Guimares comeou com lentido e
solenidade:
- Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar para
me apresentar a v. exc., com o fim de o intimar a que olhe bem para mim e
que diga se me acha cara de bebedo...
Ega compreendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
- V. exc. refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
- Carta que v. exc. dictou! Carta que v. exc. o forou a assignar!
- Eu?...
- Afirmou-mo ele, senhor!
Alencar interveio:
- Falem vocs baixo, que diabo!... Isto  terra de curiosos...
O senhor Guimares tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha estado,
contou ele, havia semanas fora de Lisboa por negcios da herana de seu
irmo. No vira o sobrinho, porque s por necessidade se encontrava com
esse imbecil. Na vespera, em casa de um antigo amigo, o Vaz Forte, deitara
por acaso os olhos ao Futuro, um jornal republicano, bem escrito, mas frouxo
de idias. E avistara logo na primeira pagina, em tipo enorme, sob esta rubrica
alis justa Coisas do hig hlife, a carta do sobrinho... Imagine o senhor Ega o
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seu furor! Ali mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou
menos nestes termos: Li a tua infame declarao. Se amanh no fazes
outra, em todos os jornais, dizendo que no tinhas inteno de me incluir
entre os bebedos da tua famlia, vou a e quebro-te os ossos um por um.
Treme! Assim lhe escrevera. E sabia o senhor Joo da Ega qual fora a
resposta do senhor Damaso?
- Tenho-a aqui,  um documento humano, como diz o amigo Zola! Aqui est...
Grande papel, monograma de ouro, coroa de conde. Aquele asno! Quer v.
exc. que eu leia?
A um gesto risonho do Ega, ele mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
- Meu caro tio! A carta de que fala foi escrita pelo senhor Joo da Ega. Eu era
incapaz de tal desacato  nossa querida famlia. Foi ele que me agarrou na
mo,  fora, para eu assignar: e eu, naquela atrapalhao, sem saber o que
fazia, assignei para evitar falatorios. Foi um lao que me armaram os meus
inimigos. O meu querido tio, que sabe como eu gsto de si, que at estava o
ano passado com teno, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar
meia pipa de vinho de Colares, no fique pois zangado comigo. Bem infeliz j
eu sou! E se quizer procure esse Joo da Ega que me perdeu! Mas acredite
que hei de tirar uma vingana que ha de ser falada! Ainda no decidi qual,
nesta atarantao; mas em todo o caso a nossa famlia ha de ficar
desenxovalhada, porque eu nunca admiti que ningum brincasse com a minha
dignidade... E se o no fiz j antes de partir para Itlia, se ainda no pugnei
pela minha honra,  porque ha dias, com todos estes abalos, veio-me uma
tremenda disenteria, que estou que me no tenho nas pernas. Isto por cima
dos meus males moraes!... V. exc. ri-se, senhor Ega?
- Pois que quer v. exc. que eu faa? balbuciou o Ega por fim, sufocado, com
os olhos em lgrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se v. exc.. Isso 
extraordinrio! Essa dignidade, essa disenteria...
O senhor Guimares, embaado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob
os longos bigodes, e terminou por dizer:
- Com efeito, a carta  de uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
Ento Ega apelou para o bom senso do senhor Guimares, para a sua
experiencia das coisas d'honra. Compreendia ele que dois cavalheiros, indo
desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem violentamente
a assignar uma carta em que ele se declara bebedo?...
O senhor Guimares, agradado com aquela deferencia pelo seu tacto e pela
sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, sria pouco
natural.
- E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto no  a Cafraria! E diga-me o senhor
Guimares outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera seu
sobrinho? um homem irrepreensivelmente veridico?
O senhor Guimares cofiou as barbas, declarou lealmente:
- Um refinado mentiroso.
- Ento! gritou Ega em triunfo, atirando os braos ao ar.
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De novo Alencar interveio. A questo parecia-lhe satisfactoriamente finda. E
no restava seno os dois apertarem-se a mo fraternalmente, como bons
democratas...
J de p, atirou a genebra s guelas. Ega sorria, estendia a mo ao senhor
Guimares. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada,
desejou que o senhor Joo da Ega (se nisso no tinha duvida) declarasse, ali
diante do amigo Alencar, que no lhe achava a ele, Guimares, cara de
bebedo...
- Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para
chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do
Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara de um perfeito cavalheiro e
de um patriota!
Ento trocaram um rasgado aperto de mos - enquanto o senhor Guimares
afirmava a sua satisfao por conhecer o senhor Joo da Ega, moo de tantos
dotes e to liberal. E quando s. exc. quizesse qualquer coisa, poltica ou
literria, era escrever este endereo bem conhecido no mundo:
- Redaction du RAPPEL, Paris!
Alencar abalara. E os dois deixaram o botequim, trocando impresses do
sarau. O senhor Guimares estava enojado com a carolice, a sabujice desse
Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princesa e da cruz do adro, quase
lhe gritara c do fundo: Quanto te pagam para isso, miservel?
Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapu:
- Oh snr. baronesa, ento j nos abandona?
Era a Alvim que descia devagar, com a Joaninha
Vilar, atando as largas fitas de uma capa de pelcia verde. Queixou-se de uma
dor de cabea que a torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino...
Mas uma noite toda de literatura, que estafa! E agora, para mais, ficara l um
homemzinho a fazer musica clssica...
-  o meu amigo Cruges!
- Ah!  seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o Pirolito.
- V. exc. aflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... No quer que
a v acompanhar  carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr. D. Joana!...
Um servo seu, snr. baronesa! E Deus lhe tire a sua dr de cabea!
Ela voltou-se ainda no degrau, para o ameaar risonhamente com o leque:
- No seja impostor! O senhor Ega no acredita em Deus.
- Perdo... Que o Diabo lhe tire a sua dr de cabea, snr. baronesa!
O velho democrata desaparecera discretamente. E da ante-sala Ega avistou
logo ao fundo, no tablado, sobre um mcho muito baixo que lhe fazia roar
pelo cho as longas abas da casaca - o Cruges, com o nariz bicudo contra o
caderno da Sonata, martelando sabiamente o teclado. Foi ento subindo em
pontas de ps pela coxia tapetada de vermelho, agora desafogada, quase
vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, canadas, bocejavam por traz
dos leques.
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Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um
rancho intimo, a marquesa de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. E
a boa D. Maria tocou-lhe logo no brao para saber quem era aquele musico de
cabeleira.
- Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o no conheciam. E era
composio dele, aquela coisa triste?
-  de Beetoven, snr. D. Maria da Cunha, a Sonata pattica.
Uma das Pedrosos no percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de
Soutal, muito sria, muito bela, cheirando devagar um frasquinho de saes,
disse que era a Sonata pateta. Por toda a bancada foi um rastilho de risos
sufocados. A Sonata pateta! Aquilo parecia divino! Da extremidade o Vargas
gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, imberbe e cor de papoula:
- Muito bem, snr. marqueza, muito catita!
E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam  marqueza,
entre o frou-frou dos leques. Ela triunfava, bela e sria, com um velho vestido
de veludo preto, respirando os sais - enquanto adiante um amador de barba
grisalha cravava naquele rancho ruidoso dois grandes culos de ouro que
faiscavam de clera.
No entanto, por toda a sala, o sussurro crescia. Os encatarrhoados tossiam
livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a Tarde. E cado sobre o teclado,
com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre Cruges, suando, estonteado
por aquela desateno rumorosa, atabalhoava as notas, numa debandada.
- Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximara do Ega e do rancho.
Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpresa! At que enfim se via o
senhor Carlos da Maia, o Prncipe Tenebroso! Que fizera ele durante esse
vero? Todo o mundo a esper-lo em Cintra, algum mesmo com ansiedade...
Um chut furioso do amador de barbas grisalhas emudeceu-a. E justamente
Cruges, depois de bater dois acordes bruscos, arredara o mocho, esgueiravase
do estrado, enxugando as mos ao leno. Aqui e alm algumas palmas
ressoaram, moles e de cortesia, entre um grande murmrio d'alivio. E o Ega e
Carlos correram  porta, onde j esperavam o marqus, o Craft, o Taveira -
para abraar, consolar o pobre Cruges que tremia todo, com os olhos
esgazeados.
E imediatamente, no silncio atento que redemoinhava, um sujeito muito
magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscrito na mo. Algum ao
lado do Ega disse que era o Prata, que ia falar sobre o Estado agrcola da
provncia do Minho. Atrs, um criado veio colocar sobre a mesa um candelabro
de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, mergulhou no caderno: e d'entre o
perfil triste e as folhas largas um rumor lento foi escorrendo, rumor de reza
numa sonolncia de novena, onde por vezes destacavam como gemidos -
riqueza dos gados..., esfacelamento da propriedade..., frtil e desprotegida
regio...
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Comeou ento uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os chuts do
comissrio do sarau, vigilante e de p sobre um degrau do estrado, podiam
conter. S as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, que se
inclinava zelosamente para o murmrio de reza, com a mo em concha sobre
a orelha.
Ega, que fugia tambm ao velejaste paraso do Minho, achou-se em frente
do senhor Guimares.
- Que massada, hein?
O democrata concordou que aquele preopinante no lhe parecia divertido...
Depois, mais srio, com outra idia, segurando um boto da casaca do Ega:
- Eu espero que v. exc. ha pouco no ficasse com a impresso de que eu sou
solidrio ou me importo com meu sobrinho...
Oh! decerto que no! Ega vira bem que o senhor Guimares no tinha pelo
Damaso nenhum entusiasmo de famlia.
- Asco, senhor, s asco! Quando ele foi a primeira vez a Paris, e soube que eu
morava numa trapeira, nunca me procurou! Porque aquele imbecil d-se ares
d'aristocrata... E como v. exc. sabe,  filho de um agiota!
Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
- A me, sim! Minha irm era de uma boa famlia. Fez aquele desgraado
casamento, mas era de uma boa famlia! Que, com os meus princpios, j v.
exc. v que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brases, so para mim
blague e mais blague! Mas enfim os fatos so os fatos, a historia de Portugal a
est... Os Guimares da Bairrada eram de sangue azul.
Ega sorriu, num assentimento corts:
- E v. exc. ento parte brevemente para Paris?
- Amanh mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal
de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, j se pode
l respirar...
Nesse instante Teles e o Taveira, passando de brao dado, voltaram-se, a
observar curiosamente aquele velho austero, todo de preto, que falava alto
com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o democrata, de resto,
tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu altivo chapu reluzia; e Ega
ficou de bom grado a conversar com aquele gentleman correcto e venerando
que impressionava os seus amigos.
- A republica com efeito observou ele, dando alguns passos ao lado do senhor
Guimares, esteve ali um momento comprometida!
- Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me v, para ser expulso por
causa de umas verdadesinhas que soltei numa reunio anarchista. At me
afirmaram que num conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que 
um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: Ce sacr Guimaran, il
nous embte, faut lui doner du pied dans le derrire! Eu no estava l, no
sei, mas afirmaram-me... Em Paris, como os francezes no sabem pronunciar
Guimares, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno Mr. Guimaran. Ha
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dois anos, quando fui  Itlia, era Mr. Guimarini. E se fr agora  Rssia, c
por coisas, hei de ser Mr. Guimarof... Embirro que me estropiem o nome!
Tinham voltado  porta do salo. Longas bancadas vazias punham dentro, no
brilho pesado do gs, uma tristeza de abandono e tdio; e no estrado o Prata
continuava, de mo no bolso, com o nariz sobre o manuscrito, sem que se
sentisse agora surdir um som daquele espantalho esguio. Mas o marqus, que
descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sda, disse ao Ega ao
passar que o homenzinho era muito pratico, sabia da poda, e l tinha ficado s
voltas com Proudhon.
Ega e o democrata recomearam ento os seus passos lentos na ante-sala
onde o sussurro de conversas mal abafadas crescia, como num palco, entre
fumaas furtivas de cigarro. E o senhor Guimares chasqueava, achando uma
boa btise que se citasse Proudhon, ali naquele teatreco, a propsito
d'estrumes do Minho...
- Oh, Proudhon entre ns, acudiu Ega rindo, cita-se muito,  j um monstro
clssico. At os conselheiros d'Estado j sabem que para ele a propriedade era
um roubo, e Deus era o mal...
O democrata encolheu os ombros:
- Grande homem, senhor! Homem imenso! So os trs grandes pimpes deste
sculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
- O compadre! exclamou Ega, atnito.
Era o nome d'amizade que o senhor Guimares dava em Paris a Gambeta.
Gambeta nunca o via, que no lhe gritasse de longe, em espanhol: Hombre,
compadre! E ele tambm, logo: Compadre, caramba! Da ficara a alcunha,
e Gambeta ria. Porque l isso, bom rapaz, e amigo desta franqueza do sul, e
patriota, at ali!
- Imenso, meu caro senhor! O maior de todos!
Pois Ega imaginaria que o senhor Guimares, com as suas relaes do Rapel,
devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
- Esse, meu caro senhor, no  um homem,  um mundo!
E o senhor Guimares ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
-  um mundo!... E aqui onde me v, ainda no ha trs meses que ele me
disse uma coisa que me foi direita ao corao!
Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou
largamente esse glorioso lance que ainda o comovia:
- Foi uma noite no Rapel. Eu estava a escrever, ele apareceu, j um pouco
trpego, mas com o olho a luzir, e aquela bondade, aquela majestade!... Eu
ergui-me, como se entrasse um rei... Isto , no! que se fosse um rei tinhalhe
dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como se ele fosse um Deus!
Qual Deus! no ha Deus que me fizesse levantar!... Enfim, acabou-se,
levantei-me! Ele olhou para mim, fez assim um gesto com a mo, e disse, a
sorrir, com aquele ar de gnio que tinha sempre: Bonsoir, mon ami!
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E o senhor Guimares deu alguns passos dignos, em silncio, como se aquele
bonsoir, aquele mon ami, assim recordados, lhe fizessem mais vivamente
sentir a sua importncia no mundo.
De repente Alencar, que bracejava num grupo, rompeu para eles, plido,
d'olhos chamejantes:
- Que me dizem vocs a esta pouca vergonha? Aquele infame ali ha meia
hora, com o in-flio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sair, no fica
ningum! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
E abalou, rilhando os dentes, a exalar mais longe o seu furor.
Mas algumas palmas cansadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado ficara
novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um carto em
grossas letras, que um criado colocara no piano, anunciava um intervalo de
dez minutos como num circo. E nesse instante a snr. condessa de
Gouvarinho sara pelo brao do marido, deixando atras um sulco largo de
comprimentos, despenhas que se vergavam, de chapus de burocratas
rasgadamente erguidos. O comissrio do sarau azafamava-se procurando duas
cadeiras para ss. Ex.as A condessa porm foi reunir-se a D. Maria da Cunha,
que ela vira, com as Pedrosos e a marquesa de Soutal, refugiada num vo de
janela. Ega imediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as
senhoras se beijocassem.
- Ento, snr. condessa, ainda muito comovida com a eloquncia do Rufino?
- Muito cansada... E que calor, hein?
- Horrvel. A snr. baronesa d'Alvim saiu ha pouco, com uma dor de cabea...
A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos da
boca, murmurou:
- No admira, isto no  divertido... Enfim, j agora  necessrio levar a cruz
ao Calvrio.
- Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente  uma lira!
Ela riu. E D. Maria da Cunha, nessa noite mais remoada e viva, ficou logo
toda banhada num sorriso, com aquela carinhosa admirao pelo Ega, que era
um dos seus sentimentos.
- Este Ega!... No ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que  feito
do seu amigo Maia?
Ega vira-a momentos antes, no salo, puxar pela manga de Carles, cochichar
com Carlos. Mas conservou um ar inocente:
- Est a, anda por a, assistindo a toda essa literatura.
De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
rebrilharam com uma faisca de malcia:
- Falai no mau... Neste caso sria falar do bom. Enfim a nos vem o Prncipe
Tenebroso!
E era com efeito Carlos que passava, se encontrara diante dos braos do
conde de Gouvarinho, estendidos para ele com uma efuso em que parecia
renascer o antigo afeto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, desde a noite
em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechara com dio a portinhola
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da tipia onde ela ficava chorando. Ambos baixaram os olhos, ao adiantar a
mo um para o outro, lentamente. E foi ela que findou o embarao, abrindo o
seu grande leque de penas de avestruz:
- Que calor, no  verdade?
- Atroz! disse Carlos. No v v. exc. apanhar ar dessa janela.
Ela forou os lbios brancos a um sorriso:
-  conselho de medico?
- Oh, minha senhora, no so as horas da minha consulta!  apenas caridade
de cristo.
Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a
marquesa de Soutal, para o repreender por ele no ter aparecido tera-feira
na rua de S. Maral. Surpreendido com tanto interesse, tanta familiaridade, o
Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, fora o seu infortnio,
tinham-se metido umas coisas...
- Alm disso no imaginei que v. exc. comeasse a receber to cedo... V.
exc. antigamente era s depois da Cerrao da Velha. At me lembro que o
ano passado...
Mas emudeceu. O conde de Gouvarinho voltara-se, pousando a mo carinhosa
no ombro de Carlos, desejando a sua impresso sobre o nosso Rufino. Ele
conde estava encantado! Encantado sobretudo com a variedade d'escala,
aquela arte to difcil de passar do solene para o ameno, de descer das
grandes rajadas para os brincados de linguagem. Extraordinrio!
- Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas,
outros muitos. Mas no so estes vos, esta opulncia...  tudo muito seco,
idias e fatos. No entra n'alma! Vejam os amigos aquela imagem to pujante,
to respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as azas de cetim...
 de primeira ordem.
Ega no se conteve:
- Eu acho esse gnio um imbecil.
O conde sorriu, como  tonteira de uma criana:
- So opinies...
E estendeu em redor as mos ao Sousa Neto, ao Darque, ao Teles da Gama, a
outros que se juntavam ao rancho intimo - emquanto os seus correligionrios,
os seus colegas do Centro e da Cmara, o Gonalo, o Neves, o Vieira da Costa
rondavam de longe, sem poder roar pelo ministro que tinham criado, agora
que ele conversava e ria com rapazes e senhoras da sociedade. O Darque,
que era parente do Gouvarinho, quissaber como o amigo Gasto se ia dando
com os encargos do Poder... O conde declarou para os lados que no fizera
mais por ora do que passar em revista os elementos com que contava para
atacar os problemas... De resto, em questes de trabalho, o ministrio fora
infelicssimo! O presidente do conselho de cama com uma catarrheira, intil
para uma semana. Agora o colega da fazenda com as febres do Aterro...
- Est melhor? J sai? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
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- Est na mesma, vai amanh para o Dfundo. Mas realmente esse no se
acha de todo inutilizado. Ainda ontem eu lhe dizia: Voc parte para o
Dfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manh d os seus
passeios, respira o bom ar... E  noite, depois de jantar,  luz do candieiro,
entretm-se a resolver a questo de fazenda!
Uma campainha retiniu. D. Jos Sequeira, escarlate d'azafama, veio, furando,
anunciar a s. exc. o fim do intervalo - oferecer o brao  snr. condessa. Ao
passar, ela lembrou a Carlos as suas teras-feiras, com a delicada
simplicidade de um dever. Ele curvou-se em silncio. Era como se todo o
passado, o sof que rolava, a casa da titi em Santa Isabel, as tipias em que
ela deixava o seu cheiro de verbena - fossem coisas lidas por ambos num livro
e por ambos esquecidas. Atrs, o marido seguiu, erguendo alto a cabea e as
lunetas, como representante do Poder naquela festa da Inteligncia.
- Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem
topete!
- Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixo, e agora
continua tranqilamente na rotina da vida.
- E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo contigo, que a
viste em camisa!... Bonito mundo!
Mas o Alencar apareceu no alto da escada, voltando do botequim e da
genebra, com um brilho maior no olho cavo, de palet no brao, j preparado
para gorjear. E o marqus juntou-se a eles, abafado no cache-nez de sda
branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto a garganta se lhe
punha pior... Aquela canalha daquela garganta ainda lhe vinha a pregar
uma!...
Depois, muito srio, considerando o Alencar:
- Ouve l, isso que tu vs recitar, a Democracia  poltica ou sentimento? Se 
poltica, raspo-me. Mas se  sentimento, e a humanidade, e o santo operrio,
e a fraternidade, ento fico, que disso gosto e at talvez me faa bem.
Os outros afirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapu, passou os
dedos pelos anis fofos da grenha inspirada:
- Eu vos digo, rapazes... Uma coisa no vai sem a outra, vejam vocs
Danton!... Mas j no falo enfim desses lees da Revoluo. Vejam vocs o
Passos Manoel! Est claro,  necessrio lgica... Mas, tambm, caramba, sebo
para uma poltica sem entranhas e sem um bocado de infinito!
Subitamente, por sobre o novo silncio da sala, um vozeiro mais forte que o
do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. Joo de Castro e de Afonso
d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era um
magano gordo, de barba em bico e camlia na casaca, que, de mo fechada
no ar como se agitasse o pendo das Quinas, lamentava aos berros que ns
portugueses, possuindo este nobre esturio do Tejo e to formosas tradies
de gloria, deixssemos esbanjar, ao vento do indiferentismo, a sublime
herana dos avs!...
-  patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
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Mas o marqus reteve-os, gostando tambm de um bocado de Quinas. E foi o
pobre marqus que o patriota pareceu interpelar, alando na ponta dos botins
o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora a, que, agarrando numa
das mos a espada e na outra a cruz, saltasse para o convs de uma caravela
a ir levar o nome portugus atravs dos mares desconhecidos? Quem havia a,
herico bastante, para imitar o grande Joo de Castro, que na sua quinta de
Cintra arrancara todas as arvores de fruto, tal a era a iseno da sua alma de
poeta?...
- Aquele miservel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
Em torno correram risos alegres. O marqus virou costas, enojado com aquela
patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mo, num tdio completo de
todas as nossas glorias. E Carlos, enervado, preso ali pelo dever de aplaudir
o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao botequim espairecer a
impacincia - quando viu o Eusebiosinho que descia a escada, enfiando 
pressa um palet alvadio. No o encontrara mais desde a infmia da Corneta,
em que ele fora embaixador. E a clera que tivera contra ele nesse dia
reviveu logo num desejo irresistvel de o espancar. Disse ao Ega:
- Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as
orelhas quele maroto!
- Deixa l, acudiu Ega,  um irresponsvel!
Mas j Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atras, inquieto, temendo uma
violncia. Quando chegaram  porta, Eusebio metera para os lados do Carmo.
E alcanaram-no no largo da Abegoaria, quela hora deserto, mudo, com dois
bicos de gsmortios. Ao vr Carlos fender assim sobre ele, sem palet, de
peitilho claro na noite escura, o Eusebio, encolhido, balbuciou
atarantadamente: Ol, por aqui...
- Ouve c, estupor! rugiu Carlos, baixo. Ento tambm andaste metido nessa
maroteira da Corneta? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
Agarrara-lhe o brao, ainda sem dio. Mas, apenas sentiu na sua mo de forte
aquela carne molenga e tremula, ressurgiu nele essa averso nunca apagada -
que j em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, esfrangalha-o, sempre
que as Silveiras o traziam  quinta. E ento abanou-o, como outrora,
furiosamente, gozando o seu furor. O pobre viuvo, no meio das lunetas negras
que lhe voavam, do chapu coberto de luto que lhe rolara nas lajes, danava,
escanifrado e desengonado. Por fim Carlos atirou-o contra a porta de uma
cocheira.
- Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraado.
J a mo de Carlos lhe empolgara as goelas. Mas Ega interveio:
- Alto! Basta! O nosso querido amigo j recebeu a sua dose...
Ele mesmo lhe apanhou o chapu. Tremendo, arquejando, de bruos,
Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de Carlos
atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima de uma sarjeta onde
restavam imundcies e humildade de cavalo.
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O largo permanecia deserto, com o gsadormecendo nos candieiros baos.
Tranquilamente os dois recolheram ao sarau. No peristilo, cheio de luz e
plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado d'amigos, em
caminho para o botequim, limpando ao leno o pescoo e a face, exclamando
com o cansao radiante de um triunfador:
- Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
J o Alencar estaria gorjeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com
efeito Alencar aparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de duas
velas.
Esguio, mais sombrio naquele fundo cor de canrio, o poeta derramou
pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: e um
silncio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de tanta
solenidade.
- A Democracia! anunciou o auctor d'Elvira com a pompa de uma revelao.
Duas vezes passou pelos bigodes o leno branco, que depois atirou para a
mesa. E levantando a mo num gesto demorado e largo:
Era num parque. O luar
Sobre os vastos arvoredos,
Cheios de amor e segredos...
- Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovelo do marqus. 
sentimento... Aposto que  o festim!
E era com efeito o festim, j cantado na Flr de Martirio, festim romntico,
num vago jardim onde vinhos de Chipre circulam, caudas de brocado rojam
entre macios de magoais, e das guas do lago sobem cantos ao gemer dos
violoncelos... Mas bem depressa transpareceu a severa idia social da Poesia.
Enquanto, sob as arvores radiantes de luar, tudo so risos, brindes, lascivos
murmrios - fora, junto s grades douradas do parque, assustada com o latir
dos molossos, uma mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao
seio magro o filho que pede po... E o poeta, sacudindo os cabelos para traz,
perguntava porque havia ainda esfomeados neste orgulhoso sculo XIX? De
que servira ento, desde Spartacus, o esforo desesperado dos homens para a
Justia e para a Igualdade? De que servira ento a cruz do grande Mrtir,
erguida alm na colina, onde, por entre os abetos
Os raios do sol se somem,
O vento triste se cala...
E as guias revoltando
D'entre as nuvens esto olhando
Morrer o filho do Homem!
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A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mos tremendo
no ar, desolava-se de que todo o Gnio das geraes fosse impotente para
esta coisa simples - dar po  criana que chora!
Martirio do corao!
Espanto da conscincia!
Que toda a humana cincia
No solva a negra questo!
Que os tempos passem e rolem
E nenhuma luz assome,
E eu veja de um lado a fome
E do outro a indigesto!
Ega torcia-se, fungando dentro do leno, jurando que rebentava. E do outro a
indigesto! Nunca, nas alturas lricas, se gritara nada to extraordinrio! E
sujeitos graves, em redor, sorriam daquele realismo sujo. Um jocoso lembrou
que para indigestes j havia o bicarbonato de potassa.
- Quando no so das minhas! rosnou um cavalheiro esperdiado, que
alargava a fivela do colete.
Mas tudo emudeceu ante um chut terrvel do marqus, que desapertara o
cache-nez, j excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes
humanitarismo poticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achara a soluo
do sofrimento humano! Fora uma Voz que lha ensinara! Uma Voz sada do
fundo dos sculos, e que atravs deles, sempre sufocada, viera crescendo
todavia irresistivelmente desde o Golgota at  Bastilha! E ento, mais solene
por traz da mesa, com um arranque de Precursor e uma firmeza de Soldado,
como se aquele honesto mvel de mogno fosse um plpito e uma barricada - o
Alencar, alando a fronte numa grande audcia  Danton, soltou o brado
temeroso. Alencar queria a Republica!
Sim, a Republica! No a do Terror e a do dio, mas a da mansido e do Amor.
Aquela em que o Milionrio sorrindo abre os braos ao Operrio! Aquela que 
Aurora, Consolao, Refugio, Estrela mstica e Pomba...
Pomba da Fraternidade,
Que estendendo as brancas azas
Por sobre os humanos lodos,
Envolve os seus filhos todos
Na mesma santa Igualdade!...
Em cima, na galeria, resoou um bravo ardente. E imediatamente, para o
sufocar, sujeitos srios lanaram, aqui e alm: Chut, silncio! Ento Ega
ergueu as mos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:
- Bravo! Muito bem! Bravo!
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E todo plido da sua audcia, entalando o monculo, declarou para os lados:
- Aquela democracia  absurda... Mas que os burgueses se dem ares
intolerantes, isso no! Ento aplaudo eu!
E as suas mos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do marqus
que retumbavam como malhos. Outros em volta, imediatamente, no se
querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquele fidalgo de to grande
linhagem, reforaram os bravos com calor. J pela sala se voltavam olhares
inquietos para aquele grupo cheio de revoluo. Mas um silncio caiu, mais
comovido e grave, quando o Alencar (que insipidamente previra a intolerncia
burguesa) perguntou em estrofes iradas o que detestavam, o que receavam
eles, no advento sublime da Republica? Era o po carinhoso dado  criana?
Era a mo justa estendida ao proletrio? Era a esperana? Era a aurora?
Receais a grande luz?
Tendes medo do Abec?...
Ento castigai quem l,
Voltai  plebe soez!
Recuai sempre na Historia,
Apagai o gsnas ruas,
Deixai as crianas nuas,
E venha a forca outra vez!
Palmas, mais numerosas, j sinceras, estalaram pela sala, que cedia enfim ao
repetido encanto daquele lirismo humanitrio e sonoro. J no importava a
Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e claros; e a sua
onda larga arrastava os espritos mais positivos. Sob aquele bafo de simpatia
Alencar sorria, com os braos abertos, anunciando uma a uma, como prolas
que se desfiam, todas as dadivas que traria a Republica. Debaixo da sua
bandeira, no vermelha mas branca, ele via a terra coberta de searas, todas
as fomes satisfeitas, as naes cantando nos vales sob o olhar risonho de
Deus. Sim, porque Alencar no queria uma Republica sem Deus! A Democracia
e o Christianismo, como um lrio que se abraa a uma espiga, completavamse,
estreitando os seios! A rocha do Golgota tornava-se a tribuna da
Conveno! E para to doce ideal no se necessitavam cardeais, nem missais,
nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita s de pureza e de f, reza nos
campos; a lua cheia  hstia; os rouxinis entoam o tantum ergo nos ramos
dos loureiraes. E tudo prospra, tudo refulge - ao mundo do Conflicto
substitue-se o mundo do Amor...
 espada sucede o arado,
A Justia ri da Morte,
A escola est livre e forte,
E a Bastilha derrocada.
Rola a tiara no lodo,
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Brota o lrio da Igualdade,
E uma nova Humanidade
Planta a cruz na barricada!
Uma rajada farta e franca de bravos fez oscilar as chamas do gs! Era a
paixo meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo romntico, da
imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de foguete, conquistando
enfim tudo, pondo uma palpitao em cada peito, levando chefes de repartio
a berrarem, estirados por cima das damas, no entusiasmo daquela republica
onde havia rouxinis! E quando Alencar, alando os braos ao tecto, com
modulaes de pregoeira na voz roufenha, chamou para a terra essa pomba
da Democracia, que erguera o vo do Calvrio, e vinha com largos sulcos de
luz - foi um enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio de xtase.
As senhoras amoleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao cu. No
salo abrasado perpassavam fressuras de capela. As rimas fundiam-se num
murmrio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim
cobrissem, estrelas de ouro coroassem. E mal se sabia j se Essa, que se
invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade - ou Nossa Senhora das
Dores.
Alencar no entanto via-a descer, espalhando um perfume. J Ela tocava com
os seus ps divinos os vales humanos. J do seu seio fecundo trasbordava a
universal abundncia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:
As rosas tm mais aroma!
Os frutos tm mais doura!
Brilha a alma clara e pura,
Solta de sombras e vus...
Foge a dor espavorida,
Foi-se a fome, foi-se a guerra,
O homem canta na terra,
E Cristo sorri nos cus!...
Uma aclamao rompeu, imensa e rouca, abalando os muros cor de canrio.
Moos exaltados treparam s cadeiras, dois lenos brancos flutuavam. E o
poeta, tremulo, exausto, rolou pela escada at aos braos que se lhe
estendiam frementes. Ele sufocava, murmurava: filhos! rapazes!... Quando
Ega correu do fundo, com Carlos, gritando - Foste extraordinrio,
Thomaz!... - as lgrimas saltaram dos olhos do Alencar, quebrado todo
d'emoo.
E ao longo da coxia a ovao continuou, feita de palmadinhas pelo ombro, de
shake-hands da gente sria, de muitos parabns a v. exc.! Pouco a pouco
ele erguia a cabea, num altivo sorriso que lhe mostrava os dentes maus,
sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado, ungido pelo triunfo, com a
inesperada misso de libertar almas! D. Maria da Cunha puxou-lhe pela manga
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quando ele passou, para murmurar, encantada, que achara - lindssimo,
lindssimo. E o poeta, estonteado, exclamou: Maria,  necessrio luz! Teles
da Gama veio bater-lhe nas costas afirmando-lhe que piara
esplendidamente. E Alencar, inteiramente perdido, balbuciou: Sursum
corda, meu Teles, sursum corda!
Ega no entanto, atravs do tumulto, farejava buscando Carlos que
desaparecera depois dos abraos ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que Carlos
pssara para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o senhor D.
Carlos tomra uma tipia e ia j, virando o Chiado...
Ega ficou  porta hesitando se aturaria o resto do sarau. Nesse momento o
Gouvarinho, trazendo a condessa pelo brao, deseja rapidamente, com a face
toda contrariada e sombria. O trintanrio de ss. exc.as correu a chamar o
coup. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que impresso lhes
deixara o grande triunfo democrtico do Alencar - a profunda clera do
Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os dentes cerrados:
- Versos admirveis, mas indecentes!
O coup avanou. Ele teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente,
apertando a mo ao Ega:
- Numa festa de sociedade, sob a proteo da rainha, diante de um ministro
da coroa, falar de barricadas, prometer mundos e fundos s classes
proletrias...  perfeitamente indecente!
J a condessa enfiara a portinhola, apanhando a larga cauda de sda. O
ministro mergulhou tambm furiosamente na sombra do coup. Junto s rodas
passou choutando, numa pileca branca, o correio agaloado.
Ega ia subir. Mas o marqus apareceu, abafado num gabo d'Aveiro, fugindo a
um poeta de grandes bigodes que ficara em cima a recitar quadrinhos
miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marqus detestava versos feitos a
partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu do botequim,
abotoando o palet. Ento, perante essa debandada de todos os amigos, Ega
decidiu abalar tambm, ir tomar o seu grog ao Grmio com o maestro.
Meteram o marqus numa tipia - e ele e Cruges desceram a rua Nova da
Trindade, devagar, no encanto estranho daquela noite d'inverno, sem estrelas,
mas to macia que nela parecia andar perdido um bafo de maio.
Passavam  porta do Hotel Aliana quando Ega sentiu algum, que se
apressava, chamar atrs: -  senhor Ega! V. exc. faz favor, senhor Ega?...
- Parou, reconheceu o chapu recurvo, as barbas brancas do senhor
Guimares.
- V. exc. desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer, queria
dar-lhe duas palavras, e como me vou embora amanh...
- Perfeitamente...  Cruges, vai andando, j te apanho!
O maestro estacionou  esquina do Chiado. O senhor Guimares pedia de novo
desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
- V. exc., segundo me disseram,  o grande amigo do senhor Carlos da
Maia... So como irmos...
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- Sim, muito amigos...
A rua estava deserta, com alguns garotos apenas  porta alumiada da
Trindade. Na noite escura a alta fachada do Aliana lanava sobre eles uma
sombra maior. Todavia o senhor Guimares baixou a voz cautelosa:
- Aqui est o que ... V. exc. sabe, ou talvez no saiba, que eu fui em Paris
intimo da me do senhor Carlos da Maia... V. exc. tem pressa, e no vem
agora a propsito essa historia. Basta dizer que aqui ha anos ela entregou-me,
para eu guardar, um cofre que, segundo dizia continha papeis importantes...
Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras coisas em que pensar, os
anos correram, ela morreu. Numa palavra, porque v. exc. est com pressa:
eu conservo ainda em meu poder esse deposito, e trouxe-o por acaso quando
vim agora a Portugal por negcios da herana de meu irmo... Ora hoje
justamente, ali no teatro, comecei a refletir que o melhor era entreg-lo 
famlia...
O Cruges mexeu-se impaciente:
- Ainda te demoras?
- Um instante! gritou Ega, j interessado por aqueles papeis e pelo cofre. Vai
andando.
Ento o senhor Guimares,  pressa, resumiu o pedido. Como sabia a
intimidade do senhor Joo da Ega e de Carlos da Maia, lembrara-se de lhe
entregar o cofresinho para que ele o restituisse  famlia...
- Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no
Ramalhete.
- Ah, muito bem! Ento v. exc. manda um criado de confiana amanh
busc-lo... Eu estou no Hotel de Paris, no Pelourinho. Ou melhor ainda: levolho
eu, no me d incomodo nenhum, apesar de ser dia de partida...
- No, no, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mo ao
democrata.
Ele estreitou-lha com calor.
- Muito agradecido a v. exc.! Eu junto-lhe ento um bilhete e v. exc.
entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou  irm.
Ega teve um movimento d'espanto:
-  irm!... A que irm?
O senhor Guimares considerou Ega tambm com assombro. E abandonandolhe
lentamente a mo:
- A que irm!? A irm dele,  nica que tem,  Maria!
Cruges, que batia as solas no lajedo, enfastiado gritou da esquina:
- Bem, eu vou andando para o Grmio.
- At logo!
O senhor Guimares, no entanto, passava os dedos calados de pelica preta
pelos longos fios da barba, fitando o Ega, num esforo de penetrao. E
quando Ega lhe travou do brao, pedindo-lhe para conversarem um pouco at
ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentido
desconfiada.
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- Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que ns estamos aqui a
enrodilhar-nos num equivoco... Eu conheo o Maia desde pequeno, vivo at
agora em casa dele, posso afianar-lhe que no tem irm nenhuma...
Ento o senhor Guimares comeou a rosnar umas desculpas embrulhadas
que mais enervavam, torturavam o Ega. O senhor Guimares imaginava que
no era segredo, que todas essas coisas da irm estavam esquecidas, desde
que houvera reconciliao...
- Como vi, ainda no ha muitos dias, o senhor Carlos da Maia com a irm e
com v. exc., na mesma carruagem, no ces do Sodr...
- O qu! Aquela senhora! A que ia na carruagem?
- Sim! exclamou o senhor Guimares irritado, farto enfim dessa confuso em
que se debatiam. Aquela mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria
Eduarda Maia, como quiser, que eu conheci de pequena, com quem andei
muitas vezes ao colo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a
besta do Castro Gomes... Essa mesma!
Era ao meio do Loreto sob o lampio de gaz. E o senhor Guimares de repente
estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma terrvel palidez
cobrir-lhe a face.
- V. exc. no sabia nada d'isto?
Ega respirou fortemente, arredando o chapu da testa sem responder. Ento o
outro, embaado, terminou por encolher os ombros. Bem, via que tinha feito
uma tolice! A gente nunca se devia intrometer nos negcios alheios! Mas
acabou-se! Imaginasse o senhor Ega que aquilo fora um pesadelo, depois da
vergalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente - e desejava ao senhor
Joo da Ega muitssimo boas noites.
Ega, como a um claro de relmpago, entrevira toda a catstrofe: e agarrou
avidamente o brao do senhor Guimares, num terror que ele abalasse,
desaparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses papeis, o cofre
da Monforte, e com eles a certeza - a certeza por que agora ansiava. E atravs
do Loreto, vagamente, foi balbuciando, justificando a sua emoo, para
tranqilizar o homem, poder lentamente arrancar-lhe as coisas que soubesse,
as provas, a verdade inteira.
- O senhor Guimares compreende... Isto so coisas muito delicadas, que eu
supunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei
embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente falar delas com
essa simplicidade... Porque enfim, aqui para ns, essa senhora no passa em
Lisboa por irm de Carlos.
O senhor Guimares atirou logo a mo num grande-gesto. Ah, bem! Ento era
jogo com ele? Pois tinha feito o senhor Ega perfeitamente... Com certeza eram
coisas muito srias, que necessitavam toda a sorte de vus... Ele
compreendia, compreendia muito bem!... E realmente, dada a posio dos
Maias em Lisboa, na sociedade, aquela senhora no era irm que se
apresentasse.
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- Mas a culpa no a teve ela, meu caro senhor! Foi a me, foi aquela
extraordinria me que o Diabo lhe deu!...
Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de
febre:
- O senhor Guimares conheceu muito essa senhora, a Monforte?
Intimamente! J a conhecera em Lisboa - mas de longe, como mulher de
Pedro da Maia. Depois viera essa tragdia, ela fugira com o italiano. Ele
abalara tambm para Paris nesse ano, com uma Clemente, uma costureira da
Levailant: e, umas coisas enfiando noutras, negcios e desgraas, por l ficara
para sempre! Enfim, no era a sua vida que lhe ia contar... S mais tarde
encontrara a Monforte, uma noite, no baile Laborde: e da datavam as suas
relaes. A esse tempo j o italiano morrera num duelo, e o velho Monforte
espichara da bexiga. Ela estava ento com um rapaz chamado Trevernes -
numa casa bonita, no Parc Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinria!
E no se envergonhava de confessar que lhe devia obrigaes! Quando essa
rapariga, a Clemence, que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte
trazia-lhe flores, frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um
anjo... Porque l isso corao largo e generoso at ali! Esta, a filha, a D.
Maria, tinha ento sete ou oito anos, linda como os amores... E houvera uma
outra pequena do italiano, muito galantina tambm. Oh! muito galantina
tambm! Mas morrera em Londres, essa...
- E com esta Maria andei muitas vezes ao colo, meu caro senhor... No sei se
ela ainda se lembra de uma boneca que eu lhe dei, que falava, dizia
Napolon... Era no belo tempo do Imprio, at as desavergonhadas das
bonecas eram imperialistas! Depois, quando ela estava em Tours, no
convento, fui l duas vezes com a me. J ento os meus princpios me no
permitiam entrar nesses covis religiosos: mas enfim fui acompanhar a me...
E quando ela fugiu com o irlands, o MacGren, foi comigo que a me veio ter,
furiosa, a querer que eu chamasse o comissrio de policia para se prender o
irlands. Por fim meteu-se num fiacre, foi para Fontainebleau, l fez as pazes,
viviam at juntos... Enfim uma srie de trapalhadas.
Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos,
sucumbido:
- E esta senhora, est claro, no sabia ento de quem era filha...
O senhor Guimares encolheu os ombros:
- Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte
dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austraco com quem ela casara na
Mudeira... Uma mixrdia, meu caro senhor, uma mixrdia!
-  horrvel! murmurou Ega.
Mas, dizia o senhor Guimares, que podia tambm fazer a Monforte? Que
diabo, era duro confessar  filha: Olha que eu fugi a teu pai, e ele por causa
disso matou-se! No tanto pela questo de pudor; a rapariga devia perceber
que a me tinha amantes, ela mesma aos dezoito anos, coitadinha, j tinha
um; mas por causa do tiro, do cadver, do sangue...
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-A mim mesmo! exclamou o senhor Guimares, parando, alargando os braos
na rua deserta. A mim mesmo nunca ela falou do marido, nem de Lisboa, nem
de Portugal. Lembra-me at uma ocasio em casa da Clemence, que eu aludi
a um cavalo lazo, um cavalo de Pedro da Maia, em que ela costumava
montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, falei s do cavalo. Pois
senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como uma bicha: - Dites
donc, mon cher, vous m'embtez avec ces histoires de l'autre monde!... Com
efeito, bem o podia dizer, eram historias do outro mundo! Para encurtar:
estou convencido que nos ltimos tempos ela mesmo julgava que Pedro da
Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim at bebia... Mas acabou-se! Tinha
grande corao, e portou-se muito bem com a Clemence. Parce sepultis!
-  horrvel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapu correndo a mo
tremula pela testa.
E agora o seu nico desejo era a acumulao incessante de provas, de
detalhes. Falou ento desses papeis, desse cofre da Monforte. O senhor
Guimares no sabia o que eles continham; e no se admiraria se fossem
apenas contas de modista, ou pedaos velhos do Figaro em que se falava
dela...
-  uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para
Londres com a filha. Era no tempo da guerra... J a Maria vivia com o irlands,
tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Comuna, todos aqueles
desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em Marselha. Foi
ento que a pobre Maria se meteu com o Castro Gomes, creio que para no
morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas no vi mais a Monforte, que j
estava muito doente...  Maria, colada ento a essa besta do Castro Gomes,
um pedante, um rastaquoure mesmo a calhar para a guilhotina, no tornei
tambm a falar. Se a encontrava era um comprimento de longe, como noutro
dia, quando a vi na carruagem com v. exc. e com o irmo... De sorte que fui
ficando com os papeis. Nem a falar a verdade, com estas coisas todas de
poltica, me lembrei mais deles. E agora a esto, s ordens da famlia.
- Se isso no fosse incomodo para v. exc., acudiu Ega, eu passava agora pelo
seu hotel e levava-os logo comigo...
- Incomodo nenhum! Estamos em caminho,  negocio que fica feito!
Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabara. Um bater de
carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto deles passaram duas
senhoras, com um rapaz que bracejava, falando alto do Alencar. O senhor
Guimares tirara lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para
raspar um fsforo:
- Ento a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ela?
Como foi isso?
Ega, que caminhava com a cabea cada, estremeceu como se acordasse. E
comeou a tartamudear uma historia confusa, de que ele mesmo corava na
sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fora o procurador que
descobrira. Ela rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os Maias
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davam-lhe uma mesada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como filha de um
Maia que morrera na Itlia. Todos gostaram muito dela, Afonso da Maia tinha
grande ternura pela pequena...
E de repente indignou-se com estas invenes por onde arrastava j o nome
do nobre velho, exclamou como se abafasse:
- Enfim, nem eu sei, um horror!
- Um drama! resumiu gravemente o senhor Guimares.
E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
emquanto ele corria acima buscar os papeis da Monforte.
S, no largo, Ega ergueu as mos ao cu num desabafo mudo daquela
angustia em que caminhava, como um sonmbulo, desde o Loreto. E a sua
nica sensao, bem clara - era a indestructivel certeza da historia do
Guimares, to compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
e se fizesse cair aos pedaos. O homem conhecera Maria Monforte em Lisboa,
ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavalo lazo; encontrara-a
em Paris j fugida, depois da morte do primeiro amante, vivendo com outros;
andra ento ao colo com Maria Eduarda a quem se davam bonecas... E desde
ento no deixara mais de vr Maria Eduarda, de a seguir: em Paris; no
convento de Tours; em Fontainebleau com o irlands; nos braos de Castro
Gomes; numa tipia de praa enfim com ele e com Carlos da Maia, havia dias,
no ces do Sodr! Tudo isto se encadeava, concordando com a historia
contada por Maria Eduarda. E de tudo ressaltava esta certeza monstruosa: -
Carlos amante da irm!
Guimares no descia. No segundo andar surgira uma luz viva, numa janela
aberta. Ega recomeou a passear lentamente pelo meio do largo. E agora,
pouco a pouco, subiu nele uma incredulidade contra esta catstrofe de
dramalho. Era acaso verosimil que tal se passasse, com um amigo seu, numa
rua de Lisboa, numa casa alugada  me Cruges?... No podia ser! Esses
horrores s se produziam na confuso social, no tumulto da Meia-Idade! Mas
numa sociedade burguesa, bem policiada, bem escripturada, garantida por
tantas leis, documentada por tantos papeis, com tanto registro de batismo,
com tanta certido de casamento, no podia ser! No! No estava no feitio da
vida contemporanea que duas crianas separadas por uma loucura da me,
depois de dormirem um instante no mesmo bero, cresam em terras
distantes, se eduquem, descrevam as parbolas remotas dos seus destinos -
para qu? Para virem tornar a dormir juntas no mesmo ponto, num leito de
concubinagem! No era possvel. Taes coisas pertencem s aos livros, onde
vm, como invenes subtis da arte, para dar,  alma humana um terror
novo... Depois levantava os olhos para a janela alumiada - onde o senhor
Guimares decerto rebuscava os papeis na mala. Ali estava porm esse
homem com a sua historia em que no havia uma discordncia por onde ela
pudesse ser abalada!... E pouco a pouco aquela luz viva, sada do alto, parecia
ao Ega penetrar nessa intrincada desgraa, aclar-la toda, mostrar-lhe bem a
lenta evoluo. Sim, tudo isso era provvel no fundo! Essa criana, filha de
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uma senhora que a levara consigo, cresce,  amante de um brasileiro, vem a
Lisboa, habita Lisboa. Num bairro vizinho vive outro filho dessa mulher, por
ela deixado, que cresceu,  um homem. Pela sua figura, o seu luxo, ele
destaca nesta cidade provinciana e pelintra. Ela por seu lado, loura, alta,
esplendida, vestida pela Laferrire, flr de uma civilizao superior, faz relvo
nesta multido de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e
do Aterro, onde todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com
o seu brilho pessoal, muito fatalmente se atraem! Ha nada mais natural? Se
ela fosse feia e trouxesse aos ombros uma confeco barata da loja da
Amrica, se ele fosse um mocinho encolhido de chapu cco, nunca se
notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o
conhecerem-se era certo, o amarem-se era provvel... E um dia o senhor
Guimares passa, a verdade terrvel estala!
A porta do hotel rangeu no escuro, o senhor Guimares adiantou-se, de bon
de sda na cabea, com o embrulho na mo.
- No podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.  sempre assim
quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!
- Perfeitamente, perfeitamente...
Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhara num
velho numero do Rapel. Ega meteu-a no bolso largo do seu palet: e
imediatamente, como se qualquer outra palavra entre eles fosse v, estendeu
a mo ao senhor Guimares. Mas o outro insistiu em o acompanhar at 
esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de bon. A noite, para quem vinha
de Paris, tinha uma doura oriental - e ele, com os seus habitos de jornalista,
nunca se deitava seno tarde, s duas, trs horas da madrugada...
E ento, caminhando devagar, com as mos nos bolsos e o charuto entre os
dentes, o senhor Guimares voltou  poltica e ao sarau. A poesia do Alencar
(de que esperra muito por causa do titulo, A Democracia) sara-lhe
consideravelmente chocha.
- Muita flr, muita farofia, muita liberdade, mas no havia ali um ataque em
forma, duas ou trs boas estocadas nesta choldra da monarchia e da corte...
Pois no  verdade?
- Sim, com efeito... - murmurou Ega, olhando ao longe, na esperana de uma
tipia.
-  como os jornais republicanos que por a ha... Tudo uma palhada, senhores,
tudo uma balofice!...  o que eu lhes digo a eles: -  almas do diabo, atacai
as questes sociais!
Felizmente um trem avanava, rolando devagar, do lado do Terreiro do Pao.
Ega, precipitadamente, deu um aperto de mo ao democrata, desejou-lhe uma
boa viagem, atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. Mas o senhor
Guimares ainda se apoderou da portinhola para aconselhar ao Ega que fosse
a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o apresentar a toda aquela
gente... E o senhor Ega veria! No era c a grande pose portugueza, destes
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imbecis, destes pelintras a darem-se ares, torcendo os bigodes. L, na
primeira nao do mundo, tudo era alegria e fraternidade e espirito a rodos...
- E a minha adresse, na redaco do Rapel! Bem conhecida no mundo!
Enquanto ao embrulhosinho fico descanado...
- Pde v. exc. ficar descanado!
- Criado de v. exc.... Os meus comprimentos  snr. D. Maria!
Na carruagem, atravs do Aterro, a anciosa interrogao do Ega a si mesmo
foi - que hei de fazer? Que faria, santo Deus, com aquele segredo terrvel que
possuia, de que s ele era senhor, agora que o Guimares partia, desaparecia
para sempre? E antevendo com terror todas as angustias em que essa
revelao ia lanar o homem que mais estimava no mundo - a sua instinctiva
idia foi guardar para sempre o segredo, deix-lo morrer dentro em si. No
diria nada; o Guimares sumia-se em Paris; e quem se amava continuava a
amar-se!... No crearia assim uma crise atroz na vida de Carlos - nem sofreria
ele, como companheiro, a sua parte dessas aflies. Que coisa mais
impiedosa, de resto, que estragar a vida de duas inocentes e adoraveis
creaturas, atirando-lhes  face uma prova de incesto!...
Mas, a esta idia de incesto, todas as consequncias desse silncio lhe
apareceram, como coisas vivas e pavorosas, flamejando no escuro diante dos
seus olhos. Poderia ele tranquilamente testemunhar a vida dos dois - desde
que a sabia incestuosa? Ir  rua de S. Francisco, sentar-se-lhes alegremente 
mesa, entrever atravs do reposteiro a cama em que ambos dormiam - e
saber que esta sordidez de pecado era obra do seu silncio? No podia ser...
Mas teria tambm coragem de entrar ao outro dia no quarto de Carlos, e
dizer-lhe em face - Olha que tu s amante de tua irm?
A carruagem parara no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada
particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Acendeu a sua palmatria;
entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns passos timidos no
tapete, que pareceram j soar tristemente. Um reflexo de espelho alvejou ao
fundo na sombra da alcova. E a luz caiu sobre o leito intacto, com a sua longa
colcha lisa, entre os cortinados de sda. Ento a idia que Carlos estava
quela hora na rua de S. Francisco, dormindo com uma mulher que era sua
irm, atravessou-o com uma cruel nitidez, numa imagem material, to viva e
real, que ele viu-os claramente, de braos enlaados, e em camisa... Toda a
beleza de Maria, todo o requinte de Carlos desapareciam. Ficavam s dois
animais, nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como ces, sob o
impulso bruto do cio!
Correu para o seu quarto, fugindo quela viso a que o escuro do corredor,
mal dissipado pela luz tremula, acentuava mais o relvo. Aferrolhou a porta;
acendeu  pressa sobre o toucador, uma depois da outra, com a mo agitada,
as seis velas dos candelabros. E agora aparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a
necessidade de contar tudo a Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a
cada instante, menos animo para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a
felicidade e a vida com uma revelao d'incesto. No podia! Outro que lho
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dissesse! Ele l estava depois para o consolar, tomar metade da sua dr,
carinhoso e fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos no viria de
palavras cadas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idias
passavam na sua pobre cabea, incoerentes e tontas. Pedir a Maria que
fugisse, desaparecesse... Escrever uma carta anonima a Carlos, com a
detalhada historia do Guimares... E esta confuso, esta ansiedade ia-se
resolvendo lentamente em dio ao senhor Guimares. Para que falara quele
imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para que lho
apresentra o Alencar? Ah! se no fosse a carta do Damaso... Tudo provinha
do maldito Damaso!
Agitando-se pelo quarto, ainda de chapu, os seus olhos caram num
sobrescrito pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do Vilaa.
E nem a abriu... Uma idia sulcra-o de repente. Contar tudo ao Vilaa!...
Porque no? Era o procurador dos Maias. Nunca para ele houvera segredos
naquela casa. E esta complicao singular de uma senhora da famlia,
considerada morta e que surge inesperadamente - a quem a pertencia aclarar
seno ao fiel procurador, ao velho confidente, ao homem que, por herana e
por destino, recebera sempre todos os segredos e partilhra todos os
interesses domsticos?... E sem pensar, sem aprofundar mais, fixou-se logo
nesta deciso salvadora, - que ao menos o sossegava, lhe tirava j do
corao um peso de ferro, sufocante e intolervel...
Devia acordar cedo, procurar Vilaa em casa. Escreveu numa folha de papel -
Acorda-me s sete. E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra onde
dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do escudeiro.
Quando subiu, mais calmo, - abriu ento a carta do Vilaa. Era uma curta linha
lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no Banco
Popular, se vencia da a dois dias...
- Sebo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada para
o cho.
VII
Pontual, s sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta ele
sentou-se na cama um salto - e logo todos os negros cuidados da vespera,
Carlos, a irm, a felicidade daquela casa acabada para sempre, se lhe
ergueram n'alma em sobressalto, como despertando tambm. A portada da
varanda ficara aberta; um ar silencioso e lvido de madrugada clareava atravs
do transparente de fazenda branca. Durante um momento Ega ficou olhando
em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou nos lenes, gozando
aquele bocado de calor e de conchego antes de ir afrontar fora as amarguras
do dia.
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E pouco a pouco, sob o tpido conchego dos cobertores em que se atabafara,
comeou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos til, essa correria
estremunhada a casa do Vilaa... De que servia procurar o Vilaa? No se
tratava ali de dinheiro, nem de demandas, nem de legalidade - de nada que
reclamasse a experiencia de um procurador. Era apenas introduzir um burgus
mais num segredo to terrivelmente delicado que ele mesmo se assustava de
o saber. E acochado mais sob a roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava
consigo:  uma tolice ir ao Vilaa!
De resto no poderia ele ajuntar em si bastante coragem para contar tudo a
Carlos, logo, nessa manh, claramente, virilmente? Era por fim aquele caso
to pavoroso como lhe parecera na vespera - um irreparavel desabamento de
uma vida de homem?... Ao p da quinta da me, em Celorico, no lugar de
Vouzeias, houvera um sucesso parecido, dois irmos que inocentemente iam
casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para os banhos. Os noivos
ficaram uns dias embatucados, como dizia o padre Serafim; mas por fim j
riam, muito amigos, muito divertidos, quando se tratavam de manos. O
noivo, um rapago bonito, contava depois que ia havendo uma mixrdia na
famlia. Aqui o engano seguira mais longe, as sensibilidades eram mais
requintadas; mas os seus coraes permaneciam livres de toda a culpa,
inocentes absolutamente. Porque ficaria pois a existncia de Carlos para
sempre estragada? A inconscincia impediu-lhe o remorso: e passado o
primeiro horror, de que lhe podia, na realidade, vir a definitiva dr? Smente
do prazer ter findado. Era ento como outro qualquer desgosto d'amor. Bem
menos atroz do que se Maria o tivesse trado com o Damaso!
De repente a porta abriu-se, Carlos apareceu exclamando:
- Ento que madrugada foi esta? Disse-me agora l em baixo o Baptista... 
aventura? duelo?
Trazia o palet todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a
gravata branca da vespera; e decerto chegara da rua de S. Francisco na tipia
que havia instantes Ega sentira parar na calada.
Ele sentara-se bruscamente na cama; e estendendo a mo para os cigarros,
sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vespera combinara uma
ida a Cintra com o Taveira... Por precauo mandra-se chamar... Mas no
sabia, acordara cansado...
- Que tal est o dia?
Justamente Carlos fora correr o transparente da janela. Ali, na mesa de
trabalho, colocada em plena luz, ficara a caixa da Monforte embrulhada no
Rapel. E Ega pensou num relance: - Se ele repara, se pergunta, digo tudo! -
O seu pobre corao ps-se a bater anciosamente no terror daquela deciso.
Mas o transparente um pouco perro subiu, uma facha de sol banhou a mesa -
e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um imenso alivio para o Ega.
- Ento, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos ps da cama. Com efeito no 
m idia... A Maria ainda ontem esteve tambm a falar de ir a Cintra...
Espera! Podamos fazer a patuscada juntos... amos no break, a quatro!
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E olhava j o relgio, calculando o tempo para atrelar, avisar Maria.
- O pior, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monculo, 
que o Taveira falou em irmos com umas raparigas...
Carlos encolheu os ombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres para
Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, v... Mas  luz do
Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
Ega embrulhou-se numa complicada historia, limpando o monculo  ponta do
lenol. No eram espanholas... Pelo contrario, umas costureiras, raparigas
srias... Ele tinha um compromisso antigo de ir a Cintra com uma delas, filha
de um Simes, um estofador que falira... Gente muito sria!...
Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da idia de
Cintra.
- Bem, acabou-se!... Vou ento tomar banho e depois a negcios... E tu, se
fres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ela gosta!...
Apenas Carlos saiu, Ega cruzou os braos desanimado, descoroado, sentindo
bem que no teria coragem nunca de dizer tudo. Que havia de fazer?... E de
novo, insensivelmente, se refugiou na idia de procurar o Vilaa, entregar-lhe
o cofre da Monforte. No havia homem mais honesto, nem mais pratico; e,
pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, quem melhor para encarar
aquela catstrofe sem paixo e sem nervos?... E esta falta de nervos do Vilaa
fixou-o definitivamente.
Saltou ento da cama, numa impacincia, repicou a campainha. E emquanto o
criado no entrava, foi, com o robe-de-chambre aos ombros, examinar o cofre
da Monforte. Parecia com efeito uma velha caixa de charutos, embrulhada
num papel de dobras j sujas e gastas, com marcas de lacre onde se
distinguia uma divisa que sria decerto a da Monforte - Pro amore. Na tampa
tinha escrito numa letra de mulher mal-ensinada - Monsieur Guimaran, 
Paris. Ao sentir os passos do criado deitou-lhe por cima uma toalha, que
pendia ao lado, numa cadeira. E da a meia hora rolava pelo Aterro numa
tipia descoberta, mais animado, respirando largamente aquele belo ar da
manh, fino e fresco, que ele to raras vezes gozava.
Comeou por uma contrariedade. Vilaa j sara: e a criada no sabia bem se
ele fora para o escritrio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega largou para o
escriptorio, na rua da Prata. O senhor Vilaa ainda no viera...
- E a que horas vir?
O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o colete
uma corrente de coral, balbuciou que o senhor Vilaa no devia tardar, se no
tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu
desesperado.
- Bem, gritou ao cocheiro, vai ao caf Tavares...
No Tavares, ainda solitrio quela hora, um moo areava o sobrado. E
emquanto esperava o almoo Ega percorreu os jornais. Todos falavam do
sarau, em linhas curtas, prometendo detalhes crticos, mais tarde, sobre esse
brilhante torneio artstico. S a Gazeta Ilustrada se alargava, com frases
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srias, tratando o Rufino de grandioso o Cruges de esperanoso: no Alencar a
Gazeta separava o filosofo do poeta; ao filosofo a Gazeta lembrava com
respeito que nem todas as aspiraes ideais da filosofia, belas como miragens
de deserto, so realizveis na pratica social; mas ao poeta, ao criador de to
formosas imagens, de to inspiradas estancias, a Gazeta desafogadamente
bradava bravo! bravo! Havia ainda outras abominveis sandices. Depois
seguia-se a lista das pessoas que a Gazeta se recordava de ter visto, entre as
quais destacava com o seu monculo o fino perfil de Joo da Ega, sempre
brilhante de verve. Ega sorriu, cofiando o bigode. Justamente o bife chegava,
fumegante, chiando na frigideirinha de barro. Ega pousou a Gazeta ao lado,
dizendo consigo: No  nada mal feito, este jornal!
O bife era excelente: - e depois de uma perdiz fria, de um pouco de doce de
anans, de um caf forte, Ega sentiu adelgaar-se enfim aquele negrume que
desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava ele, acendendo o charuto
e lanando os olhos ao relgio, naquele desastre praticamente encarado s
havia para Carlos a perda de uma bela amante. E essa perda, que agora o
angustiava, no traria depois compensaes? O futuro de Carlos at a tinha
uma sombra - aquela promessa de casamento que irreparavelmente o colava
pela honra a uma mulher muito interessante, mas com um passado cheio de
brasileiros e de irlandezes... A sua beleza poetisava tudo: mas quanto tempo
mais duraria esse encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... No sria
por fim aquela descoberta do Guimares uma libertao providencial? Da a
anos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido - e livre,
e rico, com o largo mundo diante de si!
O relgio do caf deu dez horas. Bem, vamos a isto, pensou Ega.
De novo a tipia bateu para a rua da Prata. O senhor Vilaa ainda no viera, o
escrevente estava realmente pensando que o senhor Vilaa fora ao Alfeite. E
diante desta incerteza, de repente, Ega ficou de novo descoroado, sem
coragem. Despediu a tipia: com o embrulho do cofre na mo foi andando
pela rua do Ouro, depois at ao Rocio, parando distrahidamente diante de um
ourives, lendo aqui e alm a capa de um livro na vitrine dos livreiros. Pouco a
pouco o negrume da vespera, um momento adelgaado, recahia-lhe n'alma
mais denso. J no via as libertaes nem as compensaes. S sentia
em torno de si, como fluctuando no ar, aquele horror - Carlos a dormir com a
irm.
Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e logo no
patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Vilaa que saa,
atarefado, calando as luvas.
- Homem, at que enfim!
- Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que est o
visconde do Torral  minha espera...
Ega quase o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se de uma coisa muito
urgente, muito sria! Mas o outro no se arredava da porta, acabando de
calar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.
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- O amigo bem v... Est o homem  espera!  um rendez-vous para as onze!
Ega, j furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto  face,
tragicamente, que se tratava de Carlos, de um caso de vida ou de morte!
Ento o Vilaa, num grande espanto, atravessou bruscamente o escriptorio,
fez entrar Ega num cubculo ao lado, estreito como um corredor, com um
canap de palhinha, uma mesa onde os livros tinham p, e um armario ao
fundo. Fechou a porta, atirou o chapu para a nuca:
- Ento que ?
Ega, com um gesto, indicou fora o escrevente que podia escutar. O procurador
abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel Pelicano pedir ao senhor
visconde do Torral a fineza de esperar meia hora... Depois, fechada a porta no
ferrolho, foi a mesma exclamao anciosa:
- Ento que ?
-  um horror, Vilaa, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de
comear.
Vilaa, j muito plido, pousou lentamente o guarda chuva sobre a mesa.
-  duelo?
- No...  isto... Voc sabia que o Carlos tinha relaes com uma senhor Mac-
Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou a?...
Uma senhora brazileira, mulher de um brasileiro, que passara o vero nos
Olivaes?... Sim, Vilaa sabia. Falra at nisso com o Eusebiosinho.
- Ah, com o Eusebio?... Pois no  brazileira!  portugueza, e irm dele!
Vilaa caiu para o canap, batendo as mos num assombro.
- Irm do Eusebio!
- Qual do Eusebio, homem!... Irm de Carlos!
Vilaa ficara mudo, sem compreender, com os olhos terrivelmente arregalados
para o outro, que se movia pelo cubculo, repetindo: irm! Irm legitima!
Ega por fim sentou-se no canap de palhinha; e baixo, muito baixo, apesar da
solido do escritrio, contou o seu encontro com o Guimares no sarau, e
como a verdade terrvel estalara casualmente, numa palavra,  esquina do
Aliana... Mas quando falou dos papeis, entregues pela Monforte ao
Guimares, ha tantos anos guardados, nunca reclamados, e que o democrata
agora, to de repente, to urgentemente, queria restituir  famlia - Vilaa, at
a esmagado e como emparvecido, despertou, teve uma exploso:
- Ali ha marosca! Tudo isso  para apanhar dinheiro!...
- Apanhar dinheiro! Quem?
- Quem? exclamou Vilaa de p, arrebatadamente. Essa senhora, esse
Guimares, essa tropa!...  que o amigo no percebe! Se aparecer uma irm
do Maia, legitima e autentica, so quatrocentos contos e pico que cabem 
irm do Maia!...
Ento os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impresso daquela
idia inesperada que a seu pesar abalava o Ega. Mas como o procurador,
tremulo, voltava  grande soma de quatrocentos contos, lembrava a
Companhia do Olho Vivo, Ega terminou por encolher os ombros:
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- Isso no tem verosimilhana nenhuma! Ela  incapaz, absolutamente
incapaz, de semelhante intriga. Alm disso, se  uma questo de dinheiro, que
necessidade tinha de se fazer passar como irm desde que Carlos lhe
prometera casar com ela?
Casar com ela! Vilaa erguia as mos, no queria acreditar. O qu! o senhor
Carlos da Maia dar a sua mo, o seu nome, a essa criatura amigada com um
brasileiro?... Santssimo nome de Deus! E atravs do assombro recrescia-lhe a
desconfiana, via a um novo feito do Olho Vivo.
- No senhor, Vilaa, no senhor! insistiu Ega, j impaciente. Se a questo 
de documentos e se ela os tinha, verdadeiros ou falsificados, apresentava-os
logo, no ia primeiro dormir com o irmo!
Vilaa baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o diante
daquela grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade, empolgada
por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava que de resto
a questo no era de documentos, nem de legalidade, nem de fortuna - o
procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:
- Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ela seja filha do italiano!
- E ento?... Vem a dar na mesma.
- Alto l! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. No tem direito
 legitima do pai, e no apanha um real desta casa!... Irra, a  que est o
ponto!
Ega teve um gesto desolado. No, nem isso, desgraadamente! Esta era a
filha do Pedro da Maia. O Guimares conhecia-a de a trazer ao colo, de lhe dar
bonecas quando ela tinha sete anos, e quando apenas havia quatro ou cinco
anos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com uma chumbada... A
filha desse morrera em Londres, pequenina.
Vilaa recaiu no canap, sucumbido.
- Quatrocentos contos, que bolada!
Ento Ega resumiu. Se no existia ainda uma certeza legal, havia j uma forte
suspeita. E desde logo no se podia deixar o pobre Carlos, inocentemente, a
chafurdar naquela sordidez. Era pois indispensvel revelar tudo a Carlos nessa
noite...
- E voc, Vilaa,  que tem de lho dizer.
Vilaa deu um salto que fez bater o canap contra a parede.
- Eu?
- Voc, que  o procurador da casa!
Que havia ali, seno uma questo de filiao, portanto de legitima? A quem
pertenciam esses detalhes legais seno ao procurador?
Vilaa murmurou com todo o sangue na face:
- Homem, o amigo mete-me numa!...
No. Ega metia-o apenas naquilo em que o Vilaa, como procurador,
logicamente e profissionalmente devia estar.
O outro protestou, to perturbado que gaguejava. Que diabo! No era
esquivar-se aos seus deveres! Mas  que ele no sabia nada! Que podia dizer
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ao senhor Carlos da Maia? O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe contou
um tal Guimares ontem  noite no Loreto... No tinha a dizer mais nada...
- Pois diga isso.
O outro encarou Ega com olhos que chamejavam:
- Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor,  necessrio ter topete!
Deu um puxo desesperado ao colete, foi bufando at ao fundo do cubculo,
onde esbarrou com o armrio. Voltou, tornou a encarar o Ega:
- No se vai a um homem com uma coisa dessas sem provas... Onde esto as
provas?...
-  Vilaa, desculpe, voc est obtuso!... A que vim eu aqui seno trazer-lhe
as provas, as que ha, boas ou ms, a historia do Guimares, essa caixa com
os papeis da Monforte?...
Vilaa, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mos, decifrando
o mote do sinete Pro amore.
- Ento, abrimo-la?
J Ega puxara uma cadeira para a mesa. Vilaa cortou o papel, gasto nos
cantos, que envolvia o cofre. E apareceu efectivamente uma velha caixa de
charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maos
apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescritos abertos que tinham o
monograma da Monforte sob uma coroa de marqus. Ega desembrulhou o
primeiro mao. Eram cartas em alemo, que ele no percebia, datadas de
Buda-Pest e de Carlsruhe.
- Bem, isto no nos diz nada... Adiante!
Outro embrulho, a que Vilaa cuidadosamente desapertou o n cor de rosa,
resguardava uma caixa oval com a miniatura de um homem de bigodes e
suissas ruivas, entalado na alta gola dourada de uma farda branca. Vilaa
achou a pintura linda.
- Algum oficial austriaco, rosnou Ega. outro amante... a marche.
Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em
relquias. Um largo envelope atulhado de contas de modistas, algumas pagas,
outras sem recibo, interessou profundamente o Vilaa - que percorria os
items, espantado dos preos, das infinitas invenes do luxo. Contas de seis
mil francos! Um s vestido, dois mil francos!... Outro mao trouxe uma
surpresa. Eram cartas de Maria Eduarda  me, escriptas do convento, numa
letra redonda e trabalhada como um desenho, com frasesinhas cheias de
gravidade devota, dictadas decerto pelas boas Irms; e nesta s composies,
virtuosas e frias como temas, o sincero corao da rapariga s transparecia
n'alguma florzinha, agora sca, pregada no alto do papel com um alfinete.
- Isto pe-se de parte, murmurou Vilaa.
Ento Ega, j impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou os
papeis. E entre cartas, entras contas, bilhetes de visita, um grande
sobrescrito destacou com esta linha a tinta azul: - Pertence a minha filha Maria
Eduarda. Foi Vilaa que lanou os olhos rapidamente  enorme folha de papel
que ele continha, luxuosa e documental, com o monograma de ouro sob a
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coroa de marqus. Quando o passou em silncio para a mo do Ega parecia
sufocado, com todo o sangue nas orelhas.
Ega leu-o alto, devagar. Dizia: - Como a Maria teve a pequena e anda muito
fraca, e eu tambm me no sinto nada boa com umas pontadas, parece-me
prudente, para o que possa vir a suceder, fazer aqui uma declarao que te
pertence a ti, minha querida filha, e que s sabe o padre Taloux (Mr. l'abb
Taloux, coadjuteur  Saint-Roch) porque lh'o disse ha dois anos quando tive a
pneumonia. E  o seguinte: Declaro que minha filha Maria Eduarda, que
costuma assignar Maria Calzaski, por supr ser esse o nome de seu pai, 
portugueza e filha de meu marido Pedro da Maia, de quem me separei
voluntariamente, trazendo-a comigo para Viena, depois para Paris, e que
agora vive em companhia de Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem
vai casar. E o pai de meu marido era meu sogro Afonso da Maia, viuvo, que
vivia em Bemfica e tambm em Santa Olavia ao p do rio Douro. O que tudo
se pode verificar em Lisboa pois devem l estar os papeis; e os meus erros de
que vejo agora as consequencias no devem impedir que tu, minha querida
filha, tenhas a posio e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro
tudo isto que assigno, no caso que o no possa fazer diante de um tabelio, o
que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier a morrer, o que
Deus no permitiu, peo perdo a minha filha. E assigno com o meu nome de
casada - Maria Monforte da Maia.
Ega ficou a olhar para o Vilaa. O procurador s pde murmurar, com as mos
cruzadas sobre a mesa:
- Que bolada! Que bolada!
Ento Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a
entregar aquele documento a Carlos, sem comentarios. Mas o Vilaa coava a
cabea, retomado por uma duvida:
- Eu no sei se este papelinho faria f em juizo...
- Qual f, qual juizo! exclamou Ega violentamente.  o bastante para que ele
no torne a dormir com ela!...
Uma pancada timida na porta do cubculo fl-o estacar, inquieto. Desandou a
chave. Era o escrevente, que segredou atravs da frincha:
- O senhor Carlos da Maia ficou agora l em baixo no carrinho quando eu
entrei, perguntou pelo senhor Vilaa.
Houve um pnico! Ega, atarantado, agarrara o chapu do Vilaa. O procurador
atirava s mos ambas, para dentro de uma gaveta, os papeis da Monforte.
-  talvez melhor dizer que no est, lembrou o escrevente.
- Sim, que no est! foi o grito abafado de ambos.
Ficaram  escuta, ainda plidos. O dog-cart de Carlos rolou na calada; os dois
amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de no terem mandado subir
Carlos - e ali mesmo, sem outras vacilaes nem pieguices, corajosamente,
contarem-lhe tudo, diante daqueles papeis bem abertos. E estava saltado o
barranco!
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- Homem, dizia o Vilaa passando o leno pela testa, as coisas querem-se
devagar, com mtodo.  necessrio preparar-se a gente, respirar para dar
bem o mergulho...
Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros
papeis da caixa perdiam o interesse depois daquela confisso da Monforte. S
restava que Vilaa aparecesse  noite no Ramalhete s oito e meia, ou nove
horas, antes de Carlos subir para a rua de S. Francisco.
- Mas o amigo ha de l estar! exclamou o procurador, j aterrado.
Ega prometeu. Vilaa teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde
viera acompanhar o outro:
- Uma destas, uma destas!... E eu ainda, to contente, a jantar no
Ramalhete...
- E eu, com eles, na rua de S. Francisco!...
- Enfim, at  noite !
- At  noite.
Ega no se atreveu nesse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de Carlos,
a vr-lhe a alegria e a paz - sentindo aquela negra desgraa que descia sobre
ele  maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao marqus, que desde o
sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. Depois, s oito e meia,
quando calculou que Vilaa devia estar j no Ramalhete, deixou o marqus
que se enfronhara com o capelo numa partida de damas.
Aquele lindo dia, toldado de tarde, findara numa chuvinha mida que transia
as ruas. Ega tomou uma tipia. E parava no Ramalhete, j terrivelmente
nervoso, quando avistou Vilaa no portal, de guarda chuva sob o brao,
arregaando as calas para subir.
- Ento? gritou-lhe o Ega.
Vilaa abriu o guarda chuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:
- No foi possvel... Disse que tinha muita pressa, que no me podia ouvir.
Ega bateu o p, desesperado:
- Oh homem!
- Que quer o amigo? Havia de o agarrar  fora? Ficou para amanh... Tenho
de c estar amanh s onze horas.
Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: Irra! no samos desta! Foi
at ao escritrio de Afonso. Mas no entrou. Atravs de uma fenda larga do
reposteiro meio franzido, um canto da sala aparecia, quente e cheio de
conchego, no doce tom cor de rosa da luz caindo sobre os damascos: as cartas
esperavam na mesa do whist: no sof bordado a matiz D. Diogo, murcho e
mole, olhava o lume, cofiando os bigodes. E, travadas nalguma questo, a voz
do Craft, que perpassou de cachimbo na mo, e a voz mais lenta de Afonso,
tranqilo na sua poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que
berrava furiosamente: - Mas se amanh houvesse uma bernarda, esse
exercito com que os senhores querem acabar por ser uma escola de vadiagem
 que lhes havia de guardar as costas...  bom falar, ter muita filosofia! Mas
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quando elas chegam, se no ha meia duzia de baionetas promptas, ento so
as clicas!...
Ega foi d'ali aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas serpentinas: um
aroma errava de gua de Lubin e charuto: e o Baptista disse-lhe que o
senhorD. Carlos sara havia dez minutos. Fora para a rua de S. Francisco! Ia
l dormir! Ento enervado, com a longa e triste noite diante de si, Ega teve
um apetite de se atordoar, dissipar numa excitao forte as idias que o
torturavam. No despedira a tipia, abalou para S. Carlos. E findou por ir cear
ao Augusto com o Taveira e duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosofa,
prodigalisando o champagne. s quatro da manh estava bebedo, estatelado
sobre o sof, gemendo sentimentalmente, s para si, as estrofes de Musset 
Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, ele com o seu ar
terno de chulo, ela mui caliente tambm, debicavam copinhos de gelatina. E a
Carmen Philosofa, empanturrada, desapertada, com o colete embrulhado j
num Dirio de Noticias, repicava a faca na borda do prato, cantarolando
d'olhos perdidos nos bicos de gaz:
Seor Alcalde maior,
No prenda usted los ladrones...
Acordou ao outro dia s nove horas, ao lado da Carmen Philosofa, num quarto
de grandes janelas rasgadas por onde entrava toda a melancolia da escura
manh de chuva. E, emquanto no vinha a tipia fechada que a servente
correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lngua pastosa, os ps
ns sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha s uma idia clara - fugir
d'ali para um grande banho, bem perfumado e bem fresco, onde se purificasse
numa sensao viscosa de Carmen e d'orgia que o arrepiava.
Esse banho lustral foi tom-lo ao Hotel Braganza, para se encontrar com
Carlos e com Vilaa s onze horas j lavado e preparado. Mas precisou esperar
pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o Baptista, voara a
buscar ao Ramalhete: depois almoou: e j batera meio dia quando se apeou
 porta particular dos quartos de Carlos, com a roupa suja numa trouxa.
Justamente Baptista atravessava o patamar com camlias num aafate.
- O Vilaa j veio? Perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de ps.
- O senhor Vilaa j l est dentro ha bocado. V. exc. recebeu a roupa
branca?... Eu tambm mandei um fato, porque nesses casos sempre d mais
frescura...
- Obrigado, Baptista, obrigado!
E Ega pensava: - Bem, Carlos j sabe tudo, o barranco est passado! Mas
demorou-se ainda, tirando as luvas e o palet com uma lentido cobarde. Por
fim, sentindo bater alto o corao, puxou o reposteiro de veludo. Na
antecmara pesava um silncio; a chuva grossa fustigava a porta envidraada,
por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa. Ega levantou o
outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.
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- Ah! s tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns
papeis na mo.
Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe
rebrilhavam, com um fulgor seco, ansiosos e mais largos na palidez que o
cobria. Vilaa, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa, num
movimento cansado, o leno de sda da ndia. Sobre a mesa alastravam-se os
papeis da Monforte.
- Que diabo de embrulhada  esta que me vem contar o Vilaa? rompeu
Carlos, cruzando os braos diante do Ega, numa voz que apenas de leve
tremia.
Ega balbuciou:
- Eu no tive coragem de te dizer...
- Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?
Vilaa ergueu-se imediatamente. Ergueu-se com a pressa de um galucho
tmido que  rendido num posto arriscado, pediu licena, se no precisavam
dele, para voltar ao escritrio. Os amigos decerto preferiam conversar mais
livremente. De resto, ali ficaram os papeis da snr. D. Maria Monforte. E se ele
fosse necessrio um recado encontrava-o na rua da Prata ou em casa...
- E v. exc. compreende, acrescentou ele enrolando nas mos o leno de sda,
eu tomei a iniciativa de vir falar, por ser o meu dever, como amigo
confidencial da casa... Foi essa tambm a opinio do nosso Ega...
- Perfeitamente, Vilaa, obrigado! acudiu Carlos. Se fr necessrio l mando...
O procurador, com o leno na mo, lanou em redor um olhar lento. Depois
espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surpreendido. E Carlos seguia com
impacincia os passos tmidos que ele dava pelo quarto, procurando...
- Que , homem?
- O meu chapu. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou l
fora... Bem, se fr necessrio alguma coisa...
Mal ele saiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos fechou
violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, caindo pesadamente numa
cadeira:
- Dize l!
Ega, sentado no sof, comeou por contar o encontro com o senhor
Guimares, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter falado o Rufino.
O homem queria explicaes sobre a carta do Damaso, sobre a bebedeira
hereditria... Tudo se aclarara, ficando da entre eles um comeo de
familiaridade...
Mas o reposteiro mexeu de leve - e surdiu de novo a face do Vilaa:
- Peo desculpa, mas  o meu chapu... No o acho, havia de jurar que o
deixei aqui...
Carlos conteve uma praga. Ento Ega procurou tambm, por traz do sof, no
vo da janela. Carlos, desesperado, para findar, foi vr entre os cortinados da
cama. E Vilaa, escarlate, aflicto, esquadrinhava at a alcova do banho...
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- Um sumio assim! Enfim, talvez me esquecesse na antecmara!... Vou vr
outra vez... O que peo  desculpa.
Os dois ficaram ss. E Ega recomeou, detalhando como Guimares, duas ou
trs vezes nos intervalos, lhe viera falar de coisas indiferentes, do sarau, de
poltica, do pap Hugo, etc. Depois ele procurara Carlos para irem um bocado
ao Grmio. Terminara por sair com o Cruges. E passavam defronte do
Aliana...
Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdo a suas excelencias:
-  o senho rVilaa que no acha o chapu, diz que o deixou aqui...
Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para
despachar o Baptista.
- Vai para o diabo tu e o senhor Vilaa!... Que sia sem chapu! D-lhe o meu!
Irra!
Baptista recuou, muito grave.
V, acaba l! exclamou Carlos, recaindo no assento, mais plido.
E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrvel conversa com o Guimares,
desde o momento em que o homem por acaso, j ao despedir-se, j ao
estender-lhe a mo, falra da irm do Maia. Depois entregara-lhe os papeis
da Monforte  porta do Hotel de Paris, no Pelourinho...
- E aqui est, no sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas no tive
coragem de te dizer. Fui ao Vilaa... Fui ao Vilaa com a esperana sobretudo
de ele saber algum facto, ter algum documento que atirrasse por terra toda
esta historia do Guimares... No tinha nada, no sabia nada. Ficou to
aniquilado como eu!
No curto silncio que caiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo do
jardim, cantou nas vidraas. Carlos ergueu-se arrebatadamente, numa revolta
de todo o ser:
- E tu acreditas que isso seja possvel? Acreditas que suceda a um homem
como eu, como tu, numa rua de Lisboa? Encontro uma mulher, lho para ela,
conheo-a, durmo com ela e, entre todas as mulheres do mundo, essa
justamente ha de ser minha irm!  impossvel... No ha Guimares, no ha
documentos que me convenam!
E como Ega permanecia mudo, a um canto do sof, com os olhos no cho:
- Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Dvida tambm, homem, duvda
comigo!...  extraordinrio! Todos vocs acreditam, como se isto fosse a coisa
fosse a coisa mais natural do mundo, e no houvesse por essa cidade fora
seno irmos a dormir juntos!
Ega murmurou:
- J ia sucedendo um caso assim, l ao p da quinta, em Celorico...
E neste momento, sem que um rumor os prevenisse, Afonso da Maia apareceu
numa abertura do reposteiro, encostada  bengala, sorrindo todo com alguma
idia que decerto o divertia. Era ainda o chapu do Vilaa.
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- Que diabo fizeram vocs ao chapu do Vilaa? O pobre homem andou por a
aflicto... Teve de levar um chapu meu. Caa-lhe pela cabea abaixo,
enchumaaram-lho com lenos...
Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na
atarantao do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo ansiosamente dele
para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo lento:
- Que  isso, que tm vocs?... Ha alguma coisa?
Ento Carlos, no ardente egosmo da sua paixo, sem pensar no abalo cruel
que ia dar ao pobre velho, cheio s de esperana que ele, seu av,
testemunha do passado, soubesse algum facto, possusse alguma certeza
contraria a toda essa historia de Guimares, a todos esses papeis da Monforte
- veio para ele, desabafou:
- Ha uma coisa extraordinria, av! O av talvez saiba... O av deve saber
alguma coisa que nos tire desta aflico!... Aqui est, em duas palavras. Eu
conheo a uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora na rua de S.
Francisco. Agora de repente descobre-se que  minha irm legitima!... Passou
a um homem que a conhecia, que tinha uns papeis... Os papeis a esto. So
cartas, uma declarao de minha me... Enfim uma trapalhada, um monto de
provas... Que significa tudo isto? Essa minha irm, a que foi levada em
pequena, no morreu?... O av deve saber!
Afonso da Maia, que um tremor tomra, agarrou-se um momento com fora 
bengala, caiu por fim pesadamente numa poltrona, junto do reposteiro. E ficou
devorando o neto, o Ega, com o olhar esgazeado e mudo.
- Esse homem, exclamou Carlos,  Guimares, um tio do Damaso... Falou com
o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao av, Ega, conta tu do
comeo!
Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer que o
importante, o decisivo ali era este homem, o Guimares, que no tinha
interesse em mentir e s por acaso, puramente por acaso, falra em tais
coisas - conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de Pedro da Maia
e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a crescer em Paris,
andara com ela ao colo, dera-lhe bonecas. Visitra-a com a me no convento.
Frequentra a casa que ela habitava em Fontainebleau, como casada...
- Enfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, numa carruagem, comigo e
com o Ega... Que lha parece, av?
O velho murmurou, num grande esforo, como se as palavras saindo lhe
rasgassem o corao:
- Essa senhora, est claro, no sabe nada...
Ega e Carlos, a um tempo, gritaram: - No sabe nada! Segundo afirmava o
Guimares, a me escondera-lhe sempre a verdade. Ela julgava-se filha de um
autriaco. Assignava-se ao principio Calzaski...
Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mo:
- Aqui tem o av a declarao de minha me.
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O velho levou muito tempo a procurar. a tirar a luneta d'entre o colete com os
seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar, empalidecendo mais a
cada linha, respirando penosamente; ao findar deixou cahir sobre os joelhos
as mos, que ainda agarravam o papel, ficou como esmagado e sem fora. As
palavras por fim vieram-lhe apagadas, morosas. Ele nada sabia... O que a
Monforte ali assegurava, ele no podia destruir... Essa senhora da rua de S. de
Francisco era talvez na verdade sua neta... No sabia mais...
E Carlos diante dele vergava os ombros, esmagado tambm sob a certeza da
sua desgraa. O av, testemunha do passado, nada sabia! Aquela declarao,
toda a historia do Guimares a permaneciam inteiras, irrefutaveis. Nada
havia, nem memria de homem, nem documento de escrito, que as pudesse
abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irm!... E um defronte do outro, o velho e
o neto pareciam dobrados por uma mesma dor - nascida da mesma idia.
Por fim Afonso ergueu-se, fortemente encostado  bengala, foi pousar sobre a
mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, s cartas espalhadas
em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente, passando a mo pela
testa:
- Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criana tinha morrido...
Fizeram-se todas as pesquisas... Ela mesma disse que lhe tinha morrido a
filha, mostrou j no sei a quem um retrato...
- Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimares falou-me
nisso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha j sete ou oito anos, quando havia
apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano aparecera em Lisboa... Foi
esta.
- Foi esta, murmurou o velho.
Teve um gesto vago de resignao, acrescentou, depois de respirar
fortemente:
- Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a chamar
o Vilaa... Talvez seja necessrio que ele v a Paris... E antes de tudo
precisamos sossegar... De resto no ha aqui morte d'homem... No ha aqui
morte d'homem!
A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mo a Carlos que lha beijou,
sufocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os lbios na testa.
Depois deu dois passos para a porta, to lentos e incertos que Ega correu para
ele:
- Tome v. exc. o meu brao...
Afonso apoiou-se nele, pesadamente. Atravessaram a antecmara silenciosa
onde a chuva contnua batia nos vidros. Por traz deles caiu o grande reposteiro
com as armas dos Maias. E ento Afonso, de repente, soltando o brao do Ega,
murmurou-lhe, junto  face, no desabafo de toda a sua dor:
- Eu sabia dessa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o vero
nos Olivaes...  a amante dele!
Ega ainda balbuciou: No, no, senhor Afonso da Maia! Mas o velho ps o
dedo nos lbios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se, todo
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dobrado sobre a bengala, vencido enfim por aquele implacvel destino que
depois de o ter ferido na idade de fora com a desgraa do filho - o esmagava
ao fim de velhice com a desgraa do neto.
Ega enervado, exausto, voltou para o quarto - onde Carlos recomeara
naquele agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente os
frascos de cristal sobre o mrmore da console. Calado, junto da mesa, Ega
ficou percorrendo outros papeis da Monforte - cartas, um livrinho de
marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockei Club e de
senadores do imprio. Subitamente Carlos parou diante dele, apertando
desesperadamente as mos:
- Estarem duas criaturas em pleno cu, um idiota, um Guimares, dizer duas
palavras, entregar uns papeis e quebrar para sempre duas existncias!... Olha
que isto  horrvel, Ega!
Ega arriscou uma consolao banal:
- Era pior se ela morresse...
- Pior porque? exclamou Carlos. Se ela morresse, ou eu, acabava o motivo
desta paixo, restava a dor e a saudade, era outra coisa... Assim estamos
vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixo que nos unia!... Pois tu
imaginas que por me virem provar que ela  minha irm, eu gosto menos dela
do que gostava ontem, ou gsto de um modo diferente? Est claro que no! O
meu amor no se via de uma hora para a outra acomodar a novas
circumstancias, e transformar-se em amizade... Nunca! Nem eu quero!
Era uma brutal revolta - o seu amor defendendo-se, no querendo morrer, s
porque as revelaes de um Guimares e uma caixa de charutos cheia de
papeis velhos o declaravam impossvel, e lhe ordenavam que morresse!
Houve outro melanclico silncio. Ega acendeu uma cigarrete, foi-se enterrar
ao canto do sof. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda aquela emoo, da
noitada do Augusto, da estremunhada manh na alcova da Carmen. Todo o
quarto foi entristecendo,  luz mais triste da tarde d'inverno que descia. Ega
terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa o sacudiu outra exclamao
de Carlos, que de novo, diante dele, apertava as mos com desespero:
- E o pior ainda no  isto, Ega! O pior  que temos de lhe dizer tudo, a ela!...
Ega j pensra n'isso... E era necessrio que se lhe dissesse imediatamente,
sem hesitaes.
- Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos.
- Tu!?
- Pois quem, ento? Querias que fosse o Vilaa?...
Ega franzia a testa:
- O que tu devias fazer era meter-te esta noite no comboio, e partir para
Santa Olavia. De l contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.
Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga:
- Sim, talvez, amanh, no comboio da noite... J pensei nisso, era o melhor...
Agora o que estou  muito cansado!
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- Tambm eu, disse o Ega espreguiando-se. E j no adiantamos nada,
atolamo-nos mais na confuso. O melhor  serenar... Eu vou-me estirar um
bocado na cama.
- At logo!
Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu imenso cansao
bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era Carlos que
entrava, raspando um fsforo. Anoitecera, em baixo tocava a campainha para
o jantar.
- Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos acendendo as velas no
toucador. No termos um pretexto para irmos fora, a uma taverna, conversar
em sossego! Ainda por cima convidei ontem o Steinbroken.
Depois voltando-se:
-  Ega, tu achas que o av sabe tudo?
O outro saltara da cama, e diante do lavatrio arregaava as mangas:
- Eu te digo... Parece-me que teu av desconfia... O caso fez-lhe a impresso
de uma catastrofe... E, se no suspeitasse o que ha, devia-lhe causar
simplesmente a surpresa de quem descobre uma neta perdida.
Carlos teve um lento suspiro. Da a um instante desciam para o jantar.
Em baixo encontraram, alm de Steinbroken e D. Diogo - o Craft, que viera
pedir as sopas. E em trno quela mesa, sempre alegre, coberta de flores e
de luzes, uma melancolia fluctuava nessa tarde atravs de uma conversa
dormente sobre doenas, - o Sequeira que tinha reumatismo, o pobre
marqus piorara.
De resto Afonso, no escritorio, queixra-se de uma forte dr de cabea, que
justificava o seu ar consumido e plido. Carlos, a quem Steinbroken achra
m cara, explicou tambm que passara uma noite abominavel. Ento Ega,
para desanuviar o jantar, pediu ao amigo Steinbroken as suas impresses
sobre o grande orador do sarau da Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou.
Surpreendera-o bastante saber que o Rufino era um poltico, um
parlamentar... Aqueles gestos, o bocado da camisa a vr-se-lhe no estomago,
a pera, a grenha, as botas, no lhe pareciam realmente de um Homem
d'Estado:
- Mais cependant, cependant... Dans ce genre , dans le genre sublime, dans
le genre de Demostnes, il m'a paru trs fort... Oh, il m'a paru excessivement
fort!
- E voc, Craft?
Craft, no sarau, s gostara do Alencar. Ega encolheu violentamente os
ombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a democracia
romntica do Alencar, aquela Republica meiga e loura, vestida de branco como
Ofelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft justamente achava
tudo isso excelente por ser sincero. O que feria sempre nas exibies da
literatura portugueza? A escandalosa falta de sinceridade. Ningum, em verso
ou prosa, parecia jamais acreditar naquilo que declamava com ardor,
esmurrando o peito. E assim fora na vespera. Nem o Rufino parecia acreditar
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na influencia da religio; nem o homem da barba bicuda no herosmo dos
Castros e dos Albuquerques; nem mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na
bonitice dos olhinhos... Tudo contrafeito e postio! Com o Alencar, que
diferena! Esse tinha uma f real no que cantava, na Fraternidade dos povos,
no Cristo republicano, na Democracia devota e coroada d'estrelas...
- J deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava bolinhas
de po entre os longos dedos palidos.
Carlos, ao lado, emergiu enfim do seu silncio:
- O Alencar deve ter bons cincoenta anos.
Ega jurou pelo menos sessenta. J em 1836 o Alencar publicava coisas
delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que
seduzira...
- Ha que anos, com efeito, murmurou lentamente Afonso, eu ouvi falar desse
homem!
D. Diogo, que levara os lbios ao copo, voltou-se para Carlos:
- O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, dessa roda
distingue de ento. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D. Joo da
Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flr, e regulavam
pela mesma idade... J nada resta, j nada resta!
- Carlos baixara os olhos: todos por acaso emudeceram: um ar de tristeza
passou entre as flores e as luzes como vinda do fundo desse passado, cheio de
sepulturas e dores.
- E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir aquela
nevoa.
Craft achava o fiasco justo. Para que fora ele dar Beethoven a uma gente
educada pela chulice de Ofenbach? Mas Ega no admitia esse desdem por
Ofenbach, uma das mais finas manifestaes modernas do scepticismo e da
ironia! Steinbroken acusou Ofenbach de no saber contra-ponto. Durante um
momento discutiu-se musica. Ega acabou por sustentar que nada havia em
arte to belo como o fado. E apelou para Afonso, para o despertar.
- Pois no  verdade, senhor Afonso da Maia? V. exc. tambm  como eu, um
dos fieis ao fado,  nossa grande creao nacional.
- Sim, com efeito, murmurou o velho, levando a mo  testa, como a justificar
o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no fado...
- Craft porm atacava o fado, as malagueas, as peteneras - toda essa musica
meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo, prolongado
infinitamente, em ais de esterilidade e de preguia. Ele, por exemplo, ouvira
uma noite uma malaguea, uma dessas famosas malagueas, cantada em
perfeito estilo por uma senhora de Malaga. Era em Madrid, em casa dos Vila-
Rubia. A senhora pe-se ao piano, rosna uma coisa sobre piedra e sepultura, e
rompe a gemer num gemido que no findava - -----ah... Pois senhores,
ele aborrece-se, passa para a outra sala, v jogar todo um robber de whist,
folheia um imenso album, discute a guerra carlista com o general Jovelos, e
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quando volta, l estava ainda a senhora, de cravos na trana e olhos no tecto,
a gemer o mesmo - -----ah!...
Todos riram. Ega protestou com mpeto, j excitado. O Craft era um seco
ingls, educado sobre o chato seio da Economia Poltica, incapaz de
compreender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas ele no
falava das malagueas. No estava encarregado de defender a Espanha. Ela
possua, para convencer o Craft e outros britnicos, bastante pilhria e
bastante navalha... A questo era o fado!
- Onde  que voc tem ouvido o fado? Ali pelas salas, ao piano... Com efeito
assim, concordo,  chcho. Mas oua-o voc por trs ou quatro guitarristas,
uma noite, no campo, com uma bela lua no co... Como nos Olivaes este
vero, quando o marqus l levou o Vira-vira! Lembras-te, Carlos?...
E estacou, como enlatado, no arrependimento daquela memria da toca que
levianamente evocara. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra na
face. Craft ainda rosnou que, numa linda noite de luar, todos os sons do
campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma estranha
desanimao amoleceu a sala; os escudeiros serviam os doces.
Ento, no silncio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua majestade de
leo saudoso que relembra um grande passado:
- Uma musica tambm muito distingue antigamente eram os sinos do
mosteiro. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... J no ha disso!
O jantar terminava friamente. Steinbroken voltara quela falta da famlia real
no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ningum ali se interessava pelo
Pao. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa historia sobre a
infanta D. Isabel. Foi um alivio quando o escudeiro trouxe em volta a larga
bacia de prata e o jarro d'gua perfumada.
Ao fim do caf, servido no bilhar, Steinbroken e Craft comearam uma partida
s cincoenta e a quinze tostes para interessar. Afonso e D. Diogo tinham
recolhido ao escritrio. Ega enterrra-se no fundo de uma poltrona, com o
Figaro. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no tapete, cerrou os
olhos. Ento Carlos, que passeava pensativamente fumando, olhou um
momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do reposteiro.
Ia  rua de S. Francisco.
Mas no se apressava, a p pelo Aterro, abafado num palet de peles,
acabando o charuto. A noite clarera, com o crescente de lua entre farrapos
de nuvens brancas, que fugiam sobre um norte fino.
Fra nessa tarde, s no seu quarto, que Carlos decidira ir falar a Maria
Eduarda - por um motivo supremo de dignidade e de razo, que ele descobrira
e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar. Nem ela nem ele
eram duas crianas frouxas, necessitando que a crise mais temerosa da sua
vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou pelo Vilaa: mas duas
pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e o juzo bastante seguro,
para eles mesmos acharem o caminho da dignidade e da razo naquela
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catstrofe que lhes desmantelava a existncia. Por isso ele, s ele devia ir 
rua de S. Francisco.
Decerto era terrvel tornar a v-la naquela sala, quente ainda do seu amor,
agora que a sabia sua irm... Mas porque no? Havia acaso ali dois devotos,
possudos da preocupao do demnio, espavoridos pelo pecado em que se
tinham atolado ainda que inconscientemente, ansiosos por irem esconder no
fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do outro? No! Necessitavam
eles acaso pr imediatamente entre si as compridas lguas que vo de Lisboa
a Santa Olavia, com receio de cair na antiga fragilidade, se de novo os seus
olhos se encontrassem com a antiga chama? No! Ambos tinham em si
bastante fora para enterrar o corao sobre a razo, como sob uma fria e
dura pedra, to completamente que no lhe sentissem mais nem a revolta
nem o choro. E ele podia desafogadamente voltar quela sala, toda quente
ainda do seu amor...
De resto, que precisavam apelar para a razo, para a sua coragem de
fortes?... Ele no ia revelar bruscamente toda a verdade a Maria Eduarda,
dizer-lhe um adeus! pattico, um adeus de teatro, afrontar uma crise de
paixo e dor. Pelo contrario! Toda essa tarde, atravs do seu prprio
tormento, procurara anciosamente um meio de adoar e graduar quela pobre
criatura o horror da revelao que lhe devia. E achara um por fim, bem
complicado, bem cobarde! Mas que! Era o nico, o nico que por uma
preparao lenta, caridosa, lhe pouparia uma dr fulminante e brutal. E esse
meio justamente s era praticavel indo ele, com toda a frieza, com todo o
animo,  rua de S. Francisco.
Por isso ia - e ao longo do Aterro retardando os passos, resumia, retocava
esse plano, ensaiando mesmo consigo, baixo, palavras que lhe diria. Entraria
na sala, com um grande ar de pressa - e contava-lhe que um negocio de casa,
uma complicao de feitores o obrigava a partir para Santa Olavia da a dias. E
imediatamente saa, com o pretexto de correr a casa do procurador. Podia
mesmo ajuntar -  um momento, no tardo, at j. Uma coisa o inquietava.
Se ela lhe dsse um beijo?... Decidia ento exagerar a sua pressa,
conservando o charuto na bca, sem mesmo pousar o chapu... E saa. No
voltava. Pobre dela, coitada, que ia esperar at tarde, escutando cada rumor
de carruagem na rua!... Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o
Ega, deixando-lhe a ela uma carta a anunciar que infelizmente, por causa de
um telegrama, se viria forado a partir nesse comboio. Podia mesmo ajuntar -
volto daqui a dois ou trs dias... E a estava longe dela para sempre. De
Santa Olavia escrevia-lhe logo, de um modo incerto e confuso, falando de
documentos de famlia, inesperadamente descobertos, provocando entre eles
um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto,  pressa. Por fim
noutra carta deixava escapar toda a verdade, mandava-lhe a declarao da
me; e mostrando a necessidade de uma separao, emquanto se no
esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris. Vilaa
ficava encarregado da questo de dinheiro, entregando-lhe logo para a viagem
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trezentas ou quatrocentas libras... Ah! Tudo isto era bem complicado, bem
covarde! Mas s havia esse meio. E quem, seno ele, o podia tentar com
caridade e com tacto?
E, entre o tumulto destes pensamentos, de repente achou-se na travessa da
Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, atravs das cortinas,
transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado - a janela do
gabinete estreito onde ela se vestia, a varanda do quarto dela com os vasos
de chrisantemos.
E pouco a pouco aquela fachada muda donde apenas saa, a um canto, uma
claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente penetrando de
inquietao e desconfiana. Era uma medo dessa penumbra mole que sentia l
dentro, toda cheia de calor e do perfume em que havia jasmim. No entrou;
seguiu devagar pelo passeio fronteiro, pensando em certos detalhes da casa -
o sof largo e profundo com almofadas de sda, as rendas do toucador, o
cortinado branco da cama dela... Depois parou diante da larga barra de
claridade que saa do porto do Grmio; e foi para l, maquinalmente atrado
pela simplicidade e segurana daquela entrada, lajeada de pedra, com grossos
bicos de gs, sem penumbras e sem perfumes.
Na sala, em baixo, ficou percorrendo sem os compreender, os telegramas
soltos sobre a mesa. Um criado passou, ele pediu conhaque. Teles da Gama,
que vinha de dentro assobiando, com as mos nos bolsos do palet, deteve-se
um momento para lhe perguntar se ia na tera-feira aos Gouvarinhos.
- Talvez, murmurou Carlos.
- Ento venha!... Eu ando a arrebanhar gente... So os anos do Charlie, de
mais a mais. Cai l o peso do mundo, e ha ceia!...
O criado entrou com a bandeja - e Carlos, de p junto da mesa, remexendo o
acar no copo, recordava, sem saber porque, aquela tarde em que a
condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia o
sof onde ela cara com um rumor de sedas amarrotadas... Como tudo isto era
j vago e remoto!
Apenas acabou o conhaque saiu. Agora, caminhando rente das casas, no via
aquela fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo nos
vidros. O porto ficra cerrado, o gsardia no patamar. E subiu, sentindo mais
pela escada de pedra as pancadas do corao que o pousar dos seus passos.
Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um pouco cansada, se fora
encostar sobre a roupa; - e a sala, com efeito, parecia abandonada por essa
noite, com as serpentinas apagadas, o bordado ocioso e enrolado no seu
cesto, os livros num frio arranjo orlando a mesa onde o candieiro espalhava
uma luz tenue sob o abat-jour de renda amarela.
Carlos tirara as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietao
ante aquele recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de dentro,
rindo, pulando, com os cabelos soltos nos ombros, os braos abertos para ele.
Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: L vem a cabrita!... 
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Mas ento, quando a tinha assim suspensa, batendo os psinhos - atravessouo
a idia de que aquela criana era sua sobrinha e tinha o seu nome!...
Largou-a, quase a deixou cair - assombrado para ela, como se pela vez
primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde corria o seu sangue...
- Que ests tu a olhar para mim? murmurou ela, recuando com as mosinhas
cruzadas atrs das saias que tufavam.
Ele no sabia, parecia-lhe outra Rosa: e  sua perturbao misturava-se uma
saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame MacGren, a
quem ele contava historias de Joana d'Arc, a quem balouava na Toca sob as
acacias em flr. Ela no entanto sorria mais, com um brilho nos dentinhos
miudos, uma ternura nos belos olhos azuis, vendo-o assim to grave e to
mudo, pensando que ele ia brincar, fazer voz de Carlos Magno. Tinha o
mesmo sorriso da me, com a mesma covinha no queixo. Carlos viu n'ela de
repente toda a graa de Maria, todo o encanto de Maria. E arrebatou-a de
novo nos braos, to violentamente, com beijos to bruscos no cabelo e nas
faces, que Rosa estrebuchou, assustada e com um grito. Soltou-a logo, num
receio de no ter sido casto... Depois, muito srio:
- Onde est a mam?
Rosa coava o brao, com a testasinha franzida:
- Apre!... Mguaste-me.
Carlos passou-lhe pelos cabelos a mo que ainda tremia.
- V, no sejas piegas, a mam no gosta. Onde est ela?
A pequena, aplacada, j contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos de
Carlos para que ele saltasse tambm...
- A mam foi deitar-se... Diz que est muito cansada, depois chama-me a mim
preguiosa... V, salta tambm. No sejas mono!...
Nesse instante, do corredor, miss Sarah chamou:
- Mademoisele!...
Rosa ps o dedinho na bca cheia de riso:
- Dize-lhe que no estou aqui! A vr... Para a fazer zangar!... Dize!
Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida por
traz de Carlos, na pontinha dos ps, fazendo-se pequenina. Teve um sorriso
benevolo, murmurou good night, sir. Depois lembrou que eram quase nove
e meia, mademoisele tinha estado um pouco constipada e devia recolher-se.
Ento Carlos puxou brandamente pelo brao de Rosa, acariciou-a ainda para
que ela obedecesse a miss Sarah.
Mas Rosa sacudia-o, indignada daquela traio.
- Tambm nunca fazes nada!... Semsaboro! Pois olha, nem te digo adeus!
Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repelo  governante que
sorria e lhe estendia a mo - e pelo corredor rompeu num chro despeitado e
prro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoisele. Era a constipao
que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mam no fazia aquilo,
no!
- Good night, sir.
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- Good night, miss Sarah...
S, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedao de
tapearia que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestiu. Ali, na
escurido, um brilho plido d'espelho tremia, batido por um longo raio do
candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.
- Maria!... Ests a dormir?
No havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, atravs do transparente
erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o leito. E
foi da que ela murmurou, mal acordada:
- Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas so?
Carlos no se movera, ainda com a mo na porta:
-  tarde, e eu preciso sair j a procurar o Vilaa... Vinha dizer-te que tenho
talvez de ir a Santa Olavia, alm d'amanh, por dois ou trs dias...
Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.
- Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente... Entra!... Vem
c!
Ento Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger mole
do leito. E j todo aquele aroma dela que to bem conhecia, esparso na
sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma seduco inesperada
de carcia nova, que o perturbava estranhamente. Mas ia balbuciando,
insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o Vilaa.
-  uma massada, por causa d'uns feitores, de umas guas....
Tocou no leito; e sentou-se muito  beira, numa fadiga que de repente o
enlera, lhe tirava a fora para continuar essas invenes d'guas e de
feitores, como se elas fossem montanhas de ferro a mover.
O grande e belo corpo de Maria, embrulhado num roupo branco de sda,
movia-se, espreguiava-se languidamente sobre o leito brando.
- Achei-me to cansada, depois de jantar, veio-me uma preguia... Mas ento
partires assim de repente!... Que sca! D' c a mo!
Ele tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a que
percebia a frma e o calor suave, atravs da sda leve: e ali esqueceu a mo,
aberta e frouxa, como morta, num entorpecimento onde toda a vontade e toda
a conscincia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas a sensao daquela pele
quente e macia onde a sua palma pousava. Um suspiro, um pequenino suspiro
de criana, fugiu dos lbios de Maria, morreu na sombra. Carlos sentiu a
quentura de desejo que vinha dela, que o entontecia, terrvel como o bafo
ardente de um abismo, escancarado na terra a seus ps. Ainda balbuciou:
no, no... Mas ela estendeu os braos, envolveu-lhe o pescoo, puxando-o
para si, num murmrio que era como a continuao do suspiro, e em que o
nome de querido susurrava e tremia. Sem resistencia, como um corpo morto
que um sopro impele, ele caiu-lhe sobre o seio. Os seus lbios secos acharamse
colados num beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaou-a
furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixo e num desespero que
fez tremer todo o leito.
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A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o cansao
o prostrra. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos at ao escritrio de
Afonso.
Ali ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifcio se deixava torrar,
enrolado sobre a pele d'urso. Afonso fazia a partida de whist com Steinbroken
e com o Vilaa: mas to distrado, to confuso, que j duas vezes D. Diogo,
infeliz e irritado, rosnara que se a dor de cabea assim o estonteava melhor
sria findarem! Quando Ega apareceu, o velho levantou os olhos inquietos:
- O Carlos? Saiu?...
- Sim, creio que saiu com o Craft, disse o Ega. Tinham falado em ir vr o
marqus.
Vilaa, que baralhava com a sua lentido meticulosa, deitou tambm para o
Ega um olhar curioso e vivo. Mas j D. Diogo batia com os dedos no pano da
mesa, resmungando: -Vamos l, vamos l... No se ganha nada em saber
dos outros! Ento Ega ficou ali um momento, com bocejos vagos, seguindo o
cair lento das cartas. Por fim, mole e secado, decidiu ir ler para a cama,
hesitou por diante das estantes, saiu com um velho numero do Panorama.
Ao outro dia,  hora do almoo, entrou no quarto de Carlos. E ficou pasmado
quando o Baptista - tristonho desde a vespera, farejando desgosto - lhe disse
que Carlos fora para a Tapada, muito cedo, a cavalo...
- Ora essa!... E no deixou ordens nenhumas, no falou em ir para Santa
Olavia?...
Baptista olhou Ega, espantado:
- Para Santa Olavia!... No senhor, no falou em semelhante coisa. Mas
deixou uma carta para v. exc. vr. Creio que  do senhor marqus. E diz que
l aparecia depois, s seis... Acho que  jantar.
Num bilhete de visita, o marqus, com efeito, lembrava que esse dia era o
seu fausto natalcio, e esperava Carlos e o Ega s seis, para lhe ajudarem a
comer a galinha de dieta.
- Bem, l nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim.
Aquilo parecia-lhe extraordinrio! Carlos passeando a cavalo, Carlos jantando
com o marqus, como se nada houvesse perturbado a sua vida fcil de rapaz
feliz!... Estava agora certo de que ele na vespera fora  rua de S. Francisco.
Justos cus! Que se teria l passado? Subiu, ouvindo a sineta do almoo. O
escudeiro anunciou-lhe que o senhor Afonso da Maia tomara uma chvena de
ch no quarto e ainda estava recolhido. Todos sumidos! Pela primeira vez no
Ramalhete Ega almoou solitariamente na larga mesa, lendo a Gazeta
Ilustrada.
De tarde, s seis, no quarto do marqus (que tinha o pescoo enrolado numa
boa de senhora de pele de marta ), encontrou Carlos, o Darque, o Craft, em
torno de um rapaz gordo que tocava guitarra - emquanto ao lado o procurador
do marqus, um belo homem de barba preta, se batia com o Teles numa
partida de damas.
- Viste o av? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mo.
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- No, almocei s.
O jantar, da a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os soberbos
vinhos da casa. E ningum decerto bebeu mais, ningum riu mais do que
Carlos, ressurgido quase de repente de uma desanimao sombria a uma
alegria nervosa - que incomodava o Ega, sentindo nela um timbre falso e
como um som de cristal rachado. O prprio Ega por fim  sobremesa se
excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815. Depois houve
um bacarat em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a cada instante os
olhos ao relgio, teve uma sorte triunfante, uma sorte de cabro, como a
classificou o Darque, indignado, ao trocar a sua ltima nota de vinte mil reis...
 meia noite porm, inexoravelmente, o procurador do marqus lembrou as
ordens do medico que marcra esse limite ao natalicio. Foi ento um enfiar
de paletots, em debandada, por entre os queixumes do Darque e do Craft, que
saam escorridos, sem sequer um troco para o americano. Fez-se-lhes uma
subscrio de caridade, que eles recolheram nos chapus, rosnando benos
aos bemfeitores.
Na tipia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito
tempo em silncio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi j ao meio
do Aterro que Ega pareceu despertar:
- E ento por fim?... Sempre vs para Santa Olavia, ou que fazes?
Carlos mexeu-se no escuro da tipia. Depois, lentamente, como cheio de
cansao:
- Talvez v amanh... Ainda no disse nada, ainda no fiz nada... Decidi darme
quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... No se pode agora
falar com este barulho das rodas.
De novo cada um recaiu na sua mudez, ao seu canto.
Em casa, subindo a escadinha forrada de veludo, Carlos declarou-se exausto e
com uma intoleravel dr de cabea:
- Amanh falamos, Ega... Boa noite, sim?
- At amanh.
Alta noite Ega acordou com uma grande sede. Saltara da cama, esvaziara a
garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de Carlos, uma
porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos lenis. Mas
espertara inteiramente, com uma idia estranha, insensata, que o assaltara
sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o corao no grande silncio da noite.
Ouviu assim dar trs horas. A porta de novo batera, depois uma janela: era
decerto vento que se erguera. No podia porm readormecer, s voltas, num
terrvel mal-estar, com aquela idia cravada na imaginao que o torturava.
Ento, desesperado, pulou da cama, enfiou um palet, e em pontas de
chinelas, com a mo diante da luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos.
Na ante-sala parou, tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperana
de perceber algum calmo rumor de respirao. O silncio era pesado e pleno.
Ousou entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sara.
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Ele ficou a olhar estupidamente para aquela colcha lisa, com a dobra do lenol
de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora no duvidava.
Carlos fora findar a noite  rua de S. Francisco!... Estava l, dormia l! E s
uma idia surgia atravs do seu horror - fugir, safar-se para Celorico, no ser
testemunha daquela incomparvel infmia!...
E o dia seguinte, tera-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado, num
terror de encontrar Carlos ou Afonso, levantou-se cedo, esgueirou-se pelas
escadas com cautelas de ladro, foi almoar ao Tavares. De tarde, na rua do
Ouro, viu passar Carlos, que levava no break o Cruges e o Taveira -
arrebanhados certamente para ele se no encontrar s  mesa com o av. Ega
jantou melancolicamente no Universal. S entrou no Ramalhete s nove horas,
vestir-se para a soire da Gouvarinho, que pela manh no Loreto parra a
carruagem para lhe lembrar que era a festa do Charlie. E foi j de palet, de
claque na mo, que apareceu enfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava
Chopin, e Carlos se instalra numa partida de bezigue com o Craft. Vinha
saber se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de
Gouvarinho...
- Diverte-te!
- S faiscante!
- Eu l apareo para a ceia! prometeu Taveira, estirado numa poltrona com o
Figaro.
Eram duas horas da manh quando Ega recolheu da soire - onde por fim se
divertira numa desesperada flirtao com a baronesa d'Alvim, que  ceia,
depois do champagne, vencida por tanta graa e tanta audcia, lhe tinha dado
duas rosas. Diante do quarto de Carlos, acendendo a vela, Ega hesitou,
mordido por uma curiosidade... Estaria l? Mas teve vergonha daquela
espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a fugir para Celorico. No
seu quarto, diante do espelho, ps cuidadosamente num copo as rosas da
Alvim. E comeava a despir-se, quando ouviu passos no negro corredor,
passos muito lentos, muito pesados, que se adiantavam, findaram  sua porta
em suspenso e silncio. Assustado, gritou: Que  l? A porta rangeu. E
apareceu Afonso da Maia, plido, com um jaqueto sobre a camisa de dormir,
e um castial onde a vela ia morrendo. No entrou. Numa voz enrouquecida,
que tremia:'
- O Carlos? esteve l?
Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. No subiu... Estivera
apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provvel que Carlos tivesse ido
mais tarde com o Taveira, para a ceia.
O velho cerrara os olhos, como se desfalecesse, estendendo a mo para se
apoiar. Ega correu para ele:
- No se aflija, senhor Afonso da Maia!
- Que queres ento que faa? Onde est ele? L metido, com essa mulher...
Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso, mas quis acabar esta
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angustia... E esteve l ontem at de manh, est l a dormir neste instante...
E foi para este horror que Deus me deixou viver at agora!
Teve um grande gesto de revolta e de dr. De novo os seus passos, mais
pesados, mais lentos, se sumiram no corredor.
Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se despindo
devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro dia, antes de
partir para Celorico, que a sua infmia estava matando o av, e o forava a
ele, seu melhor amigo, a fugir para a no testemunhar por mais tempo.
Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da cama,
s braadas, a roupa que ia emalar. E durante meia hora, em mangas de
camisa, lidou nesta tarefa, misturando aos seus pensamentos de clera
lembranas da soire da vespera, certos olhares da Alvim, certas esperanas
que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol dourava a varanda.
Terminou por abrir a vidraa, respirar, olhar o belo azul d'inverno. Lisboa
ganhava tanto com aquele tempo! E j Celorico, a quinta, o padre Serafim, lhe
estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao baixar os olhos viu o dog-cart de
Carlos atrelado com a Tunante, que escarvava a calada animada pelo ar vivo.
Era Carlos decerto que ia sair cedo - para no se encontrar com ele e com o
av!
Num receio de o no apanhar nesse dia, desceu correndo. Carlos aferrolhrase
na alcova de banho. Ega chamou, o outro no tugiu. Por fim Ega bateu,
gritou atravs da porta, sem esconder a sua irritao:
- Tem a bondade de escutar!... Ento partes para Santa Olavia, ou qu?
Depois de um instante, Carlos lanou de l, entre um rumor d'gua que caa:
- No sei... Talvez... Logo te digo...
O outro no se conteve mais:
-  que se no pode ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha
me... E se no partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico...  absurdo!
J estamos nisto ha trs dias!
E quase se arrependia j da sua violencia, quando a voz de Carlos se arrastou
de dentro, humilde e cansada, numa suplica:
- Por quem s, Ega! Tem um bocado de pacincia comigo. Eu logo te digo...
Numa daquelas subitas emoes de nervoso, que o sacudiam os olhos do Ega
umedeceram.
Balbuciou logo:
- Bem, bem! Eu falei alto por ser atravs da porta... No ha pressa!
E fugiu para o quarto, cheio s de compaixo e ternura, com uma grossa
lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos se
debatera, sob o despotismo de uma paixo at a legitima, e que numa hora
amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu encanto e
da sua intensidade... Humano e fragil, ele no pudera estacar naquele violento
impulso de amor e de desejo que o levava como num vendaval! Cedera,
cedera, continuara a rolar queles braos, que inocentemente o continuavam a
chamar. E a andava agora, aterrado, escorraado, fugindo ocultamente de
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casa, passando o dia longe dos seus, numa vadiagem trgica, como um
excomungado que receia encontrar olhos puros onde sinta o horror do seu
pecado... E ao lado, o pobre Afonso, sabendo tudo, morrendo daquela dr!
Podia ele, hospede querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de
desgraa quebrara sobre essa casa, onde o acolhiam afeies mais largas que
na sua prpria? Seria ignbil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no seu
egosmo com rodas aquelas amarguras que o abalavam, arranjava outra vez a
roupa dentro da cmoda, com a mesma clera com que a desmanchara,
rosnando:
- Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!...
Quando desceu, j vestido, Carlos desaparecera! Mas Baptista, tristonho,
carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto, deteve-o para lhe
murmurar:
- Tinha v.exc. razo... Partimos amanh para Santa Olavia e levamos roupa
para muito tempo... Este inverno comea mal!
Nessa madrugada, s quatro horas, em plena escurido, Carlos cerrara de
manso o porto da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se dele,
na frialdade da rua, o medo que j o rora, ao vestir-se na penumbra do
quarto, ao lado de Maria adormecida - o medo de voltar ao Ramalhete! Era
esse medo que j na vespera o trouxera todo o dia por fora no dog-cart,
findando por jantar lugubremente com o Cruges, escondido num gabinete do
Augusto. Era medo do av, medo do Ega, medo do Vilaa; medo daquela
sineta do jantar que os chamava, os juntava; medo do seu quarto, onde a
cada momento qualquer deles podia erguer o reposteiro, entrar, cravar os
olhos na sua alma e no seu segredo... Tinha agora a certeza que eles sabiam
tudo. E mesmo que nessa noite fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e
Maria uma separao to alta como o muro de um claustro, nunca mais do
espirito daqueles homens, que eram os seus amigos melhores, sahiria a
memria e a dr da infamia em que ele se despenhra. A sua vida moral
estava estragada... Ento, para que partiria abandonando a paixo, sem que
por isso encontrasse a paz? No sria mais lgico calcar desesperadamente
todas as leis humanas e divinas, arrebatar para longe Maria na sua inocencia,
e para todo o sempre abismar-se nesse crime que se tornra a sua sombria
partilha na terra?
J assim pensra na vespera. J assim pensra... Mas antevira ento um outro
horror, um supremo castigo, a esperal-o na solido onde se sepultasse. Jfi lhe
percebera mesmo a aproximao; j noutra noite recebera dele um arrepio; j
nessa noite, deitado junto de Maria, que adormecera cansada, o presentira,
apoderando-se dele, com um primeiro frio d'agonia.
Era, surgindo do fundo do seu ser, ainda tenue mas j perceptivel, uma
saciedade, uma repugnncia por ela desde que a sabia do seu sangue!... Uma
repugnncia material, carnal,  flr da pele, que passava como um arrepio.
Fra primeiramente aquele aroma que a envolvia, fluctuava entre os
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cortinados, lhe ficava a ele na pele e no fato, o excitava tanto outrora, o
impacientava tanto agora - que ainda na vespera se encharcara em gua de
Colonia para o dissipar. Fra depois aquele corpo dela, adorado sempre como
um mrmore ideal, que de repente lhe aparecera, como era na sua realidade,
forte de mais, musculoso, de grossos membros de Amazona barbara, com
todas as belezas copiosas do animal de prazer. Nos seus cabelos de um lustre
to macio, sentia agora inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus
movimentos na cama, ainda nessa noite, o tinham assustado como se fossem
os de uma fera, lenta e ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os
seus braos o enlaavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de
seiva, ainda decerto lhe punham nas veias uma chama que era toda bestial.
Mas, apenas o ltimo suspiro lhe morria nos lbios, a comeava
insensivelmente a recuar para a borda do colcho, com um susto estranho: e
imovel, encolhido na roupa, perdido no fundo de uma infinita tristeza,
esquecia-se pensando numa outra vida que podia ter, longe d'ali, numa casa
simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua, flr de graa
domestica, pequenina, tmida, pudica, que no soltasse aqueles gritos
lascivos, e no usasse esse aroma to quente! E desgraadamente agora j
no duvidava... Se partisse com ela, sria para bem cedo se debater no
indizvel horror de um nojo fsico. E que lhe restaria ento, morta a paixo que
fora a desculpa do crime, ligado para sempre a uma mulher que o enojava - e
que era... S lhe restava matar-se!
Mas, tendo por um s dia dormido com ela, na plena conscincia da
consanguinidade que os separava, poderia recomear a vida tranquilamente?
Ainda que possusse frieza e fora para apagar dentro em si essa memria -
ela no morreria no corao do av, e do seu amigo. Aquele ascoroso segredo
ficaria entre eles, estragando, maculando tudo. A existncia d'ora vante s
lhe oferecia intoleravel amargr... Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se
algum o pudesse aconselhar, o pudesse consolar! Quando chegou  porta de
casa o seu desejo nico era atirar-se aos ps de um padre, aos ps de um
santo, abrir-lhe as misrias do seu corao, implorar-lhe a doura da sua
misericrdia! Mas ali onde havia um santo?
Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta. P
ante p, subiu as escadas ensurdecidas pelo veludo cor de cereja. No patamar
tacteava, procurava a vela - quando, atravs do reposteiro entreaberto,
avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. Nervoso, recuou,
parou no recanto. O claro chegava, crescendo: passos lentos, pesados,
pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu - e com ela o av em mangas de
camisa, lvido, mudo, grande, espectral. Carlos no se moveu, sufocado; e os
dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, cheios de horror, caram sobre
ele, ficaram sobre ele, varando-o at s profundidades d'alma, lendo l o seu
segredo. Depois, sem uma palavra, com a cabea branca a tremer, Afonso
atravessou o patamar, onde a luz sobre o veludo espalhava um tom de
sangue: - e os seus passos perderam-se no interior da casa, lentos, abafados,
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cada vez mais sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na
vida!
Carlos entrou no quarto s escuras, tropeou num sof e ali se deixou cair,
com a cabea enterrada nos braos, sem pensar, sem sentir, vendo o velho
lvido passar, repassar diante dele como um longo fantasma, com a luz
avermelhada na mo. Pouco a pouco foi-o tomando um cansao, uma inercia,
uma infinita lassido da vontade, onde um desejo apenas transparecia, se
alongava - o desejo de interminavelmente repousar algures numa grande
mudez e numa grande treva... Assim escorregou ao pensamento da morte. Ela
sria a perfeita cura, o asilo seguro. Porque no iria ao seu encontro? Alguns
gros de laudano nessa noite e penetrava na absoluta paz...
Ficou muito tempo, embebendo-se nesta idia que lhe dava alivio e consolo,
como se, escorraado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos seus passos
abrir-se uma porta donde sasse calor e silncio. Um rumor, o chilrear de um
pssaro na janela, fez-lhe sentir o sol e o dia. Ergueu-se, despiu-se muito
devagar, numa imensa moleza. E mergulhou na cama, enterrou a cabea no
travesseiro para recair na doura daquela inercia, que era um antegosto da
morte, e no sentir mais nas horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma
coisa da terra.
O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
-  senhor D. Carlos,  meu menino! O av achou-se mal no jardim, no d
acordo!...
Carlos pulou do leito, enfiando um palet que agarrra. Na antecmara a
governante, debruada no corrimo, gritava, aflicta: - Adiante, homem de
Deus, ao p da padaria, o senhor dr. Azevedo! E um moo que corria, com
que esbarrou no corredor, atirou, sem parar:
- Ao fundo, ao p da cascata, senhor D. Carlos, na mesa de pedra!...
Afonso da Maia l estava, nesse recanto do quintal, sob os ramos do cedro,
sentado no banco de cortia, tombado por sobre a tosca mesa, com a face
cada entre os braos. O chapu desabado rolra para o cho; nas costas, com
a gola erguida, conservava o seu velho capote azul... Em volta, nas folhas das
camelias, nas aleas arcadas, refulgiu, cor de ouro, o sol fino d'inverno. Por
entre as conchas da cascata o fio d'gua punha o seu choro lento.
Arrebatadamente, Carlos levatra-lhe a face, j rigida, cor de cera, com os
olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de neve. Depois
caiu de joelhos no cho mido, sacudia-lhe as mos, murmurando: -  av!
 av! - Correu ao tanque, borrifou-o d'gua:
- Chamem algum! chamem algum!
Outra vez lhe palpava o corao... Mas estava morto. Estava morto, j frio,
aquele corpo que, mais velho que o sculo, resistira to formidavelmente,
como um grande roble, aos anos e aos vendavais. Ali morrera solitariamente,
j o sol ia alto, naquela tosca mesa de pedra onde deixra pender a cabea
cansada.
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Quando Carlos se ergueu, Ega aparecia, esguedelhado, embrulhado no robede-
chambre. Carlos abraou-se nele, tremendo todo, num choro despedaado.
Os criados em redor olharam, aterrados. E a governante, como tonta, entre as
ruas de roseiras, gemia com as mos na cabea: - Ai o meu rico senhor, ai o
meu rico senhor!
Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que
felizmente encontrra na rua. Era um rapaz, apenas sado da Escola, magrinho
e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em redor,
atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos, que
procurava serenar com a face lavada de lgrimas. Depois, tendo descalado a
luva, estudou todo o corpo de Afonso com uma lentido, uma minuciosidade
que exagerava,  medida que sentia em volta, mais ansiosos e atentos nele,
todos aqueles olhos umedecidos. Por fim, diante de Carlos, passando
nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos tcnicos... De resto,
dizia, j o colega se teria compenetrado de que tudo infelizmente findara. Ele
sentia das veras da alma o desgosto... Se para alguma coisa fosse necessrio,
com o mximo prazer...
- Muito agradecido a v. exc., balbuciou Carlos.
Ega, em chinelas, deu alguns passos com o senhordr. Azevedo, para lhe
indicar a porta do jardim.
Carlos no entanto ficra defronte do velho, sem chorar, perdido apenas no
espanto daquele brusco fim! Imagens do av, do av vivo e forte,
cachimbando ao canto do fogo, regando de manh as roseiras, passaram-lhe
n'alma, em tropel, deixando-lha cada vez mais dorida e negra... E era ento
um desejo de findar tambm, encostar-se como ele quela mesa de pedra, e
sem outro esforo, nenhuma outra dr da vida, cair como ele na sempiterna
paz. Uma restea de sol, entre os ramos grossos do cedro, batia a face morta
de Afonso. No silncio os pssaros, um momento espantados, tinham
recomeado a chalrar. Ega veio a Carlos, tocou-lhe no brao:
-  necessrio lev-lo para cima.
Carlos beijou a mo fria que pendia. E, devagar, com os beios a tremer,
levantou o av pelos ombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar; Ega,
embaraado no seu largo roupo, segurava os ps do velho. Atravs do
jardim, do terrao cheio de sol, do escritrio onde a sua poltrona esperava
diante do lume aceso, foram-o transportando num silncio s quebrado pelos
passos dos criados, que corriam a abrir as portas, acudiam quando Carlos, na
sua perturbao, ou o Ega fraquejavam sob o peso do grande corpo. A
governante j estava no quarto d'Afonso com uma colcha de sda para
estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E ali o depuseram enfim
sobre as ramagens claras bordadas na sda azul.
Ega acendera dois castiais de prata: a governante, de joelhos  beira do leito,
esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de cozinheiro na
mo, ficra  porta, junto de um cesto que trouxera, cheio de camelias e
palmas de estufa. Carlos, no entanto, movendo-se pelo quarto, com longos
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soluos que o sacudiam, voltava a cada instante, numa derradeira e absurda
esperana, palpar as mos ou o corao do velho. Com o jaqueto de
veludilho, os seus grossos sapatos brancos, Afonso parecia mais forte e maior,
na sua rigidez, sobre o leito estreito: entre o cabelo de neve cortado 
escovinha e a longa barba desleixada, a pele ganhra um tom de marfim
velho, onde as rugas tomaram a dureza d'entalhaduras a cinzel: as plpebras
engelhadas, de pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de
quem enfim descana; e ao deitarem-no uma das mos ficra-lhe aberta e
posta sobre o corao, na simples e natural atitude de quem tanto pelo
corao vivra!
Carlos perdia-se nesta contemplao dolorosa. E o seu desespero era que o
av assim tivesse partido para sempre, sem que entre eles houvesse um
adeus, uma doce palavra trocada. Nada! Apenas aquele olhar angustiado,
quando passra com a vela acsa na mo. J ento ele ia andando para a
morte. O av sabia tudo, disso morrera! E esta certeza sem cessar lhe batia
n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O av sabia tudo, disso
morrera!
Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam - ele de robe-dechambre,
Carlos com o palet sobre a camisa de dormir:
-  necessrio descer,  necessrio vestir-nos.
Carlos balbuciou:
- Sim, vamo-nos vestir...
Mas no se arredava. Ega levou-o brandamente pelo brao. Ele caminhava
como um sonmbulo, passando o leno devagar pela testa e pela barba. E de
repente no corredor, apertando desesperadamente as mos, outra vez coberto
de lgrimas, num agoniado desabafo de toda a sua culpa:
Ega, meu querido Ega! O av viu-me esta manh quando entrei! E passou,
no me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
Ega arrastou-o, consolou-o, repelindo tal idia. Que tolice! O av tinha quase
oitenta anos, e uma doena de corao... Desde a volta de Santa Olavia,
quantas vezes eles tinham falado nisso, aterrados! Era absurdo ir agora fazerse
mais desgraado com semelhante imaginao!
Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no
cho:
- No!  estranho, no me fao mais desgraado! Aceito isto como um
castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me s muito pequeno, muito
humilde diante de quem assim me castiga. Esta manh pensava em matarme.
E agora no!  o meu castigo viver, esmagado para sempre... O que me
custa  que ele no me tivesse dito adeus!!
De novo as lgrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero.
Ega levou-o para o quarto, como uma criana. E assim o deixou a um canto do
sof, com o leno sobre a face, num chro continuo e quieto, que lhe ia
lavando, aliviando o corao de todas as angustias confusas e sem nome que
nesses dias derradeiros o traziam sufocado.
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Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Vilaa lhe rompeu
pelo quarto de braos abertos.
- Ento como foi isto, como foi isto?
Baptista mandra-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe
soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abrara-o, coitadinho, lavado
em lgrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe s para se entender em tudo
com o Ega... E ali estava.
- Mas como foi, como foi, assim de repente?...
Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Afonso de manh no
jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas tudo
acabra!
Vilaa levou as mos  cabea:
- Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que a
apareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois daquele abalo! No foi
mais nada! Foi isso!
Ega murmurava, deitando maquinalmente gua de Colonia no leno:
- Sim, talvez, esse abalo, e oitenta anos, e poucas cautelas, e uma doena de
corao.
Falaram ento do enterro, que devia ser simples como convinha quele
homem simples. Para depositar o corpo, emquanto no fosse trasladado para
Santa Olavia, Ega lembrra-se do jazigo do marqus.
Vilaa coava o queixo, hesitando:
- Eu tambm tenho um jazigo. Foi o prprio senhor Afonso da Maia que o
mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns
dias ficava l perfeitamente. Assim no se pedia a ningum, e eu tinha nisso
muita honra...
Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de chave
do caixo. Por fim Vilara, olhando o relgio, ergueu-se com um grande
suspiro:
- Bem, vou dar esses tristes passos! E c apareo logo, que o quero vr pela
ltima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda antes
de ontem a jogar com ele... At lhe ganhei trs mil reis, coitadinho!
Uma onda de saudade sufocou-o, fugiu com o leno nos olhos.
Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado  escrivaninha,
diante de uma folha de papel. Imediatamente ergueu-se, arrojou a pena.
- No posso!... Escreve-lhe tu a, a ela, duas palavras.
Em silncio, Ega tomou a pena, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: Minha
senhora. O senhor Afonso da Maia morreu esta madrugada, de repente, com
uma apoplexia. V. exc. compreende que, neste momento, Carlos nada mais
pode do que pedir-me para eu transmitir a v. exc. esta desgraada noticia.
Creia-me, etc. No o leu a Carlos. E como Baptista entrava nesse momento,
todo de preto, com o almoo numa bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o
trintanrio com aquele bilhete  rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o
ombro do Ega:
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-  bom no esquecer as fardas de luto para os criados...
- O senhor Vilaa j sabe.
Tomaram ch  pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes a
D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Afonso: e davam duas horas
quando chegaram os homens com o caixo para amortalhar o corpo. Mas
Carlos no permitiu que mos mercenarias tocassem no av. Foi ele e o Ega,
ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoo sob o
dever, o lavaram, o vestiram, o depuseram dentro do grande cofre de
carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos colocou uma miniatura de sua
av Runa.  tarde, com auxilio de Vilaa, que voltra para dar o ltimo olhar
ao patro, desceram-no ao escriptorio, que Ega no quisera alterar nem
ornar, e que, com os damascos escarlates, as estantes lavradas, os livros
juncando a carteira de pau preto, conservava a sua feio austera de paz
estudiosa. Smente, para depr o caixo, tinham juntado duas largas mesas,
recobertas por um pano de veludo negro que havia na casa, com as armas
bordadas a ouro. Por cima o Cristo de Rubens abria os braos sobre a
vermelhido do poente. Aos lados ardiam doze castiais de prata. Largas
palmas d'estufa cruzavam-se  cabeceira do esquife, entre ramos de camlias.
E Ega acendeu um pouco de incenso em dois perfumadores de bronze.
 noite o primeiro dos velhos amigos a aparecer foi D. Diogo, solene, de
casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixo, s pde murmurar: - E
tinha menos sete meses que eu! O marqus veio j tarde, abafado em
mantas, trazendo um grande cesto de flores. Craft e o Cruges nada sabiam,
tinham-se encontrado na rampa de Santos; - e receberam a primeira surpresa
ao vr fechado o porto do Ramalhete. O ltimo a chegar foi o Sequeira, que
passra o dia na quinta, e se abraou em Carlos, depois no Craft ao acaso,
entontecido, com uma lagrima nos olhos injectados, balbuciando: - Foi-se o
companheiro de muitos anos. Tambm no tardo!...
E a noite de vigilia e pezames comeou, lenta e silenciosa. As doze chamas
das velas ardiam, muito altas, numa solenidade funeraria. Os amigos trocaram
algum murmrio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco a pouco, o calor,
o aroma do incenso, a exalao das flores foraram o Baptista a abrir uma das
janelas do terrao. O cu estava cheio d'estrelas. Um vento fino susurrara nas
ramagens do jardim.
J tarde Sequeira, que no se movera de uma poltrona, com os braos
cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o  sala de jantar, a reconfort-lo com
um clice de conhaque. Havia l uma ceia fria, com vinhos e dces. E Craft
veio tambm - com o Taveira, que soubera a desgraa na redao da Tarde, e
correra quase sem jantar. Tomando um pouco de Bordeus, uma sandwich,
Sequeira reanimava-se, lembrava o passado, os tempos brilhantes, quando
Afonso e ele eram novos. Mas emudeceu vendo aparecer Carlos, plido e
vagaroso como um sonmbulo, que balbuciou: Tomem alguma coisa, sim,
tomem alguma coisa...
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Mexeu num prato, deu uma volta  mesa, saiu. Assim vagamente foi at 
antecmara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra
surgiu da escada. Dois braos enlaaram-no. Era o Alencar.
- Nunca vim c nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de ps, como pela nave de um
templo.
Carlos no entanto deu ainda alguns passos pela antecmara. Ao canto de um
div ficra um grande cesto com uma coroa de flores, sobre que pousava uma
carta. Reconheceu a letra de Maria. No lhe tocou, recolheu ao escritorio.
Alencar, diante do caixo, com a mo pousada no ombro do Ega, murmurava:
Foi-se uma alma de heri!
As velas iam-se consumindo. Um cansao pesava. Baptista fez servir caf no
bilhar. E a, apenas recebeu a sua chvena, Alencar, cercado do Cruges, do
Taveira, do Vilaa, rompeu a falar tambm do passado, dos tempos brilhantes
d'Arroios, dos rapazes ardentes de ento:
- Vejam vocs, filhos, se encontra ainda uma gente como estes Maias, almas
de lees, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo neste desgraado
pas!... Foi-se a faisca, foi-se a paixo... Afonso da Maia! Parece que o estou a
vr,  janela do palcio em Bemfica, com a sua grande gravata de setim,
aquela cara nobre de portugus doutrora... E l vai! E o meu pobre Pedro
tambm... Caramba, at se me faz a alma negra!
Os olhos enevoavam-se-lhe, deu um imenso sorvo ao conhaque.
Ega, depois de beber um gole de caf, voltara ao escritrio, onde o cheiro
d'incenso espalhava uma melancolia de capela. D. Diogo, estirado no sof,
ressonava; Sequeira defronte dormitava tambm, descado sobre os braos
cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. Os dois
velhos amigos, depois de um abrao a Carlos, partiram na mesma carruagem,
com os charutos acesos. Os outros, pouco a pouco, iam tambm abraar
Carlos, enfiavam os palets. O ltimos sair foi Alencar, que, no ptio, beijou o
Ega, num impulso d'emoo, lamentando ainda o passado, os companheiros
desaparecidos:
- O que me vale agora so vocs, rapazes, a gente nova. No me deitem 
margem! Seno, caramba, quando quiser fazer uma visita tenho de ir ao
cemitrio. Adeus, no apanhes frio!
O enterro foi ao outro dia,  uma hora. O Ega, o marqus, o Craft, o Sequeira
levaram o caixo at  porta, seguidos pelo grupo d'amigos, onde destacava o
conde de Gouvarinho, solenissimo, de gran-cruz. O conde de Steinbroken, com
o seu secretario, trazia na mo uma coroa de violetas. Na calada estreita os
trens apertavam-se, numa longa fila que subia, se perdia pelas outras ruas,
pelas travessas: em todas as janelas do bairro se apinhava gente: os polcias
berravam com os cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por
duas carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos vus
de crepe que pendiam. Atrs, um a um, desfilaram os trens da Companhia
com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a
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friagem do dia enevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coup. O
correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a rua
deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o porto do Ramalhete.
Quando Ega voltou do cemitrio encontrou Carlos no quarto, rasgando papeis,
emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava uma mala de
couro. E como Ega, plido e arrepiado de frio, esfregava as mos, Carlos
fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o fumoir onde
havia lume.
Apenas l entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
- Tens duvida em lhe ir falar, a ela?
- No. Para que?... Para lhe dizer o que?
- Tudo.
Ega rolou uma poltrona para junto da chamin, despertou as brasas. E Carlos,
ao lado, prosseguiu devagar, olhando o lume:
- Alm disso, desejo que ela parta, que parta j para Paris... Seria absurdo
ficar em Lisboa... Enquanto se no liquidar o que lhe pertence, hade-se-lhe
estabelecer uma mesada, uma larga mesada... Vilaa vem daqui a bocado
para falar desses detalhes... Em todo o caso, amanh, para ela partir, levaslhe
quinhentas libras.
Ega murmurou:
- Talvez para essas questes de dinheiro fosse melhor ir l o Vilaa...
- No, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer crar a pobre criatura
diante do Vilaa?...
Houve um silncio. Ambos olhavam a chama clara que bailava.
- Custa-te muito, no  verdade, meu pobre Ega?...
- No... Comeo a estar embotado.  fechar os olhos, tragar mais essa m
hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
Carlos no sabia. Contava que Ega, terminada essa misso  rua de S.
Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com ele a Santa Olavia. Mais tarde era
necessrio trasladar para l o corpo do av...
- E passado isso, vou viajar... Vou  Amrica, vou ao Japo, vou fazer esta
coisa estpida e sempre eficaz que se chama distrair...
Encolheu os ombros, foi devagar at  janela, onde morria palidamente um
raio de sol na tarde que clareara. Depois voltando para o Ega, que de novo
remexia os carves:
Eu, est claro, no me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava bem,
mas no me atrevo!
Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braos para Carlos,
comovido:
- Atreve, que diabo... Porque no?
- Ento vem!
Carlos pusera nisto toda a sua alma. E ao abraar o Ega corriam-lhe na face
duas grandes lgrimas.
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Ento Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma romagem 
quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar  me algumas
letras de credito... E como Carlos pretendia ter bastante para o luxo
d'ambos, Ega atalhou muito srio:
- No, no! Minha me tambm  rica. Uma viagem  Amrica e ao Japo so
formas de educao. E a mam tem o dever de completar a minha educao.
O que aceito, sim,  uma das tuas malas de couro...
Quando nessa noite, acompanhados pelo Vilaa, Carlos e Ega chegaram 
estao de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de
saltar para o seu compartimento reservado - emquanto o Baptista, abraado
s mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se iava desesperadamente
para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O
trem imediatamente rolou. Carlos debruou-se  portinhola, gritando ao Ega: -
Manda um telegrama amanh a dizer o que houve!
Recolhendo ao Ramalhete com o Vilaa, que ia nessa noite coligir e selar os
papeis de Afonso da Maia, Ega falou logo nas quinhentas libras que ele devia
entregar na manh seguinte a Maria Eduarda. Vilaa recebera com efeito essa
ordem de Carlos. Mas francamente, entre amigos, no lhe parecia excessiva a
soma, para uma jornada? Alm disso Carlos falra em estabelecer a essa
senhora uma mesada de quatro mil francos, cento e sessenta libras! No
achava tambm exagerado? Para uma mulher, uma simples mulher...
Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
- Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem ainda de
ser muito estudado. No falemos nisso. Eu nem gsto de falar disso!...
Depois como Ega aludia  fortuna que deixava Afonso da Maia - Vilaa deu
detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. S o que viera da
herana de Sebastio da Maia, representava bem quase os contos de renda.
As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que l fizera o pai dele Vilaa,
tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma despesa. Mas as quintas ao
p de Lamego, um condado.
- Ha muito dinheiro! exclamou ele com satisfao, batendo no joelho do Ega. E
isto, amigo, digam l o que disserem, sempre consola de tudo.
- Consola de muito, com efeito.
Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar feliz e
amvel que ali houvera e que para sempre se apagra. Na ante-cmara, os
seus passos j lhe pareceram soar tristemente como os que se do numa casa
abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso e de fenol. No lustre do
corredor havia uma luz s e dormente.
- J anda aqui um ar de ruina, Vilaa.
- Ruinasinha bem confortavel, todavia murmurou o procurador dando um olhar
s tapearias e aos divs, e esfregando as mos, arrepiado da friagem da
noite.
Entraram no escritrio de Afonso, onde durante um momento se ficaram
aquecendo ao lume.O relgio Luiz XV bateu finalmente as nove horas - depois
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a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e morreu. Vilaa
preparou-se para comear a sua tarefa. Ega declarou que ia para o quarto
arranjar tambm a sua papelada, fazer a limpeza final de dois anos de
mocidade...
Subiu. E pousra apenas a luz sobre a cmoda, quando sentiu ao fundo, no
silncio do corredor, um gemido longo, desolado, de uma tristeza infinita. Um
terror arrepiou-lhe os cabelos. Aquilo arrastava-se, gemia no escuro, para o
lado dos aposentos d'Afonso da Maia. Por fim, reflectindo que toda a casa
estava acordada, cheia de criados e de luzes, Ega ousou dar alguns passos no
corredor, com o castial na mo tremula.
Era o gato! Era o reverendo Bonifcio, que, diante do quarto d'Afonso,
arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraou-o, furioso.
O pobre Bonifcio fugiu, obeso e lento, com a cauda ffa a roar o cho: mas
voltou logo e esgatanhando a porta, roando-se pelas pernas do Ega,
recomeou a miar, num lamento agudo, saudoso como o de uma dr humana,
chorando o dono perdido que o acariciava no colo e que no tornra a
aparecer.
Ega correu ao escritrio a pedir ao Vilaa que dormisse essa noite no
Ramalhete. O procurador acedeu, impressionado com aquele horror do gato a
chorar. Deixra o monto de papeis sobre a mesa, voltra a aquecer os ps ao
lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se sentra, ainda todo plido,
no sof bordado a matiz, antigo lugar de D. Diogo, murmurou devagar,
gravemente:
- Ha trs anos, quando o senhor Afonso me encomendou aqui as primeiras
obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes aos
Maias as paredes do Ramalhete. O senhor Afonso da Maia riu d'agouros e
lendas... Pois fataes foram!
No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e libras
que Vilaa lhe entregra  porta do Banco de Portugal, Ega, com o corao aos
pulos, mas decidido a ser forte, a afrontar a crise serenamente, subiu ao
primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, de gravata preta,
movendo-se em pontas de ps, abriu o reposteiro da sala. E Ega pousra
apenas sobre o sof a velha caixa de charutos da Monforte - quando Maria
Eduarda entrou, plida, toda coberta de negro, estendendo-lhe as mos
ambas.
- Ento Carlos ?
Ega balbuciou:
- Como v. exc. pode imaginar, num momento destes... Foi horrvel, assim de
surpresa...
Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ela no conhecia o senhor
Afonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas sofria realmente por sentir bem
o sofrimento de Carlos... O que aquele rapaz estremecia o av!
- Foi de repente, no?
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Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a coroa que ela mandra.
Contou os gemidos, a aflico do pobre Bonifcio...
- E Carlos? repetiu ela.
- Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
Ela apertou as mos, numa surpresa que a acabrunhava. Para Santa Olavia! E
sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empalidecia-a mais, diante
daquela partida to arrebatada, quase parecida com um abandono. Terminou
por murmurar, com um ar de resignao e de confiana que no sentia:
- Sim, com efeito, neste momento no se pensa nos outros...
Duas lgrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante desta dr, to humilde
e to muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os dedos
tremulos no bigode, viu Maria chorar em silncio. Por fim ergueu-se, foi 
janela, voltou, abriu os braos diante dela numa aflico:
- No, no  isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra
coisa! Tem sido para ns dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
Outra coisa?... Ela esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma toda
suspensa.
Ega respirou fortemente:
- V. exc. lembra-se de um Guimares, que vive em Paris, um tio do Damaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabea.
- Esse Guimares era muito conhecido da de v. exc. no  verdade?
Ela teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava ainda,
com a face arrepanhada e branca, num embarao que o dilacerava:
- Eu falo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... Deus
sabe o que me custa!... E  horrvel, nem sei por onde hei de comear...
Ela juntou as mos, numa suplica, numa angustia:
- Pelo amor de Deus!
E nesse instante, muito sossegadamente, Rosa erguia uma ponta do
reposteiro, com Niniche ao lado e a sua boneca nos braos. A me teve um
grito impaciente:
- Vai l p'ra dentro! deixa-me!
Assustada, a pequena no se moveu mais, com os lindos olhos de repente
cheios de gua. O reposteiro caiu, do fundo do corredor veio um grande chro
magoado.
Ento Ega teve s um desejo, o desesperado desejo de findar.
- V. exc. conhece a letra de sua me, no  verdade?... Pois bem! Eu trago
aqui uma declarao dela a seu respeito... Esse Guimares  que tinha este
documento, com outros papeis que ela lhe entregou em 71, nas vsperas da
guerra... Ele conservou-os at agora, e queria restituir-lhos, mas no sabia
onde v. exc. vivia. Viu-a ha dias numa carruagem, comigo, e com o Carlos...
Foi ao p do Aterro, v. exc. deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando
vnhamos da Toca... Pois bem! o Guimares veio imediatamente ao procurador
dos Maias, deu-lhe esses papeis, para que os entregasse a v. exc.... E nas
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primeiras palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se
entreviu que v. exc. era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
Atabalhora esta historia de p, quase de um flego, com bruscos gestos de
nervoso. Ela mal compreendia, lvida, num indefinido terror. S pde
murmurar muito debilmente: Mas... E de novo emudeceu, assombrada,
devorando os movimentos do Ega que, debruado sobre o sof,
desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou para
ela com um papel na mo, atropelando as palavras numa debandada:
- A me de v. exc. nunca lho disse... Havia um motivo muito grave... Ela
tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim brutalmente,
perde-me v. exc. mas no  o momento de atenuar as coisas... Aqui est! v.
exc. conhece a letra de sua me.  dela esta letra, no  verdade?
- ! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
- Perdo! gritou Ega, retirando-lho violentamente. Eu sou um estranho! E v.
exc. no se pode inteirar de tudo isto emquanto eu no sair d'aqui.
Fora uma inspirao providencial, que o salvava de testemunhar o choque
terrivel, o horror das coisas que ela ia saber. E insistiu. Deixava-lhe ali todos
os papeis que eram de sua me. Ela leria, quando ele saisse, compreenderia a
realidade atroz... Depois, tirando do bolso os dois pesados rlos de libras, o
sobrescripto que continha a letra sobre Paris, ps tudo em cima da mesa, com
a declarao da Monforte.
- Agora s mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc. deve fazer j 
partir para Paris. V. exc. tem direito, como sua filha ha de ter, a uma parte
da fortuna desta famlia dos Maias, que agora  a sua... Neste masso que lhe
deixo est uma letra sobre Paris para as despesas imediatas... O procurador
de Carlos tomou j um wagon-salo. Quando v. exc. decidir partir, peo-lhe
que mande um recado ao Ramalhete para eu estar na gare... Creio que  tudo.
E agora devo deix-la...
Agarrra rapidamente o chapu, veio tomar-lhe a mo inerte e fria:
- Tudo  uma fatalidade! V. exc.  nova, ainda lhe resta muita coisa na vida,
tem a sua filha a consol-la de tudo... Nem lhe sei dizer mais nada!
Sufocado, beijou-lhe a mo que ela lhe abandonou, sem conscincia e sem
voz, de p, direita no seu negro luto, com a lividez parada de um mrmore. E
fugiu.
- Ao telegrafo! gritou em baixo ao cocheiro.
Foi s na rua do Ouro que comeou a serenar, tirando o chapu, respirando
largamente. E ia ento repetindo a si mesmo rodas as consolaes que se
poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o seu pecado fora
inconsciente; o tempo acalma toda a dr; e em breve, j resignada,
encontrar-se-ia com uma famlia sria, uma larga fortuna, nesse amvel Paris,
onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil francos, tm sempre um
reinado seguro...
-  uma situao de viuva bonita e rica, terminou ele por dizer alto no coup.
Ha pior na vida.
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Ao sair do telegrafo despediu a tipia. Por aquela luz consoladora do dia de
inverno, recolheu a p para o Ramalhete, a escrever a longa carta que
prometera a Carlos. Vilaa j l estava instalado, com um bon de veludilho na
cabea, emassando ainda os papeis de Afonso, liquidando as contas dos
criados. Jantaram tarde. E fumaram junto do lume, na sala Luiz XV, quando o
escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, numa carruagem, procurava
o senhor Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, alguma resoluo
desesperada. Vilaa ainda teve a esperana dela trazer alguma nova
revelao, que tudo mudasse, salvasse da bolada... Ega desceu a tremer.
Era Melanie numa tipia de praa, abafada numa grande ulster com uma carta
de Madame.
 luz da lanterna Ega abriu o envelope, que trazia apenas um carto branco,
com estas palavras a lpis: Decidi partir amanh para Paris.
Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo as
escadas: e seguido de Vilaa, que ficra na antecmara  espreita, correu ao
escritrio d'Afonso, a escrever a Maria. Num papel tarjado de luto dizia-lhe
(alm de detalhes sobre bagagens)- que o wagon-salo estava tomado at
Paris, e que ele teria a honra de a vr em Santa Apolonia. Depois, ao fazer o
sobrescrito, ficou com a pena no ar, num embarao. Devia pr Madame Mac-
Gren ou D. Maria Eduarda da Maia? Vilaa achava prefervel o antigo
nome, porque ela legalmente ainda no era Maia. Mas, dizia o Ega
atrapalhado, tambm j no era Mac-Gren...
- Acabou-se! Vai sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
Levou assim a carta, dentro do sobrescrito em branco. Melanie guardou-a no
regalo. E, debruada portinhola, entristecendo a voz, desejou saber, da parte
de Madame, onde estava enterrado o av do senhor...
Ega ficou com o monculo sobre ela, sem sentir bem se aquela curiosidade de
Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma indicao. Era nos Prazeres,
 direita, ao fundo, onde havia um anjo com uma tocha. O melhor sria
perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. Vilaas.
- Merci, monsieur, bien le bonsoir.
- Bonsoir, Melanie!
No dia seguinte, na estao de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o
Vilaa, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou
Maria que entrava trazendo Rosa pela mo. Vinha toda envolta numa grande
pelia escura, com um vu dobrado, espesso como uma mascara: e a mesma
gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um lao sobre a
touca. Miss Sarah, numa ulster clara de quadrados, sobraava um masso de
livros. Atraz o Domingos, com olhos muito vermelhos, segurava um rlo de
mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que levava Niniche ao colo.
Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a pelo brao, em silncio, ao wagonsalo
que tinha todas as cortinas cerradas. Junto do estribo ela tirou devagar a
luva. E muda, estendeu-lhe a mo.
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- Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambm para o
Norte.
Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vr sumir-se naquela carruagem
de luxo, fechada, misteriosa, uma senhora que parecia to bela, d'ar to
triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a portinhola, o Neves, o da
Tarde e do Tribunal de Contas, rompeu d'entre um rancho, arrebatou-lhe o
brao com sofreguido:
- Quem ?
Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cair no ouvido, j muito
adiante, tragicamente:
- Clepatra!
O poltico, furioso, ficou rosnando: Que asno!... Ega abalara. Junto do seu
compartimento Vilaa esperava, ainda deslumbrado com aquela figura de
Maria Eduarda, to melanclica e nobre. Nunca a vira antes. E parecia-lhe uma
rainha de romance.
- Acredite o amigo, fez-me impresso! Caramba, bela mulher! D-nos uma
bolada, mas  uma soberba praa!
O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um leno de cres
sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda furioso,
vendo o Ega  portinhola, atirou-lhe de lado, disfaradamente, um gesto
obsceno.
No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salo que se conservava
fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um canto,
com a cabea numa almofada. E Niniche assustada ladrou.
- Quer tomar alguma coisa, minha senhora ?
- No, obrigada...
Ficaram calados, emquanto Ega com o p no estribo tirava lentamente a
charuteira. Na estao mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados em
mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a mquina
resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salo, com
olhares curiosos e j languidos para aquela magnifica mulher, to grave e
sombria, envolta na sua pelia negra.
- Vai para o Porto? murmurou ela.
- Para Santa Olavia...
- Ah!
Ento Ega balbuciou com os beios a tremer:
- Adeus!
Ela apertou-lhe a mo com muita fora, em silncio, sufocada.
Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a tiracolo que
corriam a beber  cantina.  porta do bufete voltou-se ainda, ergueu o
chapu. Ela, de p, moveu de leve o brao num lento adeus. E foi assim que
ele pela derradeira vez na vida viu Maria Eduarda, grande, muda, toda negra
na claridade,  portinhola daquele wagon que para sempre a levava.
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VIII
Semanas depois, nos primeiros dias d'ano novo, a Gazeta Ilustrada trazia na
sua coluna do High-life esta noticia: O distincto e brilhante sportman, o
senhorCarlos da Maia, e o nosso amigo e colaborador Joo da Ega, partiram
ontem para Londres, donde seguiro em breve para a Amrica do Norte,
devendo da prolongar a sua interessante viagem at ao Japo. Numerosos
amigos foram a bordo do Tamar despedir-se dos simpaticos touristes. Vimos
entre outros os snrs. ministro da Filndia e seu secretario, o marqus de
Souzela, conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Teles da
Gama, Cruges, Taveira, Vilaa, general Sequeira, o glorioso poeta Thomaz
d'Alencar,etc. etc. O nosso amigo e colaborador Joo da Ega fez-nos, no
ltimos hake-hands, a promessa de nos mandar algumas cartas com as suas
impresses do Japo, esse delicioso pas donde nos vem o sol e a moda! 
uma boa nova para todos os que prezam a observao e o espirito. Au revoir!
Depois destas linhas afectuosas (em que o Alencar colaborra) as primeiras
noticias dos viajantes vieram, numa carta do Ega para o Vilaa, de New-
York. Era curta, toda de negocios. Mas ele ajuntava um post-scriptum com o
titulo de Informaes gerais para os amigos. Contava a a medonha travessia
desde Liverpool, a persistente tristeza de Carlos, e New-York coberta de neve
sob um sol rutilante. E acrescentava ainda: Est-se apossando de ns a
embriaguez das viagens, decididos a trilhar este estreito Universo at que
cansem as nossas tristezas. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha,
atravessar a Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; da,
pela Armenia e pela Siria, descer ao Egipto a retemperar-nos no sagrado Nilo;
subir depois a Atenas, lanar sobre a Acropole uma saudao a Minerva;
passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir enfim ao
comprido em Santa Olavia l para os meados de 79 a descanar os membros
fatigados. No escrevinho mais porque  tarde,e vamos  Opera vr a Pati no
Barbeiro. Larga distribuio d'abraos a todos os amigos queridos.
Vilaa copiou este paragrafo, e trazia-o na carteira para mostrar aos fieis
amigos do Ramalhete. Todos aprovaram, com admirao, to belas,
aventurosas jornadas. S Cruges, aterrado com aquela vastido do Universo,
murmurou tristemente: No voltam c!
Mas, passado ano e meio, num lindo dia de maro, Ega reapareceu no Chiado.
E foi uma sensao! Vinha esplendido, mais forte, mais trigueiro, soberbo de
verve, num alto apuro de toilete, cheio de historias e de aventuras do Oriente,
no tolerando nada em arte ou poesia que no fosse do Japo ou da China, e
anunciando um grande livro, o seu livro, sob este titulo grave de crnica
herica - Jornadas da sia.
- E Carlos?...
Magnifico! Instalado em Paris, num delicioso apartamento dos Campos-Eliseos,
fazendo a vida larga de um prncipe artista da Renascena...
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Ao Vilaa porm, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficara ainda
abalado. Vivia, ria, governava o seu faeton no Bois - mas l no fundo do seu
corao permanecia, pesada e negra, a memria da semana terrivel.
Todavia os anos vo passando, Vilaa, acrescentou ele. E com os anos, a no
ser a China, tudo na terra passa...
E esse ano passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram,
arvoredos murcharam. Outros anos passaram.
Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa de um
amigo seu de Paris, o marqus de Vila-Medina. E dessa propriedade dos Vila-
Medina, chamada La Soledad, escreveu para Lisboa ao Ega anunciando que -
depois de um exilio de quase dez anos, resolvera vir ao velho Portugal vr as
arvores de Santa Olavia e as maravilhas da Avenida. De resto tinha uma
formidavel nova, que assombraria o bom Ega: e se ele j ardia em
curiosidade, que viesse ao seu encontro com o Vilaa, comer o porco a Santa
Olavia.
- Vai casar! pensou Ega.
Havia trs anos (desde a sua ltima estada em Paris) que ele no via Carlos.
Infelizmente no pde correr a Santa Olavia, retido num quarto do Braganza
com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida com que
celebrra no Silva a noite de Reis. Vilaa, porm, levou a Carlos para Santa
Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina, lhe suplicava que se
no retardasse com o porco nesses penhascos do Douro, e que voasse 
grande Capital a trazer a grande nova.
Com efeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E numa luminosa e macia
manh de janeiro de 1887, os dois amigos enfim juntos almoavam num salo
do Hotel Braganza, com as duas janelas abertas para o rio.
Ega, j curado, radiante, numa excitao que no se calmava, alagando-se de
caf, entalava a cada instante o monculo para admirar Carlos e a sua
imutabilidade.
- Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso 
Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!
Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na face
chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que comera
havia dois anos, alastrra, j reluzia no alto.
- Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
calva! Transformam-se as civilisaes, a calva fica!... J tem tons de bola de
bilhar, no  verdade?... De que ser?
-  a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
- A ociosidade... E tu, ento?
De resto, que podia ele fazer neste pas?... Quando voltra de Frana,
ltimamente, pensra em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
blague: e agora que a mam, coitada, l estava no seu grande jazigo em
Celorico, tinha a massa. Mas depois reflectira. Por fim, em que consistia a
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diplomacia portugueza? Numa outra frma da ociosidade, passada no
estrangeiro, com o sentimento constante da prpria insignificancia. Antes o
Chiado!
E como Carlos lembrava a Poltica, ocupao dos inuteis, Ega trovejou. A
poltica! Isso tornra-se moralmente e fisicamente nojento, desde que o
negocio atacra o constitucionalismo como uma filoxera! Os politicos hoje
eram bonecos de engonos,que faziam gestos e tomavam atitudes porque dois
ou trs financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis... Ainda assim podiam
ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas qual! Ali  que estava o
horror. No tinham feitio, no tinham maneiras, no se lavavam, no
limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em pas algum sucedia, nem
na Romelia, nem na Bulgaria! Os trs ou quatro sales que em Lisboa recebem
todo o mundo, seja quem fr, largamente, excluem a maioria dos politicos. E
porque? Porque as senhoras tm njo!
- Olha o Gouvarinho! V l se ele recebe s teras-feiras os seus
correligionarios...
Carlos que sorria, encantado com aquela veia acerba do Ega, saltou na
cadeira:
-  verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa herdra
uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa Isabel, tinha
agora melhores carruagens, recebia sempre s teras-feiras. Mas sofria uma
doena qualquer, grave, no figado ou no pulmo. Ainda elegante todavia,
muito sria, uma terrvel flr de pruderie... Ele, o Gouvarinho, a continuava,
palrador, escrevinhador, politicote, impertigadote, j grisalho, duas vezes
ministro, e coberto de gran-cruzes...
- Tu no os viste em Paris, ltimamente?
- No. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na vespera
para Vichi...
A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
- At que emfim, meu rapaz!
- Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
E foi um infinito abrao, com palmadas arrebatadas pelos ombros, e um beijo
ruidoso - o beijo paternal do Alencar, que tremia, comovido. Ega arrastra
uma cadeira, berrava pelo escudeiro:
- Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Corao? Em todo o caso caf! Mais caf!
Muito forte, para o senhor Alencar!
O poeta, no entanto, abismado na contemplao de Carlos, agarrra-o pelas
mos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais estragados.
Achava-o magnifico, varo soberbo, honra da raa... Ah! Paris, com o seu
espirito, a sua vida ardente, conserva...
- E Lisboa arraza! acudiu Ega. J c tive essa frase. V, abanca, a tens o
cafsinho e a bebida!
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Mas Carlos agora tambm contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais bonito,
mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e aquelas rugas
fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela tumultuosa
passagem das emoes...
- Ests tipico, Alencar! Ests a preceito para a gravura e para a estatua!...
O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarelra. Que diabo,
algumas compensaes havia de ter a velhice!... Em todo o caso o estomago
no era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de corao.
- O que no impede, meu Carlos, que isto por c esteja cada vez peor! Mas
acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu pas,  habito humano. J
Horacio se queixava. E vocs, inteligencias superiores, sabeis bem, filhos, que
no tempo de Augusto... Sem falar,  claro, na quda da republica, naquele
desabamento das velhas instituies... Enfim deixemos l os Romanos! Que
est ali naquela garrafa? Chablis... No desgosto, no outono, com as ostras.
Pois v l o Chablis. E  tua chegada, meu Carlos! e  tua, meu Joo, e que
Deus vos d as glorias que mereceis, meus rapazes!...
Bebeu. Rosnou: bom Chablis, bouquet fino. E acabou por abancar,
ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
- Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mo no hombro com carinho.
No ha outro,  nico! O bom Deus fe-lo num dia de grande verve, e depois
quebrou a frma.
Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os to bons como ele. A
humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Bblia - ou do
mesmo macaco como afirmava o Darwin...
- Que, l essas coisas d'evoluo, origem das especies, desenvolvimento da
celula, c para mim... Est claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o Claudio
Bernard, o Litr, tudo isso,  gente de primeira ordem. Mas acabou-se, irra!
Ha uns poucos de mil anos que o homem prova sublimemente que tem alma!
- Toma o cafsinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chvena.
Toma o cafsinho!
- Obrigado!... E  verdade, Joo, l dei a tua boneca  pequena. Comeou logo
a beijal-a, a embalal-a, com aquele profundo instincto de me, aquele quid
divino...  uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem me, coitadinha, l a
tenho, l vou tratando de fazer dela uma mulher... Has de vl-a. Quero que
vocs l vo jantar um dia, para vos dar umas perdizes  espanhola... Tu
demoras-te, Carlos?
- Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
- Tens razo, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do conhaque.
Isto ainda no  to mau como se diz... Olha tu para isso, para esse co, para
esse rio, homem!
- Com efeito  encantador!
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Todos trs, durante um momento, pasmaram para a incomparavel beleza do
rio, vasto, lustroso, sereno, to azul como o co, esplendidamente coberto de
sol.
- E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
Abandonaste a lngua divina?
Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia j a lngua divina? O novo
Portugal s compreendia a lngua da libra, da massa. Agora, filho, tudo
eram sindicatos!
- Mas ainda s vezes me passa uma coisa c por dentro, o velho homem
estremece... Tu no viste nos jornais?... Est claro, no ls c esses trapos
que por a chamam gazetas... Pois veio a uma coisita, dedicada aqui ao Joo.
Ora eu t'a digo se me lembrar...
Correu a mo aberta pela face escaveirada, lanou  estrofe num tom de
lamento:
Luz d'esperana, luz d'amor,
Que vento vos desfolhou?
Que a alma que vos seguia
Nunca mais vos encontrou!
Carlos murmurou: Lindo! Ega murmurou: Muito fino! E o poeta,
aquecendo, j comovido, esboou um movimento d'aza que foge:
Minh'alma em tempos d'outr'ora,
Quando nascia o luar,
Como um rouxinol que acorda
Punha-se logo a cantar.
Pensamentos era flores,
Que a aragem lenta de Maio...
- O senhor Cruges! anunciou o criado, entreabrindo a porta.
Carlos ergueu os braos. E o maestro, todo abotoado num palet claro,
abandonou-se  efuso de Carlos, balbuciando:
- Eu s ontem  que soube. Queria-te ir esperar, mas no me acordaram...
- Ento contina o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca te
acordam?
Cruges encolhia os ombros, muito vermelho, acanhado, depois daquela longa
separao. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, enternecido com o
seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais agudo, a grenha caindo
mais crespa sobre a gola do palet.
- E deixa-me dar-te os parabens! L soube pelos jornais, o triunfo, a linda
opera-comica, a Flr de Sevilha...
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- De Granada! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para a, no desgostaram. -
Uma beleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de conhaque. Uma musica
toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas j lhe tenho dito:
Deixa l a opereta, rapaz, va mais alto, faze uma grande simfonia
historica! Ainda ha dias lhe dei uma idia. A partida de D. Sebastio para a
frica. Cantos de marinheiros, atabales, o chro do povo, as ondas batendo...
Sublime! Qual, pe-se-me l com castanholas... Enfim, acabou-se, tem muito
talento, e  como se fosse meu filho porque me sujou muita cala!...
Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou a
Carlos que no se podia demorar, tinha um rendez-vous...
- D'amor?
- No...  o Barradas que me anda atirar o retrato a oleo.
- Com a lira na mo?
- No, respondeu o maestro, muito srio. Com a batuta... E estou de casaca.
E desabotoou o palet, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois corais
no peitilho da camisa, e a batuta de marfim metida na abertura do colete.
- Ests magnifico! afirmou Carlos. Ento outra coisa, vem c jantar logo.
Alencar, tu tambm, hein? Quero ouvir esses belos versos com sossego... s
seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho  portugueza que
encomendei de manh com cozido, arroz de forno, gro de bico, etc., para
matar saudades...
Alencar lanou um gesto imenso de desdem. Nunca o cozinheiro do Braganza,
francelhote miseravel, estaria  altura desses nobres petiscos do velho
Portugal. Enfim acabou-se. Seria pontual s seis para uma grande sade ao
seu Carlos!
- Vocs vo sair, rapazes?
Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casaro.
O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Ento ele partia com o
maestro. O seu caminho ficava tambm para o lado do Barradas... Moo de
talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de cr, tudo por acabar,
esborratado, mas uma bela ponta de faisca.
- E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E no era s
o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... J no ha disso, j l vai tudo.
Enfim, acabou-se, s seis!
- s seis, em ponto, sem falhar!
Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E da a
pouco Carlos e Ega seguiam tambm pela rua do Thesouro Velho, de brao
dado, muito lentamente.
Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecra,
havia quatro anos, quando l passra um to alegre inverno nos apartamentos
de Carlos. E a surpresa do Ega, a cada nome evocado, era o curto brilho, o fim
brusco de toda essa mocidade estouvada. A Luci Grai, morta. A Conrad,
morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada com um fabricante de
velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido, desaparecido. Mr. de Menant,
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esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento do Doubs. E o rapaz que morava
ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E outros ainda, mortos, sumidos,
afundados no lodo de Paris!
Pois tudo somado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa,
simples, pacata, corredia,  infinitamente preferivel.
Estavam no Loreto; e Carlos parra, olhando, reentrando na intimidade
daquele velho corao da capital. Nada mudra. A mesma sentinela sonolenta
rondava em torno  estatua triste de Cames. Os mesmos reposteiros
vermelhos, com brazes eclesiasticos, pendiam nas portas das duas igrejas. O
Hotel Aliance conservava o mesmo ar mudo e deserto. Um lindo sol dourava o
lagedo; batedores de chapu faia fustigavam as pilecas; trs varinas, de
canastra  cabea, meneavam os quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma
esquina, vadios em farrapos fumavam; e na esquina defronte, na Havaneza,
fumavam tambm outros vadios, de sobrecasaca, politicando.
- Isto  horrvel quando se vem de fora! exclamou Carlos. No  a cidade,  a
gente. Uma gente feiissima, encardida, molenga, reles, amarelada,
acabrunhada!...
- Todavia Lisboa faz diferena, afirmou Ega, muito srio. Oh, faz muita
diferena! Has de vr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar uma volta 
Avenida.
Foram descendo o Chiado. Do outro tado os toldos das lojas estendiam no
cho uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados s
mesmas portas, sujeitos que l deixra havia dez anos, j assim encostados,
j assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas l estacionavam
ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com colarinhos 
moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo, tocou no brao de
Carlos:
- Olha quem ali est,  porta do Baltresqui!
Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flr ao peito,
mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente
embrutecido de um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambm os seus dois
velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, refugiar-se
na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, achou-se em frente de
Carlos, com a mo aberta e um sorriso na bochecha, que se lhe esbrazera.
- Ol, por c!... Que grande surpresa!
Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambm,
indiferente e esquecido.
-  verdade, Damaso... Como vai isso?
- Por aqui, nesta semsaboria... E ento com demora?
- Umas semanas.
- Ests no Ramalhete?
- No Braganza. Mas no te incomodes, eu ando sempre por fora.
- Pois sim senhor!... Eu tambm estive em Paris, ha trs meses, no
Continental...
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- Ah!... Bem, estimei vr-te, at sempre! Adeus, rapazes. Tu ests bom,
Carlos, ests com boa cara!
-  dos teus olhos, Damaso.
E nos olhos do Damaso, com efeito, parecia reviver a antiga admirao,
arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, o
chapu, o andar, como no tempo em que o Maia era para ele o tipo supremo
do seu querido chic uma dessas coisas que s se vem l fora...
- Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando
outra vez do brao de Carlos.
E foi um espanto para Carlos. O qu! O nosso Damaso! Casado!?... Sim,
casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um
rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo Damaso,
verdadeira sorte grande para aquela distincta famlia, pagava agora os
vestidos das mais velhas.
-  bonita?
- Sim, bonitinha... Faz a a felicidade de um rapazote simpatico, chamado
Barroso.
- O qu, o Damaso, coitado...
- Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vs, imensamente ditoso,
at tem engordado com a perfidia!
Carlos parra. Olhava, pasmado para as varandas extraordinrias de um
primeiro andar, recobertas como em dia de procisso, de sanefas de pano
vermelho onde se entrelaavam monogramas. E ia indagar - quando, d'entre
um grupo que estacionava ao portal desse predio festivo, um rapaz d'ar
estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnais, atravessou
rapidamente a rua para gritar ao Ega, sufocado de riso:
- Se voc fr depressa ainda a encontra a abaixo! Corra!
- Quem?
- A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapu... V
depressa... O Joo Eliseu meteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a fazendo
estatelar no cho, foi uma scena... V depressa, homem!
Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho - onde todos, j
calados, com uma curiosidade de provncia, examinavam aquele homem de
to alta elegncia que acompanhava o Ega e que nenhum conhecia. E Ega, no
entanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:
- So rapazes do Turf.  um club novo, antigo Jockei da travessa da Palha.
Faz-se l uma batotinha barata, tudo gente muito simpatica... E como vs
esto sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se acaso passar por
a o senhor dos Passos.
Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda.
Fra no Silva, havia duas semanas, estando ele a cear com rapazes depois de
S. Carlos, que lhes aparecera essa mulher inverosimil, vestida de vermelho,
carregando sensatamente nos rr, metendo rr em todas as palavras, e
perguntando pelo senhor virrsconde... Qual virrsconde? Ela no sabia bem.
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Erra um virrsconde que encontrrrra no Crroliseu. Senta-se, oferecem-lhe
champagne, e D. Adosinda comea a revelar-se um ser prodigioso. Falavam de
poltica, do ministrio e do deficit. D. Adosinda declara logo que conhece muito
bem o deficit, e que  um belo rapaz... O deficit belo rapaz - imensa
gargalhada! D. Adosinda zanga-se, exclama que j fora com ele a Cintra, que
 um perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O deficit empregado
no Banco Inglez - gritos, uivos, urros! E no cessou esta gargalhada continua,
estrondosa, frenetica, at s cinco da manh em que D. Adosinda fora rifada e
saira ao Teles!... Noite soberba!
- Com efeito, disse Carlos rindo,  uma orgia grandiosa, lembra Heliogabalo e
o Conde d'Orsai...
Ento Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na
Europa, em qualquer civilizao? Sempre queria vr que se passasse uma
noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do Grand-Treize, ou em
Londres, naquela correcta e massuda semsaboria do Bristol! O que ainda
tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. Ora na Europa
o homem requintado j no ri, - sorri regeladamente, lividamente. S ns
aqui, neste canto do mundo barbaro, conservamos ainda esse dom supremo,
essa coisa bemdita e consoladora - a barrigada de riso!
- Que diabo ests tu a olhar?
Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos - onde agora, pela taboleta,
parecia existir um pequeno atelier de modista. Ento bruscamente os dois
amigos recahiram nas recordaes do passado. Que estpidas horas Carlos ali
arrastra, com a Revista dos Dois Mundos, na espera v dos doentes, cheio
ainda de f nas alegrias do trabalho!... E a manh em que o Ega l aparecera
com a sua esplendida pelia, preparando-se para transformar, num s inverno,
todo o velho e rotineiro Portugal!
- Em que tudo ficou!
- Em que tudo ficou! Mas rimos bastante!
Lembras-te daquela noite em que o pobre marqus queria levar ao consultorio
a Paca, para utilizar enfim o div, movel de serralho?...
Carlos teve uma exclamao de saudade. Pobre marqus! Fra uma das suas
fortes impresses, nesses ltimos anos - aquela morte do marqus, sabida de
repente ao almoo, numa banal noticia de jornal!... E atravs do Rocio,
andando mais devagar, recordavam outros desaparecimentos: a D. Maria da
Cunha, coitada, que acabra hidropica; o D. Diogo, casado por fim com a
cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite numa tipia ao sair dos
cavalinhos...
- E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres ?
- Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao p de Richmond...
Mas est muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, desgraadamente,
carrega de mais nos alcools.  uma pena!
Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moo, contou o Ega, tinha agora por
cima mais dez anos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre apurado, j um
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bocado grisalho, metido continuamente com alguma hespanhola, dando
bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as tardes na Havaneza, com
um ar doce e contente - isto  um pas perdido! Enfim um bom tiposinho de
lisboeta fino.
- E a besta do Steinbroken?
- Ministro em Atenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!
E esta idia do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. Ega
imaginava j o bom Steinbroken, tso nos seus altos colarinhos, afirmando a
respeito de Socrates, com prudencia: Oh,il est trs fort, il est excessivement
fort! Ou ainda, a proposito da batalha das Thermopilas, rosnando, com medo
de se comprometer: C'est trs grave, c'est excessivement grave! Valia a
pena ir  Grecia para vr!
Subitamente Ega parou:
- Ora a tens tu essa Avenida! Hein?... J no  mau!
Num claro espao rasgado, onde Carlos deixra o Passeio Publico pacato e
frondoso - um obelisco, com borres de bronze no pedestal, erguia um trao
cor d'assucar na vibrao fina da luz de inverno: e os largos globos dos
candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, transparentes e
rutilantes, como grandes bolas de sabo suspensas no ar. Dos dois lados
seguiam, em alturas desiguaes, os pesados prdios, lisos e aprumados,
repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde negrejavam piteiras de
zinco, e ptios de pedra, quadrilhados a branco e preto, onde guarda-portes
chupavam o cigarro: e aqueles dois hirtos renques de casas ajanotadas
lembravam a Carlos as familias que outr'ora se imobilisavam em filas, dos dois
lados do Passeio, depois da missa da uma, ouvindo a Banda, com casimiras
e sdas, no catitismo domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui
e alm um arbusto encolhia na aragem a sua folhagem plida e rara. E ao
fundo a colina verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Vale de Pereiro,
punham um brusco remate campestre quele curto rompante de luxo barato -
que partira para transformar a velha cidade, e estacra logo, com o flego
curto, entre montes de cascalho.
Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a calia; a divina serenidade
do azul sem igual tudo cobria e adoava. E os dois amigos sentaram-se num
banco, junto de uma verdura que orlava a gua de um tanque esverdinhada e
mole.
Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flores na lapela, a
cala apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. Era toda uma
gerao nova e miuda que Carlos no conhecia. Por vezes Ega murmurava um
l!, acenava com a bengala. E eles iam, repassavam, com um arzinho tmido
e contrafeito, como mal acostumados quele vasto espao, a tanta luz, ao seu
prprio chic. Carlos pasmava. Que faziam ,ali, s horas de trabalho, aqueles
moos tristes, de cala esguia? No havia mulheres. Apenas num banco
adiante uma criatura adoentada, de leno e chale, tomava o sol; e duas
matronas, com vidrilhos no mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam
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um cosinho felpudo. O que atrahia pois ali aquela mocidade plida? E o que
sobretudo o espantava eram as botas desses cavalheiros, botas
despropositadamente compridas, rompendo para fora da cala colante com
pontas aguadas e reviradas como pras de barcos varinos...
- Isto  fantastico, Ega!
Ega esfregava as mos. Sim, mas precioso! Porque essa simples frma de
botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por ali como a coisa
era. Tendo abandonado o seu feitio antigo,  D. Joo VI, que to bem lhe
ficava, este desgraado Portugal decidira arranjar-se  moderna: mas sem
originalidade, sem fora, sem caracter para criar um feitio seu, um feitio
prprio, manda vir modelos do estrangeiro - modelos d'idias, de calas, de
costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Smente, como lhe falta o sentimento
da proporo, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia de parecer muito
moderno e muito civilisado - exagera o modelo, deforma-o, estraga-o at 
caricatura. O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na
ponta; - imediatamente o janota estica-o e agua-o at ao bico d'alfinete. Por
seu lado o escriptor l uma pagina de Goncourt ou de Verlaine em estilo
precioso e cinzelado; - imediatamente retorce, emaranha, desengona a sua
pobre frase at descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador
ouve dizer que l fora se levanta o nivel da instruco; - imediatamente pe
no programa dos exames de primeiras letras a metafisica, a astronomia, a
filologia, a egiptologia, a chresmatica, a critica das religies comparadas, e
outros infinitos terrores. E tudo por a adiante assim, em todas as classes e
profisses, desde o orador at ao fotografo, desde o jurisconsulto at ao
sportman...  o que sucede com os pretos j corrompidos de S. Thom, que
vem os europeus de lunetas - e imaginam que nisso consiste ser civilisado e
ser branco. Que fazem ento? Na sua sofreguido de progresso e de brancura
acavalam no nariz trs ou quatro lunetas, claras, defumadas, at de cr. E
assim andam pela cidade, de tanga, de nariz no ar, aos tropees, no
desesperado e angustioso esforo de equilibrarem todos estes vidros - para
serem imensamente civilizados e imensamente brancos...
Carlos ria:
- De modo que isto est cada vez peor...
- Medonho!  de um reles, de um postio! Sobretudo postio! J no ha nada
genuino neste miseravel pas, nem mesmo o po que comemos!
Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, num gesto lento:
- Resta aquilo, que  genuino...
E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graa e da Penha, com o
seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do sol. No cimo
assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as atarracadas vivendas
eclesiasticas, lembrando o frade pingue e pachorrento, beatas de mantilha,
tardes de procisso, irmandades d'opa atulhando os adros, erva doce juncando
as ruas, tremoo e fava-rica apregoada s esquinas, e foguetes no ar em
louvor de Jesus. Mais alto ainda, recortando no radiante azul a misria da sua
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muralha, era o castelo, sordido e tarimbeiro, donde outrora, ao som do hino
tocado em fagotes, descia a tropa de cala branca a fazer a bernarda! E
abrigados por ele, no escuro bairro de S. Vicente e da S, os palacetes
decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazes nas paredes
rachadas, onde entre a maledicencia, a devoo e a bisca, arrasta os seus
derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa fidalga!
Ega olhou um momento, pensativo:
- Sim, com efeito,  talvez mais genuino. Mas to estpido, to sebento! No
sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos para ns mesmos,
ainda pior!
E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face:
- Espera... Olha quem a vem!
Era uma vitoria, bem posta e correcta, avanando com lentido e estilo, ao
trote estepado de duas guas inglsas. Mas foi um desapontamento. Vinha l
smente um rapaz muito louro, de uma brancura de camelia, com uma
penugem no beio, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com um
lindo sorriso de virgem. A vitoria passou.
- No conheces?
Carlos procurava, com uma recordao.
- O teu antigo doente! O Charlie!
O outro bateu as mos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquilo o fazia velho!...
E era bonitinho!
- Sim, muito bonitinho. Tem a uma amizade com um velho, anda sempre com
um velho... Mas ele vinha decerto com a me, estou convencido que ela ficou
por a a passear a p. Vamos ns vr?
Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o
Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o brao a uma senhora
muito forte, muito crada, que estalava num vestido de sda cor de pinho.
Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descadoe molengo,
seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da sua sombra.
- Aquela aventesma  a mulher, contou Ega. Depois de varias paixes em
lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da criatura, que  dono de
um prego, apanhou-o uma noite na escada com ela a surripiar-lhe uns
prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desapareceu, no o tornei a
vr... Diz que a mulher que o derreia  pancada.
- Deus a conserve!
- Amen!
E ento Carlos, que recordava a coa no Eusebio, o caso da Corneta, quissaber
do Palma Cavalo. Ainda deshonrava o Universo com a sua presena, esse
benemerito? Ainda o desonrava, disse o Ega. Smente deixra a literatura, e
tornra-se factotum do Carneiro, o que fora ministro; levava-lhe a hespanhola
ao teatro pelo brao; e era um bom empenho em poltica.
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- Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega! E, da frma que as coisas vo,
ainda ha de ser ministro... E isto est-se fazendo tarde, Carlinhos. Vamos ns
tomar esta tipia e abalar para o Ramalhete?
Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha j um tom plido.
Tomaram a tipia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu - parou, sacudiu
ardentemente a mo no ar. E ento Carlos exclamou, com uma surpresa que
j o assaltara essa manh no Braganza:
- Ouve c, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformao foi
essa?
Ega confessou que realmente agora apreciava imensamente o Alencar. Em
primeiro lugar no meio desta Lisboa toda postia, Alencar permanecia o nico
portugus genuino. Depois, atravs da contagiosa intrujice, conservava uma
honestidade resistente. Alm disso havia nele lealdade, bondade,
generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita era tocante. Tinha mais
cortezia, melhores maneiras que os novos. Um bocado de piteirice no lhe ia
mal ao seu feitio lirico. E por fim, no estado a que descambra a literatura, a
versalhada do Alencar tomara relevo pela correco, pela simplicidade, por um
resto de sincera emoo. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel.
- E aqui tens tu, Carlinhos, a que ns chegamos! No ha nada com efeito que
caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ltimos trinta anos,
do que este simples facto: to profundamente tem baixado o caracter e o
talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da Flr de Martirio, o
Alencar d'Alemquer, aparece com as propores de um Genio e de um Justo!
Ainda falavam de Portugal e dos seus males quando a tipia parou. Com que
comoo Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as janelinhas
abrigadas  beira do telhado, o grande ramo de girasoes fazendo painel no
lugar do estudo d'armas! Ao rudo da carruagem, Vilaa apareceu  porta,
calando luvas amarelas. Estava mais gordo o Vilaa - e tudo na sua pessoa,
desde o chapunovo at ao casto de prata da bengala, revelava a sua
importncia como administrador, quase directo senhor durante o longo
desterro de Carlos, daquela vasta casa dos Maias. Apresentou logo o
jardineiro, um velho, que ali vivia com a mulher e o filho, guardando o casaro
deserto. Depois felicitou-se de vr enfim os dois amigos juntos. E ajuntou,
batendo com carinho familiar no hombro de Carlos:
- Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um banho
ao Central e no me deitei. Olhe que  uma grande comodidade o tal sleepingcar!
Ah l isso, em progresso, o nosso Portugal j no est atraz de
ningum!... E v. exc. agora precisa de mim?
- No, obrigado, Vilaa. Vamos dar uma volta pelas salas... V jantar conosco.
s seis! Mas s seis em ponto, que ha petiscos especiais.
E os dois amigos atravessaram o peristilo. Ainda l se conservavam os bancos
feudais de carvalho lavrado, solenes como coros de catedral. Em cima porm a
ante-cmara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um estofo,
mostrando a cal lascada dos muros. Tapearias orientais que pendiam como
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numa tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a estatua da Friorenta
rindo e arrepiando-se, na sua nudez de mrmore, ao meter o psinho na gua
- tudo ornava agora os aposentos de Carlos em Paris: e outros caixes
apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar, levando as melhores faianas
da Toca. Depois no amplo corredor, sem tapete, os seus passos soaram como
num claustro abandonado. Nos quadros devotos, num tom mais negro,
destacava aqui e alm, sob a luz escassa, um ombro descarnado de eremita, a
mancha lvida de uma caveira. Uma friagem regelava. Ega levantra a gola do
palet.
No salo nobre os moveis de brocado cor de musgo estavam embrulhados em
lenis d'algodo, como amortalhados, exalando um cheiro de mumia a
terebintina e camfora. E no cho, na tela de Constable, encostada  parede, a
condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caadora inglesa,
parecia ir dar um passo, sair do caixilho dourado, para partir tambm,
consumar a disperso da sua raa...
- Vamos embora, exclamou Ega. Isto est lugubre...
Mas Carlos, plido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ali, que era a
maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente acumulados na confuso
das artes e dos sculos, como num armazm de bric--brac, todos os moveis
ricos da Toca. Ao fundo, tapando o fogo, dominando tudo na sua magestade
architectural, erguia-se o famoso armrio do tempo da Liga Hanseatica, com
os seus Martes armados, as portas lavradas, os quatro Evangelistas prgando
aos cantos, envoltos nessas roupagens violentas que um vento de profecia
parece agitar. E Carlos imediatamente descobriu um desastre na cornija, nos
dois faunos que entre trofos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu
p de cabra, outro perdera a sua frauta bucolica...
- Que brutos! exclamou ele furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte. Um
mvel destes!...
Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no entanto, errava
entre os outros moveis, cofres nupcias, contadores hespanhis, bufetes da
Renascena italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que tinham ornado,
as belas noites de cavaco, os jantares, os foguetes atirados em honra de
Leonidas... Como tudo passara! De repente deu com o p numa caixa de
chapu sem tampa, atulhada de coisas velhas - um vu, luvas desirmanadas,
uma meia de sda, fitas, flores artificiais. Eram objectos de Maria, achados
nalgum canto da Toca, para ali atirados, no momento de se esvaziar a casa! E,
coisa lamentavel, entre estes restos dela, misturados como na promiscuidade
de um lixo, aparecia uma chinela de veludo bordada a matiz, uma velha
chinela de Afonso da Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo de um
pedao solto de tapearia. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo
as mos, ainda indignado, Ega apressou aquela peregrinao, que lhe
estragava a alegria do dia.
- Vamos ao terrao! D-se um olhar ao jardim, e abalamos!
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Mas deviam atravessar ainda a memria mais triste, o escritrio de Afonso da
Maia. A fechadura estava prra. No esforo de abrir a mo de Carlos tremia. E
Ega, comovido tambm, revia toda a sala tal como outrora, com os seus
candieiros Carcel dando um tom cor de rosa, o lume crepitando, o reverendo
Bonifcio sobre a pele d'urso, e Afonso na sua velha poltrona, de casaco de
veludo, sacudindo a cinza do cachimbo contra a palma da mo. A porta cedeu:
e toda a emoo de repente findou, na grutesca, absurda surpresa de
romperem ambos a espirrar, desesperadamente, sufocados pelo cheiro acre de
um p vago que lhes picava os olhos, os estonteava. Fra o Vilaa, que,
seguindo uma receita d'almanach, fizera espalhar s mos cheias, sobre os
moveis, sobre os lenis que os resguardavam, camadas espessas de pimenta
branca! E estrangulados, sem vr, sob uma nevoa de lgrimas, os dois
continuavam, um defronte do outro, em espirros aflictivos que os
desengonavam.
Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas de uma janela. No
terrao morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar puro, ali ficaram
de p, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda por um ou outro espirro
retardado.
- Que infernal inveno! exclamou Carlos, indignado.
Ega, ao fugir com o leno na face, tropeara, batera contra um sof, coava a
canela:
- Estpida coisa! E que bordoada que eu dei!... Voltou a olhar para a sala,
onde todos os moveis desapareciam sob os largos sudrios brancos. E
reconheceu que tropeara na antiga almofada de veludo do velho Bonifcio.
Pobre Bonifcio! Que fora feito dele ?
Carlos, que se sentara no parapeito baixo do terrao, entre os vasos sem flr,
contou o fim do reverendo Bonifcio. Morrera em Santa Olavia, resignado, e
to obeso que se no movia. E o Vilaa, com uma idia potica, a nica da sua
vida de procurador, mandra-lhe fazer um mausolu, uma simples pedra de
mrmore branco, sob uma roseira, debaixo das janelas do quarto do av.
Ega sentara-se tambm no parapeito, ambos se esqueceram num silncio. Em
baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno, tinha a
melancolia de um retiro esquecido que j ningum ama: uma ferrugem verde
de humidade cobria os grossos membros da Venus Citerea; o cipreste e o
cedro envelheciam juntos como dois amigos num ermo; e mais lento corria o
prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gota a gota na bacia de
mrmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela marinha nas cantarias
dos dois altos prdios, a curta paisagem do Ramalhete, um pedao de Tejo e
monte, tomava naquele fim de tarde um tom mais pensativo e triste: na tira
de rio um paquete fechado, preparado para a vaga, ia descendo,
desaparecendo logo, como j devorado pelo mar incerto; no alto da colina o
moinho parra, transido na larga friagem do ar; e nas janelas das casas 
beira d'gua um raio de sol morria, lentamente sumido, esvado na primeira
cinza do crepsculo, como um resto d'esperana numa face que se anuvia.
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Ento, naquela mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para o
longe, murmurou devagar:
- Mas tu desse casamento no tinhas a menor indicao, a menor suspeita?
- Nenhuma... Soube-o de repente pela carta dela em Sevilha.
E era esta a formidvel nova anunciada por Carlos, a nova que ele logo
contara de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraos, em Santa
Apolonia. Maria Eduarda ia casar.
Assim o anunciara ela a Carlos numa carta muito simples, que ele recebera na
quinta dos Vila-Medina. Ia casar. E no parecia ser uma resoluo tomada
arrebatadamente sob um impulso do corao; mas antes um proposito lento,
longamente amadurecido. Ela aludia nessa carta a ter pensado muito,
reflectido muito... De resto o noivo devia ir perto dos cincoenta anos. E
Carlos portanto via ali a unio de dois sres desiludidos da vida, maltratados
por ela, cansados ou assustados do seu isolamento, que, sentindo um no outro
qualidades srias de corao e de espirito, punham em comum o seu resto de
calor, d'alegria e de coragem para afrontar juntos a velhice...
- Que idade tem ela?
Carlos pensava que ela devia ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ela
dizia na carta sou apenas mais nova que o meu noivo seis anos e trs
meses. Ele chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente um homem
d'espirito largo, desembaraado de prejuzos, de uma benevolencia quase
misericordiosa, porque quisera Maria, conhecendo bem os seus erros.
- Sabe tudo? exclamou Ega, que saltara do parapeito.
- Tudo no. Ela diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado todos aqueles
erros em que ela cara inconscientemente. Isto d a entender que no sabe
tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vr os meus quartos.
Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam
outrora as roseiras de Afonso. Sob as duas olaias ainda existia o banco de
cortia; Maria sentara-se ali, na sua visita ao Ramalhete, a atar num ramo
flores que ia levar como relquia. Ao passar Ega cortou uma pequenina
margarida que ainda floria solitariamente.
- Ela continua a viver em Orlans, no  verdade?
Sim, disse Carlos, vivia ao p d'Orlans, numa quinta que l comprara,
chamada Les Rosires. O noivo devia habitar nos arredores algum pequeno
chteau. Ela chamava-lhe vizinho. E era naturalmente um gentilhome
campagnard, de famlia sria, com fortuna...
Ela s tem o que tu lhe ds, est claro.
- Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Enfim ela recusouse
a receber parte alguma da sua herana... E o Vilaa arranjou as coisas por
meio de uma doao que lhe fiz, correspondente a doze contos de reis de
renda...
-  bonito. Ela falava de Rosa na carta?
- Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.
- E bem linda!
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Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos quartos
de Carlos. Com a mo na porta da vidraa, Ega parou ainda, numa derradeira
curiosidade:
- E que efeito te fez isso?
Carlos acendia o charuto. Depois atirando o fsforo por cima da varandinha de
ferro onde uma trepadeira se enlaava:
- Um efeito de concluso, de absoluto remate.  como se ela morresse,
morrendo com ela todo o passado, e agora renascesse sob outra forma. J no
 Maria Eduarda.  Madame de Trelain, uma senhora francesa. Sob este nome,
tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braas, findo para sempre, sem
mesmo deixar memria... Foi o efeito que me fez.
- Tu nunca encontraste em Paris o senhor Guimares?
- Nunca. Naturalmente morreu.
Entraram no quarto. Vilaa, na suposio de Carlos vir para o Ramalhete,
mandara-o preparar; e todo ele regelava - com o mrmore das cmodas
espanejado e vazio, uma vela intacta num castial solitrio, a colcha de fusto
vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos pousou o chapu e a
bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho. Depois, como dando um
resumo:
- E aqui tens tu a vida, meu Ega! Neste quarto, durante noites, sofri a certeza
de que tudo no mundo acabara para mim... Pensei em me matar. Pensei em ir
para a Trapa. E tudo isto friamente, com uma concluso lgica. Por fim dez
anos passaram, e aqui estou outra vez...
Parou diante do alto espelho suspenso entre as colunas de carvalho lavrado,
deu um jeito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:
- E mais gordo!
Ega espalhava tambm pelo quarto um olhar pensativo:
- Lembras-te quando apareci aqui uma noite, numa agonia, vestido de
Mefistofeles?
Ento Carlos teve um grito. E a Rachel,  verdade! A Rachel? Que era feito da
Rachel, esse lrio d'Israel?
Ega encolheu os ombros:
- Para a anda, estuporada...
Carlos murmurou - coitada! E foi tudo o que disseram sobre a grande paixo
romntica do Ega.
Carlos no entanto fora examinar, junto da janela, um quadro que pousava no
cho, para ali esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do pai, de
Pedro da Maia, com as suas luvas de camura na mo, os grandes olhos
rabes na face triste e plida que o tempo amarelara mais. Colocou-o em cima
de uma cmoda. E atirando-lhe uma leve sacudidela com o leno:
- No ha nada que me faa mais pena do que no ter um retrato do av!... Em
todo o caso este sempre o vou levar para Paris.
Ento Ega perguntou, do fundo do sof onde se enterrara, se, nesses ltimos
anos, ele no tivera a idia, o vago desejo de voltar para Portugal...
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Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos tristes
desde o Grmio at  Casa Havaneza? No! Paris era o nico lugar da terra
congnere com o tipo definitivo em que ele se fixara: - o homem rico que
vive bem. Passeio a cavalo no Bois; almoo no Bignon; uma volta pelo
boulevard; uma hora no club com os jornais; um bocado de florete na sala
d'armas;  noite a Comdie Franaise ou uma soire; Trouvile no vero,
alguns tiros s lebres no inverno; e atravs do ano as mulheres, as corridas,
certo interesse pela cincia, o bric--brac, e uma pouca de blague. Nada mais
inofensivo, mais nulo, e mais agradvel.
- E aqui tens tu uma existncia d'homem! Em dez anos no me tem sucedido
nada, a no ser quando se me quebrou o faeton na estrada de Saint-Cloud..:
Vim no Figaro.
Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
- Falhamos a vida, menino!
- Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto  falha-se
sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginao. Diz-se:
vou ser assim, porque a beleza est em ser assim. E nunca se  assim, -se
invariavelmente assado, como dizia o pobre marqus. s vezes melhor, mas
sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, comeando a calar as luvas.
O quarto escurecia no crepsculo frio e melanclico d'inverno. Carlos ps
tambm o chapu: e desceram pelas escadas forradas de veludo cor de
cereja, onde ainda pendia, com um ar bao de ferrugem, a panoplia de velhas
armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio casaro,
que naquela primeira penumbra tomava um aspecto mais carregado de
residncia eclesistica, com as suas paredes severas, a sua fila de janelinhas
fechadas, as grades dos postigos trreos cheias de treva, mudo, para sempre
desabitado, cobrindo-se j de tons de runa.
Uma comoo passou-lhe nalma, murmurou, travando do brao do Ega:
-  curioso! S vivi dois anos nesta casa, e  nela que me parece estar metida
a minha vida inteira!
Ega no se admirava. S ali no Ramalhete ele vivera realmente daquilo que d
sabor e relevo  vida - a paixo.
- Muitas outras coisas do valor  vida... Isso  uma velha idia de romntico,
meu Ega!
- E que somos ns? exclamou Ega. Que temos ns sido desde o colgio, desde
o exame de latim? Romnticos: isto , indivduos inferiores que se governam
na vida pelo sentimento e no pela razo...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que
se dirigiam s pela razo, no se desviando nunca dela, torturando-se para se
manter na sua linha inflexvel, secos, hirtos, lgicos, sem emoo at ao fim...
- Creio que no, disse o Ega. Por fora,  vista, so desconsoladores. E por
dentro, para eles mesmos, so talvez desconsolados. O que prova que neste
lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor...
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- Resumo: no vale a pena viver...
- Depende inteiramente do estmago! atalhou Ega.
Riram ambos. Depois Carlos, outra vez srio, deu a sua teoria da vida, a teoria
definitiva que ele deduzira da experincia e que agora o governava. Era o
fatalismo muulmano. Nada desejar e nada recear... No se abandonar a uma
esperana - nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o que vem e o que
foge, com a tranqilidade com que se acolhem as naturais mudanas de dias
agrestes e de dias suaves. E, nesta placidez, deixar esse pedao de matria
organizada, que se chama o Eu, ir-se deteriorando e decompondo at reentrar
e se perder no infinito Universo... Sobretudo no ter apetites. E, mais que
tudo, no ter contrariedades.
Ega, em suma, concordava. Do que ele principalmente se convencera, nesses
estreitos anos de vida, era da inutilidade do todo o esforo. No valia a pena
dar um passo para alcanar coisa alguma na terra - porque tudo se resolve,
como j ensinara o sbio do Eclesiastes, em desiluso e poeira.
- Se me dissessem que ali em baixo estava uma fortuna como a dos Rotschilds
ou a coroa imperial de Carlos V,  minha espera, para serem minhas se eu
para l corresse, eu no apressava o passo... No! No saa deste passinho
lento, prudente, correto, seguro, que  o nico que se deve ter na vida.
- Nem eu! acudiu Carlos com uma convico decisiva.
E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se
aquele fosse em verdade o caminho da vida, onde eles, certos de s encontrar
ao fim desiluso e poeira, no devessem jamais avanar seno com lentido e
desdm. J avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes. De repente Carlos
teve um largo gesto de contrariedade:
- Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este apetite! Esqueci-me de
mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
E agora j era tarde, lembrou Ega. Ento Carlos, at a esquecido em
memorias do passado e snteses da existncia, pareceu ter inesperadamente
conscincia da noite que cara, dos candieiros acesos. A um bico de gs tirou o
relgio. Eram seis e um quarto!
- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaa e aos rapazes para estarem no
Braganza pontualmente s seis! No aparecer por a uma tipia!...
- Espera! exclamou Ega. L vem um americano, ainda o apanhamos.
- Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lanaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o
charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
- Que raiva ter esquecido o paiosinho! Enfim, acabou-se. Ao menos
assentamos a teoria definitiva da existncia. Com efeito, no vale a pena fazer
um esforo, correr com nsia para coisa alguma...
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
- Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o
poder...
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A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em
Carlos e em Joo da Ega uma esperana, outro esforo:
- Ainda o apanhamos!
- Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou, e fugiu. Ento, para apanhar o americano, os
dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e
pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
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SOBRE O AUTOR E SUA OBRA DE EA DE QUEIRS
Cronologia:
1845: Em 25 de Novembro, nasce na Pvoa do Varzim Jos Maria Ea de
Queirs.
1855: Entra como aluno interno no Colgio da Lapa, no Porto.
1861: Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. -
1864: Conhece Tefilo Braga.
1865: Representa no Teatro Acadmico e conhece Antero de Quental.
1866: Forma-se em Direito. Instala-se em Lisboa, em casa do pai. Parte para
vora, onde funda e dirige o jornal Distrito de vora.
1867: Sai o primeiro nmero do jornal. Estreia-se no foro. Regressa a Lisboa.
1869: Assiste  inaugurao do Canal de Suez.
1870:  nomeado Administrador do Distrito de Leiria. Com Ramalho Ortigo,
escreve O Mistrio da Estrada de Sintra. Presta provas para cnsul de 1
classe, ficando em primeiro lugar.
1871: Conferncias do Casino Lisbonense.
1872: Cnsul em Havana.
1873: Visita os Estados Unidos em misso do Ministrio dos Negcios
Estrangeiros.
1874:  transferido para Newcastle.
1876: O Crime do Padre Amaro.
1878: O Primo Baslio. Escreve A Capital.
1878: Ocupa o consulado de Bristol.
1879: Escreve, em Frana, O Conde de Abranhos.
1880: O Mandarim.
1883:  eleito scio correspondente da Academia Real das Cincias.
1885: Visita em Paris mile Zola.
1886: Casa com Emlia de Castro Pamplona.
1887: A Relquia.
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1888: Cnsul em Paris. Os Maias.
1889: Assiste ao primeiro jantar dos "Vencidos da Vida".
1900: A Correspondncia de Fradique Mendes. A Ilustre Casa de Ramires. Em
16 de Agosto morre em Paris.
SEU ESTILO:
Criador da tcnica realista do romance em Portugal, foi um divisor de guas
entre a tradio e a modernidade. Sua obra caracteriza-se pelo sentido crtico
das instituies burguesas e pelo retrato da sociedade portuguesa da poca, e
a tudo deu tom humorstico (de stira de ironia). Sabe captar criticamente
aquilo que  revelador e significativo do ponto de vista sociolgico; e sabe
refletir criticamente, em nvel ideolgico elevado, sobre o mundo observado.
Usou em todos os livros a ironia clara, direta, contundente: umas vezes
simples graas: outras, irreverente. Seu estilo sugere constantemente uma
viso potica das coisa. Sua frase no conhece inverses nem repeties
oratrias, nem raptos de eloqncia, nem acumulaes ou singularidades
vocabulares, nem nfase, mas nota-se esforo analtico no sentido de
preciso e clareza, sobriedade metafrica e imagstica, e adjetivao original.
Restaurou o valor do adjetivo, dando-lhe relevo na frase e usando-o como
forma de animizar e dar sentido humano aos dados objetivos. Sua linguagem
 clara e concisa, viva e moderna, com um ou outro galicismo vocabular ou de
sintaxe.
Foi o maior dos romancistas portugueses, cabendo-lhe a glria de Ter sido o
criador do realismo nacional. Suas obras foram traduzidas para quase todas
as lnguas. Logo aps a sua morte, Emile Zola proferia: um grande
romancista. Considero-o superior a Flaubert, que foi, no entanto, o meu
mestre.
OS MAIAS
Considerado o livro mais importante de Ea de Queirs , "Os Maias" conta a
histria do amor proibido entre Carlos da Maia e Maria Eduarda, que se
descobrem irmos; sendo ao mesmo tempo uma ampla crnica da alta vida
social lisboeta de 1880.
A tese da obra  dum desencantado pessimismo, que vai muito alm do
permetro social onde a ao se desenvolve. O panorama vital da obra exala a
melancolia cptica do super-civilizado, que dela escorre uma conscincia de
fracasso vital, da falncia de todo o esforo. Todas as personagens so
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derrotadas, duma maneira ou de outra. Segundo a personagem Joo da Ega:
Todo mundo mais ou menos falha. Isto : falha-se sempre na vida que se
planejou com a imaginao. Carlos da Mais conclui: No vale a pena viver.
Sem dvida, ao ler OS MAIAS, deparamos com um universo melanclico e com
certa dose de pessimismo, a mesma melancolia e pessimismo que moram
dentro da alma do homem do sculo XXI. O romance OS MAIAS  sem dvida
comparvel ao que de melhor se escreveu no gnero na Europa do sculo XIX.
AS OBRAS
1866/67 - Ea de Queirs estria como escritor na Gazeta de Portugal. De Janeiro a Outubro
de 1867, Ea esteve quase exclusivamente ocupado com o jornal Distrito de vora, onde
publicou algumas narrativas, tais como O Ru Tadeu e Farsas.
1869 - Publica na Revoluo de Setembro e em O Primeiro de Janeiro algumas poesias
atribudas a um poeta imaginrio - Carlos Fradique Mendes.
1869/70 - Vai em viagem ao Prximo Oriente para assistir  inaugurao do canal de Suez.
1870 - em colaborao com Ramalho Ortigo, publica em folhetins no Dirio de Notcias uma
imaginria reportagem jornalstica, O Mistrio da Estrada de Sintra.
1871 - Da produo deste ano destaca-se a sua conferncia no Casino Lisbonense sobre O
Realismo como Expresso de Arte. Tambm com Ramalho Ortigo, inicia a sua colaborao
em As Farpas. Pertence-lhe, alis, o texto inicial dessa srie de comentrios crticos e satricos
O Estado Social de Portugal. Sai a 1. edio em volume de O Mistrio da Estrada de Sintra.
1875 - O primeiro romance de Ea, O Crime do Padre Amaro, sai em folhetins na Revista
Ocidental.
1878 -  publicado o segundo romance, O Primo Baslio, primeiro grande xito literrio do
escritor.
1879 - Escreve O Conde de Abranhos, que s vir a ser publicado postumamente.
1880 - Publica O Mandarim.
1883 - Escreve a novela Alves & Ca. que s em 1925 ser publicada.
1884 -  publicada a 2. edio, refundida, de O Mistrio da Estrada de Sintra.
1887 - Publicao de A Relquia.
1888 - Publica Os Maias, magistral romance que constitui a conseqncia de textos que deixa
sem redao definitiva: A Capital e A Tragdia da Rua das Flores.
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1900 - Aps a morte do escritor, sai a pblico o primeiro volume de A Ilustre Casa de Ramires.
1901 -  publicado o romance A Cidade e as Serras, com texto revisto por Ramalho Ortigo e
Lus Magalhes.
1902 - Os Contos.
1903 - Prosas Brbaras.
1905 - Cartas de Inglaterra e Ecos de Paris.
1907 - Cartas Familiares e Bilhetes de Paris.
1909 - Notas Contemporneas.
1912 - ltimas Pginas.
1925 - A Capital, O Conde d'Abranhos, Correspondncia, Alves & Ca.
1926 - O Egipto.
1929 - Cartas Inditas de Fradique Mendes e mais Pginas Esquecidas.
1940 - Cartas de Londres.
1944 - Cartas de Lisboa e Crnicas de Londres.
1949 - Ea de Queirs entre os seus (Cartas ntimas).
1961 - Cartas de Ea de Queirs aos seus editores.
1980 - A Tragdia da Rua das Flores.
Obras de Ea de Queirs disponveis na Virtual Books:
A Relquia
O Mandarim
O Crime do Padre Amaro
Singularidades de uma Rapariga Loura
Traduo de
As Minas do Rei Salomo
Haggard, H. Rider
